Fernando Oly

| | |

« « Retornar a página anterior

Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, local e data de nascimento

Eu me chamo José Fernando de Oliveira. Nasci em Formiga em sete de janeiro de 1949.

FAMÍLIA
Nome e descrição da atividade dos pais

O meu pai é Antônio Alves de Oliveira e minha mãe Terezinha Alves de Oliveira. Minha mãe trabalhava em serviço público e meu pai, na década de 60, tinha uma banca lá no Mercado Central, vendia sementes. Foi numa época em que o mercado nem coberto era. E eu me divertia lá no banquinho dele, naquela época, no começo dos anos 60, era muito divertido. Por isso que eu sou fã do mercado até hoje. Qualquer folguinha, vou lá pro mercado passear, comprar queijo, azeitona e doce.

Voltar ao topo CIDADES

Belo Horizonte

Eu vim para Belo Horizonte muito novo, com um ano e meio. E aí fui morar na Rua da Bahia, perto da Igreja de Lourdes. Depois fui morar no Barro Preto. Foi aí que eu comecei com a música, no Barro Preto. Eu morei lá de quatro aos 19 anos.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Influências

A música da minha infância, primeiro foi a que meu pai ouvia. Meu pai tocava violão também, e gostava de Jacob do Bandolim, Dilermando Reis, dobrados, aquelas bandas, acho que é Fuzileiros Navais do Rio de Janeiro – que era lindo, tinha até gaita de fole –, e eu passei a gostar. Eu vibrava com isso. E ele tinha cada disco naquela vitrolinha pequenininha. Ele tinha um disco que eu adorava: era do Jacob do Bandolim tocando valsas brasileiras. E depois eu fui, na década de 60, pro rock. Desde o começo eu gostava muito de um cantor americano que se chamava Ricky Nelson. Eu achava que ele cantava bonito, tinha umas baladas bonitas. Depois foi o Elvis e, depois, é aquela onda inglesa de música. E também tinha música brasileira, boleros na época. As rádios tocavam coisas maravilhosas, músicas clássicas e grandes orquestras. Aquilo era muito rico, musicalmente falando. Eu cresci no meio disso tudo. E depois fui tocar, eu comecei a tocar violino. É porque é divertido demais, um menino de seis, sete anos tocar violino. Você imagina o som que saía. E tinha uma revista em quadrinhos, tinha o Bolinha, tocava violino. Ele tirava um som que era uma taquara rachada, como a gente chamava. Eu tirava um som mais ou menos assim – era horrível. Eu não gostei muito do instrumento. Acho que não era também um instrumento indicado pra criança. Depois fui tocar acordeom, e aprendi lendo partituras, tudo. Depois esqueci tudo, como se lê partitura. Meu pai tinha um violão. Eu pegava o violão dele, começava. Não sabia tocar violão, aí pegava o violão, deitava o violão assim e tocava com esse dedão. Ele ria de mim: “Você nunca vai tocar violão, com o dedão deitado e tal”. Aí eu falei assim: “Eu tenho que tocar isso, é legal demais”. Comecei a ver as outras pessoas tocarem, os violonistas, aquelas pessoas do interior tocando viola, e comecei a aprender uns acordes assim. Daí a umas três semanas ele passou na sala, eu já estava com o violão em pé, fazendo acorde assim. Ele disse: “Uai, mudou aí alguma coisa”. E aí esse foi o começo.

Voltar ao topo LOCALIDADES BELO HORIZONTE

Bairro Barro Preto

Eu morava no Barro Preto. Era um bairro maluco de tudo na época, era um mundo em si mesmo. Hoje está muito descaracterizado, está com aquela… Hoje o que tem mais lá são aquelas confecções, aquelas coisas, e a coisa está muito descaracterizada. Mas o Barro Preto foi pra mim uma experiência muito interessante. Era um bairro de todas as classes sociais, econômicas; de várias etnias e tudo. E eu convivi com esse pessoal todo, então, aprendi a ver essa variedade do ser humano. E a gente era muito unido, brincava demais jogando futebol, pelada demais, e cantava na esquina com o violão. Lá também tinha um clube da esquina.

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação musical

Na década de 60 tinha a turma lá do Barro Preto, quando eu formei a minha primeira banda, naquela época a gente falava banda. Banda hoje é uma coisa mais moderna, hoje a pessoa: “Oh, vou formar uma banda”. Lá a gente fazia era conjunto, não é? E aí formei um grupo lá, e tinha o pessoal da Floresta e do Santa Tereza, tinha vários lugares que tinham músicos começando a tocar. E eu, depois, com 15 anos, 14 anos, eu tocava profissionalmente de segunda a segunda, em Belo Horizonte, já ganhando o meu dinheirinho e tal. Então a gente tinha os boliches, começaram a fazer boliches em Belo Horizonte e os boliches promoviam shows assim. Eram shows produzidos. E nós saímos em caravana aí pelo interior com o ônibus cheio de todos os artistas. Tinha Clara Nunes, a turma do regional, o pessoal do rock, a turma do bolero. Ia todo mundo junto no ônibus e era uma farra, era muito divertido, sabe? E isso, com 15 anos eu já saía de casa, só aparecia em casa de madrugada.
O nome desse conjunto era engraçado, porque nós fomos tocar num lugar, não tinha nome. Aí alguém lembrou de um nome de uma série que passava na televisão, de um golfinho. Alguém perguntou assim: “Como é que chama o conjunto?” Ele falou: “The Flippers”. Era um golfinho que tinha. Foi na hora, não tivemos tempo nem de discutir o nome. Ficou conhecido assim. E na Floresta tinha o Jungle Cats, tinha, ih, vários grupos. Inclusive nessa época o Beto e o Lô, eles tinham 13, essa idade mais ou menos. Depois eles me falaram que me viam tocar. A gente tocava pra todo lado. Nós tínhamos um programa de televisão toda quinta feira. A gente gravava, já tinha videotape, e aí a gente assistia em casa. Então a gente era famosinho na cidade.

FORMAÇÃO MUSICAL
Primeiras composições

Hoje eu estava vindo pra cá para o estúdio e com essa possibilidade da internet e de música, eu estava ouvindo coisas dessa época, que eu comecei a tocar, que era um grupo instrumental de surf music, uma coisa muito interessante, uns músicos excelentes. Eles estão até hoje aí tocando, eles têm 70 e tantos anos e estão tocando surf music ainda. Era um grupo que chamava The Ventures. Eu estava escutando, vindo no carro pra chegar aqui, estou ouvindo essas coisas. Ajuda a gente a lembrar essa época. Foi uma época assim muito alegre, muito divertida. E aí comecei a tirar música, aquele solo, aquelas coisas. E depois, com o advento de Beatles e um grupo que eu gostava muito, que chamava The Byrds, que tinha o Roger McGuinn que tocava uma Rickenbacker, que é uma guitarra elétrica de 12 cordas, que eu apaixonei com a guitarra. Depois que me apaixonei pela guitarra eu levei uns 15 anos pra comprar uma. Não tinha dinheiro para comprar, naquela época instrumento era caríssimo, e era difícil de comprar, só tinha nos Estados Unidos. Arrumei uma grana e comprei a guitarra. Mas em 68, 67, eu já comecei a compor, já tinha bastante coisa. E, daí, fui estudar, parei um pouco. Fiquei um tempão com isso, depois teve aquela, mais uma coisa falsa, uma coisa ilusória do país, aquela política, que eu nunca entendi muito bem como funciona política, nem gostaria de saber também. Mas o slogan daquela época era assim, era… Como é que é? “O Brasil grande”, alguma coisa assim, e que tinha que desenvolver. Então, as profissões mais valorizadas era a dos engenheiros, dos médicos, e a família lá, família pobre: “Ah, você tem que estudar”. E eu fiz lá um curso. Aí eu fiz vestibular pra engenharia. Fiquei lá uns dois anos, não agüentei muito a barra não. Apesar de gostar, não era por dificuldade não, mas eu acho que a música já estava batendo mais alto. Fui fazer arquitetura. Eu falei: “Deve ter alguma coisa mais suave, assim”. Gostei, mas no terceiro ano teve um fato meio definitivo. As pessoas subindo pra ir pra aula e eu sentado na escada, escrevendo. Aí o professor, e todo mundo que passava: “Você não vai à aula, e tal?” Eu falei: “Não, eu estou fazendo uma letra de música aqui, que eu fiz uma música ontem e enquanto eu não acabar isso eu não sossego. Então eu não vou pra aula”. Acabei parando também a arquitetura, e fui tocar mesmo. Já é ano 74, 75. Formei uma banda aqui em Belo Horizonte, chamava-se Arca de Noé, que teve uma formação muito interessante. Era uma banda assim bem sofisticada. Aí. eu já tinha música. Nessa época eu fazia quatro músicas por semana, com letra e tudo. Então era uma, como diz aqui em Minas Gerais, era uma cachoeira sem torneira, entendeu? E aí fizemos vários shows. A formação da banda era interessantíssima; só músicos, hoje, conhecidíssimos por aí. Era o Paulinho Carvalho, o Neném; o Mauro Rodrigues flautista, Mário Castelo, o saudoso Mário Castelo; e o Jerdson no baixo, um amigo desde a infância. E nisso aí nós fizemos grandes shows, grandes eventos em Belo Horizonte.

Voltar ao topo FESTIVAIS

Festivais

Eu participei de festival uma vez só na minha vida, porque nunca gostei de competir, ainda mais com música. Eu não consigo competir. Eu acho que é o tipo da coisa que não cabe a competição, entendeu? Então eu nunca me senti bem com esse tipo de coisa. Eu falei assim: “Eu não quero ganhar de ninguém, mas também não quero perder. Então é melhor eu não entrar nesse negócio”. Então eu nunca entrei em festival, essas coisas. Nunca me agradou. Eu queria fazer música, e isso aí é uma coisa cultural. E eu sempre senti que fazer música, depois de conhecer a história da música, fui conhecendo aos poucos os grandes compositores da história da música como um Bach, um Haendel, um Ravel, Debussy. Eu morreria de vergonha se eu não fizesse alguma coisa de valor de música porque eu tinha que fazer alguma coisa de qualidade em homenagem, um tributo a esses grandes compositores que nos deram essa base e tudo, e depois aqui em Minas com o Milton, com o Lô, com o Beto, Tavinho e outros grandes compositores. Eu olhava pra essa turma e falava assim: “Eu não posso ser um músico a mais, fazer uma música a mais.” Então, eu até desenvolvi uma característica meio própria de executar as coisas, de compor e tal.

PESSOAS
Milton Nascimento e Lô Borges

Quando eu conheci o Milton no Rio, na gravação do disco do Lô, Via Láctea, eu estava num apartamento com uns amigos no Rio, no Leblon e eu falei pra eles: “Olha, o Lô vem aqui com o Bituca pra me pegar pra gente ir conversar lá na casa do Lô”. Eles falaram assim: “Bituca que você está falando é o Milton?” Eu falei: “É, o Milton”. Aí a casa toda saiu lá pra varanda do apartamento pra ver o Milton chegar com o Lô. O Milton tinha uma Brasília azul, morava acho que na Barra. E aí o pessoal ficou encantado: “Olha, o Milton chegou mesmo”. E aí o Lô me apresentou. Quando o Lô me apresentou pro Bituca, o Bituca falou assim: “Pô, esse que é o Fernando que você está falando? Eu já conheço ele há muito tempo. Já vi ele na televisão lá em Belo Horizonte, já vi ele lá demais.” Então foi assim que a gente se conheceu. Quer dizer, na verdade eu fui conhecer melhor o Lô já em 77, 78, e melhor ainda quando ele me convidou pra eu fazer parte da banda e construir com ele um trabalho, nessa época o Lô ia voltar a tocar. Ele tinha gravado aquele disco do Tênis, um disco incrível, e não tinha gravado mais. Então o Lô ia voltar a gravar na produção do Milton e tal, e ele me convidou pra tocar. Eu já tinha o meu trabalho, já estava gravando o meu disco. E foi uma oportunidade interessantíssima, um compositor igual ao Lô, que tem assim uma característica que eu gosto muito, que é um compositor assim valente em termos musicais. As músicas, as composições, canções dele têm sempre uma parte harmônica, uma diferença, um diferencial que é muito legal. Então eu acho o Lô muito interessante em termos musicais. É uma pessoa que tem uma contribuição muito bonita. Depois eu conheci a turma toda do Clube, viajamos por aí. Foi uma experiência muito legal.
Tinha uma coisa fantástica que se perdeu hoje, que era assim: a pessoa se revelava pelo próprio talento. Mais cedo ou mais tarde esse talento era reconhecido, ainda mais aquela pessoa de uma origem humilde com uma voz extraordinária. É evidente que não era pra passar despercebido aquilo. Então, aquilo representou muito pra mim, de ver que a arte, a música superava tudo. E eu bebi aquilo muito. E via aqueles festivais todos, mas nunca quis entrar em nenhum. Eu ficava meio constrangido com aquele negócio de competitividade.

Voltar ao topo DISCOS

Clube da Esquina – 1972

Quando eu ouvi o álbum Clube da Esquina, vi essa contribuição cultural mesmo, e é uma coisa mineira muito profunda, essa coisa andou se fragmentando aí no tempo, que foi uma… O mineiro começou a valorizar as coisas de fora em detrimento das coisas que ele mesmo produziu, que são coisas originalíssimas, que só existem aqui. Isso, em termos de harmonia, de melodia, e o próprio espírito das músicas. Nós temos uma herança musical muito interessante em Minas Gerais. Então foi, eu acho, uma obra riquíssima, e foi determinante pra música de Minas Gerais. E, ao contrário de hoje, que o espírito dessas coisas está definhando muito. E eu acho que o mineiro tem mais característica de nhambu do que de pavão, entendeu? Então o pavão é muito vistoso, não sei o que lá, mas o nhambu é mais carinhoso, mais discreto, ele canta bonito pra danar, e faz as coisas lindas. Então, pelo fato da gente ser mais parecido com o nhambu, a nossa música requer um pouco mais de cultura musical, uma sensibilidade, um clima diferente, uma coisa mais sonhadora, mais misteriosa. E eu estou vendo a gente fazendo esse trabalho que vocês estão fazendo, e eu fazendo um depoimento disso. Eu estou lembrando aqui de um filme do Truffaut, baseado num livro do Ray Bradbury, que é um escritor de ficção científica norte-americano. É um escritor de ficção científica mas ele é um poeta da ficção científica. Ele escreveu um livro, que depois foi feito um filme, chamava Fahrenheit 451. Nesse livro a decadência daquele regime autoritário, as pessoas mandaram queimar livros. E existiam umas pessoas que sabiam daquela coisa preciosa que é a coisa da cultura, que isso é a base de uma civilização. Uma civilização sem cultura não consegue se realizar, ela se destrói. E então eu vejo mais ou menos a gente fazendo isso aqui agora, da gente informar as pessoas mais novas sobre as riquezas que eles podem buscar hoje, a hora que quiserem. No esquema lá do filme, do livro, era um pouco diferente, era um regime autoritário. Mas hoje existe um autoritarismo, eu acho até pior porque ele é mascarado de novidade, tanto que é uma coisa assim ligada a uma mídia massacrante, uma escravidão total pelas coisas da mídia, uma pressa em fazer tudo. Isso é a pior escravidão que tem porque, se a gente não tiver um sossego pra viver, um tempo interior assim mais relaxado… Tudo se faz às pressas, não é? E aí nós vemos a nossa sociedade de pavões. Todo mundo faz assim com as penas e tenta mostrar uma imagem, quando na verdade é preferível ficar escondidinho na moita cantando lindamente, como o caso do nhambu. Eu voltei! (Risos)

Voltar ao topo MÚSICAS

Chuva na Montanha

Eu tinha um estudiozinho precário, mas quebrava um galho danado, na minha casa perto do Alto dos Pinheiros. Eu peguei a garagem, revesti, eu e o Jerdson, que tocava contrabaixo, revestimos aquilo e tal. E na preparação dos ensaios pra gravação do Via Láctea o Lô até ficou lá em casa uns tempos pra gente poder concentrar, e o resto dos músicos iam lá pra gente ensaiar. E quando começou, eu estava esperando eles para ensaiar e comecei, e fiz “Chuva na Montanha”. Apareceu uma harmonia e melodia e eu subi assim e fiz a letra. Quando o Lô chegou, aí eu falei assim: “Puxa, pintou uma música aqui interessante, vê se você gosta e tal”. Aí mostrei a música pra ele. Acabou a música, ele falou assim: “Está no disco”. Não teve nem… Ele falou assim: “Não tem jeito, essa daí eu vou gravar”. E foi muito legal pra mim. Quer dizer, a música também já nasceu com o espírito dessa coisa que a gente estava fazendo. Quero dizer, era um disco que tinha o Lô Borges. E a inspiração, eu tenho muito dessas coisas. Às vezes eu estou tocando ou compondo alguma coisa e chega uma pessoa e eu começo a fazer alguma coisa que tenha a ver com aquela pessoa, com a vibração dela. Eu acho que isso aconteceu, eu fiz uma coisa dentro daquele espírito que estava ali presente, aquela animação de fazer um disco bonito, uma coisa espontânea. E até hoje eu escuto o disco. Quando eu escuto o Via Láctea eu vejo presente essa energia. A energia que tem no disco é fantástica. E quando eu comecei a tocar a tal da guitarra de 12 com o Lô, nós gostamos muito de tocar um com o outro porque, a gente viu que tínhamos muita afinidade harmônica. Então era gostoso tocar junto. O Lô é um cara que sabe harmonia e gosta de fazer coisas ousadas. Eu também gosto dessa coisa. Então, deu certo demais. Além do disco fizemos shows, inclusive uns shows bem bonitos e tal. Quem me fez o convite para tocar na banda do Lô foi o Paulinho Carvalho, que entrou em contato com o Lô. O Lô convidou o Paulinho pra tocar e o Paulinho falou: “Ah, podia chamar o Fernando também e tal”. Foi assim, foi através do Paulinho Carvalho. E aí fiquei muito amigo do Lô. O Lô é uma pessoa que eu gosto muito, um amigo que eu admiro muito, uma pessoa muito leal, muito inteligente, e nossa convivência foi muito boa.

Voltar ao topo CLUBE DA ESQUINA

avaliação

O Clube da Esquina é um movimento musical. Agora, diferentemente dos outros que ocorreram aqui no Brasil, ele tem aquela marca mineira. Então, ele precisa sim de, talvez tenha mais a ver, mais uma vez, com essa coisa que nós estamos aqui desfrutando, que é a coisa… Quem busca uma pedra preciosa, quem busca riqueza, tem que garimpar. Então o acervo do Clube da Esquina, e todas as pessoas participaram, émuito rico. Isso tem que estar à disposição dos novos, dos músicos que estão iniciando, pra eles terem uma fonte de cultura. Agora, na verdade, com aquela característica dos outros movimentos que já estavam lá no Rio, São Paulo, nessa época a coisa era muito diferente. Nós aqui em Belo Horizonte, nós não tínhamos projeção. Não adiantava ficar por aqui. Você podia fazer a coisa mais incrível do mundo que você não tinha projeção. E, evidentemente, os outros movimentos tinham toda cobertura da mídia em São Paulo e no Rio. Então, contando com esse fator e mais a característica do mineiro de ser mais discreto e tal, ele não teve repercussão nesse aspecto da mídia, mas em termos musicais eu acho dos mais ricos. E no Rio tinha aquela turma do Jobim, do Edu Lobo; e em São Paulo aquele movimento da Jovem Guarda com a Rita Lee, Mutantes e tal, e tinha os baianos. E os baianos sempre foram ótimos marqueteiros – até hoje são. Como esse movimento estava mais presente na mídia os mineiros passaram, mais uma vez, a achar que as coisas de fora seriam interessantes e que as pessoas enriqueciam com aquilo e eram transformadas em celebridades e tal. Então esse espírito do mineiro prevalece, ele vai prevalecer, mas ele precisa de um pouco mais de calma, de bom ouvido, de cultura, de bom gosto.

Voltar ao topo TRABALHOS

Discos

Depois que eu tinha falado com o Lô: “Eu tenho um trabalho pra fazer”. Eu fiz com ele um tempo e depois saí da banda e fiz o meu disco, que chamava Tempo pra Tudo, eu lancei em 81. Esse disco ia ser lançado pela Odeon também, que a Odeon se interessou. O Marcinho Ferreira, que era empresário do Bituca na época, levou e a Odeon topou lançar o disco, fazer um contrato comigo. Mas nessa época a indústria fonográfica já estava entrando em decadência e aí não foi possível fazer. Então eu lancei independente. Foi um dos primeiros discos independentes que foram lançados aqui. Teve uma ótima repercussão nas rádios; as rádios toparam tocar e tal. E depois eu dei um tempo mesmo, acho que ficou muito difícil de eu continuar em Belo Horizonte vivendo a vida que eu gostava, e aí eu falei: “Sabe de uma coisa, eu vou recolher um pouco”. Recolhi muitos anos, mas não deixei de compor nem de tocar. Em 2002 eu lancei um outro disco, chamou Caminho Azul, que aí eu fiz novas coisas. A minha idéia era de fazer um disco duplo, de tanta música que eu tinha, porque esses anos todos recolhido, compondo, tinha aquela enxurrada de música. Mas eu acho que depois, em termos comerciais, era meio inviável você fazer um disco independente duplo – porque tinha vários ambientes musicais. Eu queria colocar um pouco de cada coisa. Mas foi assim, e agora eu estou fazendo, agora eu tenho um sítio lá, que eu gosto muito de ir lá, ficar lá. Fiz um estudiozinho lá num quarto e fico delirando com as músicas. Aquele silêncio, ouvindo o nhambu e outros passarinhos, e a música fica mágica, a música soa mágica naquele silêncio. É isso que eu tenho feito. Se eu vou fazer mais um disco ou se eu vou tocar, nem eu sei. Não sei, não tenho essa coisa de: “Eu tenho que fazer”. A vida vai rolando e eu vou desfrutando ela no presente. Hoje em dia eu estou mais no presente, acho que a situação está um pouco complicada pra gente fazer alguma coisa, as pessoas não param mais. Eu acho que elas estão vivendo um momento assim de correrias, não sei pra que, nunca entendi isso direito. E como isso não combina com a minha música, com as coisas que eu gosto, então eu fico na minha. O prazer que eu tenho pra tocar pra duas pessoas interessadas é o mesmo que eu tenho de tocar pra 15 mil.

Voltar ao topo PESSOAS 2

Mário Castelo, Telo Borges, Lô Borges e Milton Nascimento

Ah, essas viagens com a banda do Lô renderam muitos casos. Você vê que na época nós tínhamos companheiros de quarto. O meu companheiro de quarto era o Mário Castelo, Telo Borges, e essas pessoas são engraçadíssimas. E nós viajávamos assim, e você tinha dor de barriga de rir. Às vezes a gente entrava no carro pra viajar pelo interior de São Paulo, era trocadilho um atrás do outro e dava dor de barriga de rir.
Tem um caso engraçado dessa época, é o caso da Tuíque. Nós estávamos lá ensaiando, cheio de fios pra todo lado, e a Tuíque – que era uma cachorrinha pretinha –, adorava ir pra lá. E ela começava a pisar nos fios ali, e eu ficava com medo dela desligar as coisas. Então um dia eu fui lá pra cima, combinei com ela, falei: “Tuíque, você pode ir lá, não vou falar que você não pode, mas você tem que ter cuidado onde você pisa, entendeu?” E fomos ensaiar lá, aí vinha a Tuíque e começou a enrolar nos fios. Aí eu virei e falei assim: “Tuíque, o quê que nós combinamos!?” (risos). Aí o Lô chorou de rir, a turma: “Uahhh”. Contaram isso pro Bituca, aí o Bituca só ligava pra mim assim: “Fernando, tudo bem, né? O quê que nós combinamos?” Isso virou uma gozação. E o Bituca também gostava muito de uma brincadeira que eu fazia, que era o som de um cachorrão que tinha lá perto de casa, um cachorro enorme assim, que eu falava assim: “Pô, o cachorro de noitão ficava lá latindo assim: “Vão ver vovó, vão? Vão ver vovó, vão?” (risos). Ele ria. Ligava pra mim, falava assim: “Vão ver vovó, vão?” (risos). Essas brincadeiras assim, e o negócio era divertido. Agora, o Mário Castelo era aquela figura amorosa, tenho a maior saudade dele. Escuto ele tocar bateria nos nossos discos, é uma saudade. O Mário era super engraçado. O Telo Borges espirituoso demais, Paulinho nem se fala, o Lô também, e eu. Era uma banda assim de gaiato mesmo. Nós só ficávamos mais sérios quando a gente estava no palco. Tirou isso, era uma gozação. Então era muito divertido, e até hoje a gente encontra. Se a gente senta numa mesa, é a mesma coisa, é muito divertido. Viramos verdadeiras crianças.

Voltar ao topo MUSEU

Clube da Esquina

Puxa, eu acho essa idéia do Museu ótima. Igual te falei, eu me sinto assim… Primeiro que é um grupo que admiro demais pela beleza das coisas, pelo lirismo das letras das músicas. Isso é coisa bonita, é coisa que o mundo precisa. Se nós tivermos um arquivo não só aqui, mas em outro lugar, da existência ou da criação, as coisas bonitas que a humanidade fez pudessem ser registradas, e eu acredito que sejam registradas, um arquivo misterioso aí na criação, é evidente que o Clube da Esquina está lá. É aquilo que fala do girassol, é da menina bonita, é do amor, é das montanhas, é das chuvas, é da comida, sabe? Essa coisa é nossa vida, é isso aí que nos torna originais, um povo legal, divertido, que tem uma língua até própria, não é isso? E, poxa, então é uma maravilha isso, esse acervo, das pessoas poderem acessar, hoje, no mundo inteiro. Isso ainda vai, as pessoas ainda vão ver o que foi feito, e essas músicas que não envelhecem nunca. O Marcinho escreveu: “Os sonhos não envelhecem”. Nós até ficamos aí de cabelinho branco e tal, mas os sonhos realmente não envelhecem não, desde que a gente os realize, entendeu? O sonho, você tem que manter o sonho e ir realizando, e deixar acontecer a beleza. Um dia essa humanidade, que está numa fase tão feia, onde a vida não é valorizada, onde as pessoas querem aparecer de qualquer jeito, mesmo que seja no sentido negativo, isso é uma beleza, essa poesia. Mesmo quando ela fala da morte, como até na música do Milton, “Travessia”. “Travessia” é uma letra assim, às vezes meio pesada e tal, fala da morte ou da tristeza mas é lírico. Isso ajuda a gente a passar pelas nossas angústias, pelas tristezas, de uma forma artística, e isso é a coisa melhor que tem. Então esse acervo aí é incrível, a idéia do Marcinho é linda, de fazer o museu. Ele está fazendo uma coisa de beleza e isso é muito legal, eu acho, e o que eu puder ajudar estou aí. Pra mim é um museu vivo, cheio de vida.

Fale na Esquina

Uma mensagem para Fernando Oly

  1. Mario da Silva disse:

    Puxa vida! Quando eu tinha uns 19 anos (hoje, 42), ganhei da Simone, uma grande amiga, uma fita com as músicas do Fernando Oly de um lado. Do outro, Ednardo. Eu ficava ouvindo aquilo prá tudo quanto é lado. Depois, perdi a fita depois de ter emprestado pra uma namorada ou um amigo, não lembro bem. Hoje, mais de vinte anos depois, descobri no site do Fernando aquelas mesmas músicas que não lembrava todas, mas retornaram a minha memória e me emocionaram muito.
    Obrigado, Fernando. Pela sua genialidade, pelo coração grande, aberto pra música e pras coisas simples da vida, como nos dispormos pra ter “tempo pra tudo”…
    Valeu!