Hildebrando Pontes Neto

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome / Local e data de nascimento

Meu nome é Hildebrando Pontes Neto. Nasci na cidade de Pontalina, no Estado de Goiás, em 27 de setembro de 1943.

TRABALHO
Atividades profissionais
Eu ingressei na Faculdade de Direito e tive o privilégio de conhecer o Fernando Brant. E o Fernando sempre me dizia que eu precisava trabalhar com direito autoral. Ele falava isso pra mim, mas eu estava preocupado com outras coisas – com o fato de sair da escola, de me casar, de me encaminhar na profissão. E as coisas foram passando. Mas isso ficava na minha cabeça, porque nos tornamos amigos queridos. Até que um dia, cansado da condição de advogado de empresa, em Belo Horizonte, me desliguei de uma subsidiária da Companhia Vale do Rio Doce, onde eu chefiava o Departamento Jurídico. Resolvi então ir pra praia e virar pescador. Comprei lá uma canoa e fiquei praticamente um ano sem fazer nada. E foi a fase mais importante da minha vida, porque foi o momento em que eu pude retomar todo o caminho da minha sensibilidade, que tinha sido perdida. E eu comecei a admirar flor, me emocionar com golfinho, com essas coisas que há muito tempo eu não via.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)
E quando eu cheguei em Belo Horizonte, o Fernando disse que nós precisávamos trabalhar com o Milton, que ele estava precisando de um assessoramento para a gente conduzir – não só a vida dele nesse ponto de vista, mas ajudá-lo no que fosse preciso. E eu ingressei nesse projeto. Já conhecia o Bituca da redação d´O Cruzeiro, porque o Fernando trabalhava na revista O Cruzeiro, aqui em Belo Horizonte.
Depois nós tivemos um encontro memorável em Diamantina, onde o Bituca foi fazer uma matéria para a revista O Cruzeiro, e por absoluta coincidência o presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira fazia uma matéria para a revista Manchete. E foi um encontro do Milton com Juscelino. E na porta do Seminário de Diamantina estava o Lô, o Márcio Borges, o Fernando, e tinha mais gente presente. Eu estava lá. Cantaram junto o “Beco do Bota.” E foi realmente um momento de grande emoção. Aliás, o Marcinho Borges retrata esse encontro no “Os Sonhos Não Envelhecem”. Ele até achou que eu fui abusado com o presidente Juscelino Kubitschek, porque eu o chamei de Nonô… Além de já estar de porre naquela altura – nós tínhamos bebido tudo o que tínhamos direito em Diamantina –, na verdade foi uma forma afetuosa de dizer ao presidente que eu também tinha por ele um carinho imenso. Que o Nonô era algo muito íntimo, do meu coração pra ele. E ele ficou muito feliz com isso e me deu um abraço. E eu tenho esse abraço tatuado no coração até hoje.
Então, a partir daí eu, pessoalmente, comecei a assessorar o Bituca. E veio somar-se a esse trabalho inicial do Marcinho Ferreira, que prematuramente nos deixou, mas que teve a partir daí também um papel fundamental na vida do Bituca. E com isso ele pôde ter tranqüilidade pra fazer o que ele sabe fazer com competência e com genialidade, que é compor e cantar. Esse meu encontro com o Bituca foi em 70, 71. E a minha volta pra Belo Horizonte se deu na década de 80.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação
O Milton é o fato gerador de todo esse processo, e ao seu redor agregam-se nomes expressivos do cancioneiro popular brasileiro que todos nós conhecemos. Na verdade eles já conviviam. E vieram novos nomes, enfim. Esse caudal de gente boa foi se ampliando, foi crescendo, para se transformar nisso que se chama Clube da Esquina, que é um gerador de sensibilidade, de música. Eu me considero um grande privilegiado por ter podido entrar nesse Clube pela porta da frente. E embora não sendo músico, embora não tendo a minha sensibilidade voltada para essa área, a música é algo que sempre encanta minha alma e cerca a minha vida, porque eu não vivo sem música. E eu me emociono e me sensibilizo com a manifestação da música em todos os seus patamares. E não seria diferente com relação a esse grupo maravilhoso que veio formar o Clube da Esquina, para ensinar a esse mundo e ao próprio Brasil um pouco de sensibilidade e de visão das coisas, que é tão importante e que nós carecemos hoje, porque acho que hoje o mundo é muito mais árido. Mas felizmente a sensibilidade prevalece sobre tudo isso.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Origem do Clube
Eu penso que o grande encantamento que esse Clube traz é exatamente esse, porque eles já se conheciam antes. Principalmente o Bituca e os Borges. O Fernando agregou-se depois nessa matriz inicial. A preocupação deles era com a criação artística. O Fernando é que tinha uma noção mais exata dessa questão da propriedade intelectual, até porque – ele não gosta muito que a gente fale – é formado em Direito. Então ele tinha essa clareza, essa noção. Mas a preocupação das pessoas era uma preocupação realmente voltada para a criação.
É a partir do momento que eles começam a ocupar um espaço no mercado brasileiro que eles passam, evidentemente, a ter uma preocupação com o que seria realizado, com o destino da sua criação intelectual. De que maneira as obras criadas e realizadas seriam tratadas pelas gravadoras e por quem delas pudesse fazer uso. Eu creio que aí é que então se começa essa idéia de ter um contrato, de um produtor que tem que conduzir a coisa com seriedade. E o Bituca tinha passado por algumas experiências negativas em torno disso. E evidentemente, já no patamar que ele se encontrava, de ser um grande nome da Música Popular Brasileira, de projetar a sua canção para o mundo, ele precisava ter um mínimo de estrutura e um mínimo de organização. E eu, por um absoluto privilégio, pude contribuir inicialmente com essa estrutura. Por isso é que eu digo que eu entrei nesse Clube pela porta da frente. Porque apesar de não tocar guitarra, eu compreendia perfeitamente o som dela. Ajudei a promover a ordem na casa. Tenho essa tranqüilidade de poder dizer isso. E a partir daí, também trabalhei com outros nomes do Clube da Esquina, porque acabou virando uma família, onde nós nos conhecemos e nos tratamos de uma maneira respeitosa e muito elevada. E isso tudo é muito bom, muito rico.

TRABALHO
Atividades profissionais
É um grande privilégio para mim, porque o meu trabalho não se restringe apenas a um lado técnico, jurídico. De uma maneira ou de outra, eu participo na criação ou no processo de criação. E eu devo ao Milton e ao Fernando a condição de advogado de propriedade intelectual em que me transformei hoje. E sem nenhuma imodéstia, eu hoje tenho uma projeção na propriedade intelectual em nível nacional. E já participai de lutas, de embates e de construção de lei. Participei inclusive na condição de Presidente do Conselho Nacional de Direito Autoral, onde tive o privilégio de trabalhar com o ministro Celso Furtado. Quer dizer, todos esses fatos que a vida me acenou, eu os enfrentei com absoluta tranqüilidade e firmeza.
E eu quero deixar registrado que devo isso ao Milton Nascimento e ao Fernando Brant. Porque na medida em que eles também confiaram no meu trabalho, eu me projetei através dele. E comecei a ter solicitações e reconhecimentos de grande parte da MPB. Cheguei até a advogar, aqui em Minas, duas causas para o Chico Buarque, para a Beth Carvalho. Também estive junto do Gonzaguinha e de vários outros nomes, como Toninho Horta e o próprio Ronaldo Bastos. Enfim, de uma maneira ou de outra, você faz aqui e acolá um trabalho que é sempre uma ligação muito saudável e muito rica, não só do ponto de vista profissional, mas do ponto de vista espiritual. É uma forma maravilhosa de crescimento. E eu posso dizer, na altura dos meus 60 anos de idade, que ainda que eu tenha encontrado o meu caminho no Direito, o trabalho da propriedade intelectual me realiza e me deixa extremamente feliz. Na verdade eu fui abençoado na minha vida. Abençoado exatamente pelos amigos e pelas oportunidades, que sempre enfrentei com muita tranqüilidade, com independência e com verdade.
Eu tive grandes momentos de gratificação pessoal. Eu me refiro, por exemplo, à própria construção da Lei Autoral brasileira hoje. Essa lei nasce de um anteprojeto dentro do Conselho Nacional de Direito Autoral. O Conselho era integrado pelo Fernando Brant, pelo Gonzaguinha, por autores e por técnicos em matéria autoral. Era um Conselho misto. Um Conselho que inaugurou essa formatação pela primeira vez no país. Na verdade brigamos pela construção de uma lei de direito de autor que pudesse estar comprometida com os interesses dos criadores nacionais. É claro que é um embate muito forte, muito pesado, porque você tem, do outro lado, a indústria cultural, que não quer abrir mão de determinados privilégios que, na cabeça deles, pareciam absolutamente irremovíveis. E com esse grupo de artistas e de criadores – e neles eu incluo toda essa gente do Clube da Esquina – somaram-se outras cabeças e conseguimos alguns avanços. Mas é preciso estar sempre atento, porque a coisa não pára por aí.
Uma vez conversava com o Fernando e dizia para ele: “Pois é Fernando, nós lutamos por essa coisa há tantos anos e parece que a gente está começando a lutar por uma coisa que ainda nem começou.” Quer dizer, na verdade não acaba. As reivindicações têm que ser permanentes e a gente tem que estar sempre atento a esse processo. E por uma contingência também de vida, eu acabei tendo a visão do autor, na medida que sou também um modesto escritor de literatura infantil, com 8 livros publicados. E eu sei como é que é isso. Principalmente eu, com a visão do advogado, de tratar dos meus direitos autorais junto àqueles que deles se utilizam. É por essa razão que eu volto a dizer que nós temos que estar sempre atentos a essa grande movimentação de interesses em torno da criação intelectual. Eu penso que essas conquistas foram sim frutos de decisão, de consciência e de conhecimento de muita gente desse grupo. Essa lei é de 98. Mas a história dela é mais antiga. Ela já vem como anteprojeto, como discussão no Congresso Nacional. Porque nós tínhamos uma lei de 73, já defasada. E o mundo mudou muito com as tecnologias. Portanto a utilização da criação intelectual passou a ser de controle mais difícil, do ponto de vista do criador. Porque, claro, quanto mais avançam as tecnologias, mais distante da criação fica o autor.
E agora vem aí o tal do copyleft, que é o direito de cópia livre, com a liberdade de utilização das obras de criação intelectual. Essa é uma discussão que começa a fermentar e ganhar corpo. E o pano de fundo é que as tecnologias têm a possibilidade de levar o conhecimento à totalidade de pessoas e portanto não cabe você manter os pressupostos autorais que vieram da época de Gutemberg, ainda do século XIX. Eu não comungo com isso. Eu penso que, se você libera a questão dessa forma, vai viver de que o autor? Porque se você tem a possibilidade de ir ao teatro e interpretar a sua própria música, você também tem aqueles que apenas compõe e que têm tanto direito quanto o intérprete, que enche uma sala de espetáculo e que vive disso. É uma questão complicada, que não é fácil de se tratar. É preciso estar atento, porque essa onda vai se avolumando, vai crescendo. E eu me filio ainda na posição de que esses direitos têm que ser respeitados. E evidentemente o autor merece consideração, respeito; e toda vez que se utilizar da sua obra, tem que se pagar por isso. Porque é disso que ele vive.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento) / Chico Buarque
Eu tive esse outro privilégio, de estar com o Milton na Argentina duas vezes. Eu participei de uma excursão com ele no Brasil e em outras oportunidades. Inclusive na Missa dos Quilombos, em Goiás e em Recife. E foi aí que eu pude assimilar a força que o Milton Nascimento tem como artista, como catalisador de sensibilidade das pessoas. Eu ficava muito impressionado. Eu me lembro de um episódio no aeroporto de Brasília, em que eu estava junto dele conversando. E tinha um jovem que queria romper a barreira da timidez pra pedir a ele um autógrafo. E estava aquele clima, de que ia ocorrer a qualquer momento. E é claro que as antenas do Bituca já alcançavam isso com a mais absoluta precisão. E quando esse jovem rompe a sua timidez e pede pra ele um autógrafo, diz: “Olha, você precisa vir a Brasília cantar pra gente. Brasília precisa lhe assistir.” E ele dá o autógrafo. E o jovem ficou visivelmente emocionado. E quando ele saiu, o Bituca disse assim: “Ele não tem o direito de fazer isso com a gente, de mexer com a gente assim.” Aí eu disse pra ele: “E você? Tem o direito de fazer o que você faz com eles?” Aí ele ficou em silêncio. E eu percebi que ele estava visivelmente emocionado. Então eu pude presenciar várias manifestações como essa. E aí você verifica essa força interior que um artista da expressão do Milton Nascimento provoca nas pessoas, nos seus fãs, nos seus admiradores. E é uma coisa absolutamente natural.
Certa feita estávamos Bituca, Chico Buarque e eu. Fomos assistir a um show do MPB-4 no Rio. Aí juntou uma batalhão de um lado e os dois do lado de cá. E é claro que eles comentavam assim: “Qualquer hora rompe o cordão.” E não deu outra coisa. Veio aquele monte. Então você presencia o carinho dessa manifestação. E eu olhava aquilo tudo espantado e, ao mesmo tempo, ficava extremamente feliz de compreender porque é que, em um determinado momento, eu tinha em relação ao Milton o mesmo tipo de reação. Eu tinha em relação ao Bituca um certo… não é constrangimento, mas uma barreira que eu precisava quebrar pra chegar mais perto dele. E isso foi feito, porque evidentemente quando você admira a pessoa, você às vezes não tem a condição de falar com ela como você gostaria. Isso causa um certo constrangimento. Então eu aprendi muito assistindo a algumas manifestações dessa ordem.

PESSOAS
Mercedes Sosa
Guardo também na lembrança, de uma maneira muito feliz e plena, um show que o Bituca fez com a Mercedes Sosa e o Leon Rieco em Buenos Aires, no estádio do Vélez Sarsfield, aquele clube argentino. Foi quando o Leon Rieco voltava do exílio e eles fizeram o show. E foi um show tão maravilhoso… e o público argentino recepcionou o Milton de tal forma que era absolutamente comovente. E antes do show teve uma outra passagem, que foi absolutamente inesquecível. Porque o Fernando Brant estava lá e não conhecia a Mercedes Sosa. E nós fomos ao camarim. Ela estava sentada e me reconheceu, porque eu tinha estado com ela e assisti à gravação de Volver a Los Dezessiete no Rio. E esse fato foi engraçado, porque eu tinha ganho em Goiás um anel de uma liderança indígena. E eu portava esse anel. E eu tirei o anel para mostrar para a Mercedes e ela entendeu que eu estava lhe presenteando com o anel e me disse: “Muchas gracias.” E colocou o anel no dedo. E eu dei o fato como consumado.
Confesso que aquilo me doeu um pouco, porque foi um presente muito carinhoso de uma liderança indígena. Mas eu achei que estava muito bem no dedo dela. Foi no dia dessa gravação, depois que nós fomos almoçar. Então ela estava no camarim quando eu cheguei e ela levantou-se. Nós nos abraçamos e nos beijamos. O Sinval Itacarambi também estava presente e deu a ela um livro do Roberto Drummond, que havia pedido lhe entregasse o livro. E o disse assim: “Mercedes, eu sou Fernando Brant.” E ela foi tomada por uma emoção e esse camarim virou um local, assim, ungido. Porque ela dizia assim: “Fernando Brant, eu canto as suas canções e não te conheço.” E o Fernando ficou profundamente emocionado. E aquilo ali foi uma emoção monumental. Maior do que o próprio camarim. E é claro que eu também fiquei emocionado. Eu costumo dizer que ultimamente eu choro até com receita de bolo. Foi aquele momento e depois fomos para o show. Então era dose cavalar de emoção. Uma overdose de emoção absolutamente inesquecível.

VIAGENS / PESSOAS
Cuba / Chico Buarque
E me recordo também de um momento muito bonito, quando estivemos em Havana, no Teatro Nacional de Havana, em que o Milton fez um show com o Chico e o Pablo Milanez. Eu chorava igual bebê. E eu tive a impressão de que o cubano é muito machão e que achava estranho um sujeito chorar daquele jeito. Eu devia estar dando vexame, chorando compulsivamente. Inundei o Teatro de Havana. Mas não é fácil você reunir três artistas dessa expressão e ter o privilégio de vê-los cantar. Na verdade é um momento que transcende a qualquer comentário. É de uma beleza ímpar.
Lembro-me também de uma outra cena em Havana, em que o filho do Prestes esteve conosco. Eu até levei uma encomenda para ele e sua mulher, a Marina, que era filha de dois amigos exilados que já tinham voltado ao Brasil e que haviam pedido que eu levasse para eles lá uma encomenda. Eu levei e eles foram para o show. E o Pablo Milanez fez questão de receber-nos com uma leitoa à pururuca na casa dele, porque ele tinha uma admiração muito grande pelo Prestes e disse isso a mim, pois eu contei pra ele que estava no teatro o Pedro, filho do Prestes, e a Marina. E depois, no hotel, o Pedro disse ao Chico o seguinte: “Olha, Chico, você precisa visitar o papai no Rio. O papai adora a sua música, adora você como artista, como compositor, como pessoa. E ele ficará muito feliz se você puder falar umas coisas para ele.” E esse foi outro momento bonito da vida que eu guardo como a grande lição que eu recebi do Chico Buarque. Ele disse assim: “Ô, Pedro, eu posso até visitar o seu pai e farei isso em uma oportunidade qualquer. Mas eu quero te dizer uma coisa: eu não tenho nada para dizer a seu pai. Seu pai eu ouço.” Aquilo me bateu como adaga no coração. Furou meu coração. Você vê que coisa bonita um artista da projeção do Chico… Essa humildade. E não é uma coisa artificial. Foi dito com a mais profunda verdade e sinceridade, porque ele é isso. E eu aprendi essa lição só por estar junto, pelo privilégio de viver esse momento.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)
Em várias circunstâncias estivemos juntos, mas a partir de um determinado momento não mais, porque o Marcinho assumiu essa condição de conduzir o processo musical do Bituca. Depois até me afastei profissionalmente da vida do Milton, porque não tinha mais razão de ser, porque o Bituca já tinha uma carreira solidificada e já era cercado por uma vivência que dava a ele a clareza de determinados rumos. Mas é claro que ele sempre teve pessoas decentes que começaram a cuidar da vida artística dele, de realização, promoções, shows. E aqui me lembro também de um outro fato muito engraçado. Um dia eu saí da casa dele com ele e ele deu a volta pra entrar no carro. E eu estava no lado do carona. E aí eu cantorolei: “Lá, lá, ri, ri, ri, lá, na Glória.” Ele arregalou o olho assim pra mim e eu perguntei: “Que foi Bituca? Eu por acaso desafinei?” Ele respondeu: “Não, Hildebrando, você não desafinou. Até porque para que você pudesse desafinar, você teria que pelo menos afinar uma nota!” A partir desse fato eu fiquei até sem cantar no banheiro (riso), porque eventualmente eu me aventurava a cantar no chuveiro.

DISCOS
“Milagre dos peixes” / “Os tambores de Minas”
Depois que eu comecei a conviver mais intimamente com eles, com o Bituca e o Fernando, eu percebi a projeção nacional e internacional do Clube da Esquina. E mais do que isso, o trabalho artístico deles constituía-se sempre em um salto qualitativo. Um disco do Bituca era um disco sempre esperado, porque imaginava-se que ele viria um ponto à frente da esteira em que se encontrava a MPB nacional. E de fato isso ocorria. Eu pessoalmente penso que “O Milagre dos Peixes”, gravado ao vivo em São Paulo, é o maior disco da carreira do Milton Nascimento. Isso é uma eleição pessoal. É claro que muita gente pode discordar disso.
E “Os tambores de Minas” foi de uma importância tremenda pra mim. “Os tambores de Minas” teve um significado especial do ponto de vista da trajetória desse grupo, porque o cabeça do grupo estava sendo malbaratado e maltratado pela imprensa brasileira de uma forma desrespeitosa e absolutamente indigna. Tanto que eu me encontrava na Europa, mais ou menos na época dessa crise que Bituca suportou, e quando eu falei com a minha mulher, ela disse o seguinte: “Qualquer notícia que você ouvir a respeito do Milton, não dê atenção, porque é coisa da imprensa.” E eu saí de Genebra com escala em Frankfurt e me lembro perfeitamente de que quando entrei no avião da Varig, no primeiro banco da cadeira do avião tinha uma capa, não sei se da revista Veja ou Isto É, do Bituca. E aquilo me provocou um mal estar profundo. Eu peguei a revista, não vi nem de quem era; sentei no avião e li aquilo. Foi exatamente nesse momento que eu compreendi essa vilania que se praticava contra a pessoa dele. E quando eu fui assistir “Os tambores de Minas”, ele leu aquele texto que antecedia ao show, no qual ele colocava a sua indignação e fazia a sua afirmação no momento em que eu achava que ele nunca mais poderia resgatar essa defesa. E ele a faz dessa forma, contundente e belíssima.

FORMAÇÃO MUSICAL
Shows
E esse show, ao meu ver, representou mais um salto qualitativo dentro da estrutura musical do Milton Nascimento. Então o Bituca está nesse show absolutamente divino, à vontade. E outro dia mesmo eu o revi – porque comprei o DVD – com um dos meus filhos e um convidado que estava lá em casa. E realmente fiquei e fico sempre muito emocionado quando eu vejo esse espetáculo. Porque eu assisti o show no Rio. Em que pese o DVD ter sido fixado em São Paulo, não altera a magnitude que o show atinge. Quer dizer, eu entendo que talvez porque tenha acompanhado parte dessa trajetória, eu faça mentalmente e emocionalmente a ligação, do ponto de vista desse caminho. E foi com muita alegria e com muita felicidade que eu o recepcionei. Tive a oportunidade disso. Estive com ele no camarim e ele me disse uma coisa que eu guardo até hoje: “Você finalmente veio, né?” Eu não sabia se ia ver o show, mas acabei indo. Fui com Márcia, minha mulher. E saí do teatro absolutamente gratificado. Com a alma em estado de graça.

DISCOS
“Os tambores de Minas”
Eu penso que a força de “Os tambores de Minas” reside não só na resposta dele, mas também foi um salto qualitativo do trabalho dele. Porque as pessoas sempre dizem: “Mas o artista não é o mesmo que era antes.” Isso é óbvio. Porque a vida nos leva em uma esteira em que se você teve uma pujança, uma determinada força em um determinado momento; por certo que você não vai manter isso o tempo todo. E você tem que se permitir também a isso. A vida é isso. Então querer exigir que as pessoas tenham o mesmo comportamento de 15, 20, 30 anos atrás é, com dizem os espanhóis, uma tonteria. Então o que eu penso que ocorre é que cada qual vai cumprindo a sua trajetória e vai produzindo aquilo que pode e deve produzir no momento em que se apresenta na vida. E isso não significa perda de beleza ou perda de densidade criativa. Apenas é uma resposta em um determinado momento. E várias canções que são hoje produzidas você percebe nelas, e me refiro especificamente ao Clube da Esquina, a maturidade dos seus integrantes. Se a fase foi assim em uma determinada época, hoje é essa. E nem por isso ela perde em densidade e beleza.
Esses fatos por mim vivenciados refletem hoje – e eu posso ver isso com muita tranqüilidade – toda essa oportunidade que eu tive, esse privilégio de, em um determinado momento da minha vida, da minha história pessoal, cruzar com essas pessoas, de conviver com elas de uma maneira afetuosa, prazerosa e amiga. Mantenho essas amizades até hoje e esse respeito pela criação que eles exercem, pelos artistas que são. E é claro que pretendo prosseguir junto enquanto houver condição de estarmos aí, nesse mundão de Deus e das coisas.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Museu
O Márcio já havia se revelado um memorialista no “Os Sonhos Não Envelhecem”. E o museu é realmente uma iniciativa extremamente feliz do Márcio. Porque é mais do que importante, é mais do que fundamental, é mais do que isso: é necessário que Minas tenha esse registro, de um grupo que enriqueceu a sua história cultural e artística e que, evidentemente, não pode passar batido. Então é uma alegria imensa. E com certeza esse Clube vai deixar para a posteridade um registro fundamental do ponto de vista da formação cultural da gente mineira, de reflexo nacional e internacional.
Eu me refiro a isso com muita tranqüilidade, porque eu sempre tenho em mente, por exemplo, a música baiana. Porque os baianos souberam tão bem comercializar e colocar isso no mundo, de uma maneira flagrante e indiscutível. Eu penso que Minas, no silêncio, em que pese ter construído com a mesma pujança – ou uma muito maior, muito mais vigorosa do ponto de vista musical -, é uma contribuição nacional. Tem menos projeção do que uma parte da música baiana, que não me agrada. E eu não vejo razão para essa música baiana ter mais projeção, a não ser pela questão de marketing que ela tem. Então eu penso que esse registro é fundamental, é básico. E a idéia do museu só existe porque o museu tem material para exibir. Essa é a minha reflexão. Eu não sei se qualquer Estado da Federação do Brasil pode fazer isso do ponto de vista cultural. Mas eu tenho certeza que Minas pode, vai fazer e está fazendo. Quer dizer, não se pode negar a projeção da contribuição artística, musical e litero-musical de Minas Gerais na construção do processo cultural nacional e internacional. E esse registro local, nacional, é muito feliz. Eu cumprimento o Márcio por isso. Já tinha dito a ele pessoalmente lá no lançamento e penso que esse museu trará, em pouco tempo, muitos bons frutos. E que seja bem-vindo e seja abençoado.

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