Carlos Alberto (Bebeto)

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, local de nascimento, data de nascimento.

Meu nome é Carlos Alberto Pinto Gouveia. Nasci em 18 de abril de 1954, em Três Pontas.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Nome dos pais

Meu pai é Cezar de Alvarenga Gouveia e minha mãe, Eli Pinto Gouveia.

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Milton Nascimento

Ah, o Bitucão, além de Três Pontas, que ele ia sempre, apesar de já estar trabalhando aqui em Belo Horizonte na CEMIG, aquelas coisas todas. A diferença de idade nossa deve ser de uns 13 anos, mas eu sempre tive aquela curiosidade de conhecer, porque eu sempre, apesar da pouca idade, sempre andei com o pessoal mais velho da cidade e que eram relacionados com o Bituca antes de ele ser o que é hoje. E aí eu fui chegando perto, chegando perto, já conhecia o Seu Zino, pai dele, eu também tinha amizade com as meninas, com a Betinha, e então fui chegando e ele veio chegando também. E tinha o Jacaré, que é primo dele, o Helson Romero, que é muito ligado comigo. E antes de conhecer o Bituca eu já conhecia o Lô, esse povo, porque eu estudei aqui em Belo Horizonte muito tempo, comecei no cientifico, depois comecei com a arquitetura, depois parei e voltei pra fazenda em Três Pontas. Mas aí eu fui chegando, nós fomos ficando amigos, bateu pra valer. E aí nós ficamos amigos, amigos mesmo. Aí quando foi sair o “Clube da Esquina 1”, eu estava aqui em Belo Horizonte, vieram o Bituca, o Locca, o Cafi e mais um bando de doido para fazer a capa e para visitar uns amigos, fazer aquelas fotinhos do encarte, foto do Pacífico, de todo mundo daqui de Belo Horizonte que eles tinham que mapear para registrar e eu saía andando junto, porque eu encontrei com o Jacaré e o Jacaré me levou. Nós fomos, inclusive, para a casa do Marcinho, eu fiquei hospedado lá. Eu abandonei a minha família, que entrou em pânico, a minha irmã que morava comigo, porque eu sumi. Quando acabou de fotografar eu não apareci mais em casa. Eu falei: “Eu vou estudar? Eu vou é ficar andando com esse povo”. E aí foi, selou mesmo uma amizade muito grande, foi o princípio da coisa.

Voltar ao topo ADOLESCÊNCIA

Namoro com Paula

Depois, teve um punhado de depois, porque eu comecei a namorar a Paula, que eu já namorava fazia muito tempo, desde meus 15 anos. A Paula tinha 14. E o Bituca achava o casalzinho a coisa mais interessante e de fato era um amor fantástico, fora dos padrões normais do interior, entende? Meu pai era uma pessoa muito influente, o pai da Paula também era. Papai, inclusive, era prefeito da cidade, foi prefeito de Três Pontas duas vezes. E a gente era muito visado e doido também (risos), naquele tempo. Então a gente quebrava vários padrões na cidade, tanto de comportamento de casal como de amizade e de outras coisas que não vêm ao caso (risos), não é ? Eu não vou ficar falando muita coisa, se não… está doido! Mas aí o Bituca se apaixonou pelo casal também, tanto que acabou virando Paula e Bebeto, porque nós chegamos a ficar noivos, teve um festão, cada aliança de brilhante, uma beleza. Mas na véspera de casar a gente resolveu que não, era uma paixão muito louca. Não era um amor estável e já estava cada um com uma cabeça diferente também, aí terminamos. Ficamos doentes, sofremos, nossa… sofri pra danar, mas aí já tinha a música, só faltava a letra. Aí, quando ele terminou, o Bitucão colocou aquela letra que era até o Marcinho que ia fazer – eu já tinha conversado com o Marcinho, ele até cita no “Histórias do Clube da Esquina” –, mas aí ele contou pro Caetano as histórias, as passagens nossas, porque a gente andava muito juntos, eu, Bituca, a Paula, era uma relação muito rica mesmo e muito aberta. Para virar isso tinha que ser mesmo. Então ele contou essas histórias pro Caetano e ele disse: “Eu é que vou fazer essa letra”, e que realmente é uma letra linda, que conta realmente o caso e que o Bituca traz até hoje. Todo show dele ele canta “Paula e Bebeto”, aqui, lá no Japão. Ele agora está lá na Finlândia, disse que vai atrás do Papai Noel (risos), para ver se existe essa coisa.

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Festival de Três Pontas

Lógico que eu estive, eu inclusive estava na produção também, porque foi o próprio pessoal da cidade que armou com a prefeitura, porque foi tudo patrocinado e o Bituca chamou os amigos, o pessoal foi de graça, foram pelo transporte. Foi uma coisa maluca, assim, 50 mil pessoas, não tinha trânsito, o negócio foi no meio do pasto, na fazenda do Bichinho, um amigo nosso. Nós acabamos com o pasto. Mas valeu a pena, até as vacas adoraram, porque o trem era enorme e era no Paraíso. Paraíso era uma quebrada que a gente ia em Três Pontas para fazer fogueira de noite, tocar um violão, conversar fiado e ver um pôr-do-sol, porque tinha um pôr-do-sol fantástico. E a gente ia lá, fazia outras coisas para o sol ficar mais fantástico ainda, aí você ficava olhando para aquele sol assim. E era um lugar muito no alto e você ficava vendo Três Pontas se apagando depois que o sol se punha e atrás você via Eloi Mendes, Alfenas, várias cidades. Era um lugar lindo, que era ponto de encontro da gente e ponto de pavor pra cidade. Falavam: “Ih, aquele povo está indo para o Paraíso”, e ia aquele bando de maluco. Se entrasse mais um maluco pro bando o pessoal já falava: “Ih, Nossa Senhora”. Mas era um lugar lindo. E resolvemos fazer esse show lá. O Bituca levou Gonzaguinha, Francis Hime, Chico Buarque, as irmãs do Chico, Nelsinho Angelo, Novelli, todo mundo e mais alguma coisa, Clementina de Jesus, sentada numa cadeira de roda e cantando “(…) Circo Marambaia…”, aquele negoção (risos), Fafá de Belém, foi uma coisa que não tem nem jeito de explicar. E nós conseguimos com os fazendeiros, porque lá é uma cidade agrícola, a gente conseguiu laranja, mexerica, doações das padarias de pão com presunto e enchia as caminhonetes. Caía a noite, todo mundo acampado, aquela confusão, a maioria da cidade hospedou os músicos, eles ficaram todos em casas de amigos e a gente saía distribuindo laranja. Aquele monte de gente acampado, a gente perguntava: “Você está a fim numa laranja?”. “Poxa, laranja? Quanto é?” “Não é nada não, cara, isso é só pra agradecer a presença.” O povo não entendeu nada, foi um negócio muito doido

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Paula e Bebeto

Ah, esse negócio não tem nem jeito de explicar, porque eu choro toda vez que eu escuto o Nascimento cantando. Quando eu canto, eu não choro, mas não gosto de cantar, porque cada vez que eu toco, eu toco de um jeito diferente e eu fico cismado, sabe? Mas é uma coisa fantástica e é um negócio que todo mundo chega e fala: “Poxa, cara, você que é o Bebeto?”. É um negócio que às vezes me incomoda e outras vezes me deixa super feliz. É, uai, já pensou se fosse você? Não tem nem jeito de falar essas coisas. É coisa de amigo, aliás, o Bituca é isso, o Bituca é um pregador da amizade, da pureza de relação, sem maldade.

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Bituca

Eu conheci o Bituca primeiro, mas quando eu estava aqui em Belo Horizonte, através do contato com o Jacaré eu fui tendo contato com esse pessoal, o Beto, etc., e esse pessoal ia muito a Três Pontas, o Telo, pequenininho, ia pra lá, ficava jogando bola. Ficavam na casa do Bituca e o Bituca foi lotando Três Pontas e de repente ele estava lá com aquele povo do Som Imaginário, aquele povo atrapalhado, doido, eles andavam só em fila indiana, bicho, com aqueles cabelões, o Robertinho parecia um balaio de coisas, assim, de gato (risos), e o Bituca foi levando e a gente foi ficando muito ligado a esse pessoal. Então virou uma confraternização de amigos. É uma confraria esse Clube da Esquina e foi chegando mais gente porque é uma coisa que está aberta. Isso não vai acabar não, isso está crescendo, porque já virou até mundial.

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Paula e Bebeto

Nós estávamos na casa da Paula, naquele tempo o Bituca até tomava uma, aí a Paula foi tomar banho e eu e Bituca ficamos tocando violão e ele começou a fazer a musiquinha… tanananan… daí eu falei: “Uai, que trenzinho bonito, não é Bituca?”. O negócio do Bituca é assim, três acordes, porque quando ele resolve complicar ele põe 859 acordes e põe mais 12 semicolcheias e 15 não sei o quê, mas “Paula e Bebeto” são 5 acordes. É bem Beatles, simples e denso. Aí ele virou pra mim e disse: “Pô, bicho, esse negócio vai virar um grande sucesso” e ficou. Muito tempo depois ele me chamou pra gravar no disco “Minas”, fazer um vocal em “Leila” e na “Nas Asas da PanAir”. Falei: “Uai, vou, Bituca”. O Bituca me chamar pra fazer um vocal no disco dele, claro que eu vou. Quando eu cheguei no ônibus, porque não tinha vôo no dia, entrei no ônibus e estava a Paula dentro. Pensei comigo: “O Bituca está armando alguma”, porque a gente já estava separado. Aí eu gravei o negócio lá no Rio, e ele já me hospedou, eu e a Paula na casa dele, aquela coisa estranha, porque tinha muito pouco tempo. Se bem que eu e a Paula somos eternos apaixonados, isso aí não adianta, ninguém nunca vai tirar isso nem dela nem de mim. Mas aí eu gravei, gravamos o vocal, estavam passando o disco pra gente ver, “Minas”, “Beijo Partido”, e não sei o quê, o cara falando no estúdio da Odeon, o estúdio lotado, aí está lá, a última faixa, a sétima faixa, “Paula e Bebeto” e eu falei: “Uai, Paula e Bebeto?”. Eu não tinha ouvido a letra e nem tinha letra, eu sabia só da musiquinha. Daí, na hora que começou a vinhetinha, eu saquei que era aquela música. Olha o susto que você leva com um negócio desses. O Bituca é muito sacana, ele faz umas sacanagens com o coração da gente, dói.

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Clube da Esquina: Museu

Acho que demorou para o Marcinho prestar atenção, porque ele sempre quis fazer isso. O Marcinho é o Clube da Esquina, é a alma mesmo do Clube. Eu acho que é um barato isso aí, um projeto fantástico, é um resgate de coisas maravilhosas e que eu acho que nunca vai parar, só vai aumentar. Porque tem os meus filhos, que são afilhados do Bituca, porque eu não chamei ele pra padrinho mas ele adotou, e azar do outro padrinho. Eu tive que dispensar padrinho, eu dispensei um padrinho. Falei: “Você não é mais padrinho do meu filho” (risos), pode esquecer. Então está aí, porque os nossos filhos estão vindo e pegando aqueles negócios, igual ao show que teve em Três Pontas, do museu mesmo, o evento, a meninada que estava tocando com o Bituca, tudo na faixa de 20 anos. Aqueles meninos, quando “Tarde” foi feita, não tinham nem nascido e agora estão lá os meninos tocando “Tarde” com uma harmonia difícil, acompanhando o Milton. O Bituca tem uma humildade, ele é um cara… ele não é nem daqui, pra começar. Esse bicho apareceu aí, de onde ele é eu não sei e eu tive a sorte e privilégio de conhecer.
Olha, isso aí, em termos de cultura, é um dos maiores projetos que lançaram no Brasil ultimamente. E a profundidade dele ninguém sabe, nem você, nem o Marcinho sabe, ninguém sabe. Isso aí vai longe.

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