Cafi

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome / Local e data de nascimento

Meu nome é Carlos da Silva Assunção Filho – o apelido é Cafi. Nasci em Recife, Pernambuco, em 20 de fevereiro de 1950.

Apelido
O apelido Cafi veio quando eu vim aqui para o Rio. Minhas irmãs me chamavam de Carlos Filho, e tinha o filho de uns amigos dos meus pais, que era novinho, e me chamava de Cafi; ele juntava o Carlos Filho, entendeu? Daí, na época, eu comecei a trabalhar em cinema e um amigo meu botou no crédito Cafi. Passou e virou Cafi. Hoje em dia se me chamar de Carlos eu nem atendo; ficou distante.

FAMÍLIA
Pais

Meu pai é pernambucano e sempre foi comerciante; minha mãe sempre mexeu com arte, com coleções – vendia arte e teve um antiquário lá em Recife. A família toda da parte da minha mãe, que eram sete irmãos – e a família do meu pai também eram sete irmãos –, mexia muito com arte, com educação, com jornalismo; minha mãe era mais envolvida com essa coisa de arte. Lá em casa tinha uma freqüência muito forte também de políticos, porque minha mãe tinha estudado com a Célia, que era mulher do Miguel Arraes. Eles freqüentavam muito lá em casa, e isso deixava a casa movimentada tanto politicamente como artisticamente, mesmo porque tinha muita gente que ia lá porque tinha piano e se tocava.

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Recife

Também na época do Arraes foi criado o baile municipal lá de Recife. Nessa época, não iam atores da Globo; quem iam eram intelectuais aqui do Rio de Janeiro: Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Tônia Carrero. Eu me lembro que esse pessoal todo ia, todo ano tinha um grupo que ia, e como eu tinha uns tios aqui no Rio que eram amigos desse pessoal – tanto o Augusto Rodrigues quanto o Nelson Rodrigues – lá em casa ficava sendo um ponto também. Quando eles iam a Recife, sempre baixavam lá em casa.

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Irmãs

Eu tenho duas irmãs, Sandra e Andréa. Elas são mais velhas do que eu, eu sou o caçula. É engraçado, eu fui mimado, Carlos Filho, né?

INFÂNCIA
Lembranças da infância

Até os dez anos de idade me chamavam de Neném… imagina! Teve que ter uma reunião lá em casa para parar com isso. Era Neném para lá, Neném para cá, e aí um dia fizemos uma reunião para parar com isso e parou. Aí passou a ser Carlos Filho, por causa do meu pai; e nessa vinda para o Rio, virou Cafi.

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Brincadeiras de criança

Na infância eu morava numa rua que não tinha calçamento. Era um bairro relativamente de classe média alta lá de Recife, mas essa minha rua não tinha calçamento. Então isso me fazia brincar o tempo inteiro, porque em Recife era engraçado: nessa época você brincava de acordo com o tempo. Quer dizer, quando estava chovendo, você jogava bola de gude, porque o chão estava batido; quando era agosto, época de vento, a onda era empinar papagaio; São João você fazia rifa… Então foi uma coisa superlegal.

FAMÍLIA
Reuniões familiares

E tinha o negócio dessa minha família – que até hoje, às vezes, eu me ressinto disso –, de uma certa disciplina, de uma certa organização, porque sempre foi uma família que dava muito valor aos valores espirituais, e tudo muito ligado à arte. Era uma família superliberal, muitos primos. Sempre Natal e réveillon na casa da avó, com muita gente… era uma família muito divertida.

FAMÍLIA
Bisavô / Tios

O meu bisavô, que está até descrito naquele livro do Nelson, “O anjo pornográfico”, teve três filhos, que foram o Mário, o Augusto e tia Maria. E tanto o tio Mário quanto o Augusto, cada um teve sete filhos, e todos esses filhos eram envolvidos com arte. O Augusto era envolvido com pintura e com educação na Escolinha de Arte do Brasil. O tio Fernando era colecionador de artes plásticas. O tio Abelardo era colecionador de arte popular, que começou praticamente esse movimento de arte popular no Brasil, porque até então a arte popular no Brasil era uma arte popular utilitária, não se dava valor ao imaginário dentro da arte popular.
E esse meu tio Augusto, que já estava aqui no Rio, uma vez encontrou as peças do Vitalino – porque o Vitalino fazia peças para brinquedo de criança para vender na feira – e fez uma grande exposição aqui no Rio sobre Vitalino e uma grande reportagem na época, na revista O Cruzeiro. Daí que surgiu essa coisa da arte do Vitalino em si e da arte popular. O Vitalino foi, de uma certa maneira, um fósforo aceso para uma visão totalmente diferente do imaginário dentro da arte popular. Já tinha o tio Mário, que era jornalista e criador do Jornal dos Esportes, e que também através do jornal foi quem promoveu, por exemplo, o primeiro desfile oficial de escolas de samba, que fazia os Jogos das Primaveras.
Tinha o tio Francisco, que era praticamente um dos maiores colecionadores de fotografias do início do século passado aqui no Brasil, com coleção no Instituto Gilberto Freyre, Instituto Joaquim Nabuco, lá em Recife; é uma coleção importantíssima, que foi importante até para mim, para fotografar, porque eu conversava muito com o tio Francisco sobre fotografia, sobre o portrait, que ele adorava. Tinha também tio Abelardo, que tinha uma coleção enorme de arte sacra, documentos e pinturas, que hoje em dia virou um museu na Bahia, o Museu Abelardo Rodrigues. Tinha o Nélson, que escrevia – era jornalista e ao mesmo tempo teatrólogo.
Então a família sempre foi toda pontuada… mesmo meus primos hoje em dia: um virou pintor, um outro virou galerista, o outro virou pesquisador de não sei que lá. Então foi uma família muito rica. O impressionante era que não tinha uma figura genial, apesar de ter até figuras geniais; mas não era uma figura genial, era a família inteira, e quando se reunia era fantástico. Essa lembrança que eu tenho de infância é fantástica, porque era muita brincadeira e, ao mesmo tempo, tinha supervalorização, valorizando só as coisas espirituais. Até hoje eu fico assim… não pensando no dinheiro, não pensando em não sei o que lá, o que vale é a arte, o que vale é a amizade, o que vale são essas coisas.

FAMÍLIA
Moradia

Voltei há uns cinco dias de Recife e passei lá onde era minha casa. Lembro muito bem da minha casa, porque eu nasci nessa casa . Eu lembro de todas as injunções dessa casa: como minhas irmãs eram mais velhas, elas plantaram pé de goiaba, plantaram pé de carambola, e eu não podia subir no pé de goiaba porque era delas. Dessa coisa da casa eu lembro muito na minha infância, também porque era uma casa muito freqüentada, tanto por artistas – aquele pessoal, o Capiba, pessoal de música que ia daqui do Rio e pelo pessoal de música de lá – como também por políticos. Toda noite alguém passava, dava uma notícia… Era uma casa que você tinha informações do que estava acontecendo e do que não estava acontecendo.

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Recife

Eu morei no Recife na época da primeira prefeitura do Arraes, que deu uma transformação muito grande, uma valorização muito grande no que é popular, nas coisas populares de Pernambuco. Floresceu o teatro popular de Pernambuco, a coisa das ligas camponesas, a coisa da música; brilhava muito, era uma época que Pernambuco começou a brilhar. Ele criou esse negócio do Baile Municipal, que todos os artistas iam. Então tinha uma coisa efervescente em Recife.

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Preferências musicais

Eu lembro assim, de disco, primeiro de tudo, do cancioneiro nordestino, que era Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, essa coisa toda… Isso é uma coisa que estava no ar, no céu, literalmente, porque era tanto na rádio quanto nos alto-falantes de rua, de feira. Ouvia-se também lá em casa muitos discos de Cauby Peixoto, de Ângela Maria. E tinha Capiba, que era um compositor pernambucano, vizinho nosso – umas quatro casas – que ia muito lá em casa tocar piano, porque a gente tinha um piano; algumas músicas dele até bem conhecidas em Recife foram feitas lá em casa. Eu vi acontecendo isso na minha infância.

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Estudos

Na escola eu não queria nada. Eu lembro que a primeira escola que eu fui, me deixaram lá e eu fui em um pé de pimenta e comi muita pimenta, para poder sair da aula e ficar comendo açúcar na sala da diretora. Eles me mandaram embora, porque era uma escola perto da esquina de casa; depois fui para outra escola… Eu, mais ou menos, fui expulso de uns cinco colégios lá, mesmo garoto.
Teve escola que eu estudei duas aulas: a de matemática e, quando chegou na de português, eu disse: “Eu posso ir ao banheiro?”. O cara disse: “Pode”. Eu fui, pulei o muro e nunca mais voltei. Não gostava de escola. Às vezes me ressinto hoje em dia disso, dessa tal disciplina, da ordenação do conhecimento; talvez eu lesse muito mais do que eu leio hoje em dia, do que eu lia. Eu tenho uma vontade enorme de ler e não tenho tempo. E também não tenho uma certa organização para isso.
Mas eu nunca tive muito problema com esse negócio da escola com meus pais, porque, paralelamente a isso, tinha uma escola de arte lá de Pernambuco, criada por um tio meu. Todo mundo de Pernambuco freqüentou e eu passei a freqüentar essa escola também. Então eu sempre estava fazendo alguma coisa. Era ruim no estudo, mas eu não lembro de grandes problemas com os meus pais em relação a isso.

FAMÍLIA
Pais

A figura da minha mãe é uma figura muito presente na minha vida; já meu pai era sempre grilado com essa coisa de arte, de política. Ao mesmo tempo eu sempre fui muito curioso, brincava muito e fazia as coisas – fazia papagaio, fazia pião… Comer era uma desgraça, porque era parar a brincadeira. Não era bom de garfo; aliás, acho que nenhuma criança é muito boa de garfo. O bom é brincar; quando você está brincando, a pior coisa do mundo é comer, é quando a empregada chega e diz assim: “Está na hora de comer”, porque aí você vai parar de brincar…
Gostava muito de futebol, papagaio, carrinho, bicicleta… Bicicleta, por exemplo, foi o que me fez conhecer o mundo, porque me dava a possibilidade de sair sozinho e conhecer outros bairros, até porque eu vim muito cedo de Recife – vim com 14 anos.
Por que eu vim, eu nunca soube direito a história, mas minhas irmãs estudavam na Escola Doméstica de Natal, que era no Rio Grande do Norte e que era uma escola feita para as mulheres se prepararem para casar com usineiro, sabe? Aquelas coisas assim, mulheres prendadas… E meu pai veio para o Rio tentar a vida, recomeçar a vida, porque teve umas certas falências lá, eu nunca soube direito essa história. Mas lembro disso, que o meu pai foi para o Rio e eu fiquei no Recife com minha mãe – por isso minha mãe foi sempre muito presente. Ela se chamava Maria Clara Rodrigues.
Minha mãe era presente porque era presente; era uma pessoa que se relacionava muito comigo – talvez por eu ser o caçula, talvez por eu ser o único homem, o único menino. Eu tinha um pai que era muito ausente, em Recife isso é muito mais distante, a mãe fica em casa o tempo inteiro, meu pai trabalhava e só voltava à noite. Recife tinha uma estrutura de cidade em que você tinha a cidade e tinha os bairros. Quando meu pai ia para a cidade, eu lembro que ficava até a noite.
Às vezes eu ia com a minha mãe me encontrar com ele lá, mas eu não tive muito uma convivência com o meu pai, a não ser de ir para o futebol – que eu sou Náutico lá. O Náutico era perto da nossa casa, e eu lembro que meu pai tinha muito negócio de ir a clube, banho de piscina, os passeios… Era engraçado, porque o meu pai é uma outra figura. Se ele tem um compromisso às duas horas da tarde, às duas e meia ele está tomando banho. E eu lembro sempre que teve muita briga de minha mãe com meu pai em relação a isso, porque a gente era relativamente rico lá em Recife e meu pai tinha umas coisas engraçadas. A gente saía de manhã e ele dizia: “Vamos comprar jornal!” – domingo de manhã –, aí entrava todo mundo de pijama no carro, minha mãe de camisola, e ele ia passear em João Pessoa e minha mãe puta, porque estava de camisola e não podia sair do carro.
E havia outro passeio muito forte com meu pai, que era ir para Olinda, uma cidade ao lado de Recife. Ele nasceu lá em Olinda. Recife é plano e Olinda são montanhas. São sete colinas, e tinha lá uma Ladeira da Misericórdia, que era uma maravilha quando meu pai subia de carro, era incrível! A outra que eu me lembro muito do meu pai: até os 14 anos de idade, eu só tinha visto um japonês na vida, que era o dono de uma sorveteria lá em Recife – o Guemba – e era um programa também ir para a cidade ver o japonês. E aí papai parava o carro defronte a sorveteria e a gente ficava uns 15 minutos parado, olhando o japonês; o japonês andava para lá, para cá e a gente olhando… era incrível essa história.

CIDADES
Recife

E essa época o Brasil não tinha essa coisa nacional: o pão de Recife era o pão de Recife, o pão de São Paulo era o pão de São Paulo; hoje em dia é Plus Vita para tudo que é lado. Quer dizer, tem as coisas muito particularizadas de cada cidade, era uma cidade muito regional, com a comida muito regional. Recife era uma cidade engraçada, porque ela é muito regional e, ao mesmo tempo, é muito cosmopolita, um meio cultural com a tradição mesmo de Maurício de Nassau, dessa coisa toda que foi a cidade mais cosmopolita das Américas nessa época. Em Recife se falava nove idiomas, então isso trouxe um certo saber.
Era a cidade mais cosmopolita ali do Nordeste, que era o ponto mais próximo da Europa. Você tinha muitas informações que vinham através dos navios. O Modernismo, quando acontece, se fala muito do Rio e São Paulo, mas foi forte lá em Recife também, com Vicente do Rego Monteiro, porque Cícero Dias já estava na Europa e mandava livros. Então tinha uma movimentação grande em Recife, era a primeira parada. Eu lembro, por exemplo, da Copa de 58: a primeira parada da Seleção foi em Recife; eles vieram da Europa em um avião e pararam em Recife. Aí teve um desfile na Avenida Guararapes, isso em 58.
E ainda hoje tem uma efervescência cultural muito forte de artes plásticas, literatura, de música, de cinema. Recife tem uma certa definição. Outro dia eu estava conversando com uns amigos meus que são cineastas de lá, a gente fica brigando: “Não, essa nova cinematografia pernambucana é não sei o que lá…”. Aí reparei que são três filmes – foram o Amarelo Manga, o Baile Perfumado e o Rap do Príncipe Encantado –, ou seja, é pequena mas definidora do que acha. Recife é uma cidade muito polarizada, por exemplo, numa eleição lá, coisa que no Brasil inteiro ninguém agüenta, o horário eleitoral – lá chama-se guia eleitoral – bate o recorde do Fantástico, é mais visto do que o Fantástico. Você pega em uma outra cidade, como o Rio de Janeiro, um tem 32%, o outro 35% e 20 % de indecisos. Recife tem 1% de indecisos, então você tem a batalha do voto o tempo inteiro.
Eu estava lá agora e a cidade está o maior alvoroço de carreatas, bandeiras. Eu cheguei no Rio e parecia que nem tinha eleição, é uma coisa muito mais pela mídia. Então Recife sempre foi uma cidade muito polarizada. Outra coisa é que com a história do Maurício de Nassau também se criou um negócio de quem foi e deixou de ser, o negócio da perda, muito grande. Nunca se dá o braço a torcer, porque não se quer perder mais do que já se teve um dia. E lá teve aquela coisa do “Casa Grande e Senzala”, a coisa da miscigenação muito forte.
Ao mesmo tempo é uma cidade extremamente machista. Eu ouvia música da minha época – dos anos 60 – que dizia assim: “Dizem que em 60 nego vai virar macaco/Ora, vejam só, que grande confusão/Se em 60 nego for virar macaco/ Penca de banana vai custar um milhão!”, entendeu? Não tem nada mais racista; se passou o ano de 59 inteiro, neguinho olhava para o negro e fazia assim: “Ó, está chegando o réveillon”. E isso é muito louco, porque é feito por um compositor famosíssimo lá, que é o Nelson Ferreira, que é negro.
Então é uma cidade conturbada, mas, ao mesmo tempo, é uma cidade que tem um equipamento colonial muito grande, porque você tem quase as primeiras igrejas lá em Garaçu, porque lá não foi o processo de descoberta, mas foi o processo de colonização. Tem uma riqueza muito grande dessa coisa da arte da arte sacra, das igrejas. Lá você transita verticalmente. Por exemplo, aqui no Rio ou em São Paulo, você acha tua faixa econômica e sua faixa intelectual, de cabeça, e você transita nessa horizontalidade, você não vai ao popular nem vai ao rico. Em Recife você é capaz de chegar a um barzinho, conhecer um deputado X e um cantador, um artista popular. Minas também tem um pouco disso. Eu acho que são os dois Estados mais fortes nesse aspecto, mesmo por causa dos ciclos.

PERNAMBUCO
As Influências

Mas uma outra coisa que foi incrível também em Pernambuco, e que até se tira muita brincadeira com isso, era: “A Rádio Jornal do Comércio falando de Pernambuco para o mundo!” – e todo mundo tira uma chacota com essa história, porque literalmente acontecia isso, pois foi a primeira rádio de ondas moduladas, ondas curtas, que você ouvia em Recife. Você ouvia a BBC de Londres como lá na Inglaterra, e isso talvez, inclusive, tenha criado, por exemplo, essa coisa da orquestra de frevo que é ligada às big bands americanas. Você pega o Severino Araújo, que é a única banda de baile que tem orquestra sobrevivente aqui no Sul, a Orquestra Tabajara, que é formada por um paraibano, mas que foi para a Rádio Jornal do Comércio, em Recife, que é como um centro irradiador de cultura ali no Nordeste e, ao mesmo tempo, absorve porque todo mundo vai para lá. Todo mundo acontece lá: Ariano Suassuna não é pernambucano, ele é paraibano, mas ele aconteceu no Recife; Jackson do Pandeiro é paraibano, mas passou pela Rádio Jornal do Comércio; Luiz Gonzaga é pernambucano, mas Hermeto Paschoal não é pernambucano, é alagoano, mas aconteceu na Rádio Jornal do Comércio. Então sempre foi a cidade cosmopolita do Nordeste.

CIDADES
Recife

O Diário Associado foi o primeiro jornal da América Latina. Pelo fato de Recife ter uma faculdade muito forte de Direito, toda a intelectualidade do Nordeste convergia para lá. Por exemplo, o próprio Miguel Arraes, eu digo que ele se tornou um mito político porque foi prefeito de Recife duas vezes e governador três vezes. Miguel Arraes é cearense, na realidade é do Cariri, que já é o Ceará, mas ninguém sai do Cariri para estudar em Fortaleza; vai estudar no Recife, porque tem as melhores faculdades, tem maior movimento e é culturalmente muito forte.
Primeiro de tudo tinha um carnaval muito forte, com expressão própria; talvez só dois Estados criaram uma expressão própria musical com excelência instrumental, que era o frevo em Pernambuco e o chorinho no Rio de Janeiro. A coisa do frevo sempre foi muito forte, e o carnaval também. Esses gêneros se estabelecem quando eles criam compositores e quando criam clássicos. Você tem clássicos do chorinho e você tem clássicos do frevo; tem grandes compositores do frevo, como tem do chorinho. Então essa coisa da música sempre foi muito forte.
Existem dois maracatus: o maracatu de baque virado e o maracatu de baque solto. Na realidade, o maracatu de baque virado é o maracatu, a coroação do reis; é até engraçado esse percurso, que é a coroação dos reis e rainhas do Congo, que vão até a Igreja. Na realidade, era uma procissão. Por exemplo, se você hoje em dia pegar uma escola de samba, é um puta maracatu, porque é a primeira vez que você faz um desfile carnavalesco no sentido de cortejo, que era a procissão de Nossa Senhora do Rosário que levava os negros para se coroarem na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, que era uma forma, um poder que a polícia tinha de manter alguma relação com a escravidão, que foi muito grande lá por causa da cana-de-açúcar, e porque um senhor de engenho, quanto mais escravos ele tinha, mais rico ele era – não porque tinha mais dinheiro, mas sim porque tinha muitos escravos, e ele transava com todo mundo para ter filho, porque era muita terra para plantar, e isso foi forte. Então esse maracatu sempre foi muito valorizado.
Na minha infância, esse maracatu de baque solto, que é o maracatu da zona rural, que já é uma mistura desse maracatu essencialmente negro com o caboclinho. Já tem uma mistura com a música indígena e alguns aspectos religiosos de umbanda, não necessariamente de Xangô, dessa coisa toda que tem lá, mais negra. Desse maracatu eu me lembro muito pouco na minha infância, mas lembro que morria de medo; ele aparecia na rua, eu saía correndo…
Eu ia muito para engenho também, freqüentava muito, porque tinha uma parte da minha família que tinha usina e todo sábado ia para o engenho. E essa coisa do engenho era muito forró, muita brincadeira, muito andar a cavalo, muito tomar banho de rio. E eu lembro dessas festas também, de São João, que tinha sempre forró, tinha os cantadores, a feira lá de Jaboatão, essa coisa tinha muito. Quer dizer, no meu bairro não era tanto, porque meu bairro era um bairro meio de elite na época, um bairro mais chique, vamos dizer, então isso aí não acontece muito. Mas tinha contato com os vendedores, a coisa era muito na rua; eu lembro que comprava leite de torneirinha, tinha o vendedor de macaxera, o vendedor mascate, que era um cara que carregava uma caixa enorme na cabeça que tinha de tudo: botão, linha, pente – essas coisas que se usam –, perfumes, fazenda… Isso era uma coisa que tinha muito, essa coisa de rua; toda hora estava passando um vendedor de rua.

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Adolescência

Eu vim para cá com 14 anos de idade. Até aí eu lembro de carnaval na infância, vestido de marinheiro; mas eu vim mesmo brincar mais carnaval a partir dos 14 anos de idade. Desde que eu vim de Recife – já tem quase 40 anos –, eu passei uns dois ou três carnavais aqui no Rio; eu sempre volto para Recife. Me lembro voltando para Recife com 15 anos de idade e começando a freqüentar carnaval, porque aí já tinha idade; era um carnaval muito de corso, que eram umas brincadeiras mela-mela na rua e muito carnaval de clube também – freqüentava o clube os quatro dias e aí terminava o último dia às oito horas da manhã, isso eu lembro muito, no Clube Nacional. Eu não lembro o primeiro, mas foi mais ou menos nessa época.

CIDADES
Recife

Engraçado que toda vez quando eu vou para Recife agora, o meu ponto de chegada é um lugarzinho que eu freqüentava na minha infância… A relação com o mar de Recife é engraçada, porque Recife é uma cidade entre rios. Só para você entender, tem muita praia, mas o Iate Clube ficava dentro da cidade e era em um rio; a praia era para a gente veranear. Eu lembro que a gente veraneava na minha infância, ia veranear em Boa Viagem, mudava, levava geladeira, cama, tudo. Passava três meses lá. Era veranear.
Era uma cidade que na praia tinha muito americano, marinheiro americano, um resquício mesmo daquela ocupação americana da Segunda Guerra, da coisa de Natal, da coisa de Fernando de Noronha. Teve mesmo uma participação americana muito grande, então era engraçado a gente ficar vendo os marinheiros passearem por Boa Viagem, era muito veraneio.
E tinha um casal de amigos dos meus pais que eram padrinhos da minha irmã. Eles veraneavam muito em Maria Farinha e não tinham filho. Maria Farinha é uma cidade, uma praia longe, que nessa época era totalmente deserta, e eles não tinham filho, então quando eles iam passar um tempo lá, eles sempre me chamavam para eu ficar lá com a Lise, que era a mulher do Antônio Carlos. Esse lugar foi muito o lugar da minha infância. Eu tenho uma saudade de Recife, uma saudade muito mineral: lá tem a quantidade de iodo, a quantidade de enxofre, de sal, se eu tomar um banho para me recuperar de alguma coisa, eu preciso tomar três banhos de mar aqui. Lá, eu tomo um em uma manhã e já dá uma química legal, uma reação. E toda vez que vou para Recife, eu vou para esse lugar, Maria Farinha. Eu gosto de lá
Eu vou lá porque lá é mais ou menos onde eu paro e penso… Recife é uma cidade com muito vento também. Aí eu venho para cá e dou um prumo na minha vida, do que é que vai ser. Toda vez depois de Recife, volto diferente. É uma relação de se manter.

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Atividades profissionais

A minha relação com a fotografia vem desse meu tio, que era colecionador. Tinha também um outro primo meu, Gastão de Holanda, muito amigo de Aloísio Magalhães, que fazia parte da família, porque já era amigo dos meus pais, dos meus avós, que fazia fotografia. E toda terça-feira tinha um laboratório de fotografia: botava uma luz vermelha na cozinha e se passava a noite fazendo fotografia. Lembro quando estava calor – que nem está esse estúdio – e a gente abria a geladeira para ficar tomando um arzinho.

CIDADES
Recife

Desde que eu vim morar no Rio, todo ano volto a Recife; estou sempre voltando, estou sempre por lá. Acho que a fotografia foi uma maneira de eu ir transportando – já que eu não podia transportar terra, pedra – todo o imaginário de Recife para cá, ou seja, talvez hoje em dia tenha um arquivo de imagens de Recife que pouca gente lá tem. Porque para mim sempre teve essa necessidade de ir lá, fotografar e trazer para cá. Eu digo: “Será que isso não é construir o meu Recife aqui? Um Recife mítico?” – porque eu sei que agora eu não tenho mais muita transação com Recife; tenho toda a transação do mundo, mas não tenho mais a do dia-a-dia, essa coisa da política, discutir isso. Para mim, o Recife é um Recife mítico, que eu vou querer manter para sempre. Então será que não foi esse o Recife que eu fiz com a fotografia? Será que eu comecei a fotografar muito por causa disso?
E sempre as coisas aconteceram em Recife; sempre uma cidade forte. E o negócio da família era muito forte, porque eu ia para a casa de um tio meu, tio Abelardo, e tinha, só de figura de Cristo crucificado, 1.200. Eu convivia com santos enormes, via sacra dentro de casa.

FAMÍLIA
Tios

O Nelson já era aqui do Rio, porque o Nelson já é o ramo da família que é do tio Mário, que veio para o Rio antes. E tinha o vovô Augusto, que era o meu avô – que também queria vir para o Rio –, e quando veio para o Rio para procurar casa, foi atropelado aqui no Rio e morreu; então retardou uma parte da família de vir para o Rio também. Então eu já vim conhecer o Nelson aqui no Rio. Eu já conhecia os filhos do Nelson, o Jofre, o Nelsinho, que iam passar muitas férias em Recife, mas o Nelson, o Mário Filho, eu vim conhecer aqui no Rio.

CIDADES
Rio de Janeiro

Bom, aí o que aconteceu é isto: eu fiquei com minha mãe e passei um ano com ela em Recife, porque meu pai já estava aqui no Rio e minhas irmãs estavam na Escola Doméstica de Natal, que era internato. E aí eu lembro que, um dia, minha mãe disse: “Nós vamos morar no Rio”. Eu fiquei numa felicidade danada, porque o Rio de Janeiro era tudo que existia. Eu lembro que eu só tinha contato com o Rio de Janeiro através da Revista dos Esportes, do O Cruzeiro e da Atualidades Atlântida no cinema, e eu ficava alucinado, porque eu via aquela praia – praia para mim era coisa de veraneio –, via aquela praia cosmopolita, as pessoas no meio do tráfego, andando de calção, as mulheres de maiô e eu achava isso uma loucura, uma coisa fascinante.
E era o centro de tudo, o centro político, o centro artístico, o centro cultural, das publicações todas, das primeiras televisões, tudo. Porque, em Recife, a televisão chegou em 1960 e eu peguei pouco a televisão lá, porque eu vim pra cá em 64. Quando eu saí de Recife, estava uma efervescência política grande com essa primeira prefeitura do Arraes, que já era governo. Estava acontecendo muita coisa lá e eu vim para o Rio.
Aí eu lembro que minha mãe disse: “Vamos para o Rio!”, eu fiquei feliz, passava o dia inteiro cantando aquela música de Antônio Maria, “Valsa de uma Cidade”, até o dia que ela disse assim: “A gente está indo, vamos embora”. E eu vim com minha mãe e o pai de um amigo meu, Duda Coullier, com quem eu estudava – esse Duda Coullier tem até depois uma participação nessa história toda – e eu lembro que, quando eu entrei no avião, vim chorando de Recife até aqui; e o Doutor Eduardo Coullier me consolando. A viagem durou 9 horas na época, em um avião da Pan Air. E cheguei no Rio. Cheguei em junho, era frio, e eu nunca tinha sentido frio na minha vida, porque lá em Recife o inverno é chuva, não é frio.
Aí eu lembro que a gente desceu aqui no Aeroporto Santos Dumont e meu pai morava num apartamento ali na Lapa, na Rua das Marrecas, que é ali ao lado da Mesbla. Era um apartamento supercurioso, que era do tio Augustinho. Esse apartamento era um quarto-e-sala. E a Cinelândia era o máximo, porque ali era onde estavam os cinemas, onde estava a Escola de Belas Artes, onde estava o Municipal; era ali que acontecia tudo, onde estavam os bares todos, o Amarelinho, toda a efervescência cultural.

FAMÍLIA
Moradia

E nesse apartamento morava junto todo mundo que vinha do Nordeste: moravam tio Augustinho, Fernando Lobo, Antônio Maria, seu Dorival Caymmi… Imagina todo mundo nesse apartamento! E meu pai ficou nesse apartamento porque tio Augustinho tinha se mudado de lá e tinha ido morar no Largo do Boticário. Aí eu cheguei aqui no Rio à noite, e papai fez uma cama para mim, forrada com jornal para tapar o frio; era uma Dragon Flex. E aí comecei no Rio de Janeiro.

CIDADES
Rio de Janeiro

Eu lembro, por exemplo, que a gente saiu e fomos para casa do tio Augustinho, lá no Boticário; a gente saiu da Rua das Marrecas e fomos até a Cinelândia para pegar um ônibus para ir para o Cosme Velho. E foi a primeira vez que eu vi o Pão de Açúcar ao vivo… e foi fascinante, porque o Pão de Açúcar só existia em caixa de lápis de cor, capa de caderno. Era aquele imaginário de Rio de Janeiro que você via o tempo inteiro. E essa foi a chegada no Rio.

Voltar ao topo EDUCAÇÃO

Estudos

Eu imediatamente fui para um colégio, porque lá em Recife, como eu não estudava muito, acabei batendo no Instituto Capibaribe, que era um colégio superliberal, superligado à coisa das artes, estimulava muito isso. Eu vim aqui para o Rio e fui para um colégio que era assim também, o Colégio Sousa Leão – um colégio que tinha poucos alunos e estimulava muito a leitura de poesias, a ouvir músicas clássicas. Era um outro tipo de colégio, bancado bem pelos ricos, porque era como se fosse, na época, uma experiência nova, e eu passei a estudar nesse colégio. Morava lá na Lapa, que era um lugar meio estranho, porque era um lugar de boemia, então eu chegava do colégio, ia pra casa, não saía mais. Mas meu pai tinha o escritório perto dali, no edifício da Odeon. E essa foi minha vida acho que durante uns três meses.

FAMÍLIA
Moradia

Aí meus pais arrumaram um apartamento lá na Nossa Senhora da Paz, Ipanema, e foi quando eu comecei a freqüentar praia, essa coisa de Ipanema, jogar pelada na Praça da Nossa Senhora da Paz. Voltava do colégio e sempre ficava sozinho enquanto meus pais trabalhavam. Essa foi uma época em que eu fiquei muito sozinho, minhas irmãs ainda estavam fora, ainda estavam em Natal – não vieram logo para cá – e foi uma época em que eu ficava desenhando muito, porque eu chegava do colégio às cinco horas – era semi-internato, almoçava no colégio – e ficava desenhando muito em casa. Aí eu comecei a pintar muito; eu gostava de pintar. Aí minhas irmãs vieram e meus pais alugaram, na época, um apartamento que depois minha mãe comprou, em Copacabana. Um apartamento grande, para vir todo mundo. Eu lembro que nessa época eu comecei a pintar muito. Eu praticamente parava de estudar, porque eu não conseguia; dormia nas aulas e passava noites em claro pintando.

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Pintura

O que eu pintava era muito figurativo, talvez até reminiscências de Pernambuco. Tudo que eu via lá era uma certa maneira de transportar para cá, de conviver com isso. Era pintura a oléo.

FAMÍLIA
Tio

Quando eu cheguei aqui, eu freqüentava muito a casa desse meu tio Augusto Rodrigues, que era ali no Largo do Boticário, e que era uma casa muito freqüentada também por pintores. Encontrava muito com Volpi lá, muita gente da intelectualidade. Era uma casa muito efervescente ali no Largo do Boticário. O Cosme Velho, que é aqui agora, era uma coisa muito longínqua, porque você não tinha o Rebouças; então você vinha até Laranjeiras, mais ou menos General Glicério, e o movimento ia até ali. Para cá eram só casarões. E tinha o Largo do Boticário, que é o largo onde o bonde Águas Férreas fazia a volta. O bonde fazia a volta e o Largo ficava muito isolado. E eu passava muitos dias aí com tio Augustinho; ele desenhando, eu desenhando, ele pintando, eu vendo… E tinha um primo meu que fazia jóias.

FAMÍLIA
Relações familiares

Era um Rio de Janeiro fascinante, porque é uma cidade totalmente exuberante. Mas nessa época eu ainda não tinha feito uma liga com Rio de Janeiro; eu era um pernambucano que morava no Rio de Janeiro. Não tinha acontecido nada que me emocionasse para que eu virasse um carioca, gostasse do Rio. Isso aconteceu porque teve umas coisas com relação à música que foram muito importantes para mim; porque quando a gente foi morar na rua Pompeu Loureiro, minha irmã foi trabalhar numa escolinha de arte. E tinha uma amiga dela que o pai morreu, e minha irmã foi ao enterro e voltou namorando o irmão dela. E o irmão dela era um violonista, Turíbio Santos. E o Turíbio, nessa época muito novo, fez uma inscrição para um concurso na França e ganhou o direito de participar do concurso. Ele estudava muito para ir para esse concurso e não tinha grana. Ele era arquiteto, a casa dele não tinha espaço e ele foi morar comigo no meu quarto, porque era uma casa grande lá em Copacabana. Ele montou uma prancheta para fazer os desenhos, ganhar dinheiro e comprar a passagem para ir para Paris. E ele estudava o dia inteiro Villa-Lobos. Com essa idade eu ouvia Villa-Lobos o dia inteiro, era uma maravilha os estudos todos.

FAMÍLIA
Tios / Mãe

Nessa época, chegando aqui, eu comecei a conhecer o Nelson, o Mário Filho, quer dizer, todo o resto da família que já tinha vindo para o Rio fazia muito tempo, que já era carioca. Minha mãe era a caçula, então foi praticamente a última que veio para cá de uma parte da família, porque teve outra parte que nem veio e ficou lá no Recife mesmo.

ADOLESCÊNCIA
Adolescência

Meus amigos aqui no Rio, inicialmente, eram aqueles da turma do prédio em que eu morava em Copacabana, um prédio grande. E eu tenho um amigo que o pai dele era arquiteto, mexia com o negócio de artes, e a gente sempre andava muito junto, eu e o Roberto Sá. E muito com o pessoal do colégio também, que, como eu disse, era um colégio meio maluco, um colégio de pessoas legais. Lá estudavam os filhos do Otto Lara Resende – eu brincava muito com a Andréa Lara Resende e com o Bruno, porque eram os amigos dos meus pais, da minha mãe -, Fernando Sabino, eu brincava muito com as filhas do Fernando Sabino, a Virgínia. A primeira vez que eu fui ao futebol, foi Paulinho Mendes de Campos que me levou no Maracanã. Ele tinha um carinho por mim, por aquele menino que estava chegando de Recife um pouco deslocado, ainda não tinha muitos amigos. Então eles me levavam muito para coisas assim. E era já um lado de Minas, dos mineiros que eu vim conhecer aqui no Rio.

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Ditadura Militar

Lá em casa, por exemplo, em Recife, eu vi muita gente chegando e cantando o hino das Ligas Camponesas. Recife era muito efervescente politicamente nessa época. O Arraes já era um governo comunista. Quando a gente veio para o Rio, que a gente também tinha aqui ligações políticas – família de artista –, eu lembro que a minha mãe até recebeu um financiamento da Caixa Econômica assinado pelo Jango.
Eu nunca me esqueço quando estourou o Golpe de 64. Alguém entrou lá em casa, rasgou esses documentos todos e jogou pela privada, porque começou a caça às bruxas. Essa época de 64 foi muito conturbada. Não que meu pai fosse de direita, mas dava força no golpe, porque era um negócio para moralizar. Então eu tive muitos conflitos, passei três anos sem falar com meu pai. Eu nunca participei, porque, como eu nunca estudei, eu não participava muito da política; política era uma coisa de faculdade. Mas eu tinha muitos amigos que estavam na política e eram ligados a mim através da arte; eu dava força, guardava bomba lá em casa, escondia gente. E isso era um conflito muito grande com o meu pai. E ele com total razão, porque eu estava com… sei lá, 17 anos, 16 anos, e ele era a favor da história e podia sujar para ele dentro da casa dele. E meus pais separam-se, então nessa época eu tive um amadurecimento muito grande, porque minhas irmãs voltaram de Recife e eu fiquei meio homenzinho da casa. Mas pintava o dia inteiro.

TRABALHO
Atividades profissionais

Fiquei morando com minhas irmãs e com minha mãe. E toda noite eu pintava muito. Entrava em salão, ganhei prêmios. Até que minhas irmãs me deram uma máquina fotográfica para eu fotografar meus quadros. Eu lembro que eu fui na Lagoa com a máquina fotográfica, e quando eu voltei disse: “Eu quero fotografia. O que eu vou fazer é fotografia”. Aí eu comecei a me empolgar com a fotografia, sempre querendo também ter um sentido muito grande de profissionalismo, porque eu não estudava, então tinha que arrumar alguma coisa.

EVENTOS HISTÓRICOS
Ditadura Militar

Era uma vida difícil a da gente, essa coisa da política era muito barra-pesada; todo mundo tinha que falar muito baixo, tinha medo do vizinho, não podia falar alto, a família meio perseguida. Meus tios, muitos amigos meus morreram, foram presos.
Quando a gente chegou aqui, quem botou meu nome de Cafi foi o Dodô Brandão, que fez um filme chamado “Dedé Mamata”. E o Dodô era filho de Darwin Brandão, que foi diretor do DNER e foi caçado. Muita gente caçada.
Na minha própria família houve perseguições. Lá em Recife, nossa! Chegou-se a jogar bomba na casa de primos meus, jogar tinta vermelha na parede. Então era uma coisa muito barra-pesada. Eu andava com muitos amigos meus aqui que eram ligados ao movimento estudantil, à política e os que faziam isso eram ligados à arte. Então era o contato, porque para eles eu era o artistazinho. E eu conheci um rapaz que era de família que vinha de Pernambuco – chamado Pedro Cavalcante – ligado à política estudantil. Ele fazia música, compunha, até fizemos uns filmes para o Festival JB há muitos anos.

FORMAÇÃO MUSICAL
As Influências

Nessa época – essa era a história do Rio, a grande importância que passou a ter o Rio –, teve um espetáculo chamado Rosa de Ouro e, ao mesmo tempo, teve o espetáculo Opinião. Essa história mudou totalmente a minha vida, porque esse espetáculo Rosa de Ouro, que era a primeira vez que Paulinho da Viola estava no palco, foi a primeira vez que um sambista de morro entrou em um teatro; tanto um espetáculo quanto outro – em um era João do Vale e Zé Keti e no outro era Paulinho da Viola, Clementina de Jesus. E aí foi que eu entendi o Rio de Janeiro, quando eu ouvi o samba e essa história toda. Daí eu disse: “Nossa, esta cidade é demais!”.

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Ronaldo Bastos

Comecei a me empolgar pelo Rio, mas sempre continuava passando minhas férias em Recife, sempre aqueles valores da cultura popular de Recife presentes. Um dia, esse meu amigo, o Pedro Cavalcante, marcou comigo um encontro e chegou atrasado, com um amigo dele da política. Quando ele chegou, já fiquei puto com o cara e disse: “Porra, qual é? Você atrasou uma hora!”. Ele disse: “Não, mas eu estava conversando”. E esse amigo do Pedro era o Ronaldo Bastos. Aí a gente se conheceu assim. Isso foi por volta de 68.
Eu lembro que fui passar minhas férias em Recife e o Ronaldo era diretor do CPC da UNE, e tinha ido fazer um trabalho lá. Era aquela época do começo dos festivais de música popular. Edu Lobo era muito forte nessa época, o Chico surgindo ainda, Elis Regina já forte, já gravando com todo mundo. E eu fui passar as férias em Recife e, de repente, lá na Ponte Duarte Coelho, eu me encontrei com Ronaldo. Eu disse: “Opa, como é que é? Você aqui em Recife?” – porque o Ronaldo já tinha morado em Recife. E ele disse: “Legal, tudo certo aí. Vamos tomar um caldo de cana”.
Então a gente se encontrou e fui levar o Ronaldo para ver uma coleção de arte sacra. Ronaldo, como era da UNE, era amigo na política de um amigo meu, Duda Coullier – com quem eu estudei e vim para o Rio com o pai dele – e o Ronaldo disse assim: “O Duda chamou a gente para ouvir o último disco da Elis Regina lá na casa dele”. Era aquela coisa assim: todo mundo se reunia para ouvir aquelas vitrolas de pilha, que a tampa era o alto-falante. Era um disco da Elis e eu lembro que esse disco foi a primeira gravação do Milton, que era a “Canção do Sal”. Eu lembro que eu ouvia essa música e era uma coisa estranhíssima, porque a música era um reinício da bossa nova que estava acontecendo, muito instrumentalizada , e um pouco da música nordestina. Eu lembro que, quando ouvimos esse som, eu e o Ronaldo, a gente disse assim: “Cara, que som é esse?”.
Ronaldo veio para o Rio e quando eu cheguei aqui, ele me disse: “Rapaz, você não sabe quem eu conheci. Conheci o Milton Nascimento, aquele cara daquela música!”. E Ronaldo ficou amigo do Milton. O Bituca morava aqui no Rio, eu não conhecia ainda o Bituca, mas sabia dele; Ronaldo falava que era um cara muito legal. E o Bituca morava com Novelli, Nelsinho Ângelo e Naná em um apartamento em Copacabana. E tinha um programa toda sexta-feira – tinha um amigo nosso, Benjamim também – que o Bituca e a turma se reuniam ali, na Praça XV, às sete, oito horas da noite, para pegar a barca da Cantareira, que ia para Niterói. Tinha um barzinho ao lado da UFRJ. Ia para esse barzinho, bebia a noite todinha e às cinco, seis horas da manhã, pegava a primeira barca de Niterói para o Rio. Eu conheci Bituca aí, nesse encontro na barca de Niterói.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

E a gente foi ficando amigo, Ronaldo começou a fazer música com o Milton. Aí o Bituca, surgiu com aquela história de “Travessia”, que foi uma coisa meio inesperada, que foi o negócio do Augustinho dos Santos. Surgiu aquela história, Bituca fez um disco não muito conhecido, que ele tomou um porre. Foi ajudar o diretor da gravadora e o Ronaldo tinha feito uma música. Já tinham me proposto fazer uma foto para a capa, porque eu já estava fazendo fotografia, mas ainda não era profissional – isso aí tinha uns 17, 18 anos, foi tudo muito cedo, muito novo.

TRABALHO
Atividades profissionais

Eu já estava trabalhando, já fazia coisas, eu e o Hermínio Bello de Carvalho, que era muito amigo de Turíbio. O Turíbio, quando ganhou o concurso na França – aquele que ele ficava estudando lá em casa –, ficou muito bem lá e minha irmã foi para morar com ele. E ele me arranjou um trabalho para fazer lá na França, ligado à gravadora. O Hermínio Bello de Carvalho já tinha me chamado para fazer um trabalho aqui, com a Marlene, de fotografia; estava me dando força, aquela coisa toda, e essa coisa de eu não ir para a França foi uma opção que eu não me esqueço nunca. Eu disse que como eu conhecia o Recife de bicicleta, aos poucos, eu queria conhecer o mundo aos poucos. Então eu tinha uma opção. Eu disse: “Eu só vou sair daqui depois de conhecer o Brasil inteiro”; botei isso na minha cabeça e pronto.

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Casa de Praia Mar Azul, Niterói

Ao mesmo tempo, começou essa história com Ronaldo. Eu lembro que o Ronaldo me chamou para fazer um trabalho com o Bituca, para um fascículo da música popular brasileira. Disse assim: “Vamos fotografar, bater umas fotos lá do Milton”, que já era uma casa que tinha em Mar Azul, aqui em Niterói, onde o pessoal estava reunido para fazer um disco que não se sabia ainda o que era. Eu lembro que aquela foto que tem do Beto, na janela, foi a primeira foto que eu vi dele. Lembro que, quando eu entrei nesse lugar, estava o Beto e eu bati uma foto dele. E era aquela foto. E foi ali aquela história…
Teve muitas histórias a casa de Mar Azul. Quer dizer, eu não participei tanto porque eu não fiquei morando na casa; o pessoal ficou morando nessa casa e essa época era de muita bebedeira. Eu lembro que nessa época eu fui lá para bater umas fotos para esse fascículo da Abril e as fotos ficaram superlegais; o Bituca gostou e eu comecei a freqüentar lá, de vez em quando.

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Origem do Clube

Nessa época, era muita bebedeira… eram todos muito jovens também. Lô tinha 16, 17 anos, por aí; Beto tinha 17 anos. Ao mesmo tempo, era a época da loucura, muito ácido – um irmão do Ronaldo, o Vicente, que ficou exilado, ia para Londres e mandava ácido para a gente. E aí eu lembro do Clube da Esquina. Eu começava a ir na Odeon fotografar, e esse negócio do fascículo da Abril ficou muito legal, tanto que me chamaram para começar a fotografar coisas do Clube da Esquina. Ainda não tinha uma definição do que era; eu ia fotografar as gravações. Até que se teve uma idéia, não sei de quem – acho que foi de Ronaldo ou de Bituca – de se botar todo mundo na capa, fotografar bastante gente. E me propuseram ir a Belo Horizonte para fotografar o pessoal lá.
E eu fui. Aquela coisa do pão que já falei; fui morrendo de medo para Minas. Quando vi que era café com pão e manteiga, eu disse: “Está tudo certo…”. E eu fui umas três vezes para Minas. Eu não saía lá da Rua Divinópolis; eu ia, passava o dia inteiro jogando pelada e fotografando. Depois voltava. Não conhecia Belo Horizonte, só conhecia a Rua Divinópolis, que era essa época do Clube da Esquina. O disco tinha muitas músicas, então demorou a ser feito porque eram dois canais. E eu já fui fotografando algumas pessoas também aqui no Rio. Nessa época, eu já estava com a fotografia um pouco formalizada com aquela coisa do Bresson.

TRABALHO
Atividades profissionais

Eu comecei a trabalhar em cinema, porque eu fiz o Festival JB. Depois, conheci um amigo que era cineasta, morava lá perto de casa, e comecei a me envolver com cinema. Comecei a trabalhar em cinema, fiz muito assistente de câmera, fiz estilo, mas era uma turma que eu não gostava muito. Era muita dificuldade, porque almoçava na casa da mãe do cara e a mãe do cara me chamava de Caqui o tempo inteiro… Só sei que abandonei todos os filmes. A gente ia ver o co-piloto, o cara dizia assim: “Gostou?”. Eu dizia: “Não!”. Eu era muito chato.

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Clube da Esquina: Origem do Clube / Esposa

Eu lembro que num desses filmes eu conheci a Beth, uma menina que foi para uma filmagem que tinha 16 anos; eu comecei a namorar ela e abandonei a filmagem. Por coincidência, ela morava no mesmo edifício que o Ronaldo Bastos, na Voluntários da Pátria, então ficou tudo mais amigo. E a casa do Ronaldo era um espécie de embaixada de Minas aqui, e nisso já tinha umas viagens. Porque antigamente, essa coisa do Clube da Esquina não era muito na casa do Marcinho; era mais na casa do Fernando Brant. Eu lembro que aqui no Rio se falava muito: “O Fernando é maravilhoso, vamos para Adamantina!”. E eram porres homéricos que neguinho tomava.

PESSOAS
Dorival Caymmi / Danilo Caymmi

Eu tinha uma relação com o Seu Dorival, que era uma coisa familiar. Para mim sempre foi Seu Dorival, porque era o pai do Danilo, era amigo do tio Augustinho de chegada aqui no Rio. O Danilo eu já conhecia, ia a reuniões lá na casa do Seu Dorival, de música, com o Danilo e o Benjamim.

PESSOAS
Paulinho Jobim / Tom Jobim

E eu estudava com o Paulinho Jobim no Brasileiro de Almeida, outro colégio daqui. A gente se via e já era amigo de Ronaldo também. A gente, de vez em quando, ia na casa do Tom. Era engraçado… ficava olhando o piano do Tom, era um negócio; a gente menino e ficava assim. Tom era casado com a Teresa, tratava a gente superbem, aquele lanche maravilhoso, mas não podia mexer no piano do Tom. A gente ficava olhando…

TRABALHO
Atividades profissionai
s
E aí começou essa coisa do Clube da Esquina. Eu já conhecia bastante gente, já estava fotografando. Eu fiz cinema, daí parei com cinema. E, no Jornal dos Esportes, a Ana Arruda, mulher do Callado, criou um jornal chamado O Sol, um suplemento cultural do Jornal dos Esportes. Eles me chamaram e foi o primeiro trabalho que eu tive; comecei como laboratorista e comecei a fotografar. Era um jornal superlegal, porque era só de jovens e era um suplemento cultural – Caetano até faz referência sobre ele na letra de “Alegria, Alegria“.

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“Clube da Esquina”

Ao mesmo tempo, eu estava um pouco insatisfeito, porque começou a surgir a coisa de Beatles, toda uma nova coisa lisérgica, diferente, já tomando ácido, queimando fumo. Então surgiu uma coisa nova. Quando surge o Clube da Esquina, na época, as duas pessoas que tinham ficado aqui no Brasil eram a Gal, que cantava os baianos, porque estava todo mundo exilado, e o Milton, que ficou aqui. Então era uma coisa muito forte, essas duas figuras no meio da rapaziada.
O Clube da Esquina foi uma coisa incrível, porque era aquela confusão – muita gente, muita maluquice. Eu lembro que Lô ia lá pra casa e a gente ficava tomando ácido; a gente tomava ácido como na padaria: “Vamos tomar… vamos na padaria agora!”. O irmão de Ronaldo mandava umas cartas todas pingadas de ácido, então era muita maluquice.
Mas o Clube da Esquina, quando terminou, estava todo mundo brigado, porque era muita confusão do Lô com o Bituca. Eu tive uma briga com o Bituca porque, como era muita gente que aparecia no disco, eu não podia me responsabilizar. Então, o Bituca que assinou um termo se responsabilizando por todo mundo. Ele é que tinha que receber o dinheiro da capa do disco. Eu, nessa época, tinha casado com a Beth e acho que ela já estava grávida – eu tinha uns 20, 21 anos e Beth tinha 17. A Beth estava grávida, eu precisando de dinheiro e doido pra ir passar minhas férias em Recife e não conseguia receber porque o Bituca tinha pirado. Eu nunca esqueço que eu liguei um dia para Belo Horizonte, Bituca lá em casa de Fernando Brant, e eu disse assim: “Fernando, eu queria falar com o Bituca”. Aí ele disse: “Mas Bituca perdeu a voz”. Eu disse: “Mas ele não vai falar nada, ele só vai ouvir”. Aí… “pá, pá, pá, pá…”, ficou meio assim. O que uniu foi o disco. Nunca esqueço o Ronaldo chegando lá em casa com o disco. Disse assim: “Olha, Cafi, está pronto!” – porque foi muita briga pra fazer aquela capa na época.
Foi muita briga para fazer a capa do disco “Clube da Esquina”. A Odeon, por exemplo, tinha uma forma, uma maneira de fazer capa, que era um plástico, uma coisa estranhíssima, era um envelope. Ao mesmo tempo, eu fiz aquela foto dos dois meninos, que foi perto da fazenda do Ronaldo. Eu olhei e disse: “A capa é essa!” – eu até me inspirei num disco, “Portrait”, do Bob Dylan. Fui na Odeon mostrar a capa, e tinha um diretor artístico – não tinha departamento gráfico –, Milton Miranda, que achava a gente um bando de maluco – porque era tudo menino, né? Lô com 17 anos, Beto com não sei quanto –, e eu mostrei pra ele e ele disse: “Isso é um absurdo! Eu não vou fazer uma capa que não tenha a foto do cara. E não tem nome nenhum!”, Eu disse: “Mas Milton, é isso aí”. Aí ele me obrigou a fazer aquela contracapa, que tem o letreiro do Milton, Lô Borges, Clube da Esquina.
E aquelas fotos dentro eram todas coloridas. Eu lembro que eu levei pra São Paulo e o cara da gráfica pirou; disse que não tinha como fazer aquilo – e era o maior gráfico da época. Eu fiz a capa preta e branca mesmo, vim para o Rio, refiz tudo e o disco saiu. E eu lembro que, quando o disco saiu, uniu todo mundo de novo. O disco ficou muito maior do que se imaginava, do que era. E a Odeon recomendava botar a contracapa na frente, com o letreiro que eles tinham me obrigado a fazer. Nos primeiros 15 dias, era o letreiro que saía nas lojas de discos. Depois de 15 dias, eles foram virando, porque era muito mais inusitado dois meninos sentados na estrada sem nada escrito.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

Escolhi a foto dos dois meninos porque acho que tinha um sentimento. Era uma questão de resistência, porque todo mundo estava exilado. A Gal, de uma certa maneira, era porta-voz dos baianos que estavam em Londres. E o Bituca era uma resistência também política e cultural aqui muito forte; o Bituca cantando descalço, assumindo certas posturas, sem camisa, isso na época era uma coisa chocante. E eu acho que tinha um sentimento de brasilidade muito grande. Quando eu ouvia a música do Clube da Esquina, eu sentia muito esse sentimento de brasilidade, dessa coisa mineira, dessa coisa da cachacinha, das coisas simplesmente brasileiras…e era muito confuso, porque nessa época já estava acontecendo Don e Ravel que era um Brasil escroto. Então, se você pegar ali aquela foto da capa, primeiro de tudo, era uma coisa extremamente rural; na realidade, eu vejo o Clube da Esquina como um encontro musical – ele é uma música meio rural misturada com uma coisa totalmente pop, mundial já, com referências da Bossa Nova. Tem muito de Beatles nessa história, misturado com a coisa da viola. Então a capa era aquilo. E representava Milton e Lô Borges, eram dois meninos, um pretinho e um coisinha mais nova sentada na estrada. E eles estavam realmente sentados ali; não foi montagem. Eu estava passando, vi os dois meninos sentados e fotografei. Anos depois eu fui atrás deles e os fotografei, já mais velhos. Eles estavam lá na mesma região, perto da fazenda do Ronaldo, que eu freqüentava muito.
O negócio do Clube da Esquina que se tem muito é a coisa de Belo Horizonte, quando, na realidade, era uma coisa que acontecia em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, porque o Lô vinha pra cá. Também se fazia muita música lá na fazenda do Ronaldo; a gente ia para a fazenda do Ronaldo para fazer as músicas. Então acontecia muito aqui no Rio de Janeiro; na realidade, as gravações eram aqui no Rio.

DISCOS
“Clube da Esquina”

Tinha uma lista de pessoas para eu fotografar para aquelas fotinhos da capa, até porque eu não conhecia muita gente ali. Então era: “Tem que fotografar fulaninho e fulaninho…”. Não tinha o nome Clube da Esquina ainda; quando esse nome surgiu, eu já tinha terminando a capa. Eu já morava com o Ronaldo nessa época, aí ele veio e disse assim: “O disco vai ser ‘Clube da Esquina’” – que era já uma música do Marcinho Borges presente num disco anterior. E vieram com um papo assim: “Vai ser ‘Clube da Esquina’ ou ‘Documento Secreto Nº 5’?” Eu lembro que eu disse: “Isso é impossível, ‘Documento Secreto’”. Eu fiquei fazendo a capa e o resto, naquela de botar os quadrinhos, que era uma opção gráfica mais simples que tinha para colocar todo mundo ali, porque eram 160 fotos.
Então tinha uma lista de pessoas para fotografar. Algumas em Belo Horizonte, tanto é que as fotos não são nem todas minhas. Eu fiz algumas fotos em Belo Horizonte, fiz a do Bituca descendo a ladeira, e o Juvenal Pereira ficou lá fazendo as de outras pessoas, que o Juvenal já era lá de Minas e conhecia o pessoal. Eu fui meio um cara que veio do Rio, que entrou nessa história por causa do fascículo da Abril porque fiquei amigo do Bituca, porque tinha uma valorização muito grande das amizades e no fato de ser amigo.

TRABALHO
Atividades profissionais

Inclusive, eu já estava mexendo com fotografia, eu já era amigo do Miguel do Rio Branco em reuniões de fotografias, essas coisas todas. Já prestava atenção a um movimento de estética fotográfica. E eu lembro que ali, no Clube da Esquina, eu queria a coisa mais despojada possível, porque o sentimento, a amizade era maior do que qualquer fórmula gráfica, estética. Tinha mesmo essa postura. E a outra era o prazer de estar trabalhando com pessoas da minha geração e dos meus sentimentos. Isso foi muito forte porque, por exemplo, eu já trabalhava com o Hermínio, fiz Elizeth Cardoso, que não era muito minha praia, mas foi muito importante pra mim. Foi quando eu comecei a trabalhar, tinha feito umas duas capas do Turíbio também, que estava lá na França, aqui. Ali foi a primeira vez que eu trabalhei com alegria.

FAMÍLIA
Esposa / Filha

E ao mesmo tempo, coincide com o meu casamento, eu já com a Beth e tendo um filho. Na época, eu lembro que lá em casa virou um centro, porque morávamos eu, Ronaldo e Beth. E tendo Joana, a primeira filha do Clube da Esquina, dessa turma.

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Atividades profissionais / Ronaldo Bastos

Ao mesmo tempo, eu tinha formado com Ronaldo Bastos uma firma, chamada Nuvem Cigana, em que a gente produzia os poetas aqui no Rio de Janeiro. A gente tinha também um time de futebol, chamado Nuvem Cigana, que jogava muito contra os Novos Baianos. Então tinha essa coisa assim. Quando o Lô e o Milton vinham, também freqüentavam essa turma; a gente ia muito pra Búzios nessa época.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

Daí eu fiquei brigado com o Bituca, fui pra Recife e, quando voltei, tinha um show do Clube da Esquina no Teatro Lagoa. O Ronaldo disse: “Vamos lá falar com o Bituca?”, Eu disse: “Não vou! Vou ficar esperando no carro!”. Aí apareceu o Ronaldo e o Bituca. Bituca entrou e me abriu uma palavra – que depois de anos eu fui entender – e foi primeira vez que eu ouvi falar. Ele disse: “Cafi, não liga pra isso não. Isso são vicissitudes da vida”. Eu fiquei fascinado e eu disse: “Nossa, que maravilha essa palavra!”. Ele falou aquele negócio de vicissitudes, a gente voltou e fizemos as pazes dentro de um Fusca. Fomos para o Cervantes comer, tomar um chope.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Origem do Clube

Antes do Clube da Esquina, Milton era um compositor considerado uma maravilha de compositor, mas muito hermético. Só os músicos compreendiam, as pessoas mais requintadas é que se interessavam. Ele era considerado uma coisa fechada, meio um enigma. Ao mesmo tempo, era uma época em que estava acontecendo a Tropicália – já tinha acontecido a Tropicália. Era muita movimentação política misturada com coisas culturais. Então o Clube da Esquina, para esse pessoal, eu acho que foi um encontro, meio Rio–São Paulo, com uma juventude nova, que era o Lô, o Beto.

TRABALHO
Atividades profissionais

Nessa época em que tudo acontecia, meus ídolos eram Edu Lobo, Francis Hime… Eu ouvia umas músicas do Francis e achava uma maravilha. Quando saiu o Clube da Esquina, foi uma explosão. Primeiro do Milton, que se tornou marco popular pra todo mundo que estava ali. Por exemplo, eu estava começando a trabalhar, então Edu Lobo já começou a me ligar para chamar para fazer a capa dele, o Francis me chamando para fazer capa dele também, e eu comecei a ficar fascinado por isso. E continuamos, porque eu precisava trabalhar e já era amigo do pessoal lá de Minas. O Clube da Esquina tinha dado supercerto, então começaram…

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Origem do Clube

Aí eu fiz a capa do Lô, comecei a fazer as capas do Beto, e aí fiquei muito tempo trabalhando. Fiz não sei quantas capas do Milton, sempre participei dessa história que era, entre aspas, a coisa do Clube da Esquina. Virou uma história o Clube da Esquina, uma união, porque deu muito certo e foi uma explosão muito nova de todo mundo, porque é nessa época que o Milton explode. O Milton foi o primeiro cara a fazer shows em estádio, porque não tinha essa coisa de fazer show no Maracanãzinho, show no Ibirapuera; o Milton foi um dos primeiros caras a fazer isso. Então o que acontecia? Era uma rapaziada nova, metida já numa história maluca, de encontros maravilhosos em todos os lugares.

TRABALHO
Atividades profissionais

E paralelamente a isso – que foram duas coisas superimportantes –, teve uma figura chamada Gisela Magalhães, que era uma arquiteta ligada ao Luís de Magalhães, que começou a me chamar para fazer exposições sobre arte popular. E comecei a viajar todo o Brasil. E isso foi acontecendo na minha vida. Eu comecei a viajar o Brasil inteiro para fotografar eventos de cultura popular, aldeias indígenas, conviver com isso para fazer exposições. A gente ia para fazer exposição e eu passava três meses lá; depois vinha fazer a exposição e isso foi acontecendo paralelamente a tudo que estava acontecendo na música. Eu tinha um lado de sumir e ir viajar o Brasil, Rio São Francisco, fazer milhões de trabalho, como também tinha o lado da música.

TRABALHO
Avaliação

Por exemplo, a capa de disco no Brasil assume uma história como o cartaz de cinema cubano assume em Cuba, ou seja, uma arte gráfica que se atrela a uma indústria forte, que era a música, era “inderrubável”. Os caras tentaram derrubar mas não conseguiram. Era um espaço extremamente generoso no interior, porque era 31×31, e era uma coisa conservável. Você não conserva uma revista, mas você conserva uma capa de disco. E com espaço de exposição. Você fazia hoje e daqui a dez dias estava em tudo que era loja sendo exposta. Então a capa de disco começou a ter uma conotação muito política, e como era um espaço com toda essa generosidade e um espaço viável, muitos artistas começaram a ir para a capa de disco. O Hélio Oiticica chegou a fazer algo da Gal. Teve a “Fatal”, que era o Luciano Figueiredo. E começaram a surgir muitas capas; a capa começou a ter uma importância muito forte no Brasil, não só na questão de marketing, mas como uma questão de linguagem, de uma estética, de uma tal resistência, de uma tal história.
O processo criativo das capas tinha uma relação muito grande com a música. Primeiro de tudo, porque eu gostava muito de música, então ouvia muita música; a outra coisa é que capa de disco é uma forma gráfica muito autônoma. Por exemplo, a publicidade sempre tentou entrar na capa de disco, mas nunca conseguiu; conseguiu fazer uma capa da Rita Lee, doTutti-Frutti, mas não deu certo. A moda nunca conseguiu entrar na capa de disco; a hora que ela entrou, ela parcelou, pasteurizou todo mundo – a Gal ficou com a cara da Elba Ramalho, a Elba Ramalho ficou com cara de não sei o que lá. Era uma certa coisa de um excesso de maquiagem. A capa de disco tinha uma linguagem nessa época.

DISCOS
“Disco do Tênis”

Eu lembro, por exemplo, do Lô, que estava todo chateado, e eu fiz aquela capa com ele dos dois tênis, porque ele tinha dois tênis velhos. A gente não conseguia achar uma foto do Lô, então disse assim: “Por que não vamos fazer com o tênis?”. Aí fizemos com o tênis, não sei se foi uma idéia do Marcinho na época, foi uma coisa que surgiu. Dessa capa, até hoje, nego vem me falar em Londres; neguinho adora essa capa. A capa ficou muito atrelada a um tipo de sentimento, não era uma embalagem de um sabonete, era uma embalagem de um outro conteúdo estético, então ela tomou coisas assim.
Como eu pintei, apareceu essa coisa do Clube da Esquina que foi forte. Eu consegui fazer capa de disco durante muito tempo, mesmo fazendo outras coisas, outras atividades, como esse negócio da cultura popular, de exposições minhas, trabalhos meus. Eu fiz muito tempo disco, um porque precisava de grana, tive filho cedo, então precisava trabalhar, e a outra coisa é que era extremamente prazeroso. Eu fiz mais ou menos umas 270 capas de disco; eu devo ter sido chamado pelas gravadoras umas quatro vezes, quer dizer, sempre foram os artistas que me chamaram. Então eu sempre entrava numa outra condição; na gravadora, neguinho reclamava. Eu dizia assim: “Ah, tá…”.

DISCOS
“Minas”

Quando eu fiz a capa do “Minas”, teve até todo um desenvolvimento. Se você prestar atenção, antes do “Clube da Esquina” o “Milton” era um desenho; depois o “Clube da Esquina” era os dois meninos; depois “Milagre dos Peixes” era a mão; depois o outro “Milagre dos Peixes”, ao vivo, era Milton de costas, no palco. Quando eu fiz “Minas”, eu tinha ido para uma aldeia indígena e tinha sacado aquela lente close-up. Então eu disse: “Estou doido para fazer uns closes de índio”. E aí fui para uma aldeia indígena. Então comecei a fotografar muito com essa lente close-up, fazendo close, que não podia mudar muito, porque mudava a coisa de foco, não podia, perdia o infinito.
Quando cheguei aqui no Rio, Bituca tinha ido para São Paulo e tinha parado de beber. Eu me encontrei com ele aqui e disse: “Pô, Bituca, você está muito legal, né?”. E ele disse: “Eu? Eu estou maravilhoso!”. Quando ele fez isso, eu “cléc”, bati. Quando “Minas” – que é a cara dele – apareceu, o Bituca apareceu, porque antes era a mão, era aquela coisa toda, ele nunca aparecia. Quer dizer, a primeira vez que ele aparecia, ele apareceu de estalo. E aí eu fiz naquele papel laminado. Aquilo, hoje em dia, se imprimir em papel laminado é fácil, mas naquela época era uma confusão, porque a tinta não secava, então a gráfica inteira – a Laborgraph – teve que imprimir. Tinha um laminado, imprimia uma plastificação, imprimia em cima, plastificava, imprimia em cima, assim umas três camadas. Foi muito confuso.
Nessa época, o Bituca disse: “Se não sair essa capa, eu saio da Odeon”. Bituca já bancava essas coisas, tinham umas coisas assim. E, nos primeiros dez dias, a capa saiu toda branca e o disco vendeu, sei lá, cinco mil cópias; 15 dias depois, saiu com aquela capa do “Minas” e o disco vendeu 120 mil cópias. E foi a explosão do Milton popularmente.
O disco é legal. Acho que, naquela época, foi o disco que vendeu mais, e foi a hora em que o Bituca se assumiu, tanto que ele disse para mim: “Eu sou maravilhoso!”. E foi a hora em que apareceu a cara dele, pela primeira vez, e o Brasil começa a entender. O Caetano falou uma coisa maravilhosa: “O Milton é a tia da Clementina de Jesus, é a mãe da Nina Simone, é o buraco negro”.

TRABALHO
Atividades profissionais

E o Rogério Duarte falou uma vez assim: “O Milton é o mistério que o Brasil entendeu”. Eu fiz praticamente todas as capas; teve uma participação do Noguchi muito grande também, porque o Noguchi era um artista gráfico mineiro, mas que tinha trabalhado em São Paulo. Foi o primeiro cara a fazer uma campanha da Volkswagen em casa, primeiro cara a ter um estúdio particular, porque eram só as agências de publicidade. Era um cara muito bom, muito conceituado, que já tinha me dado uma dica naquele letreiro da capa do “Clube da Esquina”. Ele fazia a letra. Aí eu escolhi a letra e ele fez para mim.

DISCOS
“Minas”
No “Minas”, eu trabalhei com o Noguchi e já tinha essa coisa que foi tão importante, porque aquela capa não teve só um fator histórico, externo, um valor X, Z, mas também teve valor dentro da Odeon. A Odeon passou a perceber que a capa do disco tinha um valor X, tanto é que na própria gráfica, na Laborgraph, já tinha uma lombada da Odeon, que era uma maneira de fazer a dobra das capas no estilo da Odeon. Se valorizava muito a capa. Eu comecei a fazer milhões de coisas, e foi também uma época de exagero; neguinho abria, fazia coisas e pronto. Isso foi até o Clube da Esquina.

DISCOS
“Clube da Esquina 2”
A capa do “Clube da Esquina 2” estávamos eu e o Noguchi… – não, Noguchi não estava fazendo. O Kélio tinha feito o “Milton”, aquela primeira que é um desenho, e ia fazer do “Clube da Esquina 2”. Só que ele tinha feito um desenho que eram dois pregos enfiados na cabeça do Milton que ele tirava, e não tinha nada a ver com o clima do “Clube da Esquina”. Eu já estava fotografando e fiz um desenho do Bituca; o Bituca foi lá em casa e disse assim: “Você vai fazer a capa!”. E eu disse: “Mas Bituca, eu não sei fazer, eu não sei…”. E ele disse: “Não, você vai fazer a capa!”. E quando chegou pra fazer a capa do “Clube da Esquina 2”, tinha uma certa indecisão mesmo, sem saber o que era, mesmo porque tinha acontecido o seguinte: todo mundo tinha crescido, eram seis anos depois e todo mundo já tinha tido filho, já tinham se incorporado milhões de elementos. Já estava Chico Buarque no trabalho, já estava Afrânsio, já tinha uma presença forte da Elis.
Então se resolveu fazer um disco de estúdio. Comecei a fazer a capa e aquela foto que tinha o Vicente, irmão do Ronaldo, que morava em Londres na época do primeiro “Clube da Esquina”, ele tinha comprado aquela foto, que era de um fotógrafo inglês que morava em uma cidadezinha no interior da Inglaterra. E o Vicente mandou na hora, durante a gravação do “Clube da Esquina 2”, e eu não sabia como fazer a capa. Umas pessoas acharam que tinha que ser o Bituca rindo, como se estivesse feliz, e eu olhei aquilo com o Ronaldo e disse: “Ronaldo, isso é a capa!”. Ronaldo disse: “Porra, que maravilha!” – só que não tinha autorização. Eu mostrei para a Odeon e a Odeon disse assim: “Vocês entregam essa capa na segunda-feira com autorização, senão sai branca”. Eu assinei uma carta, o diretor da Odeon assinou outra carta e o Bituca assinou uma carta que a capa sairia em branco. Aí houve umas coincidências, porque eu conhecia Fernando Sabino, que havia sido adido cultural na Inglaterra; fui atrás do Sabino e ele indicou um cônsul do British Council. E o British Council autorizou e saiu aquela capa. Mas o Clube da Esquina já estava muito diferente das coisas todas, já era diferente, já estava todo mundo crescido, todo mundo…

Voltar ao topo AVALIAÇÃO

Clube da Esquina

Eu acho o seguinte: o que os baianos fizeram com o tropicalismo, um movimento estético que era formal, extremamente formal – usando música de carnaval, outras coisas – não é necessariamente, intrinsecamente composto de músicas boas no sentido da qualidade. Já os mineiros tinham isso, quase que um rebuscamento maior, ligado ao próprio Barroco mineiro, mais rebuscado. Então musicalmente é um encontro, não é uma postura; a postura seria a de ter conseguido paralisar em um momento X, ou fotografar um momento X, o que vinha acontecendo com a música mineira em relação à música internacional, dos Beatles. Quer dizer, qual a leitura que os mineiros fizeram desse novo momento? Mas era um movimento basicamente em cima de músicos, de músicos bons que já transavam a coisa do jazz, a coisa da bossa nova, então tem uma qualidade musical muito grande. Mas nunca houve uma formalização muito forte, em termos de uma postura estética. A postura estética surgiu pela maneira de ser e pela maneira de se transar, às vezes até muito mais em cima dessa coisa da amizade. Mas, basicamente, uma coisa de música. Se você pegar, você tem uma formalidade no disco “Clube da Esquina”, e tem na capa do “Clube da Esquina” algo que não reflete necessariamente a musicalidade, mas sim reflete um momento vivido, o espírito da época.

DISCOS
“Milagre dos Peixes” / “Milagre dos Peixes Ao Vivo”

A capa do “Milagre do Peixes”, aquela da mão, quem fez foi o Noguchi. Eu lembro que o Bituca foi morar em São Paulo porque casou com a Cáritas. Aí ele sumiu – foi quando ele parou de beber. E o Bituca veio com uma idéia do Elifas Andreato para fazer a capa – eu nunca me esqueço disso – e veio com um croqui. Eu olhei e disse assim: “Eu acho isso aí totalmente “transbrasil”, aquela coisa meio Transamazônica; eu não gosto”. Aí se teve a idéia e o Ronaldo falou: “A gente podia chamar o Noguchi…”. O Fernando já conhecia o Noguchi lá de Belo Horizonte e falou: “Ele adora bolinho de feijão”. E chamou Noguchi, que fez aquela capa.
Teve o “Milagre dos Peixes ao Vivo”, aí fui eu quem fez. Nesse disco, eu fui às gravações, mas não tive uma participação muito grande na feitura do disco, mesmo porque eu viajava, eu vivia viajando com outros trabalhos.

Voltar ao topo VIAGENS

Brasil

Cheguei a sair do Brasil, mas já muito depois. Antes eu quis conhecer o Brasil – levei 27 anos para fazer isso – porque eu fiz questão disso. Eu conheço todo o litoral, do Rio Grande do Sul até o Amapá; conheço todas as bacias hidrográficas, todas as chapadas, todos os ecossistemas e todos os sertões. Foram 27 anos para conhecer isso, fazendo trabalhos de cultura popular, muitas exposições, porque eu viajava muito. E fotografando para mim também. Sempre gostei de viajar, entrar no carro e sair viajando todo o interior.

TRABALHO
Avaliação

Quando eu parei um pouco de trabalhar com o Bituca foi bom, porque todo mundo já achava que eu era mineiro e isso me restringia um pouco. Eu fiz onze do Beto Guedes, fiz várias do Lô, fiz algumas do Toninho Horta… Então todo mundo achava que eu era mineiro. Quando eu parei um pouco de trabalhar com o Bituca, teve uma coisa ótima, porque eu comecei a trabalhar com os pernambucanos, com Alceu, com Geraldinho; comecei a trabalhar também com gente nova.

FAMÍLIA
Casamento

E tiveram meus casamentos também, paralelamente a isso, que foram me levando para turmas diferentes. Eu era casado com a Beth, na época do Clube da Esquina. Depois, me separei e me casei com a Márcia, que era uma diplomata que morava em Brasília, e a gente viajava muito o Brasil juntos. Depois, eu me casei com a Nina de Pádua, que trabalhava no “Trate-me Leão”, no “Asdrúbal Trouxe o Trombone”, e isso me deu uma outra gama de histórias.

TRABALHO
Atividades profissionais

Paralelamente a isso, com a Nuvem Cigana – que eu criei com Ronaldo – a gente assinava já as capas como Cafi, Ronaldo Bastos e Nuvem Cigana. E a gente criou esse movimento de poesia meio alternativo, de produções alternativas. Quando eu fui para o Asdrúbal, eu me encontrei com o Perfeito Fortuna e ao mesmo tempo com Evandro, que trabalhava no “Trate-me Leão”. E a gente já ia discutindo as viagens, toda a coisa do Circo Voador, o negócio da Blitz. Aí eu comecei a fazer as capas da Blitz também, que foi quando estourou. Então é engraçado, porque eu consegui transitar em várias épocas, pois teve muita gente maravilhosa que surgiu em capa de disco e desapareceu rápido. Eu consegui transitar muitos anos na capa de disco e por várias turmas, por várias histórias. Tanto que hoje em dia eu briguei com as gravadoras, de processar mesmo, e eu continuo trabalhando, porque o pessoal me chama – a rapaziada nova, o pessoal do Orquestra Imperial…

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

Não sei o que é o Clube da Esquina, se é um movimento formal. Acho que foi um movimento de amigos, um movimento de recuo musical muito grande, de uma genialidade que era o Milton, um poder de cantar o que os outros estão sentindo, o que os outros querem. E mais ou menos, eu acho que eu dei a coisa gráfica do Clube da Esquina, que era um tipo de sentimento mais pop, de um sentimento mais lisérgico.
Eu me sinto parte do Clube da Esquina porque são amigos antigos, mas que eu vejo que tiveram mudanças muito grandes. Quando se criou, lá em Belo Horizonte, neguinho me chamou, eu fui lá e adorei ter contato com todas aquelas pessoas de novo. Mas eu não sei se são os mesmos rumos que cada um tomou, são diferentes. Por exemplo, eu tenho uma ligação muito forte com o Milton, e estou fazendo um site dele que vai sair agora; estou fazendo o negócio do livro dele, do cancioneiro, das 300 músicas. Eu continuei me encontrando mais com o Bituca do que com as outras pessoas. O Ronaldo, vamos dizer assim, é meu irmão, mas com o Milton eu continuei trabalhando em algumas coisas, por uma certa identidade que eu tenho com ele, até de sentimentos. Mesmo com as outras coisas que foram acontecendo, como o filme para a Conspiração, de uma certa maneira eu estou sempre próximo do Milton, muito mais do que do Clube da Esquina. Porque não tenho mais uma relação muito grande com o Lô. Eu tive uma relação muito grande com o Beto, de carinho, mas também nunca mais vi, as coisas foram mudando, os interesses foram mudando.

TRABALHO
Atividades profissionais

Uma época eu processei as gravadoras, então me afastei muito desse negócio de música, me afastei muito do negócio do processo dos músicos que só falam em televisão – ninguém lê ou vai a um teatro. Paralelamente a isso, assim como eu me meti com o “Asdrúbal”, eu me meti também com a feitura do Circo Voador. E fiz toda a coisa do Circo Voador, fazia parte da discussão ideológica do Circo Voador. E montei uma galeria de arte no Circo Voador. Meus interesses foram partindo para outras, além de outros grupos que não só mineiros; foram partindo para outras coisas que não só música. Logo depois acontece a Blitz.
Na época da Blitz, eu conheci a Débora, que já é ligada à coisa da dança, então a vida foi me levando para outras coisas. Hoje em dia, eu sou um cara que anda muito mais com o pessoal das artes plásticas, que me diz muito mais. São pessoas que lêem, pessoas que ouvem música, que vão a teatro; eu me ligo muito mais nessa história. E as coisas são cíclicas, tanto que voltei muito a Pernambuco também, comecei a conviver muito com Alceu Valença, que é um amigo meu lá de Recife. Vou muito a Olinda. Então mudou. Eu passei a ser mais fotógrafo, no sentido não só de trabalhar, mas no sentido de ter um meio de expressão. Comecei a fazer milhões de coisas, a fazer exposições, comecei a fazer sites, a fazer livros.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

Hoje em dia, eu não sei o que significa o grupo Clube da Esquina, mas o que foi o Clube da Esquina… Eu era daquele movimento sim, daquela maneira de viver e que eram os amigos da época. Choramos muito juntos, rimos muito juntos, mas eu não sei o que é que significa hoje esse sentimento, o que é ele objetivamente determina o que vai ser, o que é um grupo de amigos, um grupo de amigos com uma postura e uma estética X, eu não sei direito. Eu gosto muito do Fernando Brant, que é uma pessoa que eu admiro, eu acho legal, mas não vejo muito. Estou muito com Ronaldo, com Bituca. Eu vejo Nelsinho Ângelo, mas as pessoas estão meio dispersas. Eu acho que Marcinho é quem está puxando essa bola de novo.

Voltar ao topo MUSEU

Clube da Esquina

Eu acho interessante essa coisa do Museu. É a única coisa que eu posso dizer. Acho interessante, primeiro de tudo, o livro que o Marcinho fez, que já puxou essa história de fixar um movimento em termos de memória, em termos de umas coisas. Pode ter gente que concorda, gente que não concorda, mas ele contou a história – quem quiser que conte outra. Então é legal, porque eu vejo muito dentro de uma perspectiva mineira do que está acontecendo agora. A nova geração de Minas, esse Skank, tudo, já está numa outra história. Mas o Clube da Esquina foi muito referência, em milhões de lugares, mesmo para o pessoal de rock. Se você pegar o Herbert Viana, ele ouvia muito Beto, tem essa coisa forte lá. E eu acho legal como resgate de memória.
Eu não sei qual é o projeto futuro disso, qual é a determinação e a estética de você criar uma história – ou é só uma coisa memorialista. Qual é o projeto futurístico dessa coisa do Clube da Esquina? Eu ainda não sei direito. Sei que é uma associação, sei que estão se gravando os depoimentos de umas pessoas, vocês do Museu da Pessoa, até de uma maneira mais individualizada, quase que a origem de cada um para tentar depois ver por que se juntou todo mundo dessa maneira. Acho legal como projeto memorialístico, e é um projeto importante para Minas – sobre o que foi isso, o movimento em Minas, e que se formalizou dessa maneira, porque, na realidade, acho que o Clube da Esquina também era uma coisa muito mais ampla, não só Minas, mas do Brasil inteiro.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação
O que acrescentou de lisérgico ali foi o Lô Borges. Era meio viola caipira, mas ligada a uma coisa pop. E eu acho que esse elemento veio do Lô e do Beto. Essa história virou uma história meio de Minas, talvez por ter fotos de milhões de pessoas; virou uma coisa de existência de um grupo. Mas, na realidade, eu acho que foi uma continuidade de muitas pessoas, que continuaram trabalhando juntas: o Bituca foi trabalhando com os filhos do Marcinho, com os irmãos do Marcinho, com o Lô, porque foi um crescimento para todo mundo. O Beto passou a gravar o primeiro disco dele, o Lô passou a gravar o primeiro disco dele, o Wagner Tiso passou a gravar o primeiro disco dele, o Toninho Horta… Então foi um crescimento musical explodido do Clube da Esquina, que deu, na realidade, trabalho para todo mundo crescer, virar homem. E todo mundo também, ao mesmo tempo, com a necessidade de individualização do seu trabalho: todo mundo foi fazer o seu trabalho.

DISCOS
“Clube da Esquina 2”
O segundo Clube da Esquina já é uma certa confusão em relação a isso, já não tem aquele sentimento tão infantil ou tão juvenil, um sentimento tão político. Já é uma agregação de novos valores cosmopolitas no Clube da Esquina, com Chico Buarque, Francis Hime, Clementina, Elis Regina.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação
Não teve ninguém que formalizou esteticamente o Clube da Esquina como movimento Y, que defendia certas causas, certas coisas, não tem muita coisa formalizada. O texto que eu acho mais bonito do Clube da Esquina é um texto que Fernando Brant fez para um disquinho de lançamento do próprio álbum do Clube da Esquina. Foi um texto que se perdeu. Mas era um texto em cima da força do canto do Milton como agregadora de toda uma história, de milhões de aspirações. Eu não sei dizer o que é o Clube da Esquina e como está o Clube da Esquina; eu fui a uma reunião e foi ótimo, teve milhões de filhos novos, maravilhosos, lindos, as pessoas se reunindo ali de novo. Mas até agora eu não sei direito o que é o Clube da Esquina.
É engraçado, porque eu estive com Wagner Tiso agora em Olinda e eu falei para ele: “Você deu lá o seu depoimento?”. E ele disse: “Dei”. Mas é uma coisa meio confusa essa do Clube da Esquina, porque é uma coisa que data muito você. Hoje em dia, praticamente, eu não tenho mais nada a ver com o negócio de clube de mineiros e, ao mesmo tempo, você fica preso àquela época. Neguinho nem ouve seu disco, porque acha que é um disco parecido com aquele som de Clube da Esquina. Data muita coisa. Então eu não sei, tem pessoas que estão mais nesse sentimento; o nome Clube da Esquina é do Marcinho. O encontro do Milton com o Lô é ali na rua Divinópolis, na casa do Marcinho; a placa que está escrita ali na esquina é lá, então eu acho que é um movimento muito do Marcinho, muito uma mística mineira que ficou ali, quando, na realidade, talvez essa mística mineira tenha se expandido até o Rio de Janeiro. Então, talvez tenha sido um movimento não necessariamente só mineiro, mas assim como tinha a música rural que se conjuminava com o pop, tinha um encontro de mineiros com cariocas.
Ronaldo Bastos foi de uma importância fundamental na estruturação do disco, na temática das letras e como produtor do disco. Ronaldo Bastos foi fundamental, e era um elemento carioca, ele é de Niterói. Todo mundo acha que Ronaldo é mineiro também. Então, na realidade, assim como teve a música pop unindo-se à música rural – rural no sentido de música regional –, eu acho que teve um encontro do regionalismo mineiro. Eu sou pernambucano, Novelli é pernambucano, Naná é pernambucano, quer dizer, o regionalismo mineiro que se encontrou com a coisa cosmopolita carioca, do qual Ronaldo, como tinha sido exilado, já tinha ido pra Londres, e o Bituca já tinha gravado o primeiro disco dele, “Coragem”, nos Estados Unidos. Então não é uma coisa especificamente mineira para mim.
É engraçado, porque isso ocorre até no processo do Aleijadinho. Por exemplo, na necessidade de você criar um ícone nacional, um deles foi o Barroco mineiro – assim como o Buriti como árvore nacional –, quando, na realidade, o Barroco mineiro teve um fluxo muito grande. Quando se descobriu o ouro em Ouro Preto, aumentou em dois terços a quantidade de ouro no mundo, teve um fluxo de gente ali enorme de artesãos pernambucanos, artesãos baianos, que foram para Minas. Então, na realidade, o Aleijadinho surge dentro de uma discussão de um Barroco já nacional e não estritamente mineiro. Então, eu acho que o Clube da Esquina é uma raiz mineira nacionalizada. Eu não sei também o que é o Clube da Esquina agora; o Clube da Esquina agora tinha que ser uma coisa meio já marciana, mais do que uma coisa de Minas, especificamente mineiro. Está além das fronteiras, porque o próprio Milton já não está muito mais especificamente em Minas; teve uma volta dele para Minas, mas já está cantando outras coisas.

TRABALHO
Avaliação
De uma certa maneira, eu vibrei muito com capa de disco. Hoje em dia, nem estou tanto mais assim, mas o Clube da Esquina foi vibrante, eu achei legal. Teve uma capa do Beto também, “A Página do Relâmpago Elétrico”, que eu gosto também. Teve uma do Chico que eu também gosto, de “Vai Passar”. Teve uma da Sara Vaughan também.
Mas mudou muito o negócio da capa de disco quando passou para o CD. O CD passa a ser uma pontuação, uma referência de uma visualização muito mais externa, enquanto a capa de disco em si era um negócio que era o início de tudo. O início de tudo saía ali, da capa de disco, porque era uma coisa muito grande. Então têm várias capas que fiz que eu gosto muito, mas como faço tanta coisa e estou para lá e para cá fazendo coisas, eu me esqueço muito rápido. Teve capa do Alceu, “Espelho Cristalino”, que eu acho legal também. Tiveram capas da Blitz que eu achava legal, como “As Aventuras da Blitz”. Teve uma outra também, “A Blitz e a Radioatividade” que era uma maquete.

FAMÍLIA
Relações familiares
Eu moro sozinho, sou muito solitário. Eu gosto de fazer meus trabalhos. Passei a fazer muitos livros, a trabalhar muito a minha fotografia no sentido de uma expressão minha. Meus filhos são ótimos. Eu fui casado com a Debinha dez anos, e a gente se separou. E Debinha mora defronte à minha casa, então a gente se fala todo dia, os meninos vão lá para casa. Quando não vão para casa, ficam na casa dela. Quando ela viaja, eu fico administrando mais ou menos eles, e quando eu estou viajando, Debinha naturalmente já está administrando eles, porque moram com ela. Então é assim, eu saio muito com os meus filhos, eles vão dormir lá – Miguel foi dormir ontem lá em casa. É legal.

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2 Mensagens para Cafi

  1. Antonio Tazima disse:

    Conheci e curti o Clube da Esquina e a maioria dos álbuns que surgiram a partir desse "movimento" musical mineiro.
    Isto que o Cafi escreveu acrescentou muita informação para conhecer melhor todos esses músicos, seus trabalhos e, legal, detalhes de como tudo isso "funcionou".
    Bacana mesmo, Cafi !

  2. Antonio Tazima disse:

    Tonho e Cacau, a dupla que estampou a capa do Clube da Esquina, 40 anos depois
    http://www.old.pernambuco.com/ultimas/nota.asp?ma