Célio Balona

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, data e local de nascimento

Meu nome é Célio Balona Passos. Eu nasci em Visconde de Rio Branco, em 17 de dezembro de 1938. Visconde de Rio Branco é na Zona da Mata de Minas Gerais.

Família
Pais, tio

Meu pai é Lorival Passos e minha mãe é Maria Balona Passos, também lá de Visconde do Rio Branco. A ligação maior da minha família com a música, no caso, vem do meu pai, que gostava de trabalhar com artes lá em Visconde do Rio Branco. Ele escrevia peças para teatro, era poeta, mas não conseguia viver disso, então ele trabalhava em farmácia e depois se tornou um representante comercial trabalhando com produtos farmacêuticos. Pelo lado da minha mãe, que a descendência dela é portuguesa, eu tinha um tio que gostava muito de música, nunca tinha estudado, mas era uma pessoa que era fascinada por música. Tem até uma coisa interessante, porque uma vez ele foi assistir a um filme, naquela época, e viu uma pessoa tocando violino e ficou apaixonado pelo instrumento. Como ele era um marceneiro excelente, ele fez um violino e na época, eu não sei se hoje ainda é assim, o arco tinha que ser com crina de cavalo. Então tinha um cavalo na fazenda do meu tio e ele foi lá e cortou o rabo do cavalo para fazer o arco do violino. Minha avó deixou ele de castigo, ele era muito novo nessa época. Então acho que é por esses dois lados – mas o lado do meu pai era o mais forte, porque ele sempre foi uma pessoa que gostava muito de música. Depois de casado, eu tinha uns oito anos, ele gostava muito de compor, tocava alguma coisinha de violão, não era um músico, mas teve oito músicas dele gravadas pelo Luiz Gonzaga, que se tornou um grande amigo dele. E também escreveu dois livros, um chamado “Quatro Caminhos” e o outro, um livro de trovas, chamado “Sol de Primavera”.

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Lembranças de infância

O meu pai, naquela época, gostava muito de música brasileira. Ele gostava muito de Silvio Caldas, Orlando Silva. Na parte de música internacional, ele gostava muito de Tito Skipa, Beniamino Gigli, Caruso. Eu me lembro que lá em casa, na hora do almoço, ele colocava aqueles discos de 78 rotações que não podiam cair no chão senão eles se quebravam. Tinha retrato do Tito Skipa, do Caruso na cristaleira lá de casa e toda noite – naquela época não tinha televisão – ele reunia a família, somos cinco irmãos, tenho três irmãs e um irmão e a gente era muito pequenininho, e ele colocava uns discos de ópera e a gente ficava sentado escutando ali depois do jantar. Eu desde cedo me sentia muito bem com aquele universo criado por ele e pela minha mãe também.

Formação Musical
Iniciação musical

Na minha terra tinha uma professora de canto, dona Dircinha Soares, e eu queria de qualquer jeito fazer alguma coisa com música, eu já estava sentindo isso. Então com sete anos eu fui estudar canto com ela. Depois viemos para Belo Horizonte, ficamos por dois anos e pouco, e ele foi transferido para Juiz de Fora. Lá em Juiz de Fora, nós fomos morar perto do Batalhão de Guarda, do 2.º Batalhão, lá em Santa Terezinha. Para mim foi uma coisa maravilhosa, porque tinha duas coisas que eu adorava, uma era o campo de futebol pra gente jogar pelada em frente de casa e a outra era que no fundo tinha o batalhão onde a banda de música ensaiava todo dia. Então aquilo ali pra mim era o paraíso. Tinha um senhor que morava perto do campo de futebol em que a gente jogava as nossas peladas todos os dias que à tarde tirava o acordeom e ficava tocando ali. Eu deixava de jogar futebol para ficar lá perto da casa dele escutando o acordeom, que era um instrumento pelo qual eu sentia uma paixão muito grande. Aí meu pai foi transferido para Belo Horizonte. Eu vim pra cá com 11 anos e por sorte minha fomos morar a duas quadras de uma academia de acordeom da dona Zilá Guimarães. Um dia, eu passei e vi aquele barulho de gente tocando, e soube que era uma academia de acordeom. Eu morava ali na Rua Aimorés, perto da Igreja da Boa Viagem, e a academia da dona Zilá era na Rua Bernardo Guimarães. E aí eu falei com meu pai, mas ele estava numa situação financeira meio difícil, estava difícil comprar um instrumento. Então eu comecei, a dona Zilá me emprestava o acordeom e eu estudava. Ela me passava o exercício e eu estudava, mas eu não tinha acordeom. E eu acho que a vida te coloca frente a frente com uma série de situações que podem definir a sua vida e a minha vida foi definida numa coisa que aconteceu comigo. Eu não tinha o dinheiro para comprar o acordeom, na época era caro, papai trabalhava muito e minha mãe tomava conta dos filhos. Aí tinha um programa na Rádio Nacional do Rio de Janeiro chamado “Gente que Brilha”, toda segunda-feira, às oito horas da noite, que apresentava vários artistas da música brasileira. O apresentador, chamado Paulo Roberto, fazia uma pergunta no início do programa e se você prestasse atenção ele dava a resposta no meio do programa e a pergunta pra mim foi a seguinte: qual era o nome de Garoto? Um grande violonista, maravilhoso violonista brasileiro. Aí eu procurei saber: Antônio Augusto Sardinha. Nessa época, esse programa era patrocinado pelo Bombril. Aí eu falei com mamãe: “Mamãe, você me arruma seis rótulos de Bombril?”. Tinha que ser seis rótulos e eu escrevi a carta. Aí papai falou assim: “Eu vou perder o dinheiro do selo, porque isso aí é o Brasil inteiro, é muito difícil, meu filho”. “Mas põe no correio para mim.” E ele colocou uma única carta. O prêmio era o seguinte: naquela época eram dois prêmios, um vamos colocar que hoje seria de mil reais, e o primeiro prêmio, de dois mil reais. Aí papai pôs a carta no correio pra mim. Quando foi na outra segunda-feira, eu estou lá colado no rádio e estavam apresentando se cantores como Linda Batista, Cauby Peixoto, Ângela Maria, aí o apresentador falou: “Agora nós vamos sortear. O segundo prêmio saiu para Teresina, no Piauí, e nós recebemos mais de 40 mil cartas”. Aí papai olhou pra mim… “Agora o primeiro prêmio…” Puxou a carta e falou: “Vem de Minas Gerais, Belo Horizonte, Rua Aimorés, 56, apartamento 2, Célio Balona Passos”. Então eu ganhei esse dinheiro, mamãe vendeu a máquina de costura que ela tinha e eu comprei o meu primeiro acordeom. Eu tinha 13 anos. Aí eu me lembro como se fosse hoje, era um acordeom verde claro, a marca era Electra. Os vizinhos ficavam desorientados porque eu estudava aquilo até as onze horas da noite todos os dias, até alguém pedir para parar porque ninguém estava agüentando mais. (risos) Então acho que no fundo Deus quis me mostrar que meu caminho era aquele através disso. Foi a partir daí que eu comecei a estudar.

Formação Musical
Aprimoramento

Aí já com 14 anos entrei numa escola de formação musical e tive colegas como Nivaldo Ornelas, que estudou juntinho comigo lá, o Márcio Mallard Caldas, que é um grande violoncelista, Cléber Alves, que é também um oboísta fantástico, o Cristiano, o Watson Clis, esses todos da sinfônica brasileira foram colegas nossos. Era a meninada que estava a fim de se entregar mesmo de corpo e alma à música. Fiquei na escola de formação musical, quando o maestro Delê – Delê e Castilho eram duas grandes orquestras, orquestra para baile, era orquestra de 30 figuras, seção de figurino, corda, trombones, trompetes, uma orquestra enorme – me chamou para tocar nessa orquestra. A orquestra tocava uma música e enquanto se fazia a passagem para a próxima, pegando as partituras, eu, o pianista, o baterista e o baixista fazíamos uma música, então eu comecei a tocar nos bailes com 14 e fui preso pelo juizado de menores cinco vezes. (risos) Porque acontecia o seguinte: como eu era menor, eu tocava na Churrascaria Camponesa das sete às dez da noite com meu acordeom, seu Mário Vegas no contrabaixo e o Laerte Vaz de Melo, que era um grande pianista. Eu tocava com eles e como eu era menino eles tinham um carinho muito grande comigo. Mas tinha um cara no juizado de menores, um cara baixinho, novinho, que era invocado comigo. Então dava no relógio dez e cinco, ele olhava no relógio e fazia um gesto pra descer do palanque. Era uma pressão danada. Mas aí começaram a aparecer os convites para tocar em festas depois das dez horas, festas que começavam às dez e meia, e eu comecei a ir. Na primeira, no DCE, na Rua Gonçalves Dias, ele me viu e me pegou pra ir pro juizado e assim foram cinco vezes. Até que, quando eu estava com 16 anos, eles me prenderam outra vez lá no DCE às duas da manhã. O Diretório Central dos Estudantes tinha as festas mais concorridas, porque a rapaziada daquela época não tinha as baladas de hoje, então a forma dos rapazes e as moças se encontrarem era ali. E eu lá entusiasmado tocando às duas horas da manhã na orquestra do Castilho: “Desce”. Desci e eles ligaram pro meu pai às duas e meia da manhã. Meu pai falou comigo assim: “Vou te fazer uma pergunta: você quer ser músico mesmo?”. “Quero.” “Então vou te emancipar amanhã” – e me emancipou aos 16 anos. Depois, o cara chegava e eu só mostrava o documento, foi o meu troco. A primeira vez que ele veio – o juizado vinha correndo para tirar menores das festas, mas eu estava trabalhando, não estava bebendo nem nada – eu falei: “Nunca mais você me procure, olha isso aqui, ó”. Aí acabou, nunca mais tive problema. Isso também me trouxe uma responsabilidade muito grande, porque eu defini a minha vida com 16 anos.

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Pontos Músicos

Aí comecei a tocar com todo mundo. Nos encontrávamos no Ponto dos Músicos, que era ali na Afonso Pena, em frente à Sapataria Americana e ali a gente ficava. E as pessoas, os maestros que tinham as festas na mão, Delê, Castilho, Djalma Pimenta, todo mundo ia ao Ponto dos Músicos para contratar os músicos e se formavam os conjuntos-surpresa. Porque um chegava para o outro: “Vai tocar onde?”. “No Minas Tênis, de terno e tudo”, “Uai, mas você também?”. Não tinha ensaio, não tinha nada, chegava ia tocar. Tinha um baterista, um baixista, eu fazia acordeom, o Chiquito Braga na guitarra e a gente começava a tocar. “Que música que vai?” “É isso, é aquilo, é aquilo outro” e vamos embora… Nessa época, a gente tocava muita música americana, os standards americanos: Blue Moon, Over the Rainbow, Tenderly, Stardust. Nas músicas brasileiras, estava começando a transição daquela música mais de paixão para aquela coisa da bossa nova, com o Johnny Alf fazendo coisa já em 1959, aquela coisa toda, e a gente ligado nisso.

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Paulo Horta

Eu tinha um amigo com quem toquei muito tempo junto, o Paulo Horta, irmão do Toninho Horta. A gente ia pra casa do Paulinho pra escutar as coisas que ele recebia dos Estados Unidos. Ele tinha um pessoal amigo lá e a gente tocava algumas músicas que na época eram novidade. Com esse negócio de orquestra era um repertório mais pesado, as orquestras tocavam muita coisa da Orquestra Tabajara, Severino Araújo, e a gente começou com esse negócio de grupos menores. Fui tocar com o Paulinho Horta em uma boate chamada Holiday, que ficava ali na Avenida Amazonas, perto do colégio Pio XII, no grupo do Rui Carneiro. Éramos eu no acordeom e vibrafone, Rui Carneiro no piano, Bié Prata na bateria, Paulinho Horta no contrabaixo, Osvaldo na guitarra. Quando a gente se encontrava na casa de alguém, a gente escutava uma música o tempo todo, e então alguém sentava e já começava a tirar a harmonia, ou eu levava o acordeom pra gente começar a tirar pra no sábado já estar tocando a música.

Ponto dos Músicos
Tinha um grupo dos mais jovens cuja conversa era sobre o que estava rolando em termos de jazz, entendeu? Porque a gente já estava ligado naquele som. A gente estava ligado no som do Miles Davis, Stan Getz, John Coltrane, dos grandes pianistas, Dave Brubeck, Ed Garland. Os músicos mais velhos não tinham uma ligação tão forte com esse tipo de música, porque eram músicos de orquestra, chegavam ali, tocavam e tudo certo. Mas tinha alguns músicos de orquestra que também nos influenciaram muito, vários deles, excelentes músicos. Então a gente tinha muita sede de informação e queria saber mais e ter mais notícia do que estava rolando lá fora. Quando veio uma orquestra com o Dizzy Gillespie e o Woody Herman aqui no Cine Brasil foi uma coisa pra gente! A gente saía levitando quando via aquela banda tocando. E era o que a gente queria na época, até começar o lance da Bossa Nova – aí a gente achou um caminho mesmo. Normalmente, os clubes faziam festas quinta, sexta, sábado e domingo. Até a Missa Dançante no Minas, que era concorridíssima, das 10 à uma, ficava assim de gente. Era no horário da missa, nove, 10, 11, e a gente ia. Foi até um bafafá danado porque puseram o nome de Missa Dançante, de manhã, das 10 à uma, e ficava lotado de gente mais jovem. Tocávamos quinta-feira em hora dançante, sexta em festa, sábado em baile, domingo nessa missa e domingo à noite ainda tinha a Colônia Portuguesa, que fazia a hora dançante. O Clube Belo Horizonte também fazia e todos os barzinhos tinham uma música ao vivo, alguém tocando, aquela coisa toda.

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Marilton Borges

Nessa época, eu conheci um grande amigo, um irmão pra mim, que foi o Marilton Borges. Ele morava ali no edifício Levy, isso antes de eu tocar junto com ele. É um cara muito musical, Marilton é um craque, harmoniza muito bem, tem um bom gosto danado. Então a gente se identificou muito, e a gente era muito amigo mesmo. O Márcio Borges e o Lô Borges eram pequenininhos. Eu freqüentava muito a casa do seu Salomão e da dona Maricota, são pessoas por quem tenho um carinho muito grande.

Formação Musical
Clube da Esquina: origem

Nessa época, a gente trocava muita informação a respeito de música. Até o dia em que eu conheci o Milton Nascimento, através do Pacífico Mascarenhas. Nessa época, eu já tinha o meu conjunto, 1960, 1961. Eu tinha um programa na TV Itacolomy no domingo à tarde. Desse grupo participavam o Nivaldo Ornelas, o Afonso Maluf, o Ildeu Soares, o Celinho do Trompete, o Helvius Vilela, que é outro campeão, depois entrou o Wagner Tiso. E o Pacífico falou assim comigo: “Olha, tem um cara cantando lá no Maleta, num bar chamado Oxalá, vamos dar um pulo lá pra você ver”. Eu cheguei lá e era o Milton com o violão, magrinho. Ele acabou de tocar, veio na nossa mesa, o Pacífico apresentou e já no outro domingo ele estava cantando com a gente na televisão. Aí trabalhamos juntos por dois anos, ele era o crooner do nosso conjunto. O Wagner Tiso veio depois e o Milton foi embora na época do Festival Internacional da Canção, mas a gente trabalhou esse tempo. Foi um tempo muito bom porque todos nós estávamos interessados em fazer música e com a bossa nova nós achamos o caminho, que eram grupos pequenos, não tinha grandes orquestras. Então você tinha a oportunidade de tocar em vários lugares aqui em Belo Horizonte, tinha Uma Noite de Bossa Nova no Iate, tinha os festivais de jazz e bossa nova no Instituto de Educação e na Secretaria de Saúde e Assistência, onde hoje é o Minas Centro. Ficava lotado. Vinham músicos do Rio de Janeiro pra cá pra tocar com a gente. Foi uma época de efervescência musical como eu nunca vi, isso no começo dos anos 60. Pra mim foi uma época de ouro, porque eu convivi e toquei com esse pessoal todo, Helvius Vilela, Nivaldo Ornelas, Wagner Tiso, Milton Nascimento, Pascoal Meireles, Paulinho Braga, Chiquito Braga, que pra mim é o pai dos guitarristas todos no Brasil, um cara que já fazia harmonias fantásticas em 1958 – Chiquito está lá no Rio. São tantas pessoas que passaram pela minha vida e que me influenciaram, que me ajudaram a ser um músico, e essas influências foram maravilhosas na minha vida.

Instrumentos
Eu sou autodidata. Eu comecei com o acordeom e depois passei para o vibrafone que eu achei lá na boate que a gente tocava. Tinha lá no sótão da boate um vibrafone parado. Desci, arrumei ele todo, peguei, me senti muito à vontade com o instrumento e comecei a tocar. Depois disso, o Rui Carneiro faltou, eu sentei no piano, toquei e aí comecei e fui embora. Depois peguei a flauta. Mas na verdade, por eu ter entrado muito cedo na música, a coisa foi se atropelando, mas eu gostaria de ter estudado. Pra sobreviver, ajudava minha família também. Eu não tinha muito tempo porque eu tocava na Camponesa. Da Camponesa eu ia pra boate, tocava até as quatro horas da manhã, descia a Avenida Amazonas a pé, pegava o bonde ali perto da Praça 7, ia embora para Santa Efigênia e chegava em casa as cinco e meia, seis horas da manhã, dormia até mais ou menos duas horas da tarde, acordava, almoçava e às sete horas estava tocando outra vez. Então foi uma época de muita música, mas tinha um bocado de cansaço também.

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Belo Horizonte / Rio de Janeiro / Florianópolis

Em 1964 e 1965, foi uma debandada geral dos músicos da cidade. Os únicos que ficaram foram eu e Marilton, não deixávamos apagar a luz do aeroporto. (risos) Porque foram embora Helvius, Milton, Wagner, Pascoal Meireles, Paulinho Braga, Tibério Gaspar, praticamente todos. Ficamos eu e Marilton aqui, resistindo. Aí o Marilton foi pro Rio e cantou lá em um conjunto chamado a Turma da Pilantragem, do Nonato Buzar, e Marilton fez um trabalho legal, mas depois aconteceu com o Marilton o que já aconteceu comigo duas vezes. Belo Horizonte para mim é um lugar mágico. Eu fui pro Rio e fique no Rio um ano e pouco e voltei, voltei porque eu gostava demais disso aqui, voltei porque eu estava com família aqui e tudo. E depois, em 1992, eu fui pro Rio a convite de um amigo meu que trabalha em um estúdio lá, pra fazer trilhas para comercial. Fiquei no Rio dois anos e tive um convite para ir para Florianópolis fazer a trilha de um filme que estava sendo realizado em Santa Catarina, contando a vida da Madre Paulina, a primeira santa brasileira. Fui pra lá e me apaixonei pela cidade, Florianópolis era o Rio dos anos 50. Pequeninho, mas um lugar lindo, maravilhoso. E a partir desse trabalho apareceram outros e eu fui ficando – quando notei, fazia 10 anos que estava lá. A saudade de Belo Horizonte era imensa, eu sempre vinha aqui pra fazer um show, e em 2003 essa coisa de querer voltar ficou muito forte. Em 2003, eu me apresentei aqui 12 vezes e no último dia em que eu me apresentei, eu fui para Ouro Preto e falei: “Meu lugar é aqui”. Resolvi minha vida em Florianópolis e voltei. Não me arrependo um segundo de ter feito isso porque foi aqui que eu consegui praticamente tudo na minha vida, foi aqui que as coisas começaram e eu acredito que é aqui que elas vão acabar.

Clube da Esquina: origem
Eu morava em Santa Efigênia e o Marilton em Santa Tereza, não era tão longe, então a gente se encontrava, ou eu me encontrava com ele na casa dele – e aquela casa pra mim é uma das casas mais musicais do planeta, impressionante. Essa família Borges é impressionante, todo mundo mexe com artes, mexe com música, o pai e a mãe do Marilton são pessoas fantásticas! É uma família muito bonita. Eu freqüentava, mas não fazia parte do Clube da Esquina. Eu era amigo deles, mas tinha um trabalho diferente desse trabalho que eles estavam começando, desse movimento que marcou tanto. Hoje não é um Clube da Esquina, é o Clube da Esquina de todos os lugares do mundo, não tem lugar definido, não é em Santa Tereza, pode ser em Nova York, pode ser em Tóquio, pode ser em Osaka, Estocolmo, pode ser em qualquer lugar. Porque a música que foi feita naquela época ficou e ficou mesmo. Foi a minha amizade com o Marilton que me proporcionou conhecer o resto do pessoal da família, de conhecer o Lô pequeno ainda, de conhecer o Telo, de conhecer o Marcinho, de conhecer a turma toda. Eu sabia o que eles estavam fazendo, eu conhecia o trabalho deles. Mas tanto eu quanto o Marilton tínhamos um trabalho diferente, a gente tocava na noite e os meninos não, eles tocavam mais pra eles mesmo e mais tarde é que começaram a fazer show, essas coisas todas. Eu e Marilton já estávamos participando de uma outra parada que era de tocar em bar, em baile, fazer essas coisas.

Lô Borges
Eu gostava muito, principalmente das coisas do Lô. O que eu vou falar aqui não é uma comparação, mas eu acho o Lô o Paul McCartney do Clube da Esquina. É o cara que tem o coração, a musica dele é muito forte, muito bonita, muito bem feita. Tanto é que o Tom Jobim era apaixonado pelas coisas do Lô e olha que o Jobim é o maior de todos. Jobim é o maior compositor do planeta neste século (Nota: no século passado) e vai ser, ninguém vai chegar junto, um dos maiores. Ontem mesmo eu estava vendo a entrevista do Edu Lobo e o Edu falou exatamente isto: que Jobim é um compositor que vai ser dificílimo alguém chegar perto. E, então, pro Jobim gostar das coisas que o Lô fazia é porque o Lô tocou fundo no coração e na sensibilidade dele.

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Avaliação

Então eu gosto imensamente das coisas que o Lô faz. Lógico que nós temos o Beto Guedes, esse pessoal todo do Clube que sempre fez coisa de muita qualidade e deram uma mudada na página da música popular brasileira, mudou como a bossa nova mudou, como as letras da bossa nova mudaram. Não eram mais aquelas coisas do cara ficar bêbado no bar lembrando da mulher amada, era uma coisa mais leve, mais fina, mais sofisticada. E as letras do Márcio Borges, do pessoal todo que participou do Clube, são letras também com um conteúdo fantástico. Então o Clube pra mim tem um valor muito grande nesse sentido. É outra coisa que a música brasileira fez, desse país que é o país mais criativo do mundo, desse país que tem a melhor música do mundo e que às vezes o próprio brasileiro renega, tem vergonha da própria cultura. Eu acho que a transformação foi melódica, harmônica e literária, feita por meninos – porque eles eram meninos. Eles estavam enxergando a ótica e a forma por um prisma, uma visão totalmente diferente. Tinha a coisa da Jovem Guarda e tudo, mas a sofisticação das letras, das melodias e das harmonias que os integrantes do Clube da Esquina faziam estava levando a música para um outro caminho e influenciando outros músicos que estavam começando naquela época a seguir um caminho mais elaborado e não seguir uma coisinha qualquer que eles chamavam de iê-iê-iê, nada disso. Por exemplo, o “Trem Azul” do Lô, no “Clube da Esquina 2”. Pega os discos daquela época e compara com o que foi feito naquela época, às vezes por outros artistas, e você vai ver a diferença brutal de qualidade. Foi uma contribuição de melhora da música brasileira. E pra mim, a alegria maior, sem nenhum bairrismo, é saber que isso aconteceu aqui em Belo Horizonte, que aconteceu em Minas Gerais. (risos) Sem nenhum bairrismo. Estou aberto a toda e qualquer tendência musical, adoro Lenini.

Turnê
Europa / Nova York

A prefeitura de Nice, na França, fez uma semana de música brasileira, de cultura brasileira, em 1984, na França, lá em Nice, e vários artistas participaram, Milton, Gil, Alceu Valença, Paulinho da Viola, Dona Ivone Lara, Teka Calazans, e o único grupo de música instrumental a ir foi o meu. O Marilton foi comigo, ele fazia o outro teclado e a gente se apresentou não só em Nice, mas em Marbella, Espanha, e depois fomos para Nova York, tocamos duas semanas lá. O Marilton foi comigo também. Nós tínhamos um trabalho de dois teclados, baixo, bateria e foi essa a oportunidade que eu tive de tocar com o Marilton fora do Brasil. Na verdade, o Marilton trazia as músicas do Clube da Esquina e a gente tocava um monte de coisa, mas misturado com bossa nova. Quando a gente se apresentou no Via Brasil, em Nova York – até a Astrud Gilberto e o Fred Cole, irmão do Nat King Cole, estavam lá – a gente tocou bossa nova, tocou “Trem Azul”, eu não lembro todo o repertório que a gente tocou, mas de uma forma ou de outra a gente sempre estava fazendo alguma coisa dos compositores aqui de Belo Horizonte, aqui de Minas.

Paulo Horta / Toninho Horta
O Paulinho tem uma coisa especial. Ele trabalhava na UBC, União Brasileira de Compositores. E o Paulinho, além do baixo, gostava de tocar bateria com vassourinha. Ficava ali puxando alguma coisa de música americana. E depois começou a estudar e a tocar contrabaixo acústico e a gente chegou a fazer várias apresentações, fazendo jam session com o Paulinho no baixo acústico. Eu freqüentava a casa do Paulinho porque ele era um grande amigo e a gente via o Toninho pequeno ainda. O Toninho ficava de antena ligada quando a gente estava reunido ali. Eu levava o acordeom, o Paulinho fazendo baixo, o Chiquito Braga na guitarra e o Toninho de antena ligada na gente. Ele cresceu dentro desse mundo de música. O Paulinho foi um dos grandes músicos com quem eu tive a oportunidade de tocar aqui em Belo Horizonte. Ele era um incentivador de festivais de bossa nova, de tudo o que acontecia aqui. O Paulinho sempre estava à frente dessas coisas todas e é realmente um amigo querido que eu tenho até hoje. Ele foi para outra dimensão, mas estamos aí, firmes. A última vez em que eu me encontrei com o Toninho, eu estava tocando e ele deu uma canja, e eu falei assim: “Essa aqui nós vamos tocar em homenagem ao Paulinho”, e tocamos uma música que ele gostava demais. (silêncio) É isso aí. Conheci o Lô menino. O Marcinho já era mais velho. O Telo Borges também, menino. É gratificante você ver essa meninada crescer e fazer música de tanta qualidade, como é a música que eles fazem.

Ponto dos Músicos
No Ponto dos Músicos, os músicos eram iguais a pardal no fim de tarde. Às quatro e meia, não tinha ninguém em frente à Sapataria Americana, mas às cinco horas vinha aquela revoada igual pardal e lotava. O pessoal tinha que passar no meio da rua, porque não cabia em cima do passeio de tanto músico que tinha. (risos) Parecia passarinho do Pantanal. E na verdade, os cantores daquela época a gente chamava de canário. Então os canários tinham que estar ali junto para ver que tipo de música que a gente ia cantar. Tinha um baterista chamado Violão, uma figura folclórica aqui de Belo Horizonte, que falava assim com os cantores: “Segue cão, segue canário, vai aprender a tocar algum instrumento pra você vir falar comigo”. (risos) Mas a gente sempre teve um respeito muito grande pelos cantores, que são músicos também, e quantos deles são maravilhosos. Mulheres, tinha mulheres que participavam de orquestras de conjuntos. Eu cheguei a tocar com a Clara Nunes, ela tocava na orquestra do Castilho. Maria Marta era uma grande cantora também, Helena Ribeiro, outra grande cantora, mulher do Figo Seco, que era um trompetista maravilho que também já não está mais aí. As mulheres que cantavam naquela época eram realmente grandes cantoras. A Clara Nunes cantou na rádio Inconfidência, cantou em orquestra, cantou em baile e depois virou essa maravilhosa sambista que o Brasil teve. Mas existia um respeito muito grande e acho que elas abriram o caminho para que outras mulheres pudessem fazer isso, porque naquela época existia um pouquinho de machismo sim, aquela coisa de “mulher não vai subir em palco para ficar cantando em orquestra de baile”. Então elas foram precursoras para acabar com a onda dos porcos chauvinistas. A mulher tem direito de fazer o que quiser. Elas iam de vez em quando ao Ponto dos Músicos, não todo dia, mas de vez em quando. Mais no fim de semana, por exemplo, na quinta e sexta-feira, você podia ver algumas delas lá, mas não era uma coisa de toda semana não. De vez em quando iam pra ver com quem iam tocar, pra passar alguma coisa antes. Aí a gente marcava o lugar que ia encontrar e pronto. A gente já tinha uma cantora junto. Na época, já tinha a Sapataria Americana. Não tinha nem um bar naquele lugar (risos), se quisesse beber alguma coisa tinha que ir do outro lado, no Rei do Sanduíche, mas ninguém ia para o lado de lá, todo mundo ficava do lado de cá em pé na calçada das cinco até as sete horas da noite. A gente não tinha contato com quem ia dançar não. E as pessoas ficavam incomodadas, porque o passeio ficava tão lotado que as pessoas tinham que passar pelo meio da rua. Eu não sei quem foi o criador do Ponto. Eu sei que teve um outro lugar que teve o Ponto, mas não deu certo, aí voltaram para a Avenida Afonso Pena outra vez. Eu não sei realmente quem é que determinou: “Aqui que os músicos têm que se encontrar”. Eu acho que algum jaburu veio e pousou e o resto veio atrás. (risos) Quando eu comecei a freqüentar, existia do jeito que era. Hoje não tem mais nada, mas era uma coisa maravilhosa, porque a gente ia para conversar, ver os amigos, pegar um serviço. Também, na época, ver as mulheres bonitas que passavam ali em frente. (risos) Servia de paquera também. Apesar de, naquela época, as meninas não olharem para músico não, porque músico era meio discriminado. Uma coisa que eu acho legal é que na época em que a gente fez o nosso grupo era uma meninada nova, 19, 20 anos. O conjunto Célio Balona era só uma rapaziada nova. Aí nessa época as meninas davam uma olhadinha pra gente, dava até para conversar um pouquinho na hora do descanso. Mas antes não, antes neguinho tocava lá em cima na orquestra e não podia chegar perto não, ninguém vinha. Depois a coisa foi melhorando.

Profissionalização
Existia uma certa coisa de achar que o músico era um cara que vivia na noite, que o músico era vagabundo, que gostava de ficar em boteco tomando cerveja. E não era nada disso, o músico é igual a qualquer um outro profissional, só que o músico tem aquela coisa de poder passar a emoção dele para outras pessoas. O músico é o fio condutor da emoção, ou seja, quando você toca uma música, se você a toca com sentimento, uma ou duas pessoas vão receber aquilo que você mandou e vão mandar de volta essa emoção. Disso vive o músico, dessa troca de emoções. Então eu acredito que o músico, nesse sentido, é um ser privilegiado, porque ele consegue passar para outras pessoas um tipo de emoção a ponto de você tocar uma música e a pessoa chorar, porque ela vai lembrar de alguma coisa na vida dela, algum fato importante, alguma coisa assim. Ou simplesmente a música vai emocionar essa pessoa. Aconteceu isso há pouco tempo, já aconteceu outras vezes, mas há pouco tempo foi muito forte. Eu fiz um especial para a Rede Minas, 20 anos da Rede Minas de Televisão, e eu toquei uma música que eu gosto imensamente chamada “Beatriz”, do Edu e do Chico. Então eu fiz no acordeom, o Clovis Aguiar no piano e o Milton Ramos no baixo acústico. Esse show foi gravado no teatro da Fundação de Educação Artística e tinha uma menina lá em cima que começou a chorar copiosamente. Depois ela veio me falar que aquela música entrou como se fosse uma faca, uma coisa forte. Então eu acho que o mérito do músico é o de ser o porta-voz da emoção. Eu acho que a gente sente assim: eu estou cumprindo a minha parte nessa encarnação, eu estou conseguindo fazer alguém feliz, eu estou conseguindo mexer com a alma daquela pessoa, eu acredito nisso. Uma das funções do músico é essa, de ser o condutor disso, e é gratificante. Por mais que a vida de músico seja muito difícil – porque às vezes as pessoas acham que é muito fácil: “Ah, esse aí leva a vida na flauta”. Tocar, fazer show é uma coisa mágica, mas no dia-a-dia o músico tem que se dedicar muito. Eu casei com a música, desde os 16 anos eu sou casado – desde os 16 não, desde que eu me entendo como músico, eu casei com a música –, a música anda de braço dado comigo o tempo todo. Então as mulheres que eu amei na minha vida, que eu amo, entendem isso, que o músico casa com a música, o músico que realmente quer viver de música, que quer fazer daquilo a sua vida tem que abraçar e ficar. Ou é ou não é. Igual a quando você encontra uma mulher que entende isso e que participa disso, aí é maravilhoso.

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Filhos

Eu já tive dois casamentos. Tenho dois filhos do meu primeiro casamento, um que já tocou bateria e hoje mexe com consultoria de marketing e outro que trabalha com internet. E do meu segundo casamento eu tenho uma filha de 17 anos que mora em Florianópolis e atualmente eu estou vivendo uma experiência nova, muito bonita.

Clube da Esquina
A música não tem meias verdades e a música que fica é aquela que é cheia de verdades. E a músicas dos meninos permanecem até hoje. Quantas músicas de mentira já foram empurradas goela abaixo de todos nós? Um monte. Você pode enganar poucos por pouco tempo, mas a muitos por muito tempo ninguém faz. Quando você faz uma coisa que é verdadeira, você pode ter certeza que ela vai ficar para o resto da vida. É igual marcar boi a ferro, fica. O Clube da Esquina é, a bossa nova é, a música brasileira é. As mentiras que foram feitas dentro desse universo de música estão todas no lixo, todas. Tantos pseudo-cantores, pseudo-compositores que a mídia tentou jogar na nossa cara, tentou enfiar na nossa goela que hoje estão lá apodrecendo porque não tem conteúdo. O que tem conteúdo fica, o que não tem vai pra lata de lixo mais cedo ou mais tarde. Eu acho que o primeiro “Clube da Esquina” é um ato de rebeldia, daquela meninada não aceitar a música que estava ouvindo. E isso é maravilhoso, tem que contestar, você não pode se acostumar, você não pode se contentar com as coisas, tem que contestar, tem que ter outras pessoa criando. Se não fosse assim, nós estaríamos até hoje com a roda de pedra. Outras pessoas sonharam, outras pessoas criaram, e é exatamente isso que o Marcinho Borges falou no livro dele, “Os Sonhos Não Envelhecem”. Você tem que criar sempre, você tem que sonhar sempre, tem que estar sempre atento ao que está rolando. Esse movimento deles foi exatamente isso, mostrar que tinha uma outra coisa por aí a ser feita com a música, e mostraram com uma capacidade fantástica. Está aí, ela está aí até hoje e não vai acabar nunca, porque músicas vão ser gravadas eternamente. Esse movimento ficou marcado mesmo. A música brasileira tem uma série de coisas, tem a Tropicália, tem a bossa nova, e o Clube da Esquina é uma marca forte que a música brasileira tem, junto com a bossa nova, na minha modesta opinião.

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Clube da Esquina

Eu não estava perto nessa época em que o Milton se aproximou do Lô, eu fui tomar conhecimento disso depois, com aquele primeiro disco que eles gravaram. O Marilton foi quem me mostrou. É impressionante isso. Eu falei: “Marilton, esses caras são danados de levados, olha o que esses caras estão fazendo”. E dali foi uma reação em cadeia. Quando saiu o disco, pá, acabou. Eu acredito que em todos os shows que o Lô vá fazer, ele vai ter que cantar aquelas músicas, porque elas ficam. Quando os caras fizeram, fizeram muito bem feito, eles mandaram muito bem, sabiam o que estavam fazendo. Tanto é que você vê como foi a junção do Milton com isso tudo aí, com essa meninada. E o Lô, moleque, fazendo aquelas coisas, aí é de se parar e pensar um pouquinho, não é?

Projetos futuros
Naquela época, quando eu não estava tocando ia para a casa de um ou de outro para fazer alguma coisa diferente. Eu depois perdi o contato com o pessoal todo, porque eu também fui embora. O Lô há pouco tempo eu vi. Estou até feliz, quero ver o que ele vai achar depois. Eu estou trabalhando em dois projetos, posso falar sobre isso? Um é um projeto chamado Brasil de Antônia Zechetti – dois pianos, um baixo acústico e acordeom, que eu faço também. Porque a gente está revisitando a obra de muitos compositores, inclusive tem coisa do Beto e do Lô. Isso é com o Clóvis Aguiar e com o Milton Ramos. E tem um projeto que é a menina dos olhos para mim, que eu já estou dentro já faz algum tempo, que se chama BR Groove. É uma banda de música eletrônica que eu comecei a fazer em Florianópolis. O embrião foi feito em Florianópolis e depois que voltei para Belo Horizonte eu fiz. Hoje eu tenho essa banda, nós vamos fazer um show no Palácio das Artes dias 19 e 20 agora, na sala João Ceschiatti. É um projeto chamado Música Independente, no Palácio das Artes, da rádio Inconfidência, TV Minas e Secretaria Estadual de Cultura. São músicos jovens que estão tocando comigo, o DJ tem 23 anos. É um DJ, um guitarrista, um tecladista, um baixista, eu e alguns convidados. Nesse lance eu coloco música eletrônica e também instrumentos acústicos, tem viola caipira de 10 cordas, tem acordeom, tem percussão e a gente fez um arranjo pro “Trem Azul”, do Lô, em drum’n’bass. Ele vai gostar disso, eu até vou ligar pra ele e perguntar, vamos ver.

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Clube da Esquina

Esse projeto já nasceu campeão. Eu acredito que no Brasil deveriam ser feitas mais coisas em relação à música brasileira, como esse projeto que vocês estão fazendo do Museu do Clube da Esquina. Porque isso vai preservar essa memória para as futuras gerações que não viveram aquela época, que não sabiam o que era feito na música brasileira, saber como esses meninos mudaram essa conversa toda. Então eu acho da maior validade, da maior grandeza, vocês estarem se preocupando com isso. Quem dera se houvesse mais pessoas como vocês fazendo isso. Um abraço forte! Eu gostaria que estivessem fazendo isso em outras áreas também. Eu há pouco tempo vi um show da Velha Guarda da Mangueira que eu chorei. O pessoal com 70, 80 anos ali no palco, de bengala, mostrando o que era o samba, o que é a coisa brasileira, que vai se perdendo, que vai sumindo, porque na verdade nós não temos muita memória. E nesse projeto, por estar sendo feito para internet, você vai ter a oportunidade de ter aquilo ali sempre, um guia de informação, você tem disponível tudo o que você precisa de informação. Quantas coisas boas da música brasileira foram perdidas ao longo do tempo porque ninguém teve o cuidado de pegar, preservar e falar: “Não, isso aqui não pode sumir, isso é um tesouro”. A gente não sabe quantas gerações vão aproveitar isso, então só posso parabenizar, só posso elogiar, bater palmas. Tomara que esse exemplo de vocês sirva para muito mais gente fazer mais coisa. Só isso. Um beijo grande por tudo o que vocês estão fazendo.

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Uma mensagem para Célio Balona

  1. Sonia Frei disse:

    Gente! Que coisa mais encantadora, esse jeito tranquilo e simples de falar, passou a baita revolução vivida por você, naquele tempo, a criatividade e a grandeza daquela época! Pois, olhe, estou muito feliz de ter descoberto o Clube! Histórias assim, vidas assim, não deviam estar no horário nobre da televisão, não, hein? Grande beijo a todos os que inventaram este sitio e o Museu do Clube e tudo o que está aqui. Alto nível. ASS.: Sonia Frei, clarinetista