Show do Clube Revival

| | |

Por Kiko Continentino

Foi com indescritível prazer que aceitei o convite de TONINHO HORTA (aliás, o primeiro feito por ele) para participar deste evento histórico, que reuniu quase todos os participantes do movimento Clube da Esquina.

Toninho, o curador, organizador e mestre de cerimônias da história toda (juntamente com a família Horta, na produção), me chamou para tocar nos dois dias. Infelizmente, por compromissos assumidos antes, só podia no sábado. Pensei que perderia a oportunidade, mas ele topou que eu tocasse, apenas, no segundo show.

Desembarquei em BH “virado” do trabalho anterior. Consegui dormir umas duas horas e meia na casa da minha tia quando a van apareceu para me levar pra Casa do Conde. A chuva não conseguiu estragar a festa. Muita gente já se acotovelava na passagem de som, que foi de 15 às 19 horas.

Logo que cheguei, começou uma bateria de solicitações para tocar com vários artistas (não sabia que eram tantos!) e me tornei o “pianista de plantão” do evento. Com o maior prazer, aliás. A euforia e emoção de tocar com tanta gente interessante foi substituindo o cansaço gradativamente. Além da passagem de som, toquei praticamente a metade do show. Na outra metade, ficava ziguezagueando do palco pro camarim, onde cada vez mais aparecia mais gente, mais convites, mais partituras, mais arranjos de solfejo, violão no pé do ouvido, reencontros de pessoas que não via há décadas… Tudo misturado.

O show foi de sete da tarde às três da manhã. Foram mais ou menos OITO HORAS (com a passagem de som, onze horas de música contínua)!!! E eu estava ali o tempo todo. Quando parei depois pra pensar, vi que se tratava de recorde absoluto na minha carreira.

A noite terminou no Bolão, em Santa Tereza. Ali mesmo, perto da tal esquina que gerou o tal Clube, onde se come o tal macarrão, tão providencial para quem, de jejum (tirando um churrasco de gato) tocou por onze horas, direto.

11/12/06 PARTE 2
Na banda de base, BETO LOPES, guitarrista e músico formidável se revezava no baixo e na organização das canjas. São inúmeros os sucessores da primeira linhagem do Clube.
Com RAI na batera, PAULINHO CARVALHO, IVAN CORREIA, e EZEQUIEL (meu companheiro de tempos de PIANÍSSIMO, “ex-coca litro”) nos baixos, o turbinado baterista NENÉM e este que vos escreve, no piano e teclados, estava formada a banda que acompanhou praticamente todos, num universo de 40 (eu disse quarenta!!!) solistas da noite. Foi o verdadeiro WOODSTOCK mineiro.

Nessa banda formidável, que eventualmente tinha Toninho Horta na segunda bateria, percussão, piano, vocais (…), infelizmente não estavam presentes os bateristas André “limão” Queiroz e Lincoln Cheib.

Entrei no terceiro número, com CELSO ALVES, tocando “Credo”, do Clube nº 2, se não me engano. Depois conheci e toquei com LADSTON DO NASCIMENTO (“Canção da América”), que poderia mudar seu nome perfeitamente para “Miltston do Nascimento”, tamanha a semelhança com a voz do Bituca. Gente finíssima, me contou estar emocionado por tocar comigo, e eu, vice-versa por conhecer um cara tão bacana e talentoso. Na sequência, toquei “Canção da América” com a cantora GISELA. Numa conversa de camarim, fiquei sabendo que ela curtia muito o arranjo para essa música de um fabuloso disco da Nana Caymmi, que para mim é uma “patada no coração”, e tem tudo a ver com esse show. Nana foi uma das primeiras cantoras a levar a música mineira pro cenário carioca e nesse disco gravou “Ponta” e “Beijo Partido” com uma banda formada por Toninho Horta, Robertinho Silva, Novelli e Tenório Júnior.

Seguindo a programação, assisti admirado o DUO BETO & WILSON LOPES (sangue bom e meu atual parceiro de quarto na banda do Milton), “apenas” duas guitarras, tocando um “Cravo e Canela” que ia de Mercúrio a Plutão. Além de ter sido um número foda, fiquei feliz e orgulhoso com os aplausos, gritos e urros do público de BH, que também sabe curtir com a mesma intensidade a música que vem do instrumento.

11/12/06 PARTE 3
Depois disso, tocaram AFFONSINHO, CELSO & JUAREZ MOREIRA (que fez um maravilhoso “Canto Latino”) e, não sei se nessa ordem, entrou a cantora PAULA SANTORO, dona de belíssima voz. Toquei só com ela e o Ivan Correia. Fizemos “Leo”, do Bituca e Chico.

Em seguida, participei de um número instrumental duplo: “Catavento” e “Clube da Esquina 2”, com CID ORNELAS, um violoncelista da pesada, irmão do gênio Nivaldo, com quem toco frequentemente.

Me esqueci antes de citar Kiko Mitre, no baixo, que já havia tocado com o Juarez, e um violonista bacana, que também me esqueci o nome (por extensão, me perdoem os próximos lapsos). Entrou depois a banda ÂNIMA, rapazeada de TRÊS PONTAS que tem participado dos shows do Bituca. Me lembrei de 1988, época em que ia nessa cidade tocar com uma figura emblemática nessa história toda, da qual vou falar mais adiante.

Toquei ainda com meu chapa ROBERTINHO BRANT (“Tudo o que você podia ser”), tendo mais um componente da banda base presente (que me esqueci de citar), o figuraça TATÁ SPALLA, que, felizmente, achou o seu violão.

Logo depois, ataquei com IURI POPOFF (tocando seu instrumento principal: o contrabaixo) e LENA HORTA, “Vera Cruz”, num arranjo que ele partiu com um outro trem, aquele do Villa.
Nesse momento, foi a primeira vez que toquei num palco com TONINHO HORTA. Já havia participado de algumas gravações em comum, mas nunca havia feito som ao vivo com esse monstro da harmonia. O show já valeria a pena apenas por esse fato, para mim.

Depois assisti uma linda bossa da DIANA POPOFF. Como compõe essa menina! E também meu velho companheiro de teclas na banda do Milton Nascimento, TÚLIO MOURÃO, apresentar uma música fantástica, “Beco das Sanfonas”, em noite inspirada. Com eles, um grande violonista de Divinópolis, terra do Túlio

11/12/06 PARTE 4
A essa altura do campeonato me aparece um dos ilustres convidados da noite: o guitarrista, compositor, escritor, artista plástico e articulista FREDERA. Uma figura legendária da música brasileira, batalhador incansável e um dos responsáveis por algumas conquistas da classe (como o direito conexo, por exemplo), com quem toquei durante um ano, no início da minha carreira.

Frederico compõe a formação original do SOM IMAGINÁRIO que havia tocado no dia anterior (infelizmente, perdi essa…), com Wagner Tiso, Luiz Alves, Robertinho Silva, Tavito e Zé Rodrix. Eles gravaram três discos antológicos e fizeram com Milton Nascimento uma fértil associação, durante alguns anos.

O disco Milton (com o desenho do Bituca na capa), de 1970, é um dos preciosos vestígios deixados por essa usina experimental de som que incendiou o cenário musical brasileiro da época.

No final dos anos 80, fui convidado por Fredera para realizar shows pelo “circuito interiorano minas-são paulo”: foram concertos em Três pontas, Alfenas, Varginha, Poços de Caldas, Americana e outras cidades, com uma banda de garotões (da qual eu, no vigor dos meus 18 anos, fazia parte), alguns Tisos, primos do Wagner (nessa terra todo mundo é primo de todo mundo) e outros que hoje compõem o Ânima (Clayton Prosperi e Marco Elísio). Desse convívio, extraí algumas lições valiosas para a vida musical. Foi uma experiência importante na minha carreira.

Logo que avistei esse polêmico artista, fui saudado com um enfático “você já me absolveu?”, referência a um comentário que havia feito censurando o seu radicalismo, na época, do qual já havia me esquecido. Fredera é isso aí. Um turbilhão de informações processadas com voracidade sobre-humana. A música dele reflete isso. Harmonias densas, idéias de vanguarda, efeitos eletrizantes… Foi isso que ouvi na sua apresentação, com uma banda de filhos e garotões de hoje. Toquei também com ele e o CHICO LESSA (velho amigo do meu pai) de Vitória, “no tom de sempre”, explosivo rock-lento progressivo, da melhor safra desse conjunto.

11/12/06 PARTE 5
Toquei com meu parceiro CHICO AMARAL (fizemos “Lúcia”, bossa-mineira que minha modéstia não impede de achar uma canção incrível, ainda inédita), tremendo compositor e músico completo, um tema instrumental foda chamado “From the Lonely Afternons”, do disco Milton – o de 1976. Foi com essa música que abríamos diariamente (por dez vezes) os shows da temporada do Bituca no Blue Note (templo do jazz) de Nova Iorque em outubro desse ano. Wilsinho também estava “nessas”.

Em seguida, assisti o relato de MÁRCIO BORGES, vértice principal do movimento (junto com MILTON, LÔ, FERNANDO BRANT, WAGNER, TONINHO, BETO GUEDES – que já tinha quebrado tudo na noite anterior, TAVINHO MOURA, RONALDO BASTOS e NELSON ÂNGELO) e criador da “marca” Clube da Esquina, que saiu de uma das suas mais belas canções (com o Bituca), cantada ali por uma constelação de BORGES, irmãos, filhos e sobrinhos (da qual fizeram falta o Lô, Nico e as irmãs), num momento emocionante. A música foi dedicada a DONA MARICOTA (vértice da prole), pelos filhos TELO e MÁRCIO.

E foi o TELO BORGES (parceragem total, de tempos recentes do projeto Pietá, disco que trouxe de volta a atmosfera Clube da Esquina na obra do Milton – do qual orgulhosamente faço parte) quem puxou “Vento de Maio”, dedicada por MARINA MACHADO (com extrema justiça) a SOLANGE BORGES, primeira voz que ouviu cantar a música. Marinaça é diva em BH. É só assistir para saber o porquê.

Falaram e recitaram os poetas-letristas-escritores-conspiradores FERNANDO BRANT e MURILO ANTUNES (mais um parceiro – temos uma pequena coleção pronta). FLÁVIO HENRIQUE (outro grande compositor) tocou piano enquanto o Murilo recitava. Na noite anterior (aquela que perdi), sua participação tinha sido maior.
É impressionante o nível da composição mineira, harmônica-melódica-rítmica-letrística e mineiramente falando.

O cantor pop mineiro VANDER LEE apresentou “San Vicente” (eu estava nessa, também). O público vibrava debaixo da lona, debaixo da chuva, e o show caminhava para o gran finale.
gran circo, gran finale 1.

11/12/06 kiko
Show espetacular !!
E o gran finale ..foi mais emocionante.. Pois, mesmo com os problemas, não deixaram o Clube morrer. Lindo demais.
E tive o prazer de conversar com o Fredera e o Tavito!! Lendas da música brasileira. E mostrei pra eles o vinil do Som Imaginário que comprei fora do Brasil!

11/12/06 PARTE 6 – epílogo
Como se fosse possível, faltava uma emoção maior. E ela veio, com outro encontro inédito. Toquei pela primeira vez com NELSON ÂNGELO, guitarrista e compositor genial. Assim como acontecia com o Toninho, esperava por essa oportunidade há muito tempo. Pra minha felicidade, o Nelsinho também estava feliz com o encontro e a sinergia foi total. Pra fechar a tampa, fizemos três músicas do craque: “Canoa, Canoa”, “Fazenda” e “Tiro Cruzado”.

No dia seguinte, voltando pro Rio, Nelsinho me contava como terminou “Canoa” num barquinho no meio do Amazonas, ao lado do Robertinho e de um índio, remando. Uma vez, Caetano Veloso me confidenciou que sempre quis cantar “Fazenda”, desde os anos 70. Acabou fazendo no ano passado, no Canecão – show com Milton Nascimento. Eu estava lá, no piano, e assisti a emoção do Nelson ao ouvir sua música na voz de Milton & Caetano. Que dupla! O Bituca convidou mas não contou e quase derrubou o Nelsinho com a surpresa.
“Tiro Cruzado” saiu com as musas Paula Santoro e Marina Machado em extrema euforia.

A noite, o mês e o ano já estavam ganhos: toquei pela primeira vez com Nelson Ângelo, Toninho Horta e mais uma penca de gente da pesada. Reencontrei amigos, refiz lembranças, tudo nas mesmas onze horas de música contínua.

No final ainda teve FLÁVIO VENTURINI (que depois usou o meu teclado). Infelizmente ele não tocou “Nascente”. Vai ver, rolou na sexta feira, a noite que perdi.
Pra fechar, TODOS (como se fosse possível) no palco. Era pra ser só “Manoel o audaz”, mas a garotada foi puxando: “Fé cega, faca amolada”, “Para Lennon e MacCartney”, “Clube da Esquina”… O som teve que ser desligado “na marra” para preservar o domingo que estava entrando.

Agradeço o convite ao Toninho, que se mostrou um grande organizador. Foi uma façanha conseguir reunir todo esse pessoal com os limitados recursos que tinha a disposição. Revi grandes amigos como TAVINHO BRETAS e NANDO FIUZA, gente do mais alto valor profissional e pessoal.

aguardo novo chamado

Fale na Esquina

Fale na Esquina

Deixe uma mensagem

Uma mensagem para Show do Clube Revival

  1. corcinio disse:

    O primeiro vinil que comprei foi em 1975 e claro foi do Milton.Dai pra frente não parei mais.Vi varios shows em vários estados deste meu Brasil e o último foi em Belém do Pará na praça do relógio num show inesquecivel.Milton é Milton e hoje meus filhos são a´paixonados por ele e o clube da esquina. Como diz o meu filho:Milton é Milton e boi não lambe e se lamber"nóis"corta a lingua dele