Os Beatles eram Rolling Stones

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Por Ronaldo Bastos

Ficou escrito na estrelas meu encontro com Milton Nascimento num pé-sujo da rua Voluntários da Pátria, no Rio de Janeiro, nos tempos idos de 1967. Foi como se finalmente tivessem se encontrado a fome e a vontade de comer. Escrevo Milton Nascimento e acho estranho. Aprendi a chamá-lo de Bituca e dali pra frente nunca o chamei de outra coisa e para sempre será assim. Acho estranha a maneira que uma gente agora o chama de Nascimento ou Milton. Mas isso é uma outra história. Estamos falando de tempos mais duros e mais felizes.
Eu morava ali pertinho e tinha o costume de ir ao Teatro Jovem, onde pintavam as novidades musicais. Vi Gilberto Gil chegando da Bahia, ouvi emocionado meu ídolo e futuro parceiro Edu Lobo, assisti dezenas de vezes ao lendário “Rosa de Ouro”, de Hermínio Bello de Carvalho e outros bambas. Foi voltando de uma dessas noitadas que encontrei aquele carioca da Tijuca, criado em Minas, que iria mudar a vida do quase menino nascido em Niterói e carioca por vocação. Tinha na memória um jovem negro que me impressionara ao participar de um festival cantando “Cidade Vazia”, de Baden Powell e Lula Freire. Ficara impressionado com a gravação de “Canção do Sal”, que Elis fez em seu primeiro disco e muitas vezes me perguntei quem seria aquele desconhecido chamado Milton Nascimento, que compunha de uma maneira inusitada e uma beleza sem precedentes. Pois ali, atrás de um copo de batida de limão, estava o Bituca, e daquele momento em diante passamos a andar juntos e as pedras começaram a rolar.
Naquela mesma noite presenciei o espanto e o prazer com que a geração pós-Bossa Nova, que incluía Edu, Francis, Dori, viu chegar aquele irmão retardatário e prodigioso. Ninguém tocava vioão daquela maneira! E o timbre da voz, de onde vinha aquele bronze que tinha nuances de cristal? Bituca veio pelas m‹os de Agostinho dos Santos para o Festival da Canção, onde classificou “Travessia”, “Morro Velho” e “Maria, Minha Fé”. Era como se eu soubesse tudo que iria acontecer e ali estivesse começando o que estava escrito nas tais estrelas. Confesso que me falta o talento de memorialista para captar o cheiro daqueles tempos e traduzi-los para os narizes de agora. Não vi acontecer depois algo que chegasse aos pés do que acontecia naquela época. Era um tempo em que não se dizia “mídia”, um tempo de censura e ditadura. Nós éramos jovens e só nos interessava a Revolução. Abominávamos a ignorância da direita e a burrice de certos setores da esquerda. Queríamos mudar o mundo e estivemos perto de mudá-lo em 1968. Ou, pelo menos, acredito que nunca o mundo mudou tanto em tão pouco tempo.
Vejo enfileiradas num anúncio de revista as capas da produção fonográfica do Clube da Esquina, na década de 70. O texto do anúncio é fraco, a capa do disco “Milton” está posicionada de forma incorreta, mas é de grandeza a visão que esse conjunto nos inspira. Qualquer pessoa intelectualmente de boa vontade, mesmo os mais renitentes darks de butique, vai enxergar muito além de mineiro o que foi, a partir da Bossa Nova, o mais universalista movimento musical brasileiro.
O Clube da Esquina nunca foi perdoado por não ter feito média com a “mídia”. Coleciono dezenas de recortes de jornais que desancavam o Bituca quando ele deixou de ser o bom moço de “Travessia” para cair na vida e revolucionar, junto com seus amigos do Tropicalismo, o ranço da MPB da época e da produção fonográfica no Brasil.
Tenho ainda uma matéria de uma importante revista da época, cujo título era “Esses são os Beatles brasileiros”. Pois os Beatles eram Rolling Stones e n‹o tinham muito tempo para ficar fazendo jogo de cena. É isso.
A visão dessas capas enfileiradas, a audição dos discos e a fidelidade do público falam por si mesmas. Pelas mãos do Bituca conheci aqueles garotos que, como eu, amavam Noel, Caymmi, Dylan, Hendrix, Tom Jobim. Eles se chamam Márcio, Fernando, Lô, Beto, Toninho, Wagner, Danilo, Flávio, Nelson Ângelo, Novelli, Tavinho, Murilo, Cafi, Joyce e tantos outros. Passamos a rolar juntos desde então por essas estradas, como uma família que, mesmo quando não está junta, nunca está separada.
O que se seguiu hoje é história; mesmo quando a história ainda não é contada como deveria. Nós continuamos jovens e só nos interessa a Revolução.

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Uma mensagem para Os Beatles eram Rolling Stones

  1. Carlos disse:

    por que o medo ? musicalmente havia uma proximidade maior entre clube da esquina e beatles do que havia entre clube da esquina e Rolling Stones. Mas se a frase foi dita no sentido midiático. os rolling stones também se valeram da da mídia para promoverem suas canções. então pergunto, pq o medo da comparação com os Beatles? Ou seria apenas preconceito?