Flávio Henrique

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome local e data de nascimento

Flávio Henrique Alves de Oliveira. Eu nasci em Belo Horizonte, em 20 de julho de 1968.

Família
Pais

Cícero Alves de Oliveira, Delza Cecília Alves de Oliveira.

Família
Mãe

A minha mãe é formada em música, no conservatório. É professora de música. Ela foi minha professora, dava aula de música no colégio em que eu estudava, o Pandiá Calógeras, em Belo Horizonte. Ela exerceu a profissão de música até quando eu tinha uns 10 anos de idade. Curiosamente, foi depois que ela largou a música que eu comecei a minha carreira. Ela era professora de música de grupo, tinha coral, bandinha. Ela sempre trabalhava a parte da música nas festas. Quando era Dia das Mães, o coral preparava aquele repertório especial e ensaiava com as crianças. E nessa época, era diferente a educação, ainda existia música na escola, acho que hoje em dia não existe essa aula. Tinha uma aula de música por semana, e a música fazia parte, estava sempre na semana da pátria, na semana do índio, eu me lembro bem, sempre tinha um evento musical qualquer nas festas. Era época da ditadura, da moral e cívica, mas de uma coisa eu sinto falta: de hastear bandeira. Era uma coisa legal e acho que hoje em dia faz falta; essa coisa foi cortada de uma maneira abrupta. Eu tenho a impressão de que a educação era melhor. Eu estudava em uma boa escola pública daqui de Belo Horizonte. A minha mãe dava aula e a lembrança é que era um padrão de educação muito bom por ser uma escola pública, comparado com o que a gente vê na televisão hoje em dia.

Voltar ao topo DISCO

Toninho Horta

Nós estávamos aqui falando do Clube da Esquina, e tem uma história muito curiosa. A minha mãe, quando parou de dar aula de música, foi trabalhar na Secretaria do Planejamento e ela coincidentemente trabalhava com a dona Geralda, mãe do Toninho Horta, uma senhora um pouco mais velha que ela, mas que ela gostava – ela ainda gosta muito da dona Geralda. Eu tinha uns 11, 12 anos. Ela voltou pra casa depois de um amigo oculto com um disco do Toninho Horta. A dona Geralda levou um disco do filho dela para ser sorteado e o disco caiu na mão da minha mãe, e ela chegou em casa e me deu esse disco. Eu tinha uma ligação totalmente intuitiva com a música, não tocava nenhum instrumento até então, e esse disco era um disco branco do Toninho Horta, gravado em 1984. Eu tinha exatamente 12 anos e gostei desse disco, achei uma coisa completamente diferente do que eu estava acostumado, dos discos que tinha na minha casa assim, era um disco diferente. E eu gostei da música dentro dele, músicas difíceis, complexas. Eu até estive com o Toninho Horta esta semana e contei essa história pra ele. E eu não tinha tido contato ainda com a música do Clube da Esquina, do Lô Borges, do Beto Guedes, mal e mal do Milton – na minha casa tinha um disco do Milton chamado “Caçador de Mim”. E esse disco branco do Toninho Horta foi a primeira coisa com essa cara forte daqui de Belo Horizonte que chegou e eu gostei de cara. Engraçado que era uma música difícil.

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Iniciação Musical

A partir daí, o meu irmão arranjou um violão. Minha mãe tinha muitos instrumentos pela casa, que estavam meio escondidos porque ela tinha largado a música, e quando meu irmão começou, chegaram alguns instrumentos de família que estavam dentro dos armários, um acordeom, um cavaquinho do meu avô e um piano da minha mãe que estava na casa do meu avô – não sei por que razão esse piano tinha ficado lá. Aí quando meu irmão manifestou interesse, os instrumentos foram chegando lá em casa. E eu sou autodidata, com um ano que os instrumentos estavam na minha casa, acho que eu já tocava todos, tocava um pouco de piano, de cavaquinho, de violão. Isso com uns 14 anos mais ou menos. E foi uma coisa forte mesmo na minha vida, foi até difícil eu terminar aquele curso da escola normal, tive até certa dificuldade porque desde essa época eu tinha um interesse pela música, ele era maior do que tudo.

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Robertinho Brant

Quando eu tinha 16 anos, aconteceu uma coisa que eu acho que foi fundamental na minha carreira. Eu fui colega de colégio do Robertinho Brant, sobrinho do Fernando, e foi com ele que eu comecei realmente. A gente se atreveu a tocar em festivais e montamos uma banda. Isso foi uma coisa muito importante de fato, porque eu já tinha vindo da experiência desse disco do Toninho Horta, gostava da coisa, e o Robertinho era um cara que na casa dele tinha tudo. O pai dele, o Roberto, tinha uma discoteca maravilhosa, tinha todos os discos do Lô Borges, todos os discos do Beto Guedes assinados, autografados, Milton Nascimento nem se fala. Milton Nascimento passava por lá eventualmente com o Fernando. Era a casa do Fernando ali na Rua Grão Pará. Eu freqüentei muito porque o Robertinho morava na Pampulha e ele ficava muito na casa da avó dele, aqui na Rua Grão Pará, onde o Fernando estava sempre. E onde estava o Fernando, passava todo mundo, passava o Murilo Antunes, passavam vários músicos. E eu estava ali adolescente, 16 anos, vendo aquelas coisas acontecerem. E tinha a Cervejaria Brasil logo embaixo, aonde todo mundo ia, e eu fiquei encantado com esse universo. De repente, a música tomou essa dimensão, de ser uma coisa possível também, porque eu via aquelas pessoas de quem eu gostava, eu via que elas existiam e que elas estavam andando por ali. Isso deu certa proximidade e essa discoteca na casa do Roberto Brant foi muito importante, porque nessa idade eu estava conhecendo não só a música brasileira. Ele gostava muito de Chet Baker, Ella Fitzgerald, Claus Ogerman, os maiores arranjadores, Miles Davis, ele tinha tudo. Saía um disco novo do Wayne Shorter, tinha na casa do Roberto. Ele realmente é um apreciador de música e o Robertinho é um grande ouvidor de música. E eu ainda não tinha nem como colocar para fora essa carga musical toda que eu recebi nessa época. Eu acho que ela chegou numa hora até interessante porque eu ainda não tocava o suficiente para entender essa música toda. E alguns anos mais tarde, quando eu fiz 23, 24 anos, e já era músico profissional, nunca tinha composto uma música e de repente, do dia pra noite, eu comecei a fazer músicas e estou fazendo sem parar. Já tem uns 15 anos que eu estou nessa carreira de compositor e a impressão que eu tenho é que até hoje muito do que eu faço vem dessa época, desse bombardeio musical, dessa década, do fim da década de 80 e início da década de 90, que eu recebi quando conheci o Robertinho na casa do Roberto Brant.

Formação Musical
Influências

Apesar da minha música não ser estritamente, intimamente ligada ao Clube da Esquina como continuação, a presença é muito forte no ambiente, é muito forte e é muito verdadeiro, porque realmente eu convivi muito de perto, mas com uma geração depois. Hoje em dia, eu fico à vontade com o fato de ter parcerias com o Fernando Brant no meu disco novo, com o Murilo Antunes, com o Márcio Borges, porque, apesar de existir uma diferença de geração, eu sinto que é uma coisa verdadeira porque eu conheço tudo o que eles fizeram. E de certa forma eles viram a minha carreira crescer também. Então é diferente quando eu faço uma música com Paulo César Pinheiro ou com outros compositores que eu admiro muito, mas com quem não tive essa proximidade – não conheço tão bem a obra deles e eles também não me conhecem. Com o Fernando, Márcio, Ronaldo, Murilo, Telo Borges, os meus parceiros do Clube da Esquina mais constantes, a nossa relação musical é familiar, de certa forma, porque toda essa relação passou pelo Robertinho Brant, que era o meu colega de sala.

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avaliação

Eu estou vindo agora da participação no Festival da TV Cultura, em São Paulo. Eu tenho tido a sorte de, nos últimos seis, sete anos, estar sempre em determinados concursos e eventos nacionais representando a música mineira da minha geração. E eu tenho observado o seguinte: a maior importância do Clube da Esquina é essa questão da identidade musical com Belo Horizonte. É uma coisa muito forte, a gente chega num concurso desses e se uma pessoa nunca me viu e me vê passando som, o cara imediatamente fala: “Aquele cara é mineiro”. Pelo meu violão, pela seqüência de acordes que eu faço, as pessoas já me identificam rapidamente. Porque eu acho que são várias as influências, o violão, o jeito de harmonizar, que é o maior chavão, o maior lugar-comum, mas além de ser um lugar-comum é a maior verdade, um jeito de harmonizar que partiu do Milton Nascimento, do Toninho Horta, do Wagner Tiso. Primeiro eu vou falar dessa coisa musical poética, a coisa musical é a que me vem primeiro e é uma herança sensacional que eles deixaram para minha geração. Eu sinto que até hoje os músicos da minha idade de São Paulo são mais perdidos, não têm essa referência regional bacana que a gente tem. São Paulo está buscando a identidade musical deles até hoje. A Lira Paulistana foi uma coisa importante lá, que foi forte, mas é uma linguagem que o Brasil não comprou, ela ficou na intelectualidade paulista, ficou na cabeça de certa elite. E o Clube da Esquina foi uma coisa que, querendo ou não, teve um caráter nacional, o Brasil inteiro conhece um clássico do Lô Borges, do Beto Guedes, do Milton Nascimento. Ele é cantado no Brasil inteiro e isso foi feito de uma maneira muito despretensiosa. Eu acho a poética do Clube da Esquina despretensiosa, sem essa coisa de “somos os melhores, somos os incríveis”, e foi uma coisa que colou, que marcou a identidade da gente. Hoje em dia, é uma referência legal você saber que aqui não existe esse glamour todo da música que tem no Rio de Janeiro e em São Paulo. A gente tem bons artistas que foram reconhecidos pelo talento deles, não por estarem aparecendo toda hora na revista, no jornal. E isso é muito bom, são trabalhos consistentes, a consistência de um Toninho Horta, a consistência da obra de um cara como o Fernando Brant… São pessoas que ganharam o mundo. O Toninho Horta hoje em dia é um músico conhecido no mundo inteiro pelo violão que ele toca. Não interessa onde ele apareceu, onde ele saiu, se a foto dele apareceu na revista Caras ou não, ele se resolve, se sustenta sozinho com o conhecimento dele. E eu acho que isso é uma cultura da música e a música mineira é feita muito em cima do conhecimento, de uma autocrítica forte; aqui ninguém publica as coisas sem ter certeza que é realmente uma coisa bacana, profunda. A música mineira tem uma profundidade inexplicável – claro que com toda a humildade – com essa coisa profunda que vem de um Guimarães Rosa, de um Carlos Drummond de Andrade. Claro que eu estou citando dois gênios, mas é porque, na verdade, isso passa por uma autocrítica muito forte e a vontade de estar mostrando um trabalho sempre consistente. Eu acho que o Clube da Esquina nunca é superficial. Eu acho que é um movimento. Eu não consigo entender isso tão bem quanto eles, mas é uma coisa engraçada. Por exemplo, eu, que vim depois e que, de certa forma, mantenho um laço musical com praticamente todos eles, sou amigo do Milton, já tive música gravada por ele, sou parceiro dos letristas todos, com todos eles eu tenho pelo menos uma música, eu não consigo imaginar muito como que era essa relação deles na época. A gente fica sabendo através do livro, do Márcio Borges e das histórias todas, mas independentemente dessas relações, eu acho que é um movimento musical sim. Historicamente, depois da Bossa Nova, o Clube da Esquina e o Tropicalismo foram os movimentos mais importantes, que deram fôlego para a música brasileira chegar à década de 80 como uma música forte, com uma identidade cultural brasileira bacana. Depois, com esse advento da grande mídia, do rock nacional, que é claro que é uma manifestação superlegítima e verdadeira também, mas o Brasil sofreu uma mudança com esse movimento sertanejo e do rock, uma mudança muito grande para o lado ruim, uma massificação muito grande de tudo. Eu acho muito legal ver as conexões desses movimentos musicais com o contexto da época. Eu vejo um Clube da Esquina muito vinculado, na sua poética, com a ditadura, mas de um jeito muito mineiro de ser. Eu acho muito interessante quando a gente começa a descobrir tudo o que aquelas letras queriam dizer, é interessante. E eu era muito criança nessa época da ditadura aqui em Belo Horizonte, mas eu me lembro da maneira como eles estavam protestando. E não era aquela maneira direta, existia certo medo, mas as letras também têm uma ironia muito grande, uma forma muito inteligente de se esconder da censura, da repressão. E ao mesmo tempo eles nunca pararam, nunca deixaram de criticar. E com essa carga dos Beatles grande. Aliás, voltando àquela pergunta lá atrás, uma das razões do movimento musical do Clube da Esquina ser mais popular do que outros que aconteceram no Brasil, como a Lira Paulistana em São Paulo, foi essa influência dos Beatles, porque eles tinham uma ligação muito grande com os Beatles. E a gente que é músico consegue ver esse lado dos Beatles muito bem muito claro. Eu acho que ele fez com que as canções fossem mais populares, com que as canções ficassem mais na cabeça das pessoas, do que propriamente só aquele exercício intelectual da letra. É uma junção que deu um caráter a mais, ajudou esse movimento a se expandir. Não é à toa que as gravadoras, a EMI Odeon, queriam artistas como um Lô Borges, um Beto Guedes, na época em que eram hit makers, que eram influenciados pelo Paul McCartney, pelo John Lennon, que era a melhor influência na época e até hoje é. Hoje em dia, aqui em Belo Horizonte eu brinco que a minha profissão do futuro vai ser curador. Hoje em dia, eu estou sendo curador de tudo. Eu estou vendo a nova geração porque eu participo de grandes projetos de descoberta de novos talentos. E está legal, porque a gente vê que essa geração, que hoje está com 20 anos, já cresceu com o impacto da musica dos anos 90, o Skank, o Jota Quest, o Pato Fu, que é outro movimento musical. Mas é engraçado que a mineiridade permanece com aquilo que eu falei antes, uma música elaborada, de autocrítica. É engraçado, aqui em Belo Horizonte, em Minas Gerais, as pessoas parece que pensam duas vezes antes de publicar as coisas. Existe uma responsabilidade musical interessante e eu acho que isso é uma herança. Apesar de ter muita gente que contesta o Clube da Esquina. O Clube da Esquina já foi atacado várias vezes nos jornais numa época aqui em Belo Horizonte, na década de 90. Mesmo quando apareceu o Skank, eu brincava que existia um release que os jornalistas usavam muito: todas as matérias começavam do mesmo jeito: “Nem só de Clube da Esquina vive Belo Horizonte”. Aí começavam a falar: tem o Sepultura, tem não sei o que mais. É impressionante o tanto que essa frase foi repetida: “Nem só de Clube da Esquina vive Belo Horizonte”. E é engraçado que foi igual ao que esse governo que está passando aí. O Lula teve que ter uma fase de contestação violenta. Para as pessoas entenderem que pode ter o Clube da Esquina, pode ter o Skank, pode ter o Jota Quest, que tudo que chega de novo na música numa cidade vai contribuir, vai abrir portas para todo mundo. Uma geração não pode meter o pé na porta da outra, porque isso não leva ninguém a nada. Então, hoje em dia, eu estou achando legal, porque quando você tem uma conexão, como o Lô Borges com o Samuel Rosa e eu mesmo fazendo coisas hoje em dia com o Telo, Marina Machado, Milton Nascimento, é a prova de que a música vai passando e essas mudanças ou continuações têm que ser feitas, ninguém precisa ditar, contestar, jogar pedra e nem exigir. Eu cansei de ver pessoas exigindo do Milt
on que ele faça discos geniais a cada dois anos. De jeito nenhum. Com que o Milton Nascimento fez na década de 70, ele já vai pro céu, ele não precisa fazer mais nada. A contribuição musical de Márcio Borges, Beto Guedes, Lô Borges, Milton Nascimento é enorme e eles não precisariam estar fazendo mais nada e mesmo assim estão fazendo. A gente já está no bônus, Já é generoso da parte deles ainda estarem fazendo, criando. O Milton Nascimento faz um disco como “Pietá” e lança de uma vez só Maria Rita, Marina Machado, vários compositores amigos como Elder Costa, eu, Flávio Henrique, Chico Amaral, e 35 anos depois do Clube da Esquina. Depois que ele lançou o Lô Borges, ele continua sendo generoso, continua sendo esse cara assim. O Milton Nascimento, na minha opinião, tem uma consciência imensa dentro daquele silêncio dele, porque ele é uma pessoa que não fala muito, mas tem uma consciência tremenda de tudo isso que aconteceu na música, de quem ele ajudou. Porque aconteceu de ele entender o valor da música que eu faço hoje em dia, e realmente ela passou por isso tudo. E pensar que são 35 anos, pensar que tem gente até hoje desenvolvendo uma estética que começou ali…

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Grupo Candeia

A gente tinha um conjunto que chamava Grupo Candeia, que era muito interessante. Eu acho legal falar dele. É uma coisa rara, esse grupo foi criado em 1983 e sobreviveu até 1985. Eram sete músicos, jovens iniciantes, e desse grupo, quatro músicos se profissionalizaram, eu, Robertinho Brant, André Queiroz, que é o grande baterista hoje em dia de Belo Horizonte da geração dele, e Sérgio Silva, que é um percussionista que toca com todo mundo. É uma média muito alta, mais de 50% do grupo se profissionalizou e acho que uma dessas razões foi que a gente teve, naquela época, a chance de conhecer as pessoas.

Pessoas
Murilo Antunes

Teve uma coisa muito importante que eu esqueci de falar. Por volta dos anos 90, eu conheci o Murilo Antunes. O Murilo Antunes foi do Clube da Esquina, e foi o meu primeiro parceiro. Ele começou a fazer música comigo, foi um cara muito generoso, que estreitou muito a minha relação com o Clube e fez questão de me aproximar do Márcio Borges, mas dessa vez aproximar como parceiro, não como um adolescente que está vendo que tudo existe, aprendendo – aproximar agora dando valor. “Façam música com esse cara porque vale a pena.” O Murilo foi muito importante nessa hora em que ele me aproximou do Fernando Brant, do Tavinho Moura, do Flavio Venturini, principalmente do Marcinho e do Ronaldo Bastos. Ele me deu uma apadrinhada muito importante, foi muito generoso e com o Murilo eu conheci um outro lado, porque ele estava cheio de conexões também com outras pessoas, com outra órbita do Clube da Esquina que não mora aqui em Belo Horizonte, Cláudio Nucci, Nathan Marques, Nelson Ângelo, que estava morando no Rio. Pouca gente estava tendo contato com o Nelsinho, que foi um cara muito importante pra mim também, mas o Murilo sempre esteve.

Disco
Baile das Pulgas

Eu queria falar também, pra gente terminar isso, sobre quando eu comecei a dirigir o disco “Baile das Pulgas”, com a Marina Machado. Esse disco foi feito em 1999 e acho que foi um marco em Belo Horizonte. Hoje em dia, ele está completando seis anos e eu estou impressionado de ver como esse disco influenciou as pessoas que estavam começando naquela época. Foi mesmo um marco da produção independente aqui em Belo Horizonte. Foi um disco produzido por mim e pelo Chico Amaral. E ele tem um resgate sensacional da época de 1972, que é uma música chamada “Baile das Pulgas”, do Lúcio Tadeu, que é primo do Toninho Horta. Eu tenho o orgulho de falar que a gente quis fazer nesse disco essa junção. A gente queria um pouco virar aquela página dessa rinha que existia entre os jornalistas e o meio do rock de Belo Horizonte, que veio do Jota Quest. O Chico Amaral era um cara vindo do Skank e eu, com toda essa carga minha de Clube da Esquina, nós dois, amigos, nos respeitando pra caramba, com a Marina, que sempre foi o grande talento da geração dela, nós três nos unimos pra fazer um disco que mostrasse pra todo mundo como é possível, como esse rock do Skank também tem a ver com o Clube da Esquina, como tudo é uma grande coisa. Porque o Skank e o Pato Fu têm essa bacana comunicação de massa forte, que é uma coisa necessária. Eu acho que o Clube da Esquina nunca foi coisa elitista, teve essa comunicação grande. E esse disco “Baile das Pulgas” mescla tudo que a gente tem. O disco abre com uma música do Márcio Borges e do Beto Guedes, mas tocada como deveria ser tocada em 1999. Ela não é nem um pouco saudosista, ela tem coisa de música eletrônica, ela é uma levada nova que acrescenta, colabora muito. A gente gravou essa música do Fernando Brant, do Lúcio Tadeu, que fala das pulgas do cine Pathé. E a gente ambientou muito esse disco como um grande pacto estético. Não é nem político, é um pacto estético entre o Clube da Esquina e a geração do rock. E eu vou te contar que esse disco deu bastante certo. Não é um disco meu, é um disco da Marina, pertence a ela, mas eu viajo muito, e em todos os lugares aonde eu vou vejo que as pessoas souberam entender esse disco – a primeira presença de uma mulher no Clube da Esquina. O Milton Nascimento não conhecia a Marina ainda. E quando esse disco foi lançado, essa proposta estética ficou muito clara. Hoje em dia, apesar de ter passado pouco tempo – nós estamos em 2005 e esse disco foi lançado em 1999 –, ele esteticamente resume muito bem tudo o que eu estou querendo falar aqui da importância dos movimentos e da consistência da música mineira que está passando acima de tudo, acima de todos os altos e baixos e críticas e jornalistas e preconceitos.

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Clube da Esquina

Eu acho que isso é de uma lucidez impressionante. Que vai ao encontro do Márcio Borges. Não é à toa que eu tenho orgulho de ser parceiro e fã dele, porque ele está fazendo a coisa de maneira inteligente e lúcida demais, cuidando dessa memória para não deixar que outros o façam sem a propriedade dele. E ele é um cara genial que tem uma memória sensacional, essa visão cinematográfica da coisa, daquele livro dele. Eu ainda não tive a oportunidade de ver todo esse material que está sendo feito, mas eu tenho certeza de que o fato de que essa memória está sendo resgatada sobre essa ótica – além dos profissionais excelentes que estão envolvidos na coisa –, com essa coordenação de quem viveu o movimento e está zelando pela verdade, vai transformar este projeto numa referência daqui pra frente.

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