Hely Rodrigues

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, data e local de nascimento

Eu sou o Hely Rodrigues. Toco no 14 Bis. Nasci em Belo Horizonte, Minas Gerais, num bairro bacana, bem humilde, porém de pessoas legais, honestas, em 07 de março de 1948.

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Nome dos pais

O nome do meu pai é José Miguel Ferreira e o nome da minha mãe é Maria Agostinha Dias.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Iniciação Musical

Bem, a minha começou como músico, quando eu vi um africano que morava perto da casa dos meus pais. Ele tinha uma banda e era multiinstrumentista. Dentre os instrumentos, ele tocava bateria. Então o meu primeiro contato com a bateria foi vendo esse africano tocar. Eu achei muito interessante o instrumento e o vendo tocar eu falei: “Poxa, é o que eu quero fazer”. Eu tive a sensação que ao sentar na bateria eu iria tocar.

FORMAÇÃO MUSICAL
Primeiro Instrumento

Eu tinha 13 anos. Então eu pedi a ele: “É um barato esse negocio aí, eu estou afim de ver”. E ele falou: “Você toca?”. Eu falei: “Toco”. “Então vem pra cá e assuma.” Aí eu sentei na bateria, tentei me organizar no instrumento e vi que não saía nada, a coordenação, não tinha como, aí eu falei: “Gente, eu tinha a certeza de que eu iria tocar isso”. Aí pra mim aquilo se tornou um desafio, me deu um mal estar muito grande e eu entrei numa de tocar aquilo. Eu fui correr atrás e ele foi o único cara que me deu os toques. Ele falou “Hely, você tem que arrumar umas coisas pra você ir distribuindo as batidas, os toques e tal”. E aí comecei. Ele foi meu maior incentivador, o nome dele é Ubadiê.
Eu não tenho mais contato com ele, mas eu estou a fim de achar essa pessoa, porque eu gostaria imensamente de fazer um trabalho sobre ele porque como músico ele era muito bom e como pessoa ele era melhor ainda.

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Relações Familiares

Eles não gostaram muito a princípio, porque o músico nessa época era muito marginalizado, era uma profissão que você tinha que cair na noite. O teatro e a música eram profissões pouco recomendadas para as famílias tradicionais, então foi uma barreira que eu tive que vencer. Mas eu acho ótimo que a família, embora não tenha gostado, não tirou esse incentivo, não me cortou o barato. Eles falaram: “Se é isso que você quer, manda ver e pronto”. E foi ótimo.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina

Bem, eu não faço parte do Clube da Esquina diretamente. Eu conheci o Beto Guedes e gravei com ele “A Página do Relâmpago Elétrico”, eu, Flávio, Vermelho, José Eduardo. E eu tocava também antes do 14 Bis, eu e o Vermelho. A gente tocava com o grupo Benengó, que é um grupo baiano, e a gente dividia o show com Caetano Veloso. Depois dessa época, a gente começou a estruturar o 14 Bis e aí gravamos o disco do Beto, fizemos alguns shows com o Bituca, o Milton Nascimento, eu, Vermelho e Beto Guedes e gravei também o disco do Lô Borges, o “Via Láctea”. Então sempre tive esse contato com os Borges, que são uma família espetacular. Então eu acho que, de certa forma, a gente veio fazendo parte dessa coisa de estar indiretamente ligado ao Clube da Esquina. O núcleo do Clube da Esquina é o Lô, os Borges, o Milton Nascimento, o Beto, esse pessoal aí e a gente é amigo. Eu acho que o Clube da Esquina é um tecido, um tecido de sensibilidade, de emoção, é uma trama espetacular e isso foi um legado que eles deixaram pra gente e pra moçada que está chegando hoje, que também está sentindo a pressão desse trabalho que eles fizeram que eu acho de uma importância incrível. Lá fora o pessoal tem um conhecimento sobre o Clube da Esquina, eles valorizam tanto isso lá que eu acho que a gente não tem nem idéia do que significa. Eu acho que a gente precisa mais dar uma escutada no pessoal lá fora pra gente saber organizar isso mais legal, valorizar isso mais adequadamente. Eu acho que foi um movimento que aconteceu em Minas Gerais que utiliza muito a cultura mineira – que é muito forte na arte da culinária – na música, que é uma coisa muito elaborada. Eu acho que é fantástica essa coisa que está surgindo agora, que está sendo jogada pra cima. Eu acho um barato.

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Clube da Esquina – 1972

Olha, foi um negócio muito legal esse “Clube da Esquina”, é um disco que bate na gente com uma violência que é inexplicável. É muito legal você saber que está perto de pessoas dessas, como o Lô, que, como diz o Tom Jobim, é um dos melhores compositores que ele já conheceu. Quem sou eu pra dizer algo diante de tais palavras do Tom Jobim. Então eu fico muito feliz de ser amigo do pessoal, de ser afiliado a essa coisa, de estar caminhando mesmo que indiretamente com essa moçada toda, eu acho que é muito bacana.
Esse disco significa muito, a gente cresceu muito com isso. O Milton, por exemplo, deu uma virada, uma mesclada na música, na maneira de tocar. Por exemplo, havia bossa nova, havia uma série de coisas, tinha aquele movimento do pessoal do Rio, mas o Milton conseguiu dar uma nova roupagem à música. Então ver aquele lance da guarânia foi um negócio excepcional. E com a ajuda do Som Imaginário, com Robertinho Silva, com Tavito, Luis Alves, os caras se integravam de uma forma bacana e conseguiram dar uma mexida na bossa nova, incrementar um punhado de coisas e surgiam uns ritmos que a gente ficava maluco. Falava: “Poxa, o que é que é isso?”, é uma nova forma de tocar.

FORMAÇÃO MUSICAL
Gravação, disco: A Página do Relâmpago Elétrico

Inclusive, sobre a gravação do disco do Beto Guedes, por exemplo, eu tive uma influência muito grande no “A Página do Relâmpago Elétrico”. Teve uma música que eu fiz uma bateria que foi altamente influenciada pelo lance do Milton, do Som Imaginário. A música era um seis por oito e eu mandei um dois por quatro em cima, que tem a ver, mas foi um negócio que chocou muito, o pessoal falou: “Hely, essa batera está meio estranha”. Então eu comecei a experimentar essa batera com Tavinho Moura e eu sempre brinco que a música dele é mais quebrada do que arroz de terceira. É uma musica que é difícil. Ela é simples, mas é difícil de ser tocada. E eu comecei a experimentar isso e no disco do Beto foi um negócio que revolucionou. Foi em “Lumiar”, tan, tan, tan, tan, tan, tan tan, tan (canta). Aquela música é toda torta e essa batera foi a que ficou e deu um outro barato. Eu acho legal que o Beto tem um ouvido espetacular, ele percebe esses lances bacanas, essas coisas sutis. Eu acho que o Clube da Esquina é tudo isso. O Lô Borges também, eu ficava ouvindo aqueles temas dele, era um negócio muito maluco pra época. Eu falei assim: “Gente, esse povo está muito na frente, muito mesmo”. E a gente estava acostumado a ouvir coisas lá de fora, Beatles e um monte de coisas inglesas. Eu acho que Minas tem uma influência muito grande da Europa. Na Mina de Morro Velho, em Nova Lima, teve muito inglês tirando ouro e a gente tem essa influência que eu acho bacana demais. Eu acho que no mundo a influência inglesa é muito saudável, é bacana e é um negócio muito diferente e o Clube da Esquina, o Milton, o Beto, o Lô Borges, essa moçada aí, captaram muito bem isso. O Clube da Esquina é isso aí, é essa mistura maluca, bacana e gostosa que deu no que deu e tem muito mais pano pra manga.

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Milton Nascimento

A guarânia é aquela coisa dessa musica paraguaia, é essa coisa do tinlaquetin, tinlaquetin (canta) e era aquela coisa, uma novidade pra gente. Outro dia eu estava vendo na TV o Milton tocando “San Vicente” com o Wagner Tiso, é um negócio esplendoroso aquilo, então eu não sei onde que o cara estava com a cabeça quando ele pegou aquilo. Esse povo tem uma percepção muito legal e o Milton é uma pessoa que é um paizão. O Marcinho definiu bem isso: “vespa fabricando mel é jóia marrom”. É o cara, ele sabe das coisas, sempre deu força para muita gente e continua percebendo essas pessoas que estão chegando agora também, está sempre dando trela pras pessoas e ouvindo as coisas boas, é o cara.

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Homenagens

Eu sou grato à vida, eu sou grato às pessoas, aos meus amigos e em especial ao pessoal do 14 Bis, porque a gente já veio chegando com o apadrinhamento do Milton. Ele foi o primeiro produtor do 14 Bis. E sou feliz de ser amigo do Flávio Venturini, do Cláudio Venturini, do Vermelho, do Magrão. Juntos a gente fez um negócio legal e deixa um legado bacana pras pessoas.O 14 Bis é a minha vida e me deu muito em termos musicais e de amizade, como pessoa. É um negócio bacana e as pessoas percebem isso. A gente está há 25 anos na estrada, temos um publico bacana e é isso.

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Clube da Esquina

Eu acho até que foi um pouco tarde isso. Eu já vislumbrava isso alguns anos atrás e eu ficava invocado. Eu falava: “Gente, tem que botar lenha nessa fogueira”. Eu falava com o Marcinho Borges: “Cara, vocês não têm idéia do que isso é”. Mas é aquela história, o mineiro, infelizmente ou felizmente, não tem marketing. Eu acho que a gente precisava ter um cara pra chegar e dar força pra essa coisa, porque ela já tem a força em si. Eu acho que as alterosas… A gente sempre teve essa coisa escondida, por isso que ela é tão forte, ela fica sempre entre as montanhas e não escapa nada, aquilo fica denso, fica essência. Eu acho isso legal, mas precisa dessa coisa ser jogada para fora, porque todo mundo tem que saber disso.
Eu só tenho que agradecer. Eu estou fazendo uma obrigação de dar o meu humilde depoimento sobre o Clube da Esquina, que é uma coisa muito maior. Outras pessoas de maior gabarito já souberam e já falaram sobre o Clube da Esquina com muito mais propriedade que eu.

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