Oficina de Letras

| | |


O compositor Márcio Borges idealizou e conduziu a primeira Oficina de Letras oferecida pelo Museu Clube da Esquina, realizada de 2 a 5 de outubro na sede do Museu da Pessoa, em São Paulo.

O objetivo da Oficina é, além de refletir sobre o “fazer” [a poiésis] da Letra de Música, divulgar a riqueza e a inventividade da palavra cantada no Brasil; mostrar o processo de composição de uma música popular; e despertar nas pessoas o interesse pela arte da composição e pela cultura.

Em aulas teóricas e práticas, com o luxuoso acompanhamento do músico Telo Borges, os 18 participantes tiveram uma verdadeira aula sobre o que é poesia; a poética através dos tempos; a poesia falada e a poesia cantada desde Homero; o universo da canção e da letra de música através dos vários momentos históricos; as várias técnicas para a composição de letras; as teorias e os pensadores que analisaram a questão; exemplos de estilos de composição; os gêneros da canção popular; a poética da música popular mineira; as letras e o processo de composição do Clube da Esquina; a importância da parceria na composição de uma canção; entre outros assuntos.

Para coroar a experiência, os participantes tiveram a oportunidade de compor uma letra para uma música inédita do compositor Telo Borges.

Confira o áudio_da_canção, trechos_em_vídeo da Oficina e as letras compostas por alguns dos participantes da Oficina de Letras.

(ministrada por Márcio e Telo Borges)

A discussão sobre poesia e música cantada é antiga. Desde Aristóteles, no século VII a.C., já se discutia o assunto. Uma coisa é certa: escrever letra de música, ou um poema, não se aprende na escola.

Aristóteles diz que a música nasce da própria condição humana, sendo a arte uma imitação da vida, mimetiza a realidade. Mímesis é a palavra-conceito que ele introduziu na análise da questão. Diz ele que a tendência para a imitação é instintiva no homem. Nesse ponto se distinguiria os humanos de todos os outros seres vivos, ou seja, por sua aptidão muito desenvolvida para a imitação.

Os homens mais dotados na capacidade de apreensão da harmonia e do ritmo, os que se sobressaíam, foram os que deram origem ao que hoje chamamos de poesia.

Na cultura ocidental, a música começa com os gregos para acompanhar os poemas, ou seja, já nasce cantada. A música não existia sem a poesia. A palavra deveria ser acompanhada de música até as últimas décadas do século V a.C.

Platão dizia que a melodia se subordinava à palavra. Para exercer a poesia a palavra precisava ser musicada. A palavra era hegemônica e não a música.

Posteriormente, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche [1844-1900] contesta a assertiva de Platão dizendo que era a palavra que se subordinava à música, e não o contrário, porque a música, metafisicamente, é anterior a palavra.

A palavra seria uma tentativa humana de emitir notas [sons com alturas definidas], esforço que originou os fonemas, os sintagmas etc.

Não é o assunto que define o poeta, mas sim o metro, o ritmo que se instaura na palavra, ou canto. Poderíamos, então, dizer que o que identificaria o poeta seria uma índole para se expressar metricamente. O assunto tratado num poema, ou numa tragédia, é o menos importante. O que importa é a maneira como você o trata. Se você o manipula de uma maneira poética, buscando o metro, a harmonia, ele vira poema.

A tarefa de fazer uma letra de música nunca é banal. A todo momento nos confrontamos com a necessidade de “encaixar” palavras em um metro que será, necessariamente, vocalizado e cantado. É um desafio encarado por muitos titãs, desde Homero.

Tudo que se exprime pela linguagem é domínio do pensamento. Ou seja, Aristóteles nos esclarece que não existe linguagem, qualquer que seja ela, sem um pensamento que a anteceda.

Para Aristóteles o que caracterizaria um poema seria um estilo tornado agradável. Mesmo que o poema suscite compaixão ou terror o efeito seria a purgação dessas emoções.

No que diz respeito a poesia, diz ele, deve-se preferir o impossível crível ao possível incrível. Não precisa ser verdade, mas sim soar como uma verdade. Similar a verdade. Crível.

Podemos dizer, então, que os parâmetros da música popular teriam sido definidos por Aristóteles, quando ele diz que o estilo tornado agradável (característica principal da poesia) é aquele que reúne ritmo, harmonia e canto. E o que seria o ritmo, a harmonia e o canto senão o fundamento máximo da música popular?

Bibliografia sugerida:

ARISTÓTELES. Poética. Trad. Eudoro de Souza. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1986.
AUERBACH, Erich. Mimesis: A representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva, 1971.
CORRÊA, Paula da Cunha. Harmonia: mito e música na Grécia antiga. São Paulo: Humanitas, USP, 2003.
HOMERO. Odisséia. Trad. Jaime Bruna. São Paulo, Cultrix, 1982.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O nascimento da tragédia, ou Helenismo e pessimismo. Trad. J. Guinsburg. São Paulo, Companhia das Letras, 1992
PLATÃO. Íon. Trad. Victor Jabouille. Lisboa, Inquérito, 1988.

Biografias:

Aristóteles era filho de Nicômano, médico do rei da Macedônia, Amintas. Nasceu em Estagira, colônia grega da Trácia, no mar Egeu, em 384 a.C. Aos dezoito anos foi para Atenas e ingressou na academia de Platão, onde ficou por vinte anos, até à morte de Platão, que foi seu mestre. Nesse período estudou também os filósofos pré-platônicos, que lhe foram úteis na construção de seu sistema de pensamento.
Em 343 a.C. se tornou o preceptor do Príncipe Alexandre, então jovem de treze anos. De volta a Atenas, em 335, treze anos depois da morte de Platão, Aristóteles fundou a sua escola perto do templo de Apolo Lício, daí o nome de Liceu dado à sua escola. Sua escola foi a grande rival e a verdadeira herdeira da velha e gloriosa academia platônica.
Aristóteles prestou contribuições essenciais em diversas áreas do conhecimento humano, destacando-se a ética, política, física, metafísica, lógica, psicologia, poesia, retórica, zoologia, biologia, história natural. É considerado por muitos o filósofo que mais influenciou o pensamento ocidental. Faleceu, após enfermidade, no verão de 322. Tinha pouco mais de 60 anos de idade.

Homero, a quem são atribuídas a escrita da Odisséia e da Ilíada, obras-primas da literatura mundial, tem sua origem e mesmo sua existência incertas. Com base em informações do historiador grego Heródoto, os estudiosos de Homero situam por volta do século IX a.C. a época de seu nascimento e consideram provável que sua cidade natal seja Esmirna ou a Ilha de Quio, na Grécia. Em 1795, o alemão Friedrich August Wolff afirma, baseado em estudos estilísticos, que a Ilíada e a Odisséia são de poetas diferentes. Outros historiadores acreditam que elas possam ser obras coletivas, ou ainda que Homero teria compilado poemas populares. As duas obras reconstituem a civilização grega antiga, com riqueza de detalhes. Na Ilíada, a narrativa da Guerra de Tróia é associada a reflexões sobre a vida do homem e sua relação com os deuses. A Odisséia conta as aventuras do herói Ulisses, em sua volta para a ilha de Ítaca.

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu na cidade de Röcken, perto de Leipzig, na Alemanha, em 15 de outubro de 1844. Seu pai foi um pastor luterano. Estudou letras clássicas na célebre Escola de Pforta e na Universidade de Leipzig. Com 24 anos foi convidado a lecionar filologia clássica na Universidade de Basiléia (Suíça). No período de Basiléia, foi amigo de Richard Wagner e escreveu O nascimento da tragédia (1872), Considerações extemporâneas (1873-6) e parte de Humano, demasiado humano. Em 1879 recebeu aposentadoria da universidade, devido a saúde frágil. De 1879 a 1888 levou uma vida errante, em pequenas localidades da Suíça, Itália e França. Dessa época são Aurora, A gaia ciência, Assim falou Zaratustra, Além do bem e do mal, Genealogia da moral, O caso Wagner, Crepúsculo dos ídolos, O Anti-Cristo e Ecce homo, sua autobiografia. Nietzsche perdeu a razão no início de 1889 e viveu em estado vegetativo por mais onze anos, sob os cuidados da mãe e da irmã, vindo a falecer em 25 de agosto de 1900, de uma infecção, cujo nome verdadeiro era Aristócles, nasceu em uma família aristocrática e rica de Atenas. Muitos estudiosos de sua obra dizem que o grego ficou conhecido como Platão por causa do seu vigor físico e ombros largos (“platos” significa largueza).
Ainda na juventude, tornou-se discípulo de Sócrates, com quem conviveu durante oito anos, iniciando-se na filosofia. Depois de acompanhar todo o processo que condenou o seu mestre (Sócrates, acusado de corromper a juventude e de não acreditar nos “deuses”, foi obrigado a beber o veneno cicuta, que o levaria à morte), Platão, desiludido com a democracia ateniense, viaja para outras cidades da Grécia, Egito e sul da Itália, e começa a escrever.
Em 387 AC, funda em Atenas uma escola chamada Academia, com uma exigência, escrita na fachada: “Que aqui não entre quem não for geômetra”. Em pouco tempo, esta escola tornou-se um dos maiores centros culturais da Grécia, tendo recebido políticos e filósofos como Aristóteles, Demóstenes, Eudoxo de Cnido e Esquines, entre outros.
A sua obra conta com 28 diálogos (alguns historiadores dizem que foram 30) basicamente centrados em Sócrates, onde procura definir noções como a mentira (Hípias menor), o dever (Críton), a natureza humana (Alcibíades), a sabedoria (Cármides), a coragem (Laques), a amizade (Lísis), a piedade (Eutífron) e a retórica (Górgias, Protágoras).
Platão faleceu com 80 anos de idade.

Assista o vídeo

Oficina de Letras

O compositor Márcio Borges idealizou e conduziu a primeira Oficina de Letras oferecida pelo Museu Clube da Esquina, realizada de … Assista o vídeo

Fale na Esquina

Fale na Esquina

Deixe uma mensagem

Uma mensagem para Oficina de Letras

  1. A Oficina de Letras será realizada também em Araraquara, nos dias 23 e 24 de março, no Teatro Wallace Leal, ao lado da Casa da Cultura, no centro. No dia 25 será o Show Musical com o Márcio e o Telo. Convidamos a todos da cidade e região. Informações na Secretaria de Cultura 3322-2770.Uma iniciativa do presidente da FUNDART Cezar Aielo que mais uma vez nos presenteia com o Projeto Minas Aqui que já trouxe grandes nomes do pessoal do Clube da Esquina. É vir pra conferir.