Arnaldo Godoy

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome / Local e data de nascimento

Meu nome é Arnaldo Godoy – tem o Augusto no meio, mas faz muitos anos que eu só uso Arnaldo Godoy. Nasci no Rio de Janeiro, no dia 25 de junho de 1951 , mas vim para Belo Horizonte com menos de um ano. Sempre morei ali no Santo Antonio, Lourdes. Estou com 52 anos, mas com corpinho de 51. (riso)

Voltar ao topo FAMÍLIA

Moradia / Avó

Eu vivi numa família e numa casa com 50 pessoas, na Rua São Paulo, 2189. Dormíamos e comíamos com 50 pessoas: vovó, vovô, os 10 filhos e os 25 netos. O Madrigal Renascentista foi formado na casa da minha avó, Maria Lúcia Godoy. O Isaac Karabschvisk foi o primeiro maestro do coral e morava na casa da vovó. Então fui sempre criado nesse ambiente musical, cultural e de muita discussão política. Imagine 50 pessoas no tempo de Juscelino, Lacerda, Jânio, Jango! Era uma efervescência na casa da vovó, porque onde tem muitas pessoas sempre chegam outras. E aí fui me formando nesse ambiente de cultura, de discussão política.

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Estudos

E quando eu entrei para o Colégio Estadual, em 68, o período político do Brasil era bastante conturbado por causa do golpe militar, do AI-5. E evidentemente que a gente se embrenhou pela redemocratização do país, mas sempre tendo a atividade artística, a música e o teatro como instrumentos de libertação, de prazer e de humanização. Eu me formei em História, na FAFICH, na UFMG. E fui do movimento DA, DCE. Todo mundo participava.

Voltar ao topo TRABALHO

Atividades profissionais

E depois, quando tivemos os primeiros filhos, a gente se agrupou em vários casais e formou uma escolinha, a Pés no Chão. A gente queria dar uma educação diferenciada aos nossos filhos, valorizando a solidariedade, não o individualismo. Enfim, foi uma coisa com que a gente sempre sonhou. E esse núcleo foi um núcleo do PT, o único partido que eu me filiei. Eu dei aula no Instituto São Rafael, onde leciono até hoje, e no Colégio Praxedes, aqui de Belo Horizonte. E militava nos sindicatos, dentro do PT, até que eu propus o movimento das pessoas com deficiência, para que elas tivessem autonomia e dignidade sem depender da caridade, da piedade. E dentro do PT não tinha ninguém com esse perfil. Eu trabalhava muito com a juventude. Fui candidato junto com o Patrus, e fui eleito – foi uma zebra na época! (riso)
Foi o meu primeiro mandato. Então fui Secretário de Cultura, Diretor do Museu de Belo Horizonte. O prefeito Célio de Castro, num gesto dele, me convidou e eu, loucamente, aceitei ser Secretário da Cultura. Acho que foi legal. Voltei para a Câmara em 2000 e estou aí.

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Clube da Esquina: Avaliação

Eu conheci o Clube da Esquina pela música. Como eu disse, na casa da vovó nós éramos 25 netos, e nós tocávamos violão e cantávamos – tanto que se formaram várias bandas na família ao longo desses anos. E a gente tocava nas garagens da cidade. Na Santa Tereza, pertinho da casa do Beto Guedes, morava minha tia – ali na esquina da rua Dante com Pouso Alto. Então a gente foi se aproximando, mas os caras já eram cobras. A gente estava gatinhando, dando aqueles arremedos, aquele insights. E foi pela música que a gente chegou perto do Clube da Esquina. E influenciou muito nas músicas que os meus primos e os meus irmãos compunham. É isso. A gente chegou por conta da música e a amizade veio depois.
A amizade, hoje, está mais consolidada. Porque a gente nunca fez da música uma atividade profissional, um ganha pão. Eu fui dar aula; meus irmãos e primos mexeram com outras coisas. Então os contatos não eram constantes. Foram nas campanhas políticas, buscando esses artistas para trabalhar nas campanhas do PT, que a gente foi tendo esse contato mais próximo. E hoje é com o Fernando, com o Tavinho Moura, com o Beto, com o Lô. Com o Marcinho e com o Murilo Antunes consolidou-se uma relação com maior intensidade a partir dos anos 90.

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Colégio Estadual

Exatamente nesse período do AI-5, a música, o teatro – sempre através dessas linguagens – a gente procurava nossa aspiração de liberdade, de libertação, de sonhos, da redemocratização. Então a gente fazia os festivais no Colégio Estadual, que era um momento muito importante para nós. Os festivais eram momentos de contestação, de tensão. Então, quando eu estava no Colégio Estadual, no Grêmio, com vários companheiros – o Bernardo Mota Machado, o Décio – a gente fazia esses festivais e jornaizinhos que compuseram um momento importante da minha vida. E volto a insistir, a linguagem artística sempre teve importância na construção desse desejo de um Brasil melhor, de humanização. Porque eu acho que, como diz a Adélia Prado: “O céu estrelado vale a dor do mundo.” Quer dizer, se a gente se humanizar, conseguiremos transformar a dor em coisa positiva.

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Clube da Esquina: Avaliação

O que é mais rico no Clube da Esquina é o profundo senso de humanização que esses caras tem – é impressionante! Minha mãe está fazendo agora, dia 25, 80 anos. E toda vez que ela lê as crônicas do Fernando, ela chora, porque ela sente uma profunda sensibilidade dele para as coisas simples da vida. O Fernando Brant, o Tavinho Moura, o Murilo, são uns caras que têm a alma belíssima. Então o que não se vê no Clube da Esquina, apesar das músicas, das letras, dos versos e da melodia expressarem muita coisa, são as pessoas deles. Conhecê-los é um enriquecimento, porque eles são profundamente humanistas, profundamente íntegros nos sentimentos. Eu falo isso com muita emoção, porque o pai do Fernando morreu há pouco tempo, e ele escreveu uma crônica belíssima sobre o pai. Lindíssima! Dá até vontade de chorar, porque é muito bonita. E minha mãe tem o Fernando como filho. Ela até convidou o Fernando para o aniversário dela por conta disso.

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Paulinho da Viola

“A vida não é só isso que se vê…” é um verso de uma música do Paulinho da Viola que a Elizete Cardoso gravou e que ficou muito bonita. E é um verso do Hermínio Belo de Carvalho. E na minha primeira campanha eu estava escrevendo um texto na máquina de datilografia para mandar para um jornal. E eu sempre fico com uma música na cabeça, sempre estou cantando alguma coisa. E essa música veio e eu falei assim: (canta) “A vida não é só isso que se vê…” Pensei: “Pô, achei o meu slogan.” (riso) Aí mostrei para o Paulinho, quando ele veio coincidentemente aqui: “Paulinho, eu vou falar uma coisa para você: eu roubei um verso seu, que é de uma música.” Eu mostrei pra ele, ele olhou, leu e falou: “Ah, está bem roubado.”

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“Clube da Esquina”

É até cruel falar de uma ou de outra música do primeiro “Clube da Esquina.” Não vou citar qual música marcou mais, porque eu acho muito marcante aquilo tudo! Acho que seria injusto com as outras não citadas. Não sei, eu não gosto. O único livro que eu falo que é o melhor é o “Grande Sertão Veredas”; esse eu não abro, não. Mas eu não falo qual a melhor música. Mas… nossa! A gente ouvia demais o disco!

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As Influências

A gente fez um disco, “Os Godoys.” É um CD que a gente fez de brincadeira, mas no qual você percebe a influência que tem essa construção melódica do Clube da Esquina, porque a gente ouvia demais o Clube da Esquina. Ouvia demais esses caras todos. Era Beatles, Clube da Esquina, os Rolling Stones… eu ouvia muito samba também. Mas ouvia demais o Clube da Esquina. E lia tudo que saía a respeito do Clube da Esquina, porque realmente era uma referência para nós. Esse momento do Clube da Esquina, no Brasil inteiro, acho que é coincidente com outros grupos. Na Bahia, no final da década de 60, tem Caetano, Gil, Gal, Capinam, Torquato. No Rio de Janeiro, apesar dos caras já serem mais velhos, o Cartola, o Paulinho, o Nélson Cavaquinho. Eles foram todos redescobertos por volta dessa época. Em São Paulo também tem Mutantes, Língua de Trapo, Premeditando o Breque. Então, o golpe militar, ainda que quisesse – e quis – calar a boca e apagar os sonhos de todos nós, ele provocou isso: mostrou a força da criação artística em várias regiões do país, que se consolidaram nacionalmente. Eu queria fazer um estudo mais detalhado sobre isso.

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Clube da Esquina: Museu

Eu fui diretor do Museu Abílio Barreto, que é o Museu Histórico de Belo Horizonte e fui Secretário de Cultura. Então eu acho que a memória, as referências – físicas e as referências imateriais – são muito importantes para a construção das nossas identidades brasileiras. E essas identidades são importantes porque, sem elas, a gente não constitui uma nação. E sem constituir uma nação, a gente não vai fazer desse país um país bom de se viver, com menos injustiças sociais, com melhor qualidade de vida. Então esse Museu Clube da Esquina é muito importante porque, além da qualidade musical e poética, é uma referência afetiva, uma referência ambiental de Belo Horizonte, que nos ajuda, que nos agrega e que nos faz sentir pertencer a uma coletividade, assim como o Cruzeiro, o Atlético, os partidos políticos. O Clube da Esquina é um desses pontos que a gente senta em volta de uma mesa pra tomar cerveja, tomar água, tomar um suco e conversar sobre ele, sobre o que eles fizeram, o que eles estão fazendo, o que eles deixaram. Sobre os sonhos, os amores, os desejos. Então acho fundamental esse museu, no sentido de preservar essa memória, de preservar esse sentimento. Por isso eu estou batendo palma para o Clube da Esquina e para o Museu da Pessoa, para que não parem com esse projeto, porque o Brasil é feito por indivíduos e cada indivíduo tem a sua história. E a história de cada um faz a história brasileira.

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