Bêbado de saudade

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Por Gutemberg Guarabyra

Hoje, não existe mais o Brasil da primeira vez que entrei no Bar Cervantes, em Copacabana. Eu tinha dezoito anos. Havia acabado de sair do Teatro Jovem, em Botafogo, onde fizera minha primeira audição pública, numa feira de música popular. Paulinho da Viola me apresentou. Na feira, que acontecia todas as sextas à meia-noite, um artista já consagrado apresentava os novatos. Na minha noite o apresentador era Paulinho. Consultou uma ficha de papel e anunciou:
— Temos aqui um compositor…
Examinou novamente a ficha. Pelo visto, não constava nenhuma informação complementar. Chegou, então, bem próximo e perguntou:
— Você é compositor o quê…?
Claro que a resposta merecia cuidadosa reflexão. Porém, o público, em silêncio, aguardava um esclarecimento. Nara Leão, na platéia, tinha os olhos fixos em mim. Lembrei que as músicas falavam de sertão. Sapequei:
— Rural.
Murmúrios, alvoroço. Paulinho ajeitou o pedestal do microfone à minha frente e, assim, fiz minha grande estréia já estigmatizado por mim mesmo de “compositor rural”. No fim choveram aplausos. Saí-me bem.
Daí fui incluído na seleta turma do Cervantes. Naquela ocasião, em que fui admitido pela primeira vez, estavam presentes Nelson Lins e Barros — musicólogo, letrista de Carlos Lyra e que seria um de meus maiores incentivadores no futuro —, Chico Buarque, Caetano, Gil, o próprio Paulinho, Sidney Miller, Capinam, Marieta Severo — que começava seu namoro com Chico — e muitos outros. Todos em início de carreira. A estrela maior era Chico, que havia estourado com a Banda. Os outros aguardavam a vez. Caetano ainda era pré-Alegria, Alegria; Capinam pré-Ponteio; Gil pré-Domingo no Parque. Cantaram músicas belíssimas. Saí de lá atordoado, achando que jamais conseguiria fazer coisas tão bonitas. E encantado com o prato que comera pela primeira vez: filé a milanesa com purê de batatas. Passou a ser meu preferido, a ponto de fazê-lo o predileto, também, do personagem central de meu livro O Outro Lado do Mundo.
Porém, uma pessoa, a quem ainda não citei, impressionou-me profundamente naquela noitada: o maestro Guerra Peixe. Parecia um sapo. O Bar ficava a cem metros do edifício onde morava. Chegava direto dos concertos. Pendurava o smoking no espaldar da cadeira, abria a camisa, dando liberdade à sua imensa barriga, refastelava-se no assento. O garçom servia-lhe automaticamente um chope gelado, e o legendário maestro, crítico de Villa Lobos, autor de imensa e magnífica obra, desconhecida ainda hoje, tornava-se em um dos nossos. O único veterano e venerável, entre todos.
Certa noite, já enturmado no grupo do Cervantes, fui convidado, com grande mistério, por Nelson Lins e Barros, a participar de um encontro na casa do maestro Guerra Peixe. Era uma reunião do Partido Comunista. Fiquei surpreso ao saber que tanto Nelson quanto ele faziam parte de uma célula do Partidão da qual participavam apenas musicistas. Subimos ao apartamento. O maestro abriu-nos a porta e me recebeu com um tapinha na cabeça. O amplo apartamento tinha uma segunda sala onde se daria a discussão. Todos já haviam chegado: Ester Scliar, a grande professora e compositora dodecafonista; Geni Marcondes, a primeira mulher arranjadora de que tive notícia no Brasil. Era dela o arranjo vitorioso da Banda; e o incrível maestro Gaya, talvez o mais completo arranjador brasileiro, se não existisse também Radamés Gnatalli. Fui apresentado a todos. Gaya já tinha ouvido falar de minhas músicas e disse que gostaria de escutá-las. Foi servido um cafezinho. Depois, pediram que eu esperasse na outra sala, onde havia uma tevê.
Ao final da reunião secreta, chamaram-me de volta. Foi então que se deu a cena de que quero falar: Guerra Peixe, inesperadamente, surgiu com algumas partituras e as distribuiu entre os outros. Informou que era um chorinho que lhe viera à cabeça na noite anterior. Confirmaram o tom. E, a um comando dele, passaram a solfejá-lo. Fiquei ali, estarrecido, emocionado, vendo os maestros comunistas solfejando, com contrapontos, fugas e outras peripécias, o chorinho mais comovente que já escutei em toda a minha vida.
Não existem mais. Nem eles nem aquele Brasil. Mas o Cervantes continua firme na Rua Prado Júnior. Com o mesmo milanesa com purê, que o compositor rural saboreou — sentindo as belíssimas músicas ecoando pelas velhas paredes — bêbado de saudade.

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