Flávio Venturini

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, data e local de nascimento

Meu nome é Flavio Hugo Venturini. Eu nasci em Belo Horizonte em 23 de julho de 1949.

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Pais

Meu pai é Hugo Venturini e minha mãe, Dalila Viera Venturini.
Não era uma família exatamente de músicos não. Eu me lembro que a minha mãe gostava muito de música e cantava muito pra mim, isso é uma das coisas que eu me lembro na infância. Ela sempre falava de alguma canção que ela gostava, e cantava. Se ela estava ali trabalhando, estava cantando. O meu pai já não era tão ligado em música, gostava, mas da maneira dele. Estava sempre no trabalho, não ficava muito em casa não.
Minha mãe cantava as músicas dos cantores brasileiros, Chico Alves, Nelson Gonçalves, Carmen Miranda, esses grandes cantores do passado. Ela sempre saía com alguma canção que ela cantava. Coisas mineiras, as modinhas mineiras, ela tinha esse acervo na cabeça, ela estava sempre cantando alguma canção.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Lembranças da Infância

Tinha aquelas radiolas antigas lá na minha casa, que tinha um som bom demais, aquelas que tinham um falante pro chão, em baixo, e eu me lembro de uns discos… Me lembro de um disco de Chopin que eu particularmente adorava, que tinha “Polonaise Militar”, tinha um disco de Schumann, e lembro de um disco de Luiz Gonzaga pelo qual eu era apaixonado, era um disco de canções do Luiz Gonzaga, tinha uns discos de tango, Trio Irakitan, bolero. Mais tarde, eu me lembro também de um disco de bossa nova. Foi a primeira coisa moderna que eu me lembro de ter visto na música brasileira, foi uma coisa tão diferente. Era do Ronaldo Bôscoli, se não me engano, tinha “Lobo Bobo”, era uma das que eu gostava. Mas eu tinha essa relação com rádio, um dos primeiros presentes que a minha mãe me deu foi um rádio. Eu me lembro que eu andava com esse rádio para tudo quanto era lugar. Viajava, levava o rádio. Era um rádio portátil já, era muito moderno para época, um radio portátil desse tamanho (risos), umas pilhas imensas, mas eu ouvia aquilo o dia inteiro. Me lembro de uma canção do Moacyr Franco, “Suave é a Noite”, que eu adorava, Rita Pavone, Johnny Mathew cantando “Tonight”, que era uma coisa que eu chorava. Toda vez que eu ouvia essa música eu chorava, não sei por quê, me dava uma coisa louca, eu saía correndo pela rua quando eu ouvia “Tonight”. Outro dia fui ouvir a gravação, não senti nada, falei: “Hum, que engraçado”. Achei bonita, mas isso é coisa de infância, a gente descobrindo a música mesmo. Isso eu devia ter dez, 12 anos.

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Beatles

Mas aí veio a primeira grande coisa da música que me amarrou mesmo: os Beatles. Eu tinha já toda essa informação de criança, de canções que gravitavam em torno da minha cabeça e tudo, mas quando eu ouvi uma música dos Beatles eu pirei mesmo. Eu acho que foi a primeira vez que eu senti que eu podia ser feliz (risos). Eu sempre descrevo assim a primeira vez que eu ouvi uma canção dos Beatles e era aquele compacto que fez sucesso com “All wanna hold your hand” de um lado e “She loves you” do outro. E aí eu comecei a ir atrás dos discos. Foi uma coisa muito forte mesmo a coisa dos Beatles. E começaram a entrar – como hoje, os estrangeiros entram muito no Brasil – várias bandas de rock da época, dos anos 60, e eu comecei a ouvir tudo aquilo misturando com essas coisas que eu ouvia aqui. Eu ia muito para o interior, eu ia muito para Bambuí, que é a terra dos meus pais, e aí eu comecei a ouvir muito música, comecei a comprar discos. Eu me lembro que uma coisa que eu adorava era Tropicália. Eu fui mais ligado na Tropicália do que na bossa nova – acho que eu descobri mais a bossa nova quando eu mudei para o Rio de Janeiro, muitos anos mais tarde. E eu gostava muito, tinha os discos do Caetano, do Gil, dos Mutantes. E essa coisa toda dos Beatles eu acho que foi o que me levou para música. Tinha aquele sonho de um dia tocar em algum grupo, alguma banda, sei lá.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Iniciação Musical

Até que um dia eu comecei a tocar em baile. Eu também queria ser jogador de futebol na época e jogava bola o dia inteiro. Comecei a estudar à noite para jogar bola durante o dia. Aí sentou atrás de mim um amigo, um grande amigo até hoje, um ator aqui de Belo Horizonte, chamado Kimura e ele tocava uma gaitinha. Tinha um piano no corredor da escola e a gente, nos intervalos, ficava ali fazendo um som. Eu tinha começado a estudar piano um pouquinho, tinha ganhado um acordeom. Meu primeiro instrumento tinha sido um acordeom que a minha mãe me deu, que foi a minha iniciação com a teoria musical, porque eu tinha aulas e tudo. Meu pai tinha um restaurante e nesse restaurante tinha um piano, tinha som à noite, tocava um trio, piano bar mesmo. Eu ia para lá de tarde e começava a tocar. Engraçado que eu tinha aquelas revistinhas do Beatles, porque eu era fã mesmo, daqueles de comprar revistinha de fofoca, “Paul McCartney está namorando não sei quem” (risos), aquelas coisas, e vinham umas letras dos Beatles. Só que não saíam os discos originais no Brasil, sempre eles faziam umas coletâneas, demorou para a discografia dos Beatles sair inteira no Brasil. Então tinha umas músicas que eu não conhecia, não tinha a melodia e estava ali a letra, aí eu fazia uma melodia para aquelas letras que eu não conhecia. Hoje eu vejo que já era uma veia do compositor, porque como eu não tinha canção, eu inventava.
Eu tinha uns 15, 16, e quando meu pai viu que eu ficava ali tocando a tarde inteira, ele me deu esse piano. Eu comecei a estudar piano, entrei na Fundação de Educação Artística aqui em Belo Horizonte e abriu um mundo novo para mim. Não só a coisa da teoria, mas também de conhecer outros músicos. Inclusive, Toninho Horta fazia parte da turma de teoria musical. E aí eu comecei a ir aos festivais, porque a Fundação de Educação Artística promovia os festivais de inverno da época. Foi uma época maravilhosa para todos os músicos que puderam fazer os cursos e freqüentar o festivais de inverno dessa época.

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Festival de Inverno de Ouro Preto

Fim dos 60 para começo dos 70. E eu lembro que, no primeiro Festival de Inverno que eu fiz, tive aula com Rogério Duprat, de cara, e na primeira aula ele colocou o Yes (risos). Aquilo ali para a gente, que era muito novo e estava começando, era informação atrás de informação. Ali eu tive aula com Walter Smetak – que foi um grande bruxo, músico fantástico, criador de instrumentos que influenciou muito o grupo Uakti –, com Ernest Widmer – que é um grande maestro suíço que trabalhava com a Escola de Música da Bahia, uma escola muito importante na época – e com Bruno Kiefer, um mestre da harmonia, e ali eu fui conhecendo muitos músicos. Nesse meio-tempo, rolavam os festivais de música. Eu continuava tocando em baile, tinha largado o futebol e resolvido que eu queria ser músico. Primeiro, eu estava tocando em conjunto de baile, aquela história que eu comecei a contar do Kimura, que eu saí por uma outra via. Dali, eu entrei no conjunto de baile que ele tocava. A gente tocava em bailezinhos em Belo Horizonte, em hora dançante, e quando eu saí do exercito, eu entrei num outro grupo de baile também.

INFÂNCIA
Lembranças de Infância

Eu nasci ali perto da Praça Sete, atrás do Cine Brasil, onde é hoje o Banco de Londres, não sei. A minha mãe tinha uma pensão, mamãe sempre mexeu com isso, trabalhou com pensão, meu pai tinha restaurante, minha mãe tinha hotel, pensão, essas coisas. Mas a minha infância mesmo foi passada ali na esquina de Rua Tupis com Rio de Janeiro, atrás da Igreja São José. Minha mãe tinha uma pensão ali de 80 quartos, que tinha um quintal imenso que era meio o meu mundo. Eu vivia muito ali naquele quintal e adorava pular muro para roubar jambo do vizinho e brincar com a garotada. Uma coisa legal que tinha nessa pensão era cinema. Eu me lembro que ela tinha um paredão atrás e a gente às vezes tinha sessão de cinema. O pessoal projetava filmes ali e é uma primeira relação com a arte. Eu lembro que eu gostava muito. Tinha muito essa coisa de cinema na rua na época. Eu lembro que eu ia muito à Praça Raul Soares ver cinema ao ar livre, tinha muito naquela época. Tinha um lugar ali, onde é um outro mercado que não o Mercado Municipal, que era depósito onde se guardavam os bondes da cidade. E, naquela avenida, eles colocavam um telão e passavam cinema também e era uma coisa que eu gostava muito. Mas era uma vida muito de brincadeiras, depois é que eu comecei mesmo a sair mais de casa. Eu era um garoto muito caseiro.

FAMÍLA
Irmãos

Eu tenho só mais um irmão com a minha mãe, o Cláudio, que é oito anos mais novo do que eu, o Cláudio nasceu em 1958. Mas meu pai tinha sido casado antes. Ele ficou viúvo e casou com a minha mãe, então ele tinha quatro outros filhos, mas que já não moravam com a gente. O mais novo, que é o Antonio, morou um tempo. O Antonio, inclusive, me deu meu primeiro violão, eu me lembro que foi uma outra primeira relação com a música. O Antonio talvez seja o único irmão da família que eu me lembro que tinha alguma relação com a música. Não era violonista, mas ele gostava de ter um violão e tocava e acabou me dando esse violão também.

INFÂNCIA
Brincadeiras de Criança

Eu sempre gostei de futebol, gostava de bater bola, essas coisas. Cinema, gostava muito de cinema. Eu morava ali perto, na época era Cine Tupi, na Rua Rio de Janeiro com Tupis, do lado do Cine Tupi, então eu ia muito a cinema, muito desenho animado, era uma coisa que eu gostava. E aquela coisa de escola. Eu sempre fui um garoto muito tímido, muito quieto, muito no meu canto e acho que tem a ver um pouco com a introspecção que me levou para a música. Futebol foi uma descoberta mesmo na minha vida, porque acho que me libertou um pouco de ficar em casa. Eu tinha uma irmã que morava no Padre Eustáquio e eu ia pra lá e passava o dia inteiro jogando bola. Tinha os campos de várzea, campo do Cruzeiro do Sul, do Paulistano e eu tinha já a minha turma. Eu tinha um sobrinho, que na verdade era como se fosse irmão, porque ele tinha um ano a menos que eu, que era o Gilson. A gente jogava bola o dia inteiro. Ele foi o meu companheiro de ouvir Beatles também, quando a gente descobriu os Beatles.

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Bambuí

Eu mesmo comprava os discos. Tinha uma loja na Rua Espírito Santo, eu não me lembro o nome mais, tipo um grande magazine onde a gente sempre encontrava os discos dos Beatles. Gostava às vezes de sair para pescar também. Tinha uns amigos que iam muito aqui para o Rio Paraopeba pescar e era uma coisa que me divertia também. Eu sempre gostei muito de mato, essa coisa, eu sou um garoto de cidade, mas que sempre adorou ir pro mato. Como a minha família é de Bambuí, eu ia muito para Bambuí. Minha mãe não tinha muito tempo porque cuidava da pensão e ela deixava eu ir com sete anos. Eu pegava um trem na estação de Belo Horizonte, ali na Central mesmo, e ia para Bambuí. Chegava lá às cinco da madrugada, sozinho com minha mala. Só não gostava muito de passar perto do cemitério que tinha, eu morria de medo, eu passava de olho fechado pelo cemitério, para não ver. Coisa de criança mesmo.

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação Musical

Eu me lembro que sempre tinha uma relação carinhosa com os hóspedes. Tinha um hóspede que era um grande maestro de Belo Horizonte – eu não vou me lembrar o nome dele, infelizmente. Ele tinha um piano no quarto e minha mãe falava que, eu com quatro, cinco anos, ela me pegava às vezes dormindo com o ouvido na porta do quarto dele, eu ficava ali ouvindo musica até dormir. Ele ficava estudando, tocando, e eu já gostava de música.

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Alberto da Veiga Guignard

Engraçado que o Guignard morou nessa pensão da minha mãe e eu me lembro dele, me lembro que ele me retratou garoto, e nos deu esse quadro, que sumiu com o tempo. Esse quadro está perdido no mundo. Ele se chamava “O Menino do Terninho”, eu estou de terninho azul-marinho e ele ficava me dando bombons, balas pra ficar quietinho lá e ele me retratar (risos).

Voltar ao topo EDUCAÇÃO

Nome das Escolas

Eu estudei, deixa eu me lembrar, no Grupo Olegário Maciel. Estudei ali no grupo, depois eu estudei no João XXIII, estudei também no Paulo VI, um outro colégio aqui mais no Centro, e por último, quando eu já estava jogando bola e eu fui estudar à noite, no Anchieta. E daí tinha aquela coisa, eu estava meio com medo de pegar exército e começaram a me falar: “Você vai pagar exército pesado”. Aí eu falei: “Vou fazer o curso para o CPOR, que eu não vou passar mesmo”, mas passei (risos). Aí fiz o CPOR, que foi legal também pra mim, porque lá eu conheci o Vermelho, que foi um grande parceiro na minha vida. A gente concorreu para fazer o hino do CPOR e ele conseguiu fazer a letra, porque eu não consegui (risos), e o hino do CPOR até hoje é dele. Logo que eu saí do exército ele bateu um dia na minha casa e disse: “E aí, você é o aspirante Hugo?”. Era tenente na época (risos). “Eu sou Castro Moreira, vamos fazer música?” Ele veio até morar com a gente no tempo, ele é de Barbacena. Foi um parceiro que me ajudou muito a entrar na coisa da música mineira e é aí que a gente descobriu os festivais.

PESSOAS
Vermelho

O Vermelho tinha uma formação muito clássica, ele estudou em colégio de padres alemães que ouviam muito barroco, muito clássico. Ele me trouxe uma informação de música erudita muito legal, me ajudou a sair. Uma influência grande que eu tenho na minha música é a influência da música barroca. Acho que ele foi importante e como primeiro parceiro também. A gente acabou mais tarde fazendo o 14 Bis. A gente descobriu os festivais, a minha primeira música em parceria com ele se chama “Espaço Branco” e a gente ficou em primeiro lugar no Festival de Música Estudantil. A música foi defendida pelo grupo O Terço na época e aí já é uma outra vertente na minha vida.
Nosso encontro aconteceu no exército, mas a gente já se conhecia de vista. Depois que ele soube que eu trabalhava com música, que eu tocava em grupos de baile e tudo, aí ele bateu na minha casa e a gente começou a trocar idéias, cada um com uma informação, e foi um encontro muito importante na minha vida, musicalmente.

EDUCAÇÃO
CPOR

Eu só fiz um estágio que se fazia para ser promovido a tenente, mas eu não tinha nenhuma intenção de seguir carreira militar. Só acho que foi uma coisa legal porque eu era um garoto muito fechado e o exército te joga em um mundo real. E também foi bom porque tinha muito esporte. Como eu fazia artilharia, a gente viajava para acampar aqui perto de Belo Horizonte, em Água Limpa. Eu gostava um pouco daquilo, fiz muitos amigos, amigos que eu tenho até hoje, foi legal.

FORMAÇÃO MUSICAL
Primeiras Apresentações

Quando eu saí do exército, eu toquei em uma banda de baile que se chamava Os Turbulentos, que já era uma das melhores de Belo Horizonte. Concorria com uma outra chamada Gárgulas – na época era uma rivalidade danada – e a gente tocava nos melhores bailes da cidade. E ali eu cantava de tudo: música internacional, música brasileira, cantava muito Beatles. Eu cantava e tocava órgão. Mas logo, logo eu fiz uma outra banda com o Vermelho. Eu já tinha conhecido o Vermelho e a gente começou a compor e a descobrir o outro lado da música.

Voltar ao topo FESTIVAIS 2

Festival Estudantil da Canção

Teve um festival em Belo Horizonte que eu considero importantíssimo, não só pra mim como também para todos esses compositores que participaram. Ele se chamava Festival Estudantil da Canção. Eu também não me lembro o ano exato, acho que foi 1970. Esse festival foi na antiga Secretaria de Saúde, hoje Minas Centro. E nesse festival, só pra se ter uma idéia, tinha Milton Nascimento e Márcio Borges com “Clube da Esquina 1”, que não foi classificada (risos), Toninho Horta com duas músicas, uma era “Liana”, eu acho, eram duas músicas muito lindas, tinha Túlio Mourão, com “Refrackters”, Tavinho Moura com “Como Vai Minha Aldeia”, Lô Borges e Beto Guedes juntos cantando “Equatorial”, que pra mim foi a melhor coisa do festival, tinha Sirlan… E esses principais membros do Clube da Esquina já estavam ali fazendo música num nível muito alto. E aquilo pra gente foi uma descoberta, porque a gente estava um pouco mais verde do que essa galera. A gente estava começando a compor, mas isso incentivou muito a gente, ter visto a música mineira ali, no embrião, na coisa do Clube da Esquina. Ainda não tinha saído o disco “Clube da Esquina” e nisso conhecemos várias pessoas e ficamos mais amigos do Beto. A gente tinha ficado apaixonado pela música “Equatorial”, e o Beto se tornou um amigo muito querido. A gente começou a tocar juntos. A minha mãe já tinha outra pensão, perto do colégio Arnaldo, e aí amanhecia e o Beto já estava lá tomando café com a minha mãe. Ele acordava cedo e ia pra lá para tocar, porque tinha uma garagem onde a gente fez um estúdio. Nessa garagem, mil coisas aconteceram.

FORMAÇÃO MUSICAL
Shows: O Fio da Navalha

Teve um show chamado “O Fio da Navalha” que eu acho que também é uma parte da história do Clube da Esquina. Esse show foi praticamente criado e ensaiado lá nesse estúdio. Eu me lembro do dia que nós fomos buscar o piano do Lô lá em Santa Tereza, eu fui ajudar a carregar e o piano caiu na minha mão. Eu fiquei com três dedos desse tamanho e falei: “Ah, eu não vou ser músico mais” (risos). Mas graças a Deus foi só ali naquela hora. E ali a gente tocava, o Lô vivia lá, o Beto vivia lá, o Toninho. Ali eu conheci aquele grande sucesso do Toninho, “Beijo Partido”, ele tinha acabado de compor e a gente ficou o dia inteiro tocando aquela música. O Lô chegava com aquelas canções maravilhosas. O Beto na época não terminava as músicas dele, ele tinha uma fita, a famosa fita do Beto, que ele guardava a sete chaves, onde ele tinha milhares de melodias lindas, mas ele nunca terminava, não tinha letra, era só pedacinho. Eu me lembro que o Vermelho foi um dos que falou: “Beto, você tem que terminar uma canção”. O Beto dizia: “Ah, eu não gosto de letra”. Até ele encontrou o Ronaldo Bastos, também… (risos). Daí a gente começou até a sonhar com uma banda, eu, Beto, Vermelho… Tinha o José Eduardo, que é um outro compositor que eu considero importante dessa época, o Hely baterista também já freqüentava lá… Meu irmão Cláudio começou a ver todo mundo tocar e ficou fascinado por aquilo, começou a tocar com o Lô. E aí a gente fez esse show, “O Fio da Navalha”, porque nisso continuou a coisa dos festivais, depois desse festival FEC, em que eu conheci todo mundo, e aconteceu de a gente começar a se encontrar. Tinha um futebol na casa do Toninho Horta e um dia o Sirlan me levou lá e eu acabei de conhecer todo mundo mais pessoalmente e ficamos amigos. Por coincidência, o Lô estava lá nesse dia, porque ele já morava no Rio com o Milton e já estava no processo de criação do Clube da Esquina com o Milton. E também logo o Lô já partiu para um disco solo.

FESTIVAIS
Festival Internacional da Canção

E nesse meio-tempo, o Sirlan, que era um cara que era muito meu amigo na época, que também faz parte da historia do Clube da Esquina, foi classificado para o último Festival Internacional da Canção e convidou a mim e ao Beto para tocar com ele. Eu me lembro que foi muito legal, foi a música “Viva Zapatria”. Foi uma das músicas classificadas e ficou até o fim do festival. Eu tocava órgão, o Beto tocava baixo, o Sirlan tocava violão e o arranjo era do César Camargo Mariano, com o Maracanãzinho lotado, com 25 mil pessoas, e aquilo foi um impacto muito grande para mim. Isso foi em 1970, 1971, então eu tinha 21 anos. A letra é de Murilo Antunes, que ficou meu amigo, começamos a compor nessa época. Na casa do Sirlan eu conheci o Murilo. E nesse mesmo dia do futebol eu conheci a galera toda. E o Rio também foi uma grande descoberta para mim, porque ai eu conheci o meio musical dos festivais do Rio, gravamos com Sirlan. E nesse meio-tempo tinha saído o “Clube da Esquina” e que foi realmente um tapa na cara total, a gente ouviu e não acreditou. A mesma coisa que eu senti quando eu ouvi o primeiro disco dos Beatles, eu senti quando eu ouvi o “Clube da Esquina 1”, foi muito emocionante. Eu me lembro até hoje, e talvez seja por causa disso que, até hoje, a música que eu mais gosto é a primeira música do disco, “Tudo que Você Podia Ser”, do Lô e do Márcio. O disco é muito lindo e eu acho que mudou a cabeça de muita gente no mundo inteiro. Eu cheguei a ir um dia na gravação do “Clube da Esquina”, porque a gente tinha essa coisa de tocar com o Beto, ele já estava também lá gravando com o Milton e com o Lô. E um dia eu fui ao Rio e eles estavam lá gravando. Eu me lembro que eu entrei no estúdio e não conhecia o Milton ainda, e conheci todo mundo que estava tomando café lá embaixo, conheci o estúdio. E tempos depois, em uma outra ida ao Rio, o Lô já estava gravando o disco do tênis e a gente estava lá por causa do Sirlan, gravando “Viva Zapatria”. O Lô mal me conhecia e chamou eu e o Vermelho para gravar. Eu me lembro que foi uma coisa muito generosa dele, eu me lembro com muita alegria disso, porque a gente ficou muito feliz de entrar no estúdio, pra gente era uma coisa, estúdio da EMI-Odeon, um estúdio grande, maravilhoso. E a gente gravou no disco do tênis com o Lô e continuávamos sonhando em fazer uma banda com o Beto, porque a gente tocava muito juntos.

Voltar ao topo DISCOS

Clube da Esquina – 1972

Eu não cheguei a ver uma gravação. Eu não era tão amigo deles, intimo pra ficar ali e não queria incomodar, eu fui mais para conhecer e encontrar com o Beto. Ele falou: “Vem cá para vocês conhecerem”. Mostrou todo o estúdio, apresentou as pessoas. Eu lembro que eu conheci o Novelli, conheci o Wagner Tiso nesse dia, o Fredera, o pessoal do Som Imaginário, que a gente já conhecia dos shows do Milton, da época daquele primeiro disco do Milton que ele gravou com o Som Imaginário. A gente tinha meio que conhecido o trabalho do Milton ao vivo. Aquele disco era muito lindo. E eu fiz só esse primeiro contato.

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O Fio da Navalha

E aí voltamos a Belo Horizonte, continuamos tocando e fazendo os shows “O Fio da Navalha”. Nesse disco do Lô, do tênis, a gente gravou uma música dele e do Márcio que se chamava “Fio da Navalha”, e acabou que começamos todos a querer fazer um show e todo mundo querendo mostrar música nova. E eu morava perto do Teatro Marília e falei: “Vamos fazer aqui no Teatro Marília um show”. E nesse show participavam o Lô, o Beto, o Toninho, o José Eduardo, eu, o Vermelho, o Hely, não sei se eu estou esquecendo alguém. Era uma coisa muito louca, porque a gente era muito desorganizado, a gente não sabia o que era o show biz, uma coisa de fazer um show, mas tinha uma verdade muito grande, porque era todo mundo muito novo fazendo música já de muita qualidade e foi muito legal, foi muito emocionante. Todo mundo chorava, cantava as músicas… E alguém foi buscar o Toninho porque ele estava chorando lá no fundo, porque ele não queria, aquelas coisas (risos). Não tinha ninguém para orientar a gente, não tinha.
Eu nem sei quem produzia isso na verdade. Tinha o Tavinho Moura, esqueci de falar com o Tavinho. Eu nem sei quem produzia, eu sei que a gente conseguiu alugar o teatro e fazer. Mais tarde a gente até fez isso mais organizadamente, fizemos até no Palácio das Artes, fizemos no Chico Nunes. Era sempre um encontro de compositores que mostravam a sua música e o Marcinho batizou de “O Fio da Navalha”, precisava de um nome, não é?
Eu me lembro desse primeiro show do Teatro Marília, eu me lembro de um em Caxambu que foi um desastre (risos). Eu me lembro de um em Montes Claros que foi outro desastre, mas a gente não estava nem aí, era tudo farra. Eu me lembro que eu fui de trem com o Lô e o pessoal foi de ônibus. Não tinha muito público, ninguém conhecia a gente. E depois a gente fez no Chico Nunes e começou a ser mais legal, já tinha público. Depois, fizemos no Palácio das Artes e a coisa já estava mais organizada (risos).
Eu falo um desastre porque não tinha público, era mal organizado, mas ao mesmo tempo era maravilhoso, era muito emocionante e pra gente era uma realização, conseguir fazer um show, todo mundo junto, a gente sabia que aquilo ali era importante pra gente. A gente sabia que estava fazendo uma coisa boa, essa consciência a gente tinha, todo mundo sabia o valor que tinha, acho que isso é que é legal.

FORMAÇÃO MUSICAL
Ensaios / Gravações

Desse época que eu comecei a conhecer o Beto, a gente conheceu toda essa galera na casa do Toninho, começamos a ficar amigos de todo mundo. Eu fui várias vezes na casa do Lô em Santa Tereza, o Lô foi várias vezes na minha casa. Eu morava em um apartamento perto da Praça Raul Soares, que tinha um terraço onde a gente tocava, jogava bola, e então começou a ter uma troca musical ali com todo mundo. Eu tinha uma mania de gravar as coisas, até hoje eu tenho um acervo que eu estou querendo recuperar porque eu tenho gravados o primeiro show dos 14 Bis, os ensaios do show do Beto de “A Página do Relâmpago Elétrico”, o primeiro show de O Terço, uma banda que o Melão tinha aqui que fazia uns shows, chamava Zorra, eu tenho gravada. Eu tenho todas as minhas composições gravadas. Eu tinha essa mania, que eu acho que é uma mania muito saudável, porque é muito legal quando você pega uma gravação antiga e você vê o momento da composição, o frescor daquilo. E isso me ajudava a ter contato com as pessoas também.
Conheci o Lô nesse dia que a gente ficou tocando na casa do Toninho. O Lô nessa época ainda estava mais no Rio. Eu estreitei mais minha relação com o Lô quando ele me chamou pra gravar no disco do tênis e depois o Lô voltou a ficar mais em Belo Horizonte. Ele morou no Rio um tempo, depois que gravou o disco do tênis, a gente se encontrou, eu fui à casa dele e essa época eu comecei a ir mais a Santa Tereza. Às vezes a gente ia lá, se encontrava, ficava tocando, ia a um bar. Eu estava sempre tocando com o Beto, e às vezes o Lô aparecia, daí inclusive veio a minha saída para São Paulo.

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O Terço

Aquele festival que eu falei que eu fui classificado, por uma coincidência da vida a minha música foi defendida pelo grupo O Terço. Na época, a Polygram deu quatro artistas para interpretarem músicas do festival e os artistas escolheriam a música. O Terço escolheu a minha música e do Vermelho, e a gente se conheceu. Mais tarde, eu ainda não conhecia o Milton, mas o Guarabira perguntou ao Milton se conhecia algum tecladista e ele falou: “Olha, o Beto fala muito do Flávio”. E, sem me conhecer, o Milton me indicou pra tocar no grupo O Terço. Na verdade, era para gravar um disco com o Sá e Guarabira e O Terço também participava desse disco, então foi um reencontro. Eu fui pra São Paulo e reencontrei o grupo O Terço. Saí de Belo Horizonte em janeiro de 1974 para gravar esse disco e lá fiquei com o grupo O Terço.

FORMAÇÃO MUSICAL
Gravações: A Página do Relâmpago Elétrico

Mas eu tinha um sonho de gravar um disco com a nossa banda sonhada, que éramos eu, o Beto, o Vermelho, o José Eduardo e o Hely, mas essa banda acabou não acontecendo. Nisso, o Beto se casou e a EMI –Odeon chamou o Beto pra gravar um disco que se chamou “A Página do Relâmpago Elétrico”, que eu considero também um disco histórico da música mineira. E eu estava tocando n’O Terço, com a banda no auge, mas eu saí por causa desse disco. Era tão importante pra mim realizar esse sonho de tocar com essas pessoas, que eu deixei o grupo O Terço, voltei a Belo Horizonte, e fiquei um seis a oito meses aqui. A gente foi para um sítio, ensaiamos. Eu morava em um outro sítio em São Paulo, o Beto já ia pra lá pra gente ensaiar, são esses ensaios que eu tenho gravados. Eu trabalhava no estúdio da Transamérica, levava a galera pra lá e a gente ensaiava. Depois, viemos para Belo Horizonte e fizemos o disco, mas o Beto falou que realmente não iria mais fazer a banda. Ele ia seguir a carreira solo dele e fez esse disco que eu considero meio de banda e acho o melhor trabalho do Beto até hoje. E aí eu fiquei meio assim: “E a nossa banda, como nós vamos fazer?”. Voltei a São Paulo e eu estava com uma relação muito grande com a cidade, tinha morado alguns anos lá, e lá a gente acabou formando o 14 Bis.

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Rock Progressivo

Nesse começo dos 70, como eu te disse, na primeira aula com o Rogério Duprat ele me mostrou o Yes e a gente começou a consumir essa música, que era muito forte na época. Todo mundo, toda a garotada que viveu nessa época acho que tem essa influência. Eu gostava muito do Emerson, Lake & Palmer por causa da coisa dos teclados, mas teve uma banda que particularmente mexeu muito com a gente, que foi o Genesis. Eu me lembro que eu e o Vermelho descobrimos o Genesis em uma loja um dia, nos apaixonamos e começamos a ouvir desesperadamente. E como o Beto vivia com a gente, a gente ficou louco para mostrar pra ele. A gente mostrou pro Beto, e o Beto falou: “Não gostei, não”. Dois dias depois o Beto só escutava o Genesis, o filho dele se chama Gabriel em homenagem ao Peter Gabriel, e o Beto se tornou também um fã aficionado. O Genesis foi uma banda que nos influenciou muito, porque é uma banda que tem muita harmonia e a música mineira tem isso, então eu acho que a gente se identificou muito com aquela influência clássica e erudita que eles tinham. Eu digeri isso na minha música e levei para o grupo O Terço. Quando eu comecei no grupo O Terço, eles vinham de um período bem folk, que tocava nos festivais de música brasileira, depois eles passaram para uma coisa mais hard rock, e quando eu entrei, levei uma linguagem progressiva que deu supercerto na época. Eu acho que O Terço foi a grande banda de rock progressivo no Brasil de todos os tempos. O Mutantes também foi, mas eles tinham uma coisa mais ampla, mais MPB, tinha humor também. Eu acho que o Mutantes foi a banda mais importante de todos os tempos, no geral, mas O Terço também foi uma banda muito legal.


O Terço

Eu só gravei dois discos n’O Terço. Eu gravei o “Criaturas da Noite”, que foi o disco que estreou o estúdio da Vice e Versa em São Paulo, que hoje é o estúdio da Trama, na Álvares Guimarães. Foi uma coisa muito legal, porque a gente tinha uma vontade muito grande de fazer um som novo e a gente investiu tudo, dinheiro, tempo, energia, e aconteceu. A banda aconteceu mesmo, fez sucesso no Brasil inteiro. Pena que na época era muito difícil o acesso aos meios de comunicação, a gente tem pouquíssima coisa, acho que não tem imagem. A gente está tentando recuperar algumas coisas que tem na Rede Globo para esse retorno agora e está difícil. Tinha um programa do Nelson Motta chamado Sábado Som e um outro filme que foi feito, alguma coisa assim. Tinha um contato muito legal com o Rogério Duprat, que era um mestre. Ele fez vários arranjos, a gente estava o dia inteiro ali com ele. Sá e Guarabira estavam também sempre por perto, foram pessoas que influenciaram, que deram a maior força. Foi um período muito legal, mas eu nunca cortei a relação com Minas Gerais, eu vinha todos os fins de semana. No primeiro ano, quase todo fim de semana eu vinha para Belo Horizonte. Aos poucos eu fui ficando mais lá, mas acabei voltando.
N’O Terço a gente gravou uma música minha com o Murilo, chama-se “Cabala”. Nós vamos inclusive regravá-la agora nessa reunião atual. Mas a gente compôs algumas coisas nessa época. Talvez a gente tenha se intensificado mais depois que eu saí d’O Terço.

Voltar ao topo EVENTOS HISTÓRICOS

Ditadura Militar

Eu não me lembro de censura a nossas músicas. A gente sentiu o peso da ditadura sim, morando em São Paulo de 1974 a 1978. A barra era muito pesada, a gente era muito parado na rua, eu com cabelos imensos e aquela cara de hippie (risos). Teve uma ocasião em que pararam a gente na saída de um show, dando geral na rua. A gente sabia de presos políticos. No ano em que eu servi exército, foi em 1968, para você ter uma idéia, o meu comandante foi o Otávio Medeiros, que é considerado um dos caras mais duros da ditadura, que foi chefe do SNI no período mais duro da ditadura, então a gente sabia de muitas histórias de presos políticos, de tortura, a gente estava consciente do que estava acontecendo.
Eu acho que a música era uma válvula de escape, é só ver a riqueza da música brasileira dessa época. Eu vejo muitas pessoas falando hoje que gostam do Milton, mas às vezes não sentem a força que foi na época. Porque é diferente mesmo, na época todo mundo foi embora, Gil e Caetano estavam em Londres, Chico estava na Itália. Eu me lembro que os grandes artistas que seguraram a barra mesmo foram Milton Nascimento e Gal Costa. Os shows mais incríveis que você conseguia ver na época eram desses dois.
Os shows do Milton eram uma catarse, a juventude ficava pirada com o show do Milton, seria como hoje ver os shows de grandes bandas de rock. E a Gal vinha com toda aquela coisa da sensualidade, da liberdade, do amor livre, da coisa baiana, da alegria baiana, então eram válvulas de escape mesmo. E o rock era também. Nos shows d’O Terço a gente sentia que era muito legal para o jovem ir ao show de rock nessa época.
Tinha o Mutantes, mas eles já haviam se diluído bastante, a Rita já tinha saído, o Sergio Dias continuou, o Arnaldo também tinha saído, tinha tido problemas e o Mutantes já não tinha a mesma força, mas era uma banda que continuou. E tinha várias outras bandas de rock acontecendo, no Rio tinha o Vímana, o Veludo Elétrico, o Som Imaginário, que já era uma coisa diferente, porque o Som Imaginário tinha uma grande riqueza de MPB, ele misturava o pop, mas com grandes músicos. Toninho Horta tocava no Som Imaginário, Wagner Tiso, Fredera. Robertinho Silva, Luiz Alves, Naná foi do Som Imaginário, então era um celeiro de grandes músicos. Mas eu sei que não era tanta coisa que acontecia, em quantidade não tinha tanta coisa assim.

O Terço

Quando eu fiz 50 anos, em 1999, eu fiz um show, gravei um DVD com convidados. E quando eu fiz o show em São Paulo, eu quis convidar O Terço e foi muito emocionante o retorno. A gente sentiu que O Terço tinha uma química muito forte. Eu falo que a gente se sentia acima do chão quando os quatro entravam no palco, e a gente sentiu isso de novo.
O Terço é Sérgio Hinds, um dos fundadores, guitarrista, Sérgio Magrão, baixista que depois eu levei pro 14 Bis e está no 14 Bis até hoje, o Luiz Moreno, que infelizmente faleceu, a gente perdeu o Moreno há dois anos, e eu. Essa é a formação da minha época, porque O Terço inicial era Sérgio Hinds, Jorge Amiden, que era um grande compositor, e Vinícius Cantuária, que era baterista. Agora resolvemos chamar um baterista e fazer esse retorno, os ensaios estão sendo maravilhosos e a gente vai gravar brevemente um DVD.

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Clube da Esquina 2

Dessa turnê do Beto eu acabei de conhecer o resto do pessoal. Aí eu conheci o Milton quando eu saí d’O Terço e gravei “A Página do Relâmpago Elétrico” e comecei a viajar com o Beto. Eu fazia uma participação especial, cantava algumas músicas minhas, cantava “Nascente”, já existia “Nascente”. Aliás, só fazendo mais um parêntese, eu compus “Nascente” quando eu vim do Rio de Janeiro, daquela viagem do “Viva Zapatria”. Eu acho que a emoção foi tanta de ir ao Rio, conhecer tudo aquilo, que quando eu voltei eu compus “Nascente”. O Beto gravou “Nascente”, foi o primeiro a gravar, que é uma gravação que eu considero também maravilhosa, eu acho lindo, com arranjo de Toninho Horta – o primeiro arranjo de orquestra do Toninho Horta foi o de “Nascente”. Com a turnê do Beto, eu estreitei a minha relação com o Milton. Comecei a ficar muito próximo do Bituca, eu morava em São Paulo, mas vinha e às vezes ficava na casa dele, a gente tocava, viajava às vezes. Aí o Milton começou a preparar o “Clube da Esquina 2” e me convidou pra participar. Gravou “Nascente” lindamente, com arranjos do Francis Hime. Eu lembro que o Milton me perguntou quem eu queria que fizesse o arranjo e eu tinha acabado de ver um filme chamado “Lição de Amor” em que a trilha era do Francis Hime em que ele tocava um piano lindo. Eu falei: “Ah, eu quero o Francis”. E o Milton satisfez as minhas vontades, chamou o Francis Hime, que fez um arranjo lindo, e a gente cantou junto. Eu me lembro que foi uma das músicas que tocaram muito do “Clube da Esquina 2”, foi meio que a música de trabalho do lançamento do disco, “Nascente”. Mas eu não ia participar do show, os convidados do show eram Beto Guedes e Lô Borges. Aí aconteceu o show em Vitória e não sei mais onde e de repente eu recebi um telefonema da Monique Gardenberg, que na época era empresária do Milton (na verdade, o empresário era o Paulo Pila e a Monique Gardenberg era assessora), dizendo: “O Lô parece que não vai mais participar da turnê, abandonou a turnê por algum motivo pessoal, teve um problema e o Milton está te convidando para integrá-la”. Na verdade, era para participar de um show do “Clube da Esquina 2” aqui no Palácio das Artes. Aí ensaiei com o Milton rapidamente, fizemos o show e foi um dos momentos mais bonitos da minha vida, porque a gente cantou um “Nascente” tão lindo, mas tão lindo, que eu me lembro que a platéia ficou realmente chapada, e a gente também. Eu cantei “Criaturas da Noite” e cantei “Nascente” com o Milton e imediatamente eles me convidaram para participar da turnê inteira. E aí eu fiz participação especial junto com o Beto Guedes na turnê. Foi uma turnê nacional, o Milton fez até São Luís. Foi muito legal, era uma banda daquelas maravilhosas que o Milton escolhe, e aí continuamos muito amigos. Eu já tinha participado do disco “Clube da Esquina 2” também como músico em algumas faixas e aí eu integrei o Clube da Esquina de vez.

Voltar ao topo CLUBE DA ESQUINA

Avaliação

Eu não acho que seja um movimento no sentido político, ideológico. Eu acho que é estético. Foi uma coisa muito diferente de tudo no Brasil. Eu acho que em termos musicais, literários foi uma coisa muito diferente, muito original, muito rica que Minas deu ao Brasil, ao mundo.
Eu acho que é uma coisa de contemporaneidade no sentido talvez até maior do que os baianos fizeram, ou mesmo do que fez a bossa nova, que tinha uma direção mais do jazz. Eu acho que o Clube da Esquina misturou aquele caldeirão de coisas que estavam acontecendo no mundo nos anos 70 de uma maneira muito bonita e ao mesmo tempo muito mineira, todo mundo reconhece. As pessoas falam: “Mas a música de vocês é diferente”. Tem uma coisa das montanhas mesmo, que corre por aqui. Eu vejo isso até hoje nos compositores novos que aparecem, em Minas sempre teve essa vertente forte de rock, muitas bandas de rock importantes, Skank, mesmo o Sepultura, que dentro do estilo deles conquistou o mundo, sempre houve muitas bandas de rock. Mesmo na época do Clube da Esquina, eu me lembro que tinha bandas de rock como Haystack Needle, que era uma banda que o Melão fazia, tinha umas bandas de rock importantes, Tarcos, tinha essa vertente de rock pesado, Minas sempre teve isso também, mas eu acho muito mais importante essa coisa que o Clube da Esquina abriu – abriu as portas para o mundo.

FORMAÇÃO MUSICAL
Cultos Religiosos

É, tem um detalhe muito importante da minha infância que eu esqueci de falar: eu fui coroinha na Igreja São José. Como eu morava ali atrás, minha mãe, sempre muito católica, me levou pra lá. E a coisa que eu mais gostava era de ficar na missa das oito da manhã porque era a missa das crianças e tinha música. Eu sempre ficava perto do coro das crianças, com uma organista tocando, e aquilo me fazia muito bem. Eu já gostava de ficar ali ouvindo música. Música de igreja tem essa coisa, é meio barroca. Minas tem muito isso, as modinhas mineiras… Eu me lembro que eu gostava muito de ouvir modinha mineira. São aquelas músicas que ficam na memória.

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14 Bis

Pois é, eu não estava ainda com nenhum objetivo, a gente se dispersou um pouco com a coisa de o Beto ter saído, quer dizer, sem nenhuma mágoa, mas posso dizer que foi uma grande decepção – eu admiro o Beto demais, continuo amigo dele, sempre fomos muito amigos –, porque o Beto era uma figura importantíssima e, pra gente, ele deixar o projeto foi uma grande decepção, embora a gente continuasse amando ele, a música dele. Tanto que eu continuei gravando com ele, fizemos “A Página do Relâmpago Elétrico” e tudo. E durante a turnê do Milton, como eu cantava com ele, o diretor da EMI, o Odail Lessa, que era daqueles diretores que só existiam no passado, que só investiam no lado artístico da gravadora, possibilitou que o Milton gravasse o “Clube da Esquina 2”, um disco duplo, coisa que na época ninguém imaginava, e com um artista novo – embora o Milton tivesse feito aquele sucesso todo com “Travessia”. Era uma coisa ousada na época. E o Odail Lessa me viu cantando. O Milton Miranda também era diretor da EMI, mas o Odail Lessa era diretor artístico, era aquele cara que tinha realmente uma relação com o artista, pessoal. Ele acompanhou a turnê do Milton em alguns lugares, me viu cantando e me convidou pra gravar um disco na EMI. Aí falei com ele: “Claro que eu tenho vontade de gravar um disco meu, mas eu prefiro gravar uma banda que eu estou criando”. Aí entrei com o projeto de uma banda, que foi o 14 Bis. A gente já tinha meio que armado a banda, a gente não tinha tocado ainda, só tinha uma demo que a gente tinha feito. Me lembro que na demo tinha “Espanhola”, que nunca foi gravada pelo 14 Bis a não ser no fim, num disco ao vivo, tinha “Perdido em Abbey Road”, que é uma música em homenagem aos Beatles, minha e do Vermelho, tinha também “O Vento, a Chuva e o Teu Olhar” e uma música instrumental chamada “Blue”, que era uma composição minha.
Nisso, a gente já tinha meio que armado a banda. Eu chamei o Magrão, que era baixista d’O Terço – ele já tinha saído d’O Terço também. E meu irmão já estava tocando muito bem, estava tocando com o Lô. O Lô chegou pra mim um dia e falou: “Olha, seu irmão está tocando muito bem. Se você bobear, eu vou roubar ele” (risos). Eu falei: “Não, vem cá, vamos tocar com a gente”. Tinha também o Hely Rodrigues que já era baterista desde o projeto do Beto. E formamos o 14 Bis em 1979. Nessa coisa de formar o 14 Bis eu me mudei. Morava em um sítio em São Paulo e me mudei para o Rio de Janeiro, onde eu moro até hoje. E agora estou voltando para Belo Horizonte depois de 26 anos no Rio de Janeiro.

SHOWS
Missa dos Quilombos

Dessa amizade com o Milton, ele me convidou pra participar desse projeto, que foi uma coisa muito legal, porque era um projeto diferente. Foi um projeto em que eu fui só como músico mesmo e a gente participou da gravação que foi feita no Caraça, foi uma coisa incrível, um astral maravilhoso.
O Caraça é um parque ecológico que tem aqui perto de Belo Horizonte, que foi um colégio, uma escola famosa do passado onde vários presidentes do Brasil estudaram. Tinha uma biblioteca considerada uma das mais importantes, que foi infelizmente perdida num incêndio e hoje é como se fosse um mosteiro. Lá está preservado, é um lugar turístico também e tem uma igreja muito linda.
Foi uma idéia do Milton, que eu me lembre foi uma idéia dele. O Milton tem essa relação religiosa grande e a gente gravou o disco dentro da igreja.
Eu participei como instrumentista e a gente fez varias apresentações, inclusive na Espanha, em Santiago de Compostela, que foi superemocionante, foi mágico mesmo. Era uma comemoração, se não me engano, dos 500 anos da descoberta das Américas, foi uma festa que a Espanha fez. Teve esse show em Santiago de Compostela e depois até fizemos aqui em Belo Horizonte, em São Paulo, no Rio e em vários lugares.
Eu adoro igreja, eu sou um católico não praticante, mas eu tenho um respeito muito grande por qualquer religião e pelos templos em geral. Eu tenho essa coisa de igreja, não é à toa, aquilo é um templo e rola uma energia muito forte ali. Eu lembro que eu ficava tocando ali, como foi em Santiago de Compostela, tocando em frente àquela igreja milenar. Foi uma emoção muito grande. Mas no Caraça foi muito bonito e ver a voz do Milton ecoar dentro daquela igreja foi uma coisa fantástica.

FORMAÇÃO MUSICAL
Gravações

O “Clube da Esquina 2” já foi gravado em outro estúdio, no novo estúdio da EMI, mas nesse estúdio onde foi gravado o “Clube da Esquina 1”, eu gravei “A Página do Relâmpago Elétrico” com o Beto. Nessa época, as gravadoras tinham os instrumentos. Instrumentos que na época a gente não conseguia ter, você chegava à gravadora e tinha. Tinha um piano Fender, tinha um órgão Hammond, várias guitarras, vários baixos importados e violões e era uma festa para os músicos. Um instrumento bom faz a cabeça de qualquer músico e o ambiente também faz. No estúdio, eles usavam as mesmas mesas em que os Beatles gravavam no estúdio da Odeon, eram bem semelhantes. Eu conheci os estúdios da Odeon, não os de Londres, mas os dos Estados Unidos, os de Los Angeles, e eram todos parecidos. Pra gente era uma festa encontrar aquilo. Infelizmente, eu não participei da gravação do “Clube da Esquina 1”, mas eu imagino, pelo som que eles fizeram, o que rolou ali.

DISCOS
Clube da Esquina 2

No “2” também foi muito legal, o Milton tinha sempre essa coisa de trazer os amigos. A gente poder gravar um disco e estar perto dos amigos é uma coisa difícil de acontecer hoje. Todos os músicos que ele curtia, ele queria em volta dele e isso se traduziu em um clima que eu acho que se traduziu na música também.
As pessoas iam chegando. Eu lembro que o Milton gostava de formar grandes coros e às vezes vinha um ônibus de Belo Horizonte com gente pra cantar uma música (risos), coisas da época mesmo. Vinham os amigos de Três Pontas do Bituca, amigos do Rio, amigos de Belo Horizonte. E eu fiquei muito amigo do Ronaldo Bastos, nessa coisa da produção. O Ronaldo, na época, era o produtor dos discos.
Foi muito emocionante. Eu sempre falo que uma coisa engraçada na minha vida é que eu acho que a gente não tem noção da importância no momento em que está acontecendo. A gente curte e tudo, mas só depois talvez a gente veja a importância que teve. O “Clube da Esquina 2” saiu nas rádios, como eu disse, com uma música minha e embora eu já tivesse participado de bandas como O Terço, para mim era muito importante sair o “Clube da Esquina” nas rádios com uma música minha, eu cantando com o Milton. Foi uma felicidade muito grande.

TRABALHO
Atividade Profissional / Trilha para Balé

Isso veio da minha relação com o grupo Corpo. Eu sempre fui muito amigo do pessoal do Corpo, tive duas namoradas no grupo Corpo (risos), uma delas foi a Zoca, e eu admirava muito o grupo. O primeiro ensaio do grupo Corpo que eu fui ver que foi o “Maria Maria”. Eu chorei o ensaio inteiro, do começo ao fim, porque era muito linda aquela trilha do “Maria Maria”. A trilha instrumental com o Milton cantando era absurdamente bonita e o balé era lindo, uma coisa incrível pra época. Não é à toa que o Corpo é hoje uma das grandes companhias do mundo. E nessa relação, eu sempre fiquei muito ligado a essa coisa da música dançada.
E eu conheci o Oscar Arraes, o coreógrafo que criou o “Maria Maria” e “O Último Trem”, e na época eu já estava n’O Terço. Parece que o Oscar gostou do meu trabalho, pegou essa música e coreografou. Foi coreografada pelo Royal Ballet do Canadá, teve apresentações no Brasil e depois na Europa também.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

E foi legal porque me incentivou essa coisa da música instrumental que eu sempre tive. Não é à toa que agora eu vou gravar um disco instrumental e em todos os meus trabalhos, n’O Terço, no 14 Bis, na minha carreira solo, eu sempre gravo músicas instrumentais. Já participei do Free Jazz com meu trabalho instrumental. Também participei do Heineken convidado pelo Uakti, numa participação com Milton, Uakti, Andy Summers, do The Police, e foi muito legal. É uma vertente diferente no meu trabalho e que eu quero investir mais.
Eu adoro ser um compositor de canções, de baladas e ultimamente eu estou começando a fazer as minhas letras e isso é uma coisa que eu também estou descobrindo. Eu estava conversando com o Márcio Borges ontem e ele falou que a maturidade traz isso. De repente, coisas que a gente sempre quis fazer, a gente começa a fazer e bem. A música instrumental também era um grande sonho, fazer um trabalho sério que eu possa inclusive levar para fora do Brasil, mas acho que eu prefiro a balada, a canção.

TRABALHO
Atividade Profissional / Trilha para Cinema

A minha primeira relação com o cinema foi quando eu estava n’O Terço e o Silvio Bacchi me convidou e ao O Terço para fazermos uma trilha daquele filme “Aleluia, Gretchen”. Foi o único longa que eu fiz na minha vida e foi uma coisa meio assim, porque a gente não tinha muita noção do que era fazer uma trilha. Ele aproveitou o momento da banda e eu acho que foi legal pra época. Depois, eu fui casado com a Lea Zagury, que é uma cineasta. A Lea trabalha com cinema de animação, é uma das criadoras do Anima Mundi. Ela me levou para a Embrafilme, que na época tinha um núcleo de criação com muitos cursos. Inclusive, o pessoal do Royal Ballet do Canadá vinha. Eu fiz vários cursos de música relacionada a cinema e fiz algumas trilhas também para alguns curtas de amigos dela. Recentemente, eu fiz para um filme chamado “Retrato Pintado”, de um cineasta do Ceará, um curta também. É uma historia sobre um fotografo lambe-lambe e foi premiadíssimo em vários lugares. Os filmes da Embrafilme também foram todos premiados, mas eu nunca tive uma relação maior, é sempre uma coisa que alguém me convida… Mas é uma coisa que eu tenho o maior prazer em fazer quando sou convidado, eu gosto muito de cinema de animação, principalmente. Mas eu tenho vontade de fazer uma trilha original para um filme, acho que é uma viagem muito grande.
Eu adoro trilha de filme. Eu sempre cito “Cinema Paradiso”, que é uma coisa meio clássica, todo mundo gosta. Inclusive, o Murilo Antunes fez uma letra pro tema principal de “Cinema Paradiso”, que se chama “Paraíso”, mas na época a gente não conseguiu autorização para lançar, seria no meu disco “Noites com Sol”. Mas eu adoro trilhas de cinema.

Voltar ao topo 14 BIS

Carreira

Fiquei oito anos no 14 Bis, foram muitos shows, muita coisa aconteceu, foram oito discos, o último ao vivo. Já durante o 14 Bis, eu senti, como compositor, vontade de mostrar outras coisas. E, em 1982, eu gravei o meu primeiro disco solo, que foi o disco “Nascente”, que eu considero um dos discos mais importantes da minha carreira solo. Em 1985, eu gravei o “Noites com Sol” e dois anos depois, o “Beija-Flor”. E aí saí do 14 Bis em dezembro de 1988 e parti pra carreira solo mesmo. Foram maravilhosas todas as coisas que aconteceram com o 14 Bis, muito bom, mas eu tenho essa coisa, eu vou seguindo o meu caminho. Não que eu não descarte a possibilidade, assim como eu estou fazendo um revival d’O Terço, por que não mais tarde fazer do 14 Bis? Quando eu ouço o que a gente fez, redescubro mil canções lindas, coisas que não fizeram sucesso, porque tem essa coisa de que os discos são pouco conhecidos. No fundo, as pessoas conhecem o sucesso, o que tocou no rádio e às vezes não sentem a importância que foi o trabalho, porque às vezes as melhores músicas ou coisas inusitadas estão ali guardadas.

TRABALHO
Parcerias

O meu primeiro parceiro foi o Vermelho, a gente compôs muito durante o 14 Bis. O Murilo foi logo o parceiro seguinte, é meu parceiro até hoje e aí, com a coisa do Clube da Esquina, eu comecei a compor com Márcio Borges e Ronaldo Bastos. Eles foram meus parceiros constantes durante o 14 Bis. Durante os últimos tempos, o Ronaldo se tornou mais presente porque eu estava ali no Rio, muito mais perto dele. O Marcinho estava lá em Mauá, às vezes a gente compunha – eu estou inclusive devendo umas parcerias com o Marcinho, porque eu o adoro, adoro todos. E tem o Brant, que nunca tinha composto comigo, e, no meu mais recente CD, “Por que Não Tínhamos Bicicleta”, finalmente eu compus uma música com o Brant que se chama “Trator”. E fora isso, eu tenho alguns parceiros espalhados, amigos. Alexandre Glasefer é um parceiro que se tornou constante nos últimos tempos. Juca Filho é um parceiro que eu gosto muito, que foi parceiro do pessoal do Boca Livre. Eu gosto de compor músicas com pessoas novas e recebo milhões de poesias de todo mundo, mas eu acho que parceria tem que ter um algo mais para você fazer uma coisa legal.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

Meu processo criativo é muito intuitivo, eu sempre fui um compositor muito fluente. Com aquela coisa que eu falei de gravar, eu tenho um acervo imenso de composições. Claro que peneirando isso a gente vai fazer uma seleção, mas eu tenho muita coisa inédita que ainda pretendo recuperar. Era sempre uma coisa de ir para o instrumento, principalmente o piano, e tocar. De manhã, gosto muito de acordar, ir pro piano e tocar e às vezes vou sem a intenção de compor. É sentar ali, começar a tocar, brincar com o instrumento e aí pinta uma idéia e eu sempre gravo, porque se não eu não lembro. E não é só a questão de não lembrar. Eu acho que compor é um momento muito forte. Muitas vezes, mesmo você gravando a música, nunca vai ser tão bonito quanto aquele momento em que você compôs. Às vezes, tem músicas minhas que as pessoas falam: “Que linda essa gravação!”. Aí eu vou ouvir o momento em que eu compus e eu acho mais bonita ainda. É uma coisa só minha mesmo, só eu vou entender aquilo, porque é a emoção pura, é o momento em que baixou ali. A música pra mim é muito intuitiva, ela não é muito racional, eu não penso: “Vou compor isso aqui, esse acorde”. É claro que depois que eu compus eu procuro burilar, trabalhar, melhorar ao máximo a composição. Mas às vezes vem inteirinha, primeira parte, segunda parte, vai saindo e é uma coisa muito legal isso.

Voltar ao topo TRABALHO 3

Parcerias

Com os parceiros, a princípio era uma coisa de eu mandar a música e eles mandarem a letra e foi um processo que aos poucos eu fui modificando porque – claro, são sempre pessoas maravilhosas – às vezes o cara escreve uma coisa que você não está sentindo. Eu muitas vezes eu admiti, assumi essas letras porque eram boas, mas às vezes não diziam o que eu queria dizer. Com o tempo, eu passei a compor mais junto. Com o Murilo, a gente tem composto muito junto, aí eu comecei a interferir também com palavras, com idéias; com o Ronaldo; com o Marcinho eu compus junto poucas vezes. Ultimamente, eu tenho ficado muito presente quando eu componho com a outra pessoa e tenho começado a fazer as minhas letras.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

Como eu sou muito romântico, sempre as minhas músicas falam da minha vida sentimental, da minha visão sentimental e otimista da vida. Eu sou assim, embora às vezes fale de outros assuntos, mas, pra mim, essa crônica da vida da gente sempre foi o mais importante. A música é uma maneira de contar a minha história.

TRABALHO
Parcerias

(risos) Tem música que eu falo assim: “Isso aqui é a cara do Marcinho, isso aqui é a cara do Ronaldo, isso aqui é a cara do Murilo”. Mas foi difícil arrumar com a cara do Brant, porque eu nunca tinha feito música com ele. Acabei mandando um rock pra ele, mas o Brant sabe tudo, não é? (risos).

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Shows: Circo Voador com Toninho Horta

(risos) Na verdade eu amo tanto esses músicos do Clube da Esquina, que dá vontade de fazer um disco com cada um. Eu já gravei muito com Tavinho Moura, muito com Beto Guedes, gravei com o Lô, com Milton, Toninho Horta. Com o Túlio Mourão, talvez eu não tenha gravado, mas já fiz show, então eu tenho uma relação com todos muito prazerosa. Mas, pra mim, fazer um show com Toninho Horta foi uma aula de música, porque eu o considero um mestre. Quando o Toninho estava fazendo a trilha daquele filme “Dona Olímpia de Ouro Preto”, eu fui um dia no estúdio da Bemol e de repente me deparei com aquelas canções. Chorei a noite inteira. O Toninho é um gênio da música e nessa época coincidiu das nossas carreiras poderem se encontrar. A gente fez um show maravilhoso no Circo Voador, foi um dos shows mais lindos que eu já fiz. Graças a Deus nós gravamos esse show e se transformou em um disco, que, por coincidência, eu estava ouvindo esses fins de semana. É muito legal, porque tem uma verdade ali. Tecnicamente ele não é perfeito, mas traduziu não só a emoção da gente, como a da platéia. Tem 15 anos esse disco e até hoje as pessoas me dizem: “E aquele show do Circo Voador? Que lindo que foi aquilo!”. Eram quatro mil pessoas todos os dias, cantando as músicas, vibrando e pra mim era uma aula de música. Aprender as músicas do Toninho é aula de harmonia, é muito legal.

TRABALHO
Projetos Futuros

O problema hoje é tempo, porque a vida da gente hoje é muito corrida. (risos) Eu até acho que esse é um dos motivos de eu estar me mudando para Belo Horizonte, de ir morar onde eu vou morar, em um condomínio fora de Belo Horizonte, no mato. É um recolhimento que eu preciso justamente para compor o tanto de projetos que eu tenho hoje em dia para fazer. Hoje em dia eu tenho uma gravadora, tenho um selo onde eu sou a mola mestra, eu quero gerir os meus projetos, embora a gente tenha outros artistas. Então esse acervo é muito importante para esse meu projeto de gravar várias coisas e eu não tenho muito tempo. No começo, eu gravava em cassete mesmo, a maior parte do meu acervo é em cassete, eu devo ter 300 fitas para ouvir, peneirar e digitalizar isso. No passado, eu tinha muito aquela coisa de gravador de rolo. Eu tenho algumas coisas em sete e meio, em 15, tenho também aquele gravador cassete de fita dupla, tem algumas coisas que por um período eu usei naquilo; nos últimos tempos eu comecei a gravar em MD, tenho um outro acervo em DAT e agora um outro acervo em Protus, pra você ver como é muita coisa. Coisas minhas e de shows que eu tenho gravados. Como eu te falei, tem shows do Beto Guedes, show do 14 Bis, d’O Terço, tem composições, tem jam sessions na minha casa com artistas, tem muita coisa. Não quer dizer que eu vá lançar tudo, mas é legal você ter isso guardado e não perder, digitalizar com certeza. Eu tenho um acervo de fotos. Fotógrafo amador foi uma outra coisa que eu sempre fui, mas muito ligado a foto de natureza. Eu também fotografei anos e anos em slides e isso também está se perdendo. Eu tenho que digitalizar. Haja tempo pra fazer isso!

Voltar ao topo LAZER

Fotografia

Eu gosto muito de fotografia (eu gosto de cinema também, mas eu não me atrevo a sair por esse ramo), a fotografia é uma coisa que eu nunca deixei de fazer e hoje eu continuo, passei para o mundo digital (risos).
Busco inspiração nas imagens. Eu me lembro que na época do meu disco instrumental, compus uma música inspirada em uma foto. Chama-se “Jardins das Delícias”. Eu sempre tenho essa de morar em sítio, eu tinha tirado uma foto muito alaranjada e essa cor me inspirou essa música.
E a partir da foto eu fiz a música.

DISCOS
Noites com Sol

Eu acho que foi um disco importante como reafirmação da minha carreira solo, porque é sempre difícil recomeçar. Eu nunca tive medo, mas depois de sair d’O Terço e do 14 Bis, duas bandas que fizeram muito sucesso, encarar a carreira solo foi uma missão. Mas eu fiquei tranqüilo. Eu nunca busquei o sucesso, é bom você fazer sucesso, mas nunca foi o meu objetivo. Claro, eu sempre quis ganhar dinheiro, viver da minha música, mas eu nunca traí os meus objetivos, sempre fiz a música que eu faço mesmo. Então, a minha carreira solo a princípio não fez muito sucesso, embora o disco de 1982, ao vivo, que foi o primeiro disco que eu gravei depois que eu saí do 14 Bis, tenha sido um show de muito sucesso. Foi no Rio Centro, foi um Rio Show Festival, com 12 mil pessoas cantando as minhas músicas. Teve show do Beto Guedes e do Guilherme Arantes na mesma noite. Quer dizer, aconteceram momentos muito legais. Os meus discos nunca venderam muito, mas eu sempre tive público, isso é uma coisa que eu não posso reclamar, foi um público fiel que acompanhou o meu trabalho. Mas o “Noites com Sol” foi um reconhecimento na indústria fonográfica. Na época, eu estava em uma gravadora pequena, que era a Velas, do Ivan Lins e do Vitor Martins, e a gente vendeu mais de 100 mil cópias. E era uma guinada na minha carreira também em termos sonoros. O disco foi produzido pelo Torquato Mariano, que foi um produtor que pegou a minha música e de repente trouxe pros anos 90 e atualizou em termos de arranjo, de sonoridade. A gente, como compositor, às vezes fica muito ligado emocionalmente às musicas, por isso acho que produtor é uma coisa muito importante. É uma faca de dois gumes. Produtor pode estragar um trabalho, como eu já vi vários fazerem – o cara quer interferir demais no trabalho do artista –, mas tem aquele cara que de repente dá um frescor ao seu trabalho, que te aponta novos caminhos, e o Torquato foi isso pra mim. É um músico que eu admiro muito, inclusive no trabalho solo. É um grande músico em níveis planetários e é um grande produtor também, uma pessoa que continua muito presente no meu trabalho.

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Selo: Trilhos. Arte

Essa idéia do selo é antiga. Eu fiz um curso de crescimento espiritual chamado avatar faz uns 10 anos, em que a gente fazia várias criações de coisas que você sonhava para sua vida, e até hoje estão acontecendo coisas na minha vida que eu criei nessa época. Eu me lembro que uma das coisas que eu criei era que eu queria ter uma gravadora, era um sonho mesmo e até meio inimaginável, mas eu criei isso e isso aconteceu. Aconteceu porque eu voltei para a EMI-Odeon e foi uma volta às multinacionais depois do sucesso com “Noites com Sol” e “Beija-Flor”. Eu voltei para gravar um disco. O Torquato Mariano, inclusive, era o diretor artístico e me chamou. Eles queriam que eu fizesse um projeto baseado nas músicas do Clube da Esquina, que eu fiz com o maior prazer porque era uma coisa que eu sempre quis fazer. Como te falei, eu sempre tive relação com todos e sempre amei essas músicas. Então, fazer um disco em que homenageava o Clube da Esquina tinha tudo a ver também, embora eu tivesse um trabalho de composições pra mostrar. Naquele momento a gente fez esse disco e inexplicavelmente a gravadora arquivou esse disco, jogou na prateleira e não divulgou. A gente não fez um clipe, a gente não fez um programa de televisão, o que eu fiz foi por minha conta própria. E foi uma grande decepção, porque eu tinha voltado com todo o gás para a gravadora. Um amigo meu dirigia a gravadora, mas ele não pôde fazer nada e eu acho que ali já estava o começo da grande crise da indústria fonográfica. Foi uma grande decepção pra mim não ter acontecido nada com o disco, um disco que eu considero importantíssimo para a minha carreira. Daí resolvi sair, recendi o contrato com a EMI-Odeon, e fui para a Som Livre fazer um disco, “Linda Juventude”, um DVD em que eu comemorava 25 anos de carreira e 50 anos de idade, que foi também muito bem, vendeu bastante, e até hoje está em catálogo. Nesse ponto eu já estava meio que assumindo as rédeas da minha carreira. Eu já tinha criado meu escritório, já tinha uma pessoa importante na minha carreira, que é a Fabiane Costa, que começou a trabalhar comigo na época do “Noites com Sol” e aos poucos se tornou minha empresária, minha sócia, e a gente foi trazendo tudo para o meu controle, a minha editora – que eu já tinha desde a época do 14 Bis, a Caramelo Edições Musicais –, o meu escritório de shows… Aí criamos a gravadora e eu montei um estúdio lá no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, perto da minha casa, e fizemos o selo Trilhos.Arte, que lançou o meu disco “Por que Não Tínhamos Bicicleta” e mais alguns artistas.

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Belo Horizonte

Pois é, eu sempre gostei muito de Belo Horizonte. Tinha uma paixão muito grande pelo Rio, desde criança. A minha paixão pelo Rio não vem dessa época da música. Desde criança que eu ia lá e tinha uma paixão pela cidade. O Rio foi uma cidade que me acolheu. Posso dizer que é o lugar onde eu tenho mais público no Brasil é no Rio de Janeiro, não é nem em Belo Horizonte, nem em São Paulo. As cidades onde eu tenho mais público: Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Belém, Salvador e Brasília são as cidades que têm essa química. Tem cidades que parece que te adotam. Mas eu nunca deixei de vir a Belo Horizonte, sempre venho ver a família. E tem uma coisa que eu sempre sinto quando venho a Belo Horizonte: andar na rua e falar: “Gente, esse é meu povo”. Me dá essa sensação ao ver as pessoas, é diferente. Acontece que eu fiquei doente um ano, peguei uma infecção hospitalar. Foi uma doença difícil de curar porque foi uma osteomielite. É uma infecção óssea que é uma coisa demorada de curar e isso me trouxe muito de volta à família, aos amigos e a Belo Horizonte. Na verdade, eu estava meio com planos de morar em Salvador. Sair do Rio já era uma coisa que eu queria mesmo. Acho que o Rio é uma cidade importante para o meu trabalho, mas é uma cidade que foi se tornando violenta, é uma linda cidade, mas eu queria uma cidade mais tranqüila para morar.
Essa coisa de morar em sítio talvez seja pela origem da minha família, que era de fazendeiros, meus avós. Mesmo a minha mãe morou muito no interior, então desde criança eu tenho esse gosto pela natureza. E essa minha volta a Belo Horizonte foi como um presente depois de tudo que eu passei, foi um ano de muito sofrimento, mas de muito crescimento espiritual também. De repente, eu achei a casa dos meus sonhos aqui perto de Belo Horizonte, em um lugar onde eu sempre imaginei morar. É perto da cidade, vou estar perto dos meus amigos, vou estar perto dos músicos daqui, da maioria do pessoal, não só do Clube da Esquina, mas músicos novos que eu fiz como amigos, como Claudia Cimbleris, que é uma pessoa também influente no meu trabalho, uma arranjadora que eu admiro muito. Então eu vou estar perto dessas pessoas e não vou cortar minha relação com o Rio de Janeiro, meu escritório ainda vai estar lá.

FORMAÇÃO MUSICAL
Parcerias

Vamos começar pelo Murilo Antunes, que foi meu primeiro parceiro. Murilo é um grande amigo e foi um parceiro importante. A gente fez uma das músicas mais importantes da minha carreira, que foi “Nascente”, “Besame” e um monte de outras composições importantes. É um cara que eu sempre vou estar perto, porque a gente ficou muito amigo e eu acho que o Murilo foi uma das pessoas que me ensinaram também essa coisa de letra, essa relação com a poesia. Foi uma coisa muito legal na minha vida sempre, um amigo muito querido.
Claro, vou falar do Milton, que foi uma pessoa que sempre influenciou a minha carreira, desde o momento em que ele, sem me conhecer, me chamou para participar do grupo O Terço, do disco de Sá e Guarabira que deu n’O Terço, até o momento em que a gente ficou amigo e participei do disco “Clube da Esquina 2”, excursionei e participei de projetos dele, como a Missa dos Quilombos. Posso até dizer que a gente não se encontra tanto quanto eu gostaria, porque o Milton é sempre uma pessoa muito atarefada, está sempre em milhões de projetos, teve também aquele momento difícil da vida dele e é uma pessoa que eu amo demais. Eu sempre falo pra ele que a pessoa com quem mais eu sonho na minha vida é o Milton. Eu não sei de onde vem essa ligação, sei lá se de outras vidas. Eu acredito nessas coisas todas, mas eu sempre sonho demais com o Milton e sempre sonhos muito fortes. Eu sinto que a gente tem uma ligação espiritual, embora a gente não seja amigo de um ligar para o outro toda hora. É sempre muito bom quando eu estou com ele. É uma pessoa que amo demais e admiro mais ainda como artista.
O Beto foi talvez o primeiro grande amigo do Clube da Esquina. É outro artista que eu admiro. Na verdade, se eu for falar de admiração, eu sou fã de todos, acho todos geniais. O Beto é um dos mais geniais, as pessoas que gostam do Beto sabem o valor que ele tem. O Beto mostrou pouco, pelo tanto que eu acho que ele tem a mostrar. As coisas que eu já vi esse menino fazer quando a gente começou a tocar… É um cara que toca todos os instrumentos, que compõe com uma sensibilidade absurda. Como pessoa, é de uma integridade que eu admiro muito, tem lá uma maneira meio doidona de viver, de ser, mas eu acho que isso é um charme da vida dele, e é um grande artista.
O Lô, o que dizer do Lô? Um cara genial, que eu acho tão genial quanto o Milton. Não é a toa que eles fizeram o “Clube da Esquina 1”. A genialidade que o Milton tem por um lado, o Lô, que entrou com aquelas harmonias novas, tem para o outro. É novo. Qualquer cara do mundo que for ouvir as harmonias do Lô vai falar que ali tem uma coisa diferente, tem um cara que criou alguma coisa. Então é outro grande artista.
Tavinho Moura é um músico que é outro gênio, já ligado à terra, à cultura, um cara que pesquisou a cultura mineira e brasileira. O cara é uma enciclopédia das tradições brasileiras e mineiras e um compositor surpreendente. Tocar com o Tavinho também é uma aula, porque as harmonias do Tavinho são absolutamente inusitadas, é muito difícil aprender as harmonias do Tavinho (risos). Tem uma música que eu gravei do Tavinho Moura que é “Noites de Junho”, que eu fico louco pra tocar, mas eu fico pensando que até aprender essa harmonia vai ser uma coisa… Toninho Horta é outro gênio, é maravilhoso, um músico que pegou a música mineira, incorporou o jazz a ela e influenciou gente do mundo inteiro. E aí não dá pra falar de todo mundo. Tem gente como Telo Borges, tem o pessoal do 14 Bis, o Vermelho eu acho um grande compositor. É um cara que eu acho que falta fazer um trabalho para mostrar o lado de compositor dele, da grande influência erudita que ele tem. Ronaldo Bastos, um letrista maravilhoso que foi importantíssimo no Clube da Esquina. O Márcio é o criador, é o grande criador do Clube da Esquina com o Milton, talvez tenha sido a pessoa que descobriu o Milton e eu acho o letrista mais surpreendente. Fazer letra com o Márcio é sempre um mergulho em uma coisa que você jamais imaginaria – ele faz aquelas letras geniais dele. Os Borges: é um celeiro de craques, de músicos, é muita riqueza junta.

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Clube da Esquina

Que bom que está acontecendo essa coisa do Museu do Clube da Esquina, tem que preservar mesmo, tem que mostrar pras novas gerações o que isso significou, porque isso vai influenciar eles também. Eu vejo a curiosidade da nova geração de músicos mineiros em saber o que aconteceu, em aprender as músicas, em conhecer a gente, em ir aos shows e sonhar com o “Clube da Esquina 3”, que é o sonho de todos os fãs – que o Milton volte a fazer isso. Quem sabe ele faça isso um dia? Tomara. E aí tem uma nova geração de gente que está agregada ao Clube da Esquina, novos compositores maravilhosos. Minas é muito rica, a cultura mineira é uma coisa que só dá orgulho na gente.

TRABALHO
Parcerias

Só uma coisa que eu não falei: eu não falei do Brant, desculpa. O Brant é o pai de todos. Começar com uma letra chamada “Travessia”, não precisava saber mais nada. Desculpe…(risos).

FAMÍLIA
Irmão

Eu sempre quis que o Cláudio fosse músico, quando eu já estava ligado à música e ele não queria muito na época, era garotão. Mas quando ele me viu tocando n’O Terço e começou a conhecer o pessoal – ele sempre foi muito ligado no Lô – aí acendeu uma luz. E tem aquele papo que o Lô virou pra mim e falou: “Seu irmão está tocando muito”. Eu não sabia, ele escondia de mim. Mas aí eu dei a primeira guitarra, dei a segunda guitarra, chamei pra tocar comigo e a gente tem uma coisa muito bonita juntos, tocando. Ele sempre me surpreendeu muito como músico, é um excelente guitarrista e está me surpreendendo agora como compositor. O Cláudio está compondo muito bem, a gente tem um estilo muito parecido, a voz é parecidíssima, e como compositor eu acho que ele tem umas influências minhas, mas também de todo esse pessoal do Clube da Esquina, porque ele também conviveu com muita gente.

C

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Avaliação

Se falou muito disso, que se valorizam muito os movimentos que aconteceram no Brasil da MPB, da Tropicália, da Bossa Nova e se falava pouco do Clube da Esquina. Eu lembro que na época se citava muito até uma declaração do Caetano, que eu não sei exatamente o teor exato, em que ele dizia que achava o Clube da Esquina mais importante que a Tropicália em termos musicais. Eu concordo plenamente, eu fui um fã da Tropicália e acho que em termos musicais não dá para comparar a riqueza do que se foi feito aqui. Acho que a Tropicália foi muito mais importante em termos estéticos, políticos, uma coisa de postura, de atitude, tem músicas maravilhosas, mas eu acho o Clube da Esquina mais importante. Se não mais importante, pelo menos com a mesma importância. Se falava pouco do Clube da Esquina, e nos últimos anos eu tenho notado que está se falando mais. Este movimento é importante para resgatar isso e levar essa informação para as novas gerações.

TRABALHO
Avaliação

É, cada vez mais eu acho que escolhi a carreira certa, posso dizer que as coisas sempre aconteceram naturalmente pra mim, acho que nunca foi difícil pra mim, porque eu sempre fui pelo caminho certo. Às vezes, as pessoas falam: “Você nunca estourou com artista”, mas eu nunca procurei isso, tenho procurado achar o caminho certo. Claro, às vezes a gente tropeça aqui, tropeça ali, mas isso tem me trazido sempre felicidade, sempre realização. Então a música pra mim é tudo na minha vida, me trouxe os amigos, os amores, os bens materiais, e a felicidade de estar fazendo o que eu gosto.

Fale na Esquina

9 Mensagens para Flávio Venturini

  1. Rosilda Ferreira disse:

    Meu nome é Rosilda, sou de Brasília, curto bastante o trabalho do Flávio Venturini. Achei bastante interessante o depoimento e feliz por saber que o Flávio gosta do que faz, pois vive a música com paixão e transmite para os seus admiradores a energia positiva das suas canções.
    Desejo sucesso, paz, sáude e harmonia sempre……
    Bjos – Rosilda

  2. ilze disse:

    Flavio, simplesmente amo suas musicas, amo seu romamtismo e amo seu jeitinho tinido, quer casar comigo???

    bjs
    Ilze

  3. Sara Pomar disse:

    Flávio Venturini, não só é um Patrimônio do Brasil, como é um Patrimônio da Humanidade! É o melhor compositor. Considero um Gênio! Junto com o Beto Guedes são os dois que eu mais amo! Tenho o maior orgulho desse grande músico ter nascido no nosso País! Obrigada Flávio por todas as canções, passadas, presentes e futuras!

  4. monica cristina disse:

    Flávio sou sua fã desde criança,tenho 46 anos,é baita tempo!mas música boa é atemporal e as suas são assim,parabéns!Ah!.. seus olhos são lindos!Bjs!

  5. rejane disse:

    Oi Flávio, eu gosto muito das suas músicas, principalmente "Céu de Santo Amaro, Essa música quando vc canta eu me sinto feliz. Eu acho que todas as mulheres gostariam de ter um homen cantando essas canções com tanta paixão por nós.rs um abraço enorme.

  6. Vinicius disse:

    Como musico…..E hippie amante da vida…eu tenho muita adimiracao pela vida particular do Flavio e pelo seu Trabalho…sou de Brasilia e agora moro nos Estados Unidos…e ate hoje me mantenho ligado no trabalho do Flavio….a ultima vez que o vi foi en 88 em Brasilia com o Toninho Horta…Parabens Flavio por tudo…e as vezes a jente tem que tirar um ricso e seguir sozinho…eu tambem fiz isto…The best!!!

  7. Dante disse:

    Falar sobre minha admiração pelo Flávio Venturini aqui é impossível, pois o espaço não seria suficiente. Curti tudo o que ele fez, desde o disco 14 Bis (1979) e curto até hoje tudo o que ele faz.
    Só uma observação. No texto acima está escrito na fala do Flávio Venturini que "Em 1985, eu gravei o “Noites com Sol” e dois anos depois, o “Beija-Flor”. Só que o disco "Noites com Sol" foi gravado em 1994, pela Vela. No ano de 1985 ele gravou o disco "A Nave Vai", pela EMI/Odeon, mas com o 14 Bis, grupo que ele ainda integrava. Uma gravação próxima de 1985 foi a do disco "O Andarilho", gravado pela (EMI/Odeon), no ano de 1984.

  8. Dante disse:

    Falar sobre minha admiração pelo Flávio Venturini aqui é impossível, pois o espaço não seria suficiente. Curti tudo o que ele fez, desde o disco 14 Bis (1979) e curto até hoje tudo o que ele faz.

  9. Vânia disse:

    Flavio, te conheci num show do Beto Guedes no camarim do Canecão há aproximadamente 32 anos atrás. Sou completamente apaixonada pelas suas músicas, principalmente as instrumentais. Jardim das Delícias é sempre uma viagem pra mim. Você devia estar num dia apaixonante quando fez essa música. Qua Deus te dê muita inspiração, sucesso e saúde para poder te ouvir tocar e cantar essas maravilhas. Parabéns pelo teu trabalho. Bjs Vânia