Cláudio Jorge Pacheco

| | |

« « Retornar a página anterior

Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome / data e local de nascimento

Meu nome é Cláudio Jorge de Oliveira. Nasci em 7 de junho de 1965, no Rio de Janeiro.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Pais

Elita Pacheco de Oliveira e Cláudio José de Oliveira.

Voltar ao topo CASA

Lembranças de infância

Eu me lembro que a minha mãe sempre gostou muito de Roberto Carlos, sempre foi fã de Roberto Carlos, mas ela nunca foi de ouvir discos, era muito mais ligada em televisão. O meu pai era fã de Nelson Gonçalves, um fã ardoroso. Mas em casa música não era uma coisa cotidiana.

Voltar ao topo LOCALIDADES RIO DE JANEIRO

Méier

Eu sou carioca da Zona Norte, sou dali do Méier. Eu cresci num bairro muito residencial, numa casa e com a família toda por perto. Eu morava com meus pais, ao lado moravam os meus primos, os meus tios, numa rua próxima outros primos, todo mundo junto, e essa vida numa coisa de bairro bem de residência, nada de prédio, nada disso, uma vida mais tranqüila, digamos assim.

Voltar ao topo Raízes

Lembranças de infância

Da infância pra mim são muito marcantes as festas de fim de ano, essa coisa de Natal e ano-novo, essas reuniões. Não que fosse o único momento do ano em que se reunisse a família, mas para mim era bonito. Era um momento em que todo mundo se juntava. Natal e ano-novo sempre foram muito comemorados na minha família e era um momento em que juntava todo mundo sempre na casa de alguém. Era o que tinha de mais marcante do ponto de vista de união familiar. Na verdade, eu sou da primeira geração carioca da minha família. Porque por parte de mãe é todo mundo da Bahia e por parte de pai, de Pernambuco. Então as minhas raízes são todas nordestinas e a minha geração é a primeira nascida no Rio de Janeiro. Mas eu tenho muita influência dessa cultura nordestina principalmente da parte da Bahia, da família da minha mãe.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Brincadeiras de criança

Eram coisas que eu acho que nem existem mais, bola de gude, pipa, futebol num campo – esse definitivamente não existe mais. Ainda existia aquilo que a gente chama de futebol de várzea. Esse tema é até mais antigo do que a minha geração, mas essa coisa de jogar bola num terreno baldio, com a turma da rua, era muito por aí. Televisão também, claro, sempre foi fonte de inspiração para as brincadeiras, mas nada de videogame.

Voltar ao topo ADOLESCÊNCIA

Musicas que ouvia / Close to the Edge

Pois é, música foi uma descoberta pra mim. A partir da adolescência, comecei a ouvir muito música, particularmente quando eu fui estudar na Escola Técnica aqui do Rio de Janeiro, CEFET. Porque pra mim foi uma mudança, uma passagem dessa coisa do ambiente mais familiar para um ambiente mais de mundo. Primeiro que era uma escola mais distante e eu era mais novo do que o grupo. Eu tinha 14 anos e a média de idade era de dois anos a mais do que eu, 16 anos. Nessa idade dava uma certa diferença. E foi nesse período que eu descobri a música com mais profundidade. O que me encantou mais foi o rock naquele momento. O rock que não era exatamente o rock que se fazia naquela época, porque a gente está falando do fim dos anos 70, inicio dos anos 80 e o que comecei a ouvir foi muito o rock do início dos anos 70, por influência de amigos. Eu me lembro de um disco que para mim foi uma descoberta, um disco do Yes chamado “Close to the Edge”. Esse disco era uma coisa completamente diferente de qualquer coisa que eu já tivesse ouvido. Foi um disco marcante, que eu ouvi a primeira vez quando eu tinha 15 anos. A partir dali eu comecei a procurar exatamente esse tipo de música, dessa época do início dos anos 70. E música é uma coisa que eu ouço muito, o tempo todo. Eu vi outro dia o Sérgio Cabral dizer uma coisa que se encaixa bem a mim. Ele disse que ele não toca nenhum instrumento, ele não toca nada, mas ele ouve muito. É o meu caso, tentei aprender teclado, mas senti que eu não tinha uma vocação para instrumentista, mas eu ouço muito e de tudo.

Voltar ao topo CLUBE DA ESQUINA

Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli e Toninho Horta

O meu primeiro contato com o Clube da Esquina foi através de um disco chamado “Toninho Horta, Danilo Caymmi, Novelli e Beto Guedes” – eu não sei se a seqüência é essa, mas o nome do disco é o nome dos quatro (Nota: o nome do disco citado é: “Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli e Toninho Horta”). É um LP em que eles aparecem num banheiro, uma foto de cima, um disco muito bom. Era o primeiro disco deles e tem uma música chamada “Belo Horror” que é linda, do Beto Guedes. O primeiro contato foi através desse disco, que tinha também muito a ver com a minha pesquisa do início dos anos 70, porque, se eu não me engano, esse disco é de 1973. Então eu comecei a catar a música dessa época.

Voltar ao topo DISCO

Sentinela

Os discos do Milton Nascimento eram mais fáceis de encontrar, de ouvir. Um disco posterior a esse foi o “Sentinela”. Foi um disco que eu também ouvi muito. Tem uma música que ele canta com a Nana Caymmi, com um arranjo de coro de igreja abrindo a música, um arranjo elaborado, foi marcante também.

Voltar ao topo OUTRO DISCO

Clube da Esquina: 1972

Posteriormente, eu venho a encontrar o “Clube da Esquina”, e não foi muito fácil, eu procurei por muito tempo. Eu nunca fiz um ranking dos 10 discos que eu mais ouço, mas esse disco está entre os que eu mais ouço. É um disco marcante, de muita música boa e muito representativo desse período e que pra mim é um disco de rock. Eu acho que esse disco é de rock autenticamente brasileiro. Alias, esse é um dos melhores discos de rock brasileiro, porque o melhor rock brasileiro não é aquele que reproduz fielmente o estrangeiro, e sim aquele que incorpora elementos estrangeiros à música brasileira. É a música do pessoal do Clube da Esquina. Esse disco, o disco “Nelson Ângelo & Joyce”, que é muito legal, o disco dos irmãos, “Os Borges” – eles fazem isso, eles trazem para nossa música elementos do rock, mais têm uma originalidade, não é simplesmente uma banda de rock, eu acho isso muito legal. Eu não lembro o dia em que eu ouvi o “Clube da Esquina” pela primeira vez, mas foi no mesmo período em que a gente passou a ouvir muita coisa. Eu tinha uns amigos na escola que tinham muita coisa já desse pessoal. Eu me lembro do disco dos Borges, que acho que tem beliche na capa. Eu me lembro que esse disco circulava na mão de todo mundo, todo mundo ouviu esse disco. Foi mais ou menos nesse período. E esse disco do Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli e Toninho Horta, eu comprei o meu muitos anos depois. Eu ouvia de um amigo que tinha, gravei e depois é que eu procurei e acabei encontrando esse disco. Mas o primeiro contato foi através dessa troca com outros amigos. A gente se reunia na casa de um, na casa de outro, um ou outro sabia tocar violão. E até de certa forma não era muito a onda daquele momento, porque era o momento do Circo Voador – não que a gente não curtisse isso também, essa onda do rock dos anos 80 que estava surgindo, mas a gente também ouvia essa música da década anterior, a gente tinha também esse interesse, então foi mais ou menos nesse período, foi tudo junto. O “Clube Esquina” foi até uma descoberta mais individual, mais tarde, com coisas mais elaboradas em termos de música, um gosto musical mais elaborado da minha parte, mas o disco que deu aquele start foi esse.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Clube da Esquina: avaliação

Eu acho que o Clube da Esquina pode ser entendido sem duvida nenhuma como um movimento musical tal qual o Tropicalismo, ou a Bossa Nova, ou a Jovem Guarda, que é um pouco menosprezada nesse percurso, perante esses outros movimentos, que tem também as suas características importantes. O Clube da Esquina também tem que ser entendido como um movimento musical, em que você basicamente fazia aquilo que era a característica maior da cultura brasileira, que é a antropofagia. Se o Tropicalismo fez isso de uma forma assumida e declarada, panfletária, “Estamos fazendo antropofagia”, “Somos seguidores da Oswald”, o Clube da Esquina fez de uma forma espontânea e utilizando na verdade outros elementos. Foi juntar a música mineira, com a influência da música sacra que é uma coisa muito forte em Minas, com influência da regionalidade, dos ritmos naturais de Minas, que são muitos ricos. Juntaram isso à coisa que existiu de contemporâneo, a influência de Beatles, do rock daquela época. Inclusive, eu falei inicialmente do disco do Yes, “Close to the Edge”, que é um disco de 1972, o mesmo ano do “Clube da Esquina”, e naquele momento a onda era aquela, arranjos elaborados, espaço para os solos instrumentais, letras que não ficavam amarradas só na questão romântica, com temáticas mais variadas. No caso do Clube da Esquina, muito referenciado na questão da viagem, da estrada, de sair do interior para chegar à cidade grande e da descoberta do mundo. E é claro, sem dúvida, a influência da contracultura, do movimento hippie. Eu acho que Clube da Esquina é um movimento dentro da música popular brasileira, tem que ser entendido dessa forma, assim como posteriormente nós tivemos o rock dos anos 80. Ou até antes, quase que contemporânea ao Clube da Esquina, a chegada dos nordestinos, a segunda leva de baianos, Novos Baianos, A Cor do Som, depois os nordestinos que vieram mais de cima, lá do Ceará, Fagner, Belchior. Eu entendo como movimento musical sim, com essas características preponderantes. Nesse sentido se diferencia talvez, por exemplo, do Tropicalismo e da Bossa Nova, por um espaço muito maior para o músico, para o instrumentista. Talvez por isso até os músicos do Clube da Esquina tenham se aproximado muito do jazz e tenham inclusive trabalhado com artistas estrangeiros de jazz. Eles ficam ali na fronteira entre jazz, rock e música popular brasileira, uma coisa muito próxima, eu acho que é isso.

Voltar ao topo PERSONALIDADES

Skank

Eu acho que, por exemplo, o Skank é curioso, porque é uma banda mineira que começa tocando reggae e de repente, eu não sei se foi um instalo que deu na cabeça do Samuel, ou uma descoberta, eles deram uma guinada para um som que é muito referenciado no som dos anos 70, no Clube da Esquina. Então você pode entender que o Skank, ao amadurecer, foi buscar essa influência para se consolidar como um grupo musical. Eu acho que hoje o Skank é uma referência clara dos anos 70 e do Clube da Esquina. Mas eu acho que hoje em dia é muito difícil a gente ter esse tipo de coisa que você está falando, esses desdobramentos. Eu acho que as coisas hoje são muito misturadas, então você pode ver de repente salpicadas influências de músicas de músicos dos anos 70 em vários trabalhos de hoje em dia, até trabalhos estrangeiros. Por exemplo, a Bjork gravou com arranjos do Eumir Deodato, que é um cara que veio lá da bossa nova, mas teve uma passagem também pelos anos 70 interessante. Se você ouve o arranjo dele, vê uma grande referencia da musica brasileira. Hoje é como se fosse um grande liquidificador, você tem um pouquinho de cada coisa misturada e não dá mais pra você falar que isso é influência daquilo ali somente, é tudo muito misturado. Mas eu acho que o Skank é um grupo que tem uma linha direta com o Clube da Esquina.

Voltar ao topo MÚSICAS

Um gosto de sol / Nuvem Cigana / Tudo que você podia ser / Pelo amor de Deus

Tem muitas. A que eu gosto mais eu nunca consigo lembrar o nome e não vou cantarolar aqui porque eu canto muito mal, mas vou dizer o que tem na letra. É a penúltima música do disco e fala: “Alguém que eu vi de passagem numa cidade estrangeira”, e aí ele vai falando que a visão daquela pessoa lembrou a ele próprio, quando ele era mais novo. Aí ele faz uma analogia com alguma coisa que ele deixou no meio do caminho como a gente deixa uma pêra dormindo numa fruteira. E aí ele fala do sol, como o sol que bate numa cadeira e passa. Eu acho essa musica tão bonita, são umas metáforas tão bonitas sobre o que a gente deixa no caminho da vida e que não consegue mais retornar àquilo. De repente acontece isso mesmo, a gente vê alguém que te lembra o que você foi e o que você já não é mais. E essa metáfora com sol, com a pêra dormindo, eu acho essa música muito bonita. “Nuvem Cigana”, que é fantástica também, eu acho uma canção de amor muito original. Tem várias, a música que abre o disco: “Com sol e chuva, você sonhava…” [cantarola], essa música é muito bonita também, eu não lembro o nome, eu não consigo guardar nome de música. Tem uma outra que fala um negócio da minha terra, um portão, “Pelo amor de Deus”, isso é lindo.

Voltar ao topo MÚSICAS E DISCOS

Clube da Esquina 2: 1976 / San Vicente/ O que foi feito de Vera / O que foi feito deverá / Maria Maria / Paula e Bebeto

O disco “Clube da Esquina 2” eu tenho também, é muito bom e tem muita coisa ali que emplacou sucesso. Essa é uma outra característica do disco. Inclusive, eu estava ouvindo o disco recentemente e reparando uma coisa impressionante: todas as músicas desse disco são standards, entraram para o repertório da MPB indiscutivelmente, uma atrás da outra. Você só vai ouvindo música que foi regravada por um monte de gente e que são clássicos. “San Vicente” também é muito bonita. Do disco dois eu gosto muito de uma música que a Elis canta junto com o Milton, acho que é “O que foi feito de Vera”. Ele inclusive tem um disco chamado “Ângelus” que tem uma música muito bonita com um nome parecido, que é “O que foi feito deverá”, é muito bonita também. E “Maria Maria”, que é um clássico também. “Paula e Bebeto” também, que eu já ouvi tantas vezes em outros discos. Em suma, eu gosto muito do disco “Clube da Esquina 2” também, mas o primeiro disco é uma coisa demais, é muito bonito.

Voltar ao topo FORMÇÃO MUSICAL

Clube da Esquina: museu

Eu não preciso nem dizer que é importante, isso daí seria redundante. Eu acho que é muito importante e tem uma coisa que eu acho interessante, que é o formato bastante moderno da idéia do museu virtual, pelo menos nessa primeira etapa. Tirar proveito da tecnologia, internet, o site, isso eu acho um dado importante até pra não ficar com essa idéia de museu como um lugar de velharias. O museu pode ser uma coisa dinâmica como é o caso desse projeto. Essa questão de gravar depoimentos e utilizar esse recurso de internet até mesmo para disponibilizar isso para as pessoas terem acesso, eu acho legal também e vem num momento bastante propicio. Como eu estava falando antes, embora os artistas que fizeram parte desse movimento e estão em atuação até hoje sejam todos muito reconhecidos pelo seu talento e por suas carreiras solo, eu acho que falta essa amarração com o Clube da Esquina, falta tornar público que esse grupo todo tem uma ligação e se origina em um movimento musical dos anos 70. Eu acho que isso é importante, porque talvez eles tenham tido carreiras solo tão profícuas, tão variadas, alcançado tanto sucesso quanto alcançaram, que a totalidade deles, o conceito do Clube da Esquina acaba ficando um pouco ofuscado pelo sucesso dos seus integrantes. Eu acho que é importante resgatar isso ai, porque isso faz parte da história da música brasileira e ajuda a entender todo o processo de construção mesmo da música brasileira pós-anos 50, a partir da bossa nova e tudo mais. Na música brasileira moderna, eu acho que se fala muito em bossa nova, o Tropicalismo é sempre relembrado, a Jovem Guarda também tem seus críticos, tem aqueles que elogiam, ela está sempre visível. Eu acho que o Clube da Esquina tem que figurar junto com esses quatro movimentos aí, como o rock dos anos 80 que está em evidência. O Clube da Esquina tem que estar junto com isso aí, para que a gente tenha uma visão bem ampla do que é música popular brasileira, com essa variedade, com essa diversidade toda que existe.

Voltar ao topo Educação

Formação

Sou jornalista e fiz literatura também. Eu me meti num negócio que era fazer uma monografia sobre música popular brasileira e o tema era “De Celly Campelo ao rock dos anos 80” e quando você vai estudar isso, percebe que está tudo interligado. Não é uma coisa linear, mas algo em que todo mundo passeia um pouco.

Fale na Esquina

Os comentários estão encerrados.