Fernando Brant

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Nome/ Local e data de nascimento

Fernando Rocha Brant, 9 de outubro de 1946, Caldas, Minas Gerais.

FAMÍLIA
Pais

Minha mãe é de Pitangui, Minas Gerais, e meu pai é de Diamantina. Veio pra Belo Horizonte, estudou aqui, e foi ser promotor lá em Pitangui. Aí, lá em Pitangui, tinha aquele negócio do footing. As moças andando em volta, os rapazes na beirada olhando. E aí ele gostou da minha mãe, só que ela era quase noiva e ele era tímido pra danar. Então ficava aquele negócio assim, olhando. Um dia, esse seu Joaquim, que era amigo dele, empurrou ele pra cima dela, e aí tudo começou. Acabaram casando, vieram pra Belo Horizonte, onde nasceu meu primeiro irmão, meu irmão mais velho, Roberto. E ele começou a carreira dele no negócio de juiz. Ele fez um concurso, tal, se tornou juiz e começou a viajar por Minas Gerais. De dois em dois anos eles mudavam de cidade. Tanto que lá em casa teve gente que nasceu — somos dez irmãos — em Belo Horizonte, depois Pitangui, Uberaba, Caldas, depois Pitangui outra vez, Diamantina, que ele ficou um tempo, depois voltou pra Belo Horizonte.

I

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Primeira infância

Eu nasci em Caldas, dia 09 de outubro de 1946. E, segundo minha mãe, nesse dia a terra tremeu. [Risos] Caldas é uma terra meio… geologicamente tem uma confusão no negócio de urânio, sei lá. . Só sei que a minha mãe falava isso: que a terra tremeu. Eu fiquei lá em Caldas até antes de fazer cinco anos.. Eu lembro que eu fiz meu quinto aniversário já em Diamantina. E eu lembro por causa de uma coisa interessante que aconteceu. No dia desse meu aniversário de cinco anos — lá em casa não tinha geladeira, não usava essa coisa —, choveu pedra. Então a minha mãe foi lá no quintal, deixou uma bacia, pegou aquelas pedras de gelo e pôs nos refrigerantes. [Risos]

FAMÍLIA
Avós

Pra Caldas eu nunca mais voltei. Só fui voltar no ano passado, em 2003, apesar de sempre combinar com os primos que ia lá. E é bom que a cidade, apesar de eu ter umas lembranças muito nebulosas, era muito pequenininha. Tinha uma igreja de um lado, uma igreja do outro, uma praça. Então eu lembrava alguma coisa. Meus avós, de parte do meu pai era o Pedro Ferreira Brant, e de Diamantina, família Brant de lá, casado com a Etelvina Pimenta. E essa daí eu não conheci porque morreu quando meu pai era novo ainda. E aí até esse meu avô veio a se casar outra vez, com uma pessoa que a gente chama de tia Idalina, que está viva até hoje, aos 95 anos. Aí vieram pra Belo Horizonte e vieram morar numa rua chamada Gonçalves Dias, 54. Mais tarde esse lugar, esse lote, essa casa foi vendida. Ali se construiu o Cabaré Mineiro, que foi uma casa de espetáculos muito importante num determinado momento, aqui em Belo Horizonte. E hoje tem um prédio que tem o nome da minha avó, Etelvina Pimenta Brant. E o gozado é que lá nesse prédio já mora o Robertinho Brant, que é o meu sobrinho, mora o meu irmão Pedro, e agora mora minha filha que casou recentemente.
A gente descobriu que o Brant vem do duque de Brabant, na Bélgica. Tem um livro do Antônio Houaiss, sobre a história da cerveja, que começa assim: “No século XIII, o duque de Brabant, o monarca da cerveja…”. Os conventos da Bélgica têm muito isso. Lá, em vez de fazerem vinho, eles faziam cerveja. Até hoje tem aquelas cervejas trapistas que são ótimas. Os monges faziam cerveja e chocolate também. Então ele era considerado o monarca da cerveja. Esse duque de Brabant teve um amor plebeu e aí nasceu um menino e deram o nome de João di Brant. Quer dizer, não pegou o nome real lá, do sangue azul, mas parece que ele cuidou bem dele, protegeu, deu terras. E a família desse João di Brant depois acabou indo pra Espanha, Portugal. De Portugal, um tempo depois, não sei quando, vieram parar no Brasil.
O pai da minha mãe chamava Lacerdino Lacerda Rocha, e era casado com a Lucia Alvez da Silva Lacerda. E quando eu o conheci, ele já era gerente do Banco de Pitangui. Mas ele foi muito viajante, vendendo coisas. Teve muitos empregados. Tem umas histórias engraçadíssimas e coisas estranhas que ele contava e as minhas tias contam também. Umas três vezes ele estava pondo a família em dificuldade, sem emprego, viajando, mas o negócio estava difícil. Aí aparecia uma pessoa pra ele, dava o número do bicho e jogava. Ele ganhou acho que três vezes. Na terceira vez: “Não, agora você não vai precisar mais”. (Risos) E a minha avó era aquele negócio… Era uma família com sete irmãos. Da família da minha mãe, de neto deu quase 50, ou mais, porque teve uma, a mais velha, que teve 15. Lá em casa teve 10. E o meu pai tem muito primo também, mas é menos.

FAMÍLIA
Irmãos

Eu tive 10 irmãos, porque a caçula morreu com cinco meses de idade. Chamava Claudia Maria. Os outros todos estão vivos e moram aqui, que é uma coisa interessante. A gente é muito unido e essa coisa de família e morar todo mundo junto é um negócio que faz os laços ficarem muito profundos. Isso é bem mineiro. A mesma coisa na relação de amizade que a gente tem. Os amigos que a gente faz aqui são amigos que a gente vê há muitos anos. São amigos que a gente está sempre encontrando. Então essa combinação dos amigos e da família é uma coisa que explica muito o que a gente é.

INFÂNCIA
Primeira infância

Eu fui um garoto que não era moleque, bagunceiro. Eu gostava de ir à escola, prestava atenção. Quando ia fazer a prova, só estudava no dia da prova. Mas eu lembrava tudo, então tudo bem.
Nessa época eu vivia na rua, gostava muito de jogar bola, futebol, pelada. Eu sempre morei em casa que tinha muita fruta, então eu vivia trepado nas árvores buscando fruta. Mesmo na rua de Belo Horizonte, que era arborizada de uma maneira diferente – as avenidas do Contorno, Afonso Pena –, a gente tinha mania de ficar horas em cima das árvores conversando . A gente jogava futebol e um outro jogo que é muito comum em Belo Horizonte, que a gente acha que deve ter alguma coisa da origem do negócio dos ingleses que vieram pra Nova Lima. É um jogo com uma bolinha de meia, que tem duas casinhas, uma de cada lado, e tem o que eles chamam de pá. Quem está no comando do jogo fica com o pé na pá e o outro fica lá. E os dois adversários jogam a bola pra tentar acertar, quebrar a casinha. Aí, se quebrar a casinha, troca a posição. Agora, se o cara chuta a bola pra longe, enquanto o outro vai buscar, cada troca de posição é um ponto. Muito tempo depois eu fui ver que críquete é mais ou menos isso, que é o jogo inglês, e que em alguns lugares do Brasil, joga-se isso, mas com taco. A gente jogava com o pé. A gente jogava com chute. É aquele negócio de brasileiro, o negócio é chutar.

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Diamantina

Eu cheguei em Diamantina e fiquei lá até nove anos e meio, quase 10 anos. Fiz um monte de amizade, vivia na rua. Quer dizer, brincando em enxurrada quando chovia, jogando bola. Morava em frente à praça de esportes, então nadava. Muita bolinha de gude, finca, essas coisas que menino usava na época. Meninos e meninas, porque as minhas irmãs participavam disso também. Finca é uma brincadeira que tem que ser em terra. Não pode ser muito dura. A finca é um negócio de ferro, um negócio desse tamanho assim. Você faz uma casa do seu lado, outra do outro, então cada um joga até errar, até não conseguir fincar. Toda vez que você finca, você vai fazendo a lista pra ligar pra você rodar. E quem voltar primeiro pro seu lugar ganha. É uma brincadeira que hoje é difícil, porque só tem asfalto.

FAMÍLIA
Relações familiares

Era ótima a convivência com meus pais. Toda hora tinha um irmão novo. E esse negócio de existirem muitos filhos, pai e mãe não tem nem muito tempo pra ficar… Tem que deixar a coisa rolar. Então a gente cresceu muito amigo, e vivia na rua também. A cidade era muito mais tranqüila, você podia ficar na rua. Em época de férias eu só aparecia pra comer, pra tomar banho, pra dormir. Agora, durante o ano, ia pra escola. A gente se ajudava. A gente sempre teve uma convivência muito boa, porque a minha mãe era uma pessoa que – ainda está viva – agregava muito, e o meu pai era juiz, quer dizer, trabalhava muito, ele trabalhava no fórum, mas também trabalhava no escritório. Antigamente, no almoço e no jantar todo mundo ficava sentado à mesa. Era uma coisa muito boa e muito democrática.

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Ditadura Militar

Eu devia ter uns 15, 16 anos quando começou o abuso dos militares. O meu pai, que era um juiz, gostava do PSD, e começou a discussão na mesa. O meu irmão trazia as notícias estudantis, do absurdo, e o meu pai também começava a achar um absurdo. Todas as coisas de política, as coisas comuns, do dia-a-dia, a gente conversava e era uma coisa muito pacífica.

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As influências

O meu pai gostava de música. Ouvia muito rádio, que tocava música boa da pré-bossa nova. Tito Madi, Elizeth Cardoso, Agostinho dos Santos. Então eu acompanhava essas coisas, lia jornais também. A primeira vitrola que chegou em casa foi o meu irmão mais velho que comprou, que também trouxe os discos de música americana e já também do começo da bossa nova. Quer dizer, foi aos pouquinhos. Primeiro através do rádio. Se bem que desde pequeno, lá em Diamantina, ouvia muito a Rádio Nacional, porque a Rádio Nacional era a TV Globo da época, então todo mundo ouvia. Os cantores todos participavam dos programas. Ali tinha as novelas dos adultos e tinha a da gente, “Jerônimo, herói do Sertão”, que era um faroeste brasileiro. E tinha os programas de auditório em que cantavam Ângela Maria, Emilinha Borba, Marlene, Cauby Peixoto. Eu acho difícil a música não entrar na vida da gente. A música, essa que a gente vai ouvindo, é trilha sonora da vida da gente. De Diamantina, eu lembro de uma música que era assim: “Era de madrugada, ia raiando o dia/ Quando em minha casa bateu Maria”. Era um samba que tocava na Rádio Nacional.

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Barão de Rio Branco

Até quase os 10 anos eu fiquei em Diamantina, porque eu vim pra cá em junho, eu ia fazer 10 em outubro. Vim aqui pro grupo Barão de Rio Branco. Depois eu fui fazer o ginasial em outra escola, no Colégio Arnaldo.

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Belo Horizonte

Tem uma música com o Sirlam… Eu lembro que eu vim cantando “Recuerdos de Ypacaraí”, uma tristeza danada, porque é uma música muito triste. Eu vinha cantando. Saímos de Diamantina, era estrada de terra, tipo seis horas da manhã. Só chegamos aqui cinco horas da tarde. E aí nessa letra eu até falo: “Sabe o que já perdeu de vez/Não sabe o que vai encontrar/Mas já sabe o que já perdeu de vez”. Aquela melancolia, aquela tristeza. Eu vim pra capital, mas vim bem chateado, bem triste. Mas cheguei aqui, tinha um monte de primo e já fui recebido na rodoviária. E nessa época a gente foi morar num lugar perto da casa do meu tio. A gente se enturmou logo. E tinha o negócio de bonde. Eu fiquei amigo dos motorneiros. Tanto que eles paravam em casa pra eu subir, pra descer, não paravam em ponto. Porque quando eu vim pra cá, Belo Horizonte era um pouco como cidade do interior mesmo. Na esquina tinha o sapateiro, o barbeiro, o açougueiro e o bar. A gente jogava bola no meio da rua. E a cidade era tão tranqüila que a gente ia a pé pro grupo.
A música que eu fiz com o Sirlan é “Viagem às origens”, eu acho que é isso aí. “Liga o motor motorista/Está na hora de ir.” Eu acabei fazendo duas. Na realidade, as duas músicas se completam um pouco. E tem um disco dele, um LP que ele conseguiu gravar. Depois a censura proibiu mais de cem músicas dele. E depois de muitos anos ele participou desse negócio que o Murilo quer falar, do “Viva Zapatria”, que aconteceu num festival. A carreira dele ia empinar, tinha contrato com a Som Livre.

FAMÍLIA
Moradia

Nos dois, três primeiros anos em Belo Horizonte, a gente morou numa casa de uma tia do meu pai. Ela tinha um quintal enorme, mas a casa mesmo era bem pequenininha e na frente dela tinha um salão de beleza, e tinha só um portão que a gente entrava. Quer dizer, era bom que a gente fosse pro quintal, porque se ficasse todo mundo o tempo todo dentro da casa, seria meio complicado. Então a gente morou até dezembro de 59. Chegamos aqui em junho de 56, porque o meu pai, nesse meio tempo, pegou um empréstimo na previdência – tinha isso na previdência estadual, funcionário poderia fazer empréstimo imobiliário – e comprou uma casa. Só que quando ele foi reformar, viu que não dava, tinha que fazer outra. Então derrubou essa aí. A dificuldade financeira na época era… Na realidade, o Brasil nesse tempo era um Brasil muito mais pobre. Não tinha essa diferença que tem hoje. O que seria a classe média, era… era contadinho mesmo, tanto que tinha que ter conta na padaria, conta no açougue. E quando recebesse ia distribuindo.

FAMÍLIA
Moradia

Essa casa demorou muito pra construir, porque ela só teve um pedreiro. Um pedreiro sozinho construiu ela, porque era a maneira, só podia pagar um. Demorou três anos pra ficar pronta. Bom, essa aí já foi maior. Mais tarde cresceu um andar, porque a vida íntima dos meus pais estava ficando um problema. Hoje eu acho isso, na época eu não sabia por que eles fizeram um segundo andar, fizeram o escritório dele, o quarto. Porque na minha casa, além dos irmãos, a gente sempre chamava todos os primos, que iam pra lá. Tinha primo que ficava o dia inteiro lá em casa, estudava. Ia à noite, de manhã, almoçava, jantava, era uma bagunça danada. Quando eu entrei nesse negócio de música, além dos primos, começou a vir o Ronaldo Bastos, o Naná Vasconcelos, todo mundo vinha e dormia lá. Minha mãe chegava e estava aquele monte de gente dormindo. O pessoal vinha, depois ia almoçar… É aquele negócio: onde comem dez, comem quinze.

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Belo Horizonte

A casa que meu pai construiu ficava em Serra com Funcionários. A outra casa era três quarteirões acima. Enquanto a gente morava lá passava bonde, essas coisas. Jogava bola na Avenida do Contorno, que era uma ladeira enorme. Era ao lado de uma padaria também, padaria São José. Do lado da padaria tinha o Preto´s Bar. E essa padaria era boa, porque quando a gente vinha de festa, antes de chegar em casa, entrava por trás, pegava o pão com o padeiro lá, tirava do forno e passava manteiga que derretia. Era tranqüilo. A gente jogava bola lá. Hoje você passa e fala: “Bom, como é que jogava bola aqui?”. Não é possível pelo movimento que tem hoje.

EDUCAÇÃO
Descrição do cotidiano escolar

Mas aí eu ia estudar no Colégio Estadual, no ginásio, mas tinha o negócio do exame. Era uma espécie de vestibular, porque na realidade tinha pouca vaga, mas eu não passei. Eu não passei sabe em quê? Português. Pelo seguinte: meu pai foi pedir revisão, não acreditou, pois eles tiravam meio ponto por vírgula ou acento. Quer dizer, quarta série de grupo, eu não dominava. Então era assim: cada acento que eu colocasse errado ou que não colocasse, era meio ponto. Só aí foram uns oito ou nove, com vírgula… Tudo deu cinco. Aí não dava pra passar porque tinha gente que tinha tirado mais. Por isso eu fui fazer no colégio particular, Colégio Arnaldo, que era um colégio de padre. Hoje eu vejo como uma experiência boa. Quer dizer, em termos de colegas era ótimo, tinha bons professores, mas era um regime muito autoritário. Tinha uns padres alemães. A gente falava: “Tudo nazista”. Ao mesmo tempo, tinha uns professores civis, que eram muito bons. Era um negócio muito rígido, aquele negócio de castigo depois da aula, coisa assim. Mas era um colégio que tinha campo de futebol, piscina, jogava-se finca, bola de gude, que era tudo de terra em volta das salas de aula. Hoje está tudo cimentado.
O Colégio Arnaldo só tinha científico, não tinha clássico. E isso interessava pra quem ia fazer engenharia, medicina, essas coisas. Outra profissão aí estava danado. Gozado, eu sou um cara que mexe com coisa mais de cultura, mas eu sempre gostei de matemática. Então eu só fiz matemática no ginásio. Ainda lembro de coisa daquela época, tive bons professores de matemática. E o Colégio Estadual era maravilhoso. Não tinha ainda esse negócio de cursinho e tanto no científico como no clássico o pessoal fazia o terceiro ano e ia direto pra faculdade, passava. Era um alto nível mesmo. Os professores lá eram catedráticos, tinham que fazer concurso. Tanto que eu tive um professor de português que tinha acabado de ser reitor da universidade. Quer dizer, o nível dos professores era fantástico. No clássico tinha português, inglês, francês, espanhol, história, geografia, filosofia, latim. Uma das matérias que mais me ensinou português foi o latim, por causa de um professor, que por acaso era de Diamantina, chamado Altimiras, que em vez de ele ficar só na declinação, conjugação, aquele negócio de latim que era meio complicado, ele aplicava mesmo é pro português. Ele mandava você fazer versão e retroversão. Ele dava um texto em português pra você tentar transformar pra latim, mas fazia também o contrário. E o mais importante: ele pegava, ia no quadro, punha uma palavra em latim e falava: “Pega essa primeira palavra, significa isso. O que deu isso em português?”. Aí a gente descobria que pra cada palavra latina tinha 50 em português. Porque na realidade era o centro da palavra e você punha prefixos e sufixos. Então, com uma palavra em latim, a gente estava aprendendo 50 em português. Sei que o nível da coisa lá era fantástica.
Eu fui pro Colégio Estadual em 63, e eu acho que 63, 64, 65 foram anos básicos pra minha formação. Porque eu estava acostumado com o Colégio Arnaldo, um monte de agito legal, os amigos, os colegas, mas lá se discutia futebol, pessoal, negócio de fumar, aquelas amenidades. Eu chego no Estadual… Primeiro, a matéria que era dada já era de um nível muito maior do que o que eu tinha. E depois, nos intervalos, os caras já estavam falando em Fellini, Orson Welles, João Cabral, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, García Lorca. Quer dizer, o nível no Colégio Estadual, na sala de aula, dos professores, era muito grande. Aí eu fui ver que os alunos também eram. Música clássica, cinema, literatura brasileira, moderna e americana, tudo. A conversa deles era isso. E pra eu ficar na turma, tinha que chegar em casa e ir atrás das coisas. Então eu comecei a ler desbragadamente. O que eu não tinha em casa, eu ia em biblioteca pública, que tem na Praça da Liberdade. Eu era ali freguês diário, pegava um livro por dia. E o cinema, comecei a ver de outra maneira. Entrei pro cineclube. Foi a época que mudou minha vida, que me deu um caminho. Assim, num mesmo ano, eu conheci Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Fernando Pessoa, García Lorca, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos. E no Colégio Arnaldo eu não sabia disso não. Eu apresentei Lorca pro Márcio. É porque aí eu me apaixonei, e sabia de cor um monte de coisa.
As aulas eram ótimas. Eu fiz o primeiro e o segundo ano lá. Quando chegou o terceiro, eu fiquei sabendo que na universidade estavam criando um colégio universitário que era muito bom. Daí resolvi, com alguns colegas, fazer concurso pra fazer o terceiro lá. Aí eu passei e ainda fiquei em dúvida se ia pra lá ou não, porque a aula só ia começar em abril, pois ainda estava em construção o raio do colégio. Tanto que eu freqüentei, no terceiro ano, o primeiro mês do Colégio Estadual. Eu ia nas duas últimas aulas, principalmente pra ver os colegas e aí ver se eu sairia ou não. E também as duas últimas aulas eram de português, dadas pelo Afonso Romano Santana.
Mas quando o colégio universitário abriu, eu resolvi ir pra lá. E na época, em Belo Horizonte, era considerado uma loucura você sair do lugar em que eu morava, na Serra, pra ir pra Pampulha, porque a Pampulha era um lugar que o pessoal ia pra passar um fim de semana. Tinha sítio. Tanto que a universidade só tinha lá a reitoria. A gente foi pioneiro ali. E era um negócio danado. Aí eu já estava no negócio de cultura, já estava um pouquinho na boemia. Então freqüentava o Maleta e dormia metade. Eu tinha que estar na Pampulha às sete horas e tinha que pegar o ônibus lá na cidade, um ônibus da reitoria até às seis e meia no máximo. Mas o negócio era tão bom que eu nunca perdi. Na realidade, às vezes ficava lá o dia inteiro, porque esse colégio também foi uma experiência completamente maravilhosa, porque era em departamentos. E eu era das ciências sociais. Então era assim: departamento de português: eram oito professores que ficavam ali o dia inteiro e cada um dava um tipo de coisa. Filosofia, geografia, história, latim. Era um ambiente melhor que o Colégio Estadual, porque era um avanço, era uma maneira completamente nova. E só professor recém-formado em Letras, num entusiasmo danado. No fim do ano, o pessoal de geografia queria que eu fizesse geografia, o pessoal de história queria que eu fizesse história, o de português, que eu fizesse português, e assim por diante. Mas como eu tinha ficado muito amigo deles, uns até já freqüentavam comigo o Maleta… Depois falavam: “Na universidade não vai ser tão bom assim não. Isso aqui é bom, mas lá vai ser um choque”. E eu acabei fazendo Direito, porque aí me tomava menos tempo, eu já estava interessado em outras coisas. Faculdade de Letras, Filosofia, essas coisas, ainda estava muito no começo, não era como é hoje. Jornalismo… Não era importante. Na realidade, 90% das pessoas faziam ou Direito ou Medicina ou Engenharia. E na Faculdade de Direito eu conheci o pessoal de Literatura, de Jornalismo, de Teatro, de Música. Todo mundo estava fazendo Direito. Escolhi também por influência do meu pai.

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As influências

Minha família é religiosa sim, mas não radical. Meu pai e minha mãe são católicos. E no Colégio Arnaldo, éramos obrigados a fazer toda primeira sexta-feira do mês a missa e a comunhão. Então tinha a seguinte história: com nove primeiras sextas-feiras ganhava-se indulgência plenária. Aí como eu passei quatro anos lá, falei: “Bom, agora eu posso pecar à vontade. Estou garantido”. Nem é que eu tenha feito isso não, mas quatro vezes de indulgência plenária está bom demais.

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Leituras

O meu pai tinha uma biblioteca enorme. E depois, o meu irmão mais velho, o Roberto, é um cara que está sempre preocupado com o negócio de cultura e a tendência da gente é ir acompanhando. Sempre teve muito livro em casa. Eu lia muito as coisas. Eu lia jornal desde muito tempo também, porque bem pequeno eu lia Última Hora. Aliás, o jornal aqui de Minas publicava o Stanislaw Ponte Preta, o Antônio Maria, o Nelson Rodrigues, o Armando Nogueira no futebol, que escrevia maravilhosamente bem, e escreve ainda. E livros, primeiro teve os de colégio. Machado de Assis…
A revista O Cruzeiro já existia, mas eu não estava nem pensando. Outro dia até estava lendo. Este ano está fazendo cinqüenta anos do lançamento da Luluzinha. Eu lembro que a primeira Luluzinha que saiu, eu comprei em Diamantina. Eu desci da minha casa e fui exatamente pra comprar O Cruzeiro, porque O Cruzeiro era no Brasil inteiro – teve uma época que chegou a 700 mil, 800 mil de tiragem. Isso era um absurdo pro Brasil naquela época. E aí eu lembro que ia toda semana buscar ‘O Cruzeiro’ e via essa revistinha lá, a ‘Luluzinha’.

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Atividades profissionais

Nessa época da faculdade eu já estava trabalhando no juizado de menores, que foi uma experiência interessante. Foi o primeiro emprego que eu arrumei, nomeado no Estado. Fui ser escrivão. Aí trabalhei num monte de coisa, tive uma experiência de vida. Porque problema de menor infrator era uma coisa que acontecia pouco na época, tinha mais menor abandonado. Lá, eu, por exemplo, conheci um personagem que está em várias músicas que eu fiz com o Bituca, que é o seu Francisco, um preto velho, grandão, que fazia o café. E a gente era muito amigo. Antes de servir os outros ele me chamava pra tomar café primeiro. Depois, no fim da tarde, quando ficava tranqüilo, a gente sentava num banco e ele ficava contando as histórias dele, e aí eu aprendi muita coisa. Ele é um cara que me serviu de exemplo pra um monte de coisas, dessas pessoas simples, mas com uma sabedoria danada. Ele tinha vindo de Ouro Fino, que é uma cidade de sul de Minas.

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Milton Nascimento

Os colegas do Estadual é que me levaram pro Maleta, inclusive um amigo do Marcinho. Eu fiquei conhecendo o Marcinho um pouco por causa disso. Eu conheci primeiro no Estadual o Sérvulo Siqueira e o Zé Fernando de Almeida e Silva, e eles me levaram pro Maleta. O Marcinho conta no livro dele uma coisa que realmente aconteceu e foi muito rápido, tanto que na época eu não percebi muito. A gente pegava ônibus… Esse Sérvulo morava dois pontos antes de mim. E aí eu passei pela roleta e eles estavam lá, e conversamos, mas desceram logo depois, dois, três minutos depois. E o Milton é que depois me falou: “Eu vou ser amigo desse cara aí”. Pouco tempo depois, na porta do Maleta, o Zé Fernando nos apresentou. Aí a gente entrou no bar, sentamos à mesa e começamos a conversar. Depois fomos em outro, na praça Raul Soares. E nós passamos a noite inteira assim, conversando, rindo pra danar, e ficamos amigos. As duas versões estão certas, elas se completam. Quando eu fiquei amigo do Bituca, ele já introduziu o Marcinho. O Marcinho também eu conhecia meio de vista. O Sérvulo era amigo dele. Aliás, o Zé Fernando também era. Então era uma coisa meio inevitável. A cidade era pequena, as pessoas freqüentavam mais ou menos os mesmos lugares. Era inevitável que um dia a gente se encontrasse.

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Festival Internacional da Canção

Em 65,. 66, o Bituca se mudou pra São Paulo pra participar de um festival, defendendo a música do Baden Powell. E acabou ficando por lá, achando que ele ia tentar a profissão ali, porque aqui não estava dando. Então fizemos o seguinte: a gente se encontrava no máximo de 15 em 15 dias. Ou a gente ia pra lá ou ele vinha pra cá, sempre de ônibus. Saía sexta-feira à noite e voltava domingo à noite. E aí ele mostrava as músicas que tinha feito com o Marcinho. Porque, por exemplo, antes de ele me mostrar o negócio da “Travessia”, ele já tinha feito “Morro velho”, “Pai grande”. Aí, um dia, lá por 67 – não sei exatamente quando, porque a gente deve ter feito a letra lá pra junho, mas ele deve ter me mostrado antes, março, abril –, ele mostrou a música e eu achei bonita. Ele falou assim: “Eu queria que você fizesse letra pra ela”. “Mas eu não mexo com isso, não sei, nunca fiz.” E ele falou: “Eu acho que essa música não é nem pra mim, nem pro Marcio. Tem um jeito seu”. Ele faz muito isso até hoje. De vez em quando tem uma música e ele fala: “Não, essa música é pra tal”. Nessa época eu não escrevia. Escrevia, mas no jornal de colégio. Lá no colégio universitário a gente tinha um jornal em que a gente fazia mil coisas. Quer dizer, escrever eu escrevia, mas só exercitando.
Então, quando ele me pediu pra escrever, eu falei: “Não, não tem nada a ver”. Mas o Bituca insistiu, e aí eu resolvi escrever. Ele tinha me dado um tema que seria assim: como se fosse um caixeiro-viajante, que passava, ficava um tempo na cidade, criava ambiente lá, acabava namorando, mas quando o negócio ficava meio assim, ele ia embora e mudava de praça. O cara ia deixando um amor em cada cidade. Tanto que na música, antes daquela introdução, ele cantava: “Quem quer comprar meu sonho…”. Originalmente chamaria “Vendedor de sonhos”, mas na hora de fazer eu achei que não era bem aquilo, então eu tive a idéia de alguém que vai embora e o outro fica desesperado, mas depois… pô, a vida continua. Então já não cabia o “Vendedor de sonhos”. Aí eu achei o negócio da “Travessia”. E o “Vendedor de sonhos” a gente foi fazer vinte anos depois. Quando fez vinte anos de “Travessia” a gente fez “O vendedor de sonhos”.
Naquela época, todo mundo que via o Bituca achava o máximo. E ele estava acontecendo. Estava morando em São Paulo, já tinha sido gravada a “Canção do sal”, ele estava aparecendo em alguns programas, apareceu no Fino da Bossa. Mas não tinha nada, na verdade eu estava fazendo para um amigo meu. Isso eu não lembro exatamente, mas eu devo ter custado pra mostrar o papel. E quando eu mostrei, ele pegou o violão pra tocar, pra ver se estava tudo certo. Foi na casa do meu pai, no escritório, e eu lembro que a gente tomou um vinho de Caldas. E aí foi tudo bem. É um negócio muito de destino. E a maneira como essa música foi escrita também é engraçada. O Bituca tinha uma música com o Marcinho que chamava “Hoje é dia de El Rei”, que a gente adorava. Era uma suíte. E aí ele inscreveu num festival da Record. E ele já tinha até escolhido: “Vai ser o Tamba Trio e Elis Regina”. “Oh!” E estava nessa. E o Agostinho procurou ele pra inscrever no festival do Rio. E ele não se interessou. O que o Agostinho fez? Pediu: “Eu estou gravando um disco e queria que você gravasse umas músicas pra mim”. Então ele gravou as três, “Travessia”, “Morro velho” e “Maria minha fé” e o Agostinho dos Santos inscreveu. E aí aconteceu um negócio louco, porque “Hoje é dia de El Rei” não foi selecionada, e as três dele entraram no Festival Internacional da Canção. Inclusive era uma coisa que não acontecia. Cada compositor podia entrar com uma, mas eles acharam que era um negócio tão assim que ele entrou com as três. E aí já mudou pro Rio. Em uma semana mudou. Começou a ter mil solicitações e conheceu todo mundo.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

A gente teve primeiro o encontro do ônibus que foi assim muito… O show Opinião veio pra Belo Horizonte e na época já não estavam nem a Bethânia nem a Nara. Mas vieram o Zé Ketti e o João do Vale. E o violonista que acompanhava, o Roberto Nascimento, não pode vir. Então o pessoal entrou em contato com o Bituca pra fazer o violão do Opinião. Só que o tal do Roberto Nascimento pôde vir no dia e veio. Então, pra compensar o trabalho que tinham dado, eles deram um espaço pra ele e ele apresentou duas ou três músicas. Eu estava no Teatro Francisco Nunes e lembro: “Pô, mas está uma claque danada”. Porque eu nunca tinha visto ele. Ele cantou, a voz bonita pra danar, e veio abaixo a metade do teatro pra frente, que era tudo amigo dele. Estavam o Marcinho, o Sérvulo, as irmãs do Sérvulo, as irmãs do Marcinho. Então teve esse fato, quando eu o vi assim como um compositor.
Depois teve esse encontro rápido no ônibus e aí o Zé Fernando me apresentou na porta do Maleta. Aí nós entramos lá pro fundo, que tinha um bar que era o pessoal de música. No Maleta tinha um bar que ia do pessoal do cinema, outro de literatura. O pessoal se freqüentava, mas cada pessoal tinha um bar preferido. Então tinha um bar lá no fundão, que não existe mais hoje, chamado Oxalá, que era de um pessoal de Teófilo Otoni. Inclusive, quem freqüentava é o atual Ministro dos Direitos Humanos, o Nilmário Miranda, e outros. Porque lá eles podiam tocar violão. Então foi nesse Oxalá que a gente começou. Ele falou: “Aqui está muita bagunça. Vamos pra outro lugar”. Então nós fomos pra um botequim lá na Praça Raul Soares. Sentamos na calçada eu, ele e o Zé Fernando. E aí, dia seguinte, ele já me ligou: “Amanhã tem uma festa na casa da filha do dono da Brahma, você vai?”. “Vamos embora.” Quer dizer, eu já enturmei e fui.

FESTIVAIS
Festival Internacional da Canção

Eu lembro que quando foi ter o festival, eu fui pra lá. E de repente, na quinta-feira, a minha música classificou pra final. Estou lá um dia e chega um carro: meu pai, minha mãe, meus irmãos… Eu não tinha absorvido muita coisa não. Tirou o segundo lugar. Foi aquele sucesso. Depois nós fomos comemorar, todo mundo, a minha família, com o Bituca, o Marcinho. Eu ainda estava meio assim, não tinha assimilado muito isso. Eu tinha uma música e de repente eu comecei a conhecer todo mundo por causa dessa música. Os caras que eu gostava, que eu ficava ouvindo, comprando o disco, de repente viravam amigos da gente. Foi uma experiência louca. Muito de destino, isso. Tanto que é o seguinte: na segunda música que fui fazer, logo depois do festival, eu tinha responsabilidade, porque o Bituca ia gravar um disco. Aí eu falei: “Nossa, e agora? Essa eu sei que vai ser gravada”, que é “Outubro”, a segunda música que a gente fez junto. E que, de uma certa maneira, na época: “Eu vou melhorar, vou contar aquela história melhor, da ‘Travessia’, que eu não sei se está bem contada”. Mas não tem nada a ver, pois aí essa segunda era uma coisa mais profissional. A primeira não, foi uma coisa que eu fiz para o meu amigo.
O Festival pôs ele em contato com o país e o mundo. Porque ele assinou um contrato com uma gravadora americana antes de assinar no Brasil. Porque o disco que ele fez aqui foi de uma gravadora pequena, Codil, mas durante o Festival ele já assinou com a EMI Records.

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Rio de Janeiro

A música começou a interferir, mas eu continuei fazendo faculdade. O gozado é que tinha um professor, um jurista fantástico, que faleceu recentemente, chamado Caio Mario da Silva Pereira, que dava aula de uma matéria que os estudantes achavam que era uma chatice, que era difícil pra danar, mas o cara era tão brilhante dando aula que eu não perdia nenhuma. Porque as outras, você assinava e ia embora. E uns 10 dias depois do festival, tinha prova final. Eu estava fazendo a prova dele, ele virou e falou: “O que é mais difícil: isso ou fazer música?”.
Mas aí eu continuei trabalhando no juizado até um tempo. Eu ia sempre ao Rio e comecei a conhecer as pessoas, até que em 1969 eu achei que podia tentar mudar pro Rio. Então pedi licença sem vencimento aqui no Estado, estudei dois anos o que podia, depois renovei, nunca mais voltei, e fui pro Rio pra tentar morar lá.

CIDADES
Rio de Janeiro

Eu cheguei no Rio e o Pedrílvio Guimarães, pai de dois músicos amigos nossos, o Cláudio Ferreira e o Paulo Guimarães, me arrumou um emprego na editora da revista O Cruzeiro, porque deviam um favor a ele lá. Ele falou: “Você vai no Cruzeiro, depois na Manchete. Todos dois me devem favor”. Um negócio de importação de papel, que ele como advogado resolveu pra eles. E fui admitido na editora da revista ‘O Cruzeiro’. Nesse tempo, o Milton tinha casado e estava morando com a mulher dele, mas eu acho que não tinha separado ainda. E eu estava morando com o Naná Vasconcelos e o Novelli, no Posto 6 em Copacabana. Então, no primeiro dia de trabalho, eu acordei cinco horas da manhã, mais ou menos, tomei banho, me aprontei, desci na esquina, tomei uma média com café com pão, manteiga, peguei o ônibus no final e andamos mais de uma hora até descer na Central do Brasil. Aí, na Central do Brasil, eu tinha que atravessar um túnel pra dar na rua do Livramento, onde era O Cruzeiro. E eu atravessei. Na época, eu até vi: “Pô, mas tem até delegacia na porta do túnel”.
E eu fiz esse trajeto algumas vezes, não foram muitas. Mas depois eu fui saber que era o maior perigo, que o pessoal assaltava, que na época era um dos lugares mais perigosos do Rio de Janeiro. Atravessei, fui lá me apresentei e comecei a trabalhar. Ao contrário do que acontecia em Belo Horizonte, eu não podia voltar pra casa pra almoçar, porque tinha que almoçar lá mesmo. Almocei lá, fiquei até seis horas. Acabou, desci, atravessei o túnel, fui na Central, pequei o ônibus, aquele ônibus lotado, e demora, demora, demora. Aí eu cheguei no apartamento, tipo oito e meia. Aí os dois estavam se aprontando pra sair, o Novelli e o Naná. Me chamaram, mas eu falei: “Não, não dá. Eu estou morto, tenho que tomar banho porque amanhã eu tenho que acordar cedo”. Essa coisa eu fiz segunda, terça, quarta. Quando chegou na quinta de manhã, eu falei: “Esse negócio…” – porque eu teria que arrumar transferência de faculdade, porque ia estudar à noite – “Eu vou ficar trabalhando o dia inteiro e estudar à noite? O que eu vim fazer aqui? É melhor eu ir pra Belo Horizonte”.
Aí fui almoçar com o Pedrílvio , que tinha me arrumado o emprego. Eu falei com ele: “Pedrílvio, está acontecendo isso. O que você acha de eu pedir uma transferência pra sucursal de Belo Horizonte?”. “Não, fé isso mesmo. Fala que você não conseguiu transferência da faculdade.” E eu fui lá à tarde, conversei com o super intendente e falei: “Olha, está acontecendo isso. Eu conversei com o Pedrílvio e eu queria ver se não tem jeito de…” – com três, quatro dias de trabalho pedir transferência – “ Podia passar pra sucursal de Belo Horizonte”. Ele falou assim: “Amanhã o chefe da sucursal vem aqui, então você vem e a gente conversa junto”. “Então já posso ir embora?” E fui. E quinta-feira foi uma beleza, já não fui sexta de manhã, só fui à tarde.
Cheguei e me apresentaram ao Eugênio Silva, que era o chefe da sucursal aqui, e ficou tudo certo. Ainda demorei uma semana no Rio. E muito tempo depois, eu fiquei sabendo que essa vinda pro Cruzeiro, essa sucursal do Cruzeiro, foi um luxo de lugar que eu trabalhei. Diziam que O Cruzeiro estava em decadência e que eles estavam querendo cortar metade do pessoal da sucursal. E o Eugênio falou: “Não. Primeiro porque a sucursal dava lucro, pois o pessoal trabalhava muito e ela rendia mais do que gastava”. E ele tinha chegado lá pra resolver isso. Ele falou: “Se for pra mandar embora, então o primeiro da lista sou eu”.

TRABALHO
Atividades profissionais

Na editora, eu ia fazer orelha de livro, mas aí não dava tempo de fazer nada, porque eu fui ser repórter mesmo. Primeiro, eu comecei fazendo coisas em Belo Horizonte e fiz algumas viagens pro interior. Conheci muitos lugares de Minas Gerais. Não era muito trabalhoso. E outra coisa: aqui eu só ia à tarde, porque falei que eu estudava de manhã, e era verdade.

PESSOAS
Juvenal Pereira

O Juvenal Pereira foi estagiário lá. E nós fizemos umas matérias. Gozado, ontem eu passei por um lugar que a gente foi em Ouro Preto, o Saramenha… É um lugar onde a gente fez uma reportagem linda pra revista Cigarra com o Living Theater, do Julian Beck, pois eles estavam fazendo um trabalho em Ouro Preto. Foi uma matéria de várias páginas com eles. Depois foram presos, aquele negócio de repressão. Falavam que eles estavam com maconha. Deviam estar mesmo, mas nem por isso tinham que expulsar os caras daqui. Mas eu lembrei do Juvenal por causa disso.
Eu fiz uma matéria sobre o fim da estrada de ferro Bahia—Minas, que era uma estrada de ferro que ligava Araçaruaí, no norte de Minas, no vale do Jequitinhonha, a Caravelas e Ponta de Areia, na Bahia. O governo do Castelo Branco acabou com um monte de ferrovias, e acabaram com essa. Falaram que iam construir uma estrada de rodagem pra substituir, mas não construíram. Demorou anos… A gente foi em várias cidades, tanto no norte de Minas, como no sul da Bahia, percorrendo o que tinha restado delas. Algumas você só chegava a pé ou a cavalo, porque não tinha nada e outras viviam em função da estrada de ferro. Tiraram as estradas de ferro, que levava não só pessoas, mas as mercadorias, as trocas, o comércio. Aí eu acabei indo pra Ponta de Areia, que era a estação final. A cidade era só uma praça, com as casas dos ferroviários, e as oficinas pra consertar as locomotivas. Eu fiz a matéria lá. Um tempo depois, o Bituca me deu uma música e eu fiz a música “Ponta de Areia”. Depois, a gente fez um segundo balé com o Grupo Corpo, que é “O último trem”, que exatamente conta a história do fim de uma estrada de ferro. Quer dizer, só isso aí já deu.

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Origem do clube

O Bituca começa a vir mais pra cá e a gente se encontra sempre, ou na minha casa, ou na casa dos Borges. Eu estou trabalhando no Cruzeiro, é o final de 69. Nessa época eu começo a freqüentar um bar, chamado Saloon. Aí fui levando o Bituca, o Marcinho, o Marilton… Ele era perto do Suplemento Literário de Minas Gerais. E ai o pessoal do Suplemento também, Sérgio Sant’Anna, Jaime do Prado Gouvêa, Adão Ventura, Luiz Vilela, um monte de gente…. Aí então o Saloon começou a ser o encontro do pessoal de música e de literatura. Inclusive algumas reuniões do disco Clube da Esquina foram feitas lá, à tarde.

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Ditadura Militar

A política está presente o tempo todo. Eu tinha 15, 16 anos quando teve o Golpe e isso me atingiu muito. Até 67, 68 estava manso, era a ditadura mais branda. Quer dizer, havia muita perseguição, mas ainda não era um negócio violento demais. Em 68, com a morte do Edson Luiz, começam as passeatas, e a gente participava das passeatas aqui. Às vezes eu participava no Rio. Ficava parecendo até que eu era de algum grupo político, mas eu não era. Mas como eu mexo com música, às vezes eu estava lá. Os meus amigos todos iam e eu ia também. Participei dessas passeatas até que veio o AI-5 em dezembro, e o AI-5 da universidade, que é o 477, que foi um negócio horroroso. Então, a solução pra muitos caras que eram meus contemporâneos era ou recuar, parar com aquilo, ou então avançar, que foi o que alguns fizeram e não deu coisa boa. Essa percepção eu estou sempre tendo, acompanhando. O Carlos Heitor Cony, o Márcio Moreira Alves e o Hermano Alves, do Correio da Manhã, eram leitura o tempo todo. Eu sempre estava lendo jornal pra saber da política, e acompanhando mesmo. Mas eu pertenci a nada. Era só um cidadão e a política entrava, como todas as coisas da vida – amizade, amor, infância – entrava nas letras de música também.

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“Sentinela”

Quando o Milton me mostrou a música, eu falei que eu ia fazer uma letra do seu Francisco, aquele que eu te falei do juizado. Só que na hora de fazer, eu fiz uma outra coisa. Na realidade, foi um ponto de partida pra outras coisas completamente diferentes. Tanto que alguém já escreveu que tinha sido pro Edson Luiz, e não tem nada a ver. Ele, o Bituca, me perguntou: “Isso não ia ser sobre o seu Chico, pô?”. E acabou não sendo. Mas muitos anos depois, quando seu Francisco morreu, eu vi uma cena que era aquela mais ou menos que eu tinha imaginado.

CIDADES
Diamantina

Teve produções lindíssimas em Diamantina, porque a gente ia lá primeiro mostrando a cidade acolhedora, hospitaleira. Você chega e o pessoal te trata de um jeito danado. Aí tinha aquele monte de menino a fim de fazer música, então tocava-se muito, cantava-se, compunha-se e bebia-se.

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“Conversa no bar”

A música “Conversa no Bar” tem um pouco do Saloon. Porque a gente discutia tudo, de literatura, política. A gente entrava ali às cinco horas da tarde e saía às 11 da noite. Aí eu estou falando umas coisas da infância, mas entram outras coisas. Tem uma história interessante: eram dois nomes “Saudade dos aviões da Pan Air”, e o subtítulo “Conversando no bar”. A Elis Regina, quando foi gravar, ela ligou: “Olha, mandei, mas só ‘Conversando no bar’, se mandar ‘Saudades dos aviões da Pan Air’, não passa”. Ela se orgulhava disso, porque ela que tinha conseguido passar sem problema. Porque Pan Air lembrava exatamente o tempo de antes da ditadura. E foram os militares mesmo que acabaram com a Pan Air. Eles acabaram de uma maneira violentíssima. Chegaram no aeroporto e falaram: “Não, não pode sair mais”. E passaram tudo pra Varig, quer dizer, militar gaúcho… Uma história mal contada pra danar. O Milton parece que fez as duas músicas no mesmo dia, “Ponta de areia” e “Conversando no bar”. E eu também mandei pra ele no mesmo dia as duas letras. E até tem uma coisa engraçada sobre essa música. “Ponta de areia”, como era uma reportagem, eu de cara achei que estava boa. E “Conversando no bar” eu acho que estava tirando coisas tão de dentro de mim, que eu não sabia. Mas quando ele cantou pra mim, eu falei: “Pô, é isso mesmo”. E ele falou: “Não, de cara você não gostou muito não”.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da esquina: Avaliação

Até do negócio do Clube da Esquina eu participei muito, pois tinha reuniões aqui. Eu só não participei dos ensaios que eles fizeram em Mar Azul. Eu trabalhava e não dava pra ir. Mas aí a gente estava junto. E é uma coisa muito natural. Quer dizer, com a entrada do Lô. É uma coisa engraçada como ele entrou, porque ele era uns quatro anos mais novo que a gente. E nessa época, se você tem 20 e o outro tem 15, dá uma diferença danada. Aí de repente ele apareceu. Ele circulava pela casa, pelos lugares, até que um dia ele mostrou uma música pro Bituca, que é o negócio do Clube da Esquina e que o Marcinho fez a letra. Depois, um dia, o Lô mostrou uma música de “Lennon e McCartney” pra mim e pro Marcinho, e queria que nós dois fizéssemos. Nós dividimos a letra. A gente conversou o que seria e ele falou: “Não, porque eu gosto muito dos Beatles, mas eles nunca vão saber de mim”. É um negócio bem de menino mesmo e essa sacada é legal. Aí a maneira mais fácil pra fazer… porque o negócio de fazer um pedaço, outro, outro… quer dizer, a mesma coisa, ficava difícil. A gente dividiu, mas assinamos tudo. O conjunto era dos dois.
Quando o Bituca resolveu fazer o disco com o Lô – primeiro, estava lançando um rapazinho que ninguém conhecia, segundo, que ainda era álbum duplo –, até conseguiu isso da gravadora. E foi interessante, pois foi um compositor novo. Quer dizer, o Bituca impressionava a gente pelas músicas dele, sempre surpreenderam, e até hoje. Eu fiz umas duas agora pro disco dele, do Pietá. Ele me mostrou a música: “Porra, então está começando tudo outra vez”. É um negócio que é uma riqueza, uma coisa surpreendente. Então, além do Bituca, aparecia aquele sangue novo, aquela maneira diferente de compor. E foi uma coisa ótima. Houve muita relação também com os músicos, o pessoal ficou ensaiando muito. Aí é que o Beto entrou através do Lô, e os que já estavam, Robertinho Silva, Wagner, Luiz Alves… Quer dizer, eu participei o tempo todo. E assim, quando você está fazendo, é uma coisa muito espontânea. A gente gostava de estar fazendo aquilo e estava dando o recado da gente. Eu acho que é isso. E a soma dos vários recados eu acho que faz a coisa ser grande. É um fio só, são dois fios. O Amazonas também nasce assim. Tem uma música minha com o Tavinho que fala isso. Chama “Dois rios”, que é esse espetáculo.

E aos poucos fui descobrindo outros parceiros. Nelson Angelo, o Tavinho Moura… O Tavinho Moura também já deve ter muito tempo. Deve ser dessa época aí, porque eu já estava fazendo música pro Tavinho Moura. Depois Wagner Tiso, Novelli…

E eu fui tirando muitos temas também da natureza. “Canoa, canoa.” Era fruto do meu trabalho de leitura, de informação. “Canoa, canoa” é porque é um negócio dos Ianomâmi… Ianomâmi não, Avacanoeiros. O Tavinho que me contou essa história e eu fui procurar saber mais. O negócio deles é viver na canoa. A casa deles é a canoa. A melodia é impressionante. Quando veio, eu falei: “Não, isso só pode ser. Está batendo o remo”. É impressionante. Negócio de letrista é um negócio engraçado, porque quando a gente vai fazer a letra… Normalmente, se você ouve a música, aí você fica querendo saber o que aquela música quer dizer. O processo primeiro é esse. Até descobrir o que a gente chama o mote. Quando descobre, aí a gente faz fácil. Antigamente às vezes a gente tinha dificuldade, às vezes ficava muito tempo sem fazer, porque dependia muito da provocação do parceiro mandar música. Quando a gente ia pegar uma música, demorava. Eu me achava burro pra danar. Mas quando você acha qual é da música… O som da música tem muito a ver pra você achar as palavras pra caberem ali. É um processo mesmo de parceria. É um negócio interessante.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da esquina: Avaliação

Eu acho que o Clube foi uma coisa feita com uma coisa muito criativa e ao mesmo tempo feita com muita alegria e muito companheirismo. A gente estava querendo fazer uma coisa bonita. Até o Edu Lobo escreveu outro dia sobre um disco deles. Tem um monte de compositor, mas você não está preocupando em vender, você quer fazer uma coisa boa, boa pra você e pras pessoas que gostam de música também. Então, a preocupação da gente era essa: fazer uma coisa legal.

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Composições

“Maria, Maria”, por exemplo, é o que lançou O Corpo no Brasil e no mundo, e “O último trem”… Cria-se uma história e desenvolve-se, atualmente, cada vez mais, porque é uma maneira boa de fazer canções. Eu, por exemplo, há quatro anos, fiz com o Tavinho “Fogueira do Divino”, que é um musical. A gente fez em um mês. Eu escrevi um negócio e ele foi pondo a música. Algumas vezes ele tinha uma música, então na hora de escrever eu já fazia a letra ali. Em um mês nós fizemos 22 músicas. Aí é bom. Te dá uma vontade de fazer, que é ótimo. Você faz canções também, mas dentro de um contexto mais geral. Eu e o Tavinho, por exemplo, pro fim do ano já temos uma encomenda de fazer uma ópera popular, chama “Ó Deus, Salve o Oratório”. Já estou bolando as histórias pra a gente fazer. Eu gosto de fazer uma música e fazer uma canção é ótimo, mas pra me provocar mais, é bom ter essas grandes encomendas. É bom demais. (Risos)
Eu canto. Eu tenho um show com o Tavinho Moura. Gravamos um disco chamado “Conspiração dos poetas” e eu tenho achado ótimo, porque na realidade a minha aptidão era outra. Eu tenho um ouvido bom pra ouvir música e conseguir fazer as letras, mas o negócio de cantar… Porque a minha referência é o Bituca. Pro cara ser parceiro de um cara que canta daquele jeito, é um negócio meio danado. Até que num determinado momento, a gente estava em casa e ficava cantando e eu cheguei a conclusão: “Cantar é um direito humano”. Quer dizer, você tem o direito de cantar, você não precisa ser um cantor. E a gente começou a fazer essa coisa de mostrar a canção do jeito que ela é feita. Quer dizer, violão e voz. Então eu e o Tavinho fazemos isso desde 90. Já tem mais de 10 ou 12 anos. A gente fez um disco e agora vai fazer outro. Em alguns lugares, por exemplo, Brasília, a gente vai todo ano. A gente não tem um empresário pra arrumar um monte de show, mas a gente está querendo arrumar. A gente quer fazer uma coisa que seja agradável. Então cantar música é legal, é bom.
Essa não foi a primeira vez que eu cantei. O Bituca já tinha feito algumas sacanagens comigo. Por exemplo, lá no Rio, no começo, 67 mesmo, depois do festival, 68, lá no teatro Princesa Isabel, ele me chamou pro palco pra gente cantar junto “Travessia”. Aí, no meio, ele parou de cantar e eu tive que seguir. E fez isso várias vezes. Aí já fiquei meio assim… Agora, nesse negócio que eu faço com o Tavinho, está também uma sobrinha minha, Mariana Brant, que canta lindo. Então a gente faz três vozes e violão. Mas é isso:, eu acho que cantar é bom e um direito de todos.
Às vezes, quando eu componho – hoje não, mas antigamente eu ficava: “Será que está bom, se não está, tal”. Aí, só quando a pessoa grava e eu ouço, eu arrepio sim. Pra ter um julgamento mesmo, tem que dar um tempo, uma distância. Mas normalmente, quando eu vejo as músicas com o Milton, com todos eles, quando vejo gravada, aí é outra coisa. Arrepia sim.
Cinema… Junto com a literatura entrou o cinema. E eu fui ver os filmes italianos, franceses, filmes americanos… e discutia. Na época do Colégio Estadual, eu fiz parte de um cineclube que chamava Cineclube Santo Antônio. Eu participei lá um tempão. Esse Cineclube foi expulso pelo padre lá do Santo Antônio, porque ia passar acho que “Deus criou a mulher”, um filme da Brigitte Bardot, e ele mandou todo mundo embora. E aí, na mesma rua, o pessoal conseguiu um outro lugar, a União Israelita. Funcionou mais um tempo lá. E depois eu fui pro CEC, que é o Centro de Estudos Cinematográficos, que tem uma história enorme. Então eu fui conhecendo mais o pessoal que mexia com cinema aqui. Essa coisa de cinema e música, sempre fui apaixonado, tanto que eu adoro musicais.
O trabalho do “Tostão” foi bom. Uma das músicas do “Tostão” chama-se “O homem da sucursal.” Quando eu resolvi esse negócio da revista O Cruzeiro no Rio, da transferência pra Belo Horizonte, e vinha atravessando o túnel, eu já estava com essa… O Bituca já tinha feito as músicas e eu tinha que fazer as letras pro filme do “Tostão.” E quando eu vinha atravessando o túnel, já saía “O homem da sucursal”: (cantando) “Sai do trabalho/E volta para casa/não lembro de canseira maior”. (Risos)

TRABALHO
Atividades profissionais

O direito autoral é a base pra gente viver, os autores. E eu comecei a mexer nisso há muito tempo, porque eu percebi que a maioria dos autores, dos compositores, dos cantores, dos músicos, eles reclamam a esmo, sem saber exatamente o que é a coisa, e muitas vezes é argumento pra quem não quer pagar, pra quem não quer respeitar os direitos. Então, eu fui entrando nisso. Tanto que quando fizeram o Ministério da Cultura, em 85, tinha o Conselho Nacional do Direito Autoral, só que ou tinha gente das gravadoras ou das editoras ou juristas e autor não entrava lá. Aí houve uma mudança total. A maioria tornou-se de autores. Então fomos pra lá eu, o Gonzaguinha, a Joyce, o Capinan, o Maurício Tapajós, foi gente de literatura, de teatro, José Louzeiro… Ali eu comecei a entrar mais no negócio.
Depois eu fui pra uma sociedade, a AMAR , porque o governo militar queria estabelecer à força uma coisa que pra nós era uma coisa maravilhosa, uma coisa que a gente sempre lutou: que rádio e televisão pagassem um percentual de faturamento para direito autoral, que é o que acontece no mundo inteiro. Aí, o tal do Rubens Ludwig assinou e ia fazer a regulamentação. Nesse meio termo, as rádios e televisão devem ter feito algum acordo, porque eles desistiram. E com isso o pessoal foi pra uma nova sociedade,a nova AMAR. E eu fui mexendo com esse negócio de direito autoral.
E acabei agora na UBC, sou diretor. Eu, o Ronaldo Bastos e outros. Tem o Abel Silva, o Edmundo Souto, pra defender isso. Hoje eu posso dizer que entendo muito disso e eu consigo transmitir, escrever de uma maneira simples pra todo mundo entender. Converso com as pessoas, mas procuro não ser chato. E também desde que não atrapalhe de mais a minha vida também. Primeiro que eu não gosto de conversar só sobre isso, eu gosto de conversar sobre cultura em geral. É o que eu gosto. E amizade, amor, essas coisas que são boas. Mas tem um pedacinho lá que eu acho que é importante e que as pessoas que fazem isso são importantes porque estão defendendo uma coisa que é de todos. É um trabalho pra coletividade dos autores, e que nem sempre as pessoas se preocupam, acham que é chato, acham que é difícil. E saem reclamando em vez de tentar criar condições da coisa andar direito.

FAMÍLIA
Filhos

É o que há, a família. Sou ligadíssimo à minha família. Eu tenho duas filhas e agora eu crio um menino, desde um tempo. Então, quando nasceram minhas meninas, o pessoal: “E aí, como que é?”. Eu falei: “Isso aí é uma experiência intransferível”, porque não dá pra você passar, falar o que é isso. É um negócio louco. Eu acho que a partir do momento que filho nasce… É uma coisa tão dentro de você que você não pode nem imaginar não ter aquilo mais. É uma coisa muito forte. E você vai acompanhando. O tipo do meu trabalho, de ficar muito em casa – porque já estava mexendo mais com o negócio de música mesmo –, permite acompanhar muito o crescimento. E essa troca eu recebi. Eu acho que eu dei muito. Tenho dado ainda, mas o que eu recebi, pelo amor de Deus, eu melhorei cada vez mais. Essa troca de pai pra filho é uma coisa maravilhosa. Então é bom. Sou casado há 31 anos. Vai fazer 32. Tranqüilo.
Uma das minhas filhas casou agora, dia 8. A Ana Luiza. Arrumou um cara ótimo. Já tem outro filho, netos. E tem a Isabel. Uma tem 27, a outra tem 25. E esse menino, Diógenes, tem uma história bonita. Tinha uma moça que trabalhava lá em casa, a Tita, que é amiga da gente até hoje. E como a casa era grande, estava precisando de uma pessoa pra ajudar no negócio de limpeza. Então ela falou: “Tem uma moça aí que está com um menino de três meses. Tem problema?”. “Lógico que não.” Então foi pra morar lá, porque ela era mãe solteira. E esse menino chegou na minha casa com três meses de idade. E ficou lá. Sei que teve um momento que ele me chamava de pai e a Leise de mãe. E a gente foi convivendo ali e era uma coisa maravilhosa. Até que, quando ele tinha três anos, três anos e meio, a mãe dele resolveu casar na terra dela, Pains. Então foi uma choradeira, aquele negócio. Estava aquele baixo astral lá em casa e eu falei: “Olha, o negócio é o seguinte: o negócio é manter o contato. Então vamos pegar o carro, vamos lá visitar, conhecer a família dela”. Foi o que a gente fez. E acabamos sendo padrinhos do casamento dela, padrinhos da filha que ela teve desse primeiro casamento. E aí começou o seguinte: ele estudava lá, mas nas férias ele vinha pra cá. Ele vinha em janeiro e julho.
Foi uma coisa boa, mas começou a dar dois problemas: primeiro que na hora que ele ia embora, chorava que era uma desgraça, que pra levar era danado. E aqui ele tinha televisão, videocassete, depois joguinhos, computador. Quer dizer, ele começou a ter acesso a uma coisa aqui que lá… Quer dizer, aqui enriquecia e lá, nesse sentido, não. Mas ele, lá no segundo ano de grupo, virou pra mim e falou assim: “Tio, quando eu acabasse o grupo, eu queria vir pra cá”. Eu falei: “Olha, tudo bem, se você quiser. Você fala com a sua mãe, se sua mãe quiser, tudo bem”. E quando ele completou o quarto ano, eu estava levando ele e no meio do caminho ele falou: “Tio, eu estou querendo vir pra cá”. “Agora você fala com a sua mãe. Fala com ela pra me ligar.” E ela telefonou e foi tudo bem. “Então vamos fazer legalmente, vamos fazer judicialmente.” Fizemos os documentos lá na cidade, depois entramos aqui na justiça pra fazer guarda legal, judicial e está indo. E é uma maravilha. Que dizer, eles sempre se trataram como irmãos, os três. E é um acréscimo. É uma maravilha de pessoa. Mas é bom demais. (Risos)

FAMÍLIA
Casamento

Eu conheci a Leise quando eu trabalhava no juizado de menores. Eu a conheci mais ou menos na mesma época em que eu conheci o Milton. Tanto que nesse show do Milton que eu fui assistir, o Opinião, a gente estava junto. E aí foi um negócio que foi acontecendo, foi acontecendo. A gente é tão companheiro, tão amigo… sustentação total. É uma parceria que deu certo, a da vida. Demais. Sou um cara de sorte.

FORMAÇÃO MUSICAL
Projetos futuros

Está saindo muita gente boa de Belo Horizonte. Hoje tem muito mais gente fazendo do que na nossa época e tem muita gente fazendo coisa boa. É uma dificuldade enorme o negócio de divulgação, de gravação. Tem que fazer independente. Tanto que a gente está querendo se unir pra ser um guarda-chuva pra essas pessoas, pra esse pessoal novo aí. Eu tenho ouvido coisas maravilhosas de um pessoal. A música brasileira, a música mineira está muito viva. Tem muita gente fazendo coisa boa, mas, infelizmente, no rádio, na televisão, e nas gravadoras, eles estão fazendo pouco.

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Clube da esquina

Achei uma coisa maravilhosa essa iniciativa de se criar o Museu Clube da Esquina. Primeiro, o Márcio até mandou um texto, que é o sonho que ele teve. Eu achei o sonho e as palavras dele maravilhosas. E realmente é uma coisa que está agregando muito a gente. Eu tenho tido menos tempo pra entrar nas coisas mesmo, mas eu estou acompanhando, estou me informando. E eu fico ouvindo de várias e várias pessoas, de vários meios: “Pô, mas que coisa boa”. Pois, na realidade, Belo Horizonte está abraçando essa coisa do museu. E eu acho que o museu conta uma história importante de uma geração da cidade, que pode ajudar a alimentar novas gerações que estão surgindo. Eu acho que tem que dar certo.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

É engraçado, porque eu falo de uma coisa que não tinha ainda. Eu estava imaginando… “Memória de tanta espera.” Quer dizer: (recitando) “Teu corpo crescendo, salta do chão/Eu já vejo meu corpo descer”. É um encontro futuro de um filho que eu não tinha ainda. E teve um negócio engraçado, que aí rolou um caso de censura. Foi censurado, porque falava assim: “Brasil é o país do futuro/Meus filhos, meus netos, o futuro está aqui.” Tinha outros pedaços. Falavam que não podia, que era censurado porque “Brasil é o país do futuro” era o slogan da campanha do governo Médici, de um deles. Tinha o “Ame-o ou deixe-o” e tinha “O Brasil é o país do futuro”. “Bom, tudo bem, vou mudar.” Eu mudei, falando a mesma coisa, eu acho que piorando, e passou. Eu falei assim: “Queria falar de uma terra comprada no norte e vinhos no sul/A praia era suja, e o vinho vermelho, vermelho, secou/Acabou a festa, guardo voz e o violão/Ou sai por aí, raspando as cores para o mofo aparecer”. Era exatamente o milagre brasileiro. Eles estavam colorindo tudo, mas você tinha que raspar, que de baixo era mofo. E isso passou.
“Saídas e Bandeiras” é coisa bem de política. “O que você faria pra sair dessa maré?”. Uma saída política, outra saída amorosa e a outra é de juntar as forças de todo mundo pra tentar sair. Eu não estou lembrando a letra toda assim não, mas é isso.
“Canções e momentos”, o ofício de compor e de cantar. Na realidade, eu fiz muito pensando mesmo no Milton. Eu falei que todo mundo pode cantar, mas no caso dele… Que é essa experiência de acompanhar tanto ele fazendo shows no Brasil e no mundo. E é exatamente o mistério da voz dele e de outros cantores. Tem momentos que – pelas conversas que eu tive já tive com ele, com outros – o negócio vem de dentro da alma. E aí o povo entende direitinho.

MÚSICAS
“Travessia”

(cantando) “Quando você foi embora/ Fez-se noite em meu viver/Forte eu sou, mas não tem jeito/Hoje eu tenho que chorar/Minha casa não é minha/E nem é meu este lugar/Estou só/E não resisto/Muito tenho pra falar.” A bebida de ontem, a cervejada que eu tomei ontem, está… “Solto a voz nas estradas/Já não quero parar/Meu caminho é de pedra/Como posso sonhar?/Sonho feito de brisa/Vento vem terminar/Vou fechar o meu pranto/Vou querer me matar/Vou seguindo…”

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