Helvius Vilela

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Nome, data e local

Meu Nome é Helvius Vilela Borges, nasci em 26 de dezembro de 1941 em Belo Horizonte.

Família
Pais

Meu pai é Otaviano Borges e minha mãe Delcí Vilela Borges

Infância
Lembranças de infância, brincadeiras de criança

Olha, eu nasci na casa do meu avô e na época eram ainda muitos filhos solteiros e mamãe era uma dos dois ou três casados que haviam ali e eu nasci lá. Mas logo, logo a gente foi morar ali perto do grupo Afonso Pena, perto da Avenida João Pinheiro, mas por um período muito pequeno, acredito que por uns dois anos. Aí depois voltamos pra esta casa onde eu nasci, que é na Rua Herval, na Serra, se eu não me engano esta casa está lá até hoje. Morei lá até os 11 anos. O período em que eu morei lá foi maravilhoso, porque a Rua Herval era, no comecinho, nem calçada era, e a gente brincava, corria descalço, para cima e para baixo. Éramos quatro irmãos, somos ainda, graças a Deus, quatro irmãos homens e mais alguns tios que moravam nesta casa. Era aquela casa antiga, pé direito alto, todo mundo um pouco apertado. Além do meu pai, da minha mãe e da gente, moravam mais três irmãos da minha mãe, solteiros. Os outros já estavam casados. Então era uma casa animada, tinha quintal, tinha bananeira, tinha criação de galinha, enfim, a Serra ainda era um bairro muito sossegado, eu morei lá até 1952. O movimento se restringia mais à Rua do Ouro, tanto que os ônibus passavam por ali e na Rua Estevão Pinto, onde passava o bonde. Eu peguei muito bonde. Eu me lembro ainda hoje do primeiro ônibus Serra, porque foi uma festa danada quando o ônibus subiu a Rua do Ouro. Eu passei uma infância bem gostosa, eu posso dizer que foi uma delícia, a gente fazia de tudo, brincava descalço e naquela época não tinha a paranóia que se tem hoje. Então a gente esquecia da vida, brincava, chegava em casa comia e saía de novo. A gente fazia de tudo, jogava futebol, caçava passarinho, nadava em lugares que podiam, em lugares que não podiam. E foi essa minha infância.

Formação Musical, Família
Iniciação musical / Irmãos

O piano começou muito cedo na minha vida, porque já tinha um piano na casa da minha mãe. Eu sou o segundo filho, o primeiro foi uma menina, uma tragédia, dizem que era linda, morreu com um ano de idade de bacilar, que era um bacilo que matou muita gente e que não matou a mim e ao meu irmão mais velho, porque quando a gente teve, já tinham inventado a sulfa, quero dizer, essa minha irmã não pegou essa época. E a sulfa, eu me lembro que a gente reclamava, porque era esse pozinho branco e amargo, mas salvou a minha vida e a do meu irmão. Essa bacilar tinha um efeito tipo gastroenterite, horroroso. Depois minha mãe só teve homens, era essa irmã Helenice, mas depois não teve mais mulheres, vieram os quatro homens. Aí eu vou passar para a parte musical da história. A minha mãe tinha estudado piano até se casar, estudava no Conservatório Mineiro, tocava o clássico e tudo. A minha mãe não tinha esse negócio de tocar por ouvido, ela tocava só com a partitura e meu pai dentro da ignorância teórica musical dele, era um bom músico de ouvido, ele tocava de ouvido, fazia segunda voz muito bem, chegava ao piano e tirava umas coisas assim bem rudimentares. Mas pra quem nunca tinha sentado pra tocar, ele ia tentando até conseguir, ele era musical, o que ele não sabia de teoria ele tinha em musicalidade. A soma dos dois foi muito importante na minha formação. Por causa da minha mãe eu ouvi clássico desde pequeno e por causa do meu pai, que gostava de clássico, gostava de Chopin, comprava partituras pra minha mãe tocar. Ele veio com o outro lado, quero dizer, foi através do meu pai que eu comecei a ouvir Luiz Gonzaga, Ernesto Nazaré, Jacó do Bandolim, Jackson do Pandeiro, Nelson Gonçalves. Isso tudo eu ouvia no rádio ele comprava partituras, mas depois ele começou a comprar discos. Por exemplo, Jacó do Bandolim tocando Nazaré, que era um disco maravilhoso, era um álbum com quatro discos, eram oito músicas em 78 rotações, isso foi muito importante para mim. O Nazaré é uma pessoa que, dentre outras, me influenciou bastante, o Nazaré foi um deles. Eu ouvia a música no rádio e ia lá e tirava com o dedo, então minha mãe resolveu antecipar o ensino de teoria pra mim, “vamos ensinar pra ele rápido, vamos ensinando pra ele não tocar só de ouvido”. Aí eu comecei a aprender música, antes de aprender a ler, então, quando eu entrei no grupo escolar, com sete anos, eu já tocava alguma coisa de piano. Naturalmente virei a gracinha das professoras, tocava nas festinhas, minueto facilitado e foi isso, a minha formação, a base foi essa.

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Musicas que ouvia, profissionalização

Depois eu continuei, gostando de tudo quanto é tipo de música que me emociona, sei lá de que espécie e aí vieram as outras coisas, o jazz, música cubana, pela qual sou apaixonado, clássico. Concomitantemente e comecei a fazer baile e o que faltava, porque no repertório de baile você tinha que tocar de tudo, eu tive a sorte de a parte americana ser a geração de ouro, ou seja, Gershwin, Rodgers, Heating, Rubinstein, essas músicas maravilhosas americanas, porque as décadas de 1940 e 1950 são impressionantemente lindas, ricas, músicas maravilhosas e isso tudo faz parte, graças à Deus, da minha formação, então eu me tornei um ser eclético. Dentro da música eu toco de tudo. Quando eu tinha 16 anos, eu já fazia baile essas coisas todas, comecei muito cedo. Eu fui tocar num lugar que nem podia tocar, eu não tinha nem idade pra isso, eu tinha 16 pra 17 anos e fui tocar numa boite que começava a funcionar meia noite, se chamava Pantera Negra, na Avenida Amazonas, perto da Praça Sete e eu tive que fingir que era mais velho. E papai também, papai era da polícia, era dentista da polícia, ele já tinha se formado em Odontologia quando entrou pra polícia e depois se formou em Direito quando já era da polícia, para ser delegado, mas como dentista ele não seguiu muito não, porque o tempo que sobrava pra ele era à noite, pra ele ir para o consultório dentário. E papai era boêmio, então os clientes dele pagavam quando podiam, ele era camarada e ele até nem ganhou dinheiro com odontologia não. Enfim, ele conversava com pessoal do Juizado de Menores e eles fingiam que não sabiam que eu tinha 16 para 17 anos. Aí entra uma outra história, de mais uma coisa que vem ser acrescentada ao meu repertório, é que eu, aos 17 anos, fui tocar no Montanhês Dancing, num conjunto que revezava com a Grande Orquestra. Eu vou explicar como funciona um Dancing para vocês que não conhecem: por exemplo, Taxi Dancing, o Montanhês era um Taxi Dancing que ficava na Rua Guaicurus, onde era a zona de meretrício e tudo. Só que Taxi Dancing era uma coisa diferente, as mulheres eram dançarinas. Aqui no Rio era o Dancing Avenida e o Dancing Brasil, ali na Cinelândia. Onde era o Dancing Avenida tinha aquela boate que funcionou bastante tempo que era do Chico Recarei, que funcionou ali, o nome era Café Nice e os músicos de brincadeira chamavam de Cafonice (risos). Nesse Taxi Dancing, as mulheres tinham um cartão cada uma, aí você que gostava de dançar, já tinha a sua mulher preferida, você ia lá e dançava com ela e tinha o cara do picotador, que ficava marcando o tempo. Você pagava pra dançar, era isso basicamente. Então eu quero chegar nisso: nesses lugares quase todas não eram prostitutas, apesar do lugar que trabalhavam. Vou te dar um exemplo, a Elizeth Cardoso foi dançarina do Dancing Avenida, era o que eles chamavam de “Taxi Girl”, era taxi por quê? Porque era contado por hora. O picotador marcava no relógio e quando ela parava de dançar ele picotava e no final da noite ela recebia o correspondente ao que ela dançou. E esses lugares, como viviam cheios de rico, eles podiam se dar o luxo de ter uma grande orquestra e um grupo menor para revezar. Porque a música não parava e eu fui trabalhar neste grupo menor, com 17 anos. E pra fazer diferença do repertório da grande orquestra, esse grupo tocava três coisas basicamente: chorinho, valsa vienense e tango. Então, nesse do tango trabalhavam quatro argentinos e eu posso dizer hoje que eu sou um bom tocador de tango (risos), o que já até me valeu em algumas ocasiões. Eu acabei de te dar a minha formação. Comecei então aos 15 anos fazendo baile e aos 16 eu comecei a trabalhar na noite, nos lugares proibidos pra minha idade. Esse Pantera Negra era uma boate que tinha prostitutas, que tinha tudo, ele começava à meia noite, então não era uma boate família como se dizia, tinha prostitutas, tinha uma parte de dançarinas. Começava meia noite e acabava às quatro e meia. Como eu não estava acostumado a dormir pouco, com aquela idade eu trocava, eu achava horroroso perder as manhãs, mas eu ia dormir seis horas da manhã e como eu ainda era novo, precisava de oito horas de sono, eu acordava três horas da tarde, quatro horas, eu não gostava disso, mas o lugar era isso, entendeu? Uma boate que funcionava esse horário, tinha prostitutas, tinha isso tudo.

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Cotidiano escolar

Ah, minha vida escolar foi bem permutada, ela foi cheia de peripécias, porque chegou uma hora que eu tive que parar, passei a estudar de noite para ver se dava certo. Foi assim, eu perdi muitos anos por causa da freqüência, tinha que ter um nível de freqüência e eu perdia o ano por freqüência, porque as vezes eu não conseguia ir a aula de manhã. O período que eu estudei de manhã eu não consegui mais, aí eu parei e retornei depois à noite, mas aí parei de novo, enfim, isso influiu muito na minha vida escolar.

Família, Formação Musical
Pais / Iniciação Musical

Papai adorava música popular e minha mãe tinha reservas. No fundo ela queria que eu fosse um pianista clássico. Aí quando eu demonstrei um ouvido logo cedo, meu pai foi quem me levou para o Bando dos Cariúnas, uma orquestra infantil que tinha em Belo Horizonte do Elias Salomé, que tinha uma orquestra de músicos. Com os alunos ele formava uma banda e o Harley Flamarion que era o pianista dessa banda. O Harley Flamarion é primo do Toninho Horta. O Harley é mais velho que eu e ficou grande e surgiu essa brecha e eu não sei como meu pai ficou sabendo e me levou lá para fazer o teste e eu passei a tocar nesse Bando dos Cariúnas. Nesse bando eu já fiquei conhecendo músicos profissionais e aí pra começar a fazer baile foi um pulo. Eu falei que tinha sido com 15 anos, mas talvez tenha sido até antes um pouquinho, mas pode colocar 15 anos porque era por aí. Comecei a fazer baile por aí, assim em conjuntos medianos em termo de qualidade. Minha mãe ficava meio assim, mas meu pai era entusiasmado com esse negócio de música popular. Então meu pai quem me levou no Montanhês a primeira vez. Eu entrei escondido, por que eu era menor, eu tinha 16 e meu pai conhecia todo mundo no Montanhês, era da polícia, dentista dessa turma da noite, então ele conseguia me botar lá pra eu ouvir a música. Eu entrei escondidinho e fiquei atrás do conjunto, esse conjunto que eu ia integrar uns dois anos depois. Quero dizer, ou seja, papai me deu muita força, me incentivou muito nesse negócio de Música Popular Brasileira, ele cobrava esse negócio de estudo, mas ao mesmo tempo… Eu também comecei a ganhar dinheiro cedo e comecei a contribuir para a renda familiar cedo e isso foi um dos motivos para o meu pai achar bom também (risos).

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Aprendizado

Olha, teve um período em que eu não estudava nada, mas como eu comecei muito cedo, eu pegava uma base e quando a gente pega uma base isso fica mesmo, não tem jeito, mais tarde veio a ser muito útil pra eu aprender coisas novas. Eu vim aprendendo no decorrer da vida muito pouco de freqüentar um curso. Eu tive professores particulares de piano lá em Belo Horizonte, o Altino Pimenta, estudei na Universidade Mineira de Música, que era particular, mas tinha uma estrutura, grandes professores, estudei lá muito pouco, mas eu era bem moleque preguiçoso pra estudar, sempre fui, aí, como eu tinha facilidade de ouvido… Aí mais velho, já homem feito, é que eu fui complementando as coisas, faço isso até hoje, continuo aprendendo até hoje, mas aí fui aprender outras coisas, orquestração, isso tudo foi por conta própria, estudando em livro, arranjos estas coisas todas e venho tentando complementar desta maneira, assim, estudo uma coisa aqui, outra ali, pergunto daqui, ouço dali, experimento d`acolá e vou levando. (risos)

Adolescência
Coisas que gostava de fazer

De lazer o principal era o futebol, que até hoje é uma paixão e lamentavelmente eu sou atleticano e nesse momento da entrevista, você está rindo não é Tati, o Atlético é o penúltimo colocado no Campeonato Brasileiro de 2005. Eu tive até um irmão profissional de bola, o irmão que vem abaixo de mim. Então eu morei no IAPI que era um conjunto dos assegurados do IAPI. Meu avô foi para lá, para um apartamento e essa casa da Serra se desfez. Meu avô foi pra um apartamento com a filha solteira, irmã da minha mãe o outro filho solteiro, e nós, nossa família, minha mãe, meu pai, eu e meu irmão fomos pra um apartamento nesse mesmo IAPI. IAPI é aquele conjunto residencial ali do São Cristóvão, de onde saiu Tostão. Eu joguei muita pelada com o Tostão, meu irmão mais velho era técnico de um time de futebol infantil lá do IAPI e era um time tão bom que o América de Minas levou o time todo para a seleção infanto-juvenil do América, todo, menos o Tostão que já jogava no futebol de salão do Cruzeiro. Logo depois o Felício Brant tirou ele do América e o levou pro Cruzeiro. O meu lazer principal era o futebol, eu jogava futebol o dia inteiro, qualquer hora era futebol, cinema e música, eram esses, basicamente. A partir de certa idade a cerveja é claro, muita cerveja.

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Ponto dos Músicos

Freqüentei muito, muito, o tempo inteiro. Outro dia eu estava falando com o Valtinho que é um baterista dessa nossa geração que mora aqui há muitos anos, a gente estava falando sobre isso. O Ponto era um lugar onde se conseguia trabalho, mas era também um ponto de encontro de músicos, lugar de bater papo, eu ia todo dia e a gente saía do ponto e ia tomar uma cerveja ali. O Ponto era onde é a Sapataria Americana, Afonso Pena com Tupinambás, se estendia de uma esquina, porque a gente ficava em uma calçada conversando. Ele funcionava de 16 às 20 horas, aí já começava a se desfazer, cada um ia pro seu lugar e alguns de nós, eu sempre ia pra um bar terminar a conversa ali. Mas ficava ali, aquele monte de músicos. Tinha épocas em que ele fervilhava mais, por exemplo, fim de ano, porque tinha muito baile de formatura, apareciam músicos que não estavam acostumados a aparecer ali, mas justamente para pegar o trabalho, porque ali era o escritório. Os contratantes iam ali e falavam “fulano, quer fazer um baile dia tal? Terno azul marinho, gravata borboleta, vai dar tanto, em tal lugar assim”. Funcionava assim, como funcionou aqui no Rio de Janeiro, na Praça Tiradentes, em frente ao João Caetano. Era isso, os locais de encontro eram sempre esses, da tarde para o fim da tarde até o começo da noite e a gente ficava ali jogando conversa fora, ria e eventualmente pegando um trabalho. Uma mania que a gente pegou uma vez que era de incendiar o jornal da pessoa que estava lendo. A gente chegava assim como quem não quer nada e colocava fogo e mesmo assim nós éramos contratados. Mas é claro que havia um bar perto, mas a gente no começo não ficava no bar, quando ia ficando de noite a gente ia pro Bar Comércio, que era ali entre Tupinambás e Curitiba, ficávamos ali na calçada mesmo. Aí eventualmente começava a escurecer… Eu sou daquela turma que não gosta de beber com o sol, só depois que escurecia é que a gente começava a beber. O ponto, deixa eu ver, era freqüentado pelo Chiquito Braga que eu conheci lá no Ponto, o Aécio Flávio eu não conheci no ponto, mas ele freqüentava e por uma coincidência ele era meu colega no Colégio Municipal, na admissão. Eu conheci ele assim, a gente assentou juntos e por coincidência éramos músicos. Aí tinha Pascoal Meirelles, o Nivaldo, deixa eu pensar, o Nivaldo Ornelas eu conheci no Ponto também, ou no Montanhês, quando ele foi dar canja de clarinete, aí eu indiquei o Nivaldo para tocar saxofone tenor. Eu tocava com o Balona, o Célio Balona, no conjunto de baile do Balona e ele falou: “Pô Helvius, eu precisava de um cara que tocasse saxofone tenor”. E eu tinha um amigo, o Dickson, que tocava clarinete e sax tenor, esse Dickson morava no IAPI. E o primeiro conjunto de baile que eu toquei, ele era um dos líderes e foi ele quem fez minha cabeça pro jazz, para tocar jazz, então foi ele quem me apresentou o jazz, eu gostava muito do Louis Armstrong. Então o Dickson já tinha me dado a dica que o clarinete era mais difícil que o saxofone tenor, então eu deduzi que se o Nivaldo toca clarinete ele vai ter facilidade para tocar o saxofone entendeu? Fica mais fácil. Aí eu falei com o Balona: “conheço um cara que toca Clarinete, se a gente convence-lo a comprar sax tenor e aprender rapidamente” é se adaptar, porque a técnica é mais fácil do que a do clarinete. Então o Nivaldo eu conheci no Montanhês, dando canja de clarinete, descobrimos depois, conversando, tomando cerveja, que tínhamos um gosto musical muito parecido, aí indiquei o Nivaldo pro Balona e ele tocou. Quem mais eu conheci no Ponto dos Músicos? Deixa eu ver, o Marilton não. O Marilton, o Marcinho e o Bituca foram todos desse departamento, foram por causa do Marilton, que é o mais velho, que eu conheci na TV Itacolomi e ele me levou na casa dele, onde eu conheci o Marcinho e conheci o Bituca. Mas conheci, desta geração que veio pro Rio, deixa eu ver, o Pascoal Meireles, Nivaldo, Chiquito Braga, que está aqui, não me ocorre mais ninguém que vocês conheçam.

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Marilton Borges / Célio Balona / Márcio Borges / Milton Nascimento

O Marilton é o seguinte: na época em que eu tocava no conjunto do Balona, o conjunto do Balona era muito popular lá em Belo Horizonte, a gente passou a fazer um programa todos os domingos na TV Itacolomi, levava convidados. O programa era do Balona com o Grupo e recebia convidados. O Célio Balona é um músico muito talentoso, intuitivo, não conhece teoria musical, mas tem um ouvido fabuloso, toca vários instrumentos, mas é especializado em teclados e vibra-fone, essa família aí. Ele toca uma flauta, canta bem e tudo. E o Balona surgiu tocando acordeom, surgiu muito cedo com o Delê, com o Castilho, quem eu até toquei também. Mas o Balona, pelo bom gosto, pelo ouvido, pela musicalidade, ele logo foi chamado para tocar em uma boite chamada Holiday e aí passou pra o vibra-fone, porque o acordeom, teve uma época que ficou meio estigmatizado, cafona, por causa de música nordestina. Então eles formaram um grupo refinado que era o Rui Carneiro de piano, o Balona no vibra-fone, o Paulinho Horta, irmão mais velho do Toninho que morreu há pouco tempo agora no contrabaixo, era um grupo muito chique. E o Balona foi se destacando e mais tarde ele sentiu que ele podia fazer o grupo dele de baile e esse grupo fazia muito sucesso, a gente tocava no Iate todo domingo, tocava no Automóvel Clube. O Balona era um cara de certo poder com high society de Belo Horizonte e muito comunicativo, ele é uma pessoa muito comunicativa, desinibido, desembaraçado, enfim, com as qualidades de um comunicador, então ele fazia esse programa aos domingos. Ah! E esse tal Bando dos Cariúnas que eu toquei, essa orquestra infantil que eu toquei, também fazia um programa na Itacolomi, isso antes do Balona. Aí eu comecei a fazer amizade dentro da própria TV Itacolomi que ficava ali no edifício Acaiaca e às vezes ia lá só pra ver as pessoas, freqüentava. E nessa eu conheci o Marilton que participava de um programa aos sábados que agora eu não estou me lembrando qual, mas ele me chamou atenção, falei: “pô, esse cara é musical, toca um violão bem e tal” e a gente fazia esse programa do Balona e não sei por que, um dia eu cruzei com o Marilton e a gente tem mais ou menos a mesma idade e eu gostei da musicalidade dele e ele gostou da minha e a gente foi ficando amigo. E aí passe a freqüentar a casa dele no edifício Levy. Ele falou: “vamos lá em casa”, eram 11 irmãos, “vamos lá pra você conhecer minha família”. Então, eu estava falando até para o Marcinho aqui, que a primeira coisa que me impressionou na casa dele foi o tamanho das panelas (risos), eu nunca tinha visto aquilo, “isso parece um hotel!” (risos), aquelas coisas, falei: “meu Deus”. Aí passei a freqüentar e conheci o Marcinho, fomos ficando amigos e consequentemente o Bituca, o Milton e aí passei a freqüentar o edifício Levy, conhecia outras pessoas do edifício Levy. Daí é que surgiu a primeira coisa.

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Primeira Gravação

Quando a gente formou um trio, eu, Pascoal Meireles e Paulinho Horta, que morreu há pouco tempo, irmão do Toninho e os dois ficaram me incendiando para armar um trio, porque nesta época era moda, tinha que fazer um trio, tinha o Tamba Trio, não sei o que. Aí fizemos o Tempo Trio. Fizemos esse Tempo Trio, participamos de alguns festivais, aí o Pacífico Mascarenhas gostou do trio e falou: “Helvius, eu vou trazer um cara para ouvir vocês aqui” que era um mineiro que era diretor musical da ODEON aqui no Rio, o Milton Miranda que já morreu também. O Milton era um produtor musical sensibilíssimo e essa turma toda do Bituca, do Clube da Esquina ele estava ali por trás. Aí o Milton gostou muito do Trio e quis contratar o Trio para a ODEON, mas para um selo da ODEON que se chamava London. Era um selo de música instrumental e aí nesse eu que escolhi o repertório e resolvi gravar uma música do Milton Nascimento e do Márcio Borges chamada E a Gente Sonhando, embora tenha sido gravada sem letra, porque era instrumental, mas o título já era dele. Então eu quero dizer, foi a primeira música gravada numa gravadora profissional. Teve uma música dele, no tempo de Três Pontas, que se chamava Barulho de Trem que ele gravou, mas era uma coisa mais restrita, tipo uma coisa independente, foi um precursor de um disco independente, não passou de um círculo pequeno. A primeira música do Milton gravada e cantada foi a Canção do Sal, pela Elis Regina, mas antes disso o Tempo Trio já havia gravado na ODEON esse E a Gente Sonhando que era letra do Marcinho e música do Milton. Eu vim para o Rio de Janeiro fazer este trabalho e voltei para Belo Horizonte, digamos que foi o primeiro trabalho que eu fiz no Rio de Janeiro. Eu já havia tocado com músicos do Rio em Belo Horizonte, mas aí eu acompanhava quando eles iam lá, mas assim, no Rio de Janeiro, essa foi a primeira gravação foi em 1965, no 4.º centenário do Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro
Essa primeira gravação abriu algumas, mas não imediatamente, mas o fato de ter esse disco, já quando eu passei a morar no Rio mesmo, facilitou, porque aí eu já conhecia algumas pessoas por causa desta gravação. Na verdade eu vim trabalhar no Rio por acidente. Eu já tinha vindo no Rio uma época, essa coisa é muito engraçada, porque eu fui funcionário público do IAP-FESP, hoje tudo se fundiu no INPS, mas antigamente era tudo separado esse conjunto residencial era do IAPI, era dos industriais. Tinha o IAPI que era dos industriários, tinha o IAPC que era dos comerciários, IAPB dos bancários e o IAP-FESP era dos ferroviários e empregados dos serviços públicos e eu trabalhei, era uma autarquia federal. Eu trabalhei lá e em uma das vezes em que eu fui passear no Rio com o Nivaldo, eu dei uma canja no Bonton`s Bar, famoso reduto da bossa nova da música instrumental, aí dei a canja e quando terminou a canja, veio falar comigo o Carlos Lira, que por sinal foi com quem eu toquei ontem em São Paulo, aí com você que o mundo da voltas não é? Aí ele veio e falou: “você não gostaria de tocar em um musical que eu estou armando aí?” aí eu falei: “Nossa! Não, não posso, eu sou funcionário público lá em Belo Horizonte e eu não posso ficar muito tempo fora”. Mas mais tarde eu sabia que ia ter que sair, porque eu tinha que optar uma hora. Não topei, porque eu sabia que tinha de voltar para Belo Horizonte para continuar trabalhando no instituto e a tal peça era A Pobre Menina Rica (risos), o tal musical, engraçado isso não é? E agora, por ironia, de uns anos pra cá tenho trabalhado com o Carlinhos e aí eu comentei isso com ele. “que engraçado não é? Era pra ter trabalhado junto aquela época, não estava escrito.” Mas aí eu voltei para Belo Horizonte, fiquei lá e continuei. Aí depois que eu saí do IAP-FESP, teve uma cantora chamada Marisa Angerosa, que é uma filha de italianos, muito bonita, que era até amiga do meu tio, vizinha do meu tio na Floresta e ela era estudante de jornalismo e começou a fazer parte, entrar nos festivais que a gente fazia e como ela cantava muito bem, ela foi classificada na grande chance que era um programa do Flávio Cavalcanti aqui que revelou o Emílio Santiago, como tem hoje esse Fama, tinha jurados. Claro que não com a estrutura de hoje, tudo que tem hoje, esse carnaval, mas era um programa com eliminatórias, com jurados e essa Marisa foi classificada, então ela convidou o Tempo Trio para acompanhá-la na apresentação. Então a gente se preparou, ensaiou tudo e quando faltava um dia ou dois ela recebeu a notícia de que não podia, todos deviam cantar com o mesmo grupo. Aí puxa vida! Foi aquela decepção. Aí como já tínhamos preparado o espírito para vir para o Rio, eu e o Paulinho Horta falamos: “vamos assim mesmo passear”, pronto (risos). O Pascoal, o pai dele já tinha um apartamento aqui, pequenininho, no Botafogo, para passar férias e fim de semana e viemos assim mesmo. Aí, olha a coincidência, a noite eu vim passear no Leme, na noite do Leme e me encontrei com o Juarez Santana, um organista, sobrinho do Cauby Peixoto, que eu fiquei conhecendo em Belo Horizonte, ele foi acompanhando o Cauby no lugar onde eu estava fazendo baile, no Automóvel Clube e ele tinha me visto tocar. Aí eu encontrei com ele assim, ele deu um intervalo e foi tomar um guaraná, eu estava tomando uma cerveja não me lembro mais com quem ali perto do Drink, uma casa noturna famosa no Rio que foi dos irmãos Peixoto, do Cauby e do Moacir, eles eram proprietários do Drink e o Drink era uma casa que fez muito sucesso na noite. Então o Juarez me viu e falou: “pô Helvius o que você está fazendo aqui no Rio?” aí eu falei: “estou passeando” “você não quer me substituir amanhã não” e eu falei: “vou uai, substituo”, aí substituí e tal, mas aí estava faltando um músico na casa. Aí acabei na noite eles me convidaram para continuar no Drink, revezando com esse Moacir. Aí eu passei a revezar com ele. Aí o que aconteceu? Eu comecei a vir ao Rio para passear e nesse meio tempo o Bituca já morava na Xavier da Silveira, ele, um amigo dele de Três Pontas, o Cleber e o Novelli, os três dividiam um apartamento ali na Xavier da Silveira. E como o Bituca estava dormindo pouco ali, ele ficava mais em Laranjeiras, eu perguntei se eu podia morar ali um tempinho e fiquei morando nesse apartamento, liguei pra minha mãe e falei: “mãe, manda a roupa que eu vou ficar no Rio” e já de cara eu fui morar nesse apartamento onde moravam o Bituca o Novelli e esse Cleber. Fiquei no Rio e estou até hoje, só saí por dois anos para ir para o México, dois anos e voltei.

Voltar ao topo FESTIVAIS

1.º Festival de Música Mineira no Rio de Janeiro

Foi o seguinte: a gente estava convidado à participar, aliás, até a capa desse disco que a gente fez é a gente no palco deste festival. Mas acontece que por uma coincidência fantástica, a gente ia participar, mas ao mesmo tempo a gente já estava no Rio quando eles chegaram aqui, porque a gente já estava gravando o disco na ODEON. Então a gente já tinha viajado, já estávamos no Rio, já hospedados ali no Rio mesmo e essa famosa viagem de ônibus da turma do festival eu não estava, fiquei sabendo quando eles chegaram daquelas histórias todas que aconteceram na viagem, de salvar pessoas que estavam afogando, porres e tal. Eu me lembro era da aflição que a gente ficou porque essa trupe chegou quase na hora de começar o festival, não chegavam, ligaram naquela época do meio da estrada dizendo que tiveram problemas e a gente morrendo de aflição. Aí chegou todo mundo, era Aécio Flávio, Wagner Tiso e várias formações e o Tempo Trio participou só que a gente já estava no Rio, a gente não fez a famosa viagem. Participamos, o Tempo Trio participou, tanto que a capa do disco é a gente tocando neste festival, no Clube da Aeronáutica, no Rio de Janeiro e foi isso, participamos sim do Festival Mineiro da Canção no Rio de Janeiro (risos).

Belo Horizonte / Boite Berimbau
Depois eu voltei para Belo Horizonte. Ah! Tem um capítulo muito importante, a gente comemorou 40 anos da Fundação dessa Casa agora no Palácio das Artes. É o seguinte: nessa época, o Antônio Moraes, que era um jornalista que de um jornal que tinha saído em Minas, novo, acho que era Correio de Minas, jornal que importou o Fernando Gabeira de Juiz de Fora para ser o chefe de redação lá. Era um jornal novo, com a equipe toda nova e o Gabeira foi de Juiz de Fora para comandar lá a redação, garoto precoce, devia ter uns 18 ou 19 anos assim sabe? Fantástico. E ele gerou muita inveja lá na época, mas tiveram que reconhecer que o camarada era craque. Aí tinha o Antônio Moraes que já tinha organizado festivais lá em Minas, mas aí festivais de competição que todos os dois anos foi o grupo do Aécio Flávio e o nosso grupo, eu ganhava como melhor composição, melhor música do ano. Foi um festival de jazz que os jurados músicos que foram tocar no Automóvel Clube, que era um trio que acompanhava o Jorge Ben e no de Bossa Nova, os jurados foram os do Tamba Trio que fez o show enquanto os jurados enquanto os jurados estavam reunidos e eu ganhei o troféu de melhor música nos dois e esse Antônio Morais quem organizou. E esse Antônio Moraes depois ficou incendiando a gente pra fazer uma casa tipo Boton`s no Rio onde só tocava jazz e bossa nova. Aí ele incendiou, incendiou, incendiou e eu, Nivaldo Ornelas, o Pascoal Meireles, o Ildeu que era contrabaixista, ele tocou comigo na época do Balona, mas o Ildeu não se dedicava muito à música, ao instrumento tanto que ele seguiu outra carreira, hoje ele é até um produtor cultural lá de Belo Horizonte, nosso amigo. Aí o Ildeu também topou, o Antônio Moraes e um tio do Pascoal, nós éramos seis sócios nessa casa noturna e contratamos um músico, o Figo Seco, que já morreu, era um músico carioca que morava lá, um craque, tocava trompete, maestro e tudo e montamos essa casa no Edifício Maleta, foi há 40 anos, o Maleta fervilhava. Essa casa teve uma carreira mais curta porque o ambiente do Maleta foi ficando mais pesado, mais pesado e já estava atrapalhando, aí passamos a casa para frente, quero dizer, primeiro passamos para o Bolão e depois… O Antônio Bolão é o Antônio Moraes. Mas essa casa foi maravilhosa, porque a gente tocava o que a gente queria mesmo e tinha público, ia muita gente, jornalista ia assistir a gente e era uma casa bonita, de bom gosto. Os únicos que ganhavam dinheiro na casa, porque era mais cacique do que índio, eram seis sócios, eram o garçom e o músico contratado, porque a gente bebia a nossa comissão. Agora a gente comemorou isso no Palácio das Artes, esses 40 anos, com o Nivaldo, com o Pascoal e eu, que éramos músicos. O Ildeu participou, mas na produção e na idéia, ele foi quem vendeu a idéia, o patrocinador e o Bolão, o Antônio Moraes, que mora no Espírito Santo hoje foi lá participar e o Wagner Tiso e o Toninho Horta participaram, porque o Wagner teve uma participação no Berimbau, o que é outra passagem interessante, que é o seguinte: através do Marilton, porque a gente fazia um outro programa na Itacolomi, já não era mais o do Balona. Participou deste programa um conjunto chamado Evolussamba que era o Marilton que cantava e tocava violão, o Bituca, cantando e tocando contrabaixo, o Wagner Tiso cantando e tocando piano, o Marcelinho no vocal e um baterista, esses dois não seguiram na carreira musical, esse Marcelinho do vocal e esse baterista que eu me esqueci do nome também não seguiu. Aí eu gostei do grupo e propus na casa que eles começassem a abrir a nossa apresentação, se apresentassem lá também. Aí na época eu sei que pra eles foi importantíssimo isso, eu não sei se eu já conhecia o Milton, o Marilton com certeza eu já conhecia, não me lembro se eu já conhecia o Milton da casa do Marilton, mas enfim, eles passaram também a trabalhar no Berimbau e era um grupo vocal bom, o Evolussamba. Enfim, foi uma outra passagem importante do meu relacionamento com os integrantes do Clube da Esquina.

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Clube da Esquina 1972

Quanto ao Clube da Esquina propriamente dito, eu não participei, tanto. O meu conhecimento com o Marcinho, com o Marilton e com o Bituca é até anterior ao Clube da Esquina, passou a existir mais quando eles saíram do edifício Levy e foram para Santa Tereza. Mas aí eu já conhecia o Lô, conhecia o Yé, o Beto não, o Beto eu só fui conhecer quando eu voltei dos Estados Unidos, aliás, foi nesse período em que eu estive no México que gravou-se o disco Clube da Esquina, tanto que a minha foto que tem no encarte é um foto de carteira de identidade que minha mãe deu pra eles, porque eu estava morando fora e não tinha foto nenhuma. E tem até uma foto da minha mãe também nesse encarte famoso e a minha foto que está lá é uma foto de 3 x 4 de documento mesmo. Então quanto o Clube da Esquina aconteceu mesmo, eu nem estava mais. O Beto, por exemplo, eu vim conhecer depois. A minha relação com o Clube da Esquina é musical e afetiva com alguns dos fundadores, vamos dizer assim, mas eu não participei porque também era uma coisa mais de cantor e compositor. Eu componho e tudo, mas eu me dedicava mais à composição instrumental e não era cantor e não sou, embora hoje eu me atreva a fazer uns corinhos. Eu ouvi pela primeira vez na casa no Novelli, porque quando eu cheguei dos Estados Unidos eu fiquei um tempo hospedado na casa do Novelli. Foi a impressão mais maravilhosa possível de emoção, foi espetacular. Eu já tinha ouvido um disco anterior a este que chegou lá em Los Angeles, onde eu morava, esse disco anterior que tem Para Lennon e McCartney, não me lembro agora o nome desse disco do Milton e logo depois saiu o Clube da Esquina, que eu vim a conhecer logo que cheguei aqui e foi um encantamento, claro, também, uma coisa bonita daquela, como dizer outra coisa? Impressão melhor impossível, não é?

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Clube da Esquina: avaliação

Sim, pode sim ser considerado um movimento musical. Pela estética diferente que ele tinha, a mistura de tendências muito afins, mas com personalidades realçando essa turma que é uma geração de ouro não é? É uma geração posterior a minha, mas deu no que deu não é? Toninho Horta, Beto Guedes, Lô Borges, sem falar no próprio Milton, porque o Wagner também foi uma coisa parecida com o meu caso, o Wagner também não participou, ele tinha uma relação diferente, mais ou menos como a minha, ele era instrumentista e não era cantor também. Enfim, a impressão foi essa. Eu acho que marcou sim, é um marco, você pode dizer “antes do Clube da Esquina e depois do Clube da Esquina” porque foi uma coisa que pegou o Brasil de surpresa, porque é uma coisa de tamanha qualidade e com cara própria, não é? Não parecia com nada do que estava se fazendo. E trouxe uma qualidade muito grande para o rock, porque muito daquilo ali era rock, trouxe um refinamento, uma sofisticação, uma mineiridade. Vou dizer, porque tem essa coisa da cultura mineira de ser… Vamos falar no bom português: “de ser craque em harmonia” de sermos refinados nesse negócio de harmonia, que é uma coisa que é reconhecida por outros músicos brasileiros. Então o Clube da Esquina tem essa marca de ser um disco divisor de águas, pra mim é, injetou sangue bom e novo na música daquela época.


Milton Nascimento

Eu toquei com o Milton. Quando eu parei de tocar com o Balona, esse Ildeu falou: “Helvius, porque você não armar um conjunto? Porque eu tenho lugar pra gente tocar, no DCE e no Iate.” Aí armamos um grupo que era o Ildeu de contrabaixo, eu tocava piano, Pascoal era o baterista e tinha mais um, eu não me lembro do guitarrista e eu convidei o Milton para ser o crooner e ele foi o crooner desse meu grupo que tocava no Iate e tocamos no DCE. A gente tocava na Hora Dançante, no Iate e no DCE e eu chamei o Milton para se o crooner e ele topou, fez um tempo e depois viajou para São Paulo e lá ficou, porque aí ele começou a participar de movimentos e não voltou mais pro conjunto. Aí eu botei outra pessoa no lugar. Foi bom você perguntar, porque eu tenho mais essa ligação com o Milton e essa do conjunto já veio depois dessa história do Berimbau, porque o Berimbau acabou, a gente era idealista, mas precisava sobreviver, ganhar dinheiro e uma das maneiras era tocar pra dançar em clubes e casas noturnas, como é hoje pra quase todo mundo.

Turnê
México

No México foi o seguinte: eu fui convidado quando eu tocava ali no Leme, aí eu já estava tocando em outro lugar chamado Pub, era um barzinho pequeninho, eu lembro que uma das donas era a Valesca, uma cantora da fossa e o namorado dela era um médico que gostava de música armou essa casinha pra ela cantar. Mas aí começamos a freqüentar ali, eu ia muito lá e depois numa época eu toquei lá e lá era muito freqüentado pelo pessoal da música o Sérgio Bittencourt ia lá toda noite, o pessoal do Flávio Cavalcanti, o Sérgio Bittencourt até falava sempre o Pub, citava o Pub, fala que era a Pontifícia Universidade da Boemia, o Pub significava isso. E esse Pub era assim na esquina onde morava o Guto Graça Melo e no próprio Leme tinha o bar Manifesto, ele passou a se chamar Manifesto por causa do grupo Manifesto, aquele do Guarabyra que tirou primeiro lugar e Travessia tirou segundo, sob muitos protestos na época. Margarida, Apareceu a Margarida, do grupo Manifesto tirou o primeiro lugar e Travessia tirou o segundo e desse grupo Manifesto fazia parte o Fernando Leporassi, o Guto Graça Melo e o Amauri Tristão. Aí eles resolveram sair do Manifesto e armar um grupo vocal instrumental e me chamaram, porque eles me viam tocar ali no Pub, era tudo dali do Leme, aí me chamaram pra fazer parte desse grupo. Aí montamos esse grupo que era Guto Graça Melo, Amauri Tristão, os cantores não é? O Fernando Leporasse que tocava baixo, aprendeu a tocar o baixo porque o grupo tinha que ser vocal e instrumental, não podia se dar o luxo de só cantar, tinha que toca instrumento para compor, para não virar uma coisa enorme e inviável, então o Guto tocava guitarra, o Tristão tocava uma percussão e cantava, todos cantavam, tinha um baterista que era o Normando, o Gegê, aliás, na época. Enfim, pra encurtar, esse grupo participou de um festival aqui, um Festival Universitário defendendo uma música do Tristão com outro cara e quem ganhou esse festival da TV Tupi, que não era universitário, foi o Gonzaguinha com a música chamada O Trem. O Luizinho Eça tinha um contrato no México, porque o Luizinho já tinha um nome lá por causa do Tamba Trio, então ele recebeu uma proposta pra montar um grupo e fazer uns shows. E ele tinha muita influência com um empresário mexicano o Villa Real e o Villa Real queria um grupo brasileiro também pra tocar em uma casa noturna lá. O Luizinho indicou a gente, mas a gente teve que tocar pro mexicano ouvir. Aí esse mexicano gostou e contratou a gente pra tocar numa casa que se chamava El Señorial, que era um tipo de casa com quatro ambientes e oito grupos musicais se revezando nesses quatro ambientes, oito e mais um que tocava só para dançar em uma outra. Porque aí a gente tocava no El Elefante Rosa, tinha lá Perla Negra, então era assim, era sempre um grupo mexicano revezando com um grupo internacional nesse Elefante Rosa. Tinha um quarteto de chinesas, mulheres tocando em um outro lugar, tinha um grupo irlandês tocando em um outro lugar, mas sempre revezando com o grupo mexicano. Mas aí para essa viagem pro México a gente teve duas modificações, tinha um rapaz aqui, o Otávio Brandão que já estudava engenharia, ele não pôde, aí substituímos pelo Fernando Werneck e a cantora também não pôde ir e a Cecília Saldanha da Gama foi cantando com a gente. Enfim ficamos lá nesse lugar, depois o contrato se espirou com esse negócio e a gente pegou um outro contrato, enfim, ficamos lá um ano no México. Aí o grupo foi se dissolvendo alguns voltaram para o Brasil. O Chico Batera que morava em Los Angeles foi morar uma época no México e foi tocar com a gente, aí ele incendiou a gente para ir para Los Angeles, porque ele arrumaria trabalho lá. Ele arrumou até lugar pra gente morar lá, quando a gente chegou já tinha até lugar alugado, pra gente tentar fazer um disco lá no selo do Sérgio Mendes. Aí fomos eu, o Guto Graça Melo, o Fernando Leporasse, o Chico Batera que já morava lá e a gente fez esse quarteto, chegamos a gravar um demo, já estava até certo, o grupo ia se chamar Áqua Marine, mas aí teve uns problemas de advogado, enfim, esse negócio do Sérgio Mendes acabou não saindo, porque sairia no selo do Sérgio Mendes e aí o grupo lá se desfez e eu fiquei mais um pouco lá trabalhando independentemente, o Chico Batera até me arrumava uns trabalhos, eu fiquei até que bateu a saudade e eu resolvi voltar, quero dizer, se eu estivesse lá provavelmente eu estaria fazendo outras coisas, mas aí eu falei: “não, chega, dois anos está bom” aí voltei.

Família
Casamento / Filhos

Eu fui casado até três anos atrás, hoje sou separado, tenho duas filhas e uma neta, que fez seis anos agora, Sábado, dia 20. Minhas filhas, elas adoram musica, a mais nova até uma época se mostrou entusiasmada, até queria que eu ensinasse pra ela, mas na época eu achei bom eu não ser o professor dela, na época seria mais interessante ser outra pessoa. Mas ela é tímida e não passou disso e ela não insistiu muito, enfim, aí é aquela história, se ela realmente tivesse ido à luta sozinha, é porque não era pra ser. Então ela hoje está se formando em Desenho Industrial e a mais velha que nunca se interessou em aprender é musical também, são todas musicais. A mais velha já há algum tempo é professora de Português e Literatura, ela fez Letras na UFRJ para minha alegria, até hoje eu falo, na época que ela passou no vestibular ela ficou muito feliz porque eu escrevi pra ela que eu tinha inveja, porque era uma das coisas que eu queria ter feito, então eu ia me realizar de alguma maneira através dela. E é bom que a gente tenha essas conversas assim sobre a nossa língua que é muito interessante. Hoje ela me ensina muita coisa, bom!

Clube da Esquina: museu
Isso é espetacular, não tem nada melhor. É como eu e o Márcio Borges estávamos conversando, o interessante é que vêm várias pessoas aqui, falam mais ou menos as mesmas coisas, mas cada um com a sua ótica, dentro da sua perspectiva, sempre cada um acrescenta o que o outro não disse, aí forma um painel de uma época, muito rico. Eu acho isso espetacular. Todo mundo tem a sua história e às vezes essa história vai embora e ninguém registra e o Brasil é tão carente de memória que uma coisa desta só merece aplausos.

Avaliação
Não teria nada a acrescentar a ser a minha admiração por eles todos. Fora da parte musical, eu sou muito amigo do Fernando Brant, o Fernando é meu irmão, é meu parceiro a gente tem alguma coisa junta, temos uns projetos e tal. O Clube da Esquina é isso, deu no que tinha que dar, grandes artistas, grandes músicos, grandes talentos e graças à Deus estão todos aí fazendo música bonita pra gente continuar ouvindo.

Fale na Esquina

Uma mensagem para Helvius Vilela

  1. tuca disse:

    Conheci o Helvius na Cesário Alvim. 55, onde morávamos. Meu filho Marco, hoje musico também, começou sua vida musical ouvindo o Helvius, que ensaiava em casa, com outros grandes musicos amigos dele. Nosso prédio era uma "festa" permanente pois além de ouvir o HELVUIS também era comum encontrar o Wagner Tiso, que morava também no Bloco A, Milton Nascimento, Dori Caimi, Nana e tantos outros. No bloco C morava Leila que cantava na orquestra Tabajara e seu marido que era pianista da Gal. Que saudade… Que felicidade ter te conhecido. Obrigada. Tuca, Marco, Rony e Rubens