Guttemberg Guarabyra

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, data e local de nascimento

Meu nome e Gutemberg Nery Guarabyra Filho. Nasci em 20 de novembro de 1947, Barra do Rio Grande, Bahia.

FAMÍLIA
Nome e atividade dos pais

Gutemberg Nery Grarabyra e Juracy Sampaio Guarabyra. Meu pai era pastor batista, missionário e minha mãe, mulher de missionário, organista da igreja, aquelas coisas todas. (risos)

Iniciação musical
Eu começo a gostar de música, justamente por causa da minha mãe. Porque ela era organista da Igreja. Naquele tempo o meu pai era missionário no sertão do Rio São Francisco e não tinha luz, nada, e o instrumento dela era um órgão de fole, que é tocado com os pedais a ar. E ela ensaiava muito em casa e eu gostava de aproveitar o colo. Enquanto ela tava pedalando, que era o colo mais, balançante, mais gostoso, era um colo rede. (risos) E ficava ali, com aquilo, com o som daquele órgão também no ouvido. Porque ela ensaiava e eu ficava, o som vinha justamente de baixo e eu ficava com o som no ouvido mesmo. E aí sempre gostei de música, acho que por causa disso. Aí comecei a cantar muito cedo na igreja, porque filho de pastor sempre tem que ser dado como exemplo, aquela coisa. Eu acabei formando uma dupla com a minha irmã, uma dupla de cantores de hinos batistas. A gente cantava à capela nas igrejas, depois passamos a ser convidados para ir a outra igreja cantar. Então, desde que eu me conheço, calça curta, eu estou num palco cantando. Sempre foi assim. (risos)

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Profissionalização

Olha só, a gente sempre cantando, depois briguei com a Igreja, não quis mais saber de igreja, enchi o saco mesmo de religião. Porque eu tive uma overdose, esse negócio de ser filho de pastor é fogo. Você tem que engraxar o sapato no domingo cedo, só porque tem que ir à igreja. É fogo, enchi o saco terrivelmente. Comecei só a cantar com os amigos mesmo nas baladas, baladas do sertão. Ficar até três horas da manhã, numa lua enorme, cidade sem luz, cantando, indo na casa das gatinhas mais chegadas e cantando, e tal. Aí eu cantava de tudo também, naquele tempo, desde Altemar Dutra até Caymmi, porque você tinha que cantar as músicas pra você e pra platéia também. E assim fui fazendo a vida de músico, completamente diletante e deleitante. Até que eu resolvi fazer uma, com o meu irmão mais velho, Gilson Guarabyra, ele sempre escreveu muito bem, ele é hoje redator de publicidade, aquelas coisas. Mas ele sempre foi muito bom poeta, excelente poeta, contista. Eu gostava muito das coisas dele. E ele inventou um show chamado Canto de amor à Bahia. Ele me mostrou o texto, isso deve ter sido, olha só, eu sou ruim de data pra caramba. Sei lá, mas era ali 1965, 1964. Eu era muito novinho, devia ter uns 16 anos, 17, por aí. E ele me veio com esse texto, eu gostei do texto, o texto era baseado em Jorge Amado e adaptava e se chamava Canto de amor à Bahia. E em certo momento, ele conduzia o texto de Jorge Amado como se fosse o Jorge Amado, ele enxertava o texto de Jorge Amado e conduzia pra uma música qualquer que falava da Bahia, por exemplo, ou de coisas negras. Então tinha muito Caymmi, tinha Edu Lobo, A mão livre do negro, do Edu Lobo com Ruy Guerra, aquela poesia que fala sobre artefatos negros, Carcará que naquele tempo estava começando a carreira, essa música que tinha sido lançada por Maria Bethânia e Nara Leão, no Teatro Opinião no Rio, naquela época mesmo. Então, eram umas 15 canções brasileiras, de folclore tudo, e entremeadas com homenagem à Bahia, com o texto de Jorge Amado, e essa coisa toda. Aí eu disse: “Vamos encenar aqui, em Bom Jesus da Lapa?”. Que nessa altura eu já estava morando em Bom Jesus da Lapa, onde eu fiz os primeiros estudos. Aí: “Vamos! Vamos encenar”. Ele me pediu ajuda, eu juntei aquele monte de amigos, os bebuns das serenatas: “Vamos trabalhar, cara!”. Tinha muito colegial, muita gente, estudante. Tinha dois colégios lá, eu gostava muito de conviver com eles, eu fazia muita coisa com os dois ginásios, que eram rivais, mas eu fazia brincadeira com os dois. Por exemplo, quando tinha prova sobre um tema, eu recebia encomenda de umas 14 redações, sabe como é que é? Então, eu fazia as redações de todo mundo. E eu tinha que fazer com o mesmo tema redações diferentes. Então, isso foi um belo exercício na minha vida. Quando eu chegava lá e via que não tinha mais o que falar do mesmo assunto, por exemplo, o pingo de água, eu mandava uma poesia. A menina chegava lá com uma poesia em forma de redação. Umas tiravam nota alta, outros tiravam nota muito baixa. (risos) E dependia de quem chegasse primeiro, eu acho. Ou de uma idéia muito boa ocorre lá na décima redação. (risos) Então, eu tinha um contato muito grande com eles, já sabia mais ou menos quem gostaria de cantar e comecei a ensaiar um coral enorme com estudantes dos colégios. E tinha uma coisa muito interessante em Bom Jesus da Lapa. Eu era a única pessoa do meu grupo ali mais urbano, que gostava de ir pro campo mesmo, longe, ouvir música de caboclo. Às vezes eu ficava duas horas da manhã no banco da praça, e era escuro e nesses lugares que não tem luz elétrica, duas horas já é realmente altíssima madrugada. Não tem viva alma na rua e eu me recusava a ir pra casa e ficava lá num banco parado. E comecei a ouvir, sempre ouvia os batuques de longe, que eram as festas de caboclo num campo muito longe. Ora vinha mais alto, ora sumia. O vento levava aquele som pra lá e pra cá. Até que eu resolvi começar a visitar esses lugares. Eu andava de madrugada, mais muitas léguas até alcançar a fonte do som. E chegava lá e ficava. Comecei a ficar até conhecido nessas festas. Toda vez que eu ia, quando eu chegava o pessoal já dizia: “Chegou ele!”, já comemoravam. E eu encostava em uma janela qualquer lá. E sempre fui apaixonado por aqueles tambores, o pessoal toca muito. E o pessoal da cidade não tinha conhecimento disso. Eu aproveitei e peguei esses grupos de folclore e levei então pro palco, pra classe média da cidade conhecer como que era isso, que eles não tinham coragem de ir no campo. E foi um susto muito grande. Foi legal porque fez uma integração muito grande. Finalmente as pessoas começaram a entender as outras pessoas do campo, porque eram muito separadas. E eu fiz durante duas semanas, três apresentações em cada semana. E o grupo que eu escolhi pra cantar, era o grupo de uma ilha, porque eu descobri uma ilha onde tinha um grupo que tocava muito e as mulheres dançavam muito e cantavam muito. E a gente assim, às seis e meia, sete horas da noite, quando começava a anoitecer, iam dois jeeps, eram dois jeeps pra beira do Rio São Francisco esperar o pessoal que vinha de canoa, a gente via eles de longe atravessando e chegando. Então foi durante seis noites que nós fomos esperá-los todos na beira do rio, sabe como é que é? Aquele monte de velhinha, contava, levava, aquela produção toda. O pessoal não acreditou quando o batuque entrou no auditório, eles caíram de costas. “Mas é isso mesmo tudo que a gente tem? Essa riqueza toda que nós temos aqui?”. Eles não sabiam, então foi muito legal, foi importante. A gente se animou, que deu tudo certo, e tem uma cidade em Minas, porque o Rio São Francisco, dizem muitos, tem até um projeto de se fazer um Estado São Francisco, aquela coisa toda. Eu sou contra por causa da burocracia e porque vai aumentar um monte de vereadores e um monte de despesa. Que na verdade, culturalmente, deveria ser. Porque naquele tempo, a gente pegava o vapor na Bahia e a única maneira de chegar nos grandes centros era ir até Pirapora, pegar o trem Montes Claros e Belo Horizonte. Então, a nossa ligação era direta com Belo Horizonte, porque Salvador ficava a 800 quilômetros de distância, sem asfalto. Era completamente impossível chegar a Salvador. Então eu nunca entendi a minha capital ser Salvador. Sempre, pra mim, foi Belo Horizonte, todos os meus amigos se formaram em Belo Horizonte ou em Ouro Preto. Todo mundo voltava pelo rio, eu nunca ouvi falar de Salvador a minha vida inteira. Depois que eu ganhei o Festival Internacional da Canção, depois que eu já estava aí na vida, é que eu vim com o Capinam, ele é que me levou a Salvador, eu fui ver Salvador: “Ah, isso aqui que é a capital do Estado”. Nunca tinha visto, pra mim, minha vida era Belo Horizonte, era a capital. Engraçado, todo mundo chega e fala: “Pô, você é o baiano mais mineiro que eu conheço”. Eu digo: “Eu também! Como não?”. (risos) E todos aqueles meus amigos, toda aquela minha geração do Rio São Francisco era mineira. Mesmo até entrando pela Bahia. Bem, então nós resolvemos fazer à mesma coisa em Januária. O mesmo tipo de show, a mesma coisa em Januária. Lá fui eu pra Januária, sem conhecer ninguém, desci do vapor e tinha dois ou três amigos do meu irmão mais velho, do contista. Então eram, mais ou menos, as lideranças intelectuais da cidade, que já era um bom começo. Aí fui lá com o projeto dele, mostrei tudo. Então, falei como eu fiz em Bom Jesus da Lapa, como eu me reuni com os colégios. “Ah, então vamos ver aqui os ginásios locais.” Me levaram lá pra conversar com o diretor. Eu mostrei pra diretora: “Como é que eu vou colocar isso aqui no colégio? Não sei o que lá…” Aí, eu disse: “Olha, faz o seguinte: eu dou uma aula de música popular brasileira aqui. Junto as classes todas, eu explico desde a cantiga de roda, como que veio, tudo. Então, vira aula e na aula eu já vou conhecendo o pessoal, perguntando quem quer cantar. Então, vira um projeto de escola, o que é que a senhora acha
?”. Ela disse: “Positivo!”. Eu devia ter uns 16, 17 anos. (risos). Era muito criança. Se você visse as fotografias dessa época, eu era uma criança. E era maluco mesmo. (risos) Mas eu fiz o projeto todo lá, escolhi os corais dentro das classes. Escolhi os solistas, descobri talentos, o diabo a quatro. Aí dividi as vozes, fiz grandes vocais. Ah, uma coisa que esqueci de contar, que aconteceu também em Bom Jesus da Lapa, quando chegava perto do show, era que o meu irmão vinha, que ele morava em Brasília, ele também cantava, tinha umas músicas lá também pra ele, também tocava e me ajudava. E o Marku Ribas, que também era um garoto, que era meu amigo de Pirapora, ele vinha pra tocar bateria. Então antes, um pouco antes, eles já sabiam o roteiro e vinham. Em Januária também, lá foi o Marku. Então eu e o Marku somos amigos de infância, praticamente, sempre já trabalhando. E ele já tinha um conjunto dele de rock, em Pirapora. Ele já era famoso ali naquela região, pra caramba e eu estava começando, então ele ajudava. Então ele tocou comigo lá em Januário também, fizemos também a mesma coisa, foi o maior sucesso também. Aí naturalmente, por causa do Marku, fui pra Pirapora. Nós fomos pra Pirapora já no fim do ano, isso tudo é no espaço de um ano, mais ou menos. No fim do ano nós fomos pra Pirapora, fiz a mesma coisa, o mesmo processo, reuni os corais, fiz aquilo tudo. Lá eu tive o maestro Silvinho, que eu não sei o sobrenome dele agora, esqueci o nome dele. Mas ele estava lá e me ajudou. Eu tinha um maestro, falei: “Puxa, até que enfim alguém para organizar esses vocais melhor!” Porque era tudo na orelhada. Aí, então, a coisa ficou muito mais chique, ficou bonita, ficou mais organizada. E nós fizemos todos os preparativos e a gente pedia muita coisa emprestada no comércio pra pagar depois, pra fazer cenário, tudo. Depois com a renda do show, a gente pagava. Mas em Pirapora deu zebra. Em Pirapora só podia ter uma apresentação, por causa de um milhão de motivos lá. Porque lá o cinema era muito grande, ou não ia repetir platéia, então, era uma única noite. Mas, uma semana e pouco antes, de tudo marcado, encomendado, o cenário feito, montado no lugar, chegou um circo na cidade. A primeira vez que Pirapora via um elefante. Ele marcou a apresentação para o mesmo horário do nosso show. Então nós ficamos… (risos) Só tinha os parentes do pessoal que cantava com a gente. Foi um prejuízo enorme, foi um fracasso bem grande. O resultado é que eu fiquei de refém na casa do Marku, porque eu precisava pagar aqueles comerciantes, aquele negócio todo. Então, algumas lâmpadas eles aceitaram de volta, embalamos tudo de volta direitinho. Mas ficou faltando grana. Meu irmão foi pra Brasília arranjar uma grana pra pagar e eu fiquei meio de refém. Eu era a dívida em Pirapora. Então comecei morando na casa do Marku, no quarto dele, que era bacana, não sei o que lá e acabei na garagem, sozinho. Porque vai passando o tempo… (risos) O pessoal dizia: “Pô, será que você…”. “Claro que posso!” (risos) Então acabei com as toalhas, secando lá na garagem e tal. Mas eu me diverti muito, porque nesse tempo eu fiz amizade muito grande com o Marku, ele sempre foi muito amigo. Tinha o Haroldo também de Pirapora. O Haroldo também canta, tem discos hoje. E a gente, eu me divertia muito, foi uma época excelente. Até que um dia não teve jeito, eu tinha que sair de lá e eu peguei um ônibus de madrugada e fugi.

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Mudança para o Rio

Saí meio nas escondidas e fui pra onde? Pra Belo Horizonte! (risos) Fiquei em Belo Horizonte um tempo, depois fui pro Rio de Janeiro onde meu irmão trabalhava com o sindicato, um outro irmão aqui que era político. Ele já era presidente do sindicato dos trabalhadores em posto de combustíveis, no Rio de Janeiro, com 25, 26 anos. Eu acho que ele foi o presidente de sindicato mais jovem do Brasil, talvez da história. Pelo menos há pouco tempo ainda era, de grandes sindicatos, e lá eu fui morar com ele, porque era a maneira mais fácil e não conseguia retornar pra Bom Jesus da Lapa. Eu estava querendo voltar, mas cada vez eu ia pra mais longe. E lá ele me apresentou muita gente no final, quando ele descobriu que eu fazia música, nesse tempo eu já fazia umas musiquinhas e tal. E ele era de uma célula do Partido Comunista, e ele tinha ligação com os intelectuais da Zona Sul do Rio de Janeiro, como poetas, Ferreira Goulart, aquele pessoal. E eu fui cantar na Feira de Música do Teatro Jovem, justamente por influência dele. Porque era um grupo esquerdista que fazia uma apresentação toda sexta-feira, no Teatro Jovem Botafogo, lá no Rio de Janeiro, onde um compositor já da ativa, mais veterano, famoso e tal, apresentava um compositor jovem. Lá que eu conheci o Sidney Miller, que eu conheci o Sá. Porque todo mundo ia assistir os mais jovens lá. E aí um assistiu ao outro também. E quem me apresentou, em primeiro lugar, foi o Paulinho da Viola. O Paulinho foi o primeiro que me apresentou. Ele disse: “Olha, aqui temos um compositor…” Aí ele lembrou que ainda não tinha decidido comigo que estilo de composição eu era. Ele tirou o microfone e eu tive que me definir em cinco segundos. (risos) Eu olhei pra cara dele, pra mim e disse: “Rural”. Aí ele disse: “Um compositor rural”. (risos) Então eu fiquei como compositor rural, foi uma decisão de cinco segundos. (risos) E eu cantei, só podia cantar três músicas, eu acabei cantando sete. O povo aplaudindo e não me deixava sair do palco. Foi bem apoteótico, foi legal. E um moço que tava na platéia chamado Nelson Lins e Barros, que foi letrista do Carlos Lyra, era o único musicólogo brasileiro formado, naquele tempo, ele se formou nos Estados Unidos. E ele é um sujeito muito simpático e amigo de todo mundo. Sabe aquela pessoa que é o grude de uma classe, todo mundo se reúne ao redor dele? E ele reunia todo mundo ao redor dele num bar no Rio de Janeiro, que existe até hoje, o Cervantes. De modo que ele me pegou, me levou pra casa dele, falou: “Não, você não volta mais lá”. Porque eu morava no subúrbio, longe, e quando eu perdia o ultimo ônibus, eu tinha que dormir na rua mesmo, eu encostava num bar, botava a perna em cima do violão, dormia ali no canto. E ele me levou pra casa dele. Lá ele me apresentou para o Sérgio Cabral, que tava com o Max, eles estavam abrindo aquele, o Teatro Casa Grande, na época. E foi o meu primeiro emprego. Era uma noite que nos apresentávamos eu, Sidney Miller e o Sá. Aí eu virei amigo do Sidney e do Sá e só andávamos juntos. Até que eu consegui um dinheirinho mais ou menos e tal, já começando os cachês, eu disse: “Bem, agora eu já tenho um dinheirinho pra voltar pra Bahia.” (risos) E fui embora pra Bom Jesus da Lapa. O Nelson ficou muito chateado, mas nessa época, eu já conhecia muita gente. Ele me apresentou o Edu Lobo, foi a primeira pessoa que ele me levou em sua casa. O Edu me recebeu de uma maneira inesquecível, como o Edu me recebeu bem. A gente tocou na casa dele, foi magnífico. Depois nesse bar Cervantes, que eu ia falar, se reunia todas as noites, era o Sidney Miller, o Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola… Olha o time, era toda noite, cada um com o violão na mão, apresentando uma música nova. E eu ficava maluco olhando aquilo: “Meu Deus do céu, olha onde eu estou?” E as pessoas: “Ei, toca você!” Meu Deus… Aí tocava, as pessoas gostavam e comentavam. E era uma coisa legal, nessa época a gente comentava uma coisa do outro, daquela rodinha, diz: “Pô, essa frase podia ter ficado melhor assim”. Então isso era muito bacana, nessa época… Era muito legal mesmo. E o Chico Buarque também, começando a namorar a Marieta. Eu, frustantemente fiquei de olho na Marieta, mas fui jogado de lado, assim. Ela tinha um cabelo comprido, era a coisa mais linda do bar naquela época. Mas realmente foi uma decepção, porque ela jamais olhou pra minha cara direito. E o Chico, com aquele charme todo. (risos) Mas era uma turma muito bacana. Era uma turma muito legal mesmo. E o Guerra Peixe. O Guerra morava do lado, já dirigia a orquestra do Municipal do Rio de Janeiro também. Aí tem até uma cronicazinha que eu mandei pra vocês, que conta mais ou menos a história disso aí. Eu voltei pra Bahia, voltei pra Bom Jesus da Lapa, mas nesse tempo eu já tinha feito amizade com o pessoal do Grupo Manifesto, que era o grupinho dum barzinho do Leme. Era Gracinha Leporace, Mariozinho Rocha, Guto Graça Melo, Sueli Costa, mas já era outro boteco. Eu conheci depois, comecei a ficar amigo deles também, Egberto Gismonti, mas o Egberto chegou depois que eu fui pra Bahia. Voltei pra esse mesmo bar e o Egberto apareceu. Aí apareceu também o Milton. O Milton também eu conheci nesse bar. Vou conhecer nesse bar ainda, porque eu vou pra Bahia.

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Festival Internacional da Canção

Mas antes de sair, estavam abertas as inscrições pro Festival Internacional da Canção, o segundo festival, e o Grupo Manifesto me obrigou a inscrever três músicas. E duas foram classificadas. Me obrigou por que? Porque eles pegaram a minha passagem, que eu tinha comprado pra Bahia lá na rodoviária, alguém me tomou da mão e rasgou. E eu não tinha mais dinheiro pra ir… Eles disseram: “Agora a gente só dá outra passagem se você inscrever as músicas”. (risos) Voltei pra Bahia. Lá, fiquei lá uns tempos. O meu pai sempre brigou comigo, por causa desse negócio de violão, de ser artista. Tentou me convencer a deixar de ser artista novamente, aquele negócio. Dizia: “Ah, cara, vou pensar, estou voltando pra pensar, calma lá”. Mas uns três meses depois, saiu a classificação e eu classifiquei duas músicas. Aí começou a aparecer no O Cruzeiro, o velho já ficou orgulhoso. E começou com aquele negócio: “Eu acho que você deve voltar pro Rio e defender as músicas”. E eu não queria de jeito nenhum. “Eu não estou a fim, o senhor me convenceu! Nada de ser artista!”. (risos) Eu estava sempre com preguiça de sair de um lugar pro outro. “Pô, voltar de novo pro Rio de Janeiro! Meu Deus do céu…”. E saía no rádio, no O Cruzeiro, que era a revista. E o Festival naquele tempo era uma coisa de louco, sair o nome na revista já era uma coisa de maluco, ainda mais numa cidade daquelas também. Imagina a repercussão. Resultado: eu tive que voltar. (risos) Eu voltei pro Rio de Janeiro. Cheguei no Rio de Janeiro, não conseguia um cantor pra cantar a música. Aí eu perguntei pra todo mundo, convidei todo mundo que havia pra cantar, e ninguém queria cantar. E quis tentar conseguir um adiantamento numa editora, pra entregar a música pra editora administrar e um dinheirinho, porque eu estava precisando de um dinheirinho. E ninguém quis me dar dinheirinho nenhum. (risos) Falavam: “Olha, quem vai ganhar esse festival é o Milton, ou o Chico Buarque, não sei o que”. Eu digo: “Meu Deus do céu… E agora?” Resultado é que a Vitallis me deu um dinheirinho e até hoje a música está lá. Ninguém quis cantar e eu resolvi eu mesmo cantar e o boteco todo. Chamei o boteco inteiro, reunimos Gracinha Leporace, todo mundo, fomos pra lá, fizemos um vocal bonito. Oscar Castro Neves fez o arranjo, aí já ficou bem bacana. E ganhei o festival. (risos) Aí ganhei o festival, e imediatamente larguei aquilo tudo, porque apareceu uma chance de trabalhar em televisão, sempre adorei… Porque você viu como eu montei esse show, montei isso tudo. Sempre adorei dirigir, fazer programas, todas essas coisas. Apareceu uma chance na TV Tupi, eu fui para TV Tupi. E larguei a música.

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Milton Nascimento

Chegando aqui no Clube da Esquina, começa a conexão, foi quando eu encontrei com o Milton. Foi nesse bar aí, lá do Careca no Leme. Porque o Milton tinha classificado também, eu classifiquei duas músicas e o Milton tinha classificado três músicas, no mesmo festival. E ele andando por ali, vendo, ele teve que sair de São Paulo, para ir pro Rio, foi levado pelo Agostinho dos Santos. O Agostinho dos Santos, que classificou as músicas, que trouxe as músicas do Milton também pra serem inscritas, porque o Milton também é uma história meio parecida. Foi insistência do Agostinho também, que acabou inscrevendo as músicas dele. Tanto eu quanto o Milton viemos para o Festival, assim, meio, com alguém: “Pô, tem que colocar…”. E acabamos no mesmo bar. Passou por ali, ouviu falar de um lugar que tinha um bar de músicos ali, que cantava-se a noite toda e acabou nos encontrando lá. E é engraçado que, não sei qual era a conexão, porque eu já era amigo da Sueli Costa e por causa disso eu já era amigo do Toninho Horta, Juiz de Fora e tal. Conheço o Toninho desde que ele tinha 15 anos. E eu não tenho certeza se o Milton já conhecia também, de outras coisas, ou se foi… Acabou encontrando o Toninho por ali também, que os dois foram depois para Belo Horizonte, eu não sei. Então, aí tinha a Sueli, o Toninho também começou a chegar bastante, o Toninho já ia lá bastante, por causa da Suely Costa, quando o Milton chegou. Por isso que eu não sei, porque o Toninho já conhecia antes do Milton, ele já estava lá há um monte de tempo. Vai ver até que foi o Toninho que levou o Milton pra lá. Chegou de São Paulo, o Toninho já estava ali, disse: “Olha, eu estou num bar assim, assado”. (risos) E o Egberto Gismonti também, porque também estava chegando pro festival. E a gente ficava tocando ali, era uma confusão, porque não sobrava violão pra ninguém. E aí ficamos muito amigos. Eu e o Milton ficamos muito amigos. A gente começou a andar junto pra cima e pra baixo, o tempo todo. Fui padrinho daquele casamento dele, que foi quase um casamento, acabou não sendo. (risos) Ele se casou durante pouquíssimo tempo. Aliás, tem uma coisa engraçada. Telefonou um amigo nosso do Jornal do Brasil dizendo: “É o seguinte, o Milton vai ficar noivo e ele quer fazer o pedido da noiva e tal, aquele negócio todo, naquele tempo tinha aquela formalidade toda. Ele quer fazer a coisa direitinho e tal, e quer fazer num lugar, assim, que seja ele, os amigos dele. Que não tenha gente estranha. Um lugar que seja informal. Aí estava pensando se você não dá alguma reunião na tua casa, pra fazer esse ambiente, não sei o que lá…” Digo: “Ah, tudo bem…” Eu morava num apartamento em Copacabana. Disse: “Claro que sim”. Eu cheguei assim: “Que tal a gente fazer uma feijoada aqui em casa? Chamar todo mundo e tal…” Ele disse: “Pô, está ótimo, no sei o que lá…” Aí tudo bem. Arranjei uma senhora cozinheira, fui pesquisar quem era que fazia, dizia: “Vou preparar uma feijoada daquelas exemplares.” E preparei de véspera, porque feijoada boa, você sabe que se prepara de véspera. Tudo certo. No dia seguinte não apareceu ninguém, ninguém. E o Milton tinha mandado a seguinte ordem pra mim: “Não chama amigo seu, só a gente, só vai entrar você de fora…” Beleza… Então fiquei com aquela panela enorme, farofa, feijoada, aquela coisa linda no fogão, aquele perfume. A cozinheira esperando o Milton, que queria conhecer, olhando pra minha cara… Três e meia da tarde, quatro horas da tarde… Aí me ligaram… que o Milton, deu um crepe emocional no Milton, que o Milton tinha desistido de tudo. Eu disse: “Tudo bem, sem problemas. Mas agora o que eu vou fazer com essa feijoada? (risos) E com essa cozinheira que está aqui me olhando desse jeito?”. (risos) Aí, paguei o extra que eu tinha que pagar a cozinheira e tal, tomei uma cervejinha, comi, estava uma delícia. Acordei no dia seguinte cedo, com uma pessoa batendo na porta estupidamente. Campainha, batida, não sei o que lá. Eu abri, era um amigo meu, que era do Grupo Manifesto também, que ganhou o festival comigo, o Augusto Pinheiro. Ele me olhou e me deu um soco. Mas me deu um soco aqui no ombro, eu fui pra trás, quase caí. “Que é que foi Augusto?” Aí ele: “Seu isso, seu aquilo”, começou a me xingar. “Mas o que foi cara?” Isso era umas nove e meia, pra dez horas da manhã, tinha dado na rádio que eu tinha morrido no Aterro do Flamengo. Era um radialista que chamava-se Gutemberg também e o rádio noticiou que tinha sido Gutemberg Guarabyra. Então estava anunciando na Rádio Globo, ele foi o primeiro a chegar. Aí depois: “Não é possível”. Toca a campainha, eu disse: “Deve ser alguém que está sabendo que eu estou morto”. (risos) Fui olhar, era a Joyce no saguão, que era muito minha amiga, já aos prantos. Aí começou a ser o divertimento da gente abrir a porta pros outros, sabia que ia chegando, ia abrir a porta. Foi a maior feijoada que eu já dei na minha vida. (risos) Foi a melhor feijoada que eu já dei em toda a minha vida. Eu sempre quis fazer um meio de campo entre o pessoal que era meu amigo, eu era muito amigo do pessoal de Jovem Guarda, Carlos Imperial, aquela bagunça toda. Só andava em bar, sempre fui muito bagunceiro com todas as turmas. E tinha um preconceito muito grande do pessoal, dos músicos de elite, era uma coisa quase briguenta. E eu gostava muito do resultado. À noite, eu vi assim, uma escada que eu botei, que faltou cadeiras, tudo, eu trouxe uma escada, tinha uns degrauzãos, uma escada de metal, que as pessoas sentaram ali nos degraus também. Eu vi o Milton Nascimento e o Carlos Imperial batendo um papo. Eu disse: “Não acredito!” (risos) Que o Milton acabou aparecendo na minha feijoada, na feijoada dele.

Beto Guedes
E aí, quer dizer, veio os meus amigos, gente de muito tempo, muito tempo. Aí Beto, Lô, que eu conheci no Festival de Juiz de Fora. O Beto Guedes. A gente foi concorrer no Festival de Juiz de Fora e eu estava muito cansado, fui pra trás do palco e dei uma deitada assim, num canto mais ou menos. Era um palco muito grande, palco de um cinema, atrás da cortina, tudo. Nos ensaios eu dei uma deitada no chão de madeira para dar uma relaxada. Aí daqui a pouco… “Brém brém…” Freia uma bicicleta quase em cima de mim. Era o Beto Guedes. Então eu conheci o Beto Guedes quase me atropelando com uma bicicleta atrás do palco. (risos) Eu: “O que você está fazendo aqui com uma bicicleta, cara?” (risos) Aí o Lô, todo mundo… Depois excursionei com o Beto também, fiquei um ano. A gente juntou os shows, a gente abria, o show dele fechava. Depois juntava as duas bandas, eu, o Sá e ele cantavam. Excursionamos um ano. Imagina tudo que aconteceu, vocês conhecem nosso amigo Beto Guedes. (risos)

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Sá, Rodrix e Guarabyra

A historia do compositor rural é porque não tinha definição de nada. Quando eu conheci o Sá, a gente sempre pensou em fazer uma dupla, tal. Acabou não dando certo. Pensamos primeiro em fazer um trio: eu, ele e o Sidney Miller. Mas éramos estilos bem diferentes um do outro, acho que não encaixou. Depois que eu fui dirigir a TV Tupi, eu larguei a música completamente, eu acabei indo dirigir a TV Globo também, com 22, 23 anos, eu já era diretor da TV Globo. Eu fui dirigir o mesmo festival, depois fui pro México também, já como diretor de televisão, com 23 anos, menos, menos… México eu tinha 22 anos, produzindo também para a Televisa. Eu voltei e aí eu fiz um movimento na TV Globo contra a censura, que é uma coisa que tem nos livros, tem o livro do Zuza Homem de Melo que conta muito bem essa história, A Era dos Festivais. É uma história muito louca, aconselho vocês a lerem o livro, porque a história é meio complicada. Eu acabei fazendo o movimento contra a censura porque eu tive que sair da TV Globo. Quando eu saí da TV Globo, eu vim morar num apartamento em Ipanema com o José Trajano, que é esse dos canais dos esportes aí, e Toninho Neves, que é ainda jornalista de esportes. E andando por Ipanema, eu encontrei o Sá, que a gente se via esporadicamente nesse tempo, encontrei o Sá com um buggy. Ele tinha um buggy muito engraçado naquele tempo, um dos primeiros buggy que surgiram. E estranho, com o negócio alto, assim, atrás, metido no buggy uma espécie de uma prancha, uma coisa. Aí nos encontramos: “Cara o que é isso aí?”. “Cara, é a minha cama…” Ele tinha uma cama de faquir. “Mas o que é que…”. “Cara, briguei com a minha mulher, fui expulso de casa.” (risos) Disse: “Não acredito, cara. Que é que você vai fazer?” “Eu não sei, eu estou aqui. Não sei se vou pra casa da minha mãe…” Aí eu disse: “Não, vamos pra tua casa. (risos) Eu tenho um apartamento pertinho.” E ele foi pra lá, arrumamos lá o barraco, ele ficou no meu quarto, dividindo o quarto comigo. E nisso, ele tinha uma dupla com o Zé Rodrix, estava ensaiando uma dupla com o Zé Rodrix. Eles resolveram ensaiar lá em casa. E eu estava desempregado, tinha acabado de sair da Globo, e eu assistia o ensaio e é claro que eu meti bico. “Olha, esse vocal pode ser mais…” Imagina eu ficar sem dar um palpite numa coisa dessas, virou trio. Virou trio. Por acaso nós éramos amigos de uma gravadora e nós íamos fazer um disco na Odeon. Acabamos fazendo o disco do trio. E foi engraçado porque saiu o disco do trio, justamente com aquele tipo de música. Imediatamente saiu o Clube da Esquina também com aquele tipo de música. Nós saímos juntinhos, foi engraçado isso. Foi correndo cada um seu caminho, mas o pensamento ficou praticamente no mesmo tipo de harmonização. A gente foi correndo junto. Paralelos e juntos ao mesmo tempo. Aí, saímos juntos no mercado. Foi engraçado.

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Clube da Esquina

Primeira vez não que eu ouvi, eu não me lembro. Mas eu ouvia quinhentas mil vezes por dia. Nossa, todo mundo sabe de cor aquilo. É aquele disco que é como a gente ouvia os Beatles antigamente. Porque acabava uma música, você já sabia a outra que ia entrar imediatamente. Você sabe que você praticamente começava a escutar a outra antes dela começar. Você sabia a seqüência das faixas. Nossa, quem não escutou?

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Espanhola

Quer dizer, já era um pouco depois, a gente já tinha lançado o disco, já estava fazendo shows, o trio já existia e tudo. O buggy era o mesmo, estávamos voltando de um lugar, a gente foi na editora da Globo receber uma grana lá, negócio de música. E a gente tava voltando, estava com dinheiro no bolso. E quando nós passamos perto da Praça Nossa Senhora da Paz, a mesma praça, aliás, que tinha acontecido, visto o Sá naquela situação. E tinha muita gente do exército, porque naquele tempo da ditadura e tal, o exército estava na rua o tempo todo. E o trânsito todo parado e eles revistando carros, não sei o que e tal. Geralmente isso acontecia quando os guerrilheiros assaltavam bancos e tal, eles cercavam a área, 99% ainda bem atrasados, aquela coisa. E a gente disse: “Puxa, aqui vai ser fogo. Vamos ter que esperar um bocado aqui, então vamos andando”. Tranqüilo, quando nós estamos quase chegando na patrulha, apareceu uma menina linda, cabelos compridos, seus 17 anos, meteu metade do corpo, assim, pra dentro do buggy e disse: “Va?!”. E apresentou a gente uma multidão de ácidos, LSD. Aí eu olhei… Olha o quadro: eu estava atrás, o Zé Rodrix na frente, o Sá aqui. E ela botou justamente no banco de trás. Aí eu olhei aquilo, eles olharam pra trás e pra aquilo, assim. Eu olhava e o cenário pra mim era aquela mão cheia de ácido e aqueles caras do exército passando. Eu disse: “Meu Deus!” E olhava pra cara dela, sabe aquela coisa inocente. Aí eu cheguei: “Quanto é?” Ela disse: “Ah…”, não sei, deu um preço qualquer. Peguei, derramei todos na minha mão, segurei, peguei o dinheiro da editora e paguei a ela. Disse tchau e foi embora. E eu fiquei com aquilo na mão e passei. (risos) Pelo menos limpei a cara dela. Eu fiquei, o que bateu na minha cabeça, tinha alguns segundos pra resolver se eu livrava a cara dela, se me botava em perigo ou não. Acabei passando. Os caras olharam, assim, deram uma conferida, fomos embora. Claro que eu freqüentava esse Pizzaiolo, que era um bar só de malucos, malucos barra pesada, em Ipanema também. Naquela noite o bar ficou mais maluco ainda porque eu cheguei lá e distribuí tudo. (risos) Mais tarde, uma semana depois, nesse mesmo bar de malucos, eu e o Toninho Neve, esse que morava comigo, quem encontramos dormindo na sarjeta? A mesma menina. Eu disse: “Olha Toninho, essa aqui que me vendeu os ácidos”. Eu tinha contado já a história pra ele. Ele disse: “Não acredito cara!”. Aí fomos lá, acordamos ela. “Puxa, o que é isso?”. Ela toda esculhambada. Levamos ela pra casa, ficamos naquele negócio de pai, dando bronca. E ela foi ficando legal, dormiu lá umas noites. A mãe dela já telefonou um dia, falou com a gente. Aí eu disse: “Não, está tudo bem, ela está numa boa”. Nós fizemos uma puta amizade e ela foi ficando legal. Aí acabou casando com um surfista, depois casou com um outro surfista, depois se separou desse e se casou com um terceiro surfista. Ela casou com três surfistas! E com o último, ela casou de verdade, com vestido de noiva e tudo, até me convidou pra padrinho, eu não fui, claro. Ela entrou nesse bar de malucos, vestida de noiva, com o casamento todo atrás, porque eu tinha que ser padrinho mesmo. Então, saímos do casamento, que eu fui com aquela noiva junto. “Meu Deus do céu, o que é isso?” Fafá é o nome dela, Fátima. E depois ela se separou desse surfista. Isso era muitos anos depois a gente se encontrou, mas a gente ficou um monte de tempo sem se ver. Quando eu vi, ela já era uma mulher linda, tudo. E nós quase tivemos um caso. Quase tivemos, mas não tivemos, ficou aquela coisa. Uma noite, ficamos. (risos) Hoje em dia seria ficamos. E eu vim morar em São Paulo e uma noite eu estava num bar que eu costumava ficar até tarde, e ficava sozinho lá. Era o Dinhos Place na Avenida Morumbi, que era perto da minha casa. A gente ficava lá até o bar fechar, tinha um cara que ficava sozinho comigo. E uma noite, depois de beber, acho, que metade de uma garrafa de Parfait d’ Amour, que era um licorzinho gostoso, eu fui embora pra casa e cheguei lá fora e me deparei com a realidade. Era um daqueles invernos em São Paulo que faziam dois graus e eu não tinha ido preparado. Bem, eu morava perto do Dinhos Place da Avenida Morumbi e gostava de ficar lá, aqui no Brooklin em São Paulo, até altas horas da noite. E como eu já era muito manjado lá, ficava aquele lugar enorme fechado e apenas um garçom comigo batendo papo, o gerente. E uma noite eu saí, o inverno lá fora estava muito rigoroso, dois graus. E eu me lembro que eu via na televisão aqueles mendigos sendo recolhidos, um já tinha morrido. E aquilo me deixava bastante impressionado. E eu no caminho pra casa, eu morava a uns sete quarteirões, oito, eu certamente, tive certeza que eu não ia conseguir chegar em casa. E começou a passar pela minha cabeça que eu ia acabar deitado em algum lugar, bêbado e ia morrer congelado no inverno paulista, uma morte inglória: “Meu Deus, mas eu vou morrer aqui?”. Lembrei que o pessoal da minha banda, naquela época era o Flavinho Venturini, o Moreno, o Magrão, que acabou depois virando o 14 bis, que era a banda da gente naquela época, moravam num lugar um pouquinho fora da rota, mas mais perto. Eu disse: “Eu vou pra lá. Faço um pit stop e depois vou pra casa”. E desviei a rota e fui pra lá. Estava tão frio, que eu bati na porta durante muito tempo e ninguém tinha coragem de vir abrir. Porque um ficava sempre pensando que o outro ia abrir e ninguém vinha abrir. Até que o Flavinho que veio, abriu, só destrancou a porta e saiu correndo de volta pro quarto, de tanto frio. E eu, fechei, tranquei a porta e saí correndo atrás dele. Cheguei no quarto dele, tinha um vermelhão daquele aquecedor lindo. Aí coloquei perto dele e nossa, comecei a me esquentar. Mas cara, estava muito frio mesmo. Aí, pra puxar um papo, perguntei pra ele: “Mas e aí, o que você está fazendo? Alguma coisa, alguma música?” Ele disse: “Ah…” Ele puxou debaixo da cama uma viola de 12 e tocou o que era “Espanhola” pra mim. Mas eu estava muito bêbado. Engraçado que eu estava pensando nela: “Puxa, a Fafá…” E medindo: “Puxa, fui bobo ou não fui? (risos) Devia ter encarado ou não? Que saudades” Aqueles negócios. Aí eu disse: “Você tem um papel e um lápis aí?” E o Flávio: “Tenho”. Aí peguei e fiz de uma só essa letra. Conforme ele tocava, eu fiz, achei que já estava legal, tanto a letra quanto eu, entreguei pra ele e fui embora pra casa. No dia seguinte ele me acordou dizendo que a letra tinha ficado ótima, mas eu não lembrava que eu tinha passado na casa dele. (risos) Então, aquela letra é aquilo mesmo. Tanto que eu vejo pessoa cantar Espanhola e digo: “Putz, porque que eles não lêem isso direito, a música. Aquilo não é meu! Eu te amo, eu te amo…” É uma confusão. Mas é tocante porque é daquele jeito que a gente pensa, eu acho. Acho que é por isso que toca. Porque se for no âmago mesmo do sentido, ela se perde bastante. (risos)


Clube da Esquina: avaliação

Olha, o Clube da Esquina é uma coisa, como é que eu vou te explicar? Acho que o mundo todo precisava, cada uma das suas nações, depois de tudo que se aprendeu com os Beatles. Pra mim, o Clube da Esquina é filho de Beatles, na minha concepção. Acho que cada nação precisava de continuar aquilo o que tinha aprendido com os Beatles. E o que é que os Beatles fizeram? Os Beatles fizeram o repensamento do mundo inteiro. Eles obrigaram as pessoas a repensar. Eles quase que criaram uma outra realidade. Porque o que é a realidade? A realidade é aquilo que você acha que é a realidade, na verdade. Porque os fatos não explicam a realidade, o que explica a realidade é o conjunto de coisas que acontecem ao seu redor, na verdade. E eu acho que o Clube da Esquina foi isso, ele criou essa realidade pós-Beatles também, que é a maneira da gente começar a repensar nossas culturas sem preconceito. Utilizando uma linguagem mais universal e com uma brasilidade profundíssima. Então eu acho que é esse o grande filhote de Beatles que é o Clube da Esquina e que foi esse repensamento. Então aí não é uma coisa só de música, é quase que uma filosofia completa. Eu acho que é isso.

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Clube da Esquina

Já estava no tempo disso acontecer. (risos) Essas velharias têm que virar museu mesmo. (risos) Esses caras ficam aí, esses Márcios Borges, cansado de viver, diz: “Vamos virar museu!”. Ele mesmo está se virando museu. É fantástico, é claro que é fantástico. Puxa vida, essas lembranças todas, são coisas que não dá pra… E como o Brasil não tem mesmo essa cultura de você guardar mesmo a memória brasileira, muito fugidia, então, eu acho que é um dever mesmo, pra marcar e as pessoas saberem como foi, e a importância e tudo. Tem que haver, é uma obrigação.

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Uma mensagem para Guttemberg Guarabyra

  1. Salésio disse:

    Guarabyra, Onde vejo sua agenda de shows?