Celso Adolfo

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IDENTIFICAÇÃO
Nome / Local e Data de Nascimento

Meu nome é Celso Adolfo Marques, nascido em São Domingos do Prata em 09 de setembro de 1952.

FAMÍLIA
Pais e Irmãos

Minha mãe é Maria Gonçalves Marques e meu pai, José dos Reis Marques. Eu tenho mais oito irmãos (risos), é uma galera.

PESSOAS
Milton Nascimento

O meu contato pessoal com o Milton Nascimento, o primeiro deles, foi num show que ele fez aqui no Palácio das Artes, no final dos anos 70. Tinha Wagner Tiso e Toninho Horta. Essa turma toda estava lá nessa apresentação, acho que o Nivaldo Ornelas também estava. E dali a turma foi pra Rua Vitório Marsola, porque lá tinha um bar que, se eu não me engano, era do Tadeu, que posteriormente veio ser dono da Cervejaria Brasil. Acho que ali tinha um QG desta turma, e essa turma foi pra lá. E terminado o show, quem está começando, quem fica a fim de saber o que está acontecendo descobre tudo, então o Milton Nascimento não tinha como se esconder em Belo Horizonte não. Eu sei que no final das contas eu descobri que ele e a turma estavam indo pra lá e fui atrás. Eu nem sabia onde era o bar, tinha pouco tempo que morava em Belo Horizonte, cheguei aqui em 1969, voltei pra São Domingos e depois voltei de novo em 1970. Então eu não conhecia muito a cidade não, mas eu ficava zanzando pra todo lado. Show, música, Clube da Esquina, aí baixei lá. Acabei descobrindo onde era o bar, Rua Vitório Marsola, e quando eu cheguei no bar, duro, sem dinheiro, sem ter como entrar e cheio de respeito pela situação, Milton Nascimento, Wagner, aquela turma toda ali, eu não entrei não, eu fiquei ali fora. Mas qual não foi a minha surpresa? Eles saíram do bar e se assentaram no meio-fio, todos, e o Milton Nascimento sentou ali e alguém entregou o violão pra ele. Ele pegou e tocou um pouquinho, e atendeu o pedido da turma que estava ali em volta dele. Cantou “Travessia”, cantou outras coisas que eram mais conhecidas naquele momento. E aquilo me impressionou muito. Fiquei quietinho no meu canto, eu não conhecia ninguém e fiquei observando o contexto da turma e fiquei pensando “Como que deve ser entrar nesse mundo da música?”. O que é que era aquele troço todo ali? Fiquei com aquilo guardado. Muito tempo depois, não sei exatamente quantos anos, mas cerca de uns cinco anos depois, ele veio passar uma temporada em Belo Horizonte, em 1980 se eu não me engano. Eu estava fazendo um show em 1982 para 1983, um show chamado Coração Brasileiro no teatro Clara Nunes, que antigamente se chamava Imprensa Oficial, na Rua Rio de Janeiro. Então, fazendo esse show, o Tavinho Bretas levou o Milton Nascimento pra me assistir porque ele estava interessado em conhecer a turma daqui. Aí ele assistiu e eu não sabia que ele estava na platéia. Terminado o espetáculo, ele foi ao camarim, se apresentou, ficou na fila, assim meio caladão, entre tímido e observador de tudo que estava acontecendo. Daí nós trocamos endereços e a partir dali foi que eu consegui fazer tudo que eu faço até hoje na música profissionalmente, por causa desse encontro e por causa das portas que o Milton Nascimento abriu pra mim.

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Clube da Esquina

Agora, antes de tudo isso, o que ficou no meu imaginário e no imaginário de todo mundo foi aquela história do Clube da Esquina, aquilo ficou muito forte na nossa vida. Eu me lembro muito bem de 1972, quando o “Clube da Esquina” foi lançado. Eu morava no edifício Maleta, ali na Augusto de Lima, e encontrei com o Murilo Antunes circulando por ali e ficamos conversando. Eu, recém-chegado do interior e um pouco mais novo do que a turma e muito ressabiado, porém muito atento, muito atento a tudo, e do outro lado da avenida vinha descendo o Beto Guedes, eu me lembro perfeitamente da imagem do Beto, bem mais novo, evidentemente, todos nós muito mais novos, o Beto com o cabelo curtinho. O Murilo parou, cumprimentou o Beto e me apresentou. Foi um encontro bacana, cordial. E eu fiquei sempre com aquele negócio: “Cadê o resto do pessoal do Clube da Esquina?”. Eu demorei bastante tempo para conhecer as peças desse universo musical. Mas ali, eu fiquei com aquele negócio. Eu estudava na Escola Técnica Federal, hoje CEFET, e nós montamos uma peça teatral e fomos para Aracaju gravar esta peça e eu era quem tinha feito a trilha pra essa peça. Quando eu cheguei a Aracaju qual não foi a minha surpresa? Só se falava de Clube da Esquina e os jornalistas que foram nos assistir no teatro – era um teatro também da Escola Técnica Federal de Sergipe e outras personalidades também lá de Aracaju, que ainda era uma cidade muito pequena em vista do que é hoje –, todos eles ficaram em volta da gente, porque a gente era a atração da capital de Minas Gerais e eles queriam saber o que acontecia com o Clube da Esquina, do que se tratava isso. Eu felizmente já tinha ouvido aquele disco muitas vezes, milhares de vezes, então eu estava com tudo muito fresquinho na memória e pude falar pelo menos as minhas impressões de mineiro a respeito daquilo tudo para aquela turma toda de Aracaju. Então o cara falou comigo: “Acho que vocês não sabem a importância que isso tem para o Brasil, pra nós aqui em Sergipe, olha onde nós estamos e a importância desse disco”. Aí foi a primeira vez que eu estive presente no famoso divisor de águas. Eu vi o disco chegar e ser lançado e presenciei situações em que se falava que a música brasileira tinha isso, aquilo e aquilo outro e tinha, a partir de agora, as composições do Clube da Esquina. Os músicos de lá ficaram muito impressionados com o universo harmônico e melódico de que são capazes os compositores do Clube da Esquina. Essa é a marca definitiva que ficou em tudo que se fala de música brasileira até o momento. É um negócio muito bonito, muito criativo e muito profundo e é muito genial a capacidade de composição dessa turma que fez essa parte da história, é um capitulo muito especial e muito à parte.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Primeira Gravação: Coração Brasileiro

O “Coração Brasileiro” foi, naquela oportunidade do meu segundo encontro com o Milton Nascimento, foi definitivo. Quando eu fiz o show do “Coração Brasileiro” e o Milton me convidou a ir à casa dele na Rua Paulo Afonso, aqui em Belo Horizonte, ele falou: “Eu quero gravar uma música sua e eu queria que você cantasse pra mim novamente algumas delas”. Aí ele escolheu “Coração Brasileiro”. Ainda me lembro de ter perguntado pra ele: “Quem vai tocar o violão?”. O meu cuidado com o negócio do violão era o fato de que meu violão tinha uma afinação especial, era uma afinação de viola caipira que eu fiz uma adaptação para o violão e tem uma execução de mão direita também especial para aquela música. Ele falou assim: “Você é quem vai tocar”. Daí eu pensei: “Nossa, agora o bicho pegou”, porque eu tinha entrado em estúdio uma vez ou outra sem o menor profissionalismo, sem a menor preocupação com alguma coisa tão séria. Aí chegou o momento de ir para o estúdio acompanhar o Milton Nascimento cantando “Coração Brasileiro”. Ele gravou no disco “Anima” e falou assim: “Eu agora vou produzir o seu disco”. Aí ele me chamou várias vezes aqui na casa dele pra gente escolher repertório, e juntos nós montamos o repertório do “Coração Brasileiro”. Fomos para o Rio e assinamos o contrato na antiga Ariola e o Marcinho Ferreira sempre ali com ele, acompanhando nosso projeto, acompanhando tudo.

Voltar ao topo TRABALHO

Atividade profissional

Quando esse disco foi feito e o Milton gravou “Coração Brasileiro”, eu tive a oportunidade de deixar o serviço público, porque eu era funcionário do DER de Minas Gerais. Isso foi um marco importantíssimo, eu tive condição de pedir demissão. “Eu, Celso Adolfo Marques, matrícula 504772, peço demissão, pananan… pananan… do DER, pananan…pananan…”. Aí eu tive segurança de assumir a carreira profissional na música porque o suporte que o Milton Nascimento tinha me dado naquele momento foi definitivo, afinal de contas foram os primeiros degraus que eu subi nessa escada que não tem fim e são os degraus de alicerce para começar um negócio de verdade.

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Elba Ramalho

Na mesma época, na seqüência, o Milton Nascimento botou meu nome no disco dele. O disco vai para o Brasil inteiro, sei lá quantas mil cópias, todo mundo fica sabendo. Na época, quando ele estava gravando, se dizia: “Milton Nascimento está fazendo disco novo?”. “Ele está gravando o quê, quem é o compositor novo?” aí o trem se espalhava. Então a Elba Ramalho escolheu também a música “Coração Brasileiro”, e no disco seguinte dela, de 1985, se eu não me engano, ela gravou outra música minha, “Azedo e Mascavo”. Eu já estava um pouco mais descolado e fui gravar com ela, com segurança, e com César Camargo Mariano. Esse foi o começo forte. 1983, 1984, 1985, esses três anos foram definitivos pra eu poder botar o pé na estrada mesmo e com o meu próprio repertório, com meu trabalho, com minhas músicas. Porque eu sempre fui assim, eu nunca fui intérprete de coisa alguma a não ser do que eu mesmo fizesse.

PESSOAS
Milton Nascimento / Beto Guedes / Paulinho da Viola

Olha, a minha convivência com a turma do Clube da Esquina sempre foi muito respeitosa e sempre com certa distância. Eu nunca me sentei muito com essas figuras, mas já nos encontramos muitas vezes, é claro. Mas eu tenho a honra de ter essa convivência com Milton Nascimento, que foi fundamental. Mas eu já ganhei um elogio do Beto Guedes e isso pra mim foi uma das coisas mais importantes que eu pude ter ouvido na minha vida aqui. Porque o Beto é aquela figura que todo mundo aplica certa definição da maneira de ser e eu também sempre achei o Beto assim, sei lá, e um belo dia o Beto me assistiu no Cabaré Mineiro. Eu nunca tinha conversado com o Beto assim. Era sempre nessa distância que eu estou falando. Aí o Beto me fez um elogio que foi um dos três ou quatro elogios que eu tive que foram muito importantes na minha carreira. O primeiro foi de Paulinho da Viola em 1976, o segundo foi de Milton Nascimento em 1983, depois teve um de uma figura da imprensa, Tarso de Souza, no Rio de Janeiro, e depois esse do Beto Guedes, que é um elogio que eu acho muito importante. Todo mundo pode taxar o Beto de monte de coisa, de maluco, de estranho, mas uma coisa ele tem: uma inteligência musical muito especial, então, receber um elogio de uma figura dessa é fundamental. Eu acho que isso é uma coisa pitoresca, porque eu não vejo o Beto Guedes se referindo às pessoas assim normalmente. Muito estranho, ele não se refere, só fica na dele.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina /Nelson Motta

As histórias têm que ser contadas, têm que ser eternizadas, têm que ser preservadas. Eu tive um encontro com o Nelson Motta que nossa conversa ficou no limite da impaciência da minha parte. Porque ele falava da história da bossa nova, falava da história de não sei o quê, falava da história do músico tal no Rio, falava da história de não sei o que do Rio e as histórias todas só eram as histórias do Rio de Janeiro e dos músicos do Rio de Janeiro, ninguém mais tinha história no Brasil, aí eu fiquei pensando e teve um momento que eu joguei uma pitada na coisa, porque às vezes pega mal isso, mas eu joguei uma pitadinha assim e disse: “Pois é, rapaz, será que não está na hora de alguém contar a história de Minas Gerais, partindo do símbolo maior que é o Clube da Esquina? Isso poderia ter acontecido com esse volume de imprensa, porque a história tem, inclusive, os que não têm fama, os que têm discos gravados mas vendem pouco, juntar tudo, porque tem muita qualidade nesse meio. Quem sabe isso não poderia acontecer, hein?”. Eu falei isso pra ele, falei de frente assim, ele desconversou, o assunto não rende, não adianta, o assunto não rende se chegar nisso. Eu não sei, eu não entendo, é uma relação esquisita, eu não entendo por que isso acontece e isso nos leva a esse papel que até parece que é um pouco bobo, de ficar querendo reconhecimento, de ficar querendo botar o nosso reconhecimento na boca do outro, a gente não precisa mais disso não, vamos contar nossa história. Já estamos contando agora. É fundamental contar nossa história.

PESSOAS
Márcio Borges

E esse fato aconteceu antes do Marcinho escrever o livro “Os Sonhos não Envelhecem”. O Tavinho Bretas foi quem me deu esse livro de presente e eu falei assim: “Opa, começaram a contar a história”. E o Marcinho, como integrante do Clube da Esquina, sujeito que escreve e que tudo mais, que pensa e que lê, é uma figura que tem um peso especial neste contexto do Clube da Esquina. Pelo lado intelectual dele é um peso especial, o do Marcinho Borges.

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Avaliação

Bem, eu vim fazendo a minha história musical, ela não dependeria da existência do Clube da Esquina, mas acontece que, porque existiu o Clube da Esquina, várias outras coisas puderam existir. Muitas histórias poderiam ter sido feitas independentemente de haverem outras, mas a gente pode guardar muitos fatos que vieram a acontecer pelo falto de ter existido o Clube da Esquina. Porque projetar um grupo de compositores, como foi o caso do Clube da Esquina, projetar uma idéia musical de riqueza reconhecida nos quatro cantos do mundo, isso é inegável, projetar isso é um negócio muito sério. Então eu vim na seqüência dos fatos acontecendo. Por exemplo, eu sou compositor, vim fazendo músicas o tempo todo, com minha própria cara, mas eu tinha algumas figuras que eram minhas referências, Chico Buarque sempre foi uma grande referência pra mim de tudo. Qual outra referência que poderia estar nesse nível? Milton Nascimento e seus parceiros e esse trabalho. Depois veio o Lô fazendo o seu trabalho solo, ele e seus parceiros. Depois tem o Beto. Esse negócio todo, vem o Toninho Horta, pelo amor de Deus, o Toninho Horta. Esse negócio todo, a ação deles, o fato desta turma estar na estrada trabalhando, faz você pensar assim: “Poxa, esses caras são da minha terra, eu também vou nessa”. E fui. Eu guardo esta relação de comportamento, de viajem musical, sabe? O Paulo Leminski tem até uma estrofezinha dele genial que fala assim: “Isso de a gente querer ser exatamente o que a gente é ainda vai nos levar além”. Somos nós, compositores, que fazemos nosso trabalho do jeito que ele é feito. Isso é o Clube da Esquina, que fez tudo que foi feito, pessoas que tiveram na sua integridade, na sua maneira de ser o seu fio da meada. E essas coisas estão nos levando além.
E em especial pra cada figura dessas que é integrante do Clube da Esquina devemos render homenagens constantemente, diariamente, porque essa é uma página da história que foi escrita e que vem sendo escrita na música brasileira, deixando respingos de muita inteligência musical pra muita gente no mundo inteiro reparar, se tocar e ver que a música é um negócio muito amplo e muito bacana.

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Uma mensagem para Celso Adolfo

  1. marco antonio silami disse:

    Celso Adolfo vc é fodão! Vc começou Clube da Esquina, no Prata, no final da decada de 60 e inicio dos 70. E, continua. Agora vc esta no Museu do Clube! Valeu!!!!!!!!!!!