O Clube da Esquina ganhou o mundo com a ajuda das mulheres

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Sob a ótica feminina, a história do Clube da Esquina provavelmente seria diferente daquela narrada por Márcio Borges no livro Os sonhos não envelhecem. Ainda que a participação das mulheres no movimento, essencialmente masculino, tenha se restringido aos bastidores, algumas delas deixaram o nome gravado na história do grupo que levou a produção musical mineira para o mundo.

“Na época, ninguém queria fazer fama”, recorda a terapeuta corporal Maria do Carmo Leal dos Santos, a Duca Leal. Além de musa inspiradora de Márcio Borges, seu marido na época, que compôs para ela clássicos como Um girassol da cor do seu cabelo, Duca teve parcerias gravadas por Milton Nascimento (Pros meninos, com Nico Borges) e Elis Regina (Outro cais, com Marilton Borges) – ambas faixas do disco Os Borges, de 1980, cuja produção executiva foi assinada por ela.

Duca conheceu Márcio aos 12 anos e se casou com ele aos 16. Rebelde assumida, admite: na época, tinha consciência de ser “meio oprimida”. Entre as moças que conviviam com os rapazes do Clube, foi a que mais se sobressaiu. Inclusive, viajou com a turma para a praia fluminense de Piratininga (conhecida como Mar Azul), onde Milton Nascimento & cia. prepararam o repertório do álbum duplo Clube da Esquina 2, lançado em 1978.

Datam de 1971 as célebres fotografias de Juvenal Pereira em Diamantina, algumas reunindo a turma de cabeludos e o ex-presidente Juscelino Kubitschek. A garota com rosto de índia estava lá. Recentemente, algumas foram colocadas à venda em Belo Horizonte por R$ 2,5 mil, cada.

Mesmo reconhecidos nacionalmente, os músicos do Clube da Esquina não tinham dinheiro, conta Duca Leal. Tanto que o marido teve de partir para o trabalho em agências de publicidade, paralelamente à vida artística. Ela pensa em escrever um livro sobre aquela época. Provavelmente, teria por cenário a casa do Bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, para onde se mudou em 1971, depois de se casar com Márcio. Na comunidade instalada no casarão carioca também moravam os casais Eid Ribeiro e Virgínia Mata Machado e Tessy Callado e Márcio Pereira.

Por ali, Duca viu passar os principais nomes da música, do teatro e do cinema, além de militantes de esquerda como José Carlos da Mata Machado. Vindo do Araguaia, onde atuou na luta armada, Zé Carlos frequentou a casa de Santa Teresa. Pouco depois, foi assassinado por agentes da repressão.

“Ainda que fosse produto do movimento hippie, eu já era a favor de valores feministas”, relembra Duca Leal. Integrante do Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA) – inclusive, visitou presos políticos na cadeia ao lado de Chico Buarque e Paulinho da Viola –, ela não deixou a militância depois do fim da ditadura. Atualmente, integra o movimento sindical de professores de Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde mora com a filha, Raquel, de 16 anos, do casamento com o sociólogo carioca Marcos Pegado. Rafael, de 18, é o primogênito do casal.

Com Márcio Borges, Duca teve José Roberto, de 38, e Gabriel, de 36, que lhe deram cinco netos. “Às sextas-feiras/ Fazíamos feira/ Em Santa Tereza/ Tomávamos cerveja/ Com peixe frito/ Enquanto descansávamos nossas sacolas coloridas/ Não cumpríamos horário/ Nos dias úteis dos anos 1970/ Éramos livres/ Jovens artistas”, escreveu ela em Tentativa, coletânea inédita de seus poemas.

Oriunda de família de classe média, Duca admite: quando passou a frequentar o meio musical, não se identificou com a “loucura” dos artistas. “De repente, tive de recuar um pouco da minha própria rebeldia”, revela, lembrando que, ao se casar, não aderiu nem à caretice familiar nem às extravagâncias da turma. “Passei a defender, apenas, cada qual com a sua toalha, seu lençol”, diverte-se. Além dela, integram a lista das “clubistas” Leise Brant, casada com Fernando Brant, e Cláudia Brandão, a atual mulher de Márcio Borges, entre outras.

Pianista e produtora

3 A ceramista Silvana Maria de Freitas Guedes, ex-mulher de Beto Guedes, viu nascer pérolas do Clube da Esquina. “Estávamos na Cervejaria Brasil, em Belo Horizonte, e Beto me pediu para escrever a melodia que acabara de cantarolar. No dia seguinte, ele pediu que a tocasse no piano. Assim surgiu Sol de primavera”, conta.

3 No DVD que o compositor gravou no Teatro Francisco Nunes, Silvana chegou a tocar acordeom em uma faixa, cortada na edição. “Ele sempre me mostrava as músicas depois de prontas”, revela, orgulhosa. Ela chegou a abrir a Lumiar Produções Artísticas e empresariar shows do marido, mas foi obrigada a fechá-la por causa das reviravoltas econômicas do desastroso governo Fernando Collor.

3 Viagem das mãos, que rendeu disco de ouro a Beto, teve show de lançamento produzido por Silvana, que elege a extinta Cervejaria Brasil, no Bairro Funcionários, como o point predileto do Clube.

A matriarca

Quem, como eu, assistiu à inauguração da placa alusiva ao Clube da Esquina no cruzamento das ruas Divinópolis e Paraisópolis, em Santa Tereza, em 1996, talvez possa dimensionar a importância da presença feminina no movimento. Microfone em punho, Maria Fragoso Borges, a dona Maricota (1920-2006), mãe da prole musical mais famosa da capital, desafiou a população do tradicional bairro da Zona Leste, ao lembrar acusações feitas a seus filhos e amigos, que passavam tardes e noites naquele local, cantando e tocando violão. Segundo revelou na cerimônia, que contou com a presença do próprio Milton Nascimento, “maconheiros” era o mínimo como os rapazes eram chamados na época.

Mãe de Marilton, Márcio, Sandra, Sônia, Sheila, Lô, Yé, Solange, Sueli, Telo e Nico Borges, dona Maricota, ao receber Milton, recém-chegado de Três Pontas, no apartamento do Edifício Levy, no Centro de Belo Horizonte, acabou dando-lhe a alcunha de 12º filho dos Borges. Mesmo que, por ordem cronológica, Bituca, como ficou carinhosamente conhecido, tivesse de ser o primeiro – à frente mesmo do mais velho, Marilton.

Em 1963, quando o mundo, o país, o estado e a capital se defrontavam com o preconceito racial, escancaradamente dona Maricota abrigava, com todo o seu carinho, aquele “rapaz de 20 anos, negro, magricela e tímido”, como descreve Márcio em Os sonhos não envelhecem – Histórias do Clube da Esquina. (AM)

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Uma mensagem para O Clube da Esquina ganhou o mundo com a ajuda das mulheres

  1. Simone Panisset disse:

    Amante da Música Popular Brasileira que sou, não me canso de dizer que CLUBE DA ESQUINA é um divisor de águas em nossa cultura. Muito me orgulha fazer parte de uma geração que viu tal movimento nascer, crescer e se eternizar. Os "meninos" se espalharam por esse mundo, levando o "ouro" de Minas Gerais. Levaram nossa arte, nosso jeito de ser, nossa mineirice e também nossa brasilidade. Fui uma das pessoas que sempre compartilhava, no Facebook, diariamente (graças ao Márcio Borges) as informações referentes à concretização do NOSSO museu. Essa luta é uma questão de honra. Nós merecemos! O Clube é de Minas, do Brasil e do Mundo. Não estou aqui apenas como fã do Clube, mas como cidadã que se orgulha de toda essa história, que se tornou nosso patrimônio. Agradeço a todos eles por terem feito parte de minha vida,e portanto influenciando sempre nas minhas escolhas, no meu caráter, nos meus sonhos e na minha sensibilidade. O mais importante disso tudo? Nunca deixaram que eu me esquecesse que "os sonhos não envelhecem! E isso tem passado de geração para geração. Meu pai foi crítico de música, ensinando-me sempre a escultar e respeitar a boa música. Agora, meu filho mais velhos toca baixo e fundou uma banda que só toca Clube da Esquina e chama-se TREM DE DOIDO. Obrigada a todos por isso!