José Serra

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, local e data de nascimento

Meu nome é José Serra, nasci em Belo Horizonte em 10 de abril de 1928.

FAMÍLIA
Pais

Meu pai era Jaime Serra e minha mãe Aurora Cavalieri Serra.
Meu pai era ourives. Fazia anéis, cordões, essas coisas importantes pra quem tinha dinheiro.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Profissionalização

Eu tinha um primo chamado Mário Vaz de Melo, foi nome no Brasil inteirinho e era secretário particular do Juscelino Kubistchek. O Mário era pandeirista da Rádio Inconfidência e eu ia com ele nos lugares, ficava olhando e ficava doido. Ele ia descansar, eu pegava no pandeiro e tentava, tentava… Uma coisa eu tenho que dizer com franqueza: nunca ninguém me ensinou nem bateria – hoje sou baterista – e nem pandeiro. Aprendi olhando e, graças a Deus, a minha escola já passei pra vários jovens que estavam no caminho errado, então mostrei o caminho certo. Não ensinei, expliquei e estou muito feliz com isso porque tem vários aí que são feras mesmo.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Lembranças da Infância

Na minha infância, com sete anos de idade eu me apaixonei por uma colega de grupo chamada Vera. Desde pequeno, não é? Certa vez minha mãe deu uma entrevista, minha falecida mãe deu uma entrevista pra um sobrinho, de uma hora, e toda vez que meu sobrinho tocava no meu nome perguntando: “E o Zezé?” – Zezé, eu, apelido de família – “Ah, só quer saber de mulher!” Eu tinha 13 anos. E vou te falar uma coisa, não tem coisa melhor no mundo não. Eu sou franco, não tem coisa melhor no mundo. Deus é inteligente demais.

Profissionalização
Naquela época, quando eu tinha mais ou menos 18 anos de idade, que foi a época que eu me profissionalizei – porque com 13 anos de idade eu tocava pandeiro, começando a tocar pandeiro num restaurante na Lagoinha, na Rua Itapecerica, para almoçar e jantar eu tocava pandeiro. Não ganhava nada, mas ganhava alimentação. Foi uma infância muito difícil. Eu tocava ali e fui praticando. Depois, com 17 anos, entrei pra Rádio Guarani, pro regional da Rádio Guarani, tocando pandeiro. Aí deslanchei; acompanhei os maiores cantores que o Brasil já viu: Francisco Alves, Nelson Gonçalves, Emilinha Borba, Ângela Maria, Del, Jorge Veiga… Os maiores artistas, todos eu tive a honra de acompanhar.

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Montanhês Dancing

Depois eu passei pra bateria, aprendi a tocar bateria e toquei em várias casas, acabei entrando na escola maior chamada Montanhês Dance. Isso aí, pra quem lembra – não vocês que são jovens, mas pra quem viveu aquela época – nunca mais, nunca mais. Esse Montanhês Dance, o dono tinha Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Então pegava 70 mulheres escolhidas do Rio e mandava pra Belo Horizonte; de Belo Horizonte mandava pra São Paulo e de São Paulo mandava pro Rio. Setenta mulheres mais ou menos assim, de 60 em 60 dias, pra não deixar acostumar na cidade. E eu, muito sem vergonha, namorei várias vezes, então eu era dispensado do Montanhês Dance porque não podia namorar mulher lá de dentro, mas com um time daquele ninguém agüenta, não. Aí mandaram embora, depois me chamavam de volta: “Você não vai fazer isso mais não?” “Não”, mas não tinha jeito, fazia: “Rua!”.
No Montanhês eles te davam um cartão na entrada. Primeiro, não entrava sem gravata; segundo, não é o que 70% fala do Montanhês. Montanhês era uma igreja. Era uma igreja na concepção de quem trabalhava lá porque aqui fora: “Nossa Senhora! Tá perdido, tá lá no Montanhês”. Não era nada disso. Era proibido beijar a mulher lá dentro. Você era posto pra fora na mesma hora e não entrava sem gravata. Terno e gravata, não era camisa esporte não, terno e gravata. Então, só tinha gente alinhada. Aí, toquei no Montanhês muito tempo.

Voltar ao topo TRABALHOS

Circo Garcia

Depois eu saí do Montanhês e passou um circo em Belo Horizonte chamado Circo Garcia. Nesse circo, o chefe do conjunto ficou me conhecendo no ponto dos músicos e falou assim: “Você que é bem conhecido aí não arranja uns músicos pra fazer a orquestra do circo, não?” “Arranjo”. Então, indiquei e fiz a orquestra do circo. Armou a primeira vez na Praça Raul Soares, onde é o JK, aquele edifício JK. A primeira vez que veio, isso foi 1950, entrei pro circo também como baterista, não tinha baterista. O dono comprou uma bateria. Mandou escolher uma bateria, escolhi a melhor. Então, ficou uma orquestra que se tornou a atração do circo. Atração tamanha que os artistas ficavam com ciúmes dos músicos porque o povo virava pra orquestra na hora que a orquestra entrava e eles estavam trabalhando lá no picadeiro e o povo olhando pra orquestra e aplaudindo. Isso deu um trabalho danado pro dono do circo, mas passou. Nesse circo, cada coisa que você fazia você recebia uma quantia. Primeiramente, eu fui como músico, ganhava como músico. Aí, tirei a carteira de chofer pra dirigir caminhão que carregava lona, mastro, aquelas coisas, mais um bocadinho. Depois o palhaço adoeceu e eu fiz o lugar dele porque eu conhecia o número todo como era, decorei tudo, fiz o palhaço também, mas eu ria de mim mesmo todo pintado, era bom, valeu. Depois morreu um globista. Eu treinei seis meses pra tirar a tonteira e entrar no meio globo, pra depois entrar no globo inteiro. Fiz, passei e fiz o globo da morte uns oito meses, nove meses mais ou menos. Fiquei no circo quase cinco anos. Saí do circo, fiquei no Rio de Janeiro, fiquei dois anos e trabalhei nas melhores orquestras que tinham lá, já com muita prática, e lá eu ganhei um concurso de melhor baterista de variedades. Melhor baterista de variedades é aquele que sincroniza tudo que o artista faz. Eu especializei no circo então foi fácil pra mim, tudo que o artista fazia: “Faz assim!”, não pode perder uma. Por exemplo, os voadores, faziam o trapézio voador, tinha a hora certa deles caírem. Eu sincronizava a caída porque errava duas ou três vezes, pro povo ficar tenso, depois fazia certo. Ali não tem erro não, o tanto que eu fui treinado, caí cinco vezes, não acertei nenhuma. Esse aí não deu pra mim não.

Atividades Profissionais
Saí do circo e fui para o Rio de Janeiro, como falei, e trabalhei em grandes orquestras lá. Depois fui pra São Paulo, também grandes orquestras; depois vim pra Belo Horizonte porque ia inaugurar a TV Itacolomi. Não, já tinha inaugurado a TV Itacolomi. Encontrei com o diretor lá no Rio e ele falou: “Você quer ir pra Belo Horizonte?”, e eu falei: “É a minha cidade! Tem quantos anos que eu não vou lá…”. “Pois é, a TV Itacolomi está precisando de um baterista na orquestra”. Então vim, fui baterista da orquestra, vários maestros passaram na TV Itacolomi eu trabalhei com eles. Ainda não era a minha orquestra, era da TV Itacolomi. Saí da Itacolomi e montei a minha orquestra.
Minha vida toda, desde o início da orquestra, fiz repertório romântico. Eu fui extremamente romântico. Passei pelo twist, tudo quanto foi música moderna, com o romantismo, até hoje. Claro que hoje eu sou obrigado a tocar de tudo, nós tocamos de tudo, mas especificamente a nostalgia.
Eu posso te dizer o seguinte: eu bati um recorde que até hoje ninguém quebrou. Em 1975 eu fiz 25 bailes em 31 dias, ou 25 serviços: recepção, baile, show, tudo. Em 31 dias fiz 25 no mês de dezembro. Até hoje não tenho notícia de que alguém tenha feito isso. Bom, os cantores até que tem show todo dia, mas naquela época era coisa de louco. Então, a referência minha era essa.
Eu acompanhei os cantores desse repertório que eu toco, acompanhei todos eles. Acompanhei artistas internacionais como Tito Esquipa, Pedro Vargas, Carlos Ramirez, daquele filme Escola de Sereias – tirei até foto com ele, ele veio aqui em Belo Horizonte e tiramos foto juntos – e era cartaz mundial. Carlos Ramirez, já faleceu; La Rita Nela, Ilona Massey do cinema, Blenda Lee – errei, me desculpa – mas citei uma grande artista também. Então foi essa referência. O que eu segui, a referência minha foi acompanhando esse pessoal todo de todas as épocas, principalmente o bolero.

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Ponto dos Músicos

Ponto dos Músicos! Eu vou te explicar. O Ponto dos Músicos, na minha época, era na Leiteria Avenida, na São Paulo com a Afonso Pena – é um triângulo ali. Lógico que há muitos anos não existe mais a Leiteria Avenida. Depois passou pro Rei do Sanduíche, um pouquinho mais pra lá. Toda madrugada todo mundo ia comer sanduíche de presunto, de tudo quanto era qualidade, chamava Rei do Sanduíche, fora de série. Depois passou pra Sapataria – posso falar? – ali na Tupinambás com Afonso Pena, Sapataria Americana. Ali foi o grande Ponto dos Músicos. Depois passou pra Rua Curitiba, na porta da Ordem dos Músicos. Aí já era fraquinho, já ia pouca gente e hoje em dia não existe mais o Ponto dos Músicos. Os músicos não têm onde se encontrar. Naquela época se encontravam ali pra viajar, pra fazer um baile, pra cerveja, tudo era ali. Agora não tem mais ponto certo. Você trata, fala com os músicos: “Tantas horas eu passo com a van e apanho vocês em tal lugar”, pronto!
O ponto dos músicos geralmente era das quatro da tarde às oito da noite. Ali ficavam os músicos disponíveis e, às vezes, os que não eram disponíveis pra marcar o ponto, como a gente dizia. “Preciso de um pistonista”. “Vai lá no ponto dos músicos”; ia lá estava lá pra poder escolher. Hoje não existe mais isso. Hoje cada um tem a sua turma, a turma que está comigo, por exemplo, tem anos e anos, não troca, ninguém quer sair. Melhor, não é?
Só em Belo Horizonte que tinha esse Ponto de Músicos. Só em Belo Horizonte. O mais antigo é esse Leiteria Avenida, 1942. Grandes músicos passaram por lá. Olha, JJ, sax e tenor; Abreu, sax alto; Plínio, pistonista; tudo já morreu. Vou até contar uma coisa interessante pra vocês. Eu tenho uma caderneta de mais de 100 endereços de músicos. Já risquei 80 porque já foram embora, só tem 20. Então aí vem Andrade, pistonista; Erasmo Williconi, pianista; Corinha, pianista; Abié, baterista; Olavo, baterista; Checo, baterista. Eu até tenho pena de falar. Eu tenho um retrato da orquestra que só eu estou vivo, de uma orquestra que eu trabalhei só eu estou vivo, com quatro infartos e um derrame. Não morro fácil, não. Também São Pedro falou comigo que já tem três baterias, não precisa mais não.

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Ângela Maria

Quando eu estava no Rio eu acompanhei Ângela Maria muitas vezes, no Dancing Avenida que era do mesmo dono daquele Montanhês. Ângela Maria era cantora e eu era pandeirista na época. O Miltinho era cantor também, não! Miltinho era pandeirista também, então nós revezávamos meia hora, cada um tocava meia hora, e a Ângela Maria era crooner da orquestra do Avenida Dancing. Depois veio a ser essa grande cantora, não é? Esteve no auge anos e anos.

Atividades Profissionais
A minha própria orquestra foi montada assim: eu trabalhava numa orquestra em Belo Horizonte, do Montanhês, que o chefe chamava Osvaldo Castilho. Nós saíamos do Montanhês e íamos fazer baile. Tinha essa combinação com a casa, fazer baile e trabalhar no Montanhês. Essa orquestra pegou um nome tamanho que não teve mais jeito de trabalhar no Montanhês, só fora. E o Castilho morreu, o chefe da orquestra, Osvaldo Castilho. Então a senhora dele tentou comandar a orquestra e, entre nós aqui, com todo o respeito, comandar músico não é mole não. Eu que o diga, 65 anos, não é mole, é preciso ser artista, músico e artista. Sabe como é, não é? Você sabe mais do que eu. Aí eu resolvi montar a minha orquestra porque falaram: “Vai acabar a orquestra, forma a sua orquestra, a orquestra está aí, só precisa de um comando”. “Aceito pra comandar e ser respeitado e respeitar vocês”. Aceitei, pronto! Foi aí que eu comecei, 1961 eu fundei a orquestra, a minha orquestra e comecei a trabalhar com ela. Agora, o auge nosso foi 75, mais ou menos, nós fizemos muito baile, muita coisa e… Chegamos a tocar várias vezes nos Estados Unidos, vou te explicar, é outra coisa interessante. O meu ex-cunhado – eu sou divorciado mas casei de novo, senão pega fogo – o ex-cunhado trabalhava nos Estados Unidos. Era vice-cônsul nos Estados Unidos, em Miami, e ele ficou sabendo de um baile lá que a empresária, a Ina Sodré, o nome da empresária, ela ia fazer um baile brasileiro lá, mas queria um baile de arromba de Carnaval. Eu já era campeão de carnaval uns cinco anos seguidos aqui em Belo Horizonte, primeiro lugar de orquestra. Então ele falou: “Põe seu nome lá”, eu falei: “Concorrer com Rio, São Paulo e o Brasil todo não tem cabimento, não ganho não”. “Mas põe seu nome lá”; aí, eu pus meu nome lá. Foi peneirando, eram não sei quantos, e foi tirando, tirando e sobraram eu e o meu querido amigo Carioca – grande orquestra brasileira, morreu também. Então teve o último pra escolha, ou um ou outro. Ele entrou primeiro, saiu rindo, falei: “Perdi!”. Eu do lado de fora esperando. Quando entrei, essa senhora, a empresária, falou: “Minha vontade era levar os dois”, falei: “Perdi, perdi mesmo!” “Mas acontece que ganhou você, não posso levar duas orquestras”. Eu fui pra fazer um baile de Carnaval. Dovil era o nome do hotel, na Avenida Collins. Fiz o baile, agradou tanto que eu voltei mais 11 vezes, mais de 11 porque 11 vezes eu voltei pra fazer o Carnaval, mas eles me contrataram pra fazer o Halloween também que é a maior festa americana, 31 de outubro. Eu fiz Halloween uma vez, agradaram pra caramba, aquilo é fácil demais, vestir de fantasma – eu já era um fantasma, então não tinha problema. O que nós fizemos? Aceitei o contrato, então passei a fazer Carnaval em fevereiro e Halloween em 31 de outubro. Levei, eles exigiam que levasse um cantor de nome brasileiro além da orquestra completa. Levei Jamelão umas sete vezes; seis, sete vezes, levei Elba Ramalho; levei Cauby Peixoto, levei… Não me recordo de todos, mas levei cada vez um. Fiz 12 anos Estados Unidos, aí foi minha consagração porque eu recebi a chave da cidade, fizemos desfile com batedores na frente, eu, o prefeito da cidade e a empresária. Nem Lula! Naquela época não existia Lula, nem Juscelino!
Na orquestra só tocávamos música brasileira! Eu me lembro de ter feito um baile só com arranjo de música americana em ritmo samba. Eu toquei com Bill Halley, fiz quatro números com ele. Aqueles rocks passei pra samba, na orquestra dele. Mas não foi agora, ele já morreu há muito tempo, mas eu trabalhei com ele. Minha vida, se eu morrer amanhã, eu quero nascer músico outra vez.

Gravações
Gravei um disco, vendeu tudo. Agora vou falar o que eu quero de verdade: não recebi um centavo de direito autoral. Me procuraram pra fazer mais mil, eu falei: “Nunca mais!” Nunca mais gravei. Meu filho até tem uma gravadora, meu filho Sérgio tem uma gravadora profissional e quer gravar um CD comigo, nem lá eu fui gravar o CD com ele, ainda não tive tempo pra isso. O direito autoral no Brasil é muito interessante, se você aprofundar vai ver que tem uma coisa que não tem explicação. Roberto Carlos, Leonardo, Chitãozinho & Xororó, esses cabeceiras recebem os tubos e os que fazem as músicas têm que fazer lista pra enterrar. Os compositores que fazem as músicas, como Cartola – Cartola foi um gênio – teve que fazer vaca pra enterrar. Pelo amor de Deus, a música do homem entrou em filme, entrou em tudo. Parabéns pra esses que estão na crista da onda porque eles mandam e não pedem.


Clube da Esquina

Clube da Esquina, eu vivi essa época! Eu vivi essa época, mas não freqüentava por ter o mesmo horário de trabalho. Foi famoso demais. Foi a melhor coisa que Belo Horizonte teve, Clube da Esquina. Ali desfilaram grandes artistas: Milton, Lô Borges. Essa família Borges é um espetáculo, todo mundo é músico, já nasce músico.
A primeira vez que ouvi achei espetacular. Gostei demais! Só tinha fera! O que me atraiu no som deles foi a qualidade dos artistas. O Lô Borges, o Milton Nascimento, essa turma do… Eu esqueço o nome, eu não tenho idade pra isso não, 79 anos não pode esquecer desse jeito. Vocês desculpem as brincadeiras, é pra alegrar o ambiente até começar o baile. Eu vivi essa época, gostei demais, acho que esse Clube da Esquina deveria existir até hoje ao vivo. Acho não, era a coisa mais normal do mundo, muito bom mesmo!
No meu repertório tem Clube da Esquina. Tem os anos 60 todo, tem os meninos aí também. Só gente boa. O Milton cantou na minha orquestra lá no Jaraguá, num baile importantíssimo, mas na época se chamava Bituca, aí passou pra Milton depois.

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Montanhês Dancing

Esse é meio pesado, não posso falar não. Por causa de um músico que tinha defeito na vista, não posso falar não. Não tem nada demais, mas passa na censura. Era saxofone, não posso falar. Ele tinha o olho assim, pelejava pra abrir. Um era aberto, o outro que ficava assim, não conseguia abrir de jeito nenhum. Aí nós nos reunimos no Montanhês e falamos: “Vamos fazer um apelido pra ele?” “Vamos!” E cada um dava um palpite e todo mundo parava, olhava pra ele, mas não era por querer, era defeito da vista, não tinha jeito, aí apelidamos ele de Gozo Eterno. Pegou de uma maneira que ele mudou de Belo Horizonte, foi pra São Paulo e nunca mais voltou aqui. É um caso, porque existem casos e causos, não é?

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Milton Nascimento

Quando o Milton cantou na minha orquestra ele não era Milton Nascimento. Não, não era. Era igual Roberto Carlos. Quando iniciou a carreira dele lá no Espírito Santo, eu fiz bateria pra ele. Nós fizemos um show no cinema pra dividir o dinheiro, mas ninguém sabia quem era Roberto Carlos. Deu 12 pessoas, não teve jeito de dividir nada. Tinha oito músicos. Doze pessoas entraram pra ver… É o caso do Milton. O Milton hoje é uma potência, é um nome pra danar, mas naquela época era Bituca, cantor de baile,.crooner de orquestra, entendeu? E não gostava muito não, o negócio dele era mais Clube da Esquina, ele era muito chegado ao Clube da Esquina. Baile eu pelejei com ele, não foi mole não, levei nesse baile; agora, foi um sucesso danado, mas não era o Milton Nascimento, não. Era o Bituca. Hoje se falar em Milton Nascimento lota qualquer teatro, lota tudo, é uma inteligência muito grande.

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Comemoração de 80 anos

Meu aniversário foi dia 10 de abril. Eu comemorei no dia 8 com a família. Reuniu a família e me prestou homenagem fazendo o almoço. Era um domingo. Mas antes eu tinha feito um baile de aniversário do ex-ministro Saraiva Felipe, Ministro da Saúde, e agradou demais o baile lá na fazenda, agradou demais, o pai dele, a mãe dele dançaram, foi uma festa bonita mesmo. Meu filho, como era assessor dele, organizou tudo direitinho. Agradou muito mesmo. Levei uma cantora muito boa, canta em quatro idiomas; levei o cantor da orquestra – aliás, falamos orquestra, mas é difícil trabalhar com orquestra hoje em dia, então a gente trabalha com menos. Eu trabalho com oito figuras: piston, trombone, sax, contrabaixo, cantor, bateria, guitarra e eu, oito, porque não tem condição de trabalhar. O povo hoje está apertado, o Brasil está sofrido. Você quer fazer uma festa, fazer um casamento, por exemplo, duas figuras, 300, 400 contos, duas figuras. É brincadeira, não é? Então ele fez um discurso agradecendo a festa quase na hora de acabar, estava lotada. Fez um discurso agradecendo meu filho pela organização e a minha orquestra por ele ter dançado demais. O pai dele nem se fala que é um pé-de-valsa danado. Eu nunca vi um homem mais velho do que eu dançar igual aquele. Eu danço bem, mas ele ganhou de mim. Acabou o baile, me chamou em particular e falou: “Serrinha, se eu quiser te dar um presente você aceita?” “Aceito, ministro”. “Eu vou mandar seu filho organizar um baile pra eu te dar de presente o baile. O que ele contratar, o que ele fizer, está feito. É um presente meu”. Ele marcou, vocês estão convidados também, 11 de maio, no Labareda, na Pampulha. Clube Labareda. Sabe o Atlético? Aliás, é meu time de coração e futuro campeão mineiro. Pois é, infelizmente o presidente do Cruzeiro foi debochar do Atlético, olha o que deu? Isso aí é brincadeira. Eu toquei no Cruzeiro mais de dez anos seguidos. Perdi uma aposta pro Felício Brant, na época vivo, que o Atlético ganhando de dois a zero, e perdeu de três a dois, foi campeão o Cruzeiro. Eu tive que me vestir de tostão pra pagar a aposta. A orquestra toda uniformizada e eu, em vez de smoking, tive que vestir calção, chuteira, tudo, e dirigi a orquestra… De tanto a minha amizade com o pessoal do Cruzeiro que, aliás, eu gosto de todo mundo. Não vou debochar, tem que respeitar todo mundo. Acho o Cruzeiro um grande time, só acho que tem dinheiro demais, mas não tem amor à camisa. Minha impressão é essa, pode ser até que não seja. O Atlético coloca um menino que eu nunca ouvi falar, entra lá, dá certo, tudo dá certo. Bom, tira o futebol fora. Vocês estão convidados, eu espero a presença de vocês, agradeço antecipadamente.

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Dança

Eu aprendi a dançar na… Você me apertou que eu sou casadinho de novo, mas vou te falar… Não posso falar o nome. É putaria. Hoje não tem perigo de mais nada, não é? Mas foi no meio mesmo, nos piores lugares. Gafieira brava mesmo, aquelas gafieiras e aprendi a dançar. (risos)

Atividades Profissionais
Em todo o meu repertório não tem uma música que eu tenha feito arranjo. Tem arranjo vocal meu, mas arranjo de música é tudo americano, música francesa; brasileira tem todas; espanhola também, tem tudo, mas arranjos que eu compro porque são sucessos nacionais. Se eu fizer arranjo não vai fazer sucesso nenhum. Meu disco fez sucesso e eu não recebi nada, se fizer arranjo vou à fome!


Clube da Esquina: Considerações finais

O que eu tenho que falar primeiramente é agradecer vocês essa atenção toda, o modo que me recepcionaram aqui, fico sinceramente vaidoso porque é uma firma de grande potência e, primeiramente, agradecer a vocês. Agora, o que eu gostaria de falar é que eu quero morrer tocando. Só essa frase: Quero morrer tocando.
Eu que agradeço e estarei sempre à disposição e pedir desculpa das brincadeiras, é que eu não sei falar sem brincar. Tem que ter umas brincadeiras pra animar, até enterro a gente anima. (RISOS)

Fale na Esquina

Uma mensagem para José Serra

  1. Marcelo Vaz de Mello disse:

    Agradeço ao meu primo e amigo Serrinha pelas palavras carinhosas dirigidas a meu pai Mário Vaz de Melo (Pombo – Correio), saúde e paz Serrinha