Helson Romero

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome/ Local e data de nascimento

Meu nome completo é Helson Romero de Campos Souza. Nasci em Três Pontas, no dia 4/6/1949.

Eu tenho um apelido. Eu sou conhecido popularmente na cidade – quiçá no país! – por Jacaré. Esse apelido é de futebol. Não tem relação com o lance da boca – que eu tenho a boca grande. Eu jogava futebol no time da cidade e estava morando no Rio de Janeiro, e andei treinando lá no Rio, no Fluminense. E naquela época eu jogava aqui, em Três Pontas, quando apareceu um jogador de futebol, no Bangu Futebol Clube, conhecido por Helson Jacaré. Ele chegou até a ser convocado para a seleção brasileira, mas não deu em nada. O nome dele apareceu na mídia: “O Helson Jacaré, do Bangu, chamado para a seleção”. Aí eles tiraram o meu Helson e começaram a me chamar só de Jacaré. Na cidade eu passei a ser conhecido como Jacaré. Helson Jacaré, até hoje. Se alguém chamar por Helson Romero, aí é perigoso. Dentro da cidade, que é pequena, as pessoas não conhecem quem é o Helson Romero. Mas sabem quem é o Jacaré. E de Jacaré virou Jaca, que virou Dajaca. O Bituca, quando liga para mim, não fala Helson nem Jacaré. Ele liga e fala: “Dajaca”.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Pais

O meu pai é Ávio de Souza, já falecido. Minha mãe, Havanir Brito Campos Souza, popular dona Havanir.

MÃE
Na época em que minha mãe nasceu, em mil novecentos e nada, o meu avô a registrou no Cartório de Registro Civil como Maria Brito Campos Souza. E depois, parece que foi minha avó que levou ela para batizar. E antigamente eles não decidiam os nomes de comum acordo. Tinha uma briga lá. “Vai chamar Maria.” “Vai chamar Havanir.” Aí meu avô registrou ela no civil como Maria e minha avó registrou-a com o nome de Havanir. Então hoje, na cidade, ela é conhecida como Havanir. Só que nos documentos todos,nos bancos, no título de eleitor, ela tem que usar o nome de Maria. Mas na cidade ninguém sabe quem é Maria Brito; sabe quem é a dona Havanir.

PAI
O meu pai foi um dos maiores alfaiates da cidade. Ele aprendeu o ofício de alfaiate quando criança e depois montou a maior alfaiataria da cidade. Todo mundo fazia roupa com ele. Hoje, você só compra roupa feita, a roupa é industrializada. Você não faz seu terno, sua calça, você compra tudo pronto. Mas o meu pai vestiu a cidade inteira aqui de 1930 até um pouco antes de ele falecer, em 1995. Ele ainda trabalhava no ofício de alfaiate. A alfaiataria teve dois locais, mas oficialmente essa alfaiataria funcionou na Rua Dona Isabel, na casa que minha mãe ainda mora até hoje. Ela é viúva, mas ainda mora nessa casa até hoje. Os filhos não ajudavam na alfaiataria. Eu me recordo que o agricultor sempre manteve o filho na fazenda; quando moleque, não tinha muito essa preocupação de os pais botarem os filhos para aprender o seu próprio ofício, ou ajudar no trabalho não. Lá em casa nós somos seis filhos, mas nenhum participou das atividades comerciais dele. Bem porque também éramos menores. Era só escola mesmo, trabalho não tinha.

Voltar ao topo IRMÃOS

Paulo, Lenilson…

Nós somos cinco irmãos e uma irmã. O Bituca costuma dizer: “Os Jaca são five”. Tem cinco jacarés e uma lagartixa lá na casa. E era aquela escadinha. Eu sou o mais velho; depois vieram o Paulo, o Lenilson e o Francisco; e depois, essa menina, a Vanizinha. Depois veio o Jaquinha, que é o Alexandre. A nossa convivência era normal, os cinco. Os quatro filhos em um quarto, a menina no outro quarto. Era aquele berçário. Três dormiam no mesmo quarto e tal.

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Brincadeiras de criança

Eu gostava sempre de bola. Eu estudava piano na mesma escola que o Bituca estudava, da dona Walda Tiso, mãe do Wagner e do Gileno Tiso. Às vezes até coincidia que eu ia para a aula de piano e quando eu estava saindo, o Bituca estava chegando para estudar. Mas hoje eu não toco nem o “bife”.

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Walda Tiso / Bituca /

A dona Walda era uma das melhores professoras da cidade, até porque tinham poucas também. Tinha o Duílio, o Couto – que também é da família Tiso – e a dona Walda. Era uma das boas professoras, se não a melhor. Ela já faleceu. Das aulas de piano eu lembro mais das bronca dela, de eu matar a aula, porque eu saía para assistir à aula e ia para o ginásio jogar bola, porque aqui tinha um ótimo ginásio. O Bituca foi aluno também desse ginásio, São Luis dos Irmãos Canadenses. Esse ginásio hoje já não existe mais, mas ele ficou na saudade. Ele formou excelentes profissionais aqui em Três Pontas. Tinha internato, vinha gente do país inteiro. Os pais traziam os filhos para estudá-los em Três Pontas, haja vista a qualidade de ensino que Três Pontas tinha.
Voltando lá na dona Walda, que o que eu mais lembro é da bronca que no outro dia ela dava: “É, não veio estudar, você não vai aprender nada desse jeito!”. E dava mesmo as duras. Se chegasse, ela queria até puxar a orelha.

”Bituca” (Milton Nascimento)
O Bituca é mais velho do que eu de cinco pra seis anos, então pesa na diferença etária. Quando eu nasci, ele já tinha sido trazido para Três Pontas. O Milton está no lugar de primo, porque minha mãe é irmã do meu tio Josino, que criou o Milton. Quando o Zino chegou do Rio com o Milton, passaram-se três, quatro anos que ele já morava aqui, e foi quando eu nasci. Então tinha uma diferença de idade com o Milton. Quando eu era nenê, o Milton já me pegava no colo, me pajeava. Quando o Milton começou a brincar com a sanfoninha, eu comecei a me aproximar dele, já andava. Por exemplo, o Milton já estava na fila da matinê e eu não sabia nem o que era matinê no cinema! Ele gostava muito e a tia Lílian ia levar ele no cinema, para a matinê do domingo. Mas depois a gente foi aproximando as idades, ele foi ficando mais molequinho, e eu fui me aproximando culturalmente, aprendi a ler, aprendi a fazer arte também. Aí começamos a nos aproximar.

Voltar ao topo PARENTES

Tio Zino

O tio Zino gosta de contar uma história, porque ele me tem muito em conta. Eu o tenho como segundo pai, porque a gente sempre foi bem próximo. A minha tia Lílian que, infelizmente, não vai caber nesse registro do Museu, porque ela já se foi – inclusive ela morreu no mesmo ano que meu pai morreu –, me tinha em conta também, como filho. Ela me falava assim: “Ah, essa é minha maionese…”, porque gostava muito de mim. E quando eu nasci, foi o primeiro parto da minha mãe, e ela não tinha costume com nenê, com criança. E o tio Zino foi dar o apoio para ela. Então foi ele que passou a primeira noite comigo. Quando as pessoas chegam e eu estou próximo, ele gosta muito de contar: “Esse aqui, passei a primeira noite dele com ele. Agora olha o tamanho que ele está e olha o meu tamanho! Mas fui eu que pajeei ele a primeira noite”. Outro caso que ele gosta de contar é que precisava cuidar da energia, porque a casa que nós morávamos tinha aquelas lâmpadas que ficavam só penduradas, e precisava quebrar a luz porque ele não conseguia me fazer dormir.
Tio Zino sempre inventou as coisas, sempre foi criativo nos trabalhos dele, de eletrônica. Aí ele inventou um abajur, que ainda não existia aqui naquela época. Quando apareceu um abajur, ele falou: “Eu já fiz um desse igual”. Ele criou um abajur para minha mãe, para me proteger da claridade da luz. Então ele passou a noite comigo, essa primeira noite. E parece que ele até gostou e voltou a me pajear diversas noites; e minha mãe achando bom: “Ah, o Zino veio. Eu vou dormir”. E minha mãe me deixava com ele, porque a tia Lílian também tinha costume com criança, eles criaram três – o Bituca era o primeiro filho adotivo, meus tios pegaram ele criança também. Então já tinha aquele treino, vamos dizer. Ela ajudou minha mãe a me criar. Eles são meus segundos pais, a tia Lílian e o tio Zino.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Brincadeiras de criança

Quando eu e o Milton começamos a emparelhar a idade, aí já era aquele assunto… Todo domingo a gente se encontrava, mas dia de semana eu vinha para cá – que aí já era a casa do pai do Milton e o Milton já morava nessa casa que aqui. A gente vinha para cá, que tem um quintal muito bonito, e a gente brincava no quintal. Era jogar bolinha de gude… Das peladas na rua o Milton não participava. A rua não era calçada; botava dois tijolos lá e jogava bola. Os primos do Milton do Rio também vinham, às vezes ficavam por aí. Mas no dia-a-dia, a brincadeira era estudo, a aula da dona Walda. Eu no colégio jogando bola e ele nos seus cantinhos aí, com a sanfoninha, sempre na atividade de música. Quando criança, nós estávamos próximos aos domingos, quando se reuniam todos na casa do meu avô, o patriarca da família. O almoço era na casa dos meus avós. Iam os primos do filho do irmão do Zino, os primos todos se reunindo para o almoço. E passávamos o domingo juntos. Mas no dia-a-dia cada um tinha a sua atividade. Era escola, e os pais pegavam no pé mesmo por causa de estudo.

Voltar ao topo REUNIÕES FAMILIARES

Almoços

Nesses almoços de domingo, comia-se o trivial, o que se come na casa mineira: a macarronada, seu franguinho, o tutu, pão de queijo, as sobremesas variadas… A criançada gostava era de esperar a sobremesa – tinha manga no quintal, as goiabeiras, as jabuticabas. As peladinha também, que na casa do meu avô tinha os campinho de terra na horta.

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”Bituca” (Milton Nascimento)

De bola o Bituca nunca gostou, raramente ele apitava. Mas o negócio da música já estava incutido nele. Eu tinha certeza disso. Eu falava: “Vai gostar de música…”. A minha tia – eu contei isso naquele caso do Faustão, daquele pessoal que veio aí fazer uma matéria – era concertista, ela tinha um acordeão. Minha tia tocava muito bem o acordeão. E o Milton gostava muito de sentar para escutá-la tocar. Inclusive minha tia foi verônica dessas procissões de Semana Santa durante muitos anos. O Milton gostava de ir para na procissão. Dizia: “A minha tia vai cantar lá”. Então o Milton ficava sentado, escutando ela no acordeão. Aí ele ganhou uma sanfoninha também; ficava tocando a sanfoninha dele. Teve um almoço lá que sumiu o Bituca. Sumiu o Bituca e todo mundo procurando. Tia Lílian gritando: “Cadê o Milton, não sei o quê…” Aí escutaram um barulhinho lá no quarto, uma nota, um acorde. Foram para o quarto da Conceição – nossa tia – e ele estava pendurado no acordeão. Quer dizer, o acordeão era muito maior que ele, ele estava montado no acordeão, tentando tocar, com o olho desse tamanho, sobrando na sanfona assim… Aí ele ficava rodeando a Conceição. A Conceição gostava muito da eletrola, tinha seus discos – adorava Francisco Alves. Mas o Bituca gostava mesmo é de ouvir Ângela Maria. Mas não podia mexer na eletrola, então ele tinha que pedir para ela para colocar lá…

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Tios

Meus tios por parte de mãe eram o tio Zino, a tia Conceição, o Milton, o Zeti, o Zinho… são vários irmãos. Teve uma que morreu, a Alzira, morreu em 57. Eram esses os irmãos.

Tio Zino
O tio Zino tem uma coleção de discos que está na casa. Mas ele gostava mais de clássico, de ouvir música erudita; ele era mais apurado. O Zino morou fora, chegou a estudar no Rio de Janeiro, a trabalhar numa firma americana lá na Bahia. Então o Zino tinha outro know-how. Ele era mais viajado, teve mais acesso a outros tipos de música. Ele gostava de um clássico, de uma Edith Piaf, ele tinha um gosto mais apurado.

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Músicas que ouvia

Musicalmente, eu sou da fase do Clube da Esquina mesmo. Quando foi criado o Clube da Esquina eu morava lá no Rio, com os meninos, então como é que eu não ia gostar do que eles gostavam. Não é obrigação, mas eu nunca gostei de nada de música caipira. Por exemplo, já fomos criados juntos com o Milton. Lá em casa, a Conceição gostava de Francisco Alves, de Ângela Maria, de Dolores Duran. Então a gente já escutava essas coisas na minha avó. Aqui, o Milton também. Quando ele começou a ver cinema foi aqui. Gostava muito de uma trilha sonora. Ele fazia programa de rádio, eu era moleque. Mas eu não tinha aquela coisa: “Vamos parar para ouvir uma música”. A gente ouvia porque estava tocando no rádio, mas nunca me interessou. Hoje eu compro meu CD, compro meus discos, mas não passava para mim aquele negócio de música não. Mas aí o Milton estava aqui e eu via ele comentando assim: “Aquela trilha sonora de tal filme que eu vi, eu vou pedir para minha mãe, quando for no Rio, trazer”. Aí a tia Lílian saía e quando voltava trazia uma coisa. Ele mostrava para a gente, então como é que não ia gostar? Se ele, se o Milton gostou, como é que o outro não vai gostar?

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Lembranças da infância

Mas essa infância nossa foi normal. Teve aquelas artinhas… O Milton gostava de fazer as suas peripécias, saía de vez em quando, mas uma traquinagem específica não teria, não sei contar não.

Só quando a gente já tinha morado fora e vinha passar uns tempos aqui, tinha uns casos de correr da polícia… Só tinha um delegado na cidade, só tinha um carro da polícia. Então era esse negócio de correr da polícia, de ficar fazendo serenata. Aí aparecia numa esquina: “Olha, aí vem o Caxambu”, que não gostava. Estava perturbando, né? E sempre tinha uma cachacinha. O Caxambu vinha no seu carro, a gente via, e o outro que estava vigiando dizia: “Aí vem o carro do delegado”. Aí corria para outra esquina, fazia barulho de lá para ficar fugindo dos caras. O Bituca também corria direitinho. Hoje, se puser ele para correr, eu acho que não corre muito não.

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Três Pontas / São Paulo

A procissão do Senhor Morto, da Sexta-feira da Paixão – que minha tia Conceição era verônica – é tradicional, sempre tem aqui em Três Pontas. Aliás, este ano eu fiquei preocupado demais, porque está uma violência na cidade tão grande, e nessa procissão a cidade toda vai. E todas as casas ficam vazias. Eu na procissão olhando, falei: “Gente, a cidade está aqui. Todas as casas estão expostas à violência, ao roubo. Como é que faz com isso? A cidade muda…”. E nessa procissão tem aqueles passinhos. Eu lembro que o Bituca ia na procissão para poder admirar a Conceição fazendo aquela encenação toda, de descer o véu e cantar, porque ela canta perfeitamente. E ele elogia até hoje a Conceição.

São Paulo

A história de São Paulo é que em 65, no fim do ano, eu fui pra lá pra estudar. Me formei aqui no ginásio, depois fui tentar o científico em São Paulo. Fui para lá no fim de 65 e morei 1966 em São Paulo, lá no Paraíso, na Rua Estela. Tomei uma pensão lá, que já tinha informação, e fiquei morando em São Paulo. Estudei no Colégio Bandeirantes. Mas o ensino de lá é violento, não deu para mim.

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Festival da Excelsior

Aí eu fiquei morando na Pensão do Boris – era o único três-pontano que morava lá – e estudando no colégio. Quando chegou em março ou abril – o Milton morava em Belo Horizonte, trabalhava em Furnas, e nas noites mexia com música –, apareceu esse convite para ele defender o Festival da Excelsior em São Paulo, defender uma música do Baden Powell. E o Milton foi para São Paulo bancado pela Excelsior, claro, para participar do festival e defender o prêmio Cidade Vazia, da música do Baden Powell. Foi para São Paulo e resolveu me ligar lá. Falou: “Estou chegando em São Paulo, vou ficar aí. Você arruma uma torcida organizada para a gente fazer um barulho lá no teatro, que eu preciso também ter a minha torcida lá. Quem sou eu? Mineirinho aqui, chegar lá para defender a música…”. Eu juntei a turma da pensão e falei: “Vamos juntar umas faixa aqui e vamos tentar dar uns gritos aí para o meu primo que está vindo”. Contei a história para eles, eles falaram: “Jóia, vamos lá”. Juntamos aquela turma da pensão e fomos para o auditório da Excelsior, torcer por ele. O Milton foi classificado em quarto lugar, ganhou quarto lugar. E foi muito bem aceito pela mídia e pela televisão lá em São Paulo. Repercutiu aquele lance. “Olha, está chegando um nome novo na música. Um mineirinho de Belo Horizonte, tal, tal, tal…”. O Milton de cabelinho curtinho, aquela cara lambida, muito inibido… E já chegou e chamou a atenção. As pessoas notaram a presença e a qualidade dele. Ele não passou de passagem. Ele chegou em São Paulo e alguém procurou por ele lá. “Ô, Fulano… Não, você não vai voltar para Belo Horizonte. Você vai ficar aqui. Vamos, precisamos conversar mais. Quero conhecer você na música.” Foi quando ele conheceu o pessoal dos Godoy: o Amilson, o Adilson e o pessoal do Tamba Trio.

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Pensão do Boris

O Milton estava em São Paulo e falou: “Olha, eles não querem que eu vá. Mas eu não tenho onde ficar. O hotel já venceu”. Ele estava hospedado num hotel lá no Anhangabaú, não me lembro qual que era o hotel. Mas eu falei: “Se você quiser ficar, vamos arrumar um lugar na pensão. Lá no meu quarto mesmo tem um beliche; você dorme no beliche em cima. Vou conversar com o Boris e arrumo uma vaga”. “Posso ficar?” “Fica. Vamos lá.” E ele deixou o hotel e foi lá para a pensão. Ficou conhecendo a turma, foi se entrosando. Fez boas amizades. Tinha um amigo nosso lá, que hoje é médico em Uberaba – o Tininho –, e eles se aproximaram bastante. O Tininho tinha um bom violão. Então o Milton gostou da pensão e foi ficando. Ele saía para a noite para conhecer outras pessoas; as pessoas passavam lá, pegavam ele e levavam para a noite. Eu me lembro que toda noite eu acordava às três, quatro horas da manhã – tinha aula cedo – e o Bituca chegando da madrugada. Mas era essa a vida que ele queria.

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Agostinho dos Santos

E lá ele começou a conhecer as pessoas importantes da vida dele, como o Agostinho dos Santos, que foi o baluarte da vida dele lá em São Paulo. Foi o Agostinho que fez aquela arte que todos sabem: o Bituca não queria participar de festival nenhum. “Eu não vou mandar música nada.” Aí o Agostinho pegou as músicas, mandou para o Rio e botou no FIC, o Festival Internacional da Canção. E foram três músicas classificadas. E deu no que deu. Está aí essa imponência hoje. Mas o Agostinho era um irmão. Eu já sabia que ele era um cantor respeitado, então quando vim a conhecê-lo, eu pensei: “Puta merda, que prazer de estar conhecendo essa voz fantástica”. Eu era um menino de 16 anos. Eu falei: “Puta merda, eu estou conhecendo o Agostinho”. Aí a minha impressão foi: “Pô, esse cara aí vai ajudar muito o Bituca. Eu tenho certeza”. Já me veio aquela coisa, e ele gostou. Eles se afinaram. O Agostinho era o cara que sempre arrastava ele para aqui, para ali. Quando os Godoy também não arrastavam, era sempre o Agostinho.

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Pensão do Boris

O Boris era um lituano. Pesava aí uns 120 quilos, gordo, enorme, do olho clarinho, branquelo; ele era diferente. Ele não era o dono da pensão, era o representante do dono, porque o dono da pensão era abastado, tinha um prédio lá, tinha suas outras atividades; era mais empresário. Mas o Boris cuidava da pensão. Então era: “Seu Milton para cá, seu Milton para lá. E seu Jacaré para lá”. Mas tinha uma história do Boris, de quando ele servia a refeição: não tinha uma vez que o Boris vinha trazer o feijão que o dedão dele não vinha dentro do feijão. A gente falava: “Pô, esse cara deve cozinhar o dedo”. Aí ele trazia aquele feijão quente e punha na mesa. E a gente sempre ficava observando. “Tem que falar.“ ”Não, não fala não que ele vai ficar nervoso. Deixa…” Então a gente falava: “Olha o Boris Feijão…”, porque vinha sempre com o dedão lá dentro do feijão. E era bem porco mesmo, as toalhas penduradas, ficava falando e cuspindo na mesa, nos pratos. Mas jóia. São lembranças que a gente tem da pensão do Boris. Todo mundo conhecia.

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(Milton Nascimento)

Nessa época, o Milton não era “exponência”, não tinha nada, ele estava começando na noite. Nós ainda nem tínhamos conhecido a Elis Regina. Mas naquela primeira apresentação dele em São Paulo, no Festival da Excelsior, o pessoal da pensão gostou. Era coisa boa. Eles viram também a questão do racial, né? Um negro… Eu era mais conhecido lá como Mineiro, e eles falavam: “O Mineiro tem um primo negro!”. Não comentavam, mas eu via que sim. Mas era uma coisa interessante. Falaram: “Ele é músico, veio lá de Minas, da terra do Mineiro”. E veio para defender uma música do Baden Powell, que já era conhecido pela televisão. Mas esse contato lá dentro da pensão durou só esse ano de 66, porque foi quando eu tomei bomba no Bandeirantes e meu pai me arrancou de lá. Daí eu acabei deixando o Milton em São Paulo.

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Elis Regina

No fim do ano chegou na Elis a informação de que tinha uma pessoa que defendeu uma música do Baden Powell, que estava circulando no meio da noite musical de São Paulo, e que a Elis precisava conhecer. Eles tinham muita fé na qualidade dele. O Amilson Godoy tocava com a Elis, o Agostinho também conhecia ela e aí buzinaram sobre o Milton no ouvido dela – mas isso foi depois do Festival da Excelsior. Aí o Bituca me falou: “Estão querendo que eu vá lá na casa da Elis. Você vai comigo. Como é que vai ser? A mulher está querendo falar comigo”. Eu falei: “Porra, é claro que nós vamos. Tem mais é que ir”. Aí anotamos o endereço. “Pois é, vamos aqui, Rio Branco com a Ipiranga, número tal…” Fomos para lá uma noite, por volta das 8 horas, eu lembro direitinho. E tem uma coisa sobre essa noite que eu discuto com o Bituca até hoje. Quando ele dá alguma entrevista, ele ainda fala assim: “Né, Jacaré?”, porque eu tenho certeza que nós fomos na casa da Elis e estava lá o Gil e um médico que nos foi apresentado. “Olha, esse é médico fulano de tal” – não sei se o nome é Fernando. Mas o Bituca teima que não era o Gilberto Gil. Eu falei: “Era, Bituca. Eram o Gilberto Gil e a Elis”. Enfim, mesmo que não fosse o Gilberto Gil, era a Elis Regina. E conhecemos a Elis nessa noite.
Nós entramos na casa – mineiros, muito tímidos –, sentamos lá no apartamento dela. “Você quer ver? Vem aqui ouvir. Vou te mostrar umas músicas.” Eu estava tão eufórico, tão abismado… Eu falei: “Pô, olha quem que eu estou conhecendo!” – porque eu já vinha sonhando com a Elis Regina, eu tinha um amor por ela enorme. Eu gostava muito da Elis Regina; o Milton sabe que eu sempre fui apaixonado pela Elis. A gente chegou lá e o coração batia. “Eu estou na casa da mulher.” E o Milton mostrou para ela algumas músicas, aquela coisa informal, fomos muito bem tratados. E ela gostou muito dele. Ela falou: “Milton, você sabe que eu tenho um programa. Eu estou fazendo “O Fino da Bossa”. Vou te ligar e marcar, que você vai no ‘O Fino da Bossa’”. Com três, quatro dias ele já estava agendado com a Elis na Excelsior, ou Record, não sei dizer. Aí juntamos a turma da pensão de novo, baixamos para lá, para “O Fino da Bossa”. Mas o Boris não ia, porque às sete horas da noite ele já estava dormindo, para por o café da manhã cedo, no outro dia.

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Pensão do Boris

A Pensão do Boris era boa. Lá já morou guerrilheiro, tinha de tudo; não era só pensão de estudantes. Tinha os vagabundos também, que não faziam nada… Mas a maioria era estudante, dali do Bandeirantes mesmo. Eu me lembro que eu passei um aperto certa vez, tive que sair correndo de lá. Uma vez bateram na porta e era polícia – mas só depois eu fui me dar conta do que tinha feito… – e perguntaram: “Fulano está?”. E eu ia saber quem que é fulano? Hoje a gente sabe que tem que perguntar: “Não sei, tem que ver se está. Vou ter que olhar”. Mas aí acabei abrindo a porta, eram os homens. “Tá, está lá no quarto. Pode subir. É aquele lá o cara”. O cara saiu algemado! Aí me vazaram. Falaram: “Esse cara vai te pegar”. Aí eu andei fugindo. Deixei o Bituca sozinho na pensão, andei morando uns dias na Sá Zefa, que é uma tia minha… uma tia parente. Deixei o Bituca sozinho na pensão e fui morar escondido, antes do cara querer me fritar. Mas nunca mais ouvi falar dele.

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“Bituca”

No dia que fomos para ver “O Fino da Bossa”, nós chegamos, já tinha os ingressos, e entramos. Assistimos “O Fino…” inteirinho. Numa parte do programa, o Milton participou. Era uma chamada: “Agora, com vocês, tem um mineiro aqui que eu gostaria muito de apresentar, porque eu vou gravar uma música dele” – como gravou mesmo, a “Canção do Sal”. E ele entra para o palco, se apresenta. E nós, lá na platéia, batendo palma. Assistimos até o fim e depois, quando acabou, saímos – nem me recordo se esperamos o Milton lá fora ou se ele logo depois que participou saiu com outras pessoas, não me lembro… – e voltamos para a pensão. Mas que foi gratificante, foi. Até hoje, tem amigos meus – que eu fiz amizades lá na pensão – que me ligam querendo saber como é que eu estou. Continuam pensando na gente. Eu também ligo para eles. Eles sempre perguntaram: “Como é que é? E aqueles tempos? Precisamos recordar, voltar a encontrar. Quero ver o Milton”. Eu falo: “Arruma um jeito de você ir pro Rio que você vê um show dele”.

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Rio de Janeiro

Em São Paulo, o Milton morou comigo. E no Rio, eu morei com ele, porque eu queria fazer vestibular de Medicina. Então fui para o Rio. Eu tinha uns amigos lá, a família Boechat já morava lá no Rio também. Tinha um pessoal morando em Niterói fazendo cursinho, para depois fazer vestibular, e eu saí daqui e fui fazer vestibular no Rio, na Federal. E o Milton tinha montado apartamento lá e tinha me chamado: “Olha, se você quiser vir, você vem; fica aqui em casa e estuda mais um tempinho aqui. Você pode morar aqui, só que o apartamento é pequeno, é quitinete. É quarto-e-sala…”. “Tudo bem.” Aceitei o convite dele para morar lá e fui para o Rio fazer vestibular. Aí moramos um ano na Travessa Angrense, e ele já trabalhando na noite, no Rio. Depois do FIC, Festival Internacional da Canção, a gente dizia: “’FIC’ no Rio, Milton…”. Aí ele ficou lá no Rio de Janeiro, trabalhando na noite, na música, gravando e tal. E ocorreu que eu não passei no vestibular. Tirei zero! Falei: “Eu vou ter que fazer um colégio melhor aqui…” – porque eu tinha acabado o ginásio e tentei logo de cara entrar. Aí ele falou: “Então faz aqui no Rio mesmo. Você fica morando comigo aqui, no apartamento. Se não te incomodar a gente morar apertadinho aqui, tudo bem”. Fiquei morando com ele lá no Rio. Com o Naná nós moramos mais tarde, depois que o Milton saiu de um casamento, em 69 – ele chegou a casar, mas logo se separou.

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Naná Vasconcelos

Mas quando o Naná apareceu nas nossas vidas – minha e do Milton – foi o seguinte: Naná morava em uma outra república lá, ou pensão. Mas ele gostava tanto do Milton – e eu também gostava do Naná – que nós ficamos bem próximos. Só que tinha um negócio de transporte para o bairro que o Naná morava, determinada hora da noite ele não tinha como ir, então o Naná ficava lá. Ele criou amizade com o porteiro do prédio da Travessa Angrense, e quando ele ficava até de madrugada na rua e não tinha mais ônibus para ele ir para casa, o Naná chegava no prédio – eu quero encontrar com o Naná até hoje para puxar a orelha dele –, falava boa-noite para o porteiro e o porteiro achava que ele ia subir para dormir, porque a gente recebia o Naná como irmão. Mas o Naná subia e, para não incomodar, ele não ia para o nosso apartamento; ele ficava na porta, na escada do prédio. Ele cochilava ali e dormia até de manhã. Então quando era para a gente sair ou ele acordava, o Naná descia para tomar o seu cafezinho no botequim que abria lá… E a gente não sabia que o Naná fazia isso! O Naná precisava de um aconchego, porque às vezes a noite estava fria, chuvosa, mas ele não batia na porta. Não falava: “Cabe mais um aí?”. Então isso ficou doendo na gente. A gente veio a saber disso depois do ocorrido, senão a gente abriria as portas para o Naná. Só que ele fazia isso para não incomodar. Olha que safado!

Voltar ao topo FAMÍLIA

Reuniões familiares

As Bodas de Ouro do tio Zino com a tia Lílian, em 70, foi um evento descomunal. Foi uma puta produção. Eu lembro da cerimônia religiosa, que foi feita em uma fazenda aqui perto – porque, realmente, não teria como fazer o evento dentro da cidade. Eles chamaram muita atenção da cidade. Mas não chegou a trazer muita gente de fora não. Então arrumou-se uma fazenda afastada daqui, que é do cunhado do Milton, irmão do tio Zino. Nessa fazenda foi feita a cerimônia religiosa, muito bem produzida. Mas não teve um auê dentro do evento. Quer dizer, as estrelas eram o Josino e a Lílian; o Milton era filho dos nubentes. Mas a cerimônia correu às mil maravilhas. Foi uma cerimônia religiosa muito bonita, a caráter, mas sem aquela grandiosidade. Foi grandioso o evento em si, porque eles mereciam que assim fosse feito. O Milton cantou, participou da cerimônia – tem ela em fita gravada.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Woodstock Mineiro

Já em 1977, com a aquiescência da prefeitura daqui, eles resolveram bancar – bancar em termos –, abrir as portas da cidade para que fosse realizado um evento. Nós tínhamos aqui uma usina de açúcar e álcool bem portentosa, tinha um poderio aqui na cidade. A Usina Boa Vista e a prefeitura participaram com apoio logístico e esse menino, que foi empresário do Bituca, é que coordenou esse evento – é que o Milton resolveu fazer uma reunião dos amigos aqui em Três Pontas, para homenagear a cidade, porque Três Pontas estava inaugurando a Praça Travessia. Eles iam aproveitar a oportunidade para fazer a inauguração da praça – que é aqui em frente à casa dos pais do Milton – e ele resolveu convidar os amigos para vir aqui para participar da inauguração, mas para também dar uma palinha, dar uma contribuição, mostrar alguma coisa de cada amigo de lá. Aí montamos um palco aqui no alto do Morro do Paraíso e fizemos o evento lá. Na época, o governador do Estado era o Aureliano Chaves, que também colaborou com o evento, porque era sua terra natal.
Fizemos esse evento do Paraíso, que foi denominado “Woodstock Mineiro”. Trouxe mais de 15 mil pessoas para cá, para Três Pontas. Esse evento teve um auê muito grande, muita gente de fora, foi uma loucura. A cidade era – e ainda é – muito hospitaleira. Então as pessoas abriam as portas para todo mundo. E como eram convidados do Milton, as portas foram abertas para receber o povo de fora. Mas para receber 15 mil pessoas não tem rede hoteleira em uma cidade pequena. Só que estava acontecendo uma exposição agropecuária na cidade, e o Parque de Exposição foi o canal que as pessoas encontraram para achar abrigo, um local de varar a noite, vamos dizer assim. Então, do evento, que acabou às nove horas da noite – que rolou o dia inteiro –, as pessoas vieram para dentro da cidade e foram para o Parque de Exposição, porque lá no parque tinha rodeio, tinha bares abertos, tinha forró, tinha aquelas barracas para promover os bailes da exposição agropecuária. Então coincidiu, foi muito bem pensado esse evento para poder dar respaldo, para atender essa demanda de gente que veio para o evento do Milton.
Veio muito hippie pra cidade, tinha muito cabeludo. Basta ver as fotos do evento: a freqüência maior foi de jovens cabeludos e hippies, que vieram atrás de um espaço. Aquele negócio: “Vai ter show aberto em um campo…” – tipo Woodstock, que tinha sido fazia pouco tempo. Então criou-se esse paralelo de ser chamado – e foi realmente – de um Woodstock, haja vista que ali não tivemos a mínima repressão no local, no evento, porque rolava aquelas coisas: “Local de usuário de droga. Vai dar maconheiro lá…”. Tinha pais proibindo os filhos de ir. Teve crianças aqui que foram proibidas de ir, esse pessoal mais careta, mais carola: “Não, lá vai ser só lugar de maconheiro…”. Mas tinha pessoas idosas lá, tinha velhas de 60, 70 anos no local. Uma maravilha de evento. Não teve a menor confusão. Gole teve – um pouquinho dos goles no palco e tal, mas também era um evento que não era bancado, não era pago. Você não pode tomar uma cervejinha, nada? Mas o evento foi fantástico. Não teve o menor constrangimento e rolou tudo muito bem. E os pais arrependem-se por não terem deixado as crianças irem lá. Porque pairava isso: “Vai ser igualzinho aquele Woodstock, lá dos Estados Unidos”. Vai ver as fotos e o filme do evento; foi outra coisa.

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Família Borges

Eu estava morando no Rio de Janeiro, em 1969. O Milton vai para a Venezuela e volta de lá já com interesse de gravar disco no exterior, já programando gravar disco na Odeon – que era a primeira produtora que o contratou – e eu ainda morava no Rio de Janeiro com o Milton. Mas a gente freqüentava Belo Horizonte, ele não deixou as raízes. Então quando o Milton resolvia ir pra Belo Horizonte, ele falava: “Vamos lá pra Belo Horizonte?” Eu era o parceiro do Milton lá. Só não tocava com ele – nunca me dei à música; tem um Jacaré lá no Rio que é baixista, mas não era esse Jacaré aqui. Então a gente ia para Belo Horizonte para rever os amigos. E a gente já conhecia os Borges. Os Borges freqüentavam Três Pontas desde 63, que foi quando eu vi o Marcinho pela primeira vez aqui. Eu vim a conhecer os Borges nas passagens da vida do Milton, que a gente estava sempre perto. Primeiro eu vim a conhecer o Marilton, o Marcinho, aí depois veio aparecer o resto da família, os “Salomões’ Borges”, a família toda… Em 69, a gente do Rio ia para Belo Horizonte e ficava lá dois, três dias; daí voltava para o Rio. E os Borges entraram na minha vida como uma família. Eu queria ser mais amigo deles. E fui me entrosando com todos.

Em 70, o Bituca fez esse trabalho com o Som Imaginário, lá no Rio de Janeiro, quando eles abriram o Teatro Opinião. Tinha o Fredera, o Tavito, o Zé Rodrix – esse era o Som Imaginário. E eu continuei morando com o Milton lá, e ajudava no trabalho. Sobrava para mim, dar uma força lá na casa, ajudar o empresário: “Preciso do Milton tal hora; você leva ele para mim?”. Eu era o único que dirigia na casa, então servia de motorista, de ajudante, de tudo… Era um secretário – nunca fui tratado como secretário do Milton, mas eu sei que eu fazia isso. Ajudava nas prendas domésticas também. “Vamos cozinhar?” “Vamos.” “Vamos lavar o carro?” “Vamos.” “Vamos arrumar a cozinha?” “Vamos.” “Ah, tem que buscar Fulano… Levar não sei o que para a gravadora…” E eu ia. Então eu participei da vida profissional dele nesse sentido, ajudando. Também tinha o horário para levar para o teatro, o horário de chegar, de tirá-lo do camarim, levar para casa… E aí fui vivendo no Rio. E o Milton se dando bem profissionalmente, começando a entrar nos eixos, vamos dizer.

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Casa da Praia Mar Azul, Niterói

Chegou um ponto em que o Milton concluiu que precisava aproximar mais as pessoas que ele tinha carinho, que eram os parceiros – não tinha esse comentário, mas a gente notava isso. Os parceiros estavam lá em Belo Horizonte. Já tinha feito amizade com Ronaldo Bastos no Rio, mas os parceiros eram mais Brant, Lô, Toninho Horta. Parece que um dia deu um clique e o Milton falou: “Não, agora nós vamos gravar um disco. Tem que sair um disco excelente nosso…”. Ainda não se chamava “Clube da Esquina”. Depois é que veio se dar o nome de “Clube da Esquina”. Então, em vez de nós irmos para Belo Horizonte, eles vieram para o Rio: Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta. Nós alugamos uma casa em Niterói – Mar Azul, na Praia de Piratininga –, de um amigo do Milton; se não me engano, era Paulo Romário o nome dele, que é até cego. Alugou-se uma casa lá em Mar Azul, Piratininga. E aí o Milton chamou todo mundo: “Vem para cá para a gente trabalhar em um disco aqui”. E aí vieram para morar no Mar Azul; só o Brant que ficou, porque ele trabalhava já como jornalista. Era advogado mas trabalhava n’O Cruzeiro. Me recordo que foram para lá Lô, Beto e Toninho Horta. Mas antes de alugar a casa em Mar Azul, eles foram requisitados para ir morar no Rio de Janeiro.

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Rio de Janeiro

Mas antes do Mar Azul, nos mudamos da Travessa Angrense, porque ficou pequeno. Em 71, nos mudamos para um apartamento em cima do túnel Rebouças, na Bartolomeu Mitre. Era um prédio verde – mas hoje não sei mais se continua dessa cor. Você passa dentro do túnel, o prédio está aqui em cima. Era um apartamento maior. Houve condições, porque o Milton já estava ganhando mesmo. Eu não ajudava pífica nenhuma, porque como é que eu ia ajudar? Meu pai mandava uns trocos para me ajudar no estudo lá, então eu participava rateando o negócio de alimentação; mas o aluguel quem bancava era o Bituca mesmo. Aí alugamos um apartamento maior, no Jardim Botânico. Foi quando ele falou assim: “Venham. Agora não vou pra Belo Horizonte. Vocês que venham para cá”. E o Beto foi para lá para morar. Tinha um quarto do Milton, montamos um quarto para o Beto e o Lô e mais um quarto para mim; ficou todo mundo, cada um com um quarto nesse apartamento. Foi quando os meninos começaram a mexer com música no Rio. Era o dia inteiro.

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Beto Guedes/Lô Borges

O Beto chegou no Rio doido com Beatles. E o Lô também. Os dois eram beatlemaníacos. Então era só Beatles que dava. Eu ia escutar o que mais? Beatles, né? Rolling Stones, claro… Essas músicas do pessoal. Então eu fui dopado com Beatles, com Rolling Stones, com Aretha Franklin, com Nina Simone – que era o que o Bituca e os meninos gostavam. Eu fui criado com esse ouvido deles lá. Tinha que escutar, porque para não escutar, você tinha que botar um tampão no ouvido. E se eles não estavam escutando música, estavam tocando.

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Casa da Praia Mar Azul, Niterói

Aí vem a casa na Praia de Piratininga. Uma casa de vidro. Quer dizer, não era toda de vidro; tinha um quarto que a gente gostava muito de ficar nele, que tinha janelas de vidro. E esse quarto não tinha cortina. Você tinha o mar na tua frente. Chegava a noite, a gente ia para esse quarto e apagava a luz, cada um tocando sua viola e admirando aquele marzão na frente. E ali é que eu imagino que eles criaram muitas músicas. O que veio de sensibilidade para eles para criarem… O disco “Clube da Esquina” foi feito nessa casa, que era uma maravilha. Não tem como descrever não… O que se escuta daquelas músicas do “Clube da Esquina”, basta você fechar os olhos que você vê um marzão na sua frente e fala: “Gente, o retrato está aí. Mar Azul”. Mas é indescritível. Nessa casa rolou de tudo, porque era época de fazer arte, de fazer folia. Todo mundo trazia suas namoradas; e chegava neguinho cobrando: “Tá na casa dos músicos lá, minha mulher está lá!”. Mas não era mulher não… “Lá moram uns músicos…”. Roubavam as namoradas dos caras nas boates e era uma confusão danada. Nessa época, a gente já estava tomando cachaça, porque quando o Beto e o Lô foram para o Rio, não se tomava nada. O Lô ainda tomava um golinho… Nós éramos meninos.
O Beto andava com Coca-Cola litro debaixo do braço, era só refrigerante. A gente não era aprendiz do gole. Hoje eu vejo assim: “No nosso tempo lá… sentava para almoçar e a caseira botava almoço na mesa e botava dois, três litros de refrigerante em cima da mesa”. A gente tomava refrigerante. Depois foi aparecendo o álcool na nossa vida, e hoje quem que deixa de tomar sua cervejinha, sua pinguinha, né?
Mas foi um aprendizado lá em Mar Azul – aprendizado entre aspas – porque a freqüência era muito grande; sempre ficaram na casa Lô, Beto, Bituca e eu. Eram os quatro que freqüentavam. Mas tinha o Ronaldo Bastos, do Rio, que estava sempre lá na casa. E o Toninho Horta também ficava. Vamos dizer que ficavam seis. Mas era alta a rotatividade. Os seis ficavam, mas sempre tinha dez, 12 na casa. Chegava um, saía outro, o tempo todo rodando. Marcinho ia para lá, uns outros músicos de Belo Horizonte. Posso estar até esquecendo nomes aqui… mas, além do Fernando, quem mais? O Murilo, o Antunes… Lá não tinha hora para acordar, não tinha hora para dormir. Eu ia muito para o Rio para olhar o apartamento, porque não foi desativado, ele ficou ativo. Então eu ia para o Rio para olhar a casa, ver como é que estava. Para fazer os compromissos dos empresários – que nem sempre dava tudo certo. O Milton teve sempre muito problema com empresário. Depois ele solidificou tudo, mas foi muito infeliz nos primeiros anos de carreira, sempre dando com os burro n’água.
Mas a vida lá no Mar Azul eu não vou chamar de normal, porque não era. Acordava-se na hora que queria, tomava-se um banho de mar… Os músicos sempre pegavam o violão e iam criar. Então foi uma vida só para criação, para montar o disco “Clube da Esquina” – que foi como veio a se chamar depois, porque enquanto eles trabalhavam lá, não se dizia: “Vamos chamar esse disco de ‘Clube da Esquina’”. Isso talvez tenha sido meio de 71 para meio de 72, porque o disco saiu em 72. Mas essa vida, nessa casa, não era normal. Você acordava, banho de mar, voltava, sentava na varanda lá em cima, quando não estava no quarto de vidro, porque com o mal tempo você tinha que fechar os vidros, mas com o bom tempo, sentava na varanda e eles só tocando, tocando, tocando, criando… E eu caçando umas peladinhas ali na praia. Aí meus estudos já tinham ido para as cucuias…já tinha abandonado o estudo, não estava ligando mais.

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Clube da Esquina: Avaliação

Apesar de não ter participado, não ter criado nada no “Clube da Esquina”, na obra, eu estou inserido no Clube da Esquina. Eu fazia parte da amizade deles. Eu já fui uma pessoa muito alegre – eu tenho estado um pouco triste hoje – e eu gostava de estar na roda, contando casos daqui da cidade. Tenho gravado isso comigo. Eu gostava sempre de estar na roda deles, era muito bem recebido por eles, porque eles me tinham em conta, eu era uma pessoa da família, como sou primo do Milton, mas sou irmão do Marcinho, irmão do Lô. Nós éramos ligadíssimos, eu com os Borges; sou ligadíssimo com eles todos.

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1973

Só que depois que eu vim embora pra Três Pontas – eu vim embora em 73 – para casar. Casei em Três Pontas e montei uma loteria esportiva, e aqui fiquei. Depois, passei para o ramo imobiliário. Hoje estou aqui, casado e tenho duas netinhas.

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Clube da Esquina: Avaliação

Me afastei um pouco desses meninos. Agora eles casaram, criaram família e tal, então não voltei mais. Mas o Clube da Esquina está dentro de mim. Porque ele faz parte de mim. Eu tenho pensado como é que seria o Helson Romero Jacaré se não tivesse acontecido isso tudo na minha vida? Como é que eu seria? Que poderia ter sido da minha vida? E eu agradeço muito essas amizades que eu colhi com a ajuda do Bituca – porque foi ele que me trouxe essas pessoas – e devo agradecer também por ele trazer essas pessoas para esta terra maravilhosa, que é Três Pontas. Todos tomaram amor por Três Pontas por intermédio do Bituca. Três Pontas tem que ser muito agradecida ao Bituca e a essa prole do Clube da Esquina.

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“Cais”/ Casamento

Eu gosto muito da música “Cais”. “Cais” me diz muito, porque quem veio me casar aqui foi o Milton e o Wagner Tiso, e eles cantaram essa música. Isso me envaidece. O Milton saiu do Rio e veio me casar; ele e o Wagner fizeram questão. Falou: “Nós vamos lá fazer teu casamento. E eu vou tocar e o Wagner vai acompanhar”. Porque eu cresci no Clube da Esquina.

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Avaliação

Eu não pus uma notinha nessas músicas e nem uma frase nos versos, mas tenho certeza que colaborei espiritualmente com essa obra magnífica que foi o “Clube da Esquina”. Me envaidece. Tenho certeza que eu participei. Fisicamente, eu dei a minha contribuição. E vai perguntar para os outros se não? Claro que sim… Eu tenho certeza que eles compreendem que eu participei. Eu era mais alegre; hoje eu estou passando por uma fase mais delicada, mas vou voltar a ser o Jacaré de antes, voltar a contar caso. E talvez até consiga chamar o Bituca de novo, para a gente acabar um livro de caso que tentamos escrever uma vez. A gente tem esse projeto, de um dia registrar isso em livro. Aqueles casos que vêm lá do arco da velha que a gente sempre lembra…

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Tereza da Quitéria

A Tereza é da família. A Tereza tem uma raiz dos Britos, que faz parte da árvore genealógica da família, mas eles estavam um pouco mais distante. A Tereza apareceu porque ela era a porra-louca da família. Tereza era aquela mãezona, aquela mulher, aquela mulata que sabia cozinhar muito bem, que criou os filhos lá, que pajeava, ajudava a minha avó a pajear o Zino, a pajear o Ciro… Ela tem a idade do Zino hoje. Ela era já criada em uma casa que aprendia as prendas domésticas, então ela sabia tudo. Ela sempre foi muito alegre, extrovertida. Sempre falava bobagem. Sempre criava as suas confusões e sempre gostou de um gole; sempre bebeu, sempre pitou seu cachimbo… sempre tomou seu golinho, mesmo novinha. Gostava de uma folia, sair para as madrugadas, para os bailes. Virava e mexia, ela fugia de casa, dos filhos, do marido e ia para os forrós, fazer suas artes. E a cidade toda sabia, compreendia ela. “Não, deixa, a Tereza; é meio louca…” Mas essa loucura ela sabia muito bem como direcionar e tratava a gente e os filhos muito bem. Eu sou tratado como filho; a minha mãe foi tratada como filha dela; o Zino era o irmão dela. E ela sempre foi uma boa dona-de-casa, boa cozinheira. Até hoje ela sabe fazer as comidas. É só querer comer na casa de Tereza, falar para ela, que ela apronta lá. Mas ela tinha esse lado de foliona, de falar bobagem, tomar seus goles. Vira e mexe a gente está levando a Tereza de porre para casa. Até hoje! Com oitenta e tantos anos!
A gente está regulando ela. Mas, de repente, ela bebe escondido e sai do sério. E o Bituca quando vem, quando está em Três Pontas – na verdade a turma toda quando chega em Três Pontas – tem que falar com a Tereza. Ela tem um celular com o telefone de todo mundo. Quer falar com Sá e Guarabira? A Tereza tem o telefone. Liga e fala: “É a Tereza”. Eles atendem e falam: “Nossa, meu amor!”. E é Tereza para cá, Tereza para lá… Tem o telefone de todo mundo. As pessoas vêm pra Três Pontas e têm que ir falar com a Tereza. É gratificante para a gente saber que a Tereza fez parte da nossa vida, faz parte da vida do Milton. O Milton levou a Tereza para desfilar na Cabuçu, no Carnaval de 89, quando ele foi homenageado lá. Botou a Tereza em cima do carro alegórico. Botou Lô Borges, Beto Guedes e Tereza da Quitéria no carro alegórico. Foi, adorou. Só que ela fez xixi em cima do carro alegórico… Arrumaram uma latinha para ela lá; ela foi atrás de um biombo e fez xixi em cima do carro. Nesse carnaval eu era secretário de Turismo aqui em Três Pontas, e eu que fazia o carnaval. Então não pude ir, mas queria ter estado lá para registrar. Mas a Tereza está sempre conosco, está sempre junto aí. Agora eu tenho evitado ela, porque nós não paramos de beber, mas ela tem que parar. Eu tenho evitado levar ela para as folias porque ela bebe escondido; ela foge da mesa, vai lá por trás do balcão e tasca um Cinzano com cachaça. Às vezes eu falo: “Só cerveja, Tereza”. Aí ela: “Vou beber só cerveja”. Mas que nada… ela sai para ir no banheiro, se esconde, vai lá no balcão e pede para pôr uma por fora. Escondida mesmo.

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“Bituca” (Milton Nascimento)

O fã-clube do Milton está semidesativado hoje, porque eu sofri um probleminha de saúde, coisa simples, mas que me abalou um pouquinho. E como eu estava a frente do fã-clube… O que aconteceu foi que nós idealizamos a criação desse fã-clube, que é um espaço para promover a integração dos admiradores do Milton. O maior objetivo é este: promover a integração, que é o que significa um fã-clube; é um espaço onde o admirador do artista procura para se interar mais do admirado. Então vamos mostrar o que é que o Milton tem, mostrar os valores dele, e tornar um espaço para haver uma relação entre o fã e o artista, contribuindo para que o fã possa ter acesso às coisas do artista. O fã não pode ficar lá procurando o Milton, querendo tirar retrato com ele todo dia, querendo falar com ele todo dia. Então vamos criar o fã-clube. A idéia era essa. E promover a cidade turisticamente e culturalmente também.
Os objetivos eram interligar os sócios e montar o turismo cultural e artístico para a cidade. Visitação pública, conhecer as obras dele. E começamos a ativar. Só que o chamado a isso, para a cidade, não aconteceu; não houve o menor respaldo. Não encontrei uma ardência. O Marcinho gosta de falar: “Tinha que estar ardendo mais esta cidade”. Mas não encontrei ardência nenhuma, inclusive das próprias autoridades. Era para se ter olhos para essa “exponência”, porque é um artista mundial, e dar apoio logístico. Mas tinha que ter olhos voltados para isso. Mas não encontrei apoio; tudo isso foi me deixando muito magoado. Encontrei mais gente de fora interessado em participar do que da cidade… Foi aí que me deu um pouco de baque. Mas montei. É claro, não vou dizimar pessoas aqui não. Tem os amigos aí, uma parcela de pessoas que nos ajudaram a tocar em frente. Mas você sabe que a união faz a força. Tínhamos que estar mais unidos para criar essa atividade como um todo.
Eu já vinha fazia muitos anos mantendo um acervo, coisas minhas mesmo, que eu guardava. A minha tia Lílian e o meu tio Josino tinham o seu acervo. E outras pessoas que eu conheci também sabia que tinham alguma coisa. Conclamamos quem pudesse fazer doações. E lançamos a idéia de lançar o fã-clube. Ele não foi lançado aqui. Ele foi lançado em outra sala, porque meu tio tinha isso aqui como uma eletrônica. Depois é que vimos que essa sala podia ser muito mais um anexo do fã-clube. Aí o tio Zino se aposentou e passou de livre e espontânea vontade a eletrônica para o fundo e me cedeu esse espaço aqui. Mas aí conclamamos quem pudesse ceder algum espaço. Entrei em um carro aqui, fui lá para o Rio de Janeiro: “Bituca, que é que eu posso levar para o fã-clube?”. Aí enchemos uma Parati lá e trouxemos o material; e deu no que deu. Tem muita coisa ainda por ser trazida e montada aqui, mas já, já nós vamos estar com isso em atividade. Está parado, mas é vida latente.
A primeira coisa pra falar do Bituca seria o caráter. Eu aprendi muito com ele. Fica parecendo que está elogiando. Não é elogiar. Ele trouxe uma lição de caráter. Eu desconheço uma pessoa neste mundo que tenha o caráter que o Milton me mostrou e mostra para este mundo aí. O Milton sempre foi uma pessoa do bem, de caráter, verdadeira. Nada que ele queira esconder, ele esconde; o Milton não deixa passar nada batido, está sempre atento. Eu tenho um amigo meu que brinca: “Quem vê esse mineirinho…” – na verdade carioca – “…esse cara sabe muito mais do que a gente imagina”. Ele tem um caráter excelente e foi ele que me ensinou a ser gente. O Milton é muito gente.
O meu pai que me desculpe, mas eu vou comparar… O meu pai era uma pessoa muito querida na cidade. Hoje em dia, as pessoas se encontram comigo e querem explicar quem era meu pai; eu faço uma relação assim: eu tive na vida dois homens de eu ter inveja e ciúme – ciúme não, mas ter inveja –, meu pai, que era uma pessoa ilibada, reta, e o Milton. O Milton me passa isso. Eu olho para o Bituca e falo assim: “Puta merda, esse é o retrato do que meu pai me ensinou”. Meu pai era muito digno, muito reto. Mas o Milton também me passou muita firmeza, me deixou ser muito firme. Eu me arrependo muito dos meus erros – porque a gente sempre erra –, então eu vou buscar exemplo lá atrás. É quando eu falo: “Você não devia ter feito isso, não devia ter tomado esse comportamento. Ai, se eu fosse igual o Bituca…”. O Milton é um cara verdadeiro. Essa lição que ele passa para a gente é de simplicidade e de gente.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Museu
Eu fico tentando achar que eu não colaborei com o que o Museu esperava que eu pudesse trazer. Mas dentro dessa pessoa humilde que queria estar aqui, extrovertida – eu já fui muito mais extrovertido, muito mais falante, as pessoas que me conhecem sabem… –, espero ter ajudado muito e colaborar muito mais daqui para a frente. Caso venha faltar alguma coisa, vocês me procurem para ajudar mais. Eu estou preocupado há muito tempo: “O que eu vou falar para esse pessoal? O que eu vou trazer de informação?”. Não sei. Falei, falei, falei e estou saindo daqui achando que não falei nada. Estou tentando lembrar. Será que eu esqueci alguma coisa que era bom ter registrado, ter falado?

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Beto Guedes / Lô Borges

Mas tem mais uma história, de quando morávamos Milton, Lô, Beto e Jacaré debaixo de um mesmo teto – o Bituca sabe disso: eu sempre me apaixonava por umas mulheres que o Beto e o Lô vinham e me tomavam… Fica aqui registrado. O Bituca não, o Bituca nunca me tomou mulher nenhuma. Mas os dois… Bastava eu me apaixonar. Eu me apaixonei pela Tereza, o Beto veio e… tuca! Me tomou a Tereza. Eu me apaixonei pela Taís, o Lô veio e… pumba! Me tomou a Taís. Mas nenhum deles casou com nenhuma delas…

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