Cláudio Guimarães

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, data e local de nascimento

O nome artístico é Cláudio Guimarães e Cláudio Guimarães Ferreira o meu nome. Eu nasci no Rio de Janeiro no dia 30 de maio de 1949.

Família
Nome e descrição da atividade dos pais

O meu pai é Pedrylvio Francisco Guimarães Ferreira, que é um advogado que foi ligado à área de direito autoral, um advogado famoso por defender a classe artística e atores também ligados à parte não só de música, mas artistas em geral. E a minha mãe é Maria Virgínia Ribeiro Ferreira, dona de casa.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Iniciação Musical

Quer dizer, em termos assim de formação musical tinha uma coisa engraçada porque, desde quando eu me entendi por gente eu vi que tinha um piano dentro de casa, mas o piano era um móvel que não tinha muito sentido. Tanto que eu tenho um tio meu, irmão do meu pai, que foi presidente da Hípica de São Paulo muito tempo, que foi um cavalheiro, ele é do Exército, mas conheceu Nelson Pessoa Filho, foram às Olimpíadas e ao SIM, essas coisas todas. Um dia mandaram um soldado lá pintar o piano. O cara pintou o piano todo de cinza ratão, pintou o banco. Então na verdade ninguém saiu. Assim que eu ia tentar mexer naquele piano, ele: “Não mexe nisso aí não menino”. “Tudo bem”. E eu sabia que minha mãe tocava aquele, “Olhos Negros” russo, totitaram, tatataram. O meu pai tocava de ouvido “Morena boca de ouro”, não sei o que, aquela coisa. Mas não tinha nada de formação musical, nada, era tudo intuição nesse piano.

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Pai

Tenho só um irmão gêmeo, o Paulo. Olha, eu tenho uma formação muito liberal. O meu pai, esse advogado, era muito ligado a uma área muito qualificada do direito penal, apesar de não fazer direito penal porque tinha Sobral Pinto, Heleno Fragoso, Evaristo de Morais Filho, essa turma toda. Isso naturalmente levou a um tipo de formação muito liberal, eu diria assim, meio racionalista liberal. Então ele é um cara assim, era muito amigo dos meus amigos, uma pessoa fácil de se relacionar. Tanto eu quanto o meu irmão, nos sentíamos muito à vontade na coisa de você ter aquelas costas quentes do ponto de vista da justiça. Nós achávamos que o meu pai era um cara justo, e na verdade ele era, e a gente se sentia bem com isso.

Formação Musical
Músicas da infância e adolescência

Antes de conhecer o Paulinho Jobim e freqüentar a casa do Tom Jobim, que isso é uma coisa que vai marcar, junto com o Danilo Caymmi e conhecer a mineirada que vai chegar, eu já conhecia alguns outros. Teve essa coisa da família, que apareceram discos assim do cancioneiro italiano. Então o Sérgio Rodrigo pra mim é uma coisa super importante nessa minha formação, àquela coisa da melodia, aquele romantismo italiano e tal. E quando rolou também a coisa da dança, de twist, quando saiu aquela turma, Chubby Checker, tudo isso, eu era garotão. Então ouvia aquela lenha toda, achava o máximo. É que nem hoje se botar um rock. Então eu com 16 anos, o meu pai foi estudar na Europa e levou a família, eu fiquei um ano morando na Europa e assisti o The Yardbirds. Os três guitarristas que passaram por The Yardbirds foram o Eric Clapton, o Jimmy Page, que foi do Led Zeppelin, e o outro lá, o moreninho que toca na Telecaster, acho que todo mundo sabe, mas eu não me lembro o nome dele. É um guitarrista de mão cheia no rock, enfim. Então a gente assistia essas coisas, aí ficava deslumbrado porque a gente tinha 15, 16 anos de idade.

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Irmão: Paulo Guimarães/Aprendizado

Na formação da música teve uma coisa engraçada, essa coisa do irmão gêmeo, porque meio nesse sentido do eu, da solidão, ele veio meio atrasado, meio com retardado mental. Tem sempre um cara que é a sua cara metade, aí você fica trocando. Então minha mãe passou, viu um negócio, na verdade a gente pegava uma linha de pesca, amarrava na cama, mordia e ficava tocando assim: “Tom-tom-tom-tom-tom-tom-tom-tom”, o outro: “A cabeleira do Zezé, é isso?” “Isso, ganhou”. Aí que ela se tocou, isso eu devia ter uns 14 anos. Eu tive uma prima que é maravilhosa, ela conhecia o pessoal de Bossa Nova e tal, e era amiga do Edu Lobo, conheceu todo mundo, e foi dar aula de violão pra gente. Nas primeiras aulas a gente não sabia nada, nem do que se tratava. E a gente caiu assim, parecia formiga no açúcar. Aquilo ficava com bolha no dedo, mas não largava o violão, tocava o dia inteiro. Era ótimo, nota dez, coisa maravilhosa, mas virou aquela fixação total.

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Profissionalização/Paulo, Cláudio e Maurício

Eu conhecia e comecei a conviver com o Paulinho na casa dele, Tereza Jobim. O Tom Jobim vivia nos Estados Unidos, a gente não conhecia o Tom, sabe aquela coisa? A gente ia lá e lanchava. Então eu conheci Nelsinho Ângelo. A Rua Codajás, a casa do Tom, era esquina com a casa do Marcos Vale, que morava com os pais. Então, quer dizer, em um ano, dois anos essa convivência, eu já era muito amigo do Danilo Caymmi, que morava com o Dorival na Sá Ferreira, eu morava na Gomes Carneiro. Então a gente ia ver desenho animado juntos, naquela época. Tanto essa convivência e mais tarde a mineirada vindo, eu conheci Maurício Maestro, que a gente vai fazer o primeiro trio, a primeira coisa da minha vida, que é Paulo, Cláudio e Maurício. O Maurício já era do Momento Quatro, já tinha viajado pro México com o Luizinho Eça, encontrou o João Donato que morava lá. E Maurício é da minha idade, exatamente. Nós dois somos de 1949, ele é alguns dias mais velho, fez no dia 10, até nem dei os parabéns e eu faço agora. Então, rapidamente eu fui conhecendo um monte de gente talentosa que necessariamente me levaram pra área da música. Se fossem cineastas, teatrólogos, eu estaria trabalhando na área, porque era impossível você resistir àquele apelo. Porque eu conheci o cara… “Não, eu fiz uma música aqui”. Já pegava o violão, botava em ré e tocava uma toada, e você caía no chão. Eu já cheguei pro meu pai e: “Me arruma um violão?”. Aí virou, isso me levou… Eu conheci logo o Toninho Horta e o próprio Milton Nascimento, Fernando Brant, Marcinho Borges. Quer dizer, na verdade eu fui estudar violão clássico. Eu falei: “Bem, por onde começar?” Já tinha aquelas aulinhas de música de Bossa Nova, já sacava um pouquinho de harmonia, muito pouquinho. E nessa coisa, quando você forma aquele grupinho de garagem, eu fui formando assim um grupinho que era um grupo de rock. Nesse processo eu conheci o Maurício Maestro, que estava com Naná Vasconcelos fazendo um trabalho no Festival de Guarapari. De lá nós saímos um trio formado, Paulo, Cláudio e Maurício. Essa é que foi a história.

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Curso Superior

Eu fiz Ciências Sociais, não chegou há dois anos, porque era um período de muita atuação política, na época, e eu estava totalmente envolvido. Quando eu cheguei na faculdade os caras já sabiam quem eu era: “Você é o Cláudio?”, não sei o que. Eu já era do meio, já militava um pouco no pré-vestibular e um pouquinho no movimento secundarista. Mas quando eu cheguei lá o cara já sabia, já me separaram, já estava totalmente dominado, marcado… Então, é essa coisa, quer dizer, eu tinha esse pai liberal que quando a gente voltou da Europa, ele falou assim: “Pô, meu filho, você precisa sair, você está muito fechado, você precisa viver. Vá pra rua, vá ver que tem muitas coisas acontecendo, está o maior agito na cidade”. Me deu aquela coisa e eu fui. Aí: “Você precisa ir no Calabouço, lá está acontecendo várias coisas”. Quando eu cheguei perto do Calabouço mataram o Edson Luiz, foi um pouco antes da Passeata dos Cem Mil. Eu já estava assim… agitava as coisas, mas eu cansei de encontrar ele em passeata, cruzava com ele de colete, paletó e tal. Enfim, nessa época, houve essa dicotomia, um romantismo que levou a esquerda e os estudantes, os anos da luta armada, porque era aquele idealismo que não conseguiu mudar essa tristeza que a gente conhece. E fui pra uma faculdade, que tinha uma coisa engraçada, um ditado que falava: “Essa faculdade tem 99% de comunistas e 1% de vacilantes”. Então ela foi invadida milhares de vezes, não conseguia ter curso nenhum. O antropólogo Gilberto Velho, que escreve volta e meia no O Globo, foi meu professor de antropologia. Eu não conseguia, a gente não dava conta da coisa.

Formação Musical
Instituto Villa Lobos/Festival de Inverno de Ouro Preto

E quando a repressão chegou ao seu auge eu deslumbrei, como todos deslumbravam, e viravam hippie. E nessa de virar hippie eu entrei pro Villa-Lobos. Quando eu entrei pro Villa-Lobos a repressão passou pra uma repressão contra a cultura. Antigamente corria atrás da esquerda, depois correu atrás do Live Theatre. Então jogavam trouxinha de maconha, saiam prendendo, davam porrada. Isso mudou a minha escola. Falei: “Bom, pra onde eu vou é essa zona, eu não consigo entender”. E nessa eu fazia um curso na Pró-Arte, e eu resolvi estudar, fazer umas coisas e fui estudar em 1970 no Festival de Inverno de Ouro Preto, que por sinal é bem clássico. Estudei no Instituto Villa-Lobos e na Pró-Arte. Tinha, quer dizer, cada lugar é como se você fosse ter aula particular com alguém. Dependendo da qualificação da pessoa você achava o máximo. Na Pró-Arte tinha o Guerra Peixe, que tinha uma assistente maravilhosa, que era nossa professora de vez em quando, mas que não tinha aula com ele porque pra você ter aula com essas pessoas você tinha que já saber contraponto, um monte de coisas que na verdade você estava estudando ainda o “beabá da Bahia”. Então é isso que rolava. Essa repressão toda partiu da coisa política pra repressão de costumes, ficou aquela mesmice, algumas coisas foram… Até a queda do muro de Berlim e a mudança da posição das coisas, a gente passou um período muito complicado. E é difícil, porque uma coisa é você se mobilizar romanticamente pra atuar na realidade, outra coisa é você se mobilizar romanticamente e artisticamente para fazer um discurso artístico sobre a vida. Então é essa questão que ficava complicada. Mas, enfim a coisa da música foi fundamental, arrebatou. Eu sou assim um admirador totalmente apaixonado pela música mineira, pelo Tom, pelo universo do Tom, pela música clássica, por Dorival Caymmi. Eu trabalhei oito anos com a Nana, ou nove anos, acompanhando a Nana. Então vi de perto, tenho a maior admiração pelo Dori. Eu vejo assim o material todo que rola, muito rico.

Formação Musical
Rock-n’-roll

E o rock-n’-roll era rock total. Quer dizer, eu, o Paulinho Jobim, Paulo meu irmão, Nelsinho, nem tanto, mas nós três principalmente só ouvíamos Jimi Hendrix, Hendrix, só Hendrix, o papo era Hendrix. “O negócio era Hendrix e o resto que se exploda”, era assim. E rolou Beatles, mas Beatles já rolou antes. Eu me lembro que quando estourou o “She Loves You” e “I Wanna Hold Your Hand” eu furei o disco na casa dos meus pais, eu tocava o dia inteiro. E Little Richard, quando saiu também, eu comprei. Eu me lembro, foi o disco mais caro que eu tinha comprado. Pedi pra minha mãe, era coisa de 360 cruzeiros, sei lá, um negócio absurdo. Era um disco amarelo, que tinha “Tutti-fruti”, “Long tall Sally”, essa coisa toda. Então eu sempre curti o rock e o rock do Cream, saca?, Jim James Baker, Eric Clapton, é claro. Viajava nessa onda. Quer dizer, tinha esse lado todo de formação de música do cancioneiro brasileiro, que eu fui depurando depois, mas tinha esse outro lado, porque a música é muito difícil você rotular. Eu adorava depois Led Zeppelin, Pink Floyd, tudo isso, essa coisa progressiva; eu viajei nessa praia toda. Gênesis também. Quando eu conheci o Fredera, a gente conviveu um tempo, meio que o Fredera fala que eu fui a pessoa que levou ele, abri o olho dele pra esse som e ele abriu o meu olho pra uma coisa mais, que eu tenho verdadeira paixão pelo Wesley Montgomery. Que nem o Juarez Moreira, a gente conversando agora, há pouco tempo atrás, essa coisa de Jim Hall, essa finesse do jazz americano. Então o Fredera meio que me aplicou Barney Kassel, Julie London e eu de Gênesis, também por aí. Então no fundo é tanta informação, tanta coisa que virou uma salada.

Formação Musical
Paulo, Cláudio e Maurício

Isso aí foi meio aquela coisa que o Lani na época, que gostava da gente, falava que a gente fazia um rock de câmera. Na verdade devia ser meio um pouco disso porque na verdade a gente não devia ter ponte pra fazer um rock de garganta. Mas a gente fazia, a gente curtia a mágica da música porque música é a arte do ouvido. Então, se você pegar uma pessoa, um artista genial de 15 anos de idade, ele vai se expressar. Obviamente que ele não sabe, ele não conheceu uma sonata do Beethoven nem estudou Brahms, nem a primeira, nem a segunda sinfonia, nem a terceira, nem viveu determinadas coisas, mas ele vai se expressar musicalmente porque a música é a arte do ouvido. Então, através do ouvido que você sente, vivencia e faz música. E isso perdoa os jovens de saírem fazendo música… Na verdade você sai com a cara e a coragem e entra num palco cheio de gente, e você não sabe se o ré maior, se o fá sustenido está em si, nem que fá sustenido é da clave. Se você for parar pra mergulhar na teoria musical você entra em curto circuito. Então, na verdade, você vai no embalo. E nesse embalo, essa coisa do disco de 1972 é esse percurso. E era um percurso bacana porque a gente não chegou nem a trabalhar um ano assim, intensamente. O Maurício tem uma capacidade de trabalho enorme, é uma pessoa maravilhosa e o Paulo queria, porque queria, tocar direito aquela flauta, tanto que ele é um músico que está há 20 anos numa orquestra sinfônica e improvisa, já tocou com o Victor Assis Brasil, tentou até tocar um pouquinho de sax, mas é uma pessoa que consegue se expressar. E a gente, com um ano de Paulo, Cláudio e Maurício a gente entrou pro show business. Eu fui tocar com a Maria Bethânia em 1973, eu tinha três anos de música. Aquilo é uma maluquice total. Então sou eu, o meu irmão e o Terra Trio. A vida, assim, é uma confusão. Podia pintar uma viagem, você acabar na Austrália e de repente você ser cooptado por um outro filme, que você foi arregimentado para aquele papel naquela hora.

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Milton Nasciment

Do que me lembro, nós tínhamos vários amigos não músicos. Eu tinha um grande amigo, amicíssimo de infância, que já faleceu, e um outro grande amigo também já falecido, os dois um pouquinho mais moços do que eu, que são o Luiz Afonso Agapito da Veiga e o Marco Antônio Pena Araújo, mineiro. E o Luiz Afonso era fotógrafo, o Marco Antônio músico e eu, o meu irmão, nós quatro alugamos um apartamentinho aqui nesse edifício que fica em cima do Túnel Rebouças, esse que parece que vai cair. E pra surpresa nossa, depois de um ano, ou sei lá, um certo tempo, o Milton Nascimento alugou um apartamento embaixo, que tinha uma portaria no meio. Um prédio de frente pra Lagoa, prédio doido. Você entra pelo meio, desce de elevador, sobe, aquela confusão. E a gente tinha um quartinho. Na verdade quem chegou a morar lá um tempo fui eu e o Marco Antônio e o Luiz Afonso, porque a gente, os quatro rachavam e a gente estava querendo sair de casa, aquela coisa, não tinha como bancar. Era aquela coisa mesmo de garoto, 18 anos e tal. E nessa o Milton ia na casa de meus pais; eu conhecia Fernando Brant. Quando eu fui pra Ouro Preto, em 1970, eu fiquei na casa do Fernando Brant, aquela mesa enorme, aquele bando de gente. Fiz o curso, voltei com o Koellreutter, que me deu uma bolsa pra Índia, imagina, bolsa de estudo, que eu aceito. Ele falou: “Você quer estudar na Índia?” Eu falei: “Quero”. Nossa, aquilo eu falei: “E agora, o que vai ser?” Mas nessa coisa a gente ficou muito próximo do Milton. Quando o Milton veio morar nesse prédio rolaram as programações. Numa dessas, não sei como, ele vai fazer a música do “Os deuses e os mortos”, do Ruy Guerra, em Ilhéus. Então: “Vamos nessa, vamos lá”, não sei o que. Não sei como fomos de fusca, o fusca do Luiz Afonso: o Luiz Afonso, eu, Milton, Ronaldo Bastos e o Vicente Bastos. Nós levamos 24 horas pra chegar em Ilhéus, um negócio de louco. E eu me lembro perfeitamente que eu fiz escala, porque era uma viagem tão demorada, 24 horas pra chegar lá. E era com Oton Bastos, Dina Sfat e o Ruy Guerra filmando lá e a gente viajando, aquela garotada ali, deslumbrado na terra do cacau e aquelas músicas maravilhosas. Tinha “Os deuses e os mortos”, que é a música do tema. Tem, se não me engano tem o (canta) “Você que é tão avoada…”, “Canto Latino”, essa época aí. E voltamos em 19 horas. Quer dizer, já voltei eu e o Luiz só. Ainda passamos por Salvador, a gente parava em cada… Atolamos, passamos o diabo. E foi uma experiência que me marcou. Eu me lembro de ver a coisa do Milton criando. Ele ali e tal, mas eu vendo que ele estava fazendo e ele atuou como ator também.
Eu me lembro que lá em Três Pontas, até conversando com o Wagner Tiso outro dia, eu me lembro desse conjunto, Edinho e seus Brasinhas, que o Marcinho estava rindo, era um conjunto de bairro chamado Edinho e Seus Brasinhas. Aquela garotada tudo com botinha e os caras… Eu me lembro desse lance que a gente ia lá ver. E que mais? E o Milton, que estava muito próspero, eu me lembro da época que ele casou, ele casou com uma moça linda, era uma modelo, uma tijucana. Casou no carro do meu irmão, que era um carro, parecia um Citroën, mas era um MG, imagina? E tinha um amigo que gostava de carro, que falava: “Esse carro é maravilhoso”. O carro era uma roubada total. O carro andava um quarteirão, você tinha que ir num bar comprar uma garrafa de água mineral pra botar porque saía fumaça, mas o carro era um charme total. E o Milton foi nesse carro, casou nesse carro, quando ele foi morar na Travessa Angrense, lá em Copacabana. Mas enfim, essa coisa toda da música é porque era conviver com essa turma toda. E no Paulo, Cláudio e Maurício, nós fomos contratados pela Odeon numa época muito complicada em que houve uma crise na produção fonográfica, nas grandes companhias, e mal entramos, nós fizemos um compacto duplo meio tentando sondar como era e houve um expurgo de 80 artistas e nessa saiu muita gente, só ficou Beto Guedes, Lô Borges e Toninho Horta. Mas saiu Novelli, Nelsinho Angelo, Joyce, milhares de artistas, não é? Então houve uma enxugada e nesse disco quem foi o nosso produtor foi o Marcos Valle e foi uma coisa muito mesmo de começo, de você sondar como é que era o mercado, como é que era a indústria. E eles chamaram: “Ah, vamos nessa, vamos fazer, claro”.

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Festival de Guarapari

O caso mais engraçado foi do Festival de Guarapari, que foi onde nós saímos e formamos o Paulo, Cláudio e Maurício, porque na verdade existia um grupo, do qual foi desse primeiro grupo que eu fiz parte, que chamava-se A Primeira Pedra e nós fomos recebidos a pedradas, exatamente, porque o que aconteceu? Era um festival na beira da praia e os artistas mais consagrados estavam na cidade junto com o Chacrinha esperando que a organização do festival cumprisse o acordado de cachê. E o público lá, aquele povão esperando e nós assim, bem garotão, não sabia de nada. E conforme a turba foi ficando com aquele ódio mortal, chegaram pra gente: “Não, sobe lá e vão tocando”. E a gente bem ingênuo, subimos, esse quinteto era um quinteto bem de rock. E não deu tempo de ninguém ligar direito porque as pedras já vinham, batiam. “Agora com vocês A Primeira Pedra”, já veio a primeira pedra de lá. A pedra assim quicava no palco e furava o amplificador. Até que aí no meio desse sufoco, lá de cima, apareceu o Chacrinha: “Oh, Terezinha…” Aí metade já batendo palma e a metade vaiando de tanto esperar, enfim. E esse grupo não se entendeu, quer dizer, entrou nessa crise. Mas o festival foi um festival interessante. Eu vi o Maurício Maestro com o Naná Vasconcelos, que se apresentaram e os remanescentes desse grupo viraram esse Paulo, Cláudio e Maurício, que atacou muito com o Robertinho Silva. O Robertinho adorava; um dia ele falou assim: “Olha, o negócio é o seguinte, já está ensaiado”. “Vamos dar uma passadinha”. Ele falava assim: “Já está ensaiado”, de tanto que ele era fã. Então a gente atacava sempre com ele.

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Primeiro Encontro dos Músicos Brasileiros

Ih cara, como é que você desencavou isso? Isso é o seguinte, havia uma crise institucional entre os sindicatos e as associações de utilidade pública, associações de atores. Ou seja, já existia o Ecad e estava se formando algumas associações tipo a Assim, da qual a Elis Regina e o Luizão Maia eram ligados e a Amar do Maurício Tapajós, que veio desse movimento da Sombras. Eu tive uma atuação nesse movimento porque esse movimento na verdade era uma boca no trombone sobre a relação direito autoral, e eu fui o primeiro-secretário da Sombras quando o Hermínio Belo era vice-presidente. E a gente tinha uma diretoria que só tinha nome forte, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Sérgio Ricardo, Guarabyra e o Tom Jobim de Presidente de Honra. Então, nós nos colocamos como a classe qualificada para falar sobre o direito autoral, que na verdade precisava. Na época da Sombras não existia Ecad ainda, estava no papel. Mas era a tal coisa, ela acelerou um processo que avançou historicamente, mas a solução não foi uma solução pra classe toda. Existia um decreto da ditadura que criava o Ecad e o CNBA, então acelerou esse processo. Você tem hoje em dia questões graves nessas áreas e precisa avançar mil coisas, mas não foram coisas tiradas e discutidas com a cadeia produtiva ou com os interesses. Não, era a coisa imposta, esse modelo foi imposto e foi o que foi assumido. Então esse Primeiro Encontro Nacional dos Músicos na verdade, com toda essa briga, essa luta toda, existia um encontro no Rio de Janeiro em que o sindicato estava em litígio com essas sociedades. Então me chamaram, como eu era uma pessoa que transitava tranquilamente, pois eu não tinha problema pessoal, eu fui chamado por um pessoal pra pegar uma carta do sindicato, que era o Nelson de Macedo o presidente, me autorizando a presidir o encontro, porque ele não podia presidir como presidente do Sindicato. E aí, nesse encontro, eu me lembro, foi uma semana de encontro, tiveram várias teses, a Joyce teve tese, o Fredera, o Aldir Blanc fez uma, que também foi da Sombras. Apresentaram vários temas, várias questões, coisas seriíssimas foram conversadas ali, mas coisas tão utópicas. E eu me lembro do Luiz Inácio Lula da Silva aparecer nesse encontro. Isso foi em 1983, 1982. Quer dizer, na verdade eu fiquei ali, eu só tive esse papel formal, fiquei ali aprendendo as coisas, vendo e muita coisa séria foi colocada ali, mas a gente não teve, nem a classe artística, a classe musical, tiveram estrutura pra se organizar e poder andar, porque esse é o nosso drama. Eu também andei metido agora nesses últimos três anos na questão das Câmaras Setoriais de Música, fiz parte da coordenação aqui do Rio e representei o Rio na Câmara de Produção. E é complicado, é um modelo também, eu não sei o que o governo quis com isso. Porque, na verdade, nós levantamos todos, elencamos, lá eles gostam dessa palavra, elencamos 500 mil coisas. E o outro lado, que são as associações e as multinacionais e associações de empresários e empresas, elas tinham um poder de veto e elas não propunham nada. Quer dizer, você propunha tudo e dizia exatamente tudo que você queria, o Governo mediava e ela, de repente chegava nesse assunto mais delicado e: “Não, veto”. Pô, então é isso, está tudo vetado e a gente não sabe se foi massa de manobra pra ficar dando o sangue durante três anos e falando, falando, falando e a coisa não andou, o Gil continua. Quer dizer, enfim, essa coisa.

Formação Musical
Clube da Esquina

Considerando o Ronaldo Bastos como um membro do Clube da Esquina, eu acho que o primeiro que eu conheci foi o Ronaldo, era estudante do Pedro II. Conheci Paulinho Jobim, o pessoal aqui do Rio, e os que já moravam aqui: Novelli, Joyce. E eu fui conhecendo… Acho que de repente a mineirada já andava de bloco, já de repente pom, já conheci uns cinco, Toninho, Fernando, Marcinho, o Lô, o Beto depois um pouco. E aí, nessa convivência, que eu comecei essa coisa de ir saindo de Ciências Sociais pra Música. Antes eu era só um cara que curtia ali e tal aquele barato. O Ronaldo fazia História, se eu não me engano, era da minha faculdade até e ele já fazia, já tinha trabalho com o Milton, tinha “O Trem”, (canta) “Gente que partiu pensando um dia…”. E aí essa coisa toda começou assim.
Eu convivi com algumas gravações, mas eu estava muito mobilizado nesse período em que houve muita atividade. Eu estava muito mobilizado porque eu estava já trabalhando com a Maria Bethânia ou atuando pela Sombras. E em 1976 eu vou sair fora do Brasil e fico três anos fora. Mas o meu irmão ficou tocando no Gerais, quando tinha o quarteto de flauta com Paulo Jobim, Paulo meu irmão, Nivaldo Ornelas e Lena Horta, de repente, não sei. Então foi mais assim… não tinha muito tempo, já estava totalmente tomado por compromissos e tal. E aí teve essa coisa toda, a vida que passa e tal, e agora por coincidência, eu estou trabalhando com finalização de áudio há alguns anos. Eu fiz um micro-selo. Eu trabalhei com música instrumental a minha vida inteira. Então em 1995 eu criei um selozinho bem modesto também, eu não tenho nem empregados, então é aquela coisa mesmo do músico autoprodutor. E eu comecei a trabalhar com computador em 1990, então nesses últimos 14 anos, eu fui migrando um pouco pra finalização de áudio. Então nessa área eu comecei a me encontrar com a mineirada de novo, eu fiz o DVD do Wagner Tiso e os dois CDs desse DVD, mais os dois CDs últimos do Toninho Horta e o do Juarez Moreira. Então, de repente, pum, voltou tudo, porque eu convivo mais com o Nivaldo Ornelas, que mora aqui, e Nelsinho Ângelo, que é muito amigo meu e a gente convive. Então, estou muito assim nessa coisa. Tenho uma sala minha que eu faço mixagem, gravo também, faço mixagem e masterização. E estou a fim de voltar a tocar um pouco.
O tema, o Clube da Esquina fazia parte do cotidiano da gente, ou seja, a música do Milton, os discos Gerais, o Clube da Esquina, o primeiro, aquele, até os discos americanos, faziam parte assim do meu cotidiano. Eu não sei, “São sete Marquesas”, eu não sei em que disco está, sabe essa coisa, mas isso faz parte assim do meu universo, como esse rico universo também deu lugar a outros ricos universos como é o caso do universo jobiniano, que é uma coisa assim, incrível. Como você pode ter hoje em dia acesso… e está legal o site do Instituto Jobim, de você ter acesso àquelas partituras todas. Eu trabalhei, eu digitalizei partituras pra obra do Tom e trabalhei pro Cancioneiro da Mata Atlântica, que fiz uma redução de piano pra violão. Então isso é um mundo de riqueza sem fim, é meio presente de grego. O cara te fala: “Faz isso aqui” e pum, te empurra um negócio que você vai ficar totalmente tomado por aquilo, porque é um gênio de um compositor, um cara com uma sensibilidade incrível, um bom gosto total e com uma obra maravilhosa que você se identifica. Então essa coisa é o que acontece comigo com a mineirada. Eu tenho o maior apreço, a maior identificação porque é uma coisa que veio da minha formação musical. Então é uma coisa assim bem natural. O Milton, eu estive até com ele agora há pouco tempo por causa desse DVD do Wagner Tiso. Esse meu irmão trabalhou no Tambores de Minas e no Crooner; emendou duas temporadas com o Milton, me chamava pra assistir, eu fui assistir os dois shows. É um negócio assim que você vê, faz parte da sua vida, faz parte da sua identidade. São grandes artistas, é tipo cachorro grande, campeonato brasileiro de elite.

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Avaliação

O Clube da Esquina veio trazer uma abordagem muito rica da harmonia. Porque a coisa da harmonia mineira não é só o cantochão, a igreja, o barroco, não. Você tem a congada, você tem um samba, no swing do samba, que o carioca saca bem, você tem um swing mineiro e o jeito de harmonizar, que você só vê nesse padrão de nível. Se você pega o Tom, você pega a harmonia do Dori Caymmi tocando “Aquarela do Brasil”, o Milton vai assinar embaixo, vai dar um beijo no Dori e no Tom também. E tem uma hora que a coisa, não é que vire universal, ela se encontra num grande depositário da alma brasileira, qualificada. Ali a coisa meio que se mistura. Vai cair no colo do Villa-Lobos, de onde ninguém escapa, que é o pai de todos.
Eu acho que é uma hora em que a Escola Mineira, que sempre se manifestou como as outras, ela se manifesta de uma forma mais intensa graças a essa coisa dos festivais que rolaram, e vem “Maria”, “Minha Fé”, “Travessia”, “Morro Velho”, essas músicas todas já bem qualificadas nesse nível, já com os arranjos do Luizinho Eça, com essa afinidade, vamos dizer, das coisas do Milton com Tamba Trio, das coisas que o Wagner Tiso já começava a ouvir e curtir. Então, na verdade é quando a boa música, ela começa a se relacionar e ter acesso a uma divulgação maior. Então o Milton já pôde conhecer a Elis; Elis gravou “Vera Cruz”. E a coisa é natural, um cantor maravilhoso. Então o negócio não era só o Milton compositor, então o Milton cantor. Então é o carro-chefe do Clube da Esquina, do chamado movimento. Então, cheio de pessoas talentosas gravitando, de ótimos músicos. Então eu não sei, eu nunca parei pra analisar como movimento, nem pra saber que parâmetros, o que define um movimento, o quê que é isso. Eu sei que existe Guimarães Rosa, existe o Nordeste, o Sul, aquela coisa. Então eu sempre vi coisa boa por aí. Agora, se isto está vindo através de um movimento alienígena ou não, eu não tenho a menor idéia.

Família
Filhos

Eu tenho dois filhos, um menino e uma menina. Antônio tem 22 e Júlia tem 13. Santo de casa não faz milagre. O Antônio até que tocou um piano, estudou um pouquinho e tal; violão, ele curte. Mas a Júlia… Eu me fiz de morto. Ela desenha muito bem, é até musical, mas não…

Formação Musical
Clube da Esquina: Parceiros
O meu primeiro parceiro é uma coisa assim… que ninguém nos ouça, meu primeiro parceiro foi Fernando Brant. E nós entramos com uma música por um Festival Universitário, mas a música devia ser tão ruim, porque era proibido aparecer o nome e o Fernando já era conhecido. Mas eu me lembro que eu fiz assim uma das minhas primeiras músicas, eu nem me lembro direito, era uma toada e tal. Mas, enfim, então a música não se classificou. E tenho esse compacto duplo do Paulo, Cláudio e Maurício e são três músicas minhas e uma música coletiva. Essa música que é cantada, porque o resto, olha que maluquice, um compacto duplo feito em 1972 no qual três músicas são instrumentais e uma é cantada. Quer dizer, já é uma maluqueira total. E essa letra é do Marcinho Borges, que é o início do Paulo, Cláudio e Maurício. O Paulo, Cláudio e Maurício, na verdade virou um conjunto instrumental. Que apesar de o Maurício ter ido depois pro Boca Livre, já foi do Momento Quatro, que era com o Zé Rodrix, Ricardo e o Davi Tygel . Então, de parceria autoral eu não tenho, fora essa coisa do início, que rolou outros tipos de parceria, mais com o Nelsinho Ângelo; uma coisa mais de produzir trabalho. Mas nunca é tarde, de repente…

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Clube da Esquina

Eu acho isso maravilhoso porque eu acho o seguinte: eu fico boquiaberto quando eu me deparo com a cultura americana e vejo o que é registrado lá. Então, por exemplo, eu gosto do Wesley Montgomery. De repente aparecem aqueles disc laser com shows, que nem existe mais disc laser, virou DVD. Show do Wesley, depoimento do Wesley, coisas especiais do Wesley. O Vitinho Biglione, guitarrista, me convidou: “Não, você tem que ir lá em casa, eu tenho não sei quantos mil DVDs. Você gosta de fulano, pois eu tenho tudo”. Então na verdade, alguém pegou uma câmera, alguém fez um roteiro, alguém fez uma iluminação, alguém se coçou pra registrar as coisas. Aqui a gente tem uma dificuldade imensa, ainda mais uma coisa importante como essa que diz respeito a toda uma época muito rica, que envolve muita gente. Eu acho fundamental ter. Quer dizer, a gente tem o Museu da Imagem e do Som, mas eu não sei a quantas anda, porque essa coisa da memória brasileira, se for deixar pro Minc resolver isso, ele está frito. Ele tem que se antecipar e fazer as coisas, quer dizer, a sociedade civil tem que viabilizar esse país, porque ser for ficar esperando papai e mamãe, não dá.
Eu quero só desejar boa sorte pros mineiros todos, porque eles merecem. Tem tudo, literatura, pintura, música, escultura. Quer dizer, é quase a auto-suficiência mineira, que trabalha em silêncio. De desejar sorte pra esse projeto inteiro, pra vocês e tal, e que isso se traduza numa maior atividade cultural no país, na maior troca, uma coisa melhor pra gente, porque está tudo meio… eu estou achando tudo muito esquisito.

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