Beto Guedes

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome/ Data e local de nascimento

Meu nome é Alberto de Castro Guedes. Nasci em Montes Claros, em 13 de agosto de 1951.

FAMÍLIA
Pais

Meu pai chama-se Godofredo Guedes, e minha mãe, Júlia de Castro Guedes.

FAMÍLIA
Avô

Parece que meu avô, por parte de pai, tocava sanfona, alguma coisa assim. Mas eu não tenho muita informação. Como é que ele se chamava? Cazuza. Seu Cazuza. Eu só sei que ele tocava acordeão. Não sei se ele compunha.

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação musical

Eu nasci em Montes Claros e meu pai nasceu em Riacho de Santana, sul da Bahia. Aí ele mudou para Montes Claros e eu nasci lá. Comecei a me ater com música ouvindo o Godofredo. Os amigos dele, no fim de semana, reuniam-se para tocar chorinho, valsa, samba, samba-canção. E ele tocava clarinete. Eles se reuniam no fim de semana e eu ficava sapeando eles, escutando. E cresci mais ou menos nesse meio de roda de choro.
Lá em casa todo mundo é um pouco musical. A Dola tem uma voz muito bonita, eu acho. Outro dia eu estava até falando com o Bituca e comentei isso com ele. Ela mora em Montes Claros. Não tem muito a manha do inglês, não fala inglês. Já parou de estudar há muito tempo. Mas eu acho que ela tem uma voz muito parecida com a voz da Aretha Franklin. A Tê também é musical. A Tê cantava no coral do Minas Tênis aqui em Belo Horizonte. O Patão, que é o Hélio, tocava comigo quando eu tinha um conjunto de cover dos Beatles. O Patão tocava guitarra.

FAMÍLIA
Irmãos

Lá em casa somos oito. São cinco mulheres e três homens. Eu sou o mais novo. Acima de mim tem o Hélio; depois tem o Zeca. O resto são as mulheres. Eu não me lembro muito da idade delas, mas os nomes são: Estela, Maria Lúcia, Dolores e Tereza. Acho que a Dolores talvez fosse a mais velha, se não me engano.

INFÂNCIA
Lembranças da infância

Eu nasci na Rua Rui Barbosa, perto do Mercado Central de Montes Claros, perto da Catedral. Era uma Igreja muito grande, muito bonita até. Na infância, eu tinha poucos amigos em Montes Claros. O que a gente mais fazia era sair pra passear, em riacho, essas coisas de caçar passarinho, aquela história de fazer bodoque e tal. Eu tinha um amigo que era fera no bodoque. Aquilo a gente pensava que era fácil, mas não é muito fácil acertar passarinho com bodoque. E a gente ia caçar, caçar mesmo. Caçava passarinho e depois fazia fritado. Uma rolinha, bem fritinha, é muito boa.

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Montes Claros

A cidade parava muito cedo. Não tinha luz elétrica. Tinha uns geradores que pareciam duas locomotivas e que geravam luz até dez horas. Depois disso, a cidade dormia. E, normalmente, os pais mandavam os meninos pra casa dormir. E não tinha muito o que fazer à noite não. Acordava de manhã, questão de aula, grupo escolar. À tarde, saíamos eu com uns poucos amigos que eu tinha da minha rua mesmo. E era somente isso. Não tinha outra diversão. Meu irmão, o Zeca, hoje é aeromodelista. Então tinha a Associação lá, igual a AMA, americana, American Modelism Association. Lá é a Associação Monteclarense de Aeromodelistas. Então eles se reuniam no fim de semana.
E meu pai, pintor também, músico, compositor, se virava também com pinturas e ferramentas. E comecei a tomar gosto pela pintura. Eu ia lá na oficina com o meu pai pra pintar. E eu gostava também de pescar um pouquinho. E caçar passarinho. Mais tarde, comecei a gostar de aeromodelo.
Montes Claros era uma cidade pequena. Estrada de terra até Belo Horizonte. Era aquela história: as coisas demoravam demais a chegar. Então, quem tinha aeromodelo ralava muito porque tinha que pedir. Em Belo Horizonte não tinha. Tinha que vir de São Paulo. A minha infância foi basicamente isso. Um pouco de mato e um pouco de aeromodelo.
Tinha uma galera que era minha vizinha, bem próximo da minha casa, mas do outro lado da rua. E eu me lembro da minha mãe de leite. Minha mãe não tinha leite e ela me amamentou. E tinha uns outros camaradas também. Everaldo, Tóia. Esses nunca mais eu vi. Tem muitos anos. O outro, o Ricardo, o mês passado eu estive com ele. Tinha uma data que eu não o via.

CIDADES
Belo Horizonte

Eu me mudei para Belo Horizonte com nove anos. Fui morar na Rua Tupis com a Rua São Paulo, perto do Edifício Levy, pertinho da casa do Lô Borges. Coincidentemente, mudei pra cá e aí fiquei conhecendo o Lô, o Maurício, o Yé, naturalmente. Quer dizer, a galera mais nova, os manos mais novos do seu Salomão e dona Maricota. A gente era amigo de brincar. Aqui em Belo Horizonte, a gente jogava um pouco de bente-altas.
Belo Horizonte tem Atlético, Cruzeiro e América. Os pais já começavam a incentivar ou pra um ou pra outro. Montes Claros era uma cidade que tinha um tal de Casemiro de Abreu e Ateneu, times de terceira divisão. E, em Montes Claros, era só pescar e caçar. Ninguém gostava de futebol. Quando mudei pra Belo Horizonte, o Lô, a galera já gostava. Porque o pai ensina um a ser cruzeirense, o outro atleticano e tal. E eles iam jogar bola. Aí, pra não ficar sozinho, eu ia. Era aquele desastre. De repente, na defesa, me botavam no gol. Porque eu não sabia, não gostava. Pra não ficar sozinho, eu ia jogar bola e me botavam no gol. Aí a coisa piorava porque qualquer um que chegasse lá era gol na certa. Aí xingavam, tiravam, botavam na defesa. Depois já não me deixavam jogar mais.
Então foi passando o tempo e eu lembro que a gente começou a descobrir uma coisa, que era entrar em cinema de graça. Eu, Lô e o Maurício. A gente ficava estudando a arquitetura vizinha pra ver se tinha alguma janela que desse no corredor, na janela do banheiro do cinema. E a gente tinha aquela tática: a gente entrava quando o pessoal estava saindo. Mas essa era muito manjada. Os seguranças já começavam a manjar a gente. Aí não dava pra entrar mais. A gente gostava muito de cinema. Então eu me lembro que a gente começou a descobrir isto: janelas e o lugar. Eu me lembro que acabei descobrindo um lugar que se chamava Leão das Louças, e que a gente subia no prédio do Leão das Louças. Tinha uma coisa de revelação de foto. A gente entrava no banheiro, parece, no corredor do prédio, e atravessava por cima do telhado do Leão das Louças. E achamos o tubo de ventilação do ar condicionado. Aí a gente engatinhava por ele e achava o banheiro do Cine Tamoios. E pronto, achava uma vez, era cinema de graça direto. Até que, um belo dia, alguém pegou. O segurança viu. Foi aquela correria. Eu me lembro que teve um amigo, que era mais pesadinho, e naquela correria toda parece que ele quebrou a telha e ficou pendurado em cima do teto do Leão das Louças. Acho que se tivesse caído lá seria interessante, porque seria em cima das prateleiras de louça. Então a vida era um pouco assim.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Preferências musicais

Eu já vim de Montes Claros tocando um pouco de violão. Prestava atenção no meu pai tocando, já tirava algumas músicas. Eu me lembro que o Lô chegou uma vez e parece que tinha um compacto. Tinha saído aquele disco “As 14 Mais”, uma coletânea com 14 músicas do mundo. Tinha música italiana. Me lembro do Lô ter me convidado para ir ao cinema e eu não tinha dinheiro. Falei: “Não vou não”. E mais tarde o Lô trouxe o disco. No começo eu não entendi direito a música. Depois, a partir do momento que eu entendi também, eu virei um beatlemaníaco ferrenho. Aí eu comecei a escutar aquelas músicas e fui tirando. E tivemos a idéia de juntar eu, o Lô, o Yé, irmão do Lô, e o Márcio Aquino. A gente era um quarteto vocal. Eu no violão. Ninguém tocava nada nessa época, nem o Lô, nem ninguém. E a gente fazia rádio, fazia programa infantil de TV.
De vez em quando, a dona Maricota bloqueava. Falava: “Vocês não estudaram”. E a gente tocava no fim de semana. E lá em casa não tinha muito isso. O pessoal não tinha como me proibir muito das coisas. Então eu ficava meio na eira porque eu era a fim de tocar e dona Maricota não deixava o Lô nem o Yé tocarem. Aí eu ficava p… da vida. “Pô, mas que coisa!”

FORMAÇÃO MUSICAL
Primeira apresentação

Eu morava aqui em Belo Horizonte, mas passava férias lá em Montes Claros. E foi aquela febre de Beatles. Eu me lembro que eu fui pra Montes Claros e, de repente, eles tinham uma banda lá. Meu irmão Patão, o Aroldo e o Ricardo. Com violão elétrico, uma bateria. E me lembro que tinha um contrabaixista que tocava tão pouco que eles botavam o amplificador dele quase que no zero. Ele ficava meio que na figuração. E eu tirava essas músicas para o nosso conjunto, que se chamava The Beavers. Foi o que nós achamos mais perto de Beatles, quer dizer “Os Castores”. Eu tirava o baixo no violão. Só que eu sabia de cor e salteado o baixo do disco inteiro. E eu fui lá em Montes Claros, nas férias. Cheguei lá, eu tinha uns 12 anos, por aí, e me deram um baixo. Aí saí tocando as músicas todas. Aí eles tiraram o Lelas do conjunto e me colocaram no lugar dele. Depois, teve um cronista social que… Eles detêm datas no clube mais importante da cidade, o Automóvel Clube. Então, esse cronista social criou um programa, o “Juventude em Brasa”, pra gente angariar fundos pra comprar uns instrumentos. Eles, os cronistas, têm o poder de mobilizar a mídia local, jornalista e tal. Eu me lembro que a gente tocou e que eu tive problema pra entrar no clube. Tinha que pedir pro juizado de menores. Porque eu era menor, não podia ficar tocando. E a gente fazia baile das nove até às três, quatro da manhã. Então parece que alguém viu e eu sei que eu tive um certo problema para poder contornar esse juiz.
Esse colunista que fez a festa pra gente comprar os instrumentos deu o nome pro conjunto. Ele chamou a gente de Os Brucutus. Eu me lembro que, na época, tinha um desenho animado, Os Brucutus. E eu acho que tinha também um suporte da antena do fusca que a galera tinha a mania de desatarraxar. Tirava os cabos e fazia um anel. Aquele trem era feio pra danar. Então, foi o Lazir Pimenta que deu esse nome pra gente.

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Nome e descrição das escolas

Eu fiz até o primário em Montes Claros e comecei a fazer aquelas outras séries aqui em Belo Horizonte. E comecei a não tomar muito gosto pela escola. Hoje em dia, eu gosto muito de matemática, porque eu acho a matemática uma matéria linda e que resolve as coisas pra caramba. Mas eu tinha um professor que era… O meu colégio era particular. Eram as famosas “boates” que o pessoal chamava antigamente. E o meu colégio chamava-se Tancredo Neves, mas todo mundo o chamava de Tancredinho. Eu estudei um pouco ali. Parei porque o professor de matemática era militar. Saía da Polícia Militar e ia dar aula lá. E o cara era bravo pra caramba. Pegava no pé da gente. Me lembro que um dia ele entrou na sala e falou: “Hoje vocês vão tratar de ficar quietos que eu não estou bom não”. Aí, eu lá atrás disse: “Eu também não tô não”. Aí, rapaz, foi fogo, porque ele virou: “Quem que falou isso aí?”. E a sala toda quieta. “Quem falou isso aí?” E a sala continuou quieta. Aí ele abriu a caderneta: “Eu vou dar zero pra galera toda”. Aí eu tive que me apresentar. Levei um zeraço daquele bem grande. E mais a bronca dele. E ficou aquela história; ele ficou no meu pé daí pra frente.
E eu já saí da escola e falei: “Eu não quero mais saber desse trem”. E encontrei o Lô. Já estava tocando mesmo. E comecei a estudar mais Beatles. Nunca estudei música também. Eu me lembro que nós, eu e o Lô, começamos a estudar com o Toninho Horta. Mas eu acho que a gente ia lá mais por causa do pãozinho de queijo da dona… meu Deus, como é que chama a mãe do Toninho, gente? Dona Geralda. Ela servia o café. E essa hora que era a hora boa. Eu acho que a gente ia mais comer os salgadinhos da dona Geralda do que estudar mesmo.

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Lô Borges

Quando eu conheci o Lô, foi pelo patinete. Eu lembro que eu era meio calado, não era muito de fazer amizade. E quando o meu pai mudou pra cá, ele trouxe a oficina junto. Serra circular, tico-tico, esse material de marcenaria. Até aprendi um pouco a fazer marcenaria. E eu via o pessoal com patinete. Só que os meninos pegavam a tábua de qualquer jeito e um serrote qualquer e tudo ficava mal feito. E lá na oficina eu cortava a madeira na grossura que eu quisesse, toda certinha. Aí fiz meu patinete todo transado, com a junção do guidom com a mesa já de aço. Porque eu tinha furadeira, dobrava aço, furava. Quer dizer, eu tinha como. Aí eu fiz e pintei todo lindão. Daí o Lô viu e ficou maluco. Cismou com o patinete e queria porque queria. Então, falei: “O que você tem lá na sua casa, pra gente fazer um?”. Eu falei que custava tanto. Ele falou: “Não tenho dinheiro. Mas tenho moeda estrangeira”. Aí eu cresci o olho e falei: “Então é o seguinte, você tem dólar?”. Porque eu estava doido atrás de um dólar de prata. Aí ele falou: “Eu tenho um dólar de prata. E tenho mais opção de moeda lá. Vou juntar e vou trazer pra você ver. Se você quiser nós trocamos”. Ele trouxe umas moedas e me deu a primeira parte. [Risos] Época boa.

FORMAÇÃO MUSICAL
Primeiro instrumento

Não cheguei a tocar com meu pai. Eu me lembro que eu olhava o pandeirista e achava muito bonito o pandeiro. Queria tocar. Eles me emprestavam de vez em quando. Mas é muito pesado. O pandeiro é um instrumento muito pesado, mesmo pra uma pessoa adulta tocar. Não é fácil. Ele vai pesando. É complicado. E eu queria tocar pandeiro porque queria. E era um pandeiro profissional. Mas não tocava com meu pai. Eu me lembro que eu fiz um show uma vez com o Lô e meu pai me deu uma canja. Entrou, pegou o clarinete e deu uma canja.

FORMAÇÃO MUSICAL
As influências

A princípio, a gente só ouvia Beatles. Depois, Rolling Stones também. Aí eu comecei a andar mais, a ouvir mais coisas também. Herman’s Hermits. A galera toda que veio atrás dos Beatles e Stones. The Fundation. The Birds. Adorava, adorava The Birds. Mais tarde Hertz, Pink Floyd, Genesis, e vai seguindo por aí.

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Milton Nascimento (Bituca)

Nessa época que a gente fez o The Beavers, o Bituca já estava aqui em Belo Horizonte, morando na casa do Lô. E ele tinha um conjunto dele de bossa nova com o Marcinho. E lembro que ele viu a gente num programa infantil que se chamava Petilândia. Era um programa aos domingos, às dez horas da manhã. Televisão. E a gente apresentava. O Bituca viu e gostou mesmo, porque a gente imitava certinho as vozes dos Beatles. E eu lembro que o Bituca queria que a gente cantasse também com ele no programa dele. Mas ele cismou para que a gente cantasse uma música brasileira. E na época eu estava cismadíssimo. Não gostava de bossa nova de jeito nenhum. E eu era o único que sabia tocar violão. Eu falei: “Não vou tocar essa música”. Não me lembro qual era, mas eu estava muito bitolado em Beatles, então eu não queria ouvir mais nada. Eu nem cheguei a ver o Milton falando. Ele convidou, mas não foi pessoalmente. Eu vim a conhecer ele mais tarde no Feira Moderna, no FIC. O Lô e eu nos inscrevemos e a música foi classificada. Aí eu e o Lô fomos pro Rio. Tinha hotel e tudo. E o Lô foi visitar o Bituca. Nessa época, quem acompanhava ele era o Som Imaginário. E ele sabiamente falou: “É melhor o Zé Milton defender essa música pra vocês”. Porque a gente estava acostumado com 100, 200 pessoas lá do Petilândia e na hora que a gente encarasse o Maracanãzinho cheio de gente, porque era o Festival Internacional, a gente ia tremer na base. Então o Bituca, acertadamente, fez essa sugestão. E nós concordamos. Aí o Som Imaginário defendeu. A música foi bem. Não ganhou, mas ficou nas oitavas de final. Foi uma coisa importante pra mim e pro Lô.

Voltar ao topo TRABALHO

Atividades profissionais

Eu lembro que deveria ter algum brinquedo, alguma coisa que eu estava querendo, e que eu devia ter chegado para o Godofredo e pedido. E ele falou: “Não tem dinheiro”. E deveria ser uma coisa que eu queria muito porque eu pensei: “Ah, não tem dinheiro? Espera aí”. E eu fui lá no jornal. A garotada ia no jornal e, chegando lá, apanhava um tanto de jornal, 15 ou 20, e saía na rua. Eu saía na rua gritando: “Jornal de Montes Claros de hoje”. Era assim que os meninos falavam. Eu vendi uns dois dias. Aí parece que o Godofredo descobriu e não gostou muito do filho dele vender jornal na rua. Mas foi a forma que eu achei. Eu falei: “Agora eu vou trabalhar e vou comprar”. Então comecei a trabalhar assim.
Eu lembro que o Petilândia não tinha cachê. Eu também lembro que a gente, eu e o Lô, tocou na Rádio Inconfidência. O Gonçalo era nosso empresário e aí nós ganhamos um cachê. Foi o primeiro cachê que a gente ganhou. Depois, a gente fez aquele outro conjunto, Os Brucutus. A gente fazia bailes e shows pelo interior. Já ganhava alguma graninha com isso. Quer dizer, comecei a trabalhar com música cedo.

PERSONALIDADES
Beatles

A paixão pelos Beatles foi realmente muito marcante. Eu lembro que o Lô trouxe um compacto e me deu. Eu lembro de I should have known better. Eu escutei aquilo uma vez e não entendi nada do que estava acontecendo. Botei mais uma vez. Falei: “Nossa, que trem esquisito”. Botei pela terceira vez. E aí sim, abriu minha cabeça. Eu fiquei mais fascinado. Nunca fiquei tão fascinado na vida com uma coisa como aquela.

FORMAÇÃO MUSICAL
Aprimoramento

Eu tinha construído o patinete que eu vendi pro Lô e mais tarde eu cismei de fazer um contrabaixo igual ao do Paul McCartney, um Rofner. E fui fazendo. Fiz o corpo. E quando chegou no braço, começou a complicar muito, porque fugia ao equipamento do meu pai. E braço de instrumento musical, de guitarra, de baixo, é uma coisa muito complicada de fazer se você não tem ferramentas adequadas. Mas eu me lembro que acabei fazendo. O meu pai, além de músico, fez um piano. Com aquele trabalhão todo para comprar a corda. Ele teve que fazer uma máquina com roda, com pedal de bicicleta pra enrolar as cordas. Elas são, até certo ponto, cordas de aço liso. Depois elas são enroladas com cobre. E ele fez o molde, fez tudo. Não deve ter prestado. Aí cismou de fazer outro. E esse eu lembro que tocava. Eu não me lembro se o som era muito bom. Hoje em dia está lá só a parte que a gente chama de cepo, que é uma parte de ferro fundido pesadíssima. Meu pai fez violão também. Pra quem faz um piano, violão é mole. Então eu resolvi fazer um instrumento de três cordas. Eu lembro que eu queria fazer uma coisa parecida com a cítara de “With You Without You”, do “Sargent Pepper´s”. Era uma música do George Harrison no “Sargent Pepper´s”. Aí eu queria fazer um instrumento que fizesse um som parecido com a cítara. Acabei fazendo um tal instrumento com três cordas. Depois de pronto, ficou uma droga. Eu ia jogar fora quando o Lô me pediu de presente. E eu dei pra ele. Eu não sei se o Lô ainda o tem.

FORMAÇÃO MUSICAL
Profissionalização

Belo Horizonte era muito tranqüila. A avenida Afonso Pena era linda, toda arborizada. Uma avenida tão bonita, com árvores de troncos imensos. Depois do conjunto, dos Brucutus, do The Beavers, o Lô começou a tocar violão, a aprender. E muito bem, por sinal. E com a convivência com o Milton, o Lô começou a compor, bem antes de mim. Eu fiquei meio tímido pra compor. Mais tarde é que eu comecei a pensar em compor alguma coisa. Aí chegou a época dos festivais. Eu e o Lô tínhamos escrito também para o Festival da Canção Regional. Eu fiz uma música com o Marcinho Borges chamada “Quem Viveu no Mar”. E eu lembro de uma foto minha e do Lô em que a gente estava bonito de chapéu. Não sei o que a gente estava cantando.
A gente vivia naquela região ali no centro da cidade. Tupis com São Paulo, Igreja de São José. Lembro que a gente gostava muito de ficar ali no Pátio da Igreja por causa das árvores. A gente também gostava de remar naqueles barquinhos do Parque Municipal. Mais tarde, o Lô mudou-se para Santa Tereza. A dona Maricota abriu uma escolinha lá. E eu eventualmente ia pra Santa Tereza. Lá era mais a casa da dona Maricota mesmo. Quarto e violão. Não tinha mais nada de brincadeira, nem bola, nem futebol. Quer dizer, eles são chegados numa bolinha, gostam de um futebolzinho. O Lô até joga bem. E bola eu já vi que não é comigo. Um dia eu peguei um ônibus e quando fui chegando veio a bola. Eu fui querer dar um cruzamento bonito – e a bola era do Telo, meu Deus do céu! – e eu dei um cruzamento horrível na bola. A bola era daquelas de plástico e, quando bateu numa árvore, furou. O Telo chorou. Ele me odiou por um ano, sem falar comigo por causa da bola.

Voltar ao topo ADOLESCÊNCIA

Movimento Hippie

A nossa roupa era calça jeans. Calça Lee estava muito na moda. Eu me lembro de uma coisa muito linda. A gente pegava camiseta Hering branca e puxava a ponta num lugar e dava um nó com barbante. Pegava em outro lugar e dava outro nó. Aí tingia. Quando tirava o barbante, ela ficava assim virtual. Muito lindo aquilo. A gente adorava fazer essas camisas. E tinha a calça Lee. Eu lembro que eu comprei num brechó uma calça Wrangler. Ela tinha um desbotado lindo pra danar, um azul como eu jamais tinha visto. E era a única que tinha. Eu tinha um orgulho imenso daquela calça. Então a gente se vestia dessa maneira. Calça Lee, jeans.

FORMAÇÃO MUSICAL
Profissionalização

Eu acho que os festivais foram importantes pra mim e pro Lô. A gente tinha 14, 15 anos. E a música ia ser classificada, foi até as oitavas de final. Quer dizer, foi uma coisa muito legal pra gente.

Voltar ao topo LOCALIDADES RIO DE JANEIRO

Casa da Praia Mar Azul, Niterói

Foi uma experiência muito bacana essa da Casa do Mar Azul. Eu lembro que o Lô e o Milton mudaram pra lá. Eles estavam compondo, terminando as músicas do Clube da Esquina. E eu não compus nada. Eu não compunha nessa época. Basicamente, o Lô me chamou de companhia mesmo, porque a gente era amigo. E eu ficava lá, curtindo o mar azul, a praia, aquelas manhãs maravilhosas de sol. Cada manhã de sol bonita naquele lugar! E fiquei acompanhando o trabalho deles. Ficava conversando, brincando. Aparecia o Ronaldo, o Marcinho. O Jacaré de Três Pontas também foi pra lá uma época.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Pai

Quando a gente se mudou para Belo Horizonte, meu pai alugou uma sala na Rua da Bahia. Era um corredor. Tinha várias salas grandes. Ele alugou uma sala e levava o material pra lá. A gente morava na Rua Tupis, perto do Edifício Levy. A gente tocava no quarto, em casa.
Eu me lembro do meu pai ter tentado seguir a carreira de músico. Eu lembro que ele sumiu uns tempos. Foi para o Rio de Janeiro. Quer dizer, foi por estrada de terra até Belo Horizonte. Um trecho de estrada de ferro até Barbacena. Só depois de Juiz de Fora é que é asfaltado. É longe demais. E ele estava com a família em Montes Claros. Então eu lembro que ele sumiu e foi no Rio gravar. E gravou duas músicas. Não me lembro quais agora. Não sei se era Lamartine Babo, se era Lupicínio Rodrigues ou se era um outro. Então era muito difícil. Ninguém dava oportunidade, mesmo com as canções da qualidade do meu pai, que é pra nenhum Pixinguinha botar defeito. Então ele tentou e não conseguiu. E não podia ficar lá batalhando, porque tinha família em Montes Claros. Então eu cresci escutando meu pai compondo ao longo do tempo. E quando eu fui gravar o primeiro disco, eu tive a idéia. Falei: “Meu pai não conseguiu, mas eu vou colocar uma música dele. Em todo disco que eu fizer, vou colocar uma música dele”. E assim fui fazendo. Exceto em “Andaluz” que, em vez de gravar uma música dele, eu fiz um choro pra ele. Me inspirei no Wagner Tiso, que tinha feito “Choro de Mãe”. Aí eu resolvi fazer o “Choro de Pai”. E fiz pra ele. Meu último CD. Tem uma música dele também chamada “Lamento Árabe”, muito bonita.
Meu pai também tinha essa coisa de tocar em cassino. Ele sempre tinha que se virar um pouco para poder segurar o orçamento da casa. E eu me lembro que, às vezes, a oficina dava uma parada e à noite, aos domingos, ele tocava no cassino de Montes Claros. E ele também era um pintor clássico. Pintava paisagens. Mas, para se virar, às vezes alguém queria pintar pára-choque de caminhão com aquelas frases e ele pintava. Por exemplo, Açougue Santa Helena. Ele pintava uma vaquinha, e pintava “Açougue Santa Helena”. Botava o endereço. Fazia essa coisa. E ele era uma pessoa sozinha na cidade. Até fico assim. Não entendo como meu pai e meus irmãos, que seguiram a profissão do meu pai, deixaram passar tamanha oportunidade. Não acompanharam a evolução da pintura. Porque depois de um tempo não é mais no pincel com a paleta. Começou a ser o acrílico. Depois, o néon. Depois, passou pro vinil. E ele, sendo uma pessoa que todo mundo conhece, além de músico e pintor, deveria ter acompanhado a evolução. Ele chegou a fazer um pouco de silk screen. E podia ter se dado bem. Mas eles não fizeram isso. Meu irmão agora está mexendo com computador. Já deu uma melhoradinha. Está mexendo com AutoCad e 3D Max.
O Godofredo era uma pessoa tranqüila, calma. Gostava muito de assoviar. Era o rei do assovio. Volta e meia você pegava o Godofredo assoviando. Pintando e assoviando.

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Origem do Clube

O Clube da Esquina é a história dessa amizade, dessa convivência de longos anos com o Marcinho, com o Lô principalmente, com o Milton, o Ronaldo Bastos, e todos mais. Na verdade, é uma família unida, que não se vê a toda hora. Mas estamos sempre com o mesmo carinho um pelo outro, a mesma amizade.

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“Clube da Esquina 2”

A minha participação no “Clube da Esquina 2” foi um pouco modesta. Porque eu participei no primeiro. O Lô me convidou. Eu lembro que eu toquei bastante naquele disco. Toquei contrabaixo, bateria, guitarra, percussão. Acho que eu toquei em 20 faixas, das 22 do disco. O Milton me convidou para fazer um vocal no “Nada Será Como Antes”, que foi uma coisa muito importante pra mim.
Eu não sei o que eu toquei no “Clube da Esquina 2”. Eu ia tocar uma bateria na música do “Viver, viver”. Eu tenho boas idéias, tenho bom gosto pra imaginar as coisas, o que o batera tem que fazer. Mas eu não pratico. Então lembro que eu falei: “Lô, vou tocar bateria nessa música aí. Pode?”. “Pode.” Aí fui lá e comecei a fazer uma levada que estava muito legal, mas que eu não estava conseguindo tocar porque ela exigia um pouco mais de técnica do que eu tinha. Então falei: “Lô, não está dando pé. Não estou dando conta”. Aí chamamos o Mário Castelo, que é um baterista que estuda, toca todo dia. E ele fez com facilidade. Eu não me lembro de ter participado de outra coisa. Não fui na gravação de nenhuma outra música. Passou um pouco batido o “Clube 2”.
Eu acho que o primeiro “Clube”, como um todo, é mais bonito pra mim. E acho que, tecnicamente, alguma coisa do “Clube 2” eles contaram com alguma facilidade de poder botar mais instrumentos, de poder botar uma orquestra maior. Porque o primeiro “Clube” foi gravado em oito canais. Quer dizer, é pouca coisa para danar. E acho que as pessoas também vestiram muito a camisa. Parecia que o disco era meu, do Wagner, de nós todos. Não parecia que era um disco do Lô e do Milton. A gente tomava aquilo como nosso. Acho que isso faz uma diferença. O “2” ficou um pouco espalhado. Aquela capa maluca eu não entendo, com todo o respeito. Dizem que teve um problema com essa capa. Mas, enfim, não deixa de ser um belo disco.

Voltar ao topo MÚSICAS

“Viver, viver”
A música que eu mais gosto dos dois discos é “Viver, viver.”

FAMÍLIA
Primo

O Lulu, o Luiz Guedes, é meu primo, filho do irmão do meu pai, Coriolano, que era fotógrafo. A gente cresceu em Montes Claros mais ou menos na mesma época, mas eu não tinha muito contato com ele. Foi quando eu me mudei pra Belo Horizonte, e que ele se mudou pra cá também, que a gente começou a se encontrar. Via ele compondo também. É um primo muito querido, como um irmão que eu tive. Um cara que sempre gostou de mim e que sempre teve o maior carinho comigo. E sou um eterno fã do Lulu.

TRABALHO
Parcerias
Foi uma coisa legal dividir um disco com o Toninho Horta, o Danilo Caymmi e o Novelli. Acho que foi um disco que abriu um pouco as portas para mais tarde eu fazer meu primeiro disco. Foi uma experiência legal. O Toninho, o Danilo, o Novelli e eu pegamos duas músicas pra cada um. Então eles estavam no Rio e eu morava em BH. A minha parte eu fiz com o pessoal do 14, todo ele. E o disco não teve muito resultado, repercussão. Ele era um disco difícil de produzir, porque eu fiquei aqui e os outros lá. Enfim, não teve muita repercussão. Foi esquecido. Mas foi um disco importante pra mim, pro Toninho, pro Novelli, pra todo mundo.

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“A página do relâmpago elétrico”

“A página do relâmpago elétrico” foi o primeiro disco que eu fiz. Muita gente toca junto comigo. O Flavinho, o Vermelho, Eli, o Robertinho, o Wagner Tiso, Toninho Horta, Danilo Caymmi. Mas não sei se é um disco de rock progressivo. A gente escutava muito Beatles, muito Yes, Genesis. A gente com certeza tem um pouco de rock no sangue. Eu comecei a escutar os choros do Godofredo, mas ao longo da vida fui escutando outras coisas também, música progressiva, John McLaughin, James Taylor. Quer dizer, a gente acaba tendo um universo de referências. Na época desse disco, aconteceu uma coisa muito bacana. Eu me lembro que tinha um jornal que fazia uma pesquisa a cada lançamento de disco. Então havia uma pesquisa popular e uma pesquisa dos críticos especializados em música. Só sei que esse disco vendeu bem. Acho que uns sete, oito mil discos. Ou mais que isso, 17 mil. Não me lembro. Só sei que eu não esperava, que a companhia não esperava isso. E eu lembro que a crítica profissional deu nota cinco para o disco e o público deu nota dez. Botou meu disco no primeiro lugar. Então foi muito legal. Foi muito legal ter vendido uma boa quantidade. E foi um disco importante pra mim, porque estava no começo da minha carreira. Ele me deu o gancho pra continuar fazendo os demais.

DISCOS
“Amor de Índio”

“Amor de Índio” foi o segundo disco, quando eu comecei a produzir sempre com o Ronaldo. “A Página”, “Amor de Índio”, “Sol de Primavera”, “Contos da Lua Vaga”, “Alma de Borracha”, “Viagem das Mãos”, todos esses foram produzidos por mim e pelo Ronaldo. Esse, o “Amor de Índio”, tem uma coisa interessante, que é aquela capa. Toda pessoa pra quem eu mostrava sempre elogiava a capa e o momento da foto. Todo mundo falava: “Pô, você tava bem na foto”. Me lembro que o Caetano mostrou pra Bethânia e ele depois veio contar que a Bethânia tinha gostado muito da foto da capa. E essa foto foi tirada lá em Mar Azul, na época em que eu estava no apoio logístico, ajudando o Lô e o Bituca a terminar o primeiro “Clube da Esquina”. Me lembro que, numa bela manhã, eu tinha acabado de acordar e estava meio frio. Aí tomei café e fui pra janela comer coco enrolado no cobre leito. E o Cafi tinha chegado para visitar a gente. Aí ele fez aquela foto.

DISCOS
“Sol de Primavera”

Depois veio o “Sol de Primavera”. Eu me lembro que estava indo para a casa de um amigo e, na metade do caminho, entre a minha casa e a casa do amigo, vinha o Gilbertinho de Abreu, um amigo meu, na outra direção. Quando paramos para cumprimentar um ao outro, ele falou: “Opa, tudo bem?”. E começamos a prosear um pouquinho e paramos embaixo de um poste. Tinham acabado de consertar a linha telefônica, então estava cheio de fios de telefone no chão. E eu me lembro que a gente conversava e o Gilbertinho abaixava, pegava um fio, dava um nozinho e começava a enrolar. E ficamos conversando, conversando. Quando a gente acabou, ele me mostrou um bonequinho. Aí ele levou esse bonequinho pra casa, botou numa cartolina e desenhou um bonequinho, uma montanha, e inspirou a capa do “Sol de Primavera.”

DISCOS
“Contos da Lua Vaga”

“Contos da Lua Vaga” é o disco que tem o “Sal da Terra”, uma música que ficou muito bem nas paradas. É uma música minha e do Ronaldo. Eu estava numa rádio um dia e alguém ligou e falou: “Essa música é um hino”. E eu acabei concordando com o ouvinte. Eu e o Ronaldo, fora a modéstia, acertamos bem na mosca com aquela canção. Então “Contos da Lua Vaga” tem o título de uma música que eu gosto muito, que é uma música minha e do Marcinho. É um disco que eu gosto muito. Acho que, como um todo, está muito bem equilibrado, muito bem arranjado, muito bem executado musicalmente. Baixista, batera, guitarrista, está todo mundo tocando bem, fazendo direito.

DISCOS
“Alma de Borracha

O “Alma de Borracha” tem uma foto na capa… Eu lembro que o Gabriel estava começando a andar e a gente ficava instigando ele a melhorar a performance, a andar melhor. Porque volta e meia ele caía. E eu estava num canto, chamando ele para vir. Ele vinha e eu abraçava. É um disco que eu gosto também. A música título é do meu amigo Telinho. É do Telo Borges. A letra é do Marcinho. E tem uma história. Parece que o Marcinho se lembrou do Alma de Borracha dos Beatles e resolveu fazer o nosso “Alma de Borracha.”

DISCOS
“Viagem das Mãos”

Eu costumo fazer os discos e colocar canções de outras pessoas também. Sempre tem. Nesse caso, o “Viagem das Mãos”, o título, mais uma vez não é meu. É do Tavinho Moura e do Marcinho. Depois do “Alma de Borracha” veio o “Andaluz”. Esse foi o último disco de contato meu com a Odeon. Eu gravei as bases todas desse disco com a galera todinha do Roupa Nova. Gostei muito. Ficou muito legal. A gente fez rapidinho. Em 15 dias estava tudo pronto.
O Marcinho é quem ia escrever o “Andaluz”. Aí, me parece, ele foi pra Mauá. A gente estava com dificuldade de comunicação e o pessoal estava me apertando, querendo a letra porque o disco tinha que sair. Acabou que não consegui mais achar o Marcinho. As coisas foram apertando e eu chamei o Ronaldo. Aí o Ronaldo escreveu o “Andaluz.” Depois veio o Plano Collor. A companhia estava toda acertada da gente entregar o disco, renovar o contrato, fazer mais discos. Mas, dois meses depois do disco estar na rua, veio o Plano Collor. Eu segui fazendo shows, sobrevivendo de música, até o pessoal da Sony me chamar, quando eu gravei o “Dias de Paz.” Esse disco tem um sorvete na capa e a música-título é minha e do Chiquinho Amaral. É um disco que tem a bela participação da Paula Toler no “Tristesse”, do Telo. “Tristesse” foi uma música interessante. Uma vez, eu vi o Telo tocando uma música instrumental num show. E ela tinha uma coisa curiosa, porque ela subia, andava um, dois, três compassos, ou de dois em dois, e dava uma parada. A gente contava dois, ou um, não me lembro. Um, dois, três. Esse é de pausa. É sempre assim. Pausado, pausado. Aí teve um coquetel e eu falei: “Telo, você vai me dar um trabalho incrível. Você vai me dar uma dor de cabeça que você não imagina”. Cismei que aquela música tinha que ter letra e tinha que ter uma melodia. Só que ela não era fácil. Tanto que, mais tarde, o Telo sabiamente foi procurar um especialista. Foi chamar o Bituca. E o Bituca fez aquela maravilha de canção. Fez a letra. Um dia eu encontrei com o Telo e ele estava todo feliz porque tinha ganho o Grammy. Achei ótimo. Mas tinha uma coisa curiosa porque, mais uma vez, a companhia estava pressionando. O Bituca tinha me mandado melodia e a letra mas não tinha mandado o nome da música. Aí liguei pro Bituca pra perguntar como é que chamava. E ele falou: “Eu tô pensando ainda. Amanhã ou depois eu te falo”. Aí eu peguei o telefone e falei, com medo da reação, de levar bronca: “Ô, Bituca, e se chamasse de Tristesse?”. E no mesmo segundo, ele, do lado de lá, falou: “Legal. Gostei”. Eu contei pro Telo outro dia essa curiosidade.
No “Dias de Paz” tem também a participação do Bituca comigo. Eu cantei “Asas”, que é uma nova versão que eu pedi pro Marcinho fazer do “Belo Horror”. Tem o Djavan cantando “Amor de Índio”. Tem o Lô cantando “Sal da Terra” comigo. Tem a Paula Toler no “Tristesse”.

DISCOS
“Em Algum Lugar”

Depois do “Dias de Paz”, a gente fez o mais recente, que saiu agora em agosto, “Em Algum Lugar”. É um disco que tem músicas novas, que tem versões, tem uma música minha com o Milton chamada “Amor de Filho”. Acho que ele fez meio que pro meu filho, Ian. Tem “Em Algum Lugar”. É uma canção que eu vi na TV, num documentário que falava do avô ensinando o menino a pescar com uma pipa que tinha uma teia de aranha. Era um processo todo diferente de pescar. No fim, tocou uma música tão bonita que eu falei: “Nossa!”. Aí cismei com essa canção e resolvi mostrá-la pro brasileiro. Isso se passava na Indonésia. Tinha umas crianças cantando num dialeto diferentão, bonito, muito bonito. Aí eu pedi pro Fernando Brant escrever. Se chamou “Em Algum Lugar”. E, mais uma vez, abre o disco uma música que nós estamos trabalhando, que também não é minha. Dessa vez, a companhia resolveu pedir a duas rádios grandes do Rio. Mandaram o CD pra lá e perguntaram: “O que vocês acham que deve tocar?”. E as duas disseram que tinha que tocar “Sonhando o Futuro”, que é do Lô e do Cláudio Venturini. Normalmente, é a gente que decide isso, mas dessa vez eu resolvi atender à galera. Eu falei: “Se vocês estão achando assim, vox populi vox dei”. Então manda “Sonhando o Futuro” que está de bom tamanho, que é bonita.
Nesse último trabalho, a gente chamou o Arthur Maia, o Cezinha. Tem eu tocando contrabaixo, tem a participação vocal da Betina, do Chico Coco, da Nair e do Paulinho Soledade. Tem o Milton Guedes tocando gaita em “Vem Ver o Sol”. O que mais? Tem o Marcelo Martins tocando saxofone em “Via Láctea”, que eu resolvi regravar. E, no estúdio, eu ia deixar eles sem saber. Num dado momento, eu falei assim: “Peraí, vem cá. Escreve aqui pra mim. Lá. Um, dois, três”. Comecei a contar o compasso e pedi pra escreverem. Eles estavam anotando. Lá, dó, ré, fá, sem saber o que era. E eu aqui, sabendo o que era. Falei assim: “Eu não vou contar pra vocês. Só depois que tiver pronta”. Porque eu lembrei que eu tinha um saxofone. Até fiz uma música chamada “Dona Júlia”, pra minha mãe, que era minha e do Luiz Guedes. Eu toquei saxofone tenor. Eu e o Mascarenhas. E o tenor estava muito bom, macio. Eu consegui me dar bem. E outro dia eu estava tocando aqui o tenor e lembrei disso. Só que o “Via Láctea”… Eu lembrei de “Poeira de Estrelas”, “Star Dance”, aquela canção americana. Só que a parte da harmonia, na música do Lô, é em três, e ela é em quatro por quatro. Aí eu não quis fazer em quatro por quatro. Continuei em três mesmo. Se eu cantar, a música vai dar certo, mesmo com algumas modificações na melodia. Mas eu ia falar assim: “Onde está o Wally?”. Falei que saí procurando onde tem “Star Dance” no disco. Mas agora já contei…

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Parcerias

Eu fiz com o 14 Bis o “Belo Horror”. Foi naquele disco do Toninho, do Danilo e do Novelli. E gravou junto aquela música “Belo Horror”, que é minha e do Marcinho e de todos eles, do Flavinho, do Vermelho. E a parceria que a gente teve foi essa. Depois, continuamos amigos. A gente sempre tocou no disco um do outro. Eu no disco do Lô, eu e o Flavinho tocando pro Lô. O Lô e o Flavinho tocando no meu disco. A gente está sempre se ajudando.
Eu tenho feito músicas com várias pessoas. O Marcinho tem escrito belas canções comigo, belas letras. O Murilo Antunes e o próprio Fernando Brant são meus parceiros, também constantes, mas não mais freqüentes. O Ronaldo é meu compadre. É Padrinho do Ian, meu filho mais novo. E é um cara que eu admiro, que eu gosto muito. A maioria das canções que eu fiz realmente foi com ele. E acho que foi um casamento bacana, que sempre deu certo. Ele sempre me atende nas modificações eventuais que acontecem. É um grande camarada, o Duba.

PESSOAS
Márcio Borges

O Marcinho é praticamente meu irmão. De vez em quando, ele me chama de meu irmão. A gente é muito amigo, desde minha amizade de infância com o Lô. A gente se conhece há anos. Já escrevemos várias canções conhecidas. E é uma pessoa que eu gosto muito. Assim como o Murilo Antunes, meu parceiro também. Meu conterrâneo de norte mineiro. E o Fernando Brant, que é também nosso amigo de muitos anos e que está sempre fazendo música com a gente. Agora mesmo está no último disco. A música-título é minha e dele. Quer dizer, é de um dialeto, a canção é da Indonésia e a versão é do Fernando Brant. É muito legal essa galera. Tenho muito carinho por todos eles e são meus eternos amigos.

FAMÍLIA
Filhos

Eu acho que o talento dos meus filhos, do Gabriel e do Ian, é devido à convivência. Os primeiros acordes, por exemplo, não fui eu que ensinei pro Gabriel. Foi o meu holding, que é o Pato Hendrix. Ele é que chegou e começou a ensinar os primeiros acordes pro Gabriel. Mas, a partir do momento que eles começaram a mexer, eu não fui aquele cara que diz: “Vai ser músico”. Não fiquei estimulando, porque eu sei como a barra é pesada. Mas já que eles quiseram… Então, toda a ajuda que eu posso dar, eu dou. Eu já tive a minha guitarra. Eu tirei do pescoço e dei pra um. Aí comprei uma Les Paul, que é uma guitarra muito cara. Tirei do pescoço e dei pro outro. E no que precisam, estou sempre ajudando. Dou palpite às vezes no que eles estão fazendo. O Gabriel está nesse disco novo, está participando com uma canção que ele fez pra minha neta, chamada Júlia. Uma valsa muito bonita. Acho que, para quem está começando, começou bem. E o Ian é o mais novo, e também seguiu o caminho do irmão. Os dois agora trocam figurinha. E o Ian também participa do disco tocando guitarra, na música chamada “Vem Ver o Sol”, que é do Claudinho Farias. E estamos aí, batalhando. Minha nora também canta no disco. Canta uma valsa chamada “Tua Canção”. Então está tudo em casa. E acho que o que eu tinha pra falar, está dito. Eu tenho que gostar deles serem músicos.
Eu aprendi muito com marcenaria por minha conta mesmo. Acho que o meu pai era um grande poeta, um excelente compositor, um grande pintor. Mas, na marcenaria, ele deixava a desejar. O negócio dele não me agradava. Cortava tudo meio torto. E eu já gosto assim. E o Gabriel parece que puxou mais ao avô. Não me puxou. Eu gosto de tudo bem no esquadro. Sou muito preciso. Não gosto de fazer a coisa mal feita. Então eu me esmero muito no acabamento das coisas que faço. Agora mesmo, o Ian cismou de fazer uma guitarra. Daí a pouco já me bota pra fazer. E eu estou correndo atrás de madeira. Vocês chegaram aqui agora, não filmaram, mas eu estava ali, com a tupia, fresando guitarra e coisa e tal. Então eles têm essa. Porque aeromodelo, avião, é uma coisa que todo mundo gosta. Toda criança homem gosta. Todo menino gosta de aviãozinho. E eles me viram mexendo com isso. Os dois são pilotos de aeromodelo. O Gabriel é piloto de ultraleve. Eu sou piloto de avião, sou piloto de ultraleve. O Ian já está querendo aprender ultraleve. Com certeza, pelo que eu já vejo ele voar de aeromodelo, e às vezes no computador, voando Flight Simulator. A gente sente que o que ele está fazendo com a mão é muito parecido com o real. E acho que ele não vai ter dificuldade em voar.
O interesse deles pela música do avô foi uma coisa inusitada. Não esperava por isso. Eu acho que eu já tentei fazer isso uma vez. Pra tentar ajudar os meus irmãos que estão em Montes Claros, eu queria gravar músicas do meu pai. Queria chamar a Gal, o Caetano, o Djavan, uma galera de peso pra tentar ver se eu conseguia, com a vendagem, dar um sustento aos meus irmãos que estão em Montes Claros. Mas aí o Gabriel foi lá e ganhou um patrocínio na lei do incentivo. Eu achei interessante. Estou dando a maior força. Achei até diferente. Ele podia ter pensado em fazer um disco dele, alguma coisa assim. E me convidou. Já cantei lá e vou chamar o Bituca. Acho bacana o neto querer dar uma força pro pessoal, cantar as músicas do avô.

TRABALHO
Avaliação

Acho que foi um pouco tranqüilo tornar-se o ídolo de gerações. Eu era um garoto do interior. Meus pais são baianos. Lá em casa, muita gente é baiano. Só eu e o Patão que somos mineiros. Eu era um pouco quieto, meio calado, meio tímido. Mas eu não sei. A partir do momento que eu comecei a ter aquele conjunto, The Beavers, já com o Lô, já criança, comecei a tomar gosto. Essa coisa foi dando certo. Não foi aquela coisa de acontecer da noite para o dia como acontece com alguns. Esse The Beavers, a gente ficou uns dois anos fazendo. Com o outro conjunto eu fiquei uns três, quatro anos fazendo baile, ganhando o meu troquinho. Depois, os festivais. Então a coisa foi andando assim. Não foi como tornar-se famoso da noite para o dia. Pra mim é tranqüilo. A coisa foi sucessiva, progressiva e suavemente acontecendo.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

Eu acho que o Clube da Esquina continua sendo importante. Eu acho que as amizades que a gente faz, que têm uma raiz forte, que têm uma duração, são muito importantes pra vida das pessoas. Você ter amigos que há trinta e tantos anos se conhecem, que o carinho continua o mesmo, que o tratamento é o mesmo, é muito importante, muito bacana.

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Clube da Esquina

Eu sou suspeito para falar sobre o Museu Clube da Esquina. Eu sou um sócio desse clube. Eu acho que foi uma idéia bacana do Marcinho. Estou torcendo para que continue, para que consiga aí o apoio de quem precise. É isso. Eu acho um barato. Dou a maior força e espero que vocês continuem na maior, na boa.

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6 Mensagens para Beto Guedes

  1. DEBORAH SUAREZ disse:

    CLUBE DA ESQUINA,TRAZ LEMBRANÇAS DE ADOLECENCIA, DAS RUAS DE MINAS. TEM A MUSICA E A AMIZADE COMO ESSENCIA
    QUERIA TER VIVIDO ESSA ESPERIENCIA

  2. Pedro disse:

    Boa tarde, gostaria de um Contato para conversarmos sobre uma proposta de Exposição em homenagem aos 40 anos do lançamento do 1º Disco.

  3. Arilmar Montingelli disse:

    ë sempre um prazer ler sobre o Clube da Esquina. Estou terminando de ler o livro Os Sonhos Não Envelhecem, do Marcio Borges e a cada página eu sou transportado a época que deu início a tudo e que me faz lembrar também Jovem Guarda, Betales, Tropicália e tudo de bom que aconteceu na minha vida. Adoro Minas e seus lugares e adoro Beto Guedes, Milton, Lô e o Clube da Esquina. Obrigado por esse espaço.

  4. Gilber disse:

    O clube da esquina foi um movimento mágico da musica brasileira , uma profusão de talentos e almas poéticas que enriqueceram a minha adolescência e a de muita gente . Esse museu é mais do que necessário para se guardar com muito carinho uma das páginas mais lindas da arte desse país .

  5. Pedro disse:

    Beto guedes é foda! demais!

  6. Tarcísio Rosa disse:

    CLUBE DA ESQUINA é inspiração prá quem ama e faz música, é inspiração para o poeta, é cupido entre tantos corações, é senda por qual medito e prossigo em busca do primor a que me dedico e poder um dia executar ao meu velho "pinho" melodias que tanto me inspiram esses gênios e mestres do CLUBE DA ESQUINA.
    Grato.