O Ponto dos Músicos

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Por Marilton Borges

O local de nossos encontros era ali na Afonso Pena, entre Tupinambás e Curitiba, do lado oposto do então Cine Arte, depois Royal, e hoje sede, quem diria, de uma igreja, se não me falha a memória. Era lá no ponto dos músicos que os empresários artísticos da época, os chefes de orquestra e os proprietários de restaurantes e casas noturnas contratavam profissionais da área para alegrar as noites da então jovem Beagá.
A partir das 16, 17 horas, nossa tribo ia chegando; devagarinho e aos poucos, todos os espaços da calçada eram ocupados por pessoas quase todas jovens e aparentemente desocupadas, que, entre alguns olhares cheios de cobiça dirigidos às mocinhas passantes, começavam a tratar do principal assunto das diversas rodas que iam se formando: a música. A maioria dos presentes usava calças escuras e camisas brancas e eu explico a razão da coincidência: naquele tempo, os trabalhos eram acertados, praticamente, no mesmo dia de sua realização, e para quase todos havia a exigência do paletó e da gravata, que nos eram emprestados, então, pelos chefes de conjuntos e orquestras. Dono de banda que se prezasse era obrigado a possuir um arsenal de paletós e gravatas de todos os tamanhos e cores possíveis e imagináveis, pois tais artefatos sobre a roupinha padrão se constituíam num uniforme para Glenn Miller nenhum botar defeito, ainda que geralmente, sou forçado a admitir, a combinação daquela miscelânea de tons tendesse mais para o brega do que para qualquer outra coisa.
___Enquanto uns tratavam de receber o cachê do dia anterior, outros escreviam arranjos sobre as capotas dos automóveis estacionados, com seus instrumentos e respectivos estojos aos pés, numa cena muito mais apropriada para um mercado persa do que para a principal via de um pujante e emergente Capital do Terceiro Mundo.
Os bares da redondeza, é claro, botavam gente pelo ladrão a partir das 18, porque, no esplendor dos nossos vinte e poucos anos, era de bom-tom (desculpem o trocadilho) fazermos justiça às más línguas que atribuíam à classe o Dom de beber demais. Não sei se como protesto contra a discriminação ou pelo simples prazer do ato em si, a verdade é que a gente bebia pra valer, como se aquelas saborosas “louras suadas” fossem os últimos exemplares a venda no planeta.
Alguém poderá perguntar pelos ensaios. Existiam, mas eram raros, já que, se para as músicas mais solicitadas, o que não faltava era partitura, para as demais o que valia mesmo era o “feeling” e a sensibilidade de cada um.
Boscão, Serrinha, Serrote, Helvius, Paulo Horta, Bituca, Gileno, Túlio Silva, Aécio Flávio, Wagner (Tiso), Paulo Braga, Pascoal (Meireles), Márcio José, Celinho, Waltinho, Amador, Bolão, Chumbinho, Bié, Prata, Juquinha, Neiva, Sampaio, Jairinho, Zé Geraldo, Teleco, Chá-Chá-Chá, Vitório, Washington, Nivaldo (Ornelas), Patrício, Bijoca, Tiãozinho, Silvio, Aleixo, Braguinha, Léo Cantor, Lorival “Borcão”, Welton, Qielinho Moreira, Vaz, Quellotti, Rubinho, Mica, Anibal, Enio Bretas, Pituca, Balona, Marquinho “Minhoca, Rogério “Marmota” Hugo Luiz, Nazário, Alemão, Ildeu, Jamil (Joanes), Plínio, “Ceguinho”, Violão, Miranda, Maluf, Figo Seco, Dino Zé Guima, Gastão e Gilberto Sant’Ana.
Esta é a lembrança dos nomes de mais ou menos sessenta companheiros, entre centenas de outros que dignificaram, com seu talento, a história da música popular na noite de Beagá, e, desde já, minhas sinceras desculpas pelas prováveis omissões. Todos eles freqüentadores assíduos e sócios beneméritos do Ponto dos Músicos. Uns ainda estão por aí, a tocar com sua arte o coração das pessoas, sendo que outros já reforçaram a Grande Orquestra Superior. A eles, na sua integralidade, meu carinho e respeito por terem me dado a honra de registrar, fraternalmente, seu trabalho e, sobretudo, alegria e emoção – um retrato bonito e singelo de canções e momentos que encantaram toda uma geração.

BORGES, Marilton. Memórias da Noite / Marilton Borges – Belo Horizonte: Armazém das idéias, 2001.
(p.100 – 102).

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3 Mensagens para O Ponto dos Músicos

  1. Marilton,
    estou agora em Quito dando aulas de musica e bateria na Universidade San Francisco de Quito e foi com muita alegria e saudades que vi este testemunho do meu irmão e companheiro Marilton Borges. Muito obrigado por sermos todos citados por você tão carinhosamente e de uma maneira tão simples e sincera! Beijão Marilton!Pascoal Meirelles

  2. Marcos Castro disse:

    Meu querido Marilton,
    estou de volta à Capital das "Gerais", após mais de meio século morando no Rio, onde, além das atividades de Médico e Economista, pude realizar um extenso trabalho na área musical. Meu retorno representa, para mim, meu renascimento na vida musical mineira, onde estou procurando desenvolver um trabalho junto com nossos antigos companheiros, bem como ao lado destes novos talentos musicais com os quais estou me familiarizando. Fiquei muito feliz de ter sido lembrado por você, músico e amigo que tanto admiro. Meu muito obrigado e tenho certeza que estaremos juntos por ainda um bom tempo! Grande abraço. Marcos Castro

  3. Leonardo Ramos disse:

    Caro Marilton,
    Estava buscando alguns trabalhos do meu tio, conhecido como Waltinho batera, e sempre comentava que participou desse grande movimento, atualmente ele mora no Rio de Janeiro aonde fez trabalho com a Clara Nunes e Beth Carvalho, seria de grande emoção para todos da família caso seja a mesma pessoa, ter seu depoimento registrado no museu do clude da esquina, espero que tenha um retorno.