Affonsinho

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, local e data de nascimento

Eu sou o Affonsinho, Afonso Eleodoro dos Santos Junior, nasci em Belo Horizonte, no dia 07 de março de 1960.

FAMÍLIA
Nome e descrição da atividade dos pais

Meu pai se chama Afonso Eleodoro dos Santos e minha mãe Valquíria Ferreira Santos. Meu pai tem até uma coincidência muito legal que é a seguinte: ele foi colega de sala do Seu Salomão Borges em 1921, 22, 23, no grupo escolar Pedro II. O Marcinho chegou a fazer um registro, filmou uma conversa dos dois: os dois batendo um papo e lembrando do grupo Pedro II, as brincadeiras de sala e morrendo de rir, lembrando dos apelidos de todo mundo. Meu pai, da mesma forma que o Salomão, foi pra Polícia Militar de Minas, foi coronel; acho que o Salomão parou. Papai continuou, foi coronel e foi trabalhar com o Juscelino Kubitschek. Foi Chefe da Casa Militar de Juscelino no governo de Estado aqui em Belo Horizonte, em Minas, e depois foi pra presidência da república com ele como sub-chefe da Casa Civil. Depois foi pro exílio com ele, pra França. E na época do Memorial JK, depois da anistia, quando eles cederam aquele espaço pra fazer o Memorial JK em Brasília, papai foi presidente do Memorial JK. E hoje, continua trabalhando. Tem 91 anos, viaja, faz palestra, lança livro, é um fogo do diamantinense lá. Exatamente da mesma idade que o seu Salomão Borges. Papai é presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Brasília.

FAMÍLIA
Ligação com a música

O meu pai é de Diamantina. Minha mãe compunha em casa. Ela não sabe harmonia, mas ela fazia música enquanto estava arrumando a casa ou cozinhando. E a gente tinha um tio chamado Jequitaí que foi maestro da orquestra da Polícia Militar. E minha mãe levou hoje o spalla da sinfônica, que é Márcio Malard, meu primo, minha mãe o levou pra orquestra da Polícia Militar por causa desse tio, o Jequitaí que era maestro. Então essa orquestra formou grandes músicos que estão hoje na sinfônica: o Márcio Malard, o Watson Clis, todos estudaram na orquestra da Polícia. Então a minha mãe compunha sem saber teoria musical. Meu pai não, meu pai escreve. Depois dos 80 ele resolveu virar escritor, já lançou uns oito livros, enquanto está no Instituto Histórico. Agora, o meu bisavô, meu pai costuma brincar que ele foi a primeira agência de publicidade do Brasil porque ele era de Diamantina, chamava-se Zeca Bento. Inclusive nos livros de Diamantina contam histórias dele, toda a vez que eu vou tocar lá, em Festival de Inverno, fico pensando se ele está por ali em algum lugar. Porque ele é um cara que tinha muito valor. Ele era diabético, acho que teve 11 filhos, ou nove filhos, não sei; naquela época o pessoal tinha muitos filhos. E ele perdeu uma perna por causa da diabete, então andava em Diamantina de muleta. Você imagina, andar em Belo Horizonte de muleta já é difícil, aqui as coisas já são mais planas, imagina em Diamantina que é tudo paralelepípedo. É, e subida e descida. E ele ia, ganhava a vida fazendo jingle em Diamantina nessa época, mas de que forma? Assim, por exemplo, cantava em casamento, cantava em enterro, cantava em batizado, fazia jingle pra padaria. Por exemplo, a padaria estava com uma promoção lá de pão mais barato hoje, aí ele ia pra praça lá com o violãozinho dele, com a muleta e cantava: “Padaria do seu Correia, não sei o que lá”, entendeu? Então papai brinca que ele foi a primeira agência de publicidade porque isso foi em 1800 e sei lá, 1860, 1870, há muito tempo. Tem essa tradição de Diamantina ser aquele negócio da boemia, de serenata, então eu acho que vem um pouco daí.

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Juscelino Kubitschek

Eu atuei na minissérie JK e vou contar como foi. Na verdade eu dei os CD’s que gravei com releituras do Clube da Esquina: o Esquina de Minas Volume I e Esquina de Minas Volume II. Dei os dois CD’s pra Maria Adelaide Amaral, que era diretora da minissérie, e ela adorou a minha voz e me ligou: “Pô, Affonsinho, eu queria saber se você topa fazer um personagem, um personagem real que é o César Prates”. Ele ainda está vivo, tem 95 anos, 93, por aí, “ele é mineiro de Montes Claros, foi cantor da Rádio Inconfidência e um grande amigo do Juscelino”. Então, eu topei fazer o César Prates. Fiquei muito honrado de a Maria Adelaide ter me chamado e foi muito legal porque eu pude ter contato com as músicas que o Juscelino gostava de verdade. Meu pai, que teve essa convivência muito intensa com o Juscelino, foi aluno da mãe do Juscelino quando era criança. O Juscelino era 14 anos mais velho do que o meu pai. Então, o meu pai foi aluno da mãe dele, da dona Julia em Diamantina, e depois foi conhecer o Juscelino no Hospital Militar. Juscelino já era médico e meu pai conta que ficou impressionado. Já tinha uma admiração pelo Juscelino médico, porque lembra que ele tinha uma atenção muito grande com todas as pessoas, de uma forma igual, entendeu? Não atendia melhor o capitão e tratava com menos coisa o soldado. Falou que ele atendia todo mundo da mesma forma, que tinha interesse e que acho até, eu não tenho certeza assim, afirmar isso aqui, mas eu já ouvi um papo assim, que ele fez um sistema, ele criou um sistema no hospital que era um negócio de triagem, de separar determinado tipo de doença. Eu não entendo bem, eu já ouvi o meu pai falar isso, ele pode explicar melhor. Nem sei se ele falou isso pro depoimento que ele deu pro Marcinho. Mas então tinha essa relação com o Juscelino, eu conheci o Juscelino. Meu pai tinha essa… Trabalhou com ele desde o governo de estado até o Juscelino morrer; inclusive no exílio papai foi com ele pra França. Então eu me lembro demais do Juscelino, tem até uma história minha com ele lá em casa na época do JK 65. Lembro que criança, tinha quatro, cinco anos, e lembro que o Juscelino parecia da altura desse teto. E eu chamava ele de “Pi”, porque todo mundo chamava ele de presidente, então eu chamava ele de “Pi”. Aí lembro que um dia eu fui puxando na calça dele assim, ele me pegou no colo, me levantou aquele tantão, até o teto assim, e eu olhei pra cara dele e fiquei olhando aquela coisa que menino pergunta assim, falei: “o Pi, porque você tem o olhinho assim?” Porque o olho dele era assim, ele ria e o olho ficava bem… Então tinha essa ligação. Fiz o César Prates na minissérie porque a Maria Adelaide gostou da minha voz e foi uma honra, foi muito legal.

PESSOAS
Murilo Grossi

Eu contracenei com o Murilo Grossi que fazia o papel do meu pai, do Coronel Afonso. Então foi muito bacana, porque quando eu nasci o meu pai não usava mais farda da Polícia Militar aqui… Ah, isso foi muito bacana. O Murilo Grossi que é um ator da Globo, um grande ator, foi chamado pra fazer o papel do meu pai na minissérie, Coronel Afonso Eleodoro, e eu tive a oportunidade de contracenar com ele porque o César Prates estava sempre com o Coronel Afonso Eleodoro. Então tem cenas assim… Fui ver o meu pai fardado, com a farda da polícia militar de Minas, na minissérie; era muito legal isso. Teve uma cena, inclusive, que eu falava com o Murilo Grossi assim, sobre a esposa do Bené Nunes, pianista. O César Prates chega pro Coronel Afonso e fala assim: “puxa, essa esposa do Bené Nunes é um pedaço de mau caminho!” Aí eu botei um: “Afonso, essa mulher…” Eu botei esse Afonso assim só pra brincar. Então foi muito bacana contracenar com o meu pai, com um pai que eu não conheci, um pai de farda. Quando eu nasci o meu pai já era da Casa Civil do Juscelino, então foi uma experiência muito emocionante pra mim e pra ele, ele vibrava também de ver lá. E foi legal porque ele pode me passar o repertório, as coisas que o César Prates cantava. Assim, meu pai tem uma memória musical muito legal, apesar dele não tocar, ele lembra de tudo assim: ele sabe todas as letras do Noel Rosa que você imaginar; fala uma e ele canta. Então foi muito bacana.

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Influências

Eu comecei a tocar por causa dos Beatles. Eu comecei, as primeiras coisas que eu lembro de escutar era também o meu pai chegar em casa a noite, eu com dois anos, três anos, ficava andando atrás da calça dele assim e ele chegava, fazia um mexido e botava um disco do Nat King Cole. Então, a primeira coisa que eu ouvi foi Nat King Cole cantando músicas do Gershwin, do Cole Porter, “The Hardest Heart”, não é? Mas, depois, na adolescência eu esqueci isso um pouco porque fiquei muito roqueiro e tal. Mas a minha primeira influência musical é essa, meu pai ouvia Nat King Cole e o meu irmão ouvia João Gilberto. Quando eu tinha uns cinco, seis anos, o meu pai me levou pra ver o “Help” dos Beatles. Coitado, não imagina a loucura que fez. Ele me levou uma vez, teve que levar 50. Meu primeiro herói foi o John Lennon, assim antes do Super Homem, antes do Batman, eu o achei bacana, e acho bacana até hoje, até vim com a camisa do A Hard Day’s Night. Eu acho bacana porque era um herói da paz e do amor, um cara que não tava dando porrada em ninguém, não estava atirando em ninguém porque hoje em dia, isso é até um comentário do meu pai comigo: “pô, o herói nos filmes é sempre o cara que atira, que mata, que bate, nunca é o pacificador, não é?” Então o John Lennon era um herói da paz, assim, isso é uma coisa muito bacana. Aí eu fiquei fã do John Lennon e tal, ficava pedindo para meu pai traduzir o que o “Help” estava falando e ele traduzindo, um dia um amigo dele – eu morava no Rio essa época, e morava em Copacabana perto da Confeitaria Colombo que era uma confeitaria tradicionalíssima no Rio, que não existe mais, infelizmente, pelo menos em Copacabana, acho que tem uma no Centro só – deu um violãozinho pequeno pra ele. Ele chegou em casa e falou: “meu filho, tava andando ali em Copacabana e encontrei com o John Lennon em frente a Colombo”, aí eu parei falei: “pô, meu pai, meu ídolo, amigo do meu outro ídolo que era o John Lennon”. Falei: “pai você conhece?” “É claro! E falei com ele que você gostava dos Beatles, que você gostava dele, então ele falou ‘dá esse violão pra ele de presente”. Então eu acreditei. Eu ganhei aquele violão do John Lennon e levei pra casa e ficava lá. Não sabia tocar nada, eu pegava lá, ficava tentando tocar e não conseguia. Então eu comecei a tocar por causa desse violão, presente do John Lennon de mentira, que eu acreditei. Aí toquei um pouquinho, aprendi uns acordes com um primo.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Brincadeiras de criança

Depois mudei pra Belo Horizonte em 70, quando eu tinha 10 anos, e Belo Horizonte nessa época era um paraíso. Você sair de Copacabana, uma criança que não podia ficar na rua o dia inteiro, porque Copacabana já era como é Belo Horizonte hoje, você não vê mais turma de criança brincando na rua, só em condomínio fechado. Então eu saí do Rio nessa época e vim para Belo Horizonte com nove para dez anos e isso aqui era um paraíso. Era maravilhoso pra criança assim, eu nunca vou me esquecer. A rua da minha avó, a Grão Pará, tinha mais de 50 meninos no quarteirão e ficava todo mundo na rua o dia inteiro, jogava futebol, brincava de bente altas, soltava papagaio, brincava de polícia e ladrão, era um paraíso, assim. Quando passava um carro na rua o menino pegava a bola assim e falava: “carro!”, entendeu? Então… Depois aos 15 anos eu voltei a tocar, aí já com a coisa do adolescente, ouvindo rock and roll, ouvindo Beatles de novo.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

Eu ouvi muito Beatles, ouvi muito Jimi Hendrix, Eric Clapton, aí comecei a gostar muito de Blues. Depois fui descobrir que o Jimi Hendrix e o Eric Clapton copiavam o BB King, o Albert King, o Fred King. Aí eu fui escutar esses caras, entendeu? E fiquei um tempo meio sem ouvir música brasileira mas, como eu sempre fui muito ligado em letra de música, comecei. Às vezes eu escutava no rádio a letra de uma música que me pegava, eu falava: “opa, essa daqui é legal!” Aí voltei a escutar. Diretamente, lembro que o meu irmão mais velho é quem trazia a informação de música brasileira pra casa. Eu lembro dele chegar, já escutar João Gilberto e Tom Jobim, depois, na década de 60 ele trazendo Chico Buarque, Caetano, Edu Lobo, Gil. E lembro, assim, uma coisa realmente inesquecível, quando ele trouxe o disco do Milton Nascimento que é o disco que eu mais gosto até hoje. Aquele com o Som Imaginário que tem “Para Lennon e McCartney”, “Alunar”, “Amigo Amiga”, “Pai Grande”. Eu acho esse disco uma das coisas mais bonitas…, uma banda maravilhosa que é com o Tavito. Eu lembro até hoje do dia que eu escutei. Eu falei isso com o Tavito há pouco tempo, a primeira vez que ouvi a viola de 12 dele tocando na “Para Lennon e McCartney”, quando o Milton: “Por que vocês não…”, quando entra o “tchak, tchak, tchak, tchaak, tchaak”, e faz um negócio “funkeado” assim que eu achava que era com guitarra e ele me contou, agora há pouco tempo, que era uma viola de 12, que ele usava com um wah wah e a mão. Então era uma bandassa, sabe, uma superbanda. Então eu ouvia essas coisas, Nat King Cole cantando Gershwin, Cole Porter, Beatles. Jovem Guarda a gente acabou ouvindo alguma coisa, Tropicália, depois o Clube da Esquina, junto com Led Zepplin, Jimi Hendrix, Eric Clapton. A minha geração ouviu muita coisa, entendeu? Eu acho isso bacana porque ouviu muita coisa e muita coisa legal assim, a gente recebia muita coisa de fora e aqui de dentro também tinha um time de músicos e de artistas e de pensadores, assim, muito bacana.

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Hanoi Hanoi

O Hanoi foi alguns anos depois, eu já tocava aqui em Belo Horizonte, já tinha tocado com um monte de gente aqui, de amigos. Já tinha feito muito show e resolvi experimentar a vida profissional de músico e mudei pro Rio. O Arnaldo Brandão, um grande baixista, um cara do tempo da década de 60, ele foi de um dos primeiros conjuntos de Rock dos anos 60. Um dos mais importantes que era O Bubbles que depois virou A Bolha. Então, o Arnaldo tem uma história legal. Ele é um dinossauro do rock mesmo, tocou com Raul Seixas, Luis Melodia, Caetano oito anos, ele que fez A Outra Banda da Terra, com o Caetano. E ele, nessa época, estava no Brilho da Cidade com o Cláudio Zoli, “a noite vai ser boa…” E essa banda tinha acabado. O Arnaldo resolveu montar uma banda, e me chamou pra montar essa banda com ele, que na verdade no princípio era uma dupla, só tinha ele e eu. A gente foi procurar um baterista, encontramos com o Pena que era baterista do Erva Doce, cara pesado. Então o Hanoi ficou essa mistura de muito peso do Pena, que era uma cara que vinha do heavy metal, o Arnaldo, um cara do funk e do reggae, e eu um cara do blues e do rock and roll tradicional, mas com essa coisa aqui de Minas junto, entendeu? Porque já ouvia Lô, já ouvia Toninho, já ouvia Milton. Então o Hanoi ficou uma… Ao vivo era muito legal porque era bem mais pesado do que no disco, e o Arnaldo abria uma coisa, essa é uma coisa que eu resgatei agora também pegando os vídeos antigos dos shows, eu tenho todos esses shows guardados, os shows que a gente fazia no Parque Lage que foi o lugar, junto com o Circo Voador, onde aconteceu todos os shows das bandas de rock no Rio dos anos 80. Eu tenho vários shows da gente lá, abrindo Raul Seixas, abrindo Caetano, abrindo Erva Doce. E era legal porque era um lugar lindo. O Parque Lage ficava lotado, a galera toda ia. Então todas as bandas passaram por lá e pelo Circo Voador. Então, no show o Arnaldo fazia uma coisa que não era comum nas bandas pop’s. O Arnaldo, sendo um cara dos anos 60, ele tinha essa coisa das bandas de rock, do Cream, do Jimi Hendrix Experience, de você solar muito tempo – o pop nunca teve muito espaço pra solo porque o pessoal alega que solo não vende, e tal. E nos shows do Hanoi, até agora foi legal ter relembrado isso, ele abria espaço, então, eu solava, pegava um e solava meia hora – meia hora, claro, não era assim também – mas solava muito, tinha muito solo de guitarra. E foi muito legal ter chegado no Rio assim, porque eu acho que naquela época, no princípio dos anos 80 o pessoal, o que era conhecido da música mineira no Rio de Janeiro era só o Clube da Esquina, entendeu? Eles achavam que todo mundo era como o Clube da Esquina e tinham outras coisas já acontecendo assim. Eles achavam que a gente não sabia tocar rock, entendeu? Então eu me lembro de algumas pessoas falarem: “pô, mas você é mineiro e toca rock?” Eu falava: “ué, todo mundo lá toca rock, entendeu? Não é uma coisa assim… Um monte de gente toca rock também, toca outras coisas”. Então eu achei bacana ter essa abertura no tempo do Hanoi, porque mostrava um outro lado que era desconhecido. Porque o Clube da Esquina ficou muito conhecido, e é uma música muito forte que todo mundo tem muito respeito. Eu acho que o Brasil inteiro, o mundo inteiro tem um respeito. Então eu acho que marcou demais, eles achavam que aqui era todo mundo como o Milton, como o Lô, como o Beto, como o Toninho; e tinha outras coisas também. Tanto que depois disso foi aparecendo o próprio Sepultura, o Skank, o Jota Quest, todo mundo que está fazendo pop mas com influência do Clube da Esquina, é claro!

PESSOAS
Milton Nascimento

Em me lembro do Milton no festival cantando “Travessia”, mas eu era muito pequeno. Agora, o disco Clube da Esquina, eu me lembro, igual eu te falei: o disco Milton… Eu estava falando com o Vermelho agora, que se a gente colocar o Clube da Esquina como os Beatles do Brasil. Que eu acho que Clube da Esquina e Mutantes juntos, são as coisas que tinham mais versatilidade, essa coisa que os Beatles tinham de… Você não pode falar que Beatles era uma banda de rock. Porque, por exemplo, “Michelle” não é um rock, não é? O Tavito tem até uma teoria que, ele diz, “Michelle” é um fado. Se você cantar com voz de português de Portugal ela vira um fado. Ele falou comigo uma vez e é verdade. Eu acho que os Beatles só não gravaram samba. Então o Clube da Esquina tem essa versatilidade, essa abertura também. O Tavito me contou que “o Milton é um cara tão talentoso que, se você mostrasse uma coisa pra ele assim, por exemplo, da música” – eu não vou me lembrar exatamente da música que o Tavito mostrou pra ele uma vez; um estilo de música, vamos inventar um aqui, sei lá, de qualquer lugar do mundo assim – o Milton ouvia e que, na mesma hora, absorvia aquilo, transformava aquele negócio numa música dele, original, com a cara de Milton Nascimento, assim “rapidaço”. Um dia eu falei isso pro Milton, que o Tavito me contou isso, que isso era uma coisa impressionante no Milton. Ele sempre pegava os estilos e fazia essa coisa se transformar em Milton Nascimento. É muito bacana. Então o primeiro disco, eu estava falando com o Vermelho que eu acho que esse disco do Milton só chama Milton Nascimento. Ele é anterior ao Clube da Esquina, e o Clube da Esquina, você fica querendo saber qual que é melhor. É igual falar assim: Qual que é melhor, dos Beatles, o Rubber Soul ou o Revolver, entendeu? Não tem jeito, os dois estão ali. Tem hora que é mais legal ouvir um, tem hora que é mais legal ouvir o outro. O Milton com o “Para Lennon e McCartney” me pegou de cara; eu acho fenomenal aquele disco, mas o Clube da Esquina também é um absurdo, não é?

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Zum Zum e Esquinas de Minas

Esse disco, na verdade, foi uma grande alegria pra mim porque eu nunca imaginei que eu fosse gravar, mexer nessas pérolas. Eu tinha feito no meu primeiro autoral, pela Dubas, o selo do Ronaldo Bastos, o Dubas – que tem esse nome, eu acho, que foi o Caetano que deu –, já até contei essa história, é do RonalDUBAStos, Dubas. Eu tinha feito um disco autoral chamado ZumZum em 2001, um disco que eu fiz porque eu tinha levado os outros discos nas gravadoras – tinha feito dois independentes e levei nas gravadoras e ninguém queria. Então eu falei: “ah, de teimosia, eu tenho estúdio, vou fazer um disco pra mim, do jeito que eu quero, sem a menor concessão pra gravadora, pra me preocupar se a música tem refrão, se vai tocar no rádio. Vou fazer um disco pra mim, do jeito que eu gosto, pras minhas ex-namoradas, pras minhas tias, pra minha mãe”. E fiz o ZumZum. É um disco super verdadeiro. E tem uma sonoridade que é o seguinte: eu gravei dois violões: violão de aço e violão de nylon; Ivan Correa tocou o baixo, baixolão sem traste e o Bill Lucas tocou percussão. Então um disco totalmente acústico. Aí o Ronaldo Bastos lançou esse disco pela Dubas, lançou no Brasil e no Japão. Eu estava me preparando pra fazer o segundo autoral, o Belê, acabou de sair agora, em 2006. Mas aí nesse intervalo o Ronaldo ligou pra mim e falou: “Affonsinho, estou com uma idéia bacana de você pegar as músicas do Clube da Esquina, as músicas que você achar mais bacana, as músicas que tenham mais a ver com você, e gravá-las com a mesma sonoridade do ZumZum”, que o Ronaldo adora. Mesma suavidade do ZumZum que ficou um disco muito suave, um disco totalmente de amor, todas as músicas são de amor, eu queria fazer isso mesmo, eu queria fazer um disco de amor pras minhas amigas, minhas ex-namoradas. E o Ronaldo falou: “eu queria que você fizesse a mesma coisa com as músicas do Clube da Esquina”. Aí eu falei: “Tá, mas eu vou mexer em pérola ali, coisa assim, sucesso consagrado, é complicado você mexer numa harmonia do Milton, do Toninho, do Lô, do Beto Guedes”. Eu não queria essa “responsa”. Mas, ao mesmo tempo, eu achei bacana assim mexer porque eu falei: “bom, gravar, tentar gravar igual eles gravaram não tem nada a ver porque já existe a gravação deles que é a original, que é a que todo mundo gosta, e ia ficar completamente sem graça tentar copiar aquela gravação”. No ZumZum, nesse meu autoral, eu tinha feito uma leitura pra Rua Ramalhete do Tavito, que o Tavito no disco dele gravou com uma super banda: Sergio Dias tocando guitarra; tem coral, tem orquestra, naipe de metais. Aí eu falei: “Bom, se eu for tentar fazer qualquer coisa nesse estilo vai ficar esquisito, pior, vai ficar…” Aí, fiz totalmente o contrário, gravei ela de voz e violão, fiz bossa nova, mudei a harmonia, mostrei pro Tavito, a música é dele, falei: “O que você acha dessa harmonia?” Ele achou legal, eu gravei no ZumZum. Então eu já tinha uma, eu sabia já lá no fundo eu falei: “Eu posso. Se eu fizer a mesma coisa que eu fiz com a Rua Ramalhete no ZumZum, com as músicas do Clube da Esquina aqui, a gente pode ter sorte de acertar em algumas e errar em outras, é claro!” Então eu chamei o Gauguin, que é um grande músico e produtor também, que sabe tudo de Beatles e produziu o Skank, o primeiro disco do Skank e tal, pra fazer junto comigo o disco. Então a gente pegou e começou a pesquisar, a pegar os meus discos do Clube da Esquina, ouvir: o que eu gostava, o que eu tinha vontade de mexer. E a gente começou a fazer aquilo de uma forma bem relaxada. Vamos pegar, por exemplo: Amor de Índio. O que a gente podia fazer nela pra ficar diferente? Aí: “Ah, vamos tentar tocar ela em bossa”. “Ah não, rolou essa idéia aqui de fazer ela em foxtrot!”, entendeu? Meio Gershwin, Cole Porter ali, como o Pizzarelli faz. Então a gente foi pegar e falar: “vamos fazer essa daqui Gershwin e Cole Porter”. Aí pegava, por exemplo, Paisagem na Janela, “Ah, vamos tentar fazer bossa nova”, aí fizemos uma arranjo de bossa. Mas sempre com uma citação do Clube, ou uma citação dos Beatles. E uma das músicas o Gauguin teve uma idéia que eu achei uma das mais bacanas do Esquinas de Minas I que foi pegar o violão do Black Bird do Paul McCartney, que é um violão completamente personalizado, uma marca registrada do Paul McCartney – o Gauguin é especialista muito mais que eu em Beatles,. O Paul McCartney tem uma técnica de tocar com a mão esquerda – ele é canhoto, a direita é a mão que está fazendo os acordes –, que é tocar com esses dois dedos. Ele toca tudo assim, só isso aqui: “dum, dheg, dheg”. Yesterday ele toca: “Yesterday, dum, dheg, dheg, dum, dheg, dheg” é assim. E o Black Bird é gravado assim: dum, dheg, dheg e fazendo dueto assim só. E o Milton Nascimento também tem uma técnica de mão direita que não é de escola nenhuma, igual os Beatles, os Beatles não tem escola, não estudaram na Berkeley, na Juilliard, não tem isso. O Milton também não. Os Beatles aprenderam lá em Liverpool, o Milton aprendeu lá em Três Pontas e eles inventaram o estilo deles, os estilos que são copiados por todo mundo, todo mundo quer ter a mão do Paul McCartney e o talento, a mesma coisa com o Milton. Então nessa música, por exemplo, Canção da América, o Gauguin fez o mesmo violão da Black Bird, no mesmo estilo do violão do Paul. Como se fosse o Paul McCartney fazendo e misturado com a música do Milton, entendeu? Então essas coisas eu achei que deram certo. Por exemplo, no Caçador de Mim, do mesmo disco, eu consegui fazer uma coisa que foi misturar o violão de nylon de Bossa Nova, que eu aprendi ouvindo João Gilberto. Claro que não com o talento, a versatilidade do João Gilberto, mas com o que eu, Affonsinho, consegui pegar do João Gilberto; com o que consegui pegar do violão de aço com o BB King, de escala pentatônica de Blues. Então foi uma mistura que eu fiquei super feliz de ter feito, de ter feito um lado Bossa Nova; de um lado João Gilberto, de outro lado BB King numa música do Sá e do Magrão. Então algumas misturas eu acho que a gente acertou, foi uma releitura bacana. E depois, eu gostei que algumas pessoas falaram assim: “Pô, foi legal que você não copiou, você botou a sua personalidade assim nas músicas”. A Dubas lançou no Japão esses dois discos e os discos venderam bem. Foi muito bacana. E é uma felicidade assim eu gravar coisas que eu nunca, nunca imaginei que eu pudesse gravar; uma música do Milton que nem é tão conhecida que é Mestre Coração que eu adoro, acho uma letra maravilhosa! Eu parar e falar: “Pô, que legal eu gravei essa música que eu ouvi tanto na minha adolescência”. É muito bacana isso.

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avaliação

Foram muitas as inovações que o Clube trouxe à música brasileira. Eu acho que até lá fora os americanos quando escutam aquelas coisas do Milton, aquelas músicas impressionantes do Milton… Também têm uma coisa que o Tavito me alertou, que foi muito legal. Você pega as coisas do Gershwin e do Cole Porter, elas são geniais, completamente geniais, influenciaram a Bossa Nova, influenciaram o Clube da Esquina também, mas tem uma certa previsibilidade, você sabe mais ou menos pra onde que a pessoa está indo na harmonia. E o Milton, o Toninho, eles já tem uma coisa que é imprevisível. Isso é uma coisa que acho os músicos vão entender mais, não é? Antigamente tinha um livro que falava: “Dó, primeira de dó, segunda de dó”, quando você faz sol com sétima, mas sempre caindo no dó, são as coisas óbvias. Isso tem um monte de clichês. Em todos os estilos de música tem isso. E o legal do Clube da Esquina é que eles não tem muito isso, eles sempre tem uma surpresa. Onde você acha que o “correto”, entre aspas, o óbvio seria você cair naquele acorde ali eles “pá” jogam um outro e você fala: “opa!” Isso é coisa do… O Tom Jobim tem isso. Mas eu acho que o Milton tem muita surpresa assim, a música do Milton Nascimento tem muita surpresa nesse sentido. E o Tativo me alertou pra isso uma vez e eu falei “é mesmo”, quer dizer… E estudando as músicas pra fazer as releituras foi mais legal porque aí a gente: “Olha que legal o que eles fizeram aqui”, não é? Porque aí analisa a música, primeiro falar “Ó, usou esse acorde, usou esse aqui, então o que a gente pode mudar que vai ficar legal?” Pra fazer as nossas mudanças a gente analisava aqui. Que foi uma coisa inclusive que abriu um monte de coisa pra eu compor as músicas do Belê do meu disco novo, entendeu? Eu peguei muita, recebi muita coisa boa dessas audições do Clube da Esquina. Apesar de eu achar que o meu disco não parece assim Clube da Esquina, mas tem Clube da Esquina ali, é claro, entendeu? Tem muita coisa. Lá no Rio eu soube que tem uma rádio que falou que achava que era Clube da Esquina o meu disco.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

É, eu acho que o Skank tem influência de Clube da Esquina, entendeu? Eu acho que o próprio Jota Quest tem um pouquinho. Assim, por mais pop que eles estejam tocando, sempre tem, porque ouviram, entendeu? Porque é bom, porque quando você escuta é bom, entendeu? E tem muito sucesso, tem muita música. Nós fizemos dois discos com 14 músicas cada um, 28 músicas, mesmo assim a gente fala: “Pô, ficou faltando aquela” entendeu? “Ficou faltando aquela outra!”. “Pô, devia ter colocado aquela outra”. Eu só não fiz mais um porque eu queria fazer o meu autoral também, o Belê. (RISOS)

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Clube da Esquina

Eu acho muito legal essa história toda do Museu, é muito bacana. O Brasil precisa dessas coisas de memória mesmo, senão a gente esquece. As coisas vão acontecendo muito rápido nesse mundo de hoje, então o pessoal esquece rápido, a gente tem que lembrar sim. Como é uma música forte, eu acho bacana essa união das pessoas estarem mais próximas, as gerações misturando: o Samuel mistura com o Lô, isso é muito legal porque troca, sempre um tem uma idéia, não é? Você fala: “pô, você toca desse jeito, você faz…” É assim que a coisa funciona, e acho que é assim que a coisa anda e evolui, daí a parceria, um acaba fazendo música com outro. Eu aprendi muita coisa com o Tavitão lá, eu que sempre fui um grande fã dele. E inclusive as músicas dos dois Esquinas de Minas, algumas eu levava na casa dele antes, chegava e falava: “Olha Tavito, mexi aqui, ali, mudei isso tudo aqui, o que você acha?” Ele falava: “Não, está legal!” Entendeu, levava antes porque eu falava: “Não vou mudar assim sem o aval de um cara que participou, que tava ali dentro, que, enfim, tem um peso ali, que tem história junto com eles”. Então eu acho que essa mistura é muito bacana. Eu acho o Museu muito legal, tinha que ter evento sempre, juntar a galera mesmo pra tocar. Porque é impressionante como tem artista talentoso aqui em Minas, e precisa ter mais união mesmo, entendeu? O pessoal estar mais junto como acontece em outros estados. Por que não misturar as coisas aqui e o pessoal tocar junto mesmo? Esse evento do Clube da Esquina que teve no final do ano passado, em dezembro, que eu toquei com o Tavito, e toquei sozinho também, foi muito legal, não é? Que veio todo mundo, veio Fredera, veio o próprio Tavito, foi bacana demais, deu o maior ibope, tava lotado, foi uma festa maravilhosa, correria total pra produzir aquilo tudo e dar tudo certo. Deu tudo certo e foi maravilhoso.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Considerações finais

Olha, eu achei muito bacana o encontro lá do meu pai com o Salomão Borges, achei muito legal o Marcinho ter filmado isso, de ver os dois com uma vitalidade muito bacana. Foi realmente emocionante ver os dois conversando e lembrando das histórias engraçadas do Grupo Dom Pedro II, que é uma coisa que também devia estar sendo preservada. Você passa hoje em frente ao Grupo Pedro II e está tudo pichado, tudo… Uma coisa linda daquela, cheia de história, quanta gente passou por ali. Então, achei muito bonito. Queria falar, também, que um pouco dos letristas, do Fernando Brant, do Ronaldo Bastos, do Marcinho, do Murilo Antunes, que também fizeram essa história, da poesia musicada mineira, que é muito legal. Muitas das letras que eles escreveram fizeram parte da minha vida, das minhas horas boas, dos meus namoros, das minhas paixões. E muitas foram como aulas, para as coisas que eu escrevo hoje. Fico muito orgulhoso da gente também ter nossos “Chicos Buarques” aqui, entendeu? O Fernando, Marcinho, colocando o Chico assim, como grande letrista brasileiro, mas nós temos os nossos aqui: Fernando, Marcinho, Murilo, Ronaldo e o meu grande parceiro, Chico Amaral, também.

Fale na Esquina

Uma mensagem para Affonsinho

  1. Marco Tulio Leite disse:

    Affonsinho, eu era uma das 50 crianças que brincaram com você na Av. Francisco Sales!
    Um forte abraço!
    Marco Tulio.