Beto Lopes

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, data e local de nascimento

Meu nome completo é Alberto Lopes Cançado. Nasci em Rio do Peixe, município de Pitangui, em 15 de novembro de 1961.

Família
Nome dos pais

Minha mãe é Maria Lopes dos Santos e meu pai, Cornélio Lopes Cançado Filho.

Família
Mãe

Meu pai tocava violão e a minha mãe tocava acordeom e cantava muito bem. Inclusive, eu aprendi a tocar com ela, com uns quatro ou seis anos. Antigamente não tinha, dó, sol, ré, fá. Era primeira de dó, segunda de dó, que é sol, terceira de dó, que é fá… Quando era o dedo um, era o dó maior; fazia o dois, era sol; três era a terceira de dó, que é fá. Então ela ia cantando e eu ia acompanhando o dedo dela e fui aprendendo assim. Nós cantávamos as musicas antigas [cantarola]: “Se a Pérpetua cheirasse, seria rainha das flores” e por aí vai. Minha mãe cantava muita coisa antiga. Eu lembro que ela cantava aquela música [cantarola]: “Eu sempre fui feliz”. Eu lembro da melodia, mas não da letra, porque eu acompanhava ela nessa música também.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Pai, irmãos

Meu pai tocava violão, Dilermando Reis, aquelas coisas mais antigas. Depois, a gente mudou aqui para Belo Horizonte – eu tinha uns seis, sete anos. Meus irmãos tinham um conjunto, tocavam no Labareda, na Pampulha, todo fim de semana. Eu ia vê-los e no domingo à tarde eu cantava com eles na matinê. Aí ficava com o microfone cantando [cantarola]: “A folhas caem, o inverno já chegou”, do Roberto Carlos. O microfone tinha um cabo grande e eu ia nas mesas, era pequenininho.Tinha seis, sete anos. Mas eles já tinham um conjunto de baile, acho que se chamava Impactos. Eles tocavam tudo, Roberto Carlos, Beatles, Pink Floyd. Uma vez meu irmão me levou para ver o ensaio, e eu vi eles tocando Pink Floyd igualzinho àquele CD do prisma, muito bom.

Formação Musical
Iniciação musical

Esse meu irmão, o Marcos, tinha um órgão Saema, um teclado, ele tocava guitarra e órgão. Quando eu tinha uns 10 anos, me chamaram pra tocar em um casamento e eu fui com o órgão, já tinha ensaiado. Eu não lembro se eu tinha oito ou 10 anos. Eu sei que eu estava lá ligando e o padre chegou: “Sai daí menino, vai estragar o instrumento”. Aí eu falei: “Não, eu que vou tocar”. “Não, não, sai daí.” Aí chegou o pessoal e falou: “Não, é ele que vai tocar”. Aí o padre: “Então tá”. Pensou que eu ia estragar o teclado. Depois disso eu montei uma banda que se chamava Frutos da Terra, eu já tocava guitarra, tinha músicas nossas, próprias. Eu já ouvia Clube da Esquina, Deep Purple, Pink Floyd, Led Zeppelin, Yes. E o Clube da Esquina eu já comecei a ouvir a partir dos 12 anos. Mais tarde eu fui tocar com todos os integrantes.

Voltar ao topo DISCOS

Clube da Esquina: 1972

Eu gostei muito. Ouvi e falei: “Que harmonia é essa? Que idéia doida desses caras!”. A harmonias todas com os baixos invertidos, o Toninho Horta cheio de harmonias de bom gosto, o Milton cantando daquele jeito, como sempre, como todo mundo sabe e o Lô Borges compondo bem pra caramba. Aí eu comecei a ouvir isso e aprender a música daqui, essa música mineira do Clube da Esquina. Mas eu já tocava chorinho, samba e um pouquinho do jazz, já tinha começado a ouvir alguma coisa. Mas o Clube da Esquina foi superimportante na minha vida, é e vai ser sempre, pra mim e pra todos os músicos. A música é muito bem feita, melodicamente, harmonicamente, e a letra também, é tudo bem feito. Todo mundo que ouve fica pirado. Aqui no Brasil, você vai a outros Estados e quando você toca, as pessoas falam: “O que é isso? De onde que é isso?”. “Eu sou lá de Minas. Lá a gente faz assim as músicas, as harmonia são invertidas”. Então é muita escola, muito aprendizado. Acho que foi e ainda é inovador. Mais novo do que isso não tem. Musicalmente é muito bem trabalhado. Hoje em dia o pessoal está querendo ganhar dinheiro, então faz o negócio pra vender, ganhar muito dinheiro, ficar rico e conhecido. Só que musicalmente não é nada disso.

Voltar ao topo TURNÊ

Estados Unidos

Eu fui para os Estados Unidos com o Lô Borges. Aí não toco só Clube da Esquina, eu misturo muito música mineira com chorinho, samba, um pouco de jazz. Então eu cheguei a um bar lá em Nova York com um amigo meu e tinha um tanto de guitarristas tocando, estava muito bom e eu estava assistindo. Aí esse amigo meu, o Cleuber, foi tocar sax, me chamou pra dar canja e os americanos falaram: “Tem um guitarrista brasileiro aqui e vai dar canja”. Era a primeira vez que eu ia a Nova York e fiquei com medo. Subi no palco, eles fizeram umas harmonias simples e quando passaram o improviso pra mim, eu comecei com um ritmo meio de chorinho, samba, umas harmonias mineiras e aí arrasei, me dei bem pra caramba. Quando eu saí do palco, todos os guitarristas me abraçaram. No outro dia eu voltei e o garçom: “Senta aqui”. Eu já virei rei no lugar e falei: “Então tá bom demais”. É isso que eu falo sempre para os meus alunos – falava antes, agora eu não estou dando muita aula porque estou sem tempo. Os meus alunos falavam: “Vou pra Nova York estudar”. Aí eu falava assim: “Você sabe tocar samba?”. O cara: “Não”. “Sabe tocar chorinho?” “Não.” “Sabe tocar baião?” “Não.” “Xote, música mineira?” “Não.” “Harmonia do Clube da Esquina?” “Não.” “Então o que você vai fazer lá, meu filho?” Eu acho que se o cara chegar lá fora sabendo isso, ele vai aprender jazz e vai se dar bem, porque lá fora é muito mais fácil você tocar música daqui do que música de lá. Porque lá está assim de gente tocando muito bem. Todo mundo fala que gosta muito. Lá nos Estados Unidos mesmo, todo mundo adorava o show. O show era só eu e o Lô e dois violões. Uma vez eu toquei com o Andy Summers, do The Police, e ele também adora. Todo mundo gosta, não tem jeito de não gostar. Quando entra o Milton cantando, ou compondo, o Toninho arranjando, tocando e compondo também, todos compõem bem demais, então não tem jeito, todo mundo adora.

Voltar ao topo CLUBE DA ESQUINA

origem

Eu tocava na noite em vários barzinhos na Savassi e o Milton, o Lô, o pessoal todo ia me ver tocar. Teve uma época em que eu tocava guitarra com o Fernandinho Rodrigues, que era o meu amigão, no Bar Boletas; eram duas guitarras, eu, ele, o Iuri Popov e o Mario Castelo. O Fernandinho morreu atropelado por um caminhão, foi muito triste esse negócio. Aí o Lô me chamou pra tocar com ele – porque era o Fernandinho que tocava com ele – e depois o Beto Guedes. Já toquei com o Toninho Horta, o Tavinho Moura, o Flávio Venturini, com todo mundo. Fiz alguns shows com o Milton e várias outras coisas com esse povo.

Pessoas
Beto Guedes / Lô Borges

Uma vez tinha uma banda que era eu, Paulinho Carvalho, Telo Borges e o Neném e a gente acompanhava o Lô Borges e o Beto Guedes. Era uma turnê pelo Brasil, o show dos dois. Entrava um, depois o outro e banda continuava a mesma. A gente estava em um hotel, saindo para ir para o show. Eu peguei o elevador, parou no quarto andar e entrou o Lô: “Vamos embora?”. “Vamos embora.” Aí o elevador parou no segundo andar e entrou o Beto Guedes todo de branco. Nós olhamos aquilo e ficamos quietos. Aí o Lô virou e falou assim: “Oh, Beto, que negócio é esse? Pai-de-santo?”. Aí ele falou assim: “Pai-de-santo não, ginecologista.” (risos) Eu não sei se pode contar isso, depois você tira. O Beto Guedes pode achar ruim. Pergunta pro Beto se pode contar isso. Mas eu lembrei, foi muito engraçado. Teve muita coisa que nós já fizemos juntos, vários shows, só show bonito. A primeira vez que eu fui tocar com o Beto Guedes no Rio de Janeiro foi no Parque Laje, em 1989, 1990, por aí. Ou foi até antes, porque em 1989 eu gravei o primeiro disco, o “Rua Um”. A gente chegou e o Parque Laje, ao ar livre, estava lotado. Aí entrou a banda, eu, Paulinho, Telo e Neném – acho que tinha o Evaldo também nessa época e um cara de Brasília que eu esqueci. Aí a gente começou a tocar “Feira Moderna”, a introdução para começar o show era com “Feira Moderna” [cantarola]. Era pra fazer isso e o Beto entrar cantando. Nós fizemos e introdução, o Beto entrou no palco, a galera aplaudindo. E o Beto nada de cantar. Ele estava curtindo com a gente. Virou pra mim e falou pra mim: “Nossa, véio, tá bom demais, o som tá muito bom!”. Eu falava: “Canta lá, Beto”. E lá pela décima vez, ele: “Tua cor é o que eles olham, velha…”, começou o show.

Pessoas
Hermeto Pascoal

A primeira vez que eu fui tocar com Hermeto Pascoal foi no Cabaré Mineiro. Primeiro eu conhecia ele à tarde, porque eu dava aula na Música de Minas, a escola do Milton aqui, e ele foi fazer um workshop. Eu vi e fiquei doido, já era fã dele. Aí eu cheguei e falei: “Hermeto, eu sou seu fã, você é um dos maiores músicos do mundo”. E ele falou: “Você é quem?”. “Eu sou músico, eu toco aqui.” Ele falou: “Você toca com quem?”. “Eu toco com o Toninho Horta, com o Lô Borges, com o pessoal do Clube da Esquina.” Ele falou: “O quê? Você toca com o Toninho Horta, com esse pessoal? Então você vai tocar comigo hoje à noite”. Aí eu falei: “Tá, eu vou”. Ele foi embora e na hora que ele saiu, eu falei: “O que eu falei? Não vou não”. Na época eu tinha uma namorada, a Mônica, uma namorada antiga, isso foi em 1986, eu acho, aí a gente foi para um bar depois do almoço e ficamos lá tomando cerveja. O bar se chamava Abóboras, ali na Rua Rio Grande do Norte. Eu fiquei tomando cerveja lá até a hora do show, para acalmar, eu tinha ficado nervoso. Aí eu fui direto para o Cabaré Mineiro. Cheguei lá e estava lotado, meu nome já estava na porta, nós entramos e eu fui para o camarim. Cheguei no camarim e já estava todo mundo me esperando, Itiberê, Márcio Bahia, o Hermeto, todo mundo. Aí eles me abraçaram: “Alberto vai tocar com a gente”. E eu: “Nossa, o que eu vou tocar?”. Eu não tinha ensaiado nada. Eles começaram o show, uma quebradeira, e eu peguei a guitarrinha e fiquei praticando a técnica para entrar bem. Aí o Hermeto chegou pra mim e falou: “O negócio é o seguinte, si bemol menor e mi bemol com sétima. Beleza?”. E eu falei: “Tá bom, si bemol menor e mi bemol com sétima”. E entrei, o cara plugou aqui, eu já saí solando e o Hermeto foi me empurrando pra frente do palco. E o cabo foi só esticando. “Hermeto, olha o cabo, olha o cabo.” E ele: “Olha o povo, olha o povo”. (risos) Toquei, foi bom pra caramba. Todo mundo gostou. E ele falou: “Toda vez que você vier no meu show e estiver sem a guitarra, não entra”. Depois, teve várias vezes que ia ver o show dele, entrava e dava canja. Em São Paulo, lá no SESC Pompéia, depois em Ouro Preto.

Formação Musical
Clube da Esquina: avaliação

É uma música nova, de harmonia nova, melodia, com ritmo também, tem muita coisa, muita informação no Clube da Esquina. As composições do Milton, do Lô, do Beto Guedes, do Toninho Horta, Tavinho Moura, Nivaldo Ornelas, Flávio Venturini, cada um é de um jeito. Todos têm aquela característica mineira, mas cada um é de um jeito, é diferente e é aí que tem a riqueza. Quem escuta, tira e vai atrás se dá bem como eu me dei bem. É o jeito de harmonizar, é a beleza de colocar a melodia junto com a harmonia na hora certa, sem correr, sem afobamento. É mais em Minas mesmo. Mineiro, devagar, pão de queijo, montanha, cachoeira, as pessoas… Você vê que todo mundo que vai pra fora e fica não sei quanto tempo longe de Minas fica doido pra voltar, porque aqui é que é bom. É difícil de trabalhar, de viver, mas é bom O Tom Jobim mesmo falou: “Nova York é bom, mas é uma merda. Brasil é uma merda, mas é bom demais”. Tom Jobim é outro craque.

Pessoas
Milton Nascimento / Andy Summers

Teve um show que eu toquei com o Milton, no Heineken in Concert, que teve Uakti, Lô Borges, Andy Summers, Milton. Foi no Palace, em São Paulo, e no Canecão, no Rio de Janeiro. No Rio, eu lembro que eu estava passando o som do violão e o Andy Summers queria o som do violão dele igual ao meu. Ele pegou uns 10 violões e não dava. E eu falei: “Não, Andy, é porque a pegada é diferente”. Ele me pediu pra ensinar ele a tocar samba, mas a mão dele era dura, não tinha suingue. “Você tem que soltar a mão.” Ele não conseguiu tirar o som igual ao do meu violão de jeito nenhum. Eu falei: “É a pegada da mão”. Aí o Milton falou: “Eu gostei muito do som do seu violão, você me empresta pra eu tocar com ele hoje?”. Eu falei: “Claro, pode tocar no meu violão”. E ele tem o volume aqui do lado, era um violão Takamine, e eu falei: “Tira o volume para não dar microfonia”. Tirei e deixei lá. Aí entra o Milton, pega o violão, sozinho, o lugar lotado, e começa a tocar e cantar e nada de som – tinha que ter aumentado. Eu falei: “E agora?”. Ninguém fazia nada e eu falei: “Vou ter que ir lá”. Aí eu fui ao palco, aumentei e o violão e ele: “Obrigado” e continuou. Teve uma história que eu estava com ele lá em Balneário Camburiú e a gente estava tomando cerveja na hora do almoço – só ele que não, porque ele parou de beber tem muito tempo. E eu falei com ele: “Bituca, você não se anima de tomar uma cervejinha sem álcool? Toma uma sem álcool”. Aí ele falou: “Eu já até pensei nisso, mas vai que eu gosto, melhor não mexer com isso”.

Formação Musical
Shows

Eu fiz mais shows com o Lô, Beto Guedes, Flávio e com o Tavinho Moura eu acho que fiz mais ainda. Fizemos muitos shows eu, ele e o Fernando Brant, gravei vários discos com o Tavinho, fiz a direção musical do último disco dele, “Cruzada”. Deixa só eu contar só mais uma história engraçada. Muitos anos atrás, eu e o meu irmão, o Wilson Lopes, íamos fazer um show de dois violões mas a gente brigou, porque na época a gente era mais novo, era menino, brigava. E nós brigamos e falamos: “Cada um faz uma banda”. Aí eu chamei o Bituca pra ir ao show, ele morava aqui ainda. E ele falou: “Só vou se levar o convite”. Eu levei o convite lá na casa dele e ele foi ao show, o Lô foi, todo mundo foi. O Wilsinho tocou a parte dele, depois eu entrei com a minha banda. Estava tocando, nervoso, era menino, e tinha uma estante com as partituras. Eu deixei a palheta lá pra falar alguma coisa, e na hora que eu fui voltar pra tocar a próxima música, fui pegar a palheta, meu pé já agarrou de baixo da estante, eu puxei a estante e voou palheta, partitura na platéia. Aí um cara lá em cima gritou: “A palheta está aqui”. Voou lá em cima. E todo mundo rindo, aquela confusão. Mas voltamos, toquei e o show acabou. Depois nós fomos para um barzinho que se chamava Beco da Lua e o Bituca falou: “Deixa por minha conta, eu pago cerveja pra vocês”. A gente estava no barzinho, passou um cara e ficou olhando pro Bituca, ia pra lá e voltava. E teve uma hora que o cara falou assim: “É quem eu estou pensando?”. E o Bituca falou: “Não, todo mundo me confunde com esse cara, esse tal de Milton”. E o cara saiu e todo mundo riu pra caramba. Aí eu falei: “Bituca, você gostou do show?”. “Gostei muito, o show foi muito legal.” “Amanhã você vai de novo?” E ele falou: “Só vou se tiver o lance da estante novamente”.

Voltar ao topo MUSEU

Clube da Esquina

Acho maravilhoso. Márcio Borges, meu parceiro. Eu tenho a honra de dizer que tem duas músicas com ele, com Murilo Antunes, com Fernando Brant também. Eu acho isso muito bom, bom para todo mundo, para todas as pessoas que querem aprender a fazer música e viver também, ouvir as letras. Tem muita coisa bonita, musicalmente também. É bom pra todo mundo, pra mim, pra você, para eles, todo mundo.

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