Jaceline Silva Basílio

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome / Local e data de nascimento

Meu nome é Jaceline Silva Campos Basílio. Nasci aqui em Três Pontas, no dia 21 de maio de 64.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Brincadeiras de infância

A gente brincava na rua. Cidade do interior a gente brinca de jogar bola, de jogar queimada. Brincava muito de boneca. A escola era pertinho. Ia e voltava a pé sozinha. Não tinha muita coisa diferente.

Voltar ao topo CIDADES

Três Pontas

A cidade não mudou muito, não. Cresceu, mas não acho que mudou muito. Mudou porque na minha infância eu ia pra todo lugar a pé e sozinha. Hoje meu filho não vai mais. Já não tá mais daquele jeito. A gente deixava a porta aberta, não existia trancar a porta. Então a porta estava sempre aberta. Quem chegasse aqui entrava pra dentro de casa: “Oi!” Não tinha que tocar campainha, nem essas coisas.
Três Pontas tem uma Serra que é um pouco longe e que tem três pontas. De um ângulo você vê três pontas, de outros não. Mas são três pontas e aí ficou. No início chamava-se Arraial das Candongas, quando era um arraial. Depois passou a ser Três Pontas, quando virou cidade, por causa da Serra.
De festa religiosa aqui tinha a Procissão de Semana Santa, Corpus Christi, essas coisas. O carnaval era muito bom, depois foi caindo. Mas era chiquérrimo, com muita gente animada, muita gente de fora, com escolas grandes. Tinha dois cinemas também na época, e a cidade era pequena pra ter dois cinemas. Tinha muito movimento. E sempre teve muita música em bar. A gente ia muito pra pracinha, tocar violão.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Relações familiares

Sempre fui péssima de canto. (risos) Ninguém gostava. Aqui em casa era só a mãe mesmo e o Bituca. A gente fazia uns teatrinhos, mas cantar, não. Minha mãe sempre cantava. Ela gostava muito de cantar. Ela cantava o que ela ouvisse no rádio. Quando o Bituca era criança e tinha quermesse da igreja, aí eles cantavam. Ela cantava e o Bituca tocava aquela sanfoninha dele. Ela diz que era a barraca que mais vendia, que mais arrecadava dinheiro pra igreja. (risos)

Voltar ao topo PESSOAS

“Bituca” (Milton Nascimento)

A diferença de idade entre eu e o Bituca é de 22 anos. Então quando eu nasci o Bituca já tinha mudado pra Belo Horizonte. Foi no ano que ele mudou. Já estava começando a carreira dele. Então a gente conviveu mais dele vir pra cá, de eu ir pra casa dele. Mas a gente não chegou a morar na mesma época junto aqui.
Eu era muito grudada nele. Porque o Bituca tem uma coisa muito forte com criança. Até hoje todas adoram ele. E eu era doida por ele também. Ele chegava e a gente deitava junto no sofá. Tem foto aí da gente deitado junto no sofá. A mãe fazia umas bolachinhas de nata que ele adorava. Punha uma latinha de natinha de lata e a gente ficava deitado ali, debaixo do cobertor. Não sei como que cabia a gente no sofá ali da sala. Ele contava muita história. Eu perguntava muito, enchia o saco dele. Ele reclamava um pouco. Mas ele gostava no fundo. Eu falava: “Posso perguntar uma coisa?” Aí ele: “Pode.” Então ele sempre foi muito carinhoso, brincava muito. Contava umas bobagens. Tinha um negócio que eu não conseguia falar de jeito nenhum. Ele ficava: “Num ninho de mafagafos, quatro mafagafinhos há. Quem desmafagafenizar o ninho, bom desmafagafenizador será.” E eu achava o máximo, porque eu não conseguia falar de jeito nenhum. Aí eu tinha que repetir aquilo o dia inteiro. Então tinha umas coisinhas que ele sempre falava com a gente. Era bom. Ele tocava quando tinha mais gente reunida em casa, mas não era muito, não.
Morei alguns meses, não foi muito tempo. Foi bom. Ele estava mais caseiro na época e foi a época que a gente começou conviver mais, na verdade. Foi quando eu fui pra lá. Onde ele ia eu ia junto, ver show, essas coisas. Nadava muito na tal da Priscila, fazia churrasco. Na época do Marcinho Ferreira, ele gostava de fazer churrasco lá. Era bom. Só que depois, eu tinha 20 anos, ele acabou falando: “Não, Jajá.” Comprou um apartamento aqui pertinho e eu comecei a morar com uma amiga perto. Mas estava sempre junto, sempre almoçava na casa dele. E o Bituca é muito pai. Ele tem essas coisas. E ele está sempre por dentro do que está acontecendo. Tem muito contato.

Voltar ao topo EDUCAÇÃO

Faculdade

Em 83 eu fui pra Belo Horizonte estudar. O Bituca morava lá nessa época, e eu morei com ele um tempo. Depois fui morar numa república com umas amigas. Aí fiquei lá, estudei, me casei e depois vim embora. Fiz Turismo, porque é uma coisa que me interessa, História, Geografia. É coisa que me agrada. Gostei de fazer. Mas depois acabei não trabalhando com Turismo. Trabalhei em loja, depois trabalhei em confecção de enxoval. Depois mudei de lá e fui pra Lavras. Fiquei 3 anos em Lavras, mas eu queria era voltar pra cá, porque minha mãe estava aqui sozinha com o pai e eu queria ficar com eles. Já estavam ficando velhos.

FAMÍLIA
Mãe
Ela era uma pessoa muito alegre, de dar gargalhada. Muito carismática. E não tinha ninguém que não gostasse dela. Até hoje todo mundo fala: “Ah, a tua mãe!” Todo mundo tem saudade. Em época do meu aniversário, sempre tinha festa. Ela sempre adorava fazer festa. Ela que fazia doce, fazia o bolo, e todo mundo fala: “Ah, você lembra como é que era, como é que fazia? Você tem a receita?” Era muito gostoso de fazer. Comida boa. Ela era super agradável com as pessoas.
Eu acho que ela e o Bituca são de outras vidas. Eu acho que são almas gêmeas, alguma coisa assim. Porque era uma cumplicidade imensa que eles tinham. Era muito forte. Eu acho que já era pra ser junto. Eu acho que eles ainda vão viver muitas vezes junto de novo. (risos) É muito legal. Quando tinha uma festa, Natal, e ele tocava alguma coisa, ela cantava. Ela não podia ver uma música que ela cantava. Ela gostava.

Voltar ao topo *FAMÍLIA

Relações familiares

Todo mundo aprendeu a dirigir no fusquinha. (risos) Ele é 55, 56, uma coisa assim. E hoje eu vou tentar dirigir. Eu não sei como é que a mãe dirigia aquele carro, ele é marcha seca. Você tem que parar pra pôr primeira, se não ele não anda de jeito nenhum. O Bituca morava em Piratininga, lá em Niterói e nós fomos passear na casa dele. Foi o Jacaré dirigindo, o pai, a mãe, eu, a Beth e dois primos. Não sei como, (risos) porque nós fomos naquele Fusca, mesmo sendo todo mundo pequeno… Fomos para lá. E ele andava pra todo lado. A gente ia pro Rio, voltava. O tanque de gasolina tem uma coisa enorme. O pai ia olhar lá dentro se tinha gasolina, não marcava. (risos) Era bom o Fusca, andava pra todo lado. E o Bituca chamava ele de Vovô.

Voltar ao topo *PESSOAS

“Bituca” (Milton Nascimento)

E o Antônio eu acho que era um carro que ele tinha, um Fusca branco. Foi o primeiro carro que o Bituca comprou. Não sei porque é Antônio. Ele gosta de pôr nome em tudo. Ele tinha uma piscina que chamava Priscila. Ele tem essas coisas… Ele denomina tudo.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Shows

Sempre que eu tenho oportunidade de ir em show, eu vou. Agora mais do que antes. Quando eu era criança eu ia a alguma coisa. Ia no Rio às vezes. Mais no Rio, porque a família da minha mãe morava lá também. Nessa época, eu ficava na casa de uma prima minha. Não ficava na casa dele, não. Era muito criança. Depois que eu me mudei pra Belo Horizonte foi que eu comecei a ver mais. Aí sempre que tem. Então tem que sempre sair daqui pra assistir. Mas sempre que tem estréia, show, ensaio, eu vou. O “Tambores de Minas” a gente foi um monte. Porque a Julia, minha menina, era pequena, tinha 2 anos e meio, 3, e ela adorava.

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Reuniões familiares

Não me lembro muito das Bodas de Prata dos meus pais, não. Me lembro do povão, porque virou uma festa enorme. Um monte de gente. Eu sei que a vizinha aqui da mãe ofereceu a casa dela. Ficou um monte de gente hospedado ali, e ela disse que no dia só não tinha gente comendo no banheiro, porque a casa estava entupida de gente. Isso foi em 70.

Voltar ao topo MÚSICAS

“Clube da Esquina”

Eu conheci o disco Clube da Esquina 1 depois que eu cresci. Mas eu não participei daquela época de gravação. Eu estava em casa ainda. “Clube da Esquina” é uma música que eu gosto muito.

Voltar ao topo *FORMAÇÃO MUSICAL

Clube da Esquina: Avaliação

A gente sabe que o Clube da Esquina é um movimento nacional que mexeu com muita gente. Que puxou os meninos todos novinhos. Como que foram capazes de fazer uma coisa assim, forte desse jeito? Gente que estava começando! As pessoas olham pra gente com outros olhos mesmo: “Nossa, aquela é a irmã do Milton Nascimento.” Tem esse negócio. Agora na época da minha infância, eu não me lembro direito.

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“Bituca” (Milton Nascimento)

Meu pai imaginava uma coisa mais certinha pro Bituca. Tanto que ele teve que fazer Contabilidade. O Bituca queria tocar, e o pai falou: “Não, você vai tocar se você quiser, mas além de ter talento, tem que ter sorte. Então você vai ter uma profissão.” Aí ele teve que fazer Contabilidade. Mas depois ele acabou desistindo de fazer faculdade. Mas o pai queria uma coisa assim. A mãe não. Acho que a mãe já sabia que ele ia ser isso mesmo. Desde pequeno ela via que não tinha jeito de escapar.
Pra mim sempre foi muito natural ter um irmão assim, porque ele já tinha uma carreira. Já era um músico. Então, eu custei a entender. A Julia – hoje ela tem 8 anos – fala: “Nossa, mamãe, eu tenho um tio que é uma celebridade.” Agora tá esse papo de celebridade. Mas é porque a gente vai convivendo com aquilo e você acha que é assim mesmo, natural. Não tem muito deslumbramento, não. O Bituca sempre foi muito simples. Nunca teve muita glamour. Então pra gente era isso que tinha que ser.
Teve uma vez que gente estava indo pra Niterói. E eu estava perguntando, perguntando, perguntando, aí ele olhou pra minha cara e falou assim: “Você sabe o que tem lá embaixo?” A gente estava naquela barca, na balsa. Eu falei: “Sei.” “Pois é, tubarão, baleia, peixe-espada…” (risos) “Se você fizer mais uma pergunta, você vai parar lá embaixo, agora mesmo.” (risos) Fiquei quietinha até atracar. Na hora que chegou, eu falei: “Pronto, posso começar de novo.” Então ele perde a paciência de vez em quando.

Voltar ao topo **FAMILÍA

Irmãos

A Beth a gente conviveu bastante. Ela participou mais também dessa coisa do Bituca, porque ela saiu de casa mais cedo, então ela lembra de muita coisa. Ela participou bastante disso com ele. O Fernando já é mais… Eu também não convivi com ele. Ele se mudou logo para o Rio, se casou e vinha pouco aqui. E ele, na verdade, é filho de uma prima da minha mãe. Então a gente tem uma relação, mas não é tão chegada, porque ele se distanciou mais. Então a gente nunca conviveu muito não. Somos mais nós três: Beth, Bituca e eu.
E eu acho interessante, porque ninguém é irmão de ninguém e todo mundo é irmão. Então é interessante. Isso acontecia muito. A minha mãe ficava muito chateada aqui na cidade, porque eles falavam na frente da Beth. Às vezes a gente estava andando: “Qual é a sua filha de verdade?” A mãe queria matar, sabe? “As duas são minhas filhas.” Então era uma coisa que na época não existia isso aqui, principalmente no interior, desse tamanho a cidade. O povo não adotava criança; criava como empregado da casa e tinha que achar muito bom, porque tinha comida, tinha escola, tinha tudo. Então não era filho. Então quando o Bituca veio pra cá, teve muito esse choque, porque ele estudava, ele passeava, ele tocava, ele era um filho. Então teve esse problema.
E a Beth também ainda passou por isso. Mas pra gente nunca teve nada de diferente; a mãe sempre fez questão de mostrar que não tinha diferença nenhuma. Até quando ela me contou que a Beth era adotiva também, quer dizer, que eles eram adotivos, que não tinha nascido da mesma barriga, não sei quantos anos eu tinha, eu falei assim: “Mas o Bituca sabe?” (risos) Então era uma coisa tão natural pra gente sermos irmãos que não fazia diferença nenhuma. É muito bom fazer parte disso, de ter o privilégio de ter sido educada por pessoas assim, de ter convivido com ele e ter recebido os valores que eles passaram pra gente. E eu tento passar esses valores pra minha filha também.

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Uma mensagem para Jaceline Silva Basílio

  1. Jandecir disse:

    Que depoimento lindo ! Estou lendo o livro do Márcio Borges " Os sonhos não envelhecem"…é fantástico conhecer essa história !!!!!