Chico Lessa

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome/ Local e data de nascimento

Meu nome é Francisco José Viana Lessa. Eu nasci em Vitória, Espírito Santo em 12 de novembro de 1948.

Pais/ Irmãos
Meus pais são José Arimatéia de Almeida Lessa, já falecido, e minha mãe Fani Viana Lessa. Minha família é de seis irmãos: Jorge, depois de mim tem a… – eu sou o mais velho – Magda, o Jorge, Tadeu, Eleonora e Alexandre.

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Iniciação musical

Meus pais não têm relação com música, mas eu tenho um tio que fazia teatro. Então a minha infância foi assim; eu freqüentei muito bastidor de teatro. Ele tinha o Teatro Escola de Vitória. Ele foi fundador desse teatro, desse grupo. Eu vi o Procópio Ferreira, por exemplo, assim nos bastidores. Bibi Ferreira. Ah, eu tinha oito, nove anos de idade, dez anos. E ele encenava todo ano. Encenava a vida de Cristo. Era muita coisa. Nelson Rodrigues também. A primeira vez que eu ouvi falar de Nelson Rodrigues foi, não tinha idéia, mas foi nessa época.
A primeira música que eu ouvi, que me marcou, foi Kalú. É um baião, acho que é Luiz Gonzaga, não é? E Kalú eu vi em um, eu lembro dessa cena, parque de diversão que tinha do lado da minha casa. Tinha um areal e tinha parque de diversão. E eu lembrei. Quando eu chego lá tinha um calouro cantando essa música, cara. E fiquei com ela na cabeça. E depois, anos mais tarde, que eu fui saber. E freqüentei…

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Lembranças da Infância

Da minha infância ali eu lembro o quê? Eu morava em uma casa, tinha… Vitória, era esse bairro que eu morava, tinha poucas casas na época. Tinha muito mato e tal. Meu pai era radiotelegrafista de uma empresa de aviação chamada Nacional. Essa empresa depois se transformou na Real Aerolíneas, depois, hoje em dia, a Varig. Gostava de tomar um gorozinho, tal. Então ele ia para lá, ficava batendo aquele negócio. De repente ele ia para o clube, tinha um clube em frente. Minha mãe tinha que sair correndo lá, porque tinha avião chamando (RISO) lá: “pi, pi, pi, pi”, ia chamar meu pai lá para vir atender o lance. E era uma infância assim no meio do mato mesmo. A gente saía o dia inteiro; tinha muita coisa mesmo.
Era perto da praia, não tinha calçamento nenhum. Tinha um bonde que fazia a linha Centro até a Praia do Canto. A gente vivia assim pegando carona de bonde, jogando marimba nos fios: amarrava uma pedra com a outra aqui em um barbante, jogava e coisa… Quando o bonde passava, cortava aquela linha o negócio “blu, blu, blu, blu, blu”, caía tudo em cima (RISOS). Os passageiros tomavam um susto. E, deixa eu ver mais.

Brincadeiras de criança
Brincávamos de Capitão do Campo. Não sei se vocês lembram dessa brincadeira, capitão do campo. Eu não lembro dessa brincadeira. Eu sei que era um negócio de pique-esconde, entendeu? Tinha uma base que você tinha que correr e chegar antes do cara que estava atrás de você. E numa dessas…, eu até hoje não respiro por essa via aqui, foi uma porrada que dei em uma mangueira. O cara correndo atrás de mim, eu olhando para trás, olhando para a frente, olhando para trás, e “bum” (RISOS) – o nariz. Na época não percebi. Saiu sangue e tal, e depois que eu falei: “Porra, acho que esse negócio que eu tenho aqui foi daquela mangueirada” .

Cotidiano

Bom, o cotidiano da minha casa era o seguinte: muitos irmãos, quero dizer, nessa época eu tinha três. Eu sou o mais velho, a gente estudava de tarde no colégio – era no Sofia Müller. Era na mesma rua que eu morava. Uns três quarteirões. E a gente de manhã estudava em casa, ia para o colégio de tarde. Quando voltava do colégio aí se largava ali…, ia para praia jogar pelada nesse areal onde tinha o parque de diversão. A gente jogava pelada ali. Tinha uma pelada todo dia, de tarde, ali. Depois ia todo mundo para a maré tomar banho. Chegava em casa seis horas. Impressionante, cara, que hoje em dia eu tenho meus filhos, tenho dois filhos adolescentes que fico super preocupado quando eles saem de casa. E àquela época a gente com seis, sete anos, oito, a gente sumia no mundo, cara. E chegava não tinha, sabe? A mãe não se preocupava com nada, (RISO) estava tudo bem. Era muito legal. Onde hoje em dia… tinha uma enseada com várias ilhas. Hoje está tudo aterrado filho. A modernidade chegou, teve que ampliar a cidade . Está bem modificada.

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As influências: rádio

A minha primeira relação com a música foi ouvindo Rádio Nacional. Eu ficava olhando para o rádio, não entendia como é que saía aquela voz ali de dentro. E ficava imaginando… eu ficava na frente do espelho cantando, ouvindo Nelson Gonçalves – naquela época era Nelson Gonçalves. Eu ouvia muito o programa do Sérgio de Alencar, na Rádio Nacional de manhã. Era assim…, a Celly Campello, por exemplo, eu lembro do dia que a Celly Campello estreou nesse programa. Ele falando: “Pô, agora vamos trazer uma menina aqui, pô, nova, vindo lá de…”. É Taubaté, não é? Acho que é lá. E aí ouvi a Celly Campello cantando “Estúpido Cúpido” na rádio. Então eu ouvia isso todo dia de manhã. A Elizete Cardoso. E tinha um programa Telefone Pede Bis, também, que era do, como era o nome dele rapaz? Eu não vou lembrar. Tinha o Jairo Maia também, que era um, era um… Castelo Mendonça, que fazia o Telefone Pede Bis. E o Jairo Maia também tinha um programa importante assim na rádio, tinha uma discotecal. E a gente ouvia, ouvia; eu vivia ouvindo esse programa, entendeu? E, deixa eu ver mais o quê? As músicas, por exemplo, naquela época ouvia muito Metais em Brasa. Lembra de Metais em Brasa? Metais em Brasa, Orlando Silva, Orlando Dias, Laurêncio Silva (RISOS); é isso aí. Glenn Miller. Isso daí já foi mais pra frente. Mas, deixa eu ver, deu um branco aqui agora. Olha, eu… Eu ouvia nessa época aí o rádio, tal, e me imaginava cantando ali, não é? Eu acho que veio daí o meu lance com a música assim de querer esse lance.

E aí até que pintou Beatles. E bom, não, antes dos Beatles ainda teve uma fase interessante, que foi a fase da música italiana e da Bossa Nova. Eu tinha onze anos, doze anos. 62… É, 62, eu tinha 13 anos. E então eu lembro que comprei um disco no Rio que vinha Pepino di Capri, Sérgio Endrigo, aquela onda ali. Houve uma época da música italiana ali, foi bem… E Bossa Nova, eu tinha um clube, um clube perto da minha casa chamado Praia Tênis Clube, onde eu passei a infância jogando bola. Eu jogava bola bem, entendeu? Era futebol de salão; nadava também. E eu freqüentava esse clube, não sei agora porque eu falei nisso. E nesse clube eu convivi muito. Quer dizer, eu ficava de longe. Porque era garoto. E eles já eram uma geração mais… quem freqüentava muito ali a Maísa. A Maísa é do Espírito Santo – cantora Maísa. Era muito amiga do Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli. Então, teve uma época que eles foram para lá, cara, e o Cariê, tem o Cariê que é o… O Cariê hoje em dia ele é um… Ele é filho do fundador da Gazeta, que é um meio de comunicação mais importante que tem no Espírito Santo. Lá a gente tem dois jornais importantes que é A Gazeta e a Tribuna. O Cariê era da família. E o Cariê sempre gostou de música, era um bom compositor também, amigo do Candinho, Bôscoli, até hoje eles pensam… Ele lançou agora recentemente um livro lá, e o Miéle estava lá também. Faz parte da turma. Mas nessa época, em 62, eles alugaram uma casa perto da minha casa, na praia, em frente à Praia de Santa Helena. E eu convivi, eu vi esse pessoal tocando Bossa Nova ali. A Bossa Nova foi uma coisa então, João Gilberto, entendeu? O Trem: (CANTA) “O trem, blim, blom, blim, blom, vai saindo da estação”. “Maria Ninguém”, aquelas coisas todas. Essa foi minha influência no começo, que é uma mistura de tudo. Na verdade eu ouvi tudo que tinha para rolar naquela época. Rolava no rádio, a gente ouvia.

ESTUDOS
Iniciação musical

Eu estudei até o segundo grau. Cheguei a fazer um vestibular no Rio de Janeiro. Tive que voltar lá para refazer. Mas nessa época eu já estava no Rio, eu fui em 66 nesse lance da música, por exemplo, como é que a música pintou para mim a partir dessas influências aí. Quando eu tinha 12, 13 anos para 14 pintou Beatles. E a gente freqüentava a Rua do Vintém, que era um lugar na cidade, no centro da cidade. E a gente tinha umas amigas ali, o Serginho Egito, uma turma. O Serginho Egito tocava violão. E então todo mundo influenciado eu comecei a tocar violão, fazer pose para as meninas, tal. E foi aí que eu comecei a me interessar por música e tocar realmente. Isso 64, mais ou menos, 63, 64, 65. 66 com o lance dos Beatles, eu me juntei a alguns amigos: o Tinho Natirone, o Evandro irmão dele, o Fernando, em Vitória, tudo em Vitória . Eu morava na Rua Antonio Aguirre, era uma rua na Cidade Alta, uma casa enorme. E a casa do Tino era tipo a sua casa lá de Santa Tereza. É aquela casa que estava sempre cheia de gente; era uma casa de muita gente. E ali a gente ia, era o quartel general. E dali a gente fundou um grupo chamado Les Enfants. Era para ser diferente (RISO). Tudo era The não sei o quê, the não sei que. “Pô, vamos fazer um negócio: Les Enfants.” E aí eu comecei a tocar iê-iê-iê. Foi a primeira coisa que eu comecei a tocar, entendeu, no Golfinho. O Clube Golfinho, a primeira apresentação da gente foi lá. Nessa época eu fiquei… nós ficamos em Vitória, com esse grupo, de agosto até o quê? Dezembro. E a gente começou o grupo em agosto, em setembro morreu um componente do grupo, assassinado. Assassinado não, desculpa. Ele tomou um tiro e, na época, a versão que rolou é que a arma disparou. Eu não sei bem a história como é que foi. E o Fernando, aí nesse lance do Fernando a gente fez. Bom, nessa época, Vitória como qualquer cidade do Brasil tinha assim vários grupos de iê-iê-iê já começando e tal. E aí a gente fez no Carlos Gomes. Carlos Gomes é um teatro muito bonito que tem lá na Praça Costa Pereira. Hoje em dia está bem, ele está conservado e tal. Mas na época ele era um cinema, tinha deixado de ser teatro. Era ao mesmo tempo teatro e cinema. Essa época eu acho que ele parou, deixou de ser cinema. Passava aquelas, como é que era? Passava o filme e depois passava o seriado. Você ia a todas, tinha que seguir aquele seriadozinho. E aí, no dia 31 de outubro de 66 a gente fez um show nesse teatro. E era aquelas cadeiras de pau, com coisa… eu lembro que…, mas lotado cara. Lotado de fã da gente. Todo mundo de cabelo, usava touca no cabelo. Todo mundo de cabelo meio, (RISO) cabelo ruim, e passava touca no cabelo para o cabelo ficar lisinho e tal. Eu lembro que uma… caiu uma fileira de cadeira inteira para trás. O pessoal falou que parecia o efeito dominó. (RISOS) Muito interessante.

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Moda

As roupas… era o que pintava. Eram aquelas calças largonas, pantalona que falava? Aqui em cima. Isso já foi um pouco mais tarde. Usava o que? Um cinto largo aqui na cintura. Calça saint-tropez. Calça de brim com um vinco aqui no meio. Marcado com a máquina mesmo, não é? Você fazia, tinha aquele vinco assim até embaixo.
Dançava twist, lógico. Tinha o João, lá em Vitória tinha um camarada que era do Rio, freqüentava sempre lá. O Johnson. Tinha o Johnson e o Edson, como era o nome dele, rapaz? Não lembro, mas ele era de Niterói. E essa turma, eles iam passar verão em Vitória sempre. Então eles chegavam sempre com uma novidade, entendeu? Quando eles chegavam aí já via: “Pô, vou ver o que o Johnson, tal, o passo novo que ele aprendeu.” Porque não tinha comunicação. Vitória, para você chegar no Rio de Janeiro era uma viagem de um dia de carro, entendeu? Eu lembro uma viagem que eu fiz com meu pai em um candango. Em 59 a gente saiu de Vitória de manhã, fomos chegar no Rio de Janeiro no outro dia, meio-dia, mais ou menos. De passar, de pegar desvio para cá. Pô, tivemos que dormir em Campos, cara. Campos fica a 200 e poucos quilômetros de Vitória, entendeu? (RISO) Era muito legal. Só tinha asfalto de Campos para o Rio. A estrada antiga passava ali em Saquarema. Saquarema não, Macaé. Entrava em Macaé e tal.

Músicas que ouvia
Orquestra, eu gostava muito das… dos caras… Glenn Miller, entendeu, essas músicas. É, o… Frank Sinatra. O Frank Sinatra, o Ray Conniff, por exemplo, era o rei das festinhas de arrasta-pé; chamava de arrasta-pé. Freqüentava, por exemplo, as matinês; as matinês não, as domingueiras do Álvares Cabral. É um clube grande que tem lá. Mas na época, a sede do Clube Álvares Cabral era em um prédio que tem na Praça Costa Pereira e até hoje se chama Edifício Álvares Cabral. E lá eu ia à domingueira. O primeiro professor de violão que tive, que é o Maurício de Oliveira, grande músico de lá, pessoa importante. Ele, o Maurício, dava aula e é um cara que está na ativa. Mas o Maurício foi, na verdade, a referência de todos os músicos que apareceram por lá, entendeu?. Ele tinha um grupo chamado Vaga-lume. Trio Vaga-lume. Junto com o Hélio Mendes e Cícero Ferreira, que era um trompetista muito bom, também, de Campos. E eles faziam a domingueira do Clube Álvares Cabral. E eu cansei de perder o ônibus. O ônibus lá só tinha até a meia-noite. E a domingueira terminava a meia-noite. Então ficava assim uma distância, o ponto de ônibus ficava a uma distância de uns três quarteirões desse clube. E eu morava na Praia do Canto. Esse lugar onde eu falei, Praia de Santa Helena. Que ficava mais de uns cinco quilômetros de distância. E tudo mato, não tinha muita iluminação. Rapaz, cansei de ir a pé para casa nessa época, por não querer sair 10 minutos antes da domingueira. “Não, tem mais uma.” Aí uma mina ali, não sei o quê… Quando eu via, chegava, saía correndo, embalado. Chegava no ponto, o ônibus “pá”, estava indo embora. Aí ia a pé.

Cinema e Gibis
Vitória tinha muito cinema. Tinha o Cine Glória, o que? Cine Vitorinha, Jandaia. A gente ia para a porta do cinema, levava gibi. Ah, eu gostava de ver, naquela época a gente era muita Chanchada. Era o cinema nacional, Oscarito. E inclusive, por exemplo, João Gilberto eu lembro que a primeira vez que eu vi João Gilberto foi em um filme chamado, era um filme faroeste. Ambientado no faroeste. Com, acho que era o Ankito e o Grande Otelo, Matar ou Correr. É isso aí. Que o João Gilberto ia cantando Maria Ninguém em um trem. Dentro de um trem cara. Pô, demais aquilo. E vi o que? Ah, a gente via o que passava lá mesmo. Basicamente era o faroeste da vida. Aqueles grandes faroestes lá, de tarde. Levava revista para trocar. De repente chegava em casa trocava a revistinha: “Pô, está faltando uma página.” (RISO) No domingo seguinte ia lá reclamar. Os gibis da época eram Rock Lane, Roy Rogers, Gene Alt, Bill Elliot. Era por aí. E O Guri. Mioka, a Rainha da Selva. O Palome Cassidy.

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Rio de Janeiro

Pois é, eu nesse negócio do Les Enfants. A gente depois desse show no dia 31, a gente se empolgou. E aí veio o verão e nós fomos para Guarapari e tocamos em um lugar chamado Choupana. Nós abrimos um show de um grupo chamado Brazilian Beetles, lembra na época? O Brazilian Beetles, fez algum sucesso. Pouca coisa. Mas era uma cópia em cima do lance dos Beatles, não é? Eu nem lembro bem como era a música deles que fez sucesso. Mas aí nós fomos abrir, fazer a abertura. E o empresário desse cara, desse grupo, eu não lembro o nome dele. Eu sei que ele encheu a bola: “Rapaz, vocês têm de ir para o Rio.” E aí ficamos naquela empolgação de ir para o Rio. Eu com 17 anos. “Vamos para o Rio.” E aí fomos para o Rio, mudamos para o Rio. O Tina tinha um irmão, não lembro o nome dele também. Ele morava na Avenida Atlântica. E nós fomos direto para o Rio, e baixamos na casa dele. Morava em um apartamento na Avenida Atlântica perto da Cerqueira Campos. E um apartamento de frente para o mar. E nós ficamos ali um mês, chegando. Mas é lógico que a gente não ia morar ali, não é? Depois ele arranjou um apartamentinho para a gente morar. (RISO) Nós fomos morar no Bairro de Fátima. (RISOS) Bairro de Fátima… É, afastado do mar. Mas era o grande lance. Bairro de Fátima fica ali depois da… perto da Mendes Sá. Depois do Arco da Lapa. E ali foi legal pra caramba para mim. Porque eu conheci, comecei a conhecer o Rio antigo ali. A Lapa. A Lapa tinha um, eu vinha, tinha os bondes ali ainda. Tinha um café, em frente ao Automóvel Club. É Automóvel Club que tem ali no… Isso? 1966. E eu lembro que tinha um jornal chamado O Sol, lembra desse jornal? O Sol? Eu lembro que toda vez que a gente voltava ali, tinha um cara vendendo esse jornal. Era um jornal de vanguarda na época. E a gente freqüentava ali… tinha um chocolate quente que tomava ali toda noite. A gente foi morar nesse apartamento e era um apartamentozinho, quitinete, rapaz. E o Lenis, que era o baterista, morava… ele tinha uma mãe. A mãe dele morava na Prado Junior, em Copacabana. Eu lembro que ele (RISO), o Lenis, a gente brincava com ele, que ele andava, para mostrar que era baterista, ele andava com um prato, carregando (RISOS) aquele prato para cima e para baixo. Onde ele ia, ele ia carregando o prato. E tirando aquela onda. Cabeludão, com um prato na mão. “Porra, o cara é baterista” (RISOS). Passaporte. Eu lembro que nesse, mas antes da gente ir para esse apartamento, logo no primeiro mês que a gente chegou lá, fomos conhecer a cidade. E chegamos no Rio. Quando a gente chegou no Rio, cara, que a gente, cara, pô. A gente achou assim: “Vamos para o Rio e vamos, não é?” Quando a gente chegou no Rio, cara, tinha um grupo igual o nosso, ou melhor, e cada esquina do Rio tinha um grupo desse assim. Eu lembro que a gente tocou, nesse embalo de coisa, nós tocamos sabe aonde? Em cima da marquise da Sears em Botafogo (RISOS) e a gente tocando ali. O som ruim para caramba, não estava chegando lá embaixo. Naquela época não tinha PA como a gente tem hoje em dia a tecnologia, não é? E eu lembro dos alunos do Colégio Andrews ali em baixo, do lado, jogando negócio na gente: “Porra, que bolada é essa aí, cara?” (RISOS) “Vocês são da onde?” Eu tenho umas fotos, vou mandar para vocês depois as fotos desse dia. Bom, aí, o Rio. Foi esse grupo, a gente veio para o Rio. O primeiro grupo que eu vi tocando no Rio foi um grupo chamado Os Nômades, do Renato Terra. Renato Terra é compositor. E o Renato tocava em um clube chamado Radar. Que era um clube de futebol. Acho que é ali em Copacabana, no Posto Seis. Eu acho que eles tinham um time de futebol de praia, uma coisa assim: Radar. Era um clubezinho pequeno e tinha uns aparelhos. Eu lembro que foi a primeira vez que eu vi, era uma novidade no mercado, aparelho Mustang. Era um aparelhinho com reverber. Eles tinham, era tecnologia nova. Era aparelho transistorizado. Na época, antes, era tudo valvulado, não é? Lançaram os aparelhos transistorizados nessa época. E, bom, isso em 66. Mas a gente, eu na verdade nunca fui um bom músico. Eu sempre fui preguiçoso para estudar. E você para ser bom músico tem que queimar, é trabalho mesmo. É trabalho braçal, não é? Mas eu tinha, sei lá, eu tinha uma coisa dentro de mim que eu sempre, por exemplo, as músicas que eu fiz no começo, inclusive, que as pessoas começaram notar. Eu durante muito tempo fiz, sem saber nada do que estava fazendo ali. Eu não entendia. Eu ia fazendo. Talvez até por isso eu tenha desenvolvido esse lance, porque era uma coisa assim: de repente eu ia para um lugar que um cara, às vezes, que tinha estudado não ia. Porque aquilo era contra a regra, a norma, a técnica, não é? E de repente você ia por um caminho que ia pela sonoridade, acabava descobrindo outros caminhos. Então eu, nessa época… aí bom, quando a gente foi morar nesse apartamento a barra começou a ficar clara para quem estava a fim, quem não estava. Eu sei que o Evandro, por exemplo, que era um dos componentes, que era irmão do Tinho tinha uma noiva em Vitória, a Júnia, e deu saudade… Foi o primeiro que largou, e voltou para Vitória. Tinha o Bebeto, o Ringo – ele tinha a cara do Ringo – era o mais bonitinho do grupo. Olho azul, tal. E o Bebeto ele tinha uma tia que morava na rua, no Lins no Rio de Janeiro. Perto do Méier. Rua Aquidaban. E aí nesse lance de freqüentar a Rua Aquidaban a gente foi, começou a ensaiar em um clube chamado Atlas. Que era um clube que tinha lá, na época, que tinha grupo de iê-iê-iê. Nessa época tinha muito grupo no Rio assim, que fazia The Pops, que era um grupo que tocava, fazia sucesso tocando Índia pop, na guitarra. (CANTAROLA) “pa, ra, ra, ra, rara.” Eu não curtia mas fazia muito sucesso naquela época. E as domingueiras do Botafogo, do Clube Botafogo. Freqüentei muito ali. E o Caiçaras também, na Lagoa. Lembra do Clube Caiçaras na Lagoa? Essas domingueiras do… Analfabeatles. Acho que, não sei, até pouco tempo ouvi falar nesse grupo, Analfabeatles. E eu lembro de umas domingueiras fantásticas que tinha lá. Quando o Evandro voltou para Vitória eu arrumei uma confusão com o Lenis, que era o baterista. E aí ficou inviável permanecer eu e ele no grupo. A gente briga até hoje, mas nessa época não deu certo. Eu sei que com a saída do Lenis, eu como era o camarada que tocava guitarra, eu não podia sair – “Sai o baterista.” (RISO) Então saiu o baterista. E aí pintou dois caras, dois grandes amigos. Pintou o Pedro Jorge, que era um guitarrista muito bom, tocava tudo de Beatles. E o Celso, que era um baterista muito legal também. O Celso tocou muitos anos depois aí, até uns 15 anos atrás eu ainda tive contato com ele. Depois não sei. Ele tocava com o Reginaldo… é Reginaldo Bessa? É, Reginaldo Bessa. Ele tocava com o Reginaldo Bessa. Agora, rapaz, agora que eu estou lembrando, impressionante. Na época, eu não percebi esse negócio do Reginaldo. Quando ele falava Reginaldo Bessa, agora que eu estou fazendo a ligação com quem que ele tocava. Ele morava na Ilha do Governador. Bom, e com esse grupo a gente realmente fez um sucesso no circuito. A gente rodava. Big Boy chegou a apresentar. Cansei de ouvir Big Boy apresentar: “Porra, baile hoje com Les Enfant na Ilha do Governador, baile não sei aonde.” A gente chegou a tocar sim em alguns clubes na Zona Norte. Irajá, Ilha do Governador, Tijuca. Freqüentei muito a Tijuca.

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Nome e descrição das escolas

Nessa época eu fui estudar em um colégio também, chamado Cardeal Arcoverde, na Tijuca. Que era um colégio que você, para passar você ia lá, fazia a prova. A prova tinha cinco perguntas. Se você estudasse você tirava dez. Se não estudasse tirava oito. (RISO) Eles davam resposta para as quatro, só quatro, se estudou para tirar dez tem que saber a outra. (RISOS) A resposta da outro. E eu acabei sendo reprovado, cara (RISOS). Foi aí que acabaram os estudos para mim, porque eu faltava, eu gastei a grana do velho. Era um colégio particular e meu velho mandava um dinheiro para pagar o colégio e eu naquela, porra, ia gastando a grana ali, tal. E querendo ficar no Rio. A gente almoçava em um boteco de esquina, tinha aquele PF. Eu sei que eu gastei o dinheiro rapaz, e acabei ficando porque não tinha, eu tinha que pagar o colégio. E os caras para me dar um tempo, me deixaram de segunda época. Os caras falaram: “Vou te deixar de segunda época para você arrumar o dinheiro.” (RISOS) Eu não arrumei porra nenhuma e, pô, acabei sendo reprovado. Ali eu tinha tentado um, eu ia, eu falei: “Pô vou tentar o vestibular” em uma escola que ainda não estava… era uma escola de… eles chamavam de… como é que é? Eles chamavam de Engenharia Operacional. Engenheiro operacional. Que é técnico, não é? Deve ser. E era uma escola que não era reconhecida. Eu sei que eu fiz o vestibular lá, e, mas não voltei nem para pegar resultado. E eu falei: “Pô, vou embarcar nessa da música…”

Rio de Janeiro
Minha família não morava no Rio, eu morava sozinho. Isso com 18 anos. 17, 18 anos. Morava eu, o Tina. Foi embora todo mundo. Ficamos eu e o Tina morando lá. E o apartamento vivia cheio de meninas. A gente tinha, tinha umas meninas do prédio que freqüentavam lá o apartamento, e o código era aquela música “Ana”, dos Beatles. (Canta) “A-a-na, ta, ra, ra, ra…” Aí botava aquela coisa. Daqui a pouco batia na porta lá: “pém, pém.” (RISOS) e as meninas iam chegando e era aquela farra, tal. Muito legal.

Primeiras composições
Eu comecei antes de conhecer a turma de Minas, nesse embalo desse apartamento, foi que eu comecei a compor. E comecei a compor, mas já deixando o iê-iê-iê de lado, 66, e aí foi a época daqueles festivais da Record, Geraldo Vandré, aquele lance todo. Eu comecei a me interessar por isso, fui mudando… Os festivais, exatamente. Chico Buarque. E em 68 eu fiz uma música chamada “Meio Mastro”. E essa música falava de uma porta-bandeira que tinha morrido e tal. Aí pintou o primeiro festival de música popular, influenciado pelos outros festivais, em Vitória. Produzido pelo Milson Henriques. Foi o cara que bolou esse lance lá. Eu entrei nesse festival; essa música de parceria com Tirone. E tinha mais duas músicas minhas, rapaz, que eu não consigo lembrar o nome agora; ainda com o Serginho Egito. E eu sei que acabei ficando com o primeiro lugar, o quarto lugar. Eu ganhei uns três prêmios lá. Aí que eu comecei a minha influência mesmo. Mais desse embalo, mas nisso eu morando Rio, Vitória. E daí para frente a minha vida foi, até os anos 80 – você me conhece muito bem – foi Rio, depois Belo Horizonte e ia para lá. Mas também nunca viajei muito não. (RISO) Ficava nesse circuito. Também eu conheço tudo aqui da região. São Paulo, por exemplo, é uma coisa que eu tive pouco contato com São Paulo. Eu lembro inclusive da história, depois eu vou contar essa história, que nós fomos para São Paulo, que você perdeu a flauta dentro do ônibus. (RISO) Lembra? Você lembra disso? Pô, você tinha uma flauta boa, que começamos a aprender flauta. Então vamos chegar lá.
Eu comecei a compor e aí… quando foi em 60… bom, eu comecei a compor, depois desse festival eu vi que iê-iê-iê não era a minha praia, entendeu? Abandonei, falei: “Vou para a música popular, vou curtir essa onda aqui.” Estava mais interessante. Participei desse festival em 68, e 69 também eu ganhei um prêmio lá. Mas eu morando no Rio, fui morar em… mudei. Saí dali fui morar em Copacabana com um amigo meu chamado Zé Antonio Castelo. Hoje em dia ele é juiz de Direito; já aposentado em Vitória. Mas na época ele morava no Bairro Peixoto. Morava na Décio Vilares. E nesse bairro, era um apartamentinho também, que a gente vivia ali, curtindo aquela onda de Rio de Janeiro, não é, bicho? Praia, muita mulher, e sabe, aquela onda toda. Você queria… imagina você sair de Vitória. Hoje já é bom (RISOS), imagina aquela época. Você sair de Vitória, chegando no Rio de Janeiro querendo curtir a onda. Nesse lance tinha a Anita, Rua Anita Garibaldi que saía ali da Barata Ribeiro e ia direto lá para dentro. Um dia eu passando em um barzinho ali, dei com um cara tocando violão e fiquei conhecendo esse cara, tocando Bossa Nova e tal. Ernani Marone. O primeiro cara, que eu conheci no Rio dessa onda, nessa praia. O Ernani gostou do meu toque, das minhas músicas que eu estava começando a fazer. E ficamos amigos. Um dia ele pintou lá em casa e falou: “Chico, nós vamos na casa da Regina que é uma amiga minha – que morava ali perto do túnel velho – e a Regina é uma pianista muito boa. E tem um pessoal aí que foi classificado agora nesse festival. Festival Universitário”. Havia tido o festival universitário e o Gonzaguinha havia ganho com “O Trem”; Ivan Lins, “Madalena”. “Tem o pessoal do grupo”. Mas eu não conhecia ninguém. Ele falou: “Tem o pessoal que freqüenta lá a casa, toda quarta-feira a gente vai para lá fazer um sarau, e mostrar música um para o outro.” E eu fui, a gente morava perto, a gente foi o primeiro a chegar. Daqui a pouco começou a chegar. E chegou o Gonzaguinha, chegou o Ivan Lins, chegou o César Costa Filho, e foi chegando uma turma tal. E a gente mostrando música ali. Esse aqui é o Chico e tal.

MÚSICAS
“Amigo é Pra Essas Coisas”

Eu lembro que esse dia foi incrível. De repente bateram na porta. Não, eu vi eles telefonando: “Pô, você não vem, não sei o que,” Não sabia quem era. Daqui a pouco bateram na porta, e eram dois caras altos, de óculos, um de óculos outro com barba. E um com um papel na mão assim ó, e o outro com um violão. Eles tinham acabado de fazer a música. O outro que veio escrevendo a letra veio escrevendo dentro do trem. Falou: “Ó, a última palavra saiu dentro do túnel velho.” Era o Aldir Blanc e o Silvio da Silva Junior. E aí cara: “Ó, vamos ouvir.” E Aí juntamos ali na sala, e sentamos todo mundo junto. Cada um segurando um papel assim. Porque a letra era recente. E foi a primeira vez que eu ouvi: “Amigo é para essas coisas”. Eu fico emocionado. (CHORA)
(Pausa)

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Festival da Globo

“Vamos larem.” Aí, a Regina eu lembro dela porque ela tinha um gato; o gato suicidou, rapaz. Pulou lá do… gato tem um negócio de som, eu sei que teve um negócio de som lá que ele pulou do nono andar e… Nessa aí, bom, eu conheci essa turma, e daí a gente passou a freqüentar, foi a única vez que eu fui na casa da Regina. Mas fiquei amigo da turma e a gente passou a freqüentar a casa do Paulo Emílio, na Tijuca. E toda sexta-feira tinha um sarau lá que a gente se reunia e tocava. E nesse meio tempo o Ernani, depois eu conto essa história da casa do Paulo Emílio que tem um fato interessante. Mas esse negócio do Ernani, como eu conheci a turma, o resto da turma dos mineiros. Que foi o seguinte: foi através do Festival da Globo. Mas como eu entrei no Festival da Globo? O Ernani passou um dia na minha casa e falou: “Chico, eu e Regina alugamos um estúdio na cidade, no centro da cidade, para a gente gravar umas músicas para mandar para o tal festival.” E eu nunca tinha entrado em um estúdio, cara. Falei: “Pô, vamos lá.” “Quer ir com a gente? Vamos embora.” E por sorte foi eu e o Zé Antonio. O Zé Antonio foi também. Eu achando o maior barato, eles gravando ali as músicas. A Regina tocava muito bem. E quando foi no final da – eles tinham alugado por duas horas o estúdio – no final eles, o Ernani falou: “Chico, aí ó, ainda tem um pedacinho de fita lá cara. Ainda tem 15 minutos. Você não tem nenhuma música para botar aí não?” Aí eu virei: “Pô, Zé, tem aquela música, tal. Mas não tem, a letra não está terminada ainda. Você consegue terminar aí?” “Vai, vai, manda para mim.” Eu sei, cara, que naqueles 15 minutos ali, a Regina escreveu a cifra, deram uma ensaiadinha, uma passada, vamos lá. Pá, e mandamos a música. E eu, porra, não estou nem aí para o festival. Porque naquela época eu não tinha televisão. Era um veículo, por exemplo, no Rio de Janeiro não tinha esse… Você só pegava o canal local, ali mesmo. E o meio de comunicação mais freqüentado era o jornal. E as pessoas viviam comprando jornal todo dia. Quem estava inscrito comprava O Globo todo dia para ver se o nome, se saiu alguma coisa do festival. Porque ia saindo aquelas notícias e tal. Você inclusive estava no mesmo festival, você lembra disso. (RISO) É, Correntes, um negócio com Correntes, você e o Toninho. E aí foi passando, foi passando o tempo, foi passando, passando. O jornal saía, aí de vez em quando saía aquela lista, por exemplo, a lista das quatro primeiras, das duas mil selecionadas. Aí saiu uma página inteira com aquelas letras pequenininhas, rapaz, que o cara tinha que ficar procurando ali aquele negócio. E foi saindo a lista das duas mil. Saiu lista das mil. Lista das 500. Lista de, eu sei cara, que eu não estava nem aí nesse festival. Um dia a gente devendo aluguel lá, já para ser despejado, bate na porta. Bateram na porta cara, aí o Zé Antonio falou para mim assim, o Zé Antonio que o apartamento estava no nome do irmão dele. Ele falou: “Chico, eu não estou nem em casa. Fala que eu não estou em casa.” Aí eu abri com o pega-ladrão ali só, entreabri a porta assim. Olhei, era um senhor de terno. O seu Cícero. Eu lembro dele até hoje. Com a pastinha James Bond na mão, e uma folha na mão e um envelope assim. “É aqui que mora Francisco José Viana Lessa e José Antonio?” Eu falei: “Porra, é a polícia, não é possível.” (RISO) Ó, com nome completo, tal, aí eu quis disfarçar com ele, falei: “Não, não sei o quê.” Aí ele deu uma gargalhada, cara: “É por isso que ninguém encontra vocês.” Rapaz, tinha um carro da Globo na minha porta. (RISO) Me esperando. E aquela era a última tentativa deles me acharem. Já tinha duas músicas lá de stand by para entrar no meu lugar. A gente desceu, cara. Porra, mandamos ele entrar, fizemos café, descemos, fomos para a Globo. Chegou lá, Marzagão na porta me esperando. Mandou eu entrar. Tinha um cara dentro da sala dele, me apresentou. Falou: “Esse aqui é o maestro Eumir Deodato. Você está classificado, bá, bá, bá.” Aí ele dirigiu: “Olha, você se importa se o Eumir fizer o seu arranjo?” Eu falei: “Ah, que é isso rapaz.” (RISO) Eu não sabia, eu não tinha nem noção ainda de Eumir Deodato.

Tavito, Marcio Borges e Toninho Horta
E foi nessa que eu entrei e acabei conhecendo você e o Toninho. E nesse embalo do Toninho, teve uma pessoa mais importante que foi a pessoa que me agregou a vocês aqui, o Tavito, grande Tavito. A gente, eu ainda não lembro direito assim, como é que foi o Tavito. Eu acho que o Tavito pintou também nesse embalo da gente estar junto ali, o Toninho. Mas a gente se identificou demais. Eu o Toninho chegamos até a morar juntos, dividir apartamento. O Tavito. E o Tavito foi o cara que me colocou no meio disso aqui tudo. Que… Nesse lance do Rio de Janeiro ainda, antes de vir pra cá, a primeira coisa que eu fiz com o Tavito foi vir a Belo Horizonte. E ficamos na casa dele lá na serra, onde ele morava com o Cancando, os pais dele, tal. Conheci o Toninho Horta em um bar que tinha ali na… era um barzinho que tinha ali perto da Savassi, eu não lembro o nome do bar. Eu lembro que eu fiquei impressionado com o Toninho, mas nem, ele tocou “Iara Bela” nesse dia, mas o que mais me impressionou foi ele fazendo uma imitação de um bêbado e de um cowboy. Ele imitando… tinha uma imitação que ele fazia desse bêbado, não sei se você lembra disso. Ele era gaiato nessa época.

Ivan Lins, Márcio Borges e Milton Nascimento
Mas o meu contato com você foi através… Eu tinha ido na casa do Ivan Lins. O Ivan morava na… A Lucinha Lins, a Lucinha era noiva do Ivan, ainda. E morava ali na Paulo de Frontin, na saída do túnel. Não tinha nem túnel ainda. Morava ali. E eu fui na casa dela, eu tinha um cabelão enorme. E passamos a tarde ali. E o Ivan me ensinou, o Ivan falou: “Chico, olha o que é que eu descobri aqui.” E me mostrou uma afinação no violão não convencional que ele acabou – eu estive com ele há pouco tempo – nunca usando aquela afinação. Eu sei que eu acabei usando aquela afinação e compus “O Tom de Sempre”, naquela afinação. Que foi uma coisa que bateu na cabeça de todo mundo. Porque era uma coisa diferente, era uma sonoridade diferente. E foi daí que partiu, e você botou a letra, não é? A gente fez o lance. E essa música foi um marco para mim. Porque era um negócio… foi um negócio diferente, realmente. Eu lembro que o Bituca… eu conheci o Bituca na porta do teatro, Teatro da Praia, e ele virou para mim e falou: “Cara…” O Tavito me apresentou, ele já tinha o Tavito. Aí o Tavito virou meu… meu rádio. Ele que tocava as minhas músicas e ia mostrar para os outros. Ele tinha mostrado para o Bituca, o Bituca falou: “Mas rapaz, você que é o Chico?” Ele falou: “Pô, já ouvi uma música sua que é uma das coisas mais bonitas que eu já ouvi. Vou gravar essa música.” E ele acabou não gravando essa música. Ela foi censurada na época. Lembra disso? Foi censurada e eu só consegui gravar essa música no disco Os Borges, em 81. E, bom, e aí foi que começou o lance dos mineiros.

1.º Festival Estudantil da Canção (FEC)
A primeira vez que eu vim a Belo Horizonte, que eu conheci Santa Tereza, foi naquele festival que o Conde ganhou com aquela música da água. Como era? Era uma música… Não sei se foi o Conde que ganhou. Aquele festival que tinha ali perto da Praça Raul Soares, O Primeiro FEC, exatamente. E você lembra… O Eduardo Conde defendendo uma música do Paulo Machado. Grande Paulinho Machado. Cadê Paulinho Machado, nunca mais vi Paulinho Machado. Bom, foi aí que eu comecei, eu conheci Santa Tereza, a sua casa. E aí começou a amizade e o intercâmbio.

Tavito, Zé Rodrix, Naná Vasconcelos, Marco Antônio Araújo

Ah, sim, o Luis Afonso. Quer dizer, nesse embalo eu fui morar, a princípio eu e Tavito a gente morou junto na Rua Santa Clara. E o Naná, o Naná morava ali na Travessa Angrense, do lado. Morava ali. Depois a gente mudou para a Francisco Sá. Aí foi morar eu, ele, o Tavito, Zé Rodrix e o Marco Antonio Araújo, que era daqui. O saudoso Marco Antonio. Ah, bom, nesse lance, antes disso aí eu conheci também, o primeiro grupo que eu conheci aqui na verdade, nessa época que o Tavito me trouxe aqui, foi o grupo do Marco Antonio. Que era um grupo de rock, eu não me lembro o nome dele. Tocava um show que eles fizeram aqui no Stage Door. Era um… Não, eu não lembro o nome dele não. Era… Foi o primeiro grupo que ele tinha, rapaz. Bom, a gente morava junto ali.

MÚSICAS
“Casa no Campo”

Nessa coisa um dia eu cheguei em casa, nesse negócio de ouvir a primeira vez também (RISO) eu ouvi “Casa no Campo”. Um dia eu chego em casa está Zé Rodrix e Tavito na sala de madrugada. “Vem cá, vem cá ouvir um negócio aqui.” Eu ouvi “Casa no Campo”.


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Luis Afonso
Ah, o Luis Afonso nessa mesma época morava ali perto, na rua do Teatro da Praia ali, é Teatro da Praia, não é? O Luis Afonso, eu conheci o Cláudio e os irmãos gêmeos. O Cláudio e o Paulo. E o Maurício Maestro, que depois veio a ter um grupo com o Paulo, Cláudio e o Maurício. Mas nessa época pintou, eu fui classificado para um festival em Vitória, e eu não tinha dinheiro para viajar, cara. Eu estava classificado e não tinha dinheiro para viajar. E o único dinheiro que tinha em casa era o dinheiro do Tavito que era do aluguel. (RISO) O Tavito tinha viajado, tinha deixado dinheiro para o aluguel. Aí eu falei: “Porra, como é que nós vamos para Vitória, cara?” E o Cláudio: “Pô, temos que ir, tal.” “Eu vou pegar o dinheiro do Tavito.” (RISO) Aí peguei; o Tavito ficou puto comigo. Mas depois eu repus o dinheiro para ele. Ele acabou pagando o aluguel. Eu falei: “Vamos arriscar, vamos para Vitória. Foi eu, o Paulo e o Cláudio. Viemos para Vitória. Eu lembro que o Luís Afonso foi levar a gente na rodoviária e o ônibus já tinha saído, bicho. Aí nós saímos embestados pela Avenida Brasil atrás do ônibus. E como é que pega ônibus? Fomos quase na entrada de Petrópolis e voltamos para… as passagens na mão. Não tinha mais dinheiro para comprar passagem. A sorte que o ônibus era mais cedo. Quando a gente chegou lá ia sair o último ônibus, ainda tinha uns lugares. A gente contou a história para os caras lá. Os caras embarcaram a gente no ônibus… a gente conseguiu chegar para o festival. E tiramos segundo lugar com essa música. Nessa época, isso em 69, foi 69? 70. Eu lembro que depois o… esse festival foi legal. Era Luis Carlos Maciel, do Pasquim. Era o Rubinho Gomes, que era a turma que tinha lá, que era a turma de vanguarda lá da época. Rubinho Gomes, Alaerte, o Aprígio. O Aprígio cantou, ganhou com “Agite Antes de Usar”. Tinha o Zé da Bahia também, que era um compositor. Ele era baiano e teve influência lá na época. Depois o Zé sumiu, nunca mais se teve notícia do Zé. Mas eu lembro que nessa época o… logo depois pintou uma, no Pasquim; no Pasquim não. Acho que foi o Luis Carlos Maciel que escrevia… eu acho que era o Última Hora. Tinha uma coluna. E pintou lá. Ele comentando sobre o festival, falando sobre a influência da minha música. Que ele tinha achado interessante. Era uma música aliás nossa, não é? “Você Tem que Saber”. Foi nossa segunda parceria. E, como é que é? A Beth Faria, eu tenho uma foto lá com a Beth Faria me entregando o prêmio. Ontem eu a vi na televisão, inclusive. O Paulo, o Cláudio e o Maurício. Que é que eu ia falar? Eu esqueci o que eu ia falar. (RISO)


Fredera, Som Imaginário

Fredera. Nessa época eu conheci o Fredera também. O Fredera também foi um cara muito importante da minha vida. O Fredera essa época fazia macrobiótica. Tudo para ele era macrobiótica, cara. Casado com a Marilene, isso mesmo. Casado com a Marilene. Ele havia sido professor. A gente morava em Santa Tereza perto do, como é o nome daquele largo ali, do Curvelo? É Curvelo, não é? Curvelo, exatamente. E o Fredera fazia macrobiótica. E por influência do Fredera eu acabei gravando, quero dizer, foi, o Som Imaginário gravou. Eu tive a honra de ser gravado pelo Som Imaginário. Ah, o Som Imaginário, eu tenho uma particularidade. Eu vi o Som Imaginário surgir em uma mesa no Sachinhas. Lembra do Sachinhas lá? A gente freqüentava nessa época… O José Mynssen, não é? Isso, pois é, o José Mynssen e a, como é o nome da… Maria Mynssen, não é? E ele foi o primeiro produtor, na verdade, do Milton. Ele ia produzir um show do Milton e queria formar um grupo para acompanhar o Milton. E a gente… foi marcada uma reunião lá no Sachinhas. Eu lembro que o Mariozinho Rocha estava também nessa ocasião, acho. Eu lembro que foi, aí chegou o Luis Alves, Robertinho Silva, o Zé Rodrix, tal. E ali foi formado o Som Imaginário. Eu freqüentava ali do lado do Sachinhas, tinha aquela boate lá da Waleska, Fossa, não é? Era um negocinho pequenininho, do tamanho dessa sala. Todo mundo se amontoava ali.

Francis Hime, Ciro Monteiro, Agostinho dos Santos, Mariozinho Rocha e Grupo Vox Populi
Ali eu conheci Francis Hime. Eu saí dali uma noite, por exemplo, com Ciro Monteiro e Agostinho dos Santos, cara. Eu garoto ainda, os dois já, os dois contando história um para o outro, e eu ali do lado deles. Aí eu perguntava um negócio; Ciro Monteiro: “Mas meu filhinho, a vida é assim.” Fomos tomar café na Princesa Isabel. Na esquina da Princesa Isabel. O Agostinho morreu naquele ano. Logo depois, em um acidente ele faleceu. O Ciro nunca mais vi depois disso. Bom, mas em uma dessas idas ali na Fossa, da boate, eu conheci o Mariozinho Rocha. O Mariozinho era produtor de disco. E estava produzindo o disco na Musidisc, de um grupo chamado Vox Populi. Que tinha o Fernando Leporace, Guto Graça Melo, GG de bateria, Laudir de Oliveira. Laudir eu encontrei com ele agora recentemente em Vitória, no projeto Pixinguinha. Ele com Chiquito Braga. Chiquito Braga também era outro da época. Pô, cansei de comer macarronada com ele ali perto da, como era o nome daquele lugar ali, que tinha na Prado do Júnior, o Beco da Fome. Em frente o Beco da Fome. E ali, em uma dessas noites que eu estava ali, também toquei. Esse lance de tocar uma música, estar mostrando música. Toquei uma música também que não tinha letra. Aí o Mariozinho: “Cara, eu quero essa música para gravar amanhã com – amanhã, hein – o Vox Populi.” Aí Zé Antonio, foi o outro, mais uma vez: (RISOS) “Zé Antonio, você se vira até amanhã para a gente conseguir.” Chegamos lá, chamava-se “Caleidoscópio”. Era a faixa um desse disco do Vox Populi. Aquela época o disco tinha a faixa um e eram as mais importantes, não é? Porque quando ia chegando para o final ela ia perdendo a qualidade.

Simone
Freqüentei muito a Odeon, quando tinha o estúdio ali na Rio Branco. E ali eu vi Simone gravar o primeiro disco, eu estava dentro do estúdio, entendeu? A Simone, inclusive, tem uma particularidade. Eu passei uma tarde na casa dela. Ela morava em um apartamentinho, quitinete, ali na pracinha da Gávea, em frente o Jockey Club ali. E eu passei uma tarde na casa dela mostrando músicas para ela. Inclusive uma delas era “Terra Bruta”. Que está gravada naquele primeiro LP meu, com letra do Murilo. Mas a letra não tinha, a música ela se interessou. Eu passei uma tarde lá, ela queria colocar a música, queria letra para aquela música. Acabou que o Murilo, a gente não fez a letra a tempo, e eu acabei não participando do disco dela. A Simone, teve o disco da Simone, e o próprio Clube da Esquina mesmo. A gente chega lá, não é? Pois é. E aí eu vivia freqüentando esses saraus, esses encontros. Deixa eu ver…

Tim Maia
O Teatro Opinião foi o seguinte… Em 69, também. Eu participei do festival em 69 e em 70, em 69 eu fiquei entre os 20 finalistas, na época que ganhou “Cantiga por Luciana”. O Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, que foram parceiros nessa música, tinham no ano anterior emplacado “Andança”, não é? E eu naquele embalo ali acabei me tornando parceiro dos dois também. A gente fez uma música chamada “Vivências”. Essa música no ano seguinte, em 70, foi classificada também para o festival. Só que ficou na eliminatória de São Paulo. Naquele ano eles fizeram uma eliminatória em São Paulo. E foi o ano que eu conheci Tim Maia. Eu estava no quarto de hotel, lembro que alguém chegou para mim e falou bem assim: “Pô, vamos no quarto, não quer…” E o Tim Maia não estava participando do festival não. Ele estava no hotel lá porque ele estava fazendo show em São Paulo. “Vamos no quarto de um cara aqui em cima. Um cara que você vai conhecer.” (RISO) Quando eu cheguei lá, cara, o quarto era uma fumaceira, bicho. Um negócio. Garrafa de uísque para tudo quanto é lado. Uma zona do caralho. Era Tim Maia. O quarto do Tim Maia. Depois eu tive um outro encontro com ele, mais tarde, quando o papa esteve no Rio. Fui na casa do Tibério Gaspar. O Tibério Gaspar morava em uma casinha ali na Rua da Passagem. Em Botafogo tinha uma vila e ele morava na última casinha, salinha pequenininha. Rapaz, eu entro na sala, está os dois gordões assim, era uma mesinha redonda assim. A televisão no quarto, eles com um baseado desse tamanho na mão, dessa grossura. Fumando e vendo o papa na televisão. Essa foi a imagem que eu tinha (RISOS) do Tim Maia.

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Teatro Opinião

Esse negócio do Teatro Opinião. Nesse lance, nessa música que eu fiz com o Paulinho e o Edmundo acabou sendo gravada pelo grupo Umas e Outras. Fazia parte a Malo, que é daqui de Belo Horizonte, não é? E a Dorinha Tapajós, que era irmã do Paulinho. Já falecida, que depois foi do Quarteto em Cy. E eu lembro que em uma dessas visitas, eu com o Tavito. O Tavito era meu escudeiro, um do outro. A gente andava junto para tudo quanto é lado. E nós fomos na casa da Malo, um dia, e foi o dia que eu conheci o Nelsinho Ângelo. Nelsinho era amigo dela também daqui, não é? E eu sei que lá pelas tantas o Nelsinho virou para mim: “Chico, você está fazendo o quê agora?” Eu falei: “Ah, eu não estou fazendo porra nenhuma.” “Vamos comigo, vamos lá para o Teatro Opinião, porque vai ter uma parada lá.” Naquela época a CCC (Comando de Caça aos Comunistas) havia invadido a peça do Chico Buarque lá em São Paulo, o Roda Viva. E era um tempo de repressão e não se podia divulgar nada. Shows, era tudo proibido. E a gente fazia boca a boca na praia: “Hoje à tarde tem show em tal lugar.” E esse foi um dos shows que teve no Teatro Opinião, do qual participaram o Chico, quando eu conheci o Chico, a primeira vez. Aliás tem a história do Chico depois para contar, na seqüência disso, os meus encontros com ele. Era o Chico, o Marcos e Paulo Sérgio Valle. Se não me engano o Macalé também estava nessa época. Eu não sei. Eu sei que eu fui, e eu crente que eu ia ver o show. Eu falei: “Porra, legal que eu vou ver o show.” Mas não, eu cheguei lá o Nelson Ângelo falou: “Chico, a história é a seguinte: o show a situação é essa, essa e essa. E nós temos que tomar conta dos arredores.” Então, na verdade eu fui para lá, nesse show do Chico, eu fui segurança do show. É, eu, o Paulo Diniz. Eu lembro que eu ficava na escada, o Paulo Diniz ficava na portaria lá. Tinha outro que ficava na esquina. Rapaz, era um bando de gente e todo mundo com código de assobio. Se acontecesse qualquer movimento suspeito. O Paulo Diniz, e foi nessa o meu primeiro contato com eles. No Teatro Opinião.

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Ditadura Militar

Na época eu não tinha consciência ainda do tamanho da coisa. Quero dizer, eu fui saber, eu sabia, eu não tinha assim consciência do movimento todo. Eu sabia da revolução, aquela coisa toda, eu fui tomando. E daí eu tive músicas, por exemplo, censuradas. Não só o “Tom de Sempre”, mas com outros parceiros: Ronaldo, um amigo meu de Vitória. E a gente tinha uma música chamada “Tábula Rasa” também que foi censurada. Eu lembro que uma vez eu fui chamado nesse negócio, o dia que eles censuraram essa música me chamaram lá e o cara sentou na minha frente. E fazendo… Isso em Vitória, me chamaram na Polícia Federal, para dar informações sobre a letra. Uma delas era o “Tom de Sempre”, também. E o cara fazendo, querendo me pegar. Ele fazendo assim, querendo ver minha reação talvez, com o olhar e a atitude. Ele com um cigarro Capri. Lembra do cigarro Capri? Era um cigarrozinho desse tamanho, menor. Ele com um cigarro Capri assim na minha frente, fazendo perguntas – “E você freqüenta aonde? O que é que você faz?” – E aquele negócio todo de praxe. E depois ele viu que não tinha nada a ver comigo. Que eu não era um cara perigoso e tal. Mas nessa época, por exemplo, eu tinha, eu conheci gente assim que me chamou para assaltar banco, por exemplo. (RISO) E eu, eu falei: “Não, cara, que é isso.” Isso era uma opção, exatamente. Era um negócio assim que eu, na época, pô, eu falei: “Não, não vou chegar a tanto.” Mas eu cansei de ver amigos meus, pessoas próximas que se engajaram realmente nessa luta. O Alex Polares, que eu fui conhecer depois também, foi uma pessoa… E nessa época a gente tinha… quero dizer, cabeludo, ninguém fazia mal a ninguém cara. Mas era visto como um perigo. Não cheguei a participar do movimento de libertação dos presos políticos, não lembro não, Marcinho. Eu acho que não. Não. Mas aquele negócio das passeatas, eu estava ali, mas não chegava…

Vinícius Cantuária e Chico Buarque
A do Chico é muito engraçada. Bom, eu nunca mais vi o Chico. E eu sempre fui fã do Chico, sempre quis conhecer o Chico. Mas não, e acabei não conheço ele até hoje. A gente nunca teve. Mas uma vez eu cheguei a ir no campo de futebol que ele tem lá no Rio, não lembro com quem que eu fui. Não sei se foi com você que eu fui lá, cara. Eu sei que eu fui lá com alguém. Mas também não tive, ele estava jogando bola lá, mas eu de longe, só tiéte assim, olhando. Não cheguei perto, nem nada. O Chico Buarque, há um tempo atrás, quando ele fez aqueles “Cantando no Toró”, fez uma excursão pelo Brasil e foi parar em Vitória, no Ginásio do Álvares, não lembro do ano, mas isso já tem um bom tempo. Porque o Vinícius Cantuária, essa música, inclusive, voltando um pouquinho, essa música que eu participei da final lá em São Paulo, ela foi defendida pelo O Terço. Sérgio Hinds. E o Vinícius Cantuária era o baterista. E daí nossa amizade desde aquela época. E o Vinicius nessa época estava tocando violão. Havia feito sucesso com “Lua e Estrela”, estava começando, e tinha feito “Silvia”. E eu sei que quando cheguei em casa a minha mãe virou para mim e falou assim: “Chico, o Vinicius ligou para você e está precisando de você lá no Teatro do Álvares. Ele quer alguma coisa com você.” Aí eu fui lá para o teatro. Cheguei lá, o teatro enorme, e o palco grande, alto e o Vinicius estava sentado assim do lado direito do palco, passando lá o negócio. Aí eu virei: “Pô, Vinicius, e aí o que é que houve, rapaz?” “Não, Chico, eu estava precisando de um negócio aí mas não estou mais não. Já vou falar contigo.” “Tá bom.” (RISO) Nisso eu olho para o centro do palco, tinha um cara passando som com violão. E eu olhei, com a cara do Chiquito Braga, cara. Aí eu virei para o Vinicius e falei: “Vinicius, quem está ali é Chiquito?” Aí Vinicius olhou: “É.” Aí eu fui, bicho. Cheguei em baixo do cara, o cara passando o som. Eu falei: “Porra, Chiquito. E aí Chiquito?” O cara olhou para mim, com violão, e eu estava contra luz, não dava para ver direito. Eu falei: “Chiquito? Pô, Chico rapaz” Aí achei ele assim. Eu falei: “Meu, rapaz…” Aí falei: “Você não é o Chiquito?” Aí ele falou: “Bom, sou.” Quando ele falou sou, cara, não era o Chiquito, era o Chico Buarque. (RISOS) Aí cara, ele até hoje não entendeu aquilo. Ele olhou bem: Chiquito? Porra, até hoje tem uns amigos meus que eu contei isso lá em Vitória, que me chamam de Chiquito por causa dessa história. “E aí Chiquito?” Chiquito Braga, é. Chiquito Buarque. Muito engraçado isso. E depois nunca mais vi o Chico também. Essa foi a última vez que o vi.

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Clube da Esquina

Para mim foi super legal porque era aquele estúdio da Odeon no centro, na Rio Branco. E a gente, eu freqüentava ali. O Beto Guedes estava, e a turma toda. O Tavito me levou para a gravação. E eu lembro do estúdio. Na época eram dois, eram duas mesas que tinham, cada uma com dois canais, fita. Então você tinha que gravar tudo de uma vez só, bicho. Não tinha aquele negócio de errar não, entendeu? E eu, na verdade, nunca fui músico; eu sou compositor, componho as coisas, mas nunca fui instrumentista mesmo, porque eu nunca me dediquei. E, só que nesse lance lá para fazer gravação, como é que era feita a gravação? A gravação era feita uma base primeiro. O Wagner de piano; Robertinho, era o Robertinho; o Beto também tocou, não é? De bateria. E tal, baixo. Então, normalmente eles faziam aquele trio de base: baixo, bateria e piano. E encaixava ali tudo o que desse para encaixar já na primeira gravação e para poder depois… porque depois aquele processo. Depois que você gravava, dava: “Bom, ninguém errou.” não podia errar. Hoje em dia você erra, você vai ali, conserta depois e tal. Ninguém podia errar. Aí depois que funcionasse o negócio dali você ia mixar tudo aquilo ali, já mixava aquilo ali na hora. Para depois eliminar, passar aquilo para um outro gravador para poder limpar aquele canal que você tinha gravado. Quer dizer, se você depois achasse que: “Ah não, ficou ruim.” Ah, não tinha mais jeito. Era o ficou, ficou. E nesse embalo eles iam gravar uma, eu não lembro qual era a música, e o Wagner queria dar uma, enriquecer o negócio com a percussão já. E pediu para mim fazer (RISO) bater um pauzinho de percussão. Aí eu bati. Mas eu inseguro com o negócio ali de estar batendo o pauzinho não, fiquei meio inseguro. Aí o Wagner: “Pô, essa porra vai errar aí no meio da gravação vai dar um problema. (RISO) Chico, larga esse pauzinho aí, deixa para lá.” (RISO) E eu assim acabei não participando como músico do Clube da Esquina por causa disso.

Clara Nunes
Eu não estava na audição do Clube da Esquina; não estava não. Eu lembro de uma, de audição eu lembro bem do disco do Beto que tinha “Lumiar”, na Odeon. Foi quando eu conheci a Clara Nunes, foi nesse dia. Pois é, eu estava lá, foi o dia que eu conheci a Clara Nunes e o Paulo César. Se bem que o Paulo César já havia conhecido porque ele já havia participado do festival da Globo, não é? Aliás, ali na Odeon, quando a Odeon mudou para a Mena Barreto, foi ali que eu conheci, foi o negócio da gravação dos Borges. Do início dos Borges. Isso já em 81.

Festival do Paraíso (Três Pontas)
Pois é, eu fui com o Fredera. Pô, que festa, cara. Woodstock Brasileiro, não foi? Foi o Woodstock brasileiro aquilo ali cara. Nossa, eu, ali também, por timidez minha, eu acabei não entrando no palco. Eu participei assim… eu fui lá para tocar. Eu fui convocado pelos organizadores. E estava todo mundo lá: Chico, foi quando inaugurou a praça lá do Travessia, não é? Clementina, exatamente, na casa dos pais do Bituca, lá. Pô, foi assim fantástico, cara. Passamos uma semana lá naquela cidade, não é, cara? Uma semana de curtição mesmo. Tomando banho de… Que semana cara. (RISO) Eu sei, e era um lugar assim, era no meio do mato, não é, cara? Um negócio assim fantástico mesmo. Eu lembro que tinha um morro assim onde as pessoas sentavam no morro. O palco, o palco embaixo. E Chico Buarque, o Wagner, Milton. Eu não lembro de todo mundo que estava lá. Eu acabei não participando, efetivamente… cantar. Porque na hora a gente afinou. A barra estava muito pesada ali para entrar naquela ali. (RISO) Mas foi assim uma viagem fantástica mesmo. Muito legal. Eu, Fredera e Isaurinha, viajando para lá.

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Avaliação

É um jeito diferente de tocar. Eu lembro perfeitamente que nessa história, quando eu conheci você e o Toninho com aquele festival de 69, quando chegou a época do festival mesmo nós ficamos hospedados… eu tive a sorte de ficar hospedado no mesmo quarto que o Toninho. No Hotel Savoy, no Rio. E foi a primeira vez que eu vi Toninho tocar, cara. Na hora que eu vi Toninho tocar, eu falei: “Ah, meu Deus, é outra coisa.” Eu estava vindo do iê-iê-iê, daquelas outras coisas que eu ouvia. Aí eu falei: “Não, mas a música é outra coisa. É outro lance.” tinha outra concepção, cara. E foi daí que eu conheci o Lô, conheci você, pô, a turma toda aqui. Aquilo tudo foi uma coisa… foi um movimento mesmo. Uma coisa que mudou a direção, pelo menos a minha, e deve ter mudado a direção de muita gente aí.
De inovação trazia, sei lá, eram as letras. A música, por exemplo, eu gostava de Beatles, por exemplo. A música de Beto Guedes, por exemplo, de Lô, misturava essa coisa toda com regional. Era uma coisa assim que realmente… Por exemplo, hoje em dia eu componho. Eu virei letrista. Como eu, porque eu sempre quis falar de coisas da minha terra, mas eu lá não tinha parceiro nenhum. Meu parceiro era você. E você era mineiro. E eu porra, para eu falar coisas da minha, foi nessa que eu aprendi a escrever e hoje em dia eu faço as minhas letras. Mas eu tinha a maior…, eu lembro Marcinho, que eu tinha assim, a maior inveja de… sabe? Eu queria compor igual você fazia, aquelas letras assim… Falar da minha terra lá, entendeu, como você falava, vocês falavam assim das coisas daqui. Isso é uma coisa muito legal mesmo. E as harmonias também, entendeu? Era uma coisa diferente mesmo.
Olha, a minha opinião… acho que é uma questão, sabe, de sensibilidade mesmo, entendeu? Vou estender isso à minha história. Quer dizer, o Clube da Esquina e o movimento no Espírito Santo. Eu no Espírito Santo, por exemplo, também… Quer dizer, eu tenho toda essa história aqui e, no entanto, para o povo da – quero dizer, é lógico que têm muitas pessoas no Espírito Santo que me conhecem, sabem da minha história – mas eu não tenho lá essa, entendeu? Esse reconhecimento, entendeu? Que vocês, por exemplo, sempre, não é? Tiveram a importância e que de repente não foi reconhecido por uma parte da mídia, da crítica. Porque a crítica eu acho que ela é muito boa quando ela… tem muita gente metido a engraçado na crítica, não é? O cara às vezes fala um negócio por falar, para ser engraçado. Fala um negócio e não tem nem conhecimento do que está falando. Isso já cansei de ver. Então eu vejo mais ou menos dessa forma. Por exemplo, eu vejo o Espírito Santo hoje…

Nena B
O Espírito Santo não teve assim um movimento abrangente em termos de mídia nacional. Mas têm coisas importantes que aconteceram lá dentro e que, inclusive, agora está começando a ser contado. O Nena B agora há pouco tempo fez um trabalho muito interessante na faculdade, na universidade, gerou polêmica, lógico. (RISO) Assim como está…
Nena B é um artista plástico, e ele fez uma retrospectiva do… Teve um show, eles colocaram fotos de várias pessoas que faziam parte do movimento na época lá da década de 70. Que na época que estava acontecendo isso aqui estava acontecendo isso lá. Só que em Vitória, por influência, talvez até por causa da mídia, também, dos baianos da Tropicália. Que havia sido um pouco antes, não é? E que era um negócio… Então o pessoal de Vitória era mais ligado no lance dos baianos. E eu, por exemplo, fui, já, eu sou, por exemplo, hoje em dia lá eu sou o cara que sou ligado ao Clube da Esquina. Ao lance mineiro, entendeu?

Vitória
O Espírito Santo, por exemplo, tem pouca gente que se destacou no cenário musical. Tem o Sérgio Sampaio, Roberto Carlos, tal. É, eu não lembro. E a Nara Leão que era de lá. Mas a Nara já morava no Rio. Eu digo que trabalharam lá mesmo é pouca gente. Mas é um movimento importante também. Têm jornalistas, vários jornalistas. O Rubinho Gomes. Esse pessoal todo foi muito importante por lá. Inclusive eu vou até dar essa idéia para eles, de pegar e fazer o que vocês fizeram aqui com o Museu, não é? A partir dessa idéia. É levantar a memória lá porque eu acho que é importante. Por exemplo, esse negócio da memória lá, eu estive com o Nena B essa semana, comentei com ele. Porque eles fizeram um negócio plasticamente muito bonito. Mas não botaram muita informação. (RISO) Eu até brinquei: “Isso é coisa de artista plástico mesmo. O cara quer que o cara se foda. Olha para a coisa e entenda tudo.” Eu falei assim: “Nena, você tinha que ter colocado o nome de todo mundo lá embaixo. Porque não é importante para mim nem para você, porque a gente já se conhece. É importante para a nova geração que passa pela universidade todo dia. Vê a sua foto lá em cima e não sabe quem é você. Não sabe da sua história.” Entendeu? É, eu vou até sugerir que ele faça isso lá, botar em baixo o nome, é lógico. Ele até falou aquele dia: “Ah, então de repente eu vou fazer isso agora e já é uma maneira de divulgar mais isso.” Mas eu acho que de repente eu vou até partir para isso aí. Abranger mais. Fazer isso que a gente está fazendo aqui, depoimentos.

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Parcerias

É, o primeiro parceiro que eu tive foi o Tina Tirone e o Sérgio Egito. Lá de Vitória. E o Nena B. Mas o Nena B a gente teve uma música também no terceiro festival de lá, chamava “Simplesmente”. Nena B até na época era ligado, ele é artista plástico, então é ligado a teatro. Lembra do, aquele cara que esteve em Ouro Preto, era… Julian Beck. Julian Beck. Era ligado a ele. O Rubinho Gomes depois… Living Theatre, isso mesmo. E nessa época foi a época, inclusive foi a época que eu conheci o pessoal daqui. Eu participei do festival em 72. O Vermelho, por exemplo, eu conheci lá. O Flavinho Venturini. A gente… E aí tive esses parceiros, o Nena B lá. Depois indo para o Rio, o meu primeiro parceiro no Rio foi você. E não tive muitos parceiros assim não. Foi você, depois o Murilo, quando eu vim morar aqui em Belo Horizonte em 75. Eu morei aqui, a gente tinha um grupo. Quando eu cheguei aqui em Belo Horizonte eu conheci uma pessoa que também foi muito importante na minha vida. Eu estive com ela ontem: Paulinho Carvalho. O Paulinho também, eu fico emocionado. (Chora)
Paulinho também foi um cara que curtiu, me curtiu assim. Curtiu a minha música. Me apresentou o Ganso. E a gente ia toda tarde lá para a casa dele, na serra, para ensaiar. E daí, daquele negócio de ensaio, resolvemos formar um grupo que veio a se chamar No Tom de Sempre. E participavam mais o Ganso, o Paulinho, o Mário Castelo. Depois a gente ensaiava, a gente passou a ensaiar na casa do Mário Castelo. E o André Dequech. O André Dequech, rapaz, o André Dequech vivia queimando a mão nas válvulas do, (RISO) válvulas do, ele tinha um órgão. Naquela época não tinha teclado não. Era um órgão grande, enorme, cheio de válvulas. Que o André Dequech vivia dando porrada ali, queimando o dedo. E dava um problema na tecla, lá ia André Dequech para trás do negócio do teclado. E o Lô, que participou. O Lô era meio sabonete. Ele ia para o ensaio, mas de vez em quando não aparecia. A gente ficava: “Porra, cadê o Lô?” Eu sei que nesse embalo a gente participou do festival, fizemos umas apresentações no Festival de Inverno também, no ano de 75, se não me engano. Tocamos lá em… uma cidade que tem aqui perto, cara? Tocamos em Itabira, que você foi, (RISOS) Num colégio. Nós fomos em Itabira. É, Itabira em um colégio. Tinha um outro, uma cidadezinha aqui perto eu não lembro o nome. Pelo lado ali do aeroporto. Do Pampulha, mais pra frente ali… Santa Luzia. Fizemos um show em Santa Luzia. E o Paulinho foi muito importante. Nessa época eu bebi mesmo dessa fonte aqui. Tinha aquele menino, Eduardo, como era o nome dele, que tocava bandolim? Carlos Eduardo? Não… Era um compositor daqui, muito bom também. Que outro dia o Paulinho me lembrou o nome dele… Zé Eduardo. Cadê o Zé Eduardo, está por aí ainda? Está? Tocando, não sei, nunca mais vi. Mas ele era bom compositor. Tavinho Moura eu conheci nessa época também. Foi muito legal. Voltando aos parceiros de letra mesmo, de músicas, foi você e o Murilo, aqui. E depois no Rio quando eu… foi na época que eu gravei o meu primeiro disco, já no começo da década de 80 que eu, foi a Ana Terra. A gente chegou a fazer umas três coisas, mas depois não trabalhamos mais. Eu perdi o contato com a Ana. Porque logo em seguida que eu gravei, vocês gravaram Os Borges, em 81.

DISCOS
Chico Lessa (Independente)

Em 83 eu gravei meu primeiro disco. E depois fui para Vitória e fiquei lá. E teve a Ana Terra e o Maurício Maestro. Quando eu estava gravando esse disco, esse primeiro disco meu em 83, eu gravei duas… não sabia como que ia gravar um disco. Eu não tinha dinheiro. Aí encontrei com o Paschoal Meireles na praia. E falei: “Porra, eu não sei como é que, eu queria gravar rapaz. Eu não sei como é que é, eu não tenho dinheiro.” Aí o Paschoal falou: “Olha, Chico – estava na época do disco independente. O Antonio Adolfo estava começando com essa onda do disco independente, e o Paschoal falou – ah, cara, você pode gravar, rapaz. O negócio é o seguinte: arruma uma graninha, compra uma fita. Vê quanto é que custa tantas horas de estúdio, arma com a rapaziada e vamos lá”. Eu falei: “Você vai comigo?” Ele falou: “Vou.” E aí, pô, a primeira turma que foi, foi eu o Paschoal…
Gravei com uma constelação de artistas, hoje seria impossível, ninguém faz. É, realmente. Foi um marco na produção do disco independente. Embora ele não tenha sido divulgado. Porque logo que eu terminei o disco, eu voltei para Vitória. Havia nascido o meu segundo filho. Então, eu querendo… eu tinha dois filhos desgarrados. Eu tinha um filho com a Zilah, que é o Tiago. Que é o meu mais velho. Hoje ele é artista plástico. E o Rodrigo que tinha acabado de nascer, com a Edna. Então eu terminei de gravar esse disco e fui para Vitória. Então isso não foi divulgado. Ele vai ser reeditado agora, finalmente vai ser reeditado.
Pois é, o disco. Da experiência do disco, nesse embalo do Paschoal eu acabei arrumando uma graninha. Fui lá no estúdio da Sonoviso – que era aonde o Boca Livre havia gravado aquele disco deles que tinha feito sucesso. E fui lá gravar a primeira música. Foi eu, o Wagner Tiso, Zeca Assunção de contrabaixo. Robertinho Silva e o Heitor TP. A turma boa. (RISOS) Pois é, e fomos gravar, bom… Isso não é tudo. E nesse embalo aí, bom. Aí nós estamos gravando. No dia que nós estamos gravando, passa uma figura lá, que tinha ido lá buscar uma fita dele: era o Maurício Maestro. E eu tinha, a primeira música que eu gravei não tinha letra ainda. Eu gravei a música. Era “Menina dos Olhos”. O Maurício ouviu, aí ele falou para mim assim: “Pô, bacana, não sei quê, tal.” Eu falei: “Pô, Maurício, está sem letra ainda. Eu ia mandar para você, que você era o meu parceiro oficial, né?” O Mauricio na mesma hora falou para mim assim: “Não, não, essa eu quero para mim”. E aí no dia seguinte ele apareceu lá com a letra. Só que o Mauricio apareceu, cara, e aí apareceu já encampando o disco. Porque eu tinha chamado o Wagner, mas o Wagner foi lá para gravar duas músicas. Eu ia chamar outras pessoas depois para gravar. E o Maurício já chegou encampando com a letra. E aí pronto. O Maurício, na verdade, é o produtor daquele disco. Ele que começou a chamar todo mundo, entendeu? Então tinha gente ali que eu não conhecia. Léo Gandelmann, Ricardo Silveira, o Cláudio Guimarães que participou também, que era…

Heitor TP
Heitor TP. Nós limamos o Heitor TP, bicho, nós limamos a faixa (RISOS) do Heitor TP. O Heitor TP era meu amigo. Eu que apresentei ele para o Wagner. O Heitor, tem uma particularidade com ele, quando ele esteve com o Ivan Lins em Vitória, ele já famoso. Uma época que o Ivan estava fazendo George Benson, ele me chamou, ele no quarto de hotel falou: “Chico, você tem uma importância na minha vida enorme.” Eu falei: “Ah, por quê?” Não, porque eu cheguei a ensinar coisas para o Heitor TP, quando ele começou a aprender. E eu lembro, ele veio me contar essa história: um dia que eu fui na casa dele, a mãe dele preocupada com aquele negócio dele estar na música. Ele era bem mais novo que eu. E ela falou: “Chico, eu estou preocupada. Você que tem mais experiência… eu ando preocupada com o Heitor. Porque o Heitor eu acordo… ele não está estudando direito. Ele tem 17 anos só. Ele não está estudando. Eu acordo de noite vejo a luz do quarto dele acesa, só está ele lá com a guitarra tocando, com head fone. Aí eu mando ele dormir e ele… já peguei ele no escuro tocando para não dar bandeira para ela. E agora chegou ao cúmulo do cara chegar na mesa para tomar café, e ele usa aquele negócio para fazer massagem na mão, no dedo, e ele não pára. Ele toma café com uma mão e fazendo massagem com a outra. Passa para a mão para pegar o pão do lado de cá. E eu estou preocupada com isso. (RISOS) Aí eu falei com ela assim: “Olha, o seu filho tem um talento fantástico.” Ele contando essa história para mim. Eu falei isso para ela: “E eu sugiro que a senhora deixe ele em paz. Por quê?” Ela falou: “Pô, mas a vida dele, a escola?” “Olha, a senhora não se preocupe porque ele tem um talento que eu tenho certeza que o Heitor, ele vai despontar para o mundo. Se ele for desse jeito que ele está aí. E a senhora não tenha pressa. Porque ele está com 17 anos. O Heitor, eu tenho certeza que daqui a dois, três anos o Heitor vai estar aí na vanguarda. E se ele não estiver dá tempo dele começar tudo de novo. Que ele está novo.” Diz ele que a mãe dele nunca mais encheu o saco dele. E daí para a frente que a carreira dele deslanchou.
DISCOS
Chico Lessa (Independente)/Fredera

Eu sei que o Mauricio encampou a história todinha. Aliás, tem o Fredera também. O Fredera também era para estar nesse disco, mas o Fredera, como era aquela figura que a gente já conhece, a polêmica em pessoa. O Fredera, se eu for lembrar das histórias do Fredera, tem cada uma que é fantástica. Mas essa, ele era um cara que volta e meia arrumava uma birra com alguém. Alguém estava brigado com o Fredera. Todo mundo gostava do Fredera mas todo mundo tinha uma birra com o Fredera. E eu lembro que eu tinha chamado o Fredera para gravar a faixa, era “Me Pega, Me Larga”, nossa parceria. E chegou na hora de gravar o Helvius Vilela, a gente foi ver a cifra, o Helvius Vilela caiu na besteira de sugerir (RISO) um acorde para o Fredera. Ah, bicho, ele sugeriu e eu achei que tinha ficado bom também. Eu fui pela do Helvius. Rapaz, então ele preparou, daqui a pouco pintou aquele clima assim. Nego falando, Fredera armando, guardando os negócios dele. (RISO) Eu falei, aí eu sei, eu falei bem assim: “Mas, Fredera, pô, que negócio é esse?” “Não, você está muito bem assessorado.” (RISOS) Pegou a maleta dele e foi embora. Nunca mais eu vi o Fredera. Ó, morro de saudade de você cara. Nunca mais eu vi o Fredera. É, eu vou lá. Qualquer hora dessa eu vou aparecer lá em Três Pontas pra…, Alfenas. É, vamos achar ele.

DISCOS
Chico Lessa (Independente)

Teve o Tadeu Franco. Pois é, inclusive eu parei de fumar por causa desse disco. Não fumo desde essa época. Minha voz não era essas coisas. Não tinha prática de cantar. E eu tinha que botar a voz no disco. Nesse negócio de participação, o Tadeu Franco tinha gravado “Comunhão” do Milton com a Simone. Tinha participado não sei se foi no disco da Simone, alguma coisa assim. E aí o Murilo me botou em contato com ele, eu consegui a participação do Tadeu em uma faixa: “Terra Bruta”. Foi bacana para caramba. Eu parei de fumar nessa época. Eu ia botar a letra, botar a voz e tive que parar. No primeiro dia que eu fui colocar a voz saiu um horror. No vinil, o Maurício falou: “Chico, vamos dar uma parada na gravação, você vê se pára de fumar uns dias, uns 15 dias, uns 20 dias, aí você volta para o estúdio.” (RISO) Eu lembro que tem uma história engraçada para caramba aquele dia. Eu estava meio tímido para cantar, o Mauricio falou para mim assim, era um bolero. Exatamente o “Me Pega, Me Larga”. (RISO) O Mauricio falou assim: “Pô, Chico, ó, nós vamos apagar a luz aqui da técnica e, para você ficar relax aí dentro. Agora, você se concentra. Fecha o olho, você está cantando um bolero. Pensa no Emilio Santiago de calcinha.” (RISOS)
Eu… (RISOS) eu falei para ele assim: “Pô…” aí descontraiu, foi aí que eu consegui gravar as vozes do disco. E logo em seguida eu parei de fumar, não fumo até hoje. Graças a Deus. Parei com esse negócio.
Esse primeiro disco… Pois é… Participantes eu acho que só se eu pegar a ficha técnica, só se eu pegar… Os que vierem na mente? O Maurício Maestro, Léo Gandelmann, Ricardo Silveira, Heitor TP, Marcelo Costa – que era da Barca do Sol – Damilton Viana, percussionista. Lia Morelembaum, Jacques Morelembaum, Philip Doyle da trompa. Lúcia Morelembaum, clarinete. Ou é oboé, se não me engano. O próprio, Bidinho. O Mauro Senise, Zeca Assunção, André Dequech, Claudio Guimarães. O Céu da Boca, Boca Livre. Deixa eu ver mais. O Ricardo Villas-Boas, e vai por aí.
É, super disco. Realmente essa turma fazer um disco desse…

Atividades Profissionais
Pois é. Depois disso eu voltei para Vitória, e aí eu parei em Vitória. Porque nessa de voltar para Vitória, fiz um grupo com um parceiro meu, que é parceiro até hoje, o Chryso Rocha. Era guitarrista e a gente fez um grupo. E comecei a mostrar esse trabalho em Vitória. Mas não… quando eu voltei para Vitória, cara, eu estava enrolado. Eu estava com dois filhos com mãe diferentes. E tentando… foi quando eu conheci a Marise, que está comigo até hoje. E a gente começou a morar junto e eu acabei ficando por Vitória. Nesse lance de ficar em Vitória, eu comecei a tocar na noite. E com saudade. E eu fui perdendo um pouco de contato com vocês, porque todo mundo foi casando, cada um foi para um lado. E a gente já não tinha mais aquele negócio: “Vamos para Mauá agora.” Você lembra aquelas viagens que a gente fazia para Mauá? E era a qualquer hora. “Vamos para não sei aonde agora.” “Vamos embora.” E todo mundo ia. Agora não podia mais fazer isso. E eu sentia muita falta disso. Por conta disso, em 87, eu, naquele lance meu de querer escrever ainda. Ah, bom, eu só havia feito uma letra até então, que está nesse disco, que era o “Às Vezes eu Fico Assim”. Tinha arriscado a fazer essa letra. Mas eu trabalhei durante um tempo, nessa época, em 80, depois que eu saí daqui, aliás. Em 75 até 80, eu fiz algumas composições na área da publicidade fazendo jingle. E ali que eu acho que eu consegui, comecei a escrever. Porque você tinha que… É, exatamente. “Tudo o que aprendi”. E tinha, era, você fazer letra de jingle é um negócio assim interessante. Porque você tinha que pegar uma idéia e conseguir colocar aquela idéia clara em 30 segundos. Então eu fazia jingle assim: eu bolava sempre a assinatura, e depois eu ia enchendo a história até desembarcar nessa assinatura. Bom, por conta disso em 87 eu estava na casa do Luis Trevisan – que é um amigo de Vitória, compositor também – e lembrei, estava olhando para a paisagem, lembrei de Dedé Caiano. Que vem a ser irmão do Sérgio Sampaio. Dedé já faleceu. Dedé foi parceiro do Raul Seixas, naquela música “Anos 80”. E o Dedé era um camarada assim multimídia. Nunca fez nada direito. Aquele cara mexia com tudo. Com pintura, com música, dava aula. Mas era um maluco. E eu lembrei do Dedé e comecei a escrever. Foi a primeira letra que eu fiz, chama-se “Dedé Caiano”. Era um samba. E eu fiz, gostei, as pessoas começaram a gostar. E eu passei a me interessar e comecei a escrever. E de lá para cá cara, você morando longe, a Ana Terra eu também tínhamos perdido o contato. Eu falei: “Bom, eu vou ter que começar a escrever eu mesmo. Me virar.” E eu acho que graças a Deus tenho me saído bem de lá para cá. Então foi aí que eu comecei a compor.

DISCOS
Orifício é o Que Não Tem Parede

Em 94 surge uma lei em Vitória de incentivo à cultura. Lei Rubem Braga. Eu levantei uma graninha e fui gravar. Gravei o meu primeiro CD, chamasse “Orifício é o Que Não Tem Parede”. E nesse disco também eu procurei o Tavito, mas o Tavito nessa época ele estava muito atarefado. Ele tinha uma produtora de jingle, muito famosa no Rio. Estava muito atarefado. Mas ele me encaminhou para uma pessoa maravilhosa que eu já conhecia na época assim de passagem, o Jotinha Moraes. E aí foi massa. O Jotinha Moraes então foi, juntou a turma de novo. Jotinha Moraes, Claudio Guimaraes, Juninho Moreira, Jamil Joanes. E, deixa eu ver, tinha mais pessoas. Jamil Joanes, Claudio Guimaraes. Bom, eu sei que a gente foi e gravou esse disco, “Orifício é o Que Não Tem Parede”. Gravei em 94.
Basicamente essa turma é a mesma que gravou o disco independente da Aline. O Jaime Alem, de cavaquinho, exatamente. E tinha também o Raul Mascarenhas, Raul, grande Raul. Pode crer. Fafá. Eu falo do Raul lembro da Fafá. Que verão! A Fafá. (RISO) Então gravei esse disco em 94. Mas, aí, já morando em Vitória. Quer dizer, um disco assim que eu só distribuí mesmo em Vitória… meus amigos. Sempre querendo voltar, mas a vida nos contratempos. Nunca tinha dinheiro para ir. Você para largar, entendeu? Família. Bom, já estava com a Marise. Já tinha mais o Ariel e a Luisa, meus últimos filhos. O Ariel está com 14 anos agora. Um cavalão enorme. A Luisa adolescente, com 17. E, bom… fiquei por Vitória.

TRABALHOS
Atividades Profissionais

E vim gravar um outro. Não, bom, em 92 já no final da era do acetato, acho que foi o último acetato que saiu (RISO) deve ter sido esse meu. Eu vim gravar; querendo botar alguma coisa na praça, não tinha grana para gravar um CD inteiro. Isso foi antes do CD, desse CD “Orifício é o Que Não Tem Parede”. Eu gravei, eu vim aqui e gravei duas faixas com o André Dequech e o Toninho Horta, Paulinho Carvalho, o Neném e o Ezequiel. Gravamos duas faixas: uma música chamada “Aquarela Capixaba”, que é um samba, e a outra faixa era “Sorriso de Filha”. Uma faixa que eu fiz o mix. Toninho escreveu um negócio para mim atrás. Essa música depois eu reeditei nesse disco. Depois eu fiz um disco… eu sempre compus assim de tudo quanto é jeito. Eu fazia música de carnaval, musiquinha de carnaval, entrava na praia da gente aqui, nas baladas, samba… e eu fiz um disco depois com música de carnaval, mas esse disco eu não cheguei nem a lançar, eu só fiz uma produção assim… Carnaval de 2000 e, 99. E depois eu gravei um disco chamado… em 2000, já com a turma de Vitória. O Zé Moreira, é um baixista muito bom mesmo, mora em São Paulo. O Bruno Mangueira que participa de um disco novo agora, também participou na época. O Jorge Tarzan, que é um parceirão meu, mas muito bom mesmo. Ainda vou trazer ele aqui para vocês conhecerem. É, mim Tarzan. Perguntou como é a capa do disco dele, Mim Tarzan é o melhor nome. Bota essa cara. Gravei esse disco. Essa história, esse disco, minha irmã, eu sempre fui duro, não é cara? Sempre sem grana, devendo dinheiro aqui. “Pô, Chico não paga. Chico demora para pagar. Chico é enrolado”, e aqueles negócios todos. E aí minha irmã que sacou esse negócio. O nome do disco chamasse: “De Volta ao Verão”. Só que na capa, quando você olha assim, a letra “De Volta”… devo, ficou em branco, destacado. A minha irmã falou isso: “Ó, Chico, esse disco está bem a sua cara mesmo: Devo.” (RISO) Eu falei para ela assim: “Porra, então acho que eu vou fazer um outro depois de Pagode. Pago.” (RISOS) Para ficar Pagode, para acabar com essa onda.
E agora recentemente, eu através da Secut, da Secretaria de Cultura lá da Simone Devéns, que é assessora lá, ela me colocou. Porque eu falei: “Ó, tem um edital aí que vai sair, a gente está dando uma grana para uns prêmios para um disco novo – caso você tenha um disco novo. E, ou para a reeditar..” Eu sei que eu gravei um CD recentemente, que não está editado ainda, com o Bruno Mangueira, o Paulinho Sodré, Marco Antonio Grijó, que é um companheirão da antiga também. O Léo de Paula, e o maestro Célio toca clarinete. E chamei duas pessoas para dar uma canja. Que é a Eliane Gonzaga, cantora muito boa, também de Vitória, amiga minha. E uma das faixas é pelo André Mandinga, que é um cara assim que lembra a voz do Bituca quando ele era mais novo. Um cara de São Carlos, São Paulo. Muito legal ele. E aí gravei esse disco agora que não está editado.

TRABALHOS
Prêmios

Bom, nesse negócio dos prêmios eu acabei recebendo um prêmio para reeditar esse meu LP que a gente comentou ainda há pouco. E eu vou reeditá-lo agora. Mas devo incluir umas três faixas desse disco novo. E vamos tocar a vida para a frente.

PESSOAS
Toni, Trio Iraquitã, Alcyr Pires

Tem uma história que eu lembrei que eu queria contar também. Que é a minha participação, eu conheci uma pessoa muito importante na música brasileira. Eu fui trabalhar, na época eu estava procurando trabalho no Rio de Janeiro. E tocando na noite. Isso em 81, 80. E conheci um camarada chamado Toni, que era violonista. Esse Toni era violonista de um grupo chamado Trio Iraquitã. Que é um grupo…, quem conhece a música brasileira, é um grupo lá da época da Radio Nacional. Existiam dois grupos na época que eram, que tinham o mesmo feitio: é o Trio Iraquitã e o Trio Nagô. O Trio Nagô fazia parte Evaldo, Jair Amorim e Evaldo Gouveia. Evaldo Gouveia fazia parte desse grupo. E inclusive eu participei nessa, antes, em 66 na época do iê-iê-iê, eu fiz dois programas de televisão que realmente eu gosto de lembrar disso. Aérton Perlingeiro, era Almoço das Estrelas na antiga TV Tupi. E depois o programa de Sérgio de Alencar. Que era um cara que eu ouvia no rádio, na Rádio Nacional, quando era garoto. E eu participei de um programa dele na extinta TV Excelsior, também. Nesse programa da TV Excelsior a gente, um grupo de… nosso de iê-iê-iê e do lado o Trio Nagô, que era o Evaldo Gouveia. E a gente cantando. E era aquela polemica, não é? Canta, fala: “Ah, que a minha música é de ontem, música de amanhã. Moderna.” E a gente ficava naquele lance ali. Mas nessa época eu conheci, em 81, esse Toni. O Toni virou para mim, falou: “Pô, você toca violão?” Eu falei: “Toco, canto.” “Você não quer me substituir?” Eu falei: “Aonde que é?” Ele falou: “Eu toco em uma boatezinha no térreo do Leme Palace Hotel. É uma boate pequenininha. Eu toco ali de sete as dez. Então você vai para lá tocar meia hora e você vai revezar com um pianista que toca meia hora. Meia hora um, meia hora outro até as dez horas.” Eu falei: “Tudo bem.” E fui. E quando eu cheguei lá toquei a minha meia hora e chegou o pianista. Um senhor assim, uns 70 anos na época. Eu não sei se ele tinha essa idade, mas, magrinho, elegante. E sentou no piano, me cumprimentou, começou a tocar. De repente ele tocou uma música que me emocionou, porque eu não ouvia desde que eu era garoto. Aquela: “(Canta) Vento que balança a palha do coqueiro. Vento que encrespa as folhas do mar…” Aí eu fiquei ouvindo, Marcinho, e me emocionei, cara, e ele tocando. Quando ele terminou de tocar eu virei para ele e falei: “De quem é essa música?” Ele olhou para mim: “É minha.” E era dele, cara. Era o Alcyr Pires Vermelho, cara. Alcyr Pires Vermelho é “Canta Brasil”, a Gal Costa tinha terminado de gravar o “Canta Brasil”. E ele fez “Dama das Camélias”. E ali eu, a boate não dava quase ninguém. E a gente passava a noite ali, eu ficava ouvindo histórias do Alcyr. Um dia eu perguntei para ele: “Ô Alcyr, vem cá, e o Lamartine Babo, você conheceu?” Ele falou: “Ah, eu conheci Lamartine mas eu não gostava muito dele não. Eu vivia com o corpo cheio de hematoma.” Eu falei: “Por quê?” Ele falou que ele era de Muriaé, e o Ari Barroso era de Ubá, não é? E eles tinham uma rixa, porque o Ari achava que ele tinha plagiado. Era uma época muito ufanista, os caras fazendo músicas de Brasil, não sei o quê e tal. E o Ari tinha feito o “Aquarela” e o Alcyr logo em seguida fez o “Canta Brasil” com o David Nasser. E ele me contando essa história eu falei: “Bom, mas e aí, e o Lamartine?” Ele falou: “Pois é, o Lamartine, logo que eu cheguei aqui o Lamartine não fazia música, não. Ele não sabia tocar porra nenhuma. Dava idéia nele, ele sentava, pegava um papel e (Canta) ‘O teu cabelo não nega mulata…’ e ia escrevendo aquela porra.” e contratou o Alcyr para trabalhar com ele de piano. Ele ficava, ele tinha uma idéia, corria com o Alcyr: “Vem cá Alcyr.” e sentava no piano. O Alcyr novinho. Ele na cabeça dele começava a cantar: “O teu cabelo não nega…” Aí o Alcyr ia tirando. Quando não ia para o caminho que ele estava na cabeça, ele ia no braço do Alcyr e dava um beliscão: “Porra, não é aí não.” (RISO) E disse que o Alcyr largou ele depois, que ele não agüentava, que ele vivia com o braço roxo. Cheio de hematoma por causa dessa coisa. Largou: “Ah, Lamartine que se foda.” Manda para lá.

PESSOAS/MÚSICAS
Alcyr Pires/Cidade Maravilhosa

E teve depois, um dia ele me contou uma história que essa história eu acho incrível também. O André Filho ligou para ele, aquela época de carnaval. E na época tinha aquelas… um concurso de marchinha de carnaval, Ângela Maria, Marlene, Emilinha Borba. Aquele pessoal todo freqüentava. E ele me contou que o André ligou para ele e falou para ele assim: “Porra, você vem aqui para casa que eu estou precisando terminar a segunda parte de uma música e amanhã encerram as inscrições.” Diz que o Alcyr foi, no caminho ele encontrou com o Chico Alves, o Rei da Voz. E o Chico Alves: “Porra nenhuma, você vai para a casa de André fazer música para ele. Eu quero gravar aquela música sua.” Que eu acho que era “Dama das Camélias”, um negócio assim. O Alcyr falou: “Uma grana com o Chico é mais…” E não foi. No dia seguinte o André ligou para ele, eles se encontraram: “Ah, eu fiz aquele negócio de qualquer maneira, ficou assim: (Cantarola) pa-ra-ra-ra-ra ta-ra-ra-ra…” O cara tinha feito “Cidade Maravilhosa”. (RISOS) Para você ver como é que é a história. De repente eles poderiam ter feito uma música muito mais bonita, mas não ia ser “Cidade Maravilhosa” e não ia ser porra nenhuma. Ia ser outra coisa. Muito incrível. É um dado muito importante para o Museu eu ter visto a pessoa que não fez (RISOS) “Cidade Maravilhosa”. Pode crer, com certeza.

PESSOAS
Alcyr Pires, Braguinha, Carolina Cardoso de Menezes

E depois, nesse mesmo embalo, o dia que ele fez um ano de casa ele resolveu comemorar com os amigos dele. Inclusive eu tenho que procurar a família do Alcyr, rapaz, porque ele deve ter esse acervo lá. Porque foram tiradas várias fotos no dia. Porque ele chamou os amigos dele para fazer a festa. Os amigos dele que chegaram era: Braguinha; aí chegou Carolina Cardoso de Menezes, rapaz, já ouviu falar de Carolina Cardoso de Menezes? Era uma pianista fantástica que tocava Ernesto Nazaré, esse negócio. E eu lembro que eu estava tocando violão, e estava tocando “O Pato”, na hora. Rapaz, eu fui confundido com João Gilberto. (RISOS) A Carolina foi chegando assim, na boate meio escura, e ela já mais velhinha. Porque eu lembro de Carolina naqueles programas da Rádio Nacional, tinha um programa antes da coisa que era O Piano Maravilhoso de Carolina Cardoso de Menezes. Era um negócio… E eu tinha uma idéia dela, pô, ela tocando aquelas coisas clássicas, tal. E ela foi chegando assim magrinha, sabe? De óculos. O Alcyr apresentando as pessoas. E ela me viu tocando “O Pato”, eu estava tocando. Aí eu parei, quando ela chegou: “Joãozinho, Joãozinho, há quanto tempo.” (RISO) Aí o Alcyr falou: “Não, o Carolina, esse aqui não é o Joãozinho não, mas é um grande parceiro meu, novo. Esse aqui é o Chico, tal.” (RISOS) E foi nessa que eu fui confundido com o João Gilberto, pô, o que é que é isso. Que honra. E aí ela sentou no piano e mandou o maior jazz, cara. Um clássico do jazz lá que eu não lembro. Mas, tocava para caramba. E eu estou querendo procurar a família do Alcyr, porque o Alcyr faleceu já tem um tempo. Mas eles, a família deve ter essas fotos dele lá. Eu quero ver se eu tenho uma foto lá do Braguinha.

FAMÍLIA
Situação Familiar/nome e atividade dos filhos

É, sou casado com a Marise, minha parceirona. Fui casado com a Zilah, já falecida. A Zilah é mãe do meu primeiro filho, o Tiago. Hoje um artista plástico renomado. Ele encena lá um contrabaixo, que ele fica me enrolando para ir lá estudar, mas ele gosta muito de música. Eu tenho quatro filhos. Com três mães diferentes. Tive três sogras.
Pois é. Depois eu tenho o Rodrigo, com a Égila. O Rodrigo hoje em dia faz Engenharia de Produção. Trabalha com Engenharia – está cursando – na Vale do Rio Doce. E com a Marise eu tenho a Luisa e o Ariel. A Luisa com 17 anos, rebelde. É, muito rebelde. E o Ariel, com 14.
Nenhum deles seguiu carreira musical. Todos, a Luisa adora cantar, mas ela não tem paciência para cantar, para estudar. Mas ela adora cantar, também. E gosta de fazer teatro. Mas não, ela está naquela fase ainda de saber o que vai fazer. E o Ariel gosta, também. Ele está esperando eu acertar o negócio da bateria, que ele está a fim de tocar bateria.

LIVROS/PESSOAS
Os Sonhos não Envelhecem/Elis Regina

A história do livro, não é? Foi o seguinte: um dia que a gente passou, na época da gravação do “Os Borges”. Aliás, a gravação do “Os Borges” é aquela foto, por exemplo. Eu sou contra-regra daquela foto da capa, não é? Porque eu estou naquela foto. (RISO) Eu estou na foto, mas segurando a bolsa do fotógrafo, (RISO) do Luis Afonso. Então, todas as fotos do Clube, eu estou ali atrás. Aquelas que foram tiradas em Santa Tereza, na rua…
E nessa época que a gente estava gravando, você lembra que a Elis Regina estava gravando “O Trem Azul” no estúdio ao lado e a gente naquele convívio ali, entrava numa coisa, ia para a outra. E a Elis entrou até numa de gravar uma música nossa, a gente não tinha. Nós fomos, chegamos à pretensão de ir para casa, compor uma música para a Elis. Mas não saiu porra nenhuma. (RISO) Que a gente acabou ficando fora do livro dela, do disco. Coisa que depois… uma música que eu fiz, chama “Samba Para o Marcinho”, que está nesse disco meu aí, parceria com a Ana Terra. Eu encontrei com a Ana Terra na praia, e a Ana Terra me falou: “Porra, a Elis me ligou ontem e falou que vai gravar aquela música nossa.” E aí meu amigo, eu fiquei todo contente, mas durou pouco. A Elis morreu uma semana depois e perdi o contato. Mas, aí, no negócio do livro. Foi numa dessas gravações, nós passamos um dia lá; estava eu, você e o Ronaldo Bastos. Nós fomos almoçar com a Elis. Nós passamos o dia inteiro colado com ela. Nós fomos almoçar em um restaurantezinho que tinha ali na… perto da Odeon, da Mena Barreto. Almoçamos ali, voltamos para gravar. Passamos a tarde toda gravando. E de noite nós fomos para a casa dela lá na Joatinga. Fomos nós quatro para lá. Ela fez um camarão salgado para cacete. Um camarão, ela resolveu fazer lá “no coiso”. Mas o camarão estava horroroso. Horroroso, salgado. E foi no dia, cara, eu lembro que a gente estava na maior alegria lá nesse dia. Conversando, discutindo. Alguém ligou para ela e comunicou que o John Lennon havia morrido. E, aí, foi uma choradeira do cacete. Você começou a chorar. Ela começou a chorar também, e aí acabou a nossa festa. Esse foi o meu contato com a Elis.

TRABALHOS
Avaliação

O negócio… eu acho que viver, viver assim a emoção, entendeu, isso é primordial. É a primeira coisa. Mas eu me ressinto um pouco, hoje em dia, de não ter nesse meio tempo, ter usufruído mais do lado técnico, entendeu? Eu acho que eu devia ter estudado mais um pouco. E gostaria que quem tivesse vendo isso aí, que tiver dom para alguma coisa eu acho que tem que encarar tudo. A parte técnica, por exemplo. Eu sempre tive uma idéia errônea de que você – era uma coisa também que se passava na época – quando você entrava para estudar uma coisa, botar regras, você acabava perdendo o lado intuitivo. E não é verdade. Eu acho que a técnica ela ajuda para caramba você colocar… soltar a intuição. E isso ajuda. E hoje em dia eu percebo isso. Mas estou me recuperando com relação a isso. De resto acho que é isso aí mesmo. É viver, curtir os amigos, você não desejar mal para ninguém, e estar por aí.

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Clube da Esquina: Museu

Eu achei, a princípio, a maior honra. É, (chora) em uma fase assim que eu estou, havia pensado em retomar meu caminho como compositor. Eu fiquei tanto tempo em Vitória tocando na noite, tocando música dos outros. Fiz um… tem muita coisa para botar para fora. Fiquei sabendo hoje uma notícia maravilhosa, estive com o Toninho Horta agora de manhã, e fiquei sabendo que eu estou em um livrão aí, não é? Quer dizer, isso aí é uma coisa muito importante também. E é isso, agora… O livrão… é um livro que eles estão fazendo aí. Houve uma comissão, ele, o Juarez, Moreira, que, aliás é uma outra pessoa. O Celsinho que eu gostaria de falar que são pessoas que foram muito importantes também para mim na época. E eles, não sei quem são as outras pessoas, estão fazendo um apanhado da música popular brasileira. E conseguiram selecionar aí 600 músicas que eles consideram de representatividade. E vai ser editado agora um livrão, um trabalho que já vem aí, há cinco anos atrás que eu estive em Belo Horizonte ele já tinha começado a fazer esse trabalho. E hoje eu estive com o Toninho, fui lá resolver outra coisa com o Toninho e tive o prazer de saber que eu estou incluído nesse livro.
Eu acho fantástica essa iniciativa do Museu Clube da Esquina. Eu acho fantástica. Eu falo isso por Vitória. Porque eu me ressinto dessas coisas, por exemplo, lá, entendeu? Eu acho que é uma história que tem que ser contada. E não foi uma história de, por exemplo, o Clube da Esquina foi um disco que foi gravado. Mas ao mesmo tempo, quer dizer, o grande público conheceu como isso. Mas na verdade ele foi muito mais abrangente que isso. É uma história toda que está em volta disso. É a cidade de Belo Horizonte, são as pessoas, famílias. Então tudo isso aí é uma coisa que para você contar a história realmente daquilo ali, você tem que abranger mais e ver o que é que cerca. E é por aí. Eu achei muito, muito boa.
Gostei demais da entrevista.

Tom Jobim e Vinícius de Morais
Eu vou contar aquela história agora, eu tomei esse golinho aqui. (RISO) Eu vou tomar mais um golinho de vinho. Eu não bebo, mas eu vou contar a história… o meu contato com Tom. O Tom e o Vinícius. Eu estava voltando da praia em Ipanema, eu a Miúcha e o Jamil Joanes. Aí, a Miúcha: “Ah, vamos passar no bar ali, no Garota de Ipanema, ver se eu vejo a turma ali.” Quando eu entro no bar, cara, quem eu vejo? Quem está sentado na mesa lá? Tom e Vinicius. Eu falei: “Porra, bicho, encontrar os dois assim de cara.” Aí, me apresentou: “Tom, esse aqui é o meu amigo, Chico.” (RISO) Aí o Tom, foi pegou: “Pô, Chico, toma um uísque aí.” Eu falei: “Na mesma hora”. Porra, tomei um, saí de lá no maior grau, de tarde. (RISOS) Vou recusar um uísque de Tom Jobim? Não vou não.

PALAVRAS FINAIS
É, né. “Tamos aí”. “Vamos nessa, eu, você e Chico Lessa.”
(palmas)

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