Chico Pinheiro

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IDENTIFICAÇÃO
Nome, data e local de nascimento
Meu nome completo é Francisco de Assis Pinheiro, local de nascimento é Santa Maria. A data é 17 de junho de 1953. Local de nascimento é Santa Maria e isso é muito engraçado. Eu me sinto mineiro, eu sou mineiro, naquele velho ditado que Minas é um Estado de espírito, não é geográfico. Uma vez eu estava viajando aqui pra São Paulo de avião, e o avião estava vazio, e tinha um senhor assim, perto de mim. Ele veio, sentou ao meu lado e falou: “Oi Chico, tudo bom?” Bem, eu conhecia o cara. Aí ele falou assim: “Pois é sô, a gente nunca conversou, que coisa, que trem”, aquele bem mineiro mesmo. “Você é filho de quem mesmo?” Eu falei: “De seu Antônio e a dona Ester”. “É, de onde é que a dona Ester?”. “Dores do Indaiá” “Qual é a família dela?” “Família Melo, Gontijo de Melo, tal” “E teu pai?” “Meu pai nasceu na Bahia, divisa com Minas, foi criado lá no Jequitinhonha”. “E você, onde é que você nasceu mesmo?”. Eu falei: “Eu nasci em Santa Maria”. “Do Suaçuí?” (risos) Eu falei: “Não”. “Ah, do Itabira?” (risos) Eu falei: “Não”. “Do Salto?” E eu falei: “Não”. Ele foi falando, desfiando todas as cidades Santas Marias que existem em Minas Gerais e perguntou: “Mas que Santa Maria é essa que eu não conheço?” Eu falei: “Ô José Aparecido; é Santa Maria da Boca do Monte”. Ele falou: “Meu Deus do céu, isso é no Rio Grande do Sul!” Eu falei: “É…” “Ué, como é que você foi parar lá?” (risos) Eu falei: “Eu não fui parar lá, quem foi parar lá foi minha mãe e meu pai. Meu pai é topógrafo e tinha recém casado e foi fazer um trabalho lá no Rio Grande do Sul, em Santa Maria, levou minha mãe. Minha mãe já estava grávida, chegou a hora de eu nascer e eu nasci lá.” “E daí, você conhece lá?” Falei: “Eu não conheço”. “Você tem parente lá?” Falei: “Não”. “Só nasceu?” Falei: “Só nasci. Minha mãe correu de volta pra Belo Horizonte pra pedir ajuda pra criar eu”. (risos) Ele falou assim: “Nossa, você não tem culpa nenhuma! (risos) Pelo histórico familiar, você é mineiro”, disse o José Aparecido. (risos) “Então, quando alguém te perguntar onde é que você nasceu, você diz: ‘Santa Maria’. A pessoa fala: ‘Do Suaçuí?’ Aí você desconversa, muda de assunto, que você não tem culpa nenhuma de ter nascido no Rio Grande do Sul”. (risos) Então, eu não tenho culpa nenhuma de ter nascido no Rio Grande do Sul. E eu sou mineiro, porque, não sei, eu não tenho nada ver com o Centro de Tradições Gaúchas.

FAMILIA
Identificação e atividade dos pais
Antônio Oscar Pinheiro, topógrafo, 84 anos, agora em setembro, vai fazer, vereador de Belo Horizonte. Vereador depois dos 66 anos, um vereador por amor ao Brasil e à causa pública. Um vereador que é um político absolutamente diferente do que eu conheço, não é porque é meu pai, mas é mesmo, na contra mão da história, dos privilégios, que entende a política como “dimensão especial do serviço”. E ele que é muito católico, “como espaço privilegiado para o exercício da caridade”. A caridade no sentido mais amplo disso, de doação. Pro papai ser político é uma forma de entrega, tanto é que nem salário ele recebe, não gosta de receber, não leva vantagens nessas coisas. E minha mãe, nascida em Dores do Indaiá, foi professora, era filha de uma diretora de grupo escolar mineiro. Minha mãe, Ester Montijo de Melo Pinheiro, de Dores do Indaiá, que viajou, passou pela morte ano passado, em fevereiro. E que adorava ouvir as músicas de Minas e gostava muito de cantar. O pai dela tocava flauta e tinha, ela falava que era uma jazz band, porque no interior de Minas tinha essas jazz band, que eu não sei o que é. Tocava chorinho, tocava uma flauta linda de prata. E mamãe gostava muito de cantar. Gostava muito de cantar “Travessia”, gostava muito de cantar “Maria, Maria”.

CIDADES
Localidade de Belo Horizonte
Eu morei na Floresta, até os 12, 13 anos. Depois morei na Serra. E depois que eu me casei, em 1977, eu fui morar no Sion e depois no Funcionários, ali perto da Savassi. E vim pra São Paulo em 1992, há 15 anos atrás. Vim pra São Paulo, não; vim pra São Paulo, mas continuo em Minas.

INFÂNCIA
Musicas da infância
Na minha casa tinha muito chorinho, tinha muita música da Ângela Maria, [canta] “Tarde silenciosa de Lindóia”, tinha muito baile da saudade. E tinha músicas da época, primeiro boleros, até tangos. Tinha árias de ópera, que mamãe gostava muito. Mamãe era cantora lírica, ela tocava piano. Tinha óperas, eu me lembro bem de “La Traviata” de Verdi, que ela gostava muito; “Carmen”, umas árias que ela gostava de cantar. E depois, depois teve o que? Depois teve bossa nova, teve Clube da Esquina, muito. Um pouco mesmo porque ela não entendia bem a linguagem dos garotos, daquele negócio do Lô e do Beto já era pra ela meio… Mas ela achava lindo, mas não era de cantar. O que ela cantou, gostou muito, foi de “Travessia”, eu me lembro bem; “Maria, Maria”, que ela adorava. E até o falecimento dela, cantava no coro da Igreja de Santa da Serra. Cantava tudo. E eu cresci ouvindo essas coisas todas, com as mais amplas influências. Eu ouço música desde que eu nasci. Eu falei da “La Traviata” de Verdi, mas minha mãe me contava que eu tinha menos de dois anos, e que meu avô estava comigo no colo, esse que tocava flauta, o pai dela. E ele falou: “Olha que música bonita!”. Eu falei: “É La Traviata de Verdi”. (risos) Que já tinham me contado e eu sabia, eu sempre gostei, eu sempre gostei muito de música.

JUVENTUDE / PESSOAS
Beatles, Tavito
Eu ouvia Beatles, com muitos problemas, porque primeiro eu não podia usar aquele cabelo. Eu morava na Serra, na Rua Pirapetinga, ali pertinho da Igreja de Santana. Esses dias eu estava conversando com o Tavito, que era a minha inveja. Eu estudava no Colégio Santo Antônio, onde os frades franciscanos nos faziam cortar o cabelo bem curto. E eu ficava na varanda da minha casa, ali na Rua Pirapetinga e via descer o Tavito com cabelo no ombro, uma calça branca, uma camisa daquelas listradas, assim, uma botinha e batendo aqueles cabelões de John Lennon. E descia a rua e eu ficava na varanda, olhando do outro lado, falava assim: “Um dia ainda vou ser igual aquele moço, eu juro que vou ser igual àquele moço”. (risos) Poder ser livre assim… Se meu cabelo crescesse um pouco, primeiro o colégio me pegava, mas antes do colégio, o meu pai me acertava. (risos) Então, são umas coisas terríveis, porque no resto, eu vivia. “A rua e seus ramalhetes, o amor anotado em bilhetes”. E a gente se lembra disso. A Rua Ramalhete é uma perfeição. Era perto da minha casa, Tavito descia, queria ir pra casa do João Heraldo, que foi até secretário de governo em Minas, Secretário da Fazenda, onde se hospedava Vinícius de Moraes. O Vinícius se hospedava na Rua Pirapetinga, ali embaixo, quando ia a Belo Horizonte. E tinha uma mercearia, na esquina da Rua Caetano Dias com a Pirapetinga, assim, bem em frente à Igreja de Santana, era uma mercearia onde a gente sentava no chão, assim, na soleira da porta, e ficava a tarde ali chupando sorvete, tomando Coca-Cola, e tal. E, às vezes, tínhamos o privilégio de ver Vinicius de Moraes aparecer, com seu inseparável copo de whisky com gelo. Chegava lá, comprava alguma coisa, sei lá, um pão de queijo, ou um cigarro e voltava pra casa do João Heraldo. E a gente falava: “Vinícius de Moraes…” Mas eu via Tavito passando com aquele cabelo e vivia tudo aquilo lá. Voltando a esse ambiente da Belo Horizonte que, eu hoje quando vou, fico buscando os fragmentos dela: “Onde é que está a minha BH?”. E às vezes me assusto, porque eu acho que ela sumiu. Nada, ela aparece. Aparece às vezes num ou noutro lugar, perto na Floresta, pertinho da pracinha da Negrão de Lima. Ela aparece no perfume de uma dama da noite, de um jasmim. Você sente e fala: “Opa, BH voltou”. Que voltou o que. Não sei se voltou, se existe ainda. O mundo que a gente viveu, onde você ia pro baile, pros bailes, pras festas, pros bailes do Olímpico Clube, na Serra e dançava e sentia ela “tremer dentro do vestido”. E fazia as perguntas mais imbecis, aquela: “Você vem sempre aqui?” (risos) “Como é o seu nome?” E ela suava, e a gente, putz, era uma coisa terrível. Ou o muro do Sacré-Cœur, o olhar de rapina, às vezes as pessoas não sabem, era principalmente em cima de um carro, que eles chamam DKV, mas a gente de DKVia (risos). Porque o DKV, uma fábrica que teve aqui, chamada DKV Vemag, tinha o Belcar e outro pequeninho, que eu esqueci o nome agora. Esse carro, no começo, a porta dele, em vez de abrir assim, ela abria assim, pra frente. E aí você ficava sentado no muro do Sacré-Cœur vendo chegar os Belcar e as Vemaguetes, que eram os Belcar e as Vemaguetes, que era a peruinha, a van pequenininha. A hora que abria a porta da frente, que as mães, os pais iam levar as filhas para escola, as adolescentes do Sacré-Cœur e do Assunção, ali na Rua Estevão Pinto. Elas para descer, com aquelas saias lindas, plissadas, o nosso sonho, meia três quartos branca. (risos) Coisas maravilhosas, elas, para descer, abriam a perna, assim. Aí você cutucava o colega e falava assim: “Eu vi! É rosa”. “Não, é azul clarinho!” Olha, e dava uma descarga de adrenalina, uma coisa insuportável. Você achava que ia morrer, porque tinha visto um pedaço do paraíso. (risos) Quando aparecia alguma, raro, raríssimo, isso era um atrevimento, não era coisa de moça séria. Mas quando aparecia uma: “É preta!” Aí, morria a galera toda. As meninas de 14 anos não tinham o menor sossego mais. (risos) Então, esse mundo de erotismo quase infantil, ingênuo, embalado nas músicas dos Beatles. E depois eu, filho de pai católico e tal, freqüentador da Igreja de Santana, estudante do Colégio Santo Antônio, sofri um dilaceramento interno terrível o dia que o John Lennon cometeu a extrema burrice de dizer que eles eram mais populares que Jesus Cristo. E vi meu pai pegar o disco do Hard day’s night e riscar ele todo de prego, pra eu não ouvir mais aquilo, “Porque esse cara é um herege, um pecador” e tal. E eu chorava, não podia ouvir mais um disco que eu comprei com tanto esforço, juntei mesadinha por mesadinha, fui ali pra Avenida Afonso Pena, perto da Rua da Bahia, tinha uma loja de disco ali, para eu comprar aquele disco que eu namorava há meses, aquele que tem aquelas carinhas todas, comprar aquele, o Help. O Help eu consegui salvar, mas o Hard day’s night, não. Falou: “Esse disco não toca mais nessa casa”, e riscou o disco todo de prego. Porque o John Lennon era mais popular que o Jesus Cristo. (risos) Eu vi isso; eu falei do Olímpico Clube, eu me lembro de um outro período terrível, porque de um lado você tinha a ditadura militar, você tinha um monte de gente do meio artístico no protesto. Outros que era pouco usados pelo sistema, mas que eram forte musicalmente, e aí eu me lembro muito bem do show, por exemplo, do Wilson Simonal. Porque tinha os baianos com o Tropicalismo, nós, de Belo Horizonte, com o Clube da Esquina e o pessoal meio Rio-São Paulo, que era a turma da pilantragem, né? [canta música do Wilson Simonal] “La ra ra ra…” Uma coisa meio inspirado no Cris Montês, não é da época de vocês. Mas cantava “Storm…”, cantava uma coisa mais suave e tal. Então, a gente ia pra isso. E depois, aí veio toda essa história do Clube da Esquina.

FESTIVAIS
Festival Estudantil da Canção
Eu me lembro vagamente de uma vez que eu fui na Secretaria de Saúde. E depois o Lô Borges me lembrava disso, que ele se apresentou com o Beto Guedes pra cantar “Equatorial”. E eu me lembrava um pouco disso, acho que a Lady Francisco apresentando, a atriz mineira apresentando, falou assim: “Agora, Lu Borges e Beth Guedes vão cantar Equatoril!” (risos) Era “Equatorial”. Que não ganhou o festival, uma música linda até hoje. Eu tenho uma vaga lembrança, porque era tanta coisa, olha, era isso na Secretaria de Saúde. Um pouco depois, no DCE da Federal, que ficava, se não me engano, na Rua Gonçalves Dias. E tinha outro DCE que estava na Getúlio Vargas, da PUC. E eu estudava na Católica depois. E eu me lembro muito de momentos terríveis… “Em meio a tantos gases lacrimogêneos, ficam calmos, calmos”, a gente ficava nada calmo, não. Show do Gonzaguinha: [canta] “Cama de gato, olha a garra dele”. O Gonzaguinha provocando, cheio de agentes do DOPS dentro daqueles festivais, temendo nós estudantes, como se a gente fosse fazer a revolução. Veja só que bobagem. Mas gastando toda a força do regime para nos combater, porque a gente tinha idéias. E foi um pouco por aí que eu fui entrando lentamente pro caminho do jornalismo também. “Propriamente eu sou Durango Kid, o meu jornal é o meu revólver. Eu vim trazer, eu vim mostrar, novo jornal, novo sorriso”. Essa letra maravilhosa do Fernando Brant. E naquela época, era uma profissão que tinha, para nós, esse fascínio, de um pouco ser um pouco herói, porque o proibido era falar. Então, tudo isso está misturado, e quando a gente viaja pra esse universo, dos anos 60, anos 70, a gente se lembra de tudo isso e tudo muito misturado: vida e música. Eu diria pra vocês que Belo Horizonte nesses anos, 70 principalmente, a trilha sonora de Belo Horizonte era essa; era Milton, Fernando, Lô, Marcinho, Beto… Isso era a trilha sonora. Toninho, Tavinho Moura, Tavito… Era mais ou menos isso.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina
Eu era fã, cara. Eu era fã. Eu ia ver, eu ia a show e tal. Eu tive contato nessa mesma época que a gente começava, que a gente ouvia Beatles, e que a gente ouvia a música que se fazia no Brasil. Quer dizer, eu me lembro de algumas coisas, não sei por que isso vem agora, alguns discos que marcaram pra mim. Eu já tinha ouvido o disco do Bituca, mas o que pegou, revirou, que a gente ouvia o dia inteiro era o Clube da Esquina. Porque era uma coisa absurda aquilo. Eu me lembro que nessa época, não sei se exatamente na mesma época, mas tinha o negócio do rock progressivo, tinha o Rick Wakeman, que a gente ouvia, não sei se é o Henrique VIII, Viagem ao Centro da Terra e a gente ouvia isso, ouvia Beatles e ouvia Clube da Esquina junto. Me vem à cabeça agora também, ouvia o mineiro, que hoje mora no Rio de Janeiro, Sirlan, que fez uma música num festival, fortíssima, “Viva Zapátria”, com o Murilo Antunes. O Murilo, grande poeta de Pedra Azul. E aí a gente fica sabendo de outros, Flávio Venturini. A gente começava a ouvir, ouvia isso, se reunia pra ouvir, pra entender isso. A música era maneira muito forte de expressar, o que ia na alma do mineiro, que ia na alma do Brasil. Porque Minas é síntese de Brasil, sim. E era uma palavra libertadora que vinha de Minas. Minas é estranho, não é? Minas é de Tiradentes, Minas é de Tancredo, mas Minas também é de Joaquim Silvério dos Reis. Minas é também dos generais, Mourão Filho, general Guedes. Minas também é dos empresários que deram o golpe em 1964. Minas também é Minas das seguidoras do padre João Botelho, que se juntaram na Igreja para dar sustentação ao golpe. Entre essas mulheres, pura e santa, minha querida Tidá, Tia Hilda, que com o terço na mão ia banir os comunistas, coitada. Uma tia solteira e beata, tal e muito querida. Então, Minas têm essas coisas estranhas. Minas são várias, você tem esse lado da Minas conservadora, um lado de Minas, libertário. E eu vou me lembrando dessas coisas todas, porque eu me lembro que essa música, que não era tão explícita quanto à música de protesto do Vandré, por exemplo. A música mineira era de uma violência brutal. “Os ratos soltos na praça.” Você quando pega as músicas do Clube da Esquina, você começa a entender do nosso jeito discreto de dizer, do jeito prudente de dizer do mineiro, ele está falando as verdades mais duras, mais radicais. E isso eu me lembro muito. E me lembro muito, depois de viver todo esse período vendo, acompanhando o trabalho do Clube da Esquina e vendo a “Caetés, Goitacazes, Tapuias, Tupinambás, Aimorés, todos no chão”. “Ah, minha aldeia, minha querida aldeia”. Quando a gente começa a pensar nessa aldeia, que é do Tavinho, que é do Murilo, que é do Fernando, que é do Veveco, que saudade do Veveco… Eu me lembro de repente, de outra cena. Eu, aí já, fui repórter do Diário de Minas em 1971, há 36 anos, e fui do Jornal do Brasil e depois fui chefe de reportagem da TV Globo, há 30 anos, em 1977. Depois fui repórter do Jornal da TV Globo, e eu me lembro daquele fim de tarde memorável, no meio da ditadura, eu que admirava, curtia, ia a show, era fã de toda galera do Clube da Esquina. Eu me lembro, tempos depois de estar num fim de tarde com uma chuvinha fina na Praça da Liberdade, no meio da multidão, ainda na ditadura, no governo do general Figueiredo, aquele que gostava mais do cavalo, do cheiro do cavalo, abraçado com o Fernando Brant, ouvindo aquele velhinho falar lá da sacada do Palácio da Liberdade: “O primeiro compromisso de Minas é com a liberdade. Porque a liberdade é o outro nome de Minas. Minas, terra adorada, tu terás os meus ossos.” E a gente ali eu abraçado com Fernando. Era emoção dupla: eu com um grande poeta do Clube da Esquina, grande jornalista, que é o Fernando, vendo acontecer a história na minha frente, Tancredo Neves, governador de Minas Gerais, debaixo da ditadura militar. Embora o Tancredo nunca tenha sido, pra nós antes, o nosso ideal político. Tancredo era muito moderado, quase conservador, mas ele tinha a prudência e a sabedoria dos mineiros. A gente às vezes caminhava um pouco mais à esquerda, queria quebrar o pau. Mas nessa moderação, nesse jeito, comendo pelas bordas, devagarzinho, Tancredo chegou lá, com a prudência necessária e a determinação suficiente. Ele soube chegar lá e chegou lá embalado na trilha sonora de Nascimento e Brant. Eu me lembro que eu, nessa época, eu trabalhava no Quilombo e a gente montou uma peça junto com a Livre Propaganda, que era o Marcinho Ferreira, o Pardal, o Chico e tinha uma placa no Palácio da Liberdade, assim: “Brevemente nesse local, Tancredo Neves”, era uma peça de publicidade. E inaugurar aquela Alameda da Praça da Liberdade, com o nome de Alameda Travessia, eu estava ali naquele momento. Então, são fragmentos, eu estou contando aqui fragmentos, de coisas que a gente viu, que a gente viveu, que marcou profundamente, que é coisa que está tatuada no coração e na mente. São memórias tatuadas no coração e na mente. E eu nunca vou ser outra coisa, porque isso marcou a minha vida. Como marcou o show de Três Pontas, de 1977.

CLUBE DA ESQUINA
Quilombo
Mas aí é uma confluência do trabalho do jornalista. Eu já estava na época, no Jornal do Brasil, era por volta de 1975, 1976. Eu trabalhava na Afonso Pena, 1500, na sucursal do JB. E aí, por força da profissão, do jornalismo, eu começo a conhecer algumas pessoas. Eu conheço o Fernando, conheço o Milton, mas como repórter. Era 1976, por aí. Logo depois, conheço um rapaz, que era fotógrafo da assessoria de imprensa da Acesita, fotógrafo Márcio Ferreira, que eu fiquei conhecendo porque aquele que era então meu sogro, era da direção da Acesita na época, o Marcelo Parisi, e o Marcinho Ferreira era o fotógrafo da Acesita. Eu tive algumas vezes com ele e depois ele era fanático por Milton Nascimento, ele fez um monte de fotos do Bituca, fez uma exposição, não sei o que. Depois eu fiquei sabendo que ele estava trabalhando para o Bituca. E depois, fiquei sabendo que ele era empresário do Bituca, que ele tinha virado empresário do Bituca. Resolveu cuidar, produzir disco e tal. Eu, em 1983, logo depois desse negócio da posse do Tancredo, foi nessa época aí, eu deixei a TV Globo, eu era repórter nacional da Rede Globo lá em Minas. Fiz um concurso, fui dar aula na Federal, na UFMG, na Fafich. Fiz um concurso público, fui ser professor de jornalismo, fiquei alguns anos no jornalismo no Rio de Janeiro, uns três, quatro anos. Saí e o Marcinho Ferreira me chamou para trabalhar no Quilombo: “Valhacouto de negros fugidos”, ali na Rua dos Timbiras. “Vamos fazer o que, Marcinho?” Ele falou: “Sei lá, assessoria de imprensa”. E no final a gente sabia que a gente fazia um monte de coisa, produzia um monte de coisa. Eu acabei ajudando a produzir show, a produzir disco, conheci o mundo de gente. E ali havia um projeto, chamava-se Projeto Cata-Vento, depois passou a se chamar Trem Azul. Que Cata-Vento era a marca que a gente descobriu que era registrada da TV Cultura de São Paulo e tinha que mudar o nome. Era um projeto que era o seguinte: a gente criou um jornalzinho, um tablóide, que eu editava esse jornal. Era um jornal que tinha sempre uma grande foto do Márcio, que era onde ele botava o seu talento de fotógrafo, ele fazia umas fotos bonitas, pra fazer a capa do jornal, diagramava a capa. E na página dois, assim, um tablóide. Eu dava notícias de música, de disco, quem está lançando, o que está fazendo e tal. Era um jornal de oito páginas, que passou a ser de 12, mensal. E sempre no meio, a gente tinha uma página de entrevistas, a gente fazia entrevista especial nesse jornal. E foi um jornal que teve um corpo de repórteres muito interessante, porque algumas dessas entrevistas, eu me lembro, eu era o editor do jornal, os meus repórteres eram Fernando Brant; Tavinho Moura participou de algumas, Gonzaguinha. Eram os meus repórteres, você imagina. E o meu fotógrafo, que era o Marcinho Ferreira. (risos) Eu me lembro uma entrevista com o Djavan, o Djavan contando a sua história. Isso numa mesa regada a cerveja, a lingüicinha mineira e tal. A gente sentava ali e deixava o papo rolar. E esse jornal então, era a expressão disso, do Quilombo, era um jornalzinho chamado Cata-Vento, depois passou a se chamar Trem Azul, como eu disse. Junto desse jornal, a gente tinha um programa de rádio, que eu também ajudava, eu montava esse programa, com a Beth. Mas a Beth era a locutora do programa, era ela e o Milton. A gente gravava o programa de rádio semanal, eu redigia o programa. Gravava o programa de rádio, que era, mais ou menos, o jornal em forma de rádio. Era um programa de meia hora, que a gente, o Demerval ia pro estúdio do Quilombo, ele gravava o Milton. O Milton tinha sido disc jokey lá em Três Pontas, então ele adorava. Aliás, tem uma música dele, a “Rádio Experiência”, que ele fala disso, né? [canta] “Amigos ouvintes, obrigado”. Ele conta a história de rádio. Ele adorava ser locutor de rádio. Então chegava o Bituca de noite para gravar o programa. Então chegava: “Amigos…”, aquela voz de locutor, né? E a Beth Coelho fazia com ele. A Beth fazia com ele o programa, apresentava e eu redigia esse programa. E o Milton, ele nas viagens pra show, pra disco, enfim, toda viagem que ele fazia pelo Brasil, ele andava com um gravadorzinho dentro da bolsa. E todo mundo que ele encontrava, dos amigos artistas, Chico Buarque de Holanda, Fafá de Belém, qualquer lugar, no aeroporto, no hotel, no camarim de show, ele gravava uma entrevista. Ele fazia a entrevista, gravava e me dava a fita. Eu ia, editava aquilo e montávamos um programa de rádio de meia hora, que tinha três partes: os primeiros dez minutos, eram notícias da música em Minas Gerais. A gente contava o que estava acontecendo, quem estava fazendo o que, pá pá pá…. O segundo bloco, de mais dez minutos, era entrevista especial do Bituca: “Milton Nascimento entrevista… tá tá tá”, tinha uma vinhetinha, e aí entrevista, sei lá, Edu Lobo. Aí vinha o Edu, aí o Milton soltava a conversa e tal… E o terceiro bloco, era programação com agenda, o que vai acontecer, o que está pintando de novo, uma crônica, que às vezes a gente fazia, alguém lia uma crônica. E eu redigia o texto desse programa e o jornal. Era um tripé: era o programa de rádio, o jornal e shows. Shows… que a idéia era o Milton fazer shows junto com todos, era bem em cima do Milton. Era Quilombo em cima do Milton. E junto com o pessoal todo do Clube da Esquina, uma hora um, outra hora outro e lançando gente nova. Gente nova abria o show. E aí, foram feitos vários shows nessa época, em Minas Gerais, interior principalmente.
Eu me lembro, por exemplo, o Tadeu Franco, que cantou antes, que cantou algumas vezes antes do show do Milton, cantou com o Milton também, gravou uma música belíssima com o Milton, “Comunhão”. Me lembro de muita gente assim, que passava. E houve uma série de shows também no interior de São Paulo. Então a gente pegava esse programa de rádio, e dava de graça pra 32, ou 33 rádios do interior de Minas, algumas no interior de São Paulo e outras do Mato Grosso. Eu me lembro de Sinope, Alta Floresta, a gente pegava fita, fazia uma fitinha do programa de meia hora, mandava de graça o programa do Cata-vento, depois Trem Azul, com o Milton Nascimento apresentando o programa, de graça pra rádio. O único compromisso era botar esse programa, de meia hora, sem editar, no sábado à noite. Por que isso? Porque o Bituca tinha notado que em vários lugares aonde ele ia à noite, principalmente nas noites de sábado, que ele passava perto de um barzinho, de alguma coisa, nessas cidades de interior de Minas, ou na capital, tinha sempre alguém com o carro ligado, com o rádio do carro ligado, ouvindo programas de música bubblegum music, essa música americana de baixa qualidade, de merda. E a galerinha se emprenhando com esse negócio e ele falou: “Não, alguém tem que ouvir música brasileira”. Então ele dava para que essas rádios começassem a tocar sempre depois de oito da noite de sábado. Era um compromisso. “A gente dá o programa de graça, coloca na rádio pra vocês, agora vocês têm que tocar isso. Vocês podem comercializar, patrocínio.” Eu me lembro que, numa época, eu cheguei a ter contato com o José Roberto Marinho, que a nossa idéia era entregar esse programa para a Rádio Globo, pela rede que a Globo tinha pelo Brasil inteiro e aí a gente teria a garantia de uma divulgação disso. Era uma resistência mineira, meio guerrilheira do Bituca e Marcinho, contra essa invasão da música comercial “jabazistica” americana, das gravadoras. Era a guerrilha dele. A nossa idéia era ocupar o Brasil inteiro com esse programa. E não conseguimos, não. Exército de Brancaleone. Mas conseguimos em várias emissoras de rádio, para as quais nós mandávamos o jornal, quer dizer, a pessoa ouvia o programa e falava: “Ih, o jornal já está aí nas bancas, vá à rádio, pegue o seu exemplar”. E tinha a seção de cartas, esse negócio todo. E o outro, tinha ali os show, o jornal e o programa de rádio e um quarto elemento, que era a escolinha de música, que eu não sei depois o que aconteceu com ela. Era uma escolinha de música, que o Milton ajudava, mantinha, tal, orientava, onde, aí eu já estava um pouco distante dessa parte do projeto. Mas um Brasil que viveu dias memoráveis. Você já imaginou, você ter uma entrevista hoje com o Gonzaguinha, Fernando, Tavinho Moura, repórteres. Eu, que era editor-chefe do jornal, ia ficando desse tamanhozinho. “Só tem gigante ao meu lado”. E o jornal, que um dia, eu tive a incumbência de passar a página central, de ligar pro maestro soberano, pra pedir uma entrevista pra ele, Antônio Carlos “Brasileiro” de Almeida Jobim, que aliás gravou “Trem Azul”. Então eu liguei, todo respeitoso, completamente alucinado, porque eu falava com o grande maestro; Villa Lobos, depois vem Tom Jobim, pô. E o Tom falou assim: “Mas quem virá pra entrevista?”, porque algumas vezes eu fui para o Rio fazer entrevista. Eu falei: “Ah, o Cata-vento, o Trem Azul, está sem dinheiro e acho que acaba que só eu que vou”. “Mas e os outros repórteres?” Ele sabia que tinha gente que participava da entrevista. Falei: “Ah, não vai dar pra levar todo mundo, está muito caro”. “Então, em vez de você vir, vou eu.” Aí o Tom Jobim tomou um avião no Rio de Janeiro, num sábado, e pro Quilombo, na Rua dos Timbiras e passa conosco uma manhã inteira, até duas, três da tarde, dando uma longa entrevista pro jornal, uma entrevista que foi gravada em fita, e Quilombo ainda tem isso. Talvez o Marcinho, que também já foi, já passou pela morte, já está em outra dimensão, mas talvez as irmãs dele, a Lelena, o Demerval, saibam onde está essa entrevista, que foi de horas, horas… Foi um acontecimento no Quilombo. Tom Jobim, à disposição do nosso jornal, pra contar histórias. É uma coisa louca, viu? Várias fotos. Eu acho que eu tenho uma foto dessas, de entrevista, mas eu não sei onde está, nessa altura do campeonato. E todo mundo lá, Fernando, Lô, Beto, Veveco, eu me lembro, era uma confusão tremenda. As pessoas lá, porque o maestro veio pra dar uma entrevista. Você imagina o que é o Tom Jobim sair do Rio de Janeiro para dar entrevista para o Cata-vento. “Cata-vento, cata cata o vento, cata-vento, não é fácil, não.” (risos) E assim a gente fez muita coisa legal.

CLUBE DA ESQUINA
Avaliação
Eu vou sempre me ancorar e me proteger em nossos poetas: “Sou do mundo, sou Minas Gerais.” “Diamantina é o beco do Mota, Minas é o beco, Brasil é o beco do Mota. Viva o meu país.” Quer dizer, tudo eu falo assim. Às vezes eu falo: “Ah, eu só tenho vontade mesmo de sair do Brasil, quando eu viajo pro exterior, pra um lugar: pra Minas Gerais”. (risos) É o único país estrangeiro (risos) que eu gosto, pra onde eu gosto de viajar. “Você vai viajar pro exterior?” Eu disse: “Vou, eu estou morando aqui em São Paulo, eu vou pra Minas Gerais, que é um país do outro mundo”. Então, eu sou muito suspeito pra falar disso. Mas eu me lembro que um dia eu entrevistava o Caetano Veloso, pra um programa que eu apresento na GloboNews, que é o Espaço Aberto, agora se chama Sarau. E gravei uma hora e cacetada de entrevista com o Caetano. E quando terminou o programa, a gente ali, arrumando as coisas, o equipamento, e eu falava com o Caetano, lembrando os shows que o Caetano fez, e que ele tinha aquele programa do Caetano, ele com o Chico, o Milton foi, eu estava perto na época e eu me lembro que o Caetano falou assim: “A única coisa original, talvez mais que a bossa nova, que aconteceu na música brasileira, foi Milton Nascimento e seu Clube da Esquina. Essa é a única coisa realmente original, além do samba que existe no Brasil, talvez mais que a bossa nova. Nós da Bahia não valemos nada perto disso”. Depois uma amiga minha perguntou: “Ele gravou isso?”. Eu falei: “Claro que não, ele falou depois que já desligou a câmera. (risos) Ele não vai botar essa azeitona no acarajé dele de jeito nenhum” (risos) Eles são marketeiros ferrados. Mas o gênio do Caetano dizia: “Milton Nascimento é a maior novidade que a música brasileira pode trazer”. Essa confluência da música religiosa mineira, da tradição, essa coisa telúrica das montanhas de Minas, mixado com esse negócio latino, de América Latina. Se você reparar bem, se você pegar música do Clube da Esquina, ela está toda voltada para a América Latina, ela dialoga com a Mercedes Sosa, com Tarancón, com Gabriel García Márquez. Ela é bem Latino Americana: “Estan clavadas dos cruces”, San Vicente, Robertinho Silva, meu querido amigo, então baterista do Bituca, dizia: “Essas espanholadas do Bituca são o máximo”.

CLUBE DA ESQUINA
Museu
Estava aqui em São Paulo, aqui em São Paulo é modo de dizer. Porque eu falo que aqui é tudo grande BH. (risos) BH é enorme, de onde eu moro, eu vejo a Serra da Cantareira. Só parar um pouquinho e eu vejo a Serra do Curral inteirinha, não tem problema nenhum. A gente traz Minas na memória, no coração, não tem problema. Bom, o Galo joga aqui e eu escuto gritos de gol toda hora, pra todo lado. (risos) Quando faz, está difícil. Mas eu me lembro que o Marcinho Borges me ligou, falando que ia criar o museu, como é que ia ser o museu, não sei o que, tal, me convidando. E eu fui bater lá em Belo Horizonte, na Cervejaria Brasil, onde a gente participou da instalação desse museu. Foi até um dia que, se não me engano, eu gravei um programa com o Marcinho e Lô pra GloboNews. Encontrei lá a turma toda, estava todo mundo, estava o pessoal todo de Minas. Estava o Túlio Mourão, que estava acabando de se mudar pra Divinópolis. E eu participei da fundação, fui eleito conselheiro, do Conselho Fiscal (risos). E não ia fiscalizar coisíssima alguma. (risos) Então, desde então, eu tenho essa ligação, guardo a carteirinha de fundador, com muito orgulho. Porque eram os meus heróis, meus ídolos. Meus ídolos de Minas são quem? São o Clube da Esquina, é o Beto, é o Lô, Bituca, Fernando, Tavinho, Tavito, é o Toninho Horta, o Sirlan. É o 14 Bis, é Flavio, Murilo, tanta gente. E esse pessoal que eu admirava no palco, de repente sabem quem sou eu, sabe meu nome. Eu falo: “Pô, que coisa, eu estou muito chique!” E sempre foi com orgulho muito grande, que eu falo desse pessoal, porque o pessoal tem importância na literatura, na poesia e na política. É muito forte pra mim. E hoje eu tenho a honra, guardo essa carteirinha no coração, com muito orgulho de ter sido fundador do Museu do Clube da Esquina.
É, eu falo demais. Me desculpa, mas é assim. Mineiro com saudade desse tempo, buscando aqui e ali, nas memórias os fragmentos dessa Minas, que é eterna e que o Drummond dizia que é “dentro e fundo”. E que tem o espírito que nos visita na confusão das cidades, de São Paulo, do Rio, Paris, ou de Nova York. “Espírito de Minas me visita, e sobre a confusão dessa cidade, onde gritos de buzinas se confundem, lança teu claro raio ordenador”, dizia o poeta de Itabira. Isso aí é tudo, está tudo ligado. Aliás, eu acho que quem fundou mesmo o Clube da Esquina foi Carlos Drummond de Andrade. (risos) Hoje, por sinal, é aniversário do dia em que ele passou pra outra dimensão e virou poesia pura, pura, completa, 17 de agosto.

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2 Mensagens para Chico Pinheiro

  1. valdemir santos disse:

    gostaria de sabe
    r qual onome dos avos paterno e materno

  2. José Batista disse:

    CHICO, é verdade que seu é de CACULÉ/BA