Chico Amaral

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO/FAMÍLIA

Nome/Local e data de nascimento/Pais

Meu nome é Francisco Eduardo Fagundes Amaral. Eu nasci em Belo Horizonte em 1957, sou filho de mãe mineira, nascida em Belo Horizonte. Ela deve ter sido uma das primeiras pessoas na cidade. E filha de gaúchos, quero dizer, eu sou metade gaúcho metade mineiro. E meu pai é do interior, ele é um interiorano típico, é advogado e nasceu em Tiros que é uma cidade muito pacata (risos).

FAMÍLIA
Pais

Você sabe que é uma epopéia isso. Eu já procurei saber por que a família da minha mãe veio pra Minas, mas eu não tenho muitos dados não. É, assim por alto, eles vieram na maré do getulismo, do Getúlio Vargas, que era gaúcho de Passo Fundo, agora eu não sei, acho que é Passo Fundo. E ele veio é… meus tios vieram assim, eram cabos eleitorais, simpatizantes do Getúlio. Meu avô veio ocupar um cargo administrativo aqui em Belo Horizonte. Ele era engenheiro agrônomo, chamado Cecílio Fagundes, um nome bem gaúcho, eu sou Fagundes Amaral. Então esses gaúchos vieram do interior, dos rincões mesmo da fronteira com o Uruguai, com a Argentina e tal. Eu depois, mais tarde na minha vida eu pude visitar alguns lugares como Uruguaiana e Santana do Livramento. Até o Bituca uma vez falou que quase foi parar em Santana do Livramento, que o pai dele, o Seu Zino ganhou um cargo lá e foi nomeado pra não sei o que lá, e o Bituca quase que foi parar em Livramento, que é terra de parentes meus, tios e tudo.

FAMÍLIA
Ligação com música

A minha mãe gosta muito de cantar e tocar piano, acordeom, essas coisas. Ela cantava no estilo da Ângela Maria, que também foi uma das musas do Bituca. Minha mãe tinha mesmo aquela pegada da Ângela Maria, o vibrato, afinadíssima. Ela nem gostava muito que eu ficasse cantando, porque eu já era desafinado e aquilo a incomodava um pouco (risos). Primeiro ela me botou numa escola de piano, isso foi uma decisão dela, eu realmente fui marionete. Foi “ah, você vai estudar piano”; “vou estudar piano”. Era uma professora ali no bairro São Pedro, eu tinha uns oito, nove anos, estudei um tempo, um ano apenas e tal. Parei e aí fui pra molecagem, pro futebol e tudo mais. Quando eu fiz 16 anos procurei uma escola de música, mas violão. Fui aprender violão, que foi muito importante, através do violão é que eu fui conhecer música popular mesmo.

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Influências

Tinha os discos. Eu sou de 1957, então em 1964, que é o ano que o Bituca inaugura a parceria dele com o Marcinho Borges, eu tinha sete anos e mais ou menos nessa época comecei a escutar os Beatles, talvez um pouquinho depois até, o Help!, de 1965, e até chegar no Brasil, isso deve ter sido 1966. Mas esses discos que tinha na casa dos meus pais, foram importantes, como pra todo mundo. Eu me lembro de Luiz Gonzaga, Beatles e Roberto Carlos no início, principalmente estes. Jovem Guarda, todos os discos da Jovem Guarda eram um sucesso tremendo, aquilo passava na televisão. A televisão já era, quero dizer, ainda era uma grande novidade, a coisa de maior apelo; imagina naquela época a televisão surgindo. Era uma coisa obrigatória, fascinante, como de certa forma ainda é. E, te falei dos Beatles, do Luiz Gonzaga e do Roberto e com uma mistureba, uma miscelânea de coisas, mas não era muito mais do que isso não, pelo menos pra mim, no meu caso, era basicamente isso. E foi legal que Beatles foi uma coisa que eu fui ouvindo, e era cada vez mais, durou muito tempo. Comecei desde criança e aí fui, eu demorei a largar os Beatles. Mas eu lembro que Help! era o primeiro disco, sei aquelas músicas todas tal, aí depois na Fafich (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas) eu fiz psicologia. Estava falando para a Priscila, eu tinha um colega que tocava Beatles à beça, tocava tudo de Beatles e eu já estava estudando violão, porque eu voltei aos 16 anos pro instrumento, pra estudar um instrumento. E eu, vendo ele tocar Beatles, aprendi muito e me lembro até de uma música do Help!, “The Night Before”. Eu via ele tocando e tinha uma cadência que era diferente pra mim, porque os Beatles eles trouxeram isso mesmo, algumas cadências da música pop que não eram tradicionais aqui no Brasil, porque elas têm a ver com a história da música americana e tal, com Blues. Então, “The Night Before” é um exemplo que tinha isso e eu olhei e falei “caramba é assim que fazem, então, é diferente mesmo e tal”. Mas vamos seguir…

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação Musical: samba e choro

Foi um pouco depois, uns dois anos depois, quando eu, na verdade, vamos pontuar bem… Quando eu voltei a estudar música eu tinha uns 16 anos, mas esse interesse pelo Beatles foi antes, foi devido aos discos, então foi antes. Eu não tocava, não tirava Beatles nem nada. Voltei a estudar violão, aí quando eu peguei um pouco de prática, que eu comecei a tirar as coisas. Quer dizer, muito tarde, eu não fui aquela criança que tocava música com 10 anos, não. Eu fui fazer isso na adolescência. Eu sempre achei isso muito tarde e paguei um preço por isso, você custa a desenvolver, eu custei a desenvolver na música, aprender música mesmo e tal.
O choro foi mais ou menos com uns 17, 18 anos. Eu comecei, estava estudando violão clássico na Fundação de Educação Artística, então, você punha o pé esquerdo assim no banquinho, sabe? Aquela coisa até hoje assim e toca, e estuda daquela forma assim. Na primeira aula eu já achei estranhíssimo porque na verdade tudo o que eu queria era música popular. Era aquele negócio de você tocar assim… Aí quando eu botei aquilo, foi um pouco triste, um pouco drástico, hoje eu acho bacana aquilo e é uma boa posição pra se tocar violão. Enfim, eu fui logo passando dessa escola clássica, pro popular. Aí me lembro que nessa época eu gostava de tocar samba, porque o samba também é mais acessível aos ouvidos, a harmonia, ela chega com mais facilidade. Depois a gente vai conversar sobre isso em relação ao Clube da Esquina. Às vezes a harmonia custa, você custa a pescar, é mais difícil. Então uma coisa, por exemplo, que eu tentava tirar e gostava muito de ficar ali brincando, tocando e cantando também, embora eu não fosse cantor, Paulinho da Viola e Cartola, essas coisas. E aí eu tinha ajuda de um irmão meu que toca violão popular e canta, que é o Paulo Henrique Amaral e da minha mãe. Ela cantava aqueles sambas antigos da época do Ary Barroso, então, a gente ficava praticando samba exaustivamente, o dia inteiro. Era samba-canção, samba bolero, samba de roda, samba de breque e samba enredo.

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Irmãos

Eu sou o quinto filho, estou perdido ali, desgarrado. São sete irmãos. É, não fui assim, não fui nem o primogênito, nem o caçula, entendeu? Não tive nem atenções especiais, nem privilégios. Esse meu irmão do violão é mais velho, ele é dois degraus acima de mim e tem uma irmã no meio. Ele me deu muita força pra tocar, me deu porque ele gostava muito de música, a gente estava sempre… eu fui aprendendo depressa, perguntava pra ele, eu lembro que ele fazia umas cadências na música eu falei: “mas é, como é que eu faço isso, como é que eu vou tocar uma música, como é que eu tiro uma música?”, problema básico de todo aprendiz. E ele falava, “não, mas eu tenho esses acordes, por exemplo, com eles eu toco muita coisa, eu vou quebrando o galho, assim, tal”. Aí ele foi me ajudando. Ele canta bem esse meu irmão Paulo, é afinado e tal. E o mais importante que ele gostava, ele tinha um ouvido muito apurado. Gostava de discos incríveis, João Donato, João Gilberto, é… muito Caetano e Gil, a gente era muito fã. Caetano e Gil eram ídolos, tanto quanto os Beatles, ou talvez mais. Eu diria que mais, acho que Caetano foi, na minha vida, eu acho que ele foi mais ídolo, eu fui mais fã dele do que dos Beatles, foi uma coisa impressionante, fui muito fã. Porque também apareceu a poesia, eu comecei, eu acho que um dos livros que eu descobri esse negócio de poesia, me deu um barato incrível, foi o Memórias Sentimentais de João Miramar do Oswald de Andrade, que não é propriamente um livro de poesia, é um livro de prosa, mas ele é escrito de uma forma poética e eu achei sensacional esse livro e até hoje eu acho. Eu o reli há pouco tempo, eu acho ele incrível, um dos grandes livros da literatura brasileira é João Miramar. E é um livro provocativo, pequeno, vanguardista mesmo, e tem uma injeção, uma dose de poesia impressionante. Ali eu gostei da poesia nesse momento, a poesia me deu um negócio e me deu uma ajuda muito grande na vida. Eu comecei a usar a poesia para, de certa forma, é difícil falar isso com precisão, mas para resolver, não tão imediatistamente, mas pra lidar com questões pessoais, existenciais, emocionais e tal. A poesia foi uma coisa muito valiosa pra mim.

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Flávio Fontinelli/choro

Pô, eu nem cheguei no choro ainda. O choro depois, foi exatamente por causa desses primeiros sambas que eu ganhei, por assim dizer, um aval perante o Flávio Fontinelli, que era diretor do conjunto de choro. Diretor entre aspas, era o líder. E como eu já tocava um pouquinho esses sambas e essa coisa brasileira, o Flávio com generosidade me aceitou. Ele era amigo meu também, nós fomos colegas de ginásio, colegas do Colégio Estadual, eu lembro do Flávio Fontinelle levando guitarra pra aula, ele fazia algumas audições, ele tocava junto com o Fernando Betano Paraíso, um outro colega. Eles levavam guitarras, meninos de 10, 11, 12 anos, e tocavam em sala de aula. Quero dizer, isso pra mim foi uma coisa, muito depois eu pude fazer isso, tocar música e tal. Mas então nessa época o Flávio me viu tocando esse samba, Cartola, qualquer coisa assim e falou “vamos tocar lá no grupo de choro”. E eu fui. Foi pura generosidade, eu era verde. Mas eu fui e aí comecei a tocar Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Ernesto Nazaré e tudo mais. A gente tinha um repertório da pesada nessa praia aí, tocava tudo, tudo, tudo. Eu aprendi tudo de Pixinguinha, aprendi tudo de Jacob do Bandolim, então foi… isso foi uns dois anos, foi uma escola muito forte, muito marcante. E me deu um ouvido harmônico, da harmonia funcional, foi uma base pra isso. O choro é uma grande escola, até é de se pensar que toda escola de música popular deva, possa, pode começar pelo choro, porque o choro te dá esse negócio da harmonia funcional que você… O cara toca ali, você já está acompanhando. Às vezes as pessoas que não tinham prática e falavam “mas como que você já está acompanhando, você nunca ouviu essa música?”. É porque o choro ele tem aqueles caminhos parecidos, repetidos, e com qualidade, lógico, e você fica treinado naquilo. O cara botou a flauta assim, você já sabe se ele vai tocar em tom maior ou menor, impressionante.

PESSOAS
Cartola

Aí a gente tocou… O Cartola teve dois trabalhos lançados pela Marcos Pereira, uma época, década de 70, tinha uma gravadora independente que trabalhava com música popular e música folclórica e tal, era um negócio muito bacana. E aí o Marcos Pereira lançou aqueles dois primeiros notórios discos do Cartola. Um é aquele da capa preta, a foto preto e branca que tem “Acontece”, depois a gente lembra o resto, e o outro é aquele que ele está com a dona Zica na janela, uma foto colorida e tal. Então nós tocamos esse repertório, porque esse conjunto de choro estava funcionando muito bem, estava legal, a gente tocava e todo mundo gostava e a gente era chamado para eventos, os mais diversos. E aí veio o Cartola, ele estava com esse lançamento, ele ganhou uma projeção, foi um resgate do Cartola, desse grande compositor e tal, porque tem aquela história do sumiço dele e tudo mais. E foi legal, aí o Carola chegou, tem até uma ligaçãozinha com o Clube da Esquina que é interessante. Chegou no Chico Nunes, a gente com os instrumentos no chão, no palco, e o Cartola olhou, eu tenho fotos, eu posso mostrar pra vocês. Eu era cabeludo, tinha um cabelo anelado, grande, e eu tenho uma foto com um chapéu de palhinha assim, aquele chapéu do choro e esse cabelo e tênis, vendo depois essas fotos eu falei assim ”parece o Lô Borges”. Aquele bando de Lô Borges e o Cartola lá, ele olhou, rapaz e ele estranhou, me lembro bem, eu era bobo, mas não era. Eu olhei assim falei “pô, o Cartola está achando estranho esse bando de cabeludo, vai tocar com ele o samba”. Mas deu muito certo, aí a gente tirou os instrumentos do estojo e começamos a tocar “Noites Cariocas” e passar algum choro só pra tocar, aquecer. E aí vem aquele som redondo, tudo certo, tudo harmônico. O Flávio era muito bom violonista de sete cordas, ele tocava bandolim também à beça, ele era muito bom, era o melhor do grupo. E aí o Cartola ficou tranqüilo, quando ele ouviu o som falou, “não, está tranqüilo, quem toca o choro dessa forma pode tocar o samba tranqüilo”. Então foi isso, aí fizemos dois espetáculos, ele era um showman, um cara muito sofisticado, muito cool, falava muito bem no choro, conduzia a platéia muito bem, gostava de um conhaquinho Macieira. Na estréia, a produção fez a maldade de não trazer o conhaque pra ele. Ele ficou uma fera, não queria fazer o show, teve esse negócio assim, com toda justiça, porque o cara pede o mínimo. Não é porque ele não conseguisse fazer o show, é a falta de atenção que houve com ele, mas aí o problema foi contornado, alguém correu na Afonso Pena, comprou o conhaque e tudo.

PESSOAS
Altamiro Carrilho/Waldir Azevedo

Antes disso vou falar assim an passant, porque eu sou meio falastrão. A gente tocou com esse grupo também, a gente tocou com o Altamiro Carrilho que é um ídolo meu. Eu adoro o Altamiro, sempre adorei o Altamiro e vou morrer gostando. E tocamos, a gente estava ensaiando com o Altamiro no Hotel Financial, a fita vai até acabar (falando com os entrevistadores, risos) e veio o Waldir Azevedo. Foi um milagre, o Waldir Azevedo apareceu na tarde que a gente estava no Hotel Financial do Antonio Luciano ensaiando, que o Altamiro estava lá hospedado. O ensaio foi lá no quarto dele, na cama, tinha duas camas. E a gente tocando, tocando e o Altamiro tocando e falando como é que ia ser o show. E ele falava assim, aí era o “Carinhoso”, por exemplo, “aí vocês param que eu vou fazer umas firulas e aí quando eu fizer assim, a gente volta e termina” esse tipo de coisa. Aí bate na porta, era o Waldir. Falou assim: “eu escutei um barulhinho aqui, vim participar da bagunça”, com um cavaquinho, incrível. Aí tocamos assim, com ele nesse espírito que eu te falei, que o cara dava o primeiro acorde e a gente já saía tocando, aí tocamos, lembro que ele tocou um frevinho. Quero dizer, então essa coisa brasileira, ela me marcou profundamente.

FORMAÇÃO MUSICAL
Profissionalização

Depois eu fui até mexer com rock. Você falou do Sagrado Coração da Terra, eu dizendo assim, levianamente, me cansei do violão e procurei a guitarra elétrica.
É, falei: “pô, vou tocar um pouco de guitarra, pra fazer jus a esse cabelo todo, pra fazer jus a isso”. E fui tocar. Eu estava nesse curso de psicologia e tive que tomar uma decisão, a música já tava pegando. E eu tomei, larguei o curso e falei, vou tocar, vou ser músico. E fui pra noite, eu acho que foi a melhor coisa que eu fiz, fui pra noite e lá eu me arranjei. Eu lembro que eu já fui pra noite com uma guitarra elétrica. Eu fui pra noite e a primeira coisa que eu fiz na noite foi sentar num banquinho, um banquinho e uma guitarra elétrica e cantar assim, aí cantava Caetano, tudo, tudo que eu podia e tudo que eu sabia, Beatles e não sei o que mais, interessante.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições/Instrumento: guitarra

Nessa época eu já fazia música, já escrevia, fazia letra e música. O meu irmão, o Paulo, gostava muito de Billie Holiday e eu comecei a pescar aí nessa época o negócio do jazz; eu não tocava sax, tocava guitarra. Depois dessa passagem da noite é que eu fui tocar com o Marcus Viana, porque na noite, eu fiquei bom guitarrista, me tornei bom guitarrista, aprendi a tocar guitarra elétrica. O Alexandre Araújo, irmão do Marco Antonio Araújo, ele me deu uma força, me deu umas aulas de técnica, uns exercícios. Ele foi muito importante pra mim nessa etapa da guitarra; aprendi coisas, técnicas assim e tal. E a noite foi uma escola. Eu peguei, aprendi ali, comecei a tocar, comecei a solar, comecei a improvisar. Aí eu me lembro, já caí no quarto de um outro irmão, do Beto, que era roqueiro, que tinha tudo de rock e eu ficava ali meio forçando a barra no quarto dele com a guitarra, ele não gostava. Realmente era um saco, o irmão já entra com a guitarra e vai ficar ali ouvindo seus discos, é foda! E eu fazia isso e o que eu ouvia acompanhando era Eric Clapton, Santana, Alvin Lee, Led Zeppelin, Rolling Stones, basicamente, eu acho que o rock se resume a isso, eu não sei mais de rock do que isso. Então ficava os caras tocando e eu tocando de ouvido, não parava, pelo que eu me lembro eu não parava, “deixa eu ver essa nota ou essa frase”. Depois eu fui fazer isso com o jazz, eu paro o disco do Cannonball e falo “peraí, deixa eu ouvir essa frase”; mas nessa coisa do rock não, porque é mais fácil também, parece que não é tão assim, dá pra você ir, “ah, agora o cara foi aqui”. E também muito com blues; o blues que me possibilitou tocar guitarra. A minha guitarra era uma guitarra mais de rock, não era uma guitarra de jazz. E foi legal, aí eu fui conhecendo outros guitarristas da cidade, o Fernando Rodrigues que tocou com o Lô, que era guitarrista do Lô; o falecido Fernandinho, tocava à beça, ele era terrível. Ele já tinha uma coisa assim de Jeff Beck e de Jimi Hendrix, que eu não tinha. Eu gostava, mas eu não tinha, meu negócio era mais esse blues rock. E o Affonsinho, que também era um guitarrista notório, um dos primeiros cobras da cidade, junto com o Alexandre Araújo, pelo menos pra minha geração era esse pessoal, o pessoal do rock.

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Parcerias

Meu primeiro parceiro foi talvez, o Affonsinho. Deixa eu pensar… quase com certeza eu acho que foi o Afonso. E a primeira música, eu fiz a música e não a letra. Depois ficou comum a gente inverter. Ele fazia a música e eu a letra, mas na primeira música que a gente fez ele tinha a letra e eu botei uma música. Eu tocava no Groove, na noite, foi 1989. Não, foi muito antes, 1982, por aí, que a gente começou, talvez.

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Marilton Borges, Ezequiel e Neném.
Instrumento: Saxofone

Esse lugar que eu te falei, o Groove, foi o lugar mais marcante na minha passagem pela noite, nessa época eu tocava guitarra.
O Groove era um bar, ficava na avenida Bernardo Monteiro perto do Colégio Arnaldo, ali debaixo das árvores do lado tinha o Noturno e um pouco mais abaixo tinha o 890, que o Marilton tocava. Acho que ele tinha até uma sociedade no bar, eu conversei com ele outro dia, lembrando desse tempo. Eu ia lá no 890, que tinha também um baterista que me deixava louco, o Neném, eu nunca tinha visto aquilo. Eu não sabia que era o Neném, quem era o Neném. Nos intervalos do Groove, eu tocava quinta, sexta e sábado no Groove, era legal. Depois eu acho que nunca mais fiz isso, três noites seguidas. Eu descia no intervalo, aquela onda. Tinha o Noturno que tocava o Toninho do Carmo que é um guitarrista bacana, harmônico, que mora em Paris, com a Babaia. O Toninho ficava acompanhando a Babaia e era legal,, também porque o Toninho tinha umas harmonias super transadas. E lá embaixo tinha esse negócio do Neném com o Ezequiel e o Marilton que era incrível, era incrível. Eu sempre gostei da noite de Belo Horizonte, antes de ser músico também, eu dava uns rolés, eu ficava de fora das casas. Muitas vezes ouvindo o próprio Marilton. Eu ouvia aquele sambalanço, era ele ou o Célio Balona, ou outra pessoa que eu não sei. E ficava de fora ouvindo, não sabia que eu ia ser músico não. Eu tinha esse costume, saía com os primos e tal, ficava na porta das boates, eu também sempre gostei de boate, sempre fui vira-lata, sempre fiquei querendo entrar em boate e tal. Teve uma época em que eu não era músico, fui numa boate, era assim que se chamava mesmo, boate, não era casa noturna nem nada, era boate. E perguntei pra dona, que era uma senhora, se eu podia discotecar, eu tive essa veleidade, uma ocasião. Ela deixou e aí eu fiz uma noite, era ali na Rua Cláudio Manuel, quase com a avenida Afonso Pena, por ali, perto da casa dos meus pais. Ela topou e eu levei uns discos e nem lembro o que eu toquei essa noite. Depois não deu certo, ou eu ou ela, mais provável que tenha sido ela que não quis.
No Groove comecei a praticar sax, eu levava de vez em quando, fazia um solo, tocava mal. O sax é muito difícil, eu demorei 10 anos… Eu comecei em 1982, 1981, por aí, com o saxofone. Eu demorei uns 10 anos pra me sentir bem tocando aquilo, pra ter prazer, falar assim “ô que legal, vou tocar saxofone”, antes não era prazeroso. Aí, na época do Skank, vai pra perto de 1990, eu comecei, já tocava sax. Aí larguei a guitarra também, que dava muito trabalho tocar os dois, trabalhar com os dois. Dava trabalho demais ensaiar e tudo, eu tive que simplificar um pouco. E escolhi o sax que estava dando mais pé, eu estava tendo mais trabalho. É, eu não me arrependi não, mas eu olho assim e não consigo achar explicação. Eu era bom guitarrista e a guitarra é um instrumento legal. O motivo foi casual. O Arthur Andrés do grupo Uakti me ligou e disse assim: “eu estou com um sax aqui, você quer comprar?”; e eu quis. Mas antes disso eu tinha pensado já em tocar sax. Eu vi uma menina, quase uma criança, no interior, numa bandinha de interior, se não me engano em Dom Silvério de Minas Gerais. Eu estava vagabundando; estava com violão, viajando com os amigos e tal e vi essa menina. Me deu um negócio, uma vontade de tocar sax. Eu vi uma garota na rua me lembro, ela era clara, ai meu Deus, ela era clara e loira, baixinha, devia ter uns 14 anos. Eu vi essa menina assim e falei “puxa eu vou chegar em Belo Horizonte eu vou estudar sax”. Uma coisa assim, que não se explica, essa vontade.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina

Mas foi muito legal eu ter pegado o sax, porque eu fui pro jazz e eu aprendi muita música e inclusive me apaixonei pelo Clube da Esquina devido a essa música que eu aprendi com o saxofone. Aí que eu me apaixonei. Porque antes eu respeitava, até tocava, no Groove a gente tocava, mas eu tocava porque o Black que era baixista, o Black é irmão do Sérgio Santos, ele tinha o repertório do Clube da Esquina e eu não tinha. Eu não me arvorava a tocar, aquilo era complexo pra mim entendeu. Tirar aquela harmonia ali, não era mole. Sempre achei que o Clube da Esquina devia fazer o Songbook, urgentemente, porque aquilo é muito precioso e dá trabalho pro cara tirar. Você tem que ter aquilo já resolvido pra você, além dos discos, porque as harmonias são sofisticadas, é difícil. Então o Black tocava, eu sempre respeitei, mas com o saxofone é que eu fui estudar jazz, aí eu aprendi harmonia. Quero dizer, a gente nunca pára de aprender harmonia, ainda estou aprendendo. Verdade, a gente nunca pára de aprender harmonia. E o saxofone me levou, me colocou de frente a essa música mineira, entre outras coisas. Também a necessidade, eu acho que nunca quis ser jazzista, nunca tive coragem de assumir esse e nem vou. Eu acho que nem devo também, por ser brasileiro e tal e eu acho que essas questões… E o Clube da Esquina, pra mim assim é o lugar que, é a música que eu estou olhando, é pra onde eu estou olhando, ou dialogando, entendeu? Porque eu não quero copiar o Clube da Esquina porque seria desmerecer essa criatividade toda e tal, mas eu dialogo com aquilo o tempo todo. Eu estou terminando um disco agora que é um diálogo com o Clube da Esquina, as composições em si, são um diálogo, com certeza.
Eu mal me lembro a primeira vez que escutei os discos do pessoal do Clube. Acho que foi aquele que tem o desenho do Milton, que tem “Para Lennon e McCartney”, começa com essa música, tem “Alunar”, tem “Durango Kid”, tem “Os Portões”? Ah, “Os Portões” é o da Igrejinha. Esse disco aí foi o primeiro que eu escutei. E era óbvio que eu ia gostar de “Para Lennon e Mccartney” que é um rock, que é uma música pop e tal. E tem “Clube da Esquina I.”

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Clube da Esquina

“Clube da Esquina”, eu me lembro, foi muito importante uma vez que eu estava com meu irmão fazendo repertório pra cantar num lugar na noite. Era nós dois, foi das poucas vezes que a gente, não foram tão poucas assim, trabalhou junto – esse irmão meu, Paulo, que cantava e tocava o violão. Ele sugeriu da gente tirar “Clube da Esquina”, “vamos pegar essa música e tal”. Eu me lembro de um comentário dele, ele falou assim: “é impressionante essa música, que coisa, da onde que vem, que música, que música diferente, que planeta, que não sei o que”. E ele chamando sempre atenção pra essa coisa, pra novidade e pra beleza. Porque não é toda coisa que tem novidade que tem beleza, nem toda novidade traz beleza, não é? E o Clube da Esquina com certeza trazia. Trouxe beleza e qualidade. A dificuldade, ela não consegue te impressionar assim, pode até impressionar um pouquinho. Eu nunca fui muito impressionável com a dificuldade. É a beleza que impressiona, o mistério que tem ali, que você sem saber percebe, capta. Sem ter uma explicação, uma coisa racional, uma informação racional, você capta assim, você fala “poxa, espera aí, tem um negócio aí”.

MÚSICAS
Beco do Mota

Pois é, eu estava querendo te contar que uma noite, quando eu também não era músico, eu devia ter uns 12, 14 anos, por aí. Eu ouvi uma turma tocando violão, uma roda de violão num bar, mas eu acho que não era um trabalho de músico não, acho que era uma roda de amigos. Eu estava sozinho, era garoto, eu lembro que eu entrei, e fiquei ouvindo um repertório bom, de bom gosto. Eu lembro tipo, Edu Lobo, essas coisas assim, Dori Caymmi, era uma coisa fina. E eu lembro deles tocarem “Beco do Mota”. Me impressionou demais. Eu não sabia que música era aquela, eu falei “putz”. Eu acho que eu tocava um pouquinho de violão e eu falei “puxa vida, eu não sei nada, não sei nada”, me deu essa consciência assim, “eu não sei nada”, essa música está me provando que eu não sei nada, “Beco do Mota”. Morro de vontade de saber quem era essa turma, eu lembro que o cantor e violonista era um mulato, era um mulato de cabelo curto assim. E era um pessoal com pinta de universitário, entendeu? Um pessoal na deles e eu sei que esse bairro era na rua Santa Rita Durão, quase ali perto do colégio Santo Antonio, um quarteirão antes, onde eu acho que depois teve o.. esqueci… Bar Quincas Berro D’água, acho que era. Não sei se eu estou falando com certeza, se eu estou certo, não sei se o nome do bairro era esse. Mas era isso, era na Santa Rita Durão, antes do colégio Santo Antonio, e eu ouvi “Beco do Mota” e achei barra pesada, e ainda acho. Ainda acho barra pesada tudo isso, então é um espanto. Mas vamos seguir senão a gente…

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Sagrado Coração da Terra/Marcus Vianna/Alexandre Araújo

Eu não tinha nenhuma influencia de rock progressivo e nem gostava não, eu não era dessa turma. O Clube da Esquina é influenciado pelo rock progressivo, pelo Yes, pelo Genesis e tal. Eu custei a avançar nesse terreno aí, um dos primeiros grupos que foi me pegando, que eu comecei a gostar foi o Jethro Tull, que toca essa semana aí, eu gostei muito. O Tavinho, um outro irmão meu, gostava disso. O Tavinho tinha uma discoteca assim, bárbara, de Bach a Jethro Tull. E eu entrei; estava dando uma aulinha de violão, me virando, acho que eu já tinha largado a psicologia, sempre dei aulas, sempre gostei muito de ser músico, de ficar correndo daqui pra lá, adorava. Estava dando aulas e fui com um amigo buscar um negócio em um estúdio que o Sagrado estava, lá no Sion, na rua Califórnia. Era na casa do guitarrista do Alexandre Lopes, que hoje é o guitarrista do Beto Guedes, ou pelo menos até ontem era. Cara, nós abrimos a porta e veio o Sagrado, veio o som dos caras. Eu acho que era o Edinho no baixo, o Marquinho, o batera eu acho que era o Zé Artur, uma das formações do Sagrado, e o Alexandre Lopes, acho que a tecladista era a Cristiana. Eu achei que eu estava em Londres, mesmo assim, que eu estava ouvindo Pink Floyd e o Gentle Giant e tal. Eu nunca ouvi um som tão assim, profissa, eu fiquei muito impressionado. E anos depois… eu não lembro. Depois dessa passagem pela noite, eu sem saber, estava fazendo um certo sucesso como guitarrista. Eu acho que as pessoas iam lá, me ver tocar. Eu levava um pedal de distorção; acho que eu fui uma das primeiras pessoas da noite de Belo Horizonte a usar distorção. Porque a noite era aquela coisa cool assim, muito bossa nova e tal. E a gente fazia isso também, mas tocava Beatles e sei lá mais o que. Tinha uma hora que eu usava uma distorçãozinha. Por causa disso tudo, o Marquinho me procurou, não sei como é que ele fez, se ele me ligou e tal. Aí ele já mandou umas partituras. Tinha uma música que chama “A Montanha”, que era uma fuga, era difícil. E eu ralei, eu ralei muito, eu fiquei doido, assim, pra abraçar aquilo, aquela oportunidade. Então eu estudei demais, eu cheguei com tudo decorado, eu li aquela Montanha, a gente não vê guitarrista lendo aqui em Belo Horizonte, tocando por partitura. E com o Marquinho tinha isso. Mas eu tinha sempre um complexo de não ter uma guitarra Fender, eu tinha uma guitarra meia bomba. Era uma guitarra americana que chamava… era semi-acústica, ela não era própria pra tocar Sagrado. Ela chama não sei o que Harmoni Rocket, era uma guitarra até bonita, semi-acústica assim, cheinha, que eu tirava um som bonito e tal. Mas não tinha muito recurso, era uma guitarra, a ponte dela era de madeira, ela era meio dura pra fazer band, não era própria pra fazer rock. Então eu tinha esse complexo que me enchia um pouco o saco, eu falava “pô, esse negócio está sendo desgastante”, aí eu parei de tocar com o Marquinho por isso. Pela falta de equipamento, de grana, de estrutura, se eu tivesse assim, umas três, quatro, que eu achava que o som dele merecia e todo aquele equipamento. Porque rock era uma coisa de equipamento. Até hoje é assim, é equipamento, tecnologia e tal. Então ficava com aquele jipinho correndo atrás de um avião, aquilo me enchia o saco. Mas o Marquinho me dava muita força e ele não achava problema nenhum, não. E a gente fez shows assim, foi a primeira vez que eu toquei no Palácio das Artes. Pra mim foi um negócio totalmente espetacular, tem fotos dessa época, eu tocando guitarra com ele, tudo. Pois é, a gente tem que ver essas fotos sim. Tem uma foto na Praça do Papa com o Sagrado e eu, com essa guitarra. Que foi o Alexandre Araújo que me arrumou ela, falou “olha, tem um cara na Serra vendendo uma guitarra americana tal”. O Alexandre era um padrinho meu, sabe, muito amigo, que a gente falou também do Alexandre Lopes, que depois também toquei muito com ele. Essa foi minha carreira de guitarrista, depois eu fui pro sax e ele foi me prendendo e me libertando também.

PESSOAS
Lô Borges

Ah o Lô… Eu li uma entrevista muito linda do Lô agora na internet, naquela revista virtual lá do Sul que eu esqueci o nome agora, tem um nome inglês, mas linda a entrevista. E o Lô explica várias coisas e ele, e quando chega nesse capítulo, rock progressivo, ele pontua assim muito bem, que eles ouviam isso, mas que eles tinham uma síntese, eles já tinham uma coisa, um formato, que os impediu e que os protegeu, vamos dizer assim, de fazer rock progressivo igual os Mutantes fizeram. Eles tinham um formato, ele colocou assim, que aquela coisa dos Beatles era importante pra eles ainda e sempre, você ter um formato de canção, você ter peças mais curtas, mais formatadas assim. Então isso que deu as características do Lô e do Clube da Esquina e não o rock progressivo, mas foi uma influência sim, a gente vê que foi. Entre outras, porque tinha também esse piano do Marilton, essa música brasileira, e várias outras coisas. E também tinha uma genialidade, essa coisa que você não explica da onde vem, vem da alma da pessoa. Eu vivo rastreando as influências das coisas que eu gosto, de tudo, da música clássica também, falar “pô, isso vem daqui”. E é legal a gente rastrear, fazer esses mapas e eles são infinitos, cada pessoa vai botar um elemento ali, vai contar uma história e é bacana. E o Lô tem isso assim, da alma dele, aí vem essa música que você não explica assim, totalmente. Você vê essa música “Clube da Esquina” que música impressionante, que coisa, ela é meio lunar, essa letra do Marcinho já falando do mundo lunar assim, ela dá uma atmosfera lunar, é muito bacana.
Compor com o Lô foi muito legal, foi bárbaro. Cara, eu vou cometer uma inconfidência, o Marcinho vai rir de mim e é engraçado porque o Marcinho é um bruxo. Eu sempre achei que o Lô, que o Milton, que o Toninho deviam compor comigo (risos). É engraçado, dizendo assim, parece que eu sou um tremendo cara de pau, que eu estou menosprezando o trabalho do Marcinho, do Ronaldo Bastos, do Fernando Brant, mas não é isso, mas pode ser também. Mas eu sempre achei; falei, não, eles têm que compor comigo, tem que acontecer isso. Sempre achei, eu achava que precisava no universo do Clube da Esquina, a facção tropicalista, eu achava que tinha, eu achava que eu era o elo de ligação, entendeu? É lógico que antes, primeiro Caetano já fez música com o Beto, com o Lô, com o Milton e tal. Então Caetano é que é o cara ideal e mais ninguém, mas eu achava isso, tinha essa veleidade. Falava: “não, esses caras tem que fazer música comigo e tal”. Quando eu cheguei lá, literalmente, quando eu cheguei na casa do Lô, quando eu cheguei na casa do Milton e na casa do Beto, eu assim, humildemente considero que eu não estava apto para a tarefa. Aí eu caí na real, eu não estava apto pra tarefa, não, o buraco é mais embaixo, é difícil, cara. Aí eu enxerguei, só aí, com todo respeito que eu tinha pelo Fernando e pelo Marcinho, aí eu enxerguei, a grandeza da contribuição deles. Eles mataram a pau, simplesmente, mataram a pau, eles fizeram a coisa que tinha que ser feita em termos de letra. E eu tinha uma veleidade de achar que tinha que haver assim, um encontro comigo, porque eu tinha que resgatar uma estética do tropicalismo, porque ia ser legal juntar isso com o Clube da Esquina e tal. Aí eu vi que eu não tinha competência pra fazer isso, que eu nem era tropicalista, achava que era e não era, não sabia fazer textos tropicalistas (risos), foi mais ou menos isso.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: avaliação

A contribuição que o Clube trouxe à música brasileira é uma contribuição em aberto, inesgotável, não se esgotou ainda. Porque foi praticada uma música, uma forma de composição, de arranjo, de interpretação, com múltiplas facetas, com infinitas maneiras, infinitas abordagens ali, mas dentro de uma estética que tem uma visibilidade, que tem um contorno, que eu acho que as análises ainda vão continuar, não se esgotam. Eu, por exemplo, no meu humilde exemplo, ainda estou interessado na música do Clube da Esquina, eu ainda sou influenciado e pratico composições com uma lembrança, não literal, mas uma lembrança de atmosfera do Lô, do Beto, do Milton, do Toninho Horta. Volta e meia eu mostro músicas pra eles, falo assim “olha isso aqui que eu fiz, eu acho que tem a ver”. Agora eu gravei uma música com o Lô que nasceu assim, eu mostrei pra ele assim, “eu acho que tem a ver com você” e fiz uma seqüência de acordes, uma melodia. Aí ele pegou o violão botou outra metade junto, a gente fez uma parceria que vai estar no disco que estou gravando agora e que vai sair em maio. Eu já gravei e está sendo mixado. Essa se chama “Papo de músico” e tem ainda a participação do Gilberto Sáfar que é um letrista, parceiro do Flávio Henrique, dono desse estúdio que a gente está gravando. E eu vejo que essa música tem muita coisa pra ensinar ainda, eu acho que ela deve ser… A gente precisa, primeiro, pra ser prático, ter os Songbooks de Milton, Toninho, Lô, Beto e todo mundo. E o próprio, o Songbook geral do Clube da Esquina, com Nelson Ângelo, Novelli e todo mundo, Wagner Tiso. E depois botar essa música nas escolas, nas escolas mineiras, nas universidades e nas escolas brasileiras. Porque ela, com certeza vai ganhar as escolas do mundo. Já ganha; essa música já é estudada, já é considerada. Eu que não tenho muita informação, Marcinho deve saber melhor. Então acho que é isso, é uma música que está aí pra ser analisada, estudada, ouvida, curtida. Porque ela é inesgotável, você pode ouvir, eu escutei o Travessia hoje, um disco de 1967 e está cheio de coisa ali que eu não sabia. Eu escutei “Crença”, essa música eu vou ter que ouvir mil vezes pra entender o que está acontecendo. Isso é legal, isso parece com a música erudita. Essa música, a música do Clube da Esquina ela não é erudita, ela é música popular legítima, mas ela tem essa coisa da música clássica, vou usar essa palavra que, Beatles é clássico, Cartola é clássico. Vamos continuar senão eu vou…

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina/Jazz/Música erudita

Eu vou pontuar um pouco melhor o que aconteceu pra mim com a música do Milton, do Lô, do Toninho, do Wagner e tal. O saxofone que foi me levando a uma coisa mais sofisticada na música. Eu comecei a tirar John Coltrane, Miles Davis e tal. E eu fui sacando que tinha muito disso aqui. E eu também estudo piano, o piano também me ensinou muito, estudo umas peças clássicas. E eu comecei a fazer um paralelo: a música brasileira, até a Bossa Nova, tinha uma sintaxe. A música do Clube da Esquina propõe, avança sutilmente essa sintaxe, avança com certeza, com segurança, avança com competência, a sintaxe da composição. E eu fiz um paralelo com a música clássica, porque eu estudei um pouco disso; é o Chopin, ele é um músico muito profundo de harmonias fantásticas, inesgotável. E ele tem uma sintaxe que seria uma paralela à sintaxe da Bossa Nova, tem uma causalidade ali, um caminho que é causal, isso aconteceu por causa disso, isso vai levar a isso e tal. Depois é praticada na música erudita, um tipo de harmonia que rompe tranqüilamente com essa causalidade, que é a música de Debussy, antes dele, Eric Satie, Ravel e tudo mais, Stravinsky. Então, eu acho que essa música do Clube da Esquina está para essa música nova, assim como Chopin e uma série de coisas está para Tom Jobim e a Bossa Nova, entende? Então é um outro parâmetro, eu acho que essa contribuição é muito legal, muito bonita e ela é vitoriosa. O Milton e todos eles trazem um novo parâmetro de harmonia, de composição que é modernizante, que avança, que acrescenta, entende? Que soma a toda aquela beleza da Bossa Nova, aquele repertório e aquelas composições irretocáveis, soma uma coisa de altíssimo nível. Foi assim que eu comecei a ver como músico a coisa. E já vi depoimentos nesse sentido, como o do Hamilton Godoy, que numa entrevista fala que aquilo ali espantou a eles, músicos brasileiros, paulistas, no caso dele. E que depois ele foi perceber que aquilo era mais avançado, estava mais avançado do que o que a geração dele conhecia até então. É bem isso, a gente pode contar mil histórias sobre essa coisa toda, graças a Deus.

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Clube da Esquina

É uma honra dar essa entrevista para o Museu Clube da Esquina. Essa iniciativa é o gol de letra, o gol de letra dos seus mentores, do Marcinho, de todo mundo. Porque ele foi exatamente no alvo. O que precisa ser feito é isso, resgatar uma história grandiosa. Eu não quero exagerar na retórica, não. Uma história bonita e recente e ele não esperou, é genial isso no Marcinho, assim como o primeiro disco do Bituca lá nos Estados Unidos não esperou a carreira inteira do Bituca. O Courage de 1978. É isso mesmo, já pegou o Travessia, Bituca lá nos Estados Unidos com o Herbie Hancock. O museu, a história é recente e o museu não tem que esperar 100 anos pra ser feito, não. Ele foi feito no momento certo, num certo vácuo da cultura brasileira, num certo vazio assim, de discussões, de propostas. Então o Marcinho vem e coloca a bola na marca do pênalti, sabe, pra gente fazer esse gol. Eu acho perfeito, eu já vejo o resultado que é o que a gente almeja, a difusão mais ampla possível da música do Clube da Esquina, essa difusão, esse tornar notório, mais ainda assim, esmiuçar, tornar acessível aos praticantes de música e aos ouvintes de todas as partes do mundo. Eu acho que é isso. Melhor não falar mais, porque eu já estou perdendo o pique, estou sentindo, estou aquele atleta velho que nem o Romário, mal comparando porque o Romário é um… Parece que está na hora de sair de campo assim, aos 41 minutos do primeiro tempo; eu tenho que sair.
Léo, obrigadão, boa sorte, estamos juntos nisso. Eu gosto muito de falar do Clube da Esquina, porque eu não sou filiado assim ao Clube da Esquina desde o primeiro momento, eu conquistei a minha admissão, a minha entrada. Eu conquistei, eu tive que estudar muito, eu tive que estudar música, eu sou um cara meio tacanho, eu custei. Eu com aquele interesse meu todo pela poesia e tudo, fiquei um aluno um tanto quanto relapso em música. Aí quando eu consegui estudar música, graças a Deus, e é engraçado, você não serve a dois patrões. Fui olhando pra música e meio deixando a poesia de lado. Aí quando eu saquei falei “poxa, é isso aí, é essa música, é essa música que me interessa”. E não sou filiado, não sou assim, entendeu? Eu sou um franco atirador, estou muito livre, poderia não ver o Clube da Esquina e falar assim “não, a minha é outra, e tal”, mas graças a Deus eu vi a grandeza que é. Eu acho que o músico que não enxerga isso, tem algum problema. Então eu fico muito a vontade de falar, de ajudar. Não sinto que eu estou defendendo, é uma causa própria, mas não é. Eu fico mais à vontade assim, é uma coisa que não é minha, eu não tive um milésimo. Eu não tive essa centelha genial, essa coisa toda. Eu fui por outro caminho e essa música ali. E eu falei “opa”, e ela sempre… é generosa. A criação do Clube da Esquina não exclui ninguém, ela te permite. É um clube muito amplo, o Clube da Esquina é amplo, sempre foi. O Bituca tem essa coisa de chegar na Dinamarca e no Japão e na Finlândia e das pessoas pirarem. Eu sou assim, apesar de ser mineiro, estou aqui do lado e ouvi “Beco do Mota” num barzinho em Belo Horizonte e tudo mais. Mas eu sou um finlandês também, eu fui chegando, eu fui vindo lá da Finlândia pra me encontrar com o Clube da Esquina. E é legal isso também porque você faz um esforço, você batalha mais ou menos isso.

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Faculdade: Psicologia

Uma vez um rapaz, ele estava num dilema de escolher entre psicologia e música. Eu peguei e falei pra ele assim, “olha, pode escolher a música, primeiro que a psicologia é altamente largável”, não tem problema nenhum, é muito fácil largar a psicologia, não tem susto nenhum. Todos os meus colegas tão fazendo outra coisa, só uma menina é psicóloga.
Eu não conheci o Samuel Rosa por causa da psicologia. Ele fez também, que coincidência, não é? Bicho, uma coisa em comum que a gente tem, mas ele não largou.

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