João Luiz Petrocchi

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome/ Local e data de nascimento

O meu nome é João Luís Tadeu Petroque Ribas da Costa. Nasci em Belo Horizonte, no Bairro de Santa Tereza – coladinho ao Clube da Esquina – no dia 2 de março de 1945. Eu morava na Rua Divinópolis, entre Paraisópolis e Bocaiúva.

Voltar ao topo TRABALHO

Atividades profissionais

Eu me formei em Psicologia. Depois fiz uma pós-graduação em Psicologia Empresarial. Trabalhei na Aracruz Celulose e me aposentei. Hoje eu sou aposentado. Trabalhava no Espírito Santo, mas morei 25 anos na rua Divinópolis, em Santa Tereza. Migrei para o Espírito Santo e depois eu retornei. Hoje eu voltei a morar em Belo Horizonte.

Voltar ao topo LOCALIDADES BELO HORIZONTE/ INFÂNCIA

Santa Tereza/ Primeira infância

Santa Tereza, na minha infância, era um bairro que só nós gostávamos, porque era um bairro que não tinha água. Era um bairro que tinha um quartel da Polícia Militar e, apesar de ser muito próximo do Centro, naquela época se considerava longe. Então Santa Tereza era uma cidade do interior, porque não tinha passagem para outros bairros – era circundado pelo Rio Arrudas. Então quem morasse em Santa Tereza ficava; Santa Tereza era uma cidadezinha bem interiorana dentro de Belo Horizonte.
A nossa rua era uma coisa maravilhosa. Eram 6 horas, desciam as mães, vinham para a calçada, sentavam e faziam as suas trocas de receitas, de bolos e doces. E a criançada brincava como se fosse um paraíso, porque não passava carro. Então eram mil crianças e dezenas de mães, grávidas e não grávidas, fazendo aquelas trocas de receitas… Era uma coisa bucólica e muito romântica. Então a nossa infância era uma coisa extremamente divina e pura.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Brincadeiras de criança

Tradicionalmente as meninas brincavam de casinha e de boneca, e a gente, como éramos todos de classe média pobre, passávamos sabão na tábua e descíamos a rua. Era o skate-dinossauro. Descia a rua e ficavam ali avisando: “Olha, vem um carro!” Ou você ia ser atropelado ou saía ralando o joelho, porque não tinha freio. Então eu acredito que a gente tenha sido até os pioneiros do Ayrton Senna. (risos)

Voltar ao topo LOCALIDADES BELO HORIZONTE

Santa Tereza

Santa Tereza tinha alguns lugares extremamente perigosos. A gente era educado para não falar mentira e não responder ao pai e à mãe. Se você respondesse ao pai e à mãe, podia ser preso no quartel. Se você brigasse com o seu irmão, iria para um hospital, que era chamado de Isolado. O nome já era extremamente perigosíssimo, “Isolado”. Nenhuma criança gostaria de ficar. E esses dois lugares eram os Bichos-Papão daquela época.

Voltar ao topo EDUCAÇÃO

Estudos

Eu estudei no Grupo Barão de Macaúbas. Depois no Colégio Tristão de Athayde, que era em Santa Tereza – colégio municipal – e depois na Funec.

Voltar ao topo PESSOAS

Lô Borges

Eu gostaria de me classificar como a velha guarda do Clube da Esquina e, ao mesmo tempo, um abre-alas. Porque eu não gostava de um emprego que eu tinha em São Paulo e cismei de voltar a Belo Horizonte. Meu pai era muito severo e falou: “Você não vai ficar desempregado”. Mas eu queria definir o que eu ia fazer na minha vida. E eu resolvi adotar a esquina como o meu local de pensamento, de filosofar o que eu ia fazer na minha vida. E achei um grande companheiro, que era o Lô. Eu era mais velho do que o Lô e naquela época fazia uma diferença muito grande – mas hoje nós estamos páreos na idade. Então eu ia para a esquina e o Lô também ia.
Acredito que devia ter 22 e o Lô devia ter 16 ou 17. Mas naquela época todos eram considerados bem crianças com essa idade. Então eu ficava vendendo as roupas com que eu trabalhei em São Paulo e ficava à toa na esquina. E em volta disso havia uns 60 garotos e garotas que ficavam lá curtindo. Mas, fundamentalmente, os dois ocupantes do Clube da Esquina, fisicamente, éramos eu e o Lô. E nós ficávamos dia e noite lá. Às vezes nem íamos tomar banho. Esquecíamos de almoçar, esquecíamos de tudo. Almoçar era muito problemático, porque o meu pai era muito severo, então já nem ia lá. A mãe do Lô, que é minha sogra, falava: “Lô, com quem que você está? Está com o raio do João Luís aí na esquina?” E, naquela época, como eu era mais velho, eu era um desencaminhador do Lô. Mas eu tenho um grande orgulho disso, porque ele se tornou essa cabeça maravilhosa e essa poesia. Porque o Lô é todo uma poesia.

Voltar ao topo ADOLESCÊNCIA

Namoro

E eu acabei casando com a Sheila, que é a irmã do Lô. Eu não podia casar com o Lô (risos), então eu casei com a Sheila. A Sheila, apesar de não ter uma musicalidade explícita, ela toda é um poema. O nosso namoro foi uma coisa muito linda. A nossa turma se reunia toda noite: “Vamos fazer o quê?” “Vamos para o cinema”. E um dia nós fomos para o cinema. Como era uma turma muito grande, as idades variavam muito e nesse dia estava passando um filme proibido até 18 anos. Resultado: alguns não podiam e outros podiam. Como a nossa turma era muito unida, resolveu-se que ninguém ia para o cinema. E tinha um parque de diversão instalado num local, num terreno baldio, e nós caminhamos para o parque. E eu chamei a Sheila pra ir pra Roda Gigante. Então foi a Sheila e a Sônia, irmã dela. E eu me sentei no meio. E a roda começou a girar. E, de repente, eu estava de mão dada com as duas, mas como amigos. Não sei porque motivo, depois eu soltei a mão da Sônia e nunca mais soltei a mão da Sheila. E estamos há 33 anos casados. Então foi um namoro muito bonito. Nunca teve interrupção e começou numa roda gigante.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Esposa

A Sheila não canta, mas é o melhor ouvido da casa. A Sheila tem a sensibilidade de saber se alguém está fora do tom. Pra dezenas de pessoas ela fala: “Você está fora do tom”. Mas a Sheila, lamentavelmente, é muito tímida, porque ela podia ter sido uma grande estrela. (risos) Ela não canta, mas tem uma sensibilidade musical muito grande.

Voltar ao topo *FAMÍLIA

Sogra

A Maricota é ciumenta, extremamente possessiva com seus filhos. Mas eu sou italiano chato e persistente, e queria a Sheila. E nós fomos dando trombadas, fomos dando cabeçadas, mas no final foi tudo bem e hoje eu acho que a Maricota me aceita muito bem, como eu aceito ela como a minha sogra muito bem. Quando eu comecei a namorar a Sheila seus irmãos não sentiram ciúmes, porque as nossas famílias eram muito unidas. Então quando eles eram muito pequenos e a Maricota precisava sair, muitas vezes minhas irmãs tomavam conta dos irmãos menores e vice-versa. Então não tinha ciúme. Nós éramos muitos amigos. Nós tínhamos uma afinidade muito grande.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Clube da Esquina: Origem do clube

Eu lembro como se fosse hoje quando eles foram planejar o disco “Clube da Esquina 1.” Nós estávamos sentados na esquina, eu e o Lô e, de repente… Por que do Clube da Esquina? O meu pai tinha nove filhos, o pai do Lô tinha 10 filhos e nenhum tinha condição de ter um clube. Então na esquina tinha um canteirinho, que a gente só fazia xixi. E a única coisa que tinha no clube era o mictório. Mas lá a gente se reunia, lá a gente chorava. E eram os grandes fogos da adolescência. E um dia a gente cismou: “Poxa, esse é o nosso Clube da Esquina”. E aquilo ficou. E o Lô começou a dedilhar no violão uma música maravilhosa. Ia haver um festival e me parece que falaram: “Pô, vamos fazer. Vai para o festival e tal”. E realmente isso aconteceu. E o Marcinho, com aquela capacidade poética de escrever tudo o que você imagina, escreveu a letra. E a letra do Clube da Esquina é exatamente aquilo que a gente vivia. Então esse foi o surgimento, dentro da minha visão, dentro da minha vida ali, do Clube da Esquina. O Lô, com uma capacidade musical fantástica. Eu, extremamente, desafinado e desajeitado com música, mas de uma poesia do próprio italiano, que é todo cheio de emoção. Ali o Lô fez várias músicas, que foram complementadas com a capacidade do Marcinho – eu nem sei se é de escrever ou de psicografar, mas que é uma genialidade. Eu me sinto muito feliz de ter visto isso acontecer, porque hoje eu sinto que esse movimento musical do Clube da Esquina é uma coisa muito grande, muito poética, muito bonita. Às vezes eu escuto sozinho as músicas e vejo que aquilo é uma linguagem maravilhosa de poesia, de amor, de sensibilidade pura que existia naquela turma. “Clube da Esquina” é uma música que é significativa pra mim. Acho que “Equatorial” – não sei se o nome ainda é “Equatorial”. E gosto das músicas assim, “Girassol”… Uma música que acho que, se eu fosse cantar, seria “Vento de Maio”.

Voltar ao topo *FORMAÇÃO MUSICAL

Clube da Esquina: Avaliação

Lá no Espírito Santo foi uma coisa maravilhosa, porque ninguém achava que eu era mineiro, porque onde eu chegava eu fazia amigos e todo mundo fala: “Ah, mineiro é muito calado, mineiro é isso.” Eu não. Eu sou extrovertido, eu falo. Então eu tinha surpresas maravilhosas, como, de repente, chegar num determinado lugar e alguém cantar um trecho ou alguma música do Clube da Esquina. Isso aconteceu diversas vezes. E eu, casado com a Sheila, também não tinha como ficar longe disso, de todo esse processo. Então muitas vezes eu tentei aprender a cantar com as músicas do Clube da Esquina, com a Sheila me monitorando auditivamente. Mas infelizmente não teve jeito de melhorar. Mas eu acompanhei sempre, acompanho e fico muito feliz de hoje estar acontecendo esse movimento. Eu acho até que demorou um pouco, porque eu sempre lutei pra isso. Talvez não com a voz dos poetas, mas com a visão mais de “Poxa, temos que marcar isso na vida, do que foi o movimento.” Então, guardando as devidas proporções, eu sinto como se eu tivesse morado do lado dos Beatles. Guardando as proporções, se é que tem que guardar. Mas com muito orgulho, eu sempre acompanhei e a cada dia vejo mais essa poesia, eternizando essa sensibilidade.

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Tuxão

A gente era muito regionalista e muito bairrista, até porque não tinha dinheiro para passear em outros lugares. Então você tinha de ficar, mais ou menos, dentro do perímetro de Santa Tereza. Eu tenho algumas passagens de freqüentar o Maleta e eles – o Marilton e o Milton Nascimento – achavam sempre que eu tinha uma capacidade de ser gerente, de empresário. Eu não era musical, então era igual àquele negócio do jogador de futebol: “Se é ruim, vai para o gol”. “Você não canta, você vai lá e pede dinheiro para a gente cantar.” Então várias noites eu, o Marilton e o Milton Nascimento passávamos pelos inferninhos do Maleta e eu agenciava alguma canja pra eles, para a gente faturar a cerveja e a janta naqueles infernos. Então, se eu tive alguns vôos maiores, foram esses. Os outros eram os bares de Santa Tereza, o Tuxão. Eu acho que ninguém mencionou Tuxão.
O Tuxão era um bar sem vergonha, horroroso, mas era o nosso point. O Tuxão era composto de um bar e um anexo, que tinha uma mesa de sinuca. A mesa de sinuca era tão terrível que tinha a sinuca de parede. Eu acho que nunca ninguém viu isso. A mesa não cabia no compartimento. Então você jogava a bola num determinado ponto, a pessoa tinha que pegar um toquinho do cabo de vassoura, encostar na parede e na mesa, para ver se matava a bola. Então quando a gente queria ganhar algum dinheiro de forasteiro que chegava lá: “Dá a sinuca de parede”. Você jogava a bola lá, o cara não tinha como sair. (risos) O tira-gosto era uma latinha de álcool. Ele botava o álcool e ficava cada um com um pedacinho de queijo, derretendo o queijo e tomando cachaça. E, eu vou ser sincero, foi uma das coisas mais felizes da nossa vida, porque não tinha e-mail, não tinha celular. Tinha boca-a-boca, olho no olho, palavrão por palavrão, brigas e abraços. Então era muita sensibilidade. Acho que a poesia aflorava demais por isso.

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Clube da Esquina: Museu

Eu acho que o Museu Clube da Esquina é um trabalho extremamente sério e necessário para Minas Gerais, porque algum poeta falou que o mineiro só era solidário no câncer. E eu lamento o que ele falou – talvez eu seja burro por não entender o que ele quis transmitir. Mas eu acho que a solidariedade tem que ser mostrada nesse museu. Independente de alguns resquícios de paixões, de vaidades, eu acho que o museu, para Minas Gerais, é um marco. E eu falo isso com muita tranqüilidade, porque eu vivi fora de Minas Gerais e eu era muito cobrado pelo Clube da Esquina: “Poxa, você fundou o Clube da Esquina. Você é o sócio-fundador do Clube da Esquina e não tem nada?”
Eu vou contar um lance que aconteceu há uns 15 dias atrás: eu estava na rua Divinópolis, exatamente na frente da esquina. Chegou um carro com uma família de Campinas e o cara me perguntou: “Onde que é o Clube da Esquina?” Eu falei: “É aqui”. Ele falou: “Mas isso aqui?” Eu falei: “Exatamente isso aqui”. “Eu viajo 15 horas de Campinas para ver o Clube da Esquina e é isso aqui?” Eu falei: “É isso aqui”. Ele falou: “Eu não acredito. As tantas coisas que eu queria mostrar para os meus filhos que estão aqui e se resume numa coisinha dessa… Vocês não vão fazer nada mais?” Eu acho que estou falando isso em primeira mão, porque eu acho que o museu vai exatamente trazer, fixar, registrar esse movimento bem definido, bem trabalhado, bem elaborado, para todas essas pessoas que a gente não sabe quantas são, mas que vêm com surpresas fantásticas buscar no Clube da Esquina. Então o museu é um movimento e é um trabalho seríssimo, da mais alta importância. E eu fico muito feliz de falar sobre o Clube da Esquina, porque é uma partezinha de mim que também está dentro desse Clube e que está indo para o Museu.

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