Álvaro Hardy (Veveco)

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Nome/Apelido/ Local e data de nascimento

Meu nome é Álvaro Mariano Teixeira Hardy, mas sou conhecido por Vevéco. Esse apelido não é um apelido de família, é um apelido da rua – da rua no sentido das amizades. É Vevéco há muitos anos, então é o que circula por aí. Nasci em Belo Horizonte, no dia 4 de maio de 1942, portanto já tenho milhagem suficiente para contar algumas histórias.

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Mãe/ Avô materno

Minha mãe chama-se Luzia. E é curioso, porque o Luzia vem da cidade onde ela nasceu, que é Santa Luzia. E ela nasceu no dia de Santa Luzia, então não podia ter outro nome. O Álvaro meu vem do lado materno, pois meu avô se chamava Álvaro. E na família somos cinco Álvaros, que se distinguem pelo nome composto. No meu caso é Mariano. Tem quem se chama Álvaro Augusto, Álvaro José, etc.

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Pai/ Avô paterno

Meu pai é filho de um belga, porque meu avô veio da Bélgica, de Bruges, na condição de músico e arquiteto. Então ele trabalhou aqui em Belo Horizonte, a partir da década de 20, como arquiteto e como músico também. Meu pai é arquiteto, seguindo meu avô, e eu também segui o meu avô.

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Esposa / Filhas

Minha mulher, Marisa, é arquiteta; minha filha Mariana é arquiteta; e a Joana, a caçula, está se formando em arquitetura. Então eu falo que nós fomos contaminados pela arquitetura.

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Avós paternos / Pais / Irmãos

Meu avô é de Bruges, minha avó é de Viçosa e meus pais se conheceram em Araxá – então um dos resultados é esse aqui. Tenho cinco irmãos. Eu sou o mais velho e a escala é: eu, uma irmã, um irmão, outra irmã e o caçula. Abaixo de mim é a Eliana; os seguintes são o George e a Bite; depois tem uma distância grande para o caçula, que é o Toninho – que é curioso, porque além de irmão, ele é meu afilhado de batismo. São 17 anos de diferença, eu acho. O Toninho é engenheiro e meu afilhado. Todos belo-horizontinos.
Meu pai nasceu em Viçosa e veio para Belo Horizonte garoto pequeno e jamais voltou. Meu avô se casou em Viçosa com a minha avó, que era de lá. Aí ele veio para Belo Horizonte e jamais voltou para Viçosa, está enraizado em Belo Horizonte – é vivo ainda.
Está aí, em plena atividade intelectual.

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Santa Luzia

Mas o fato é que Santa Luzia foi onde eu passei grande parte da minha infância, porque é próxima de Belo Horizonte. Então tenho gratas recordações de férias inesquecíveis naquela cidade, ainda chamada Imperial Santa Luzia, uma cidade colonial.
A Santa Luzia, essa de 60 anos atrás, era uma cidade muito tranqüila, amena, uma cidade que preservava, digamos, 90% das características de uma cidade do século 18, com as suas igrejas, com as suas ladeiras, com as suas festas tradicionais, com a sua arquitetura colonial, com os seus casarões, com a sua Igreja Matriz, que sinalizava essa religiosidade do povo mineiro. Esse passado, em quase todas as cidades, era muito bem preservado. Mas hoje essas cidades tiveram uma ocupação desordenada, com grande desrespeito ao patrimônio. Então hoje elas guardam um pouco dessa fisionomia, mas é uma fisionomia que está muito marcada pela ação do tempo e pela falta de cuidados com o patrimônio, que é tão importante.

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Bairro do Carmo

Eu contei essa história numa entrevista na Rádio Inconfidência e até o entrevistador que estava lá achou-a curiosa. Eu nasci na periferia de Belo Horizonte, mas essa periferia era a dois quarteirões da Avenida do Contorno, que é exatamente o marco, o limite da Belo Horizonte de Aarão Reis. E a cidade pós Aarão Reis começava a se expandir. Então eu morava no Bairro do Carmo, a dois quarteirões acima da Avenida do Contorno. E era um bairro que guardava ainda umas características do início da expansão da cidade, pois ela, lamentavelmente, cresceu de forma tão desordenada e tão caótica que desrespeitou um processo de planejamento, que foi o de Aarão Reis.

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Belo Horizonte

Belo Horizonte foi inaugurada em 1897, uma cidade centenária, e na década de 20 e 30, em nome do progresso – uma das marcas da República que estava se consolidando – achavam também que essa cidade precisava ter uma marca da modernidade. Então o que estava feito no passado, que era ainda do século 19, teria que ser apagado da memória, para então se iniciar uma cidade moderna. Com isso Belo Horizonte sofreu muito – não só Belo Horizonte, mas outras cidades brasileiras dentro desse olhar, como Rio e também São Paulo. É obvio que essas evoluções, do ponto de vista cultural e arquitetônico, acontecem e vêm acontecendo sempre, mas Belo Horizonte adoeceu antes de envelhecer e perdeu muito da sua memória, o que é uma pena.
Belo Horizonte, naquela época, década de 50, não só pra mim, mas pra toda geração belo-horizontina, era a cidade dos quintais, a cidade onde as casas tinham quintal. Eu fui criado no fundo de um quintal, assim como toda a minha vizinhança. O meu bairro era um bairro de quintais e a área planejada de Belo Horizonte, do ponto de vista paisagístico, tem uma coisa que me marcou muito, que era a questão da arborização da cidade. Eram árvores que tinham perfume e portanto a rua tinha perfume. E o trânsito era calmo. As ruas eram de mão e contramão e existia um poste no meio da rua dividindo as duas pistas. Existiam casas muito bem cuidadas na área planejada no plano de Aarão Reis. A cidade era muito pequena também, tranqüila, amena, com perfumes e silenciosa. E essa questão da cidade marcou muito nós todos.
Ainda existem magnólias centenárias, que exalam o seu perfume, mas que hoje lamentavelmente se misturam com certos odores que perdem essa idéia de você perseguir um perfume. Eu digo que a minha geração guarda a doce inocência das crianças, dos garotos que ainda saíam pela noite com um certo medo, com um certo receio de voltar tarde para a casa, com medo de encontrar uma mula-sem-cabeça, um fantasma qualquer. Jamais imaginávamos, ou jamais tínhamos ameaça de assalto. Então a cidade perdeu isso por uma série de razões, da história da evolução – ou da involução . Foi uma perda lamentável, porque recuperar e reconstituir isso é impossível, está perdido; fica na memória, fica numa entrevista como esta aqui.

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Pampulha

Depois Belo Horizonte teve uma corrida também dentro desse olhar da modernidade e com um estímulo fantástico, que aconteceu na revolução da arquitetura moderna brasileira, através do Oscar Niemayer pelas suas obras na Pampulha. Então Belo Horizonte adquiriu uma consciência e são os ícones que hoje tem a arquitetura belo-horizontina na década de 40, pós-Pampulha – porque a Pampulha é da década de 40. Esse sopro da modernidade do ponto de vista arquitetônico, influenciado pelo Oscar, marcou a cidade com exemplares que são verdadeiramente singulares, porque estão dentro dessa cultura belo-horizontina da formação dos arquitetos da época, na qual, sem cerimônia, incluo o meu pai e a geração dele. Vários arquitetos da época formavam um grupo de vanguarda, digamos, e então a Belo Horizonte, que tem essa marca da arquitetura modernista pós Niemayer, é muito interessante.
Vários exemplares de edifícios ainda estão preservados, principalmente porque as poucas casas que restam transformaram-se em prédios. Então onde naquele bairro sereno e tranqüilo havia uma residência, cuja família nunca ultrapassava cinco ou seis filhos e que tinha só um carro na garagem – porque as distâncias eram curtas, o transporte funcionava bem, os colégios eram pertos e todo mundo se conhecia – essa residência virou um edifício, e as ruas continuaram as mesmas. Ou seja, naquela rua que tinha, digamos, 30 casas, moravam 30 famílias e tinha no máximo 30 carros, hoje moram 800 famílias e, com o apelo comercial e imobiliário, esses prédios são anunciados como padrão de bem morar. Então 800 famílias multiplicado por 3 carros resulta em dois mil e quatrocentos carros!

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Moradia

A casa da minha infância era uma casa muito modesta. Belo Horizonte, naquele período, nunca foi uma cidade de grandes fortunas, de grandes riquezas. Era uma cidade basicamente de funcionários públicos. Foi criada para ser uma cidade administrativa e a economia da cidade era muito pequena. Então as famílias eram modestas e as fortunas eram raras. E a nossa casa fazia parte desse universo de classe média. Era uma casa pequena, com três quartos. Tinha uma tipologia de casa com sala de visita, sala de jantar, uma cozinha, uma copa, dependência de empregada, três quartos e garagem para um carro. Só isso. Mas eram dois lotes, então a gente foi criado no quintal com frutas, manga, ameixa, amora, limão, laranja, banana, e com horta. O abastecimento vinha do fundo das casas, com galinha ao vivo e a cores(RISOS) – as galinhas hoje são congeladas, então ninguém conhece mais como ela era, com duas pernas… (RISOS) Não tem mais isso. Então o leiteiro levava o leite à porta – isso parece coisa de 200 anos atrás, mas é recente; tem 50 anos isso, esse modo urbano de viver e de conviver com os vizinhos, com liberdade e com intimidade.

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Brincadeiras de infância

E aí era muito curioso, porque a rua que eu morava era a rua onde a gente se encontrava, como a cidade do interior hoje ainda preserva essa questão do passeio. É no passeio que a cidade, depois do expediente, encontra os seus vizinhos na calçada. E as crianças na rua iam jogar bola. Não tinha perigo de trânsito ou de uma perturbação naquele momento que você estava ali se divertindo, ou jogando bolinha de gude ou bente-altas ou futebol. Era muito bom. Então a rua era a área de sociabilidade.

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Belo Horizonte

E o que é interessante também é a boêmia da cidade, daquela geração do meu pai e dos seus amigos. Existiam pouco pontos de referência, de encontro dessa sociabilidade no sentido do espaço aberto a todos. Ou eram os clubes, que eram poucos, ou os bares, que eram muitos. Mas eram aqueles bares especiais, onde todos se encontravam. Isso que eu acho que é uma marca interessante nesse tipo de cidade. A atmosfera de sociabilidade era naquele bar, naquele único bar. Aí já tem a geração do Pedro Nava, do Carlos Drummond de Andrade, o famoso Bar do Ponto, onde se encontravam todos ali: os estudantes universitários, os arquitetos, os engenheiros, os pintores. Então não havia uma dispersão de pensamento.
Eles ficam ali naquele bar e havia algumas petisqueiras, que eram de alguns portugueses que vieram para cá e se instalaram. Então tinha uns famosos, que era da geração do meu pai, do tipo Pub Inglês. As mulheres não iam só iam. Só ia a rapaziada da época, mas também com essa característica, porque iam jornalistas, poetas, pintores. Então saía dali uma atitude intelectual. Hoje esse ponto geográfico se espalhou e acabou formando pontos temáticos. Tem alguns que só vão os músicos; outros que só vão os escritores; outros que são dos advogados. Então aquilo se dispersou. Acho que perdeu um pouco dessa universalidade, que era boa pra se formar em pensamento.
Então o que eu acho interessante é que a maioria dos pais dos meus amigos da mesma idade não são de Belo Horizonte, porque eles vieram depois da Belo Horizonte. As famílias tradicionais ficaram, claro, porque vieram para formar uma cidade. As famílias de ascendência estrangeira, principalmente espanhóis e italianos, vieram para ajudar a construir a cidade. Formavam uma mão de obra especializada. Eram figuras que tinham um talento na pintura, na serralheria, na cantaria, ou seja, trabalhando a pedra para poder revestir os edifícios e fazer as calçadas, então era uma mão de obra muito especializada. Aí veio a geração da Escola de Medicina, da Escola de Advocacia, que eram todas essas figuras que aqui estudaram, que são o Pedro Nava, o Carlos Drummond de Andrade. E a geração mais marcante na seqüência, do ponto de vista da intelectualidade, foram Os Quatro Cavaleiros, os quatro amigos que saíram de Belo Horizonte já com a cultura formada e querendo buscar outro mundo para expansão do pensamento e do talento, que foram o Paulo Mendes Campos, o Fernando Sabino, o Hélio Pelegrino e Otto Lara Resende.
Então eu percebo uma coisa nessa Belo Horizonte dessa época, que era também a geração dos meus pais: alguns ficaram e os outros foram. Esses que foram eram os representantes da cultura belo-horizontina daquela época. Porque outros já tinham ido: o Carlos Drummond de Andrade já tinha ido para o Ministério da Cultura e Educação, com o Gustavo Capanema; o Rodrigo Melo Franco já tinha ido também, que é uma figura fundamental quando a gente fala na memória brasileira, principalmente do barroco de Ouro Preto. Então aí tinha também um sopro muito interessante da modernidade da época de Juscelino Kubitschek, que foi um dos maiores políticos brasileiros, que governou cidades e o país com uma visão prospectiva. Então esse tipo de ação, que acompanha a ação política, também era estimulante, porque dentro desse clima é que aquela geração vai fazer a sua manifestação cultural, intelectual e profissional em cada área do saber.
Então a partir da década de 50, já entrando no período jucelinista, é que começaram a nascer os filhos de Belo Horizonte, cujos pais eram de fora, buscando oportunidade de trabalho, de estudo, etc. Na seqüência é que então começou a consolidar-se a cultura local. Essa geração seguinte, que é a que eu me incluo, já buscava novos espaços. E o que Belo Horizonte oferecia, do ponto de vista intelectual, não era grande coisa, mas começou a criar sua própria cultura. Então os jornais mineiros eram muito respeitados. Os jornalistas vinham para cá trabalhar nos dois jornais mais importantes naquela época. Depois vieram alguns escritores, que também foram tecendo a sua história e a sua profissão em Belo Horizonte.
Até chegar na música, porque o que tinha de música naquela época eram poucos compositores voltados para um tipo de trabalho mais ligado ao samba, mais ligado ao carnaval, que era a grande marca, da minha geração e mesmo da anterior, de manifestação popular em Belo Horizonte. Não tinha outra festa que marcava tanto feito o carnaval, que era característica também de animação e alegria diferente, eu diria mais provinciana. Era uma característica aqui de Belo Horizonte os blocos de carnaval. E escola de samba não houve aqui. Então a minha geração foi marcada por isso, por essa forma de conviver. E começaram a surgir os primeiros bares que foram freqüentados pela minha geração. Aí se consolida, ou pelo menos se aponta uma direção, para a música mineira genuína, feita aqui sem influências que pudessem descaracterizá-la como movimento autêntico, que foi o nascimento do Clube da Esquina.

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Edifício Arcângelo Malleta

É engraçado, porque às vezes tem um ponto geográfico que provoca reunião de determinados grupos, que ali vão se encontrar para inventar as suas coisas; este é o caso do Malleta. Belo Horizonte tinha um empreendimento chamado de Centro Comercial, mas não era nem shopping. O shopping hoje tem outra característica e concepção, mas era um centro comercial, do tipo que já existia nas cidades mais modernas, como São Paulo e Rio. Então Belo Horizonte fez o seu primeiro centro comercial que tinha, além das lojas, além do espaço interno, a primeira escada rolante de Belo Horizonte, que virou uma atração – as pessoas levavam seus filhos para descer e subir. Então esse Malleta foi muito importante. Eu tive a oportunidade de estar presente no Malleta desde o primeiro momento que ele foi inaugurado.
É curioso isso, porque antes do Malleta existia o Grande Hotel. O Grande Hotel era o hotel mais importante e o mais chique de Belo Horizonte, onde as personalidades se hospedavam. Isso era no início da década de 60, porque o Malleta hoje, salvo engano, já está na faixa de 40 e poucos anos. Mas nesse momento, na transição da década de 50 para 60, é que a iniciativa privada demoliu esse hotel, que se chamava Grande Hotel, e cujo sobrenome do proprietário era Malleta.

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Grande Hotel

Então esse hotel era o ponto de convergência de todas as figuras importantes que vinham lidar no Governo do Estado ou que vinham conhecer Belo Horizonte. Então tem histórias de hóspedes ilustres como, por exemplo, Orson Welles. Era o único hotel capaz de receber com qualidade os hóspedes importantes que vinham. E era nessa esquina. Teria vindo para cá também, logo no início, os modernistas de São Paulo, como o Mário de Andrade, o que provocou uma relação com os intelectuais da época. Tem livros que já tratam disso, das trocas de correspondências. E nesse período veio também um jovem arquiteto, que se chamava Oscar Niemeyer, que ficou hospedado nesse hotel várias vezes no período de execução da obra da Pampulha. Então esse hotel era de uma arquitetura eclética. Era um prédio de três, quatro pavimentos. Mas o fato é que ali, dentro do hotel, ocorreram grandes transformações na cultura mineira, na cultura belo-horizontina.
Eu tive o privilégio de escutar uma história do Juscelino Kubitschek que depois foi confirmada pelo próprio Oscar Niemeyer – porque eu escutei também do Oscar. O Oscar fez o projeto da Pampulha e o Juscelino gostou de todos, ou seja, da casa do baile, do iate e da igreja. Mas no projeto do cassino ele fez algumas observações, algumas críticas ao projeto do Niemeyer. Ele falou: “Oscar, está tudo ótimo. Mas o cassino eu não sei… Acho que poderia…” O Oscar foi para o hotel e no dia seguinte apresentou ao Juscelino o que se tornou o projeto definitivo. Quer dizer, em uma noite ele fez o projeto do cassino, que é o Malleta, esse ícone maravilhoso da arquitetura contemporânea. Então o hotel estava obsoleto nesse sentido, de ser um prédio antigo, que exigia reformas. E ele acabou sendo vendido.

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Atividades profissionais

E então foi lançado esse centro comercial, que tinha a tal escada rolante. E aquilo já era um sinal de que Belo Horizonte estava se modernizando, porque já tinha até escada rolante. Então essa era uma idéia muito engraçada.
Nessa época eu não estudava, mas eu tinha a intenção de estudar para seguir o curso ginasial, científico, mas também eu precisava ganhar algum dinheirinho – um dinheiro qualquer servia. E eu tinha um tio, um querido tio, que se chamava Gerson Sabino, irmão do Fernando Sabino, que começava a Editora do Autor, que era do Fernando Sabino, do Otto Lara Resende e tinha um outro sócio, que eu esqueci o nome dele. Eles lançaram um quarteto de livros: um do Carlos Drummond de Andrade, um do Rubem Braga, um do Vinícius de Moraes e um do Paulo Mendes Campos. Esses quatro foram as primeiras publicações da Editora do Autor. Eles foram lançados no Brasil inteiro e esse lançamento foi um sucesso. Esses livros vinham numa caixa, os quatro exemplares, com um projeto gráfico maravilhoso, revolucionário inclusive. E meu tio então me arrumou um bico de vender essas coleções tocando campainha. Então eu saía com os quatro livros tocando campainha por aí. Não era um vendedor, não tinha vocação para isso e nem nunca tive para vendas, mas enfim, ali eu arrumava uns trocados e vendia alguns livros.
E nessa época eu morava no centro da cidade. Meus pais tinham vendido a casa lá no bairro do Carmo, porque naquele momento o que atraía mais era morar no centro da cidade. Então a cidade começou a se verticalizar nesse momento, fazendo os prédios e apartamentos, porque lugar bom de se morar era no centro. Então houve essa corrida para o centro e eu morava a dois quarteirões desse Malleta. Quando o Malleta inaugurou, eu era um vendedor de porta a porta, e tinha convidado um amigo para ser meu sócio, esse sim com vocação para o comércio. Ele falou para fazermos uma livraria lá no Malleta e eu achei ótimo. Então abrimos a livraria no Malleta que, naquela época, não exigia muitos recursos, porque as editoras deixavam o livro em consignação. Nós fizemos a livraria, que era modesta e foi a segunda ou a terceira loja a ser ocupada lá no Malleta. Estrategicamente ela era a primeira loja, logo na entrada do Malleta, a primeira loja à direita. Ainda hoje é uma livraria. Chama, parece-me, O Livro Técnico. E por sorte da livraria – e do bar em frente – abriu-se então uma choperia.
Essa choperia era de dois casais, dois irmãos italianos, um deles casado com uma brasileira. Então eles abriram um bar que se chamava Choplândia. O Choplândia era um botequim que passou então a ser reunião da colônia italiana e, com a livraria, começou a atrair um público, da minha geração e de outras, para ir ali adquirir um livro e depois aproveitar e tomar um chope em frente. E aos poucos as outras lojas foram sendo ocupadas e o centro comercial teve um momento de grande esplendor cultural e de comércio. Então era muito convidativo, era animado o Malleta. A gente estava com 19, 20 anos, por aí. A Choplândia começou a se consolidar como o ponto de encontro de cineastas, de escritores, etc.
E daí surgiu também, um pouco acima do Malleta, uma pequena sala de cinema. E no próprio Malleta já tinha o Centro de Estudos Cinematográficos, que eram os cinéfilos e os estudiosos. Até hoje vários prosseguiram a carreira dentro do cinema, são diretores, etc e tal. Então ali surgiu um momento que tinha o cinema, tinha o teatro, tinha as artes plásticas e tinha a música, que era no andar de cima, no tal Clube de Músicas – de música de bom gosto, de música nova, de jazz e Bossa Nova, porque a Bossa Nova era o movimento mais recente e de maior entusiasmo da renovação da música brasileira.
E foi aí então, no Berimbau, que foi o início de tudo, do ponto de vista da execução da música amplificada e com a presença de um público. Porque até então o Clube da Esquina, lá do Edifício Levy , era um encontro permanente, mas que começou então a ganhar essa dimensão que era de sair fora da esquina virtual.

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Berimbau

O Berimbau teve uma importância muito grande na formação e na confirmação da qualidade do Clube da Esquina. Para lá iam os músicos que já tocavam nos bailes, porque a atração que Belo Horizonte tinha para a minha geração eram os bailes nos clubes. Era o Automóvel Clube, a Sociedade Mineira dos Engenheiros, onde tocavam os conjuntos formados por músicos excepcionais e que não eram compositores. Eles executavam a música com um talento fora do comum, com arranjos especialíssimos. Aí começou a surgir uma nova geração de músicos, que estava tocando nesses bailes da vida, e que ia lá para o Berimbau dar as canjas e tocar as suas músicas – porque nos clubes já existia um repertório que era “clássico”, que eram os sambas, os boleros, a música americana, a Bossa Nova, que já tocava com muita freqüência.
E aqui também teve um músico fundamental para este estímulo, que foi o Pacífico Mascarenhas, que também era um dos freqüentadores do Berimbau. Mas o Berimbau tinha uma coisa muito curiosa. Na passagem pra gente chegar ao Berimbau – porque no Malleta nós tínhamos que subir naquela majestosa escada rolante, ufa, chegava lá em cima, aí andava entre as lojas que existiam no segundo piso – tinha uma solução arquitetônica, que era a marquise do prédio que se debruçava sobre o passeio da Rua da Bahia. Era por essa marquise, que era uma varanda, que dava acesso às lojas voltadas para a rua no segundo piso. E eu me lembro, com uma certa pena, digamos assim, tristeza, porque nós, mais velhos, entrávamos no Berimbau e tínhamos a nossa mesa ali, de frente para o palco. E a gente passava a noite ali. E do lado de fora certos jovens, músicos talentosos , não podiam entrar, porque eles não tinham idade ainda para entrar no Berimbau, porque a idade mínima exigida era 21 anos.
Quem ficava de fora era o Toninho Horta, o Beto Guedes e o Lô Borges. Então eles ficavam do lado de fora. E eu imagino a curiosidade deles de escutar o que acontecia lá dentro, porque a porta não permitia a passagem do som. Até que eles atingiram a idade permitida e passaram a freqüentar também o Berimbau. Mas até então eles passaram por um período muito duro, porque eles não podiam freqüentar o Berimbau. Essa época, então, acho que foi um momento muito importante. E o Berimbau permitiu a troca de linguagens, de talentos, a consolidação das parcerias.
O interior do Berimbau… O Antônio Bolão – Antônio Moraes era o nome dele – também era um jovem que não tinha recursos para sofisticar o ambiente, do ponto de vista de bons acabamentos, de uma decoração que fosse cara. Então era um ambiente à meia luz, o que era um truque pra disfarçar, porque aí você não precisa de muita decoração. As mesas eram muito simples, não tinham sofisticação. O truque que dava sofisticação eram os retratos ampliados de músicos conhecidos na época, principalmente a turma do jazz, que era a base da formação musical dessa turma que surgia. Miles Davis, Thelonius Monk, tinham lá o seu pôster; alguns músicos brasileiros conhecidos na época também tinham. Não cabia, por exemplo, um Tom Jobim e um João Gilberto, porque eles também estavam em início de carreira. Eram respeitados, mas não eram notáveis feito um Pixinguinha, feito um Noel Rosa, que possivelmente deviam ter uma imagem. Era um ponto de encontro de músicos, era uma casa rigorosamente feita só para a boa música.
E o Antônio Moraes – Antônio Bolão – era da minha turma de adolescente, que era do mesmo prédio lá na cidade, na Rua Espírito Santo com Goitacazes, no Edifício Santa Mônica. E a gente se encontrava diariamente. Então íamos para a casa do Antônio Bolão escutar uns discos que ele tinha, e ele estava por dentro de todas as novidades, sabia tudo sobre música. Ele tinha uma coleção de discos absurda, mas só música vanguarda, música que estava realmente formando culturalmente tanto ele como os outros. Então o Berimbau tinha essa característica de qualidade. E lá dentro você escutava música de qualidade. Era sempre um encontro muito prazeroso.

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Bar Lua Nova

Muitos deles eram clientes da livraria, mas a livraria era pequena e era mais ou menos setorizada também. Poucas publicações naquela época tinham correlação com a música. Mas havia um interesse com relação ao que se fazia, da literatura que surgia. E, naquela época, era a única livraria no Malleta. Então se tornou uma referência. Os escritores que freqüentavam a livraria faziam o ponto deles num bar mais acima, que se chamava Lua Nova, e que eram figuras mais velhas comparandas com os jovens. Tinha, por exemplo, o Murilo Rubião, que era um freqüentador assíduo daquela mesa do Lua Nova. Era uma mesa em que se sentava, por exemplo, o Murilo Rubião, o Vander Pirole, o Ângelo Prazeres, o Roberto Drummond. Era o pessoal que estava iniciando carreira e outros que eram referência também da escrita ou da literatura que se fazia. Jornalistas se sentavam nessa mesa e também vários artistas. Tinha um que trabalhava em jornal e que se sentava nessa mesa, que era o Carlos Estevão, o famoso Carlos Estevão, que não era nem belo-horizontino. Mas teve uma época que ele veio morar em Belo Horizonte e tinha um sítio em Santa Luzia. Então era um camarada que também era assíduo.

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Cantina do Lucas

E abaixo desse Lua Nova tinha a Cantina da Lucas. O Lucas foi o terceiro proprietário, mas foi o que emprestou o nome. E o nome definitivo ficou como a Cantina do Lucas. Porque primeiro foram aqueles italianos que venderam para um outro italiano, chamado Sartori, que faleceu recentemente, há um mês atrás. Mas o Sartori então adquiriu dos Cheri e eu acho que o nome não mudou. Mas depois o maître dele era o velho Lucas, que era o maître do Minas Tênis Clube e ele foi para lá; num certo momento, o Sartori vendeu para o Lucas, cujos filhos assumiram a direção. Era um ponto muito freqüentado e a maioria dos seus fregueses eram cineastas e músicos também, principalmente o Tavinho e o Fernando – os outros iam direto para o Berimbau. E foi nesse momento que o Tavinho se consolidou como um cara fantástico para trilha sonora, porque ele era amigo dos cineastas. Eu estou recordando essa cena aqui, mas agora que eu vejo de onde vêm as trilhas do Tavinho.

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Atividades profissionais

Aí eu vendi a livraria, porque eu voltei a estudar, mas continuei freqüentando o Malleta. O interessante é que na condição de estudante ainda, sem estar formado, eu recebi a encomenda de fazer um pequeno cinema, num prédio vizinho ao Malleta. Foi encomendado a mim por dois cinéfilos. Lamentavelmente esse cinema durou pouco tempo. Esses dois cinéfilos, o Valdimir Luz e o outro sócio dele, o Otto, arrumaram as cadeiras de um cinema antigo, que já estava desativado. Na verdade o projeto era muito simples: bilheteria e pagar a luz. E ali tinha uns 60 lugares, mas eram filmes cult. Então os cinéfilos saíam do Malleta e iam assistir um filme. Era muito interessante, mas a dificuldade maior foi concorrer com a cadeia de cinema que existia. Era restrito você ter ali permanentemente filmes bons. Era difícil também as companhias que representavam chegarem a Belo Horizonte. Então, por dificuldade, fechou.
Mas o fato é que a Cantina do Lucas era marcada pelos cinéfilos e cineastas. Eu, por exemplo, pela minha proximidade frente a frente, vis-a-vis com o bar e com a livraria, pouco trabalhava. Porque tinha gente que ia almoçar, tinha gente que ia à tarde e tinha gente que ia à noite. Então eu estava lá sempre disponível: “Veveco, vem para cá.” E eu ia pra lá. Eu acho que depois do Wilson Grey, fui eu que mais trabalhei sem jamais ter feito um filme, porque os cineastas meus amigos falavam: “Estou pensando em fazer um filme e você vai trabalhar.” Eu falei: “Ótimo” – mas aqueles filmes, às vezes, não aconteciam. Também não ia trabalhar. Não sou ator. Mas sempre tinha uma relação, porque é ação entre amigos. Não tem recurso, não tem ator, não tem coisa, então os amigos se prestam às vezes de atores. E muitos começaram assim, porque tinham talento.

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Clube da Esquina: Origem do Clube

E eu conheci a turma toda do Clube da Esquina no Berimbau. Curiosamente eu não fui nenhuma vez no Edifício Levy, embora tivesse amigos, que não eram ligados ao Clube da Esquina, que moravam lá. Da minha geração tinha a turma do Bairro Santo Antônio, a turma do Bairro da Serra, a turma de não sei o que, e tinha a turma do Centro. A turma do Centro era formada por vários grupos de jovens que moravam em diversos edifícios do Centro. Então ali a gente se encontrava, se trombava. O Malleta reunia quem estava ali pelo Centro.

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“Bituca”(Milton Nascimento)

Quando o Milton tirou o segundo lugar com “Travessia” a gente já era amigo. O Milton, o Fernando, essa turma toda. Nós já tínhamos nossos encontros. Não eram cotidianos, mas eram freqüentes. E o Milton, além de crooner, era um camarada muito generoso e muito disponível. Quer dizer, o que o Milton fez de serenata em Belo Horizonte… Eu pelo menos fui em várias.

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Pacífico Mascarenhas

O Pacífico era uma figura muito curiosa nesse aspecto, porque ele tinha um caminhão, que era o caminhão da indústria de tecido que era da família dele, onde ele colocava em cima um piano armário, uma bateria e o baixo – que naquela época era o baixo acústico – e o Paulinho Horta que era o baixista. Então saíamos pela madrugada como seresteiros e o Milton era crooner, era o cara que abria as serenatas. E outros também cantavam. Tinha Daise Guachini, que era a voz feminina que estava sempre presente. Tinha o Nivaldo Ornellas. Então era uma banda completa que saía em cima de um caminhão. E o caminhão estacionava silenciosamente para não despertar. Mas era tudo combinado com as moças e aí era aquele célebre: “Um, dois, três e… pá!” Aí começava a música em cima de um caminhão, que circulava muito.
O roteiro de bairros era Santo Antônio, porque o Pacífico, era um poeta seresteiro que usava a música para encantar o coração das meninas de Belo Horizonte, com os músicos dessa qualidade. Então ele era o carro-chefe. E embora pianista, talvez ele fosse o flautista de Hamlin se ele tocasse flauta – todo mundo seguia o Pacífico. Então o caminhão circulava essas madrugadas em torno da área dos bairros tradicionais de Belo Horizonte.
Era Santo Antônio, principalmente, o Bairro de Lourdes… Então era sempre uma madrugada tranqüila, tinha lugar pra estacionar.
Eu me lembro de uma dessas, eu não sei se o Bituca estava presente, mas foi na Rua Tomé de Souza, na casa da namorada de um amigo meu, do Cid Horta, que já faleceu. Foi um episódio muito engraçado. Estava tudo armado, eu não sei qual era a banda tocando em cima do caminhão; na hora que contaram “um, dois e… três!” e saiu o primeiro acorde, escutamos uma voz dizendo o seguinte: “Essa não!” E o Cid, achando que era o sogro, disse: “Pois não, Doutor Barcelos, qual a que o senhor prefere?” Ele falou: “Essa não, turma de vagabundos! A essa hora vocês vem aqui me acordar?” E era o vizinho do fundo insatisfeito. (RISOS) Ou seja, o cara perdeu a serenata maravilhosa, porque só tinha gente ali da melhor qualidade. E várias vezes eu tive a oportunidade de sair. Era uma constante.

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Tavito / Nelson Angelo

Aí, depois veio a geração seguinte, também começando a sua obra nas noites. Foi o Tavito, um grande seresteiro que circulava, o Nelsinho Ângelo também. Eu acho que foram as últimas serenatas feitas aqui. Então era um bom programa. Com aquele velho truque de você avisar antecipadamente. Claro que na varanda da casa da Julieta fazia-se uma serenata para a Julieta, às vezes estrategicamente para não aborrecer os pais. Mas sempre tinha escondido, lá no jardim, uma bebida, um tira-gosto, (RISOS) que era o que forrava a turma.

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Clube da Esquina: Avaliação

Essas serenatas eram de antes do festival. Eu acho que tem uma coisa muito importante para nós: o Tavinho é de Juiz de Fora, o Fernando veio de Caldas, consolidando essa geração aqui que se tornou belo-horizontina. É que foi a primeira oportunidade que nós tivemos – eu não como músico, mas participando dessa mudança – da música brasileira, essa música que se diferenciava da produção brasileira de música. O eixo era só Rio-São Paulo, principalmente o Rio, que comandava a música brasileira. Tinha que sair do Rio, porque a cidade maravilhosa inspirava todo mundo. Caymmi foi para o Rio, por exemplo; João Gilberto acabou no Rio. Então o grande movimento musical acontecia no Rio de Janeiro, porque o Rio era atração turística do Brasil e da América do Sul. Tanto é que o cara que fazia um roubo nos filmes americanos, ou mesmo europeu, o sonho dele era roubar e ir para o Rio, (RISOS) porque o Rio tinha mulheres, mulatas, praias maravilhosas, comida maravilhosa, clubes incríveis de jazz. Está lá o Dentro das Garrafas, que foi um marco genial, que eu tive oportunidade de freqüentar algumas vezes. Então quando surgiu a “Travessia”, o Brasil despertou: “Opa, tem uns mineiros aí. Essa turma está fazendo uma música de qualidade diferente. Então “Travessia” foi, sem dúvida nenhuma, o marco que assinalou que aqui em Belo Horizonte estava acontecendo um movimento. E o Bituca era nosso porta-voz. E que voz, hein! (RISOS)
Então o Clube da Esquina foi formando esse grupo de uma maneira informal, porque era um encontro entre amigos que amavam a música e que eram influenciados pelas grandes revoluções da música que ocorreram no mundo. E tem também a transformação do mundo devido ao 68. Eu tive a oportunidade de viajar algumas vezes para fora, junto até com o Milton, uma vez com o Fernando. Então a gente vê essa alegria. Hoje, com essa freqüência maior do Milton e do Toninho no Japão, a gente vê que está consolidado um prestígio pela qualidade, porque não é nada de marketing – porque você pode vender o seu produto se você faz um marketing agressivo. Se você é um bom estrategista, você impõe, mas não fica. Então quando a coisa é importante e tem qualidade, você não precisa fazer uma jogada de venda, no sentido do marketing para vender um produto que não tem expressão ou qualidade. Então essa coisa que tem valor fica, torna-se clássico. Os Beatles são um clássico hoje; o Clube da Esquina com certeza vai ser e é, sem dúvida nenhuma, já um clássico na condição de ser, como a Bossa Nova. O que a gente escuta de Bossa Nova teve aquela influência do Jazz. Mas também há uma inversão hoje, com jazzistas dizendo ter a influência da Bossa Nova.

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Paris

Com a turma do Clube, a primeira viagem que fizemos junto com o Bituca foi na década de 80. Eu acho que foi a primeira viagem que o Bituca fez ao exterior. Houve um convite para ele tocar em Paris, no Teatro de La Ville. É um teatro maravilhoso, sofisticado, quase às margens do Senna. E a banda, naquela época, era formada pelo Wagner Tiso, Toninho Horta, Robertinho Silva, Luisão Alves e o Bituca. E foram uns agregados, amigos e escudeiros. E fomos juntos também, na condição de ver, pela primeira vez, o Milton na Europa. E foi muito interessante.
Essa turma era o Fernando Brant com a Leize – minha comadre Leize – Marisa, minha mulher, a Zezé, que é irmã da Leize, e duas irmãs do Fernando, Aninha e a Vina. Nós ficamos 20 dias lá em Paris. Nós estávamos por conta da farra e o resto trabalhava (RISOS). Alguém tinha que trabalhar, se não a gente não podia sair. Mas tem uma coisa marcante, que é o seguinte: desde a estréia até o último dia, o teatro era todo lotado. E foram músicos, personalidades do mundo inteiro, que amavam a música e esperavam com expectativa a ida do Milton à Paris, principalmente a colônia brasileira, saudosa e orgulhosa e que também esteve presente.
Mas curioso é o seguinte: nesses lugares que a gente vai, claro que tem brasileiro, mas a maioria da platéia é de estrangeiros. Então eu acho que isso é um ponto muito interessante. E prova disso é que nós estávamos lá uma das noites e deram o convite para que aquela turma que estava ali junto fosse assistir a um show do Silvio Rodriguez e Pablo Milanez que, por coincidência, estavam dando um show no teatro da Unesco, que é um teatro esplendoroso. E quem fez o convite era uma jornalista muita simpática, muito influente na Europa. Ela chamava Regine Berlac e tinha um programa na Radio France, que era sobre música latino-americana, então ela sabia de tudo e tinha uma admiração… Eu não sei quem promoveu a ida do Milton lá.
Eu me lembro muito do Marcinho Ferreira, que também estava iniciando um trabalho junto com o Milton, que inclusive não foi nessa viagem, mas tinha também colaborado nesse processo de acertar as coisa lá; então a Regine Berlac chegou uma noite e falou: “Tem aí o Pablo Milanez e o Silvio Rodriguez fazendo um show do teatro da Unesco.” E fomos todos para lá. Eu não sei se naquela noite tinham uma folga ou se foi depois, porque o horário do Milton permitiu que a gente fosse. Enfim chegamos, nos assentamos e a platéia já estava toda tomada. Quando eles iniciam o show, de repente, corre lá pelos bastidores que o Milton estava na platéia, e aí foi uma coisa muito emocionante para o Milton – e para nós motivo de orgulho – porque eles interromperam o show, falando que o Milton estava presente na platéia. Acenderam o holofote e tinha uma luz que procurava o Milton na platéia; aí ele foi descoberto, naquela timidez natural dele . Então acabou se levantando e foi um aplauso geral do público. Quer dizer, ele não estava fazendo espetáculo. Aquilo era um sinal de que ele já tinha prestígio lá na Europa. Aí ficamos lá essa temporada.
Tem uma outra passagem muito interessante dessa viagem, que aconteceu com o Toninho Horta. A volta do nosso vôo fazia uma escala em Barcelona, onde paramos e nos hospedamos num hotel perto da Praça Catalunha, perto do famoso Las Ramblas e do famoso mercado La Boqueria, um dos mercados mais incríveis que eu conheço. Nós íamos ficar só uma noite, porque íamos tomar o vôo no dia seguinte. Mas logo que chegamos o Toninho tava doido, porque ele falava que o sonho da vida dele era ir num lutier famosíssimo e comprar um violão. E nós, que gostamos de música também, queríamos ir para o La Boqueria comer uns tapas, tomar umas cervejas e claro, provar uma cerveja catalã legítima. Então fomos lá para o La Boqueria.
E o Toninho mal deixou as malas, fez o check-in, correu lá pra tal loja. Acho que são dois lutiers muito famosos na Espanha, mas esse lá em Barcelona era o máximo. E combinamos com o Toninho, para não haver desencontro, da gente sair às cinco horas da tarde pra gente jantar. E ficamos esperando o Toninho e ele não aparecia. Eis que de repente surge o Toninho – foi uma coisa fantástica – surge o Toninho com um violão maravilhoso, lindíssimo, e atrás dele uns cinco músicos de Barcelona. Porque aconteceu o seguinte: o Toninho entrou na loja e começou então a selecionar. Pedia: “Agora aquele!” E quando o Toninho estava lá dentro, eles ficaram tão entusiasmados que não o largaram mais. Então o Toninho foi para o hotel e eles foram juntos. E lá no hotel eles queriam conhecer o resto da banda.
Eles foram de uma hospitalidade, de uma amabilidade incrível, porque até convidaram a todos para, à noite, ir num botequim – que era o Berimbau de lá (RISOS) – para que nós escutássemos a interpretação que eles fazem da música brasileira e também para fazer uma integração, uma amizade com os músicos de Barcelona. Eu me lembro bem, era uma casa muito interessante, porque era num porão, e curiosamente o proprietário era argentino. E era um clube de boa música; foi uma noite maravilhosa, porque eles levaram os seus violões e montaram uma banda com cinco violões. E o Toninho que comandava a coisa. Aí correu a notícia de que eu era cozinheiro e eu fui pra cozinha fazer um mexidão. Então esse episódio foi interessante.

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Nova Iorque

Depois eu e a Marisa tivemos a oportunidade de viajar com o Bituca e com o Marcinho Ferreira. Aí também foi uma viagem inesquecível. Éramos nós quatro. Foi na célebre noite no Lincoln Center. Foi um tributo ao Tom Jobim e foram vários músicos americanos, franceses. Isso foi em 95. Alguns amigos que já moravam em Nova Iorque se incorporaram ao grupo e a gente saiu várias vezes pra comprar disco. E o Bituca, invariavelmente, era reconhecido, e aí a loja parava. E os vendedores faziam uma justa homenagem, tocando as músicas do Milton naquele ambiente. Foi uma tarde maravilhosa.
Era plano encontrar com o David Parsons, para ver então o ensaio geral da música que o Bituca tinha feito para a peça. E eu me lembro que nós estávamos no hotel – acho que era Rua 47, se não me engano – e saímos eu, a Marisa e o Marcinho, para dar uma volta. E o Bituca estava cansado e falou: “Eu estou cansado, fico por aqui. Mas, olha, vamos nos encontrar às cinco horas, porque nós temos que ir lá no David Passons. Ainda temos que descobrir o endereço dele, temos que chegar lá certo e eu estou muito curioso para ver o ensaio geral.” Saímos andando e perdemos o horário. E nós tivemos que sair correndo. E chegamos no hotel com o Bituca já esperando, um pouco impaciente: “Puxa, vocês demoraram um pouco. Nós temos que sair correndo. Marcinho cadê o endereço?” Ele falou: “Não sei do endereço, temos que achar o endereço.” E foi engraçado pra caramba, porque nós não podíamos atrasar. E na hora que o Marcinho conseguiu o endereço, ele olhou assim e falou: “Puxa, é Rua 47.” “E qual número?” “Número tal.” Saímos na rua e era em frente! (RISOS) Que coincidência, que sorte! E foi uma recepção maravilhosa. O Bituca entrou sobre aplausos, foi uma coisa bacana.
E nesse tributo ao Tom Jobim o elenco era de músicos brasileiros e americanos. Tinha o Sting, se não me engano tinha o Miguel Legan, tinha o Caetano, tinha o João Gilberto, tinha o Chick Corea, acho que o Herbie Hancock também. Então era um time bacana. Foi emocionante.

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Paris

Eu acho que tem também outra história de ter viajado, mas a Marisa não foi. Foi o Tavinho, o Fernando, o Beto Lopes e eu. E eu, de que vez em quando, faço dublê de cozinheiro, porque eu gosto de cozinhar – exatamente porque proporciona uma história como essa. Em Paris, por exemplo, uma noite eu fui na casa da Regine Berlac, onde cozinhei pro Pablo Milanez e pro Silvio Rodriguez. Foi um encontro desse que ocasionou isso, porque o instrumento que eu toco é fogão, (risos) porque dá essa chance de conviver com essas pessoas. Então é um pouco de esperteza. Eu lembro que o apartamento da Regine Berlac era muito pequeno, então foi pouca gente. Erámos nós mesmos da banda, mais eles e alguém da banda deles. Devia ter talvez umas 20 pessoas no máximo. E foi depois do espetáculo, porque aquela coincidência do Milton encontrar com essa turma em Paris não podia ser interrompida naquela noite, porque eles iam embora logo, no dia seguinte. Então resolvemos esticar e a Regine Berlac falou o seguinte: “Vamos lá em casa, mas eu não tenho nada pra fazer pra essa turma. Vamos fazer um abastecimento.” Como ela me disse que a cozinha dela era muito modesta, porque o apartamento era muito pequeno, eu já fui então preparando uma receita. Falei: “Tudo bem, já sei o que é.” Eu me lembro que nós entramos numa loja, dessas que não fecham, 24 horas. O show acabou por volta da meia noite e eu comprei dois frangos daquela vitrine, de televisão de cachorro. Cheguei lá e fiz um mexidão, que saiu legal, com queijo francês misturado. Deu um mexidão, um risoto de frango. Eles gostaram. Acho que deu certo.

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Teresina

Mas lá em Teresina foi interessante. Foi em 97 – será que tem isso tudo? O fato é que eu tinha recebido uma encomenda para fazer um jantar lá em Teresina, em comemoração a um jornal local que fazia, parece, 15 anos de existência. E os caras que me encomendaram queriam saber se eu topava ir lá fazer uma comida mineira. Também me perguntaram se eu podia levar uma música mineira. Eu falei: “Eu topo. Nós vamos levar como música mineira o Tavinho Moura, o Fernando Brant e o Beto.” Porque eles já estavam fazendo uma série de shows, já estavam com tudo afinado, roteiro, etc – era a Conspiração dos Poetas. Então os caras toparam e fomos lá pra Teresina. E foi engraçado pra caramba, porque nós ficamos lá três ou quatro dias, e foi ótima a recepção, muito cordial, um tratamento espetacular.
E aí teve uma passagem engraçada, porque chegamos por volta do meio dia, fizemos o check-in e já tinha um pessoal pra nos receber. E uma das pessoas se aproximou e falou: “Olha, tem um pessoal ali no bar” – era uma sexta feira – “que queria conhecer vocês.” Quer dizer, os conhecidos eram o Tavinho, o Fernando, o Beto e eu, que estava ali como cozinheiro, fazendo parte da trupe. E na hora que nós chegamos no bar, para surpresa nossa, quem estava ali almoçando era o governador do Piauí na época. Então fomos apresentados e ele foi muito cordial, muito gentil. Virou para o Fernando e falou: “Eu sou muito amigo do seu irmão, do Roberto. A gente se encontra em Brasília. É um prazer muito grande você estar aqui em Teresina.Vamos tomar um cerveja.” Aí ficamos ali, tomando cerveja e batendo papo com ele, que era muito simpático. A hora que ele levantou, disse: “Olha, eu sinto deixar vocês aqui. Eu tenho que ir para o Palácio pra fazer uns despachos, mas fiquem com o meu cartão.” Deu um cartão pra cada um e falou: “Está aqui o meu telefone direto, particular, da minha casa. E esse daqui direto, que pouca gente sabe. Se vocês tiverem qualquer problema aqui em Teresina, é só me ligar que resolvo na hora.” “Ô, Governador, não vamos precisar dessa hospitalidade.” E não é que precisamos do governador no dia seguinte?
E isso é que foi interessante, porque nós ficamos lá na sexta-feira, saímos, nos levaram pra jantar e fomos dormir tarde. Estávamos por conta do show, e o jantar que eu ia fazer seria no sábado. E na hora que chegamos no hotel, combinamos o seguinte: “Amanhã vamos nos encontrar aqui no café da manhã, pra planejar o que a gente vai fazer. Por volta de nove e meia está bom?” “Está. Nove e meia.” Aí nos encontramos lá no hall às nove e meia e fomos pra sala de café. Era um hotel ótimo, cinco estrelas, com um café da manhã maravilhoso. Mas na hora que chegamos lá, nos sentamos à mesa, veio o garçom, muito gentil, e falou: “O que vocês querem pra beber?” O Fernando disse: “Uma cerveja.” – Cervejista que era o Fernando… Aliás todos nós somos ceverjistas e todo mundo aprovou a idéia dele de tomar uma cerveja. Claro, aquela hora o calor de Teresina… E o garçom disse: “Olha, infelizmente eu sinto decepcioná-los, mas o ambiente aqui é só de café da manhã. Eu não posso servir cerveja aqui. Cerveja só é servida depois das 11 horas, que é a hora que desmontamos a mesa.” Aí o Fernando disse pra ele o seguinte: “Olha, ontem nós estivemos aqui nesse mesmo lugar com o governador do Piauí e ele nos deu um cartão.” E aí o Fernando tirou o cartão: “Está aqui o telefone dele. E ele falou que se a gente tivesse algum problema, era para ligar para ele. Você quer que a gente ligue para ele? Ou você vai trazer a cerveja?” (RISOS) A cerveja veio no ato, rapaz. Bebemos cerveja a tarde inteira, porque o cartão do governador foi nosso salvo-conduto…(RISOS).

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“Travessia”

Aqui tem uma Alameda Travessia, mas pouca gente sabe disso. Em Belo Horizonte, a alameda da Praça da Liberdade, aquela alameda monumental cheia de palmeiras que foca o Palácio da Liberdade, vindo da Avenida João Pinheiro, chama-se Alameda Travessia. Essa Alameda Travessia foi na época do governo Tancredo e eu, naquela época, trabalhava na Secretaria Municipal de Meio-Ambiente. Então, por um projeto de um deputado ou de alguém do governo, decidiram batizar a alameda de Alameda Travessia, em homenagem à “Travessia”, no sentido de “Ditadura nunca mais”. E naquele momento foi o primeiro governo eleito. Eu acho que foi o primeiro do Tancredo, como parte do movimento das “Diretas já”. E eu, junto com a Marisa, fizemos o projeto da placa, que hoje eu não sei, me disseram recentemente que não está mais lá. E a placa que nós fizemos lá na praça era de vidro. E era de vidro para não ser uma barreira visual. E então as notas, com arranjo do Wagner, ficam flutuando, porque é impressa no vidro. Várias vezes eu fui lá e presenciei gente chegando, grupo de meninos de uma escola musical, tocando com flauta a “Travessia”, seguindo a partitura do arranjo do Wagner. É muito interessante. Foi uma idéia boa batizar como Alameda Travessia.

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Cozinhar/ “Vevecos, Panelas e Canelas”

Meu pai cozinha muito bem, então eu ficava ali, meio que de ajudante do meu pai. E uma vez eu disse numa entrevista que eu tinha sido boy de cozinha, porque eu tirava xerox de receita, transcrevia receita para o meu pai antes de iniciar a operação. E quando a gente é jovem, a mesada é curta e não tem grana pra gastar em restaurante, em festas. Então você tem que chegar em casa e fazer um mexidão. É ou não é? Então eu me especializei até em mexido. (RISOS). É o que tem na geladeira. Daí eu me envolvi com isso. Eu falo que sou um amante da culinária, que gosto de cozinhar. Então eu comecei a cozinhar nessas circunstâncias. O engraçado é que eu fui entrevistado em uma ocasião num programa de culinária voltado para as mulheres. E eu disse pra apresentadora do programa que eu tenho a cozinha como um hobby, e eu me sinto muito confortável dentro desse meu hobby e com vantagem sobre todos os demais hobbystas, porque eu como o meu hobby! (RISOS) Eu duvido que o cara que coleciona selo vai comer, por exemplo, o “Olho de Boi”, aquele selo caríssimo para caramba. (RISOS) O cara que coleciona tampinha, aeromodelo, ele não come. Então eu como o hobby.
E a propósito disso, eu vou aproveitar para fazer um reparo, porque nessa condição de cozinheiro amador, o Fernando e o Bituca fizeram uma música, que se chama “Vevecos, Panelas e Canelas.” E eu quero esclarecer uma coisa, porque parece que é uma homenagem exclusiva pra mim. Mas todos sabem que é o “Tavinho das Panelas” – razão pela qual aparece o vocábulo Panelas na letra – e “Canelas” também por ser um ingrediente de cozinha, mas é o Chico Canelas, lá de Três Pontas, que é nosso amigo também. E o Fernando colocou Veveco no plural. Então são os “Vevecos, Panelas e Canelas.” E nós fizemos uma foto histórica, da única vez em que estivemos juntos, quer dizer, os autores, Bituca, Fernando, “Vevecos, Panelas e Canelas”. Ela foi feita lá em Três Pontas, numa dessas idas.

Voltar ao topo VIAGEM A TRÊS PONTAS

Três Pontas

Tem uma viagem interessante pra Três Pontas. Uma das primeiras que reuniu muita gente. Eu não estou muito certo qual foi o motivo. O motivo foi nobre com certeza, mas foi uma época emocionante, porque fomos todos de Belo Horizonte. Acho que foi a primeira vez que saiu um bando. Eu lembro de termos dois ônibus, por aí. Fomos lá pra Três Pontas e ficamos lá, dois ou três dias, numa festa sem fim. Era uma homenagem… Acho que foi Bodas de Ouro, com certeza. Foi linda.

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Rio de Janeiro

Mas depois fizemos uma outra, memorável. Essa foi muito divertida. Foi uma gravação que o Milton fez de “Sentinela” no Rio. Eu não sei qual estúdio, não sei qual era o selo do Bituca na época, mas eu me lembro que saímos daqui, da sede da Agência Livre, que o Marcinho então comandava nessa época. E tinha sido alugado um ônibus. Parece-me que a capacidade do ônibus era de 46 pessoas, por aí. Era um ônibus incrível, porque na verdade era um bar sobre quatro rodas. Então nós fomos para o Rio para gravar, para fazer o coro dos Peixinhos do Mar. E esse coro era bastante amador, porque tinha músicos e pessoas de outras áreas. Eram os amigos do Milton, do Tavinho e do Fernando. Então foi um bando nesse bar volante.
Saímos daqui por volta da meia-noite. O estúdio estava reservado para 9 horas. E, de novo, foi esse bando todo. Eu falo que é uma gambazada, porque tem aquele ditado que diz que um gambá cheira o outro. Então era uma turma prazerosa, cheia de gambá. E a gambazada foi lá para o Rio. Chegamos lá por volta das 9 horas. Fizemos a gravação. Agora o que é interessante é o seguinte: esse coro foi batizado – e está lá o crédito desse coro – de Falta de Coro (RISOS), porque nem todo mundo era cantor. E aí, pra tirar um sarro, eu costumo dizer que eu gravei um disco, que foi um grande sucesso, chamado Sentinela, e que eu tive uma canja do Milton. (RISOS)
Depois dessa gravação nós fomos jogar uma partida de futebol que já estava marcada, entre essa gambazada contra os gambás do Rio. E foi uma partida de futebol memorável, porque nós estávamos varados. E eu acho que foi uma esperteza da turma do Rio, porque sabiam que nós estávamos prejudicados pelo tempo da viagem, sem descansar e sem dormir. Fizeram essa provocação e fomos jogar lá no sítio do Chico Buarque, lá no Polytheama. Então tinha uma turma nos esperando. Eu tenho uma certa desconfiança do juiz dessa partida e também da organização, porque sabiam que nós estávamos trôpegos. Mesmo assim, resistimos bravamente. (RISOS) Foi uma derrota não tão traumatizante, mas não deixamos de fazer uns gols. Eu também tenho uma foto desse time. Inclusive tinha um jogador famoso, que também foi gravar e que fazia parte da Falta de Coro, que era o Reinaldo. Essa aí foi uma viagem boa, divertida.

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“Vevecos, Panelas e Canelas”

Nós dois, eu e a Marisa, fizemos o projeto da casa do Bituca lá no Rio, no Itanhangá. E fizemos o projeto da casa do Fernando, aqui em Belo Horizonte. E um dia, eu e a Marisa fomos fazer uma visita de rotina à obra, e o Fernando me fez uma surpresa que me deixou bastante contente e emocionado. Ele falou: “Vem aqui que eu quero te mostrar uma coisa.” Eu me lembro que nós estávamos dentro do carro dele, indo para algum lugar, talvez num fornecedor. E foi nessa hora que ele pôs a fita no carro. Ele falou: “Olha, tem uma última música que eu fiz aqui com o Bituca. O que você acha? Vou por aqui para você escutar.” Eu falei: “Rapaz, mas que música bacana e tal. Excelente, que maravilha.” Ele falou: “Pois é. Ela chama ‘Vevecos, Panelas e Canelas.’” Então ele me deu a notícia assim, de repente. Depois nos reunimos aqui algumas vezes, pra comemorar.
O Tavinho das Panelas é o Tavinho Bretas. Ele tem esse apelido, e eu não sabia, porque aqui ele tinha uma representação de pedra-sabão, que também incluía panelas de pedra-sabão. Então ele tem esse apelido aí no paralelo, que é Tavinho das Panelas. E o Chico Canelas dizem – não sei, até fica chato falar isso – porque ele dá muito canelada nos jogos de futebol, nas peladas. Então ele ficou com o apelido de Canela. Eu não sei… (RISOS) Pode ser que seja.
É uma bela homenagem. Essa música foi gravada a primeira vez, eu não sei há quantos anos, por uma tal de Mara Nascimento, lá do Rio. Eu tinha esse disco, mas está perdido. Eu não sei onde ele está. Eu ganhei da própria Mara, porque nós estávamos no Rio. E eu acho que foi nessa época que a gente foi gravar o Sentinela que, aliás, eu fui gravar e que o Milton deu uma canja. (RISOS) Então eu nunca mais vi a Mara, mas a primeira gravação foi dela. Depois foi do Beto. Depois o Bituca gravou também, naquele acústico lá em São Paulo. Depois o Fernando e o Tavinho também gravaram. Então isso aí é uma homenagem para os “Vevecos, Panelas e Canelas.” E isso me coloca numa posição privilegiada, por ter o nome ligado a essa música.
“Vevecos, Panelas e Canelas” diz o seguinte: “Eu não tenho compromisso/ Eu sou biscateiro/ Que leva a vida como rio e desce para o mar/ Fluindo naturalmente como deve ser/ Não tenho hora de partir nem hora de chegar/ Hoje estou de bem com a vida/ Estou no meu caminho/ Respiro com mais energia o ar do meu país/ Eu invento coisas e não paro de sonhar/ Sonhar já é alguma coisa mais que não sonhar.” Então é isso aí. Esses sonhos e essa questão de não ter hora de partir e nem de chegar. Tem uma passagem da música que fala assim: “Para quem não me conhece eu sou brasileiro.” Quer dizer, eu sou mineiro, mas o brasileiro aqui ampliou o universo. E eu fiquei muito feliz. Sempre que eu escuto essa música, me traz muita emoção.

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Atividades profissionais

Quando estava em construção a casa do Fernando, saíamos sempre ele, a Leize, eu e a Marisa, à cata de materiais. Porque Belo Horizonte estava num processo em que várias casas, que eram referências para nós, estavam sendo demolidas. E nós tínhamos imaginado uma casa que pudesse ser feita, também por uma questão de custo, com algumas dessas referências. Então a gente passava pelas ruas e sempre se via: “Vende-se material de construção: janelas, portas, escadas, etc e tal.” Então a gente imaginou colocar na casa do Fernando algumas referências dessas casas, que tinham um olhar um pouco saudosista, romântico, da memória da casa. E assim fazíamos. Saíamos nós quatro de vez em quando, procurando alguma obra que estivesse em demolição e que tivesse peças que poderiam ser colocadas na casa do Fernando, sem perturbar o seu conceito e sem prejudicar sua arquitetura.
Numa dessas casas, que era atrás da Igreja da Boa Viagem e que estava sendo demolida, a gente se aproximou do cara que estava demolindo e dissemos: “Bicho, você vai vender essas portas e janelas?” Ele falou: “Vou sim, vou vender.” Nós falamos: “Gostamos dessa, dessa e dessa” – porque já estavam encostadas no muro. Ele falou: “Olha, infelizmente essas aqui eu não posso vender, porque já veio um cliente e já reservou.” Aí insistimos muito e o cara não deu o braço a torcer. Então ele falou: “Compromisso é compromisso, mas eu combinei com esse cara 11 e meia. Se 11 e meia ele não vier aqui, tudo bem. Espero até meio dia, dou um tempo e daí eu vendo.” Ficamos animados, então eu falei: “Vamos nos encontrar amanhã pra virmos aqui, nessa casa. Mas em vez de virmos direto, vamos passar lá na Cervejaria Brasil?”, que era o ponto onde nos encontrávamos sempre. Só que no dia seguinte a cerveja estava boa, o papo estava bom, e a gente demorou pra sair da Cervejaria Brasil. Quando vimos, já era meio-dia. Saímos correndo da Cervejaria, com a intenção de voltar pra continuar. Então fomos direto pra essa obra. A hora que chegamos lá, por sorte as janelas ainda estavam encostadas, e julgamos que o cara não tinha vendido ainda, como de fato não tinha. Aí, na hora que o Fernando ia preparar o cheque pra acertar, o cara chegou. Tinha ultrapassado uns 15 minutos e nós escondemos pra não constranger o negócio. No final, o cara levou as janelas… Então nós vimos aquelas janelas indo embora, vendidas, porque eram perfeitas para a casa do Fernando. Aí é que acontece uma cena muito engraçada, porque na hora que o cara foi embora, vira o Fernando pra mim e fala assim: “Está vendo, Veveco, foi aquela saideira! (RISOS) Perdemos a janela por causa da saideira. Se não tivesse tomado a saideira, nós estávamos com a janela!”

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Clube da Esquina: Museu

Pra mim e pra Marisa é uma honra muito grande fazer o projeto do Museu. Não é só como uma cortesia de amigo, uma gentileza; é porque a gente viveu muito essa história e ainda a acompanha. Eu acho que nós seremos capazes de dar uma interpretação, do ponto de vista da arquitetura, bastante fiel ao que se imagina que seja a história. Mesmo porque o Marcinho já escreveu naquele release a atmosfera esperada. E é evidente que é uma atmosfera que já está imaginada por mim e pela Marisa. É fato que tem que ser semelhante à do Berimbau, que era um ambiente fraternal, onde as pessoas se reuniam e tinha um clima saudável de entusiasmo e de boa música.
O outro lado é que no aspecto de uma arquitetura voltada para museu, a característica hoje desses espaços que têm histórias para contar é que o conteúdo tem que ser dinâmico. Eu diria, exagerando um pouco, com 100% de uso. Um espaço como esse não pode ter espaço ocioso. Então não é só a questão de um memorial, porque todo museu é também voltado para a educação, mas é a educação também do ponto de vista da cultura e da história. Porque isso tudo é um legado. Quer dizer, a responsabilidade é muito grande. Então o museu tem que ter essa dinâmica também. E os seus ambientes não devem ter nenhuma sofisticação, porque a arquitetura aí não é importante. Ela tem que ser cuidadosa, elegante e convidativa, mas o que é importante é o que está dentro do museu, quer dizer, o seu conteúdo. Portanto, essa imagem arquitetônica vai surgir naturalmente, porque vai depender da circunstância geográfica: “Em que situação ela está? Está numa esquina? Em qual esquina? Como é o ruído? Como é o panorama? Como é a paisagem?” Então é a partir daí que eu acho que surgem as idéias e, na verdade, a Marisa e eu seremos interpretadores.
Eu acho que vale também para nossa Associação dos Amigos do Clube da Esquina Fundadores. Eu faço sempre uma diferença, porque eu e a Marisa somos Amigos do Museu Histórico Abílio Barreto, e eu sempre falo com muito orgulho e repito aqui, que somos da Associação dos Amigos Íntimos (RISOS) do Clube da Esquina. Então isso é bacana. Estamos com o maior entusiasmo e vamos fazer isso com a mesma paixão que os músicos, queridos amigos, fizeram o Clube da Esquina. O Clube é importante, mas nada foi combinado. Agora uma nação nós temos que fazer uma combinação, para que a gente possa melhorar, fazer um país mais justo, mais fraterno. Eu acho que o espírito do Clube da Esquina encerra essa postura ética, essa postura política que nós temos dentro de um idealismo que a gente cultiva desde a década de 60. Não é uma coisa panfletária, mas são gestos e atitudes que vêm dignificar o que o Clube da Esquina, na sua essência, sempre procurou fazer. Quer dizer, essa trajetória civilizatória através da cultura e, no caso especificamente, através da música.

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Uma mensagem para Álvaro Hardy (Veveco)

  1. solange disse:

    Li com grande emoçãoo depoimento do Veveco, grande artista, grande figura humana. Ele trouxe de volta um tempo, o tempo da cidade de noite perfumandas e de nossa juventude.