Pietá

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Pietá

Pietá

Por Fernando Brant

Em setembro, na cidade de Bruges, dei de cara com uma belíssima Pietá de Michelangelo. Em dezembro, ouço a Pietá de Milton Nascimento. O italiano queria que sua criação, Moisés, falasse. A do brasileiro canta. São obras diferentes, tempos diferentes, emoções diferentes. Mas, diante da beleza produzida pelo gênio humano, o impacto sobre nossos sentidos é sempre forte. Marca e clareia nossas vidas. Com o gênio italiano só dá para falar através de meus olhos que contemplam embevecidos o que ele nos legou. Com o brasileiro eu falei ontem por telefone.
Ouvir um CD como esse que Milton nos revela é perceber a grandeza de nossa música, rica e original como nenhuma outra do planeta. A usina Nascimento agrega todas a história de Minas, todo o caminho de escravos pelos mares, toda as culturas que fazem o Brasil. Todo o passado, todo o presente. O que ele faz e canta é sempre síntese, é sempre sólido, é sempre belo. Eu que conheço um pedaço grande de sua história pessoal, que freqüentei com ele os quintais da memória familiar, que caminhei estradas pedregosas em sua companhia, até hoje ainda me surpreendo com suas inovações.

De onde vem tanta energia e arte? De ontem, de hoje, de dentro, de fora? Como explicar esse fenômeno, esse brilhar de relâmpago, esse soar de trovão, que invadem a calmaria do mercado musical e anunciam que os arrepios ainda são possíveis? Uma das explicações seria a memória da pele, a memória da raça. Os cantos ouvidos nas igrejas da infância e a música que vinha das ondas do rádio. E, certamente, as manhãs, as tardes e as noites passadas à beira do fogão de lenha, ao lado do afeto materno, da sanfoninha e dos acordes de violão. Os primeiros cantos caseiros e as longas conversas sem assunto que cimentavam amizades eternas. E os ouvidos que tudo ouvem, os olhos que tudo vêem.

Eu sei é que eu me orgulho de meu companheiro e é sempre bom quando sua voz me chega de surpresa, inesperada. Voz que encanta o mundo e o mundo não quer saber o que se esconde atrás de sua sonoridade sem igual. O mundo não conhece o ser humano, a pessoa com seu vigor e suas fraquezas, tristezas, sonhos e projetos. O mundo e o mercado da música querem ver o resultado. E o resultado aparece, pois Milton sabe o que quer e sabe fazê-lo. Melodias, harmonias, palavras, ritmos e vozes surgem e fluem naturalmente. Tudo está em seu coração e sua mente, em estado puro, antes de ser gravado. Atento ao que já foi criado, enxerga longe os talentos ainda escondidos. Sua obra única se torna cada vez maior sempre que ele exerce seu lado agregador. Ele quis saber, ao telefone, o que eu tinha achado de seu CD. Eu achei e acho que Pietá é o máximo.

P.S. que bela a Pietá do nosso Aleijadinho.

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Uma mensagem para Pietá

  1. Juliana disse:

    Sim, Fernando Brant, é o MÁXIMO. Penso, aliás, que tentar explicar o "Milton Nascimento" e suas criações é dificílimo até mesmo a um homem compositor- poeta como você! Milotn é dessas criaturas divinas, cuja alma e sensibilidade trancendem ao que é meramente humano, é genial, é um absurdo!!!!!!!!! Amo todos vocês do Clube e agradeço imensamente serem assim, genialmente agradáveis de se ouvir!