José Tarcísio Caixeta

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome / Local e data de nascimento

Meu nome é José Tarcísio Caixeta. Nasci em Patrocínio, no dia 13 de agosto de 1956.

Voltar ao topo TRABALHO

Atividades profissionais

A minha trajetória profissional começa com a militância no movimento estudantil, no final da década de 70, quando eu venho para Belo Horizonte. Eu venho para estudar e me engajo no movimento estudantil, na luta contra a Ditadura, na luta pela democratização do país. Daí é um processo de militância partidária e sindical, no Sindicato de Professores, no Sindicato de Engenheiros, no CREA, no Conselho Regional de Engenharia e, posteriormente, na Prefeitura, como Secretário Municipal de Indústria e Comércio, na administração do Patrus. Depois me tornei Superintendente da Sudecap; em seguida, Presidente da Urbel e, depois, a eleição para a Câmara Municipal. Esse é o meu primeiro mandato na Câmara. Fui eleito no ano de 2000.

Voltar ao topo ADMIRAÇÃO

Elis, Lô e Milton

Quando eu vim para Belo Horizonte – eu vim em 1974 – era um ambiente de repressão política, de luta contra a Ditadura, mas também era um ambiente de um jovem descobrindo a cidade grande, descobrindo aquilo que ela tem de atrativo. E é claro que aí você trava conhecimento com o que está acontecendo. Primeiro, para se salvar, você se explode nos bares, nas noites; mas também toma contato com a música, com o Milton, com o Lô, com a Elis cantando as músicas e todos aqueles que já eram conhecidos, já explodindo nacionalmente. Aí que eu travei o primeiro conhecimento. E é claro que, com o passar do tempo, você vai gostando, vai curtindo e passa a ser admirador, fica esperando sair o disco de cada um: “Quando é? Saiu esse ano? Vai sair? Como que é?” Então foi assim que eu fui travando conhecimento e convivendo com essa expressão cultural importante, que foi o Clube no seu nascedouro e que deixou raízes que estão aí até hoje.

Voltar ao topo DISCOS

“Minas” / “Geraes”

Para mim “Sentinela” é a música que mais marcou. Tem dois discos do Milton que me marcaram muito, que é o “Minas” e o “Geraes”. Aí já não é o Clube, é o Mílton. Mas são dois discos que me marcaram muito. “Trem Azul” também é uma música que marca um tempo, marca essa geração e a convivência na própria universidade, num momento de efervescência muito grande, de explosão cultural e de reivindicação.

Voltar ao topo ADOLESCÊNCIA

Movimento Estudantil

Eu estive no Movimento Estudantil e na própria passagem pela universidade tive uma relação muito forte com a COTEC, que era uma cooperativa de cultura técnica, onde todos os discos estavam ali. O forte da COTEC eram os discos e sempre tinha os discos de todos: do Lô, do Beto, do Milton, do Wagner Tiso. E a gente sempre curtia, convivia sempre para ouvir os discos, porque nem sempre a gente tinha dinheiro para comprar. Então a gente ia para lá para ouvir os discos.

Voltar ao topo MÚSICA

Clube da Esquina: Avaliação

Eu acho que o mais importante em relação ao Clube da Esquina é o momento da criação, porque paralelo ao momento em que o país estava vivendo, essa meninada fazia música e, ao mesmo tempo, se rebelava através da música, quebrando um pouco as normas. É claro que a cidade também permitia isso, por causa da boemia, das noitadas. E hoje nós temos grande dificuldade até para aparecer algum grupo com essa característica, pela realidade que nós temos hoje, da violência, das dificuldades todas. Porque era um clube de amigos localizados, circunscritos mais ou menos a uma região da cidade, mas que transbordava com as noites de Belo Horizonte. Era um clube de amigos que se juntava, tocava, compunha, agitava, fazia festa, brigava com as turmas de bairro, com a turma do Prado, a turma do Floresta. Então era um momento interessante.
O momento em que o clube nasce é o momento também de muita efervescência na vida cultural e política que o país estava vivendo e que a cidade também viveu. Como eu acredito que seja um paralelo do Clube com um grupo da década de 50 da cidade muito conhecido, formado pelo Hélio Pellegrino, pelo Drummond, pelo Pitangui. Essas figuras, que eram também um grupo de amigos, andavam pelas ruas perambulando e cada um na sua expressão, na sua maluquice própria da juventude, mas com um sentimento muito forte de descobrir o mundo. Eu acho que o clube tem essa característica, que é descobrir o mundo; e o mundo descobriu também um bando de artistas de qualidade, de pessoas generosas, de pessoas com uma grande qualidade pessoal, humana e de uma capacidade artística musical fantástica. Eu acho que essa questão da descoberta é o interessante, porque era um bando de meninos descobrindo o mundo e o mundo descobrindo a qualidade dessa turma.

Voltar ao topo LOCALIDADES BELO HORIZONTE

Santa Tereza

Eu acho interessante ver que o bairro de Santa Tereza tem uma característica de bairro de classe média como outro qualquer. Mas o Clube da Esquina desperta Santa Tereza, desperta a cidade para Santa Tereza. Eu acho que tem esse dado também. Nós não temos uma arquitetura arrojada. É mais ou menos própria, circunscrita, mas também é uma característica própria da década de 40, assim como em outros bairros da cidade. E nós não podemos dizer que nós temos uma vida boêmia em Santa Tereza, como outros bairros de Belo Horizonte, como a própria Lagoinha, que foi um bairro caracterizado pela boêmia, pela noite. Santa Tereza era um bairro de classe média, pacato, não tinha zona boêmia como tinha a Lagoinha. Mas a expressão cultural de Santa Tereza eu acho que se mostra para a cidade muito com o Clube da Esquina. E essa característica permanece até hoje.
Eu acho que desperta também um sentimento de preservação de raiz, de características próprias dessa classe média de Santa Tereza que cria, que produz e quer mostrar, atraindo a cidade. Eu acho isso muito mais hoje. Atrai também a cidade para descobrir o que Santa Tereza tem. E ela passa a se constituir com uma característica muito mais recente de bares, noites, casas de espetáculo, restaurantes. Eu acho que essa é uma característica mais recente, mas que o Clube da Esquina teve esse papel também de despertar. Eu acho que esse processo de descoberta para o mundo também é descoberta do umbigo, com a cidade se descobrindo. Eu acho que tem essa característica também.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Clube da Esquina: Museu

Eu acho muito importante a gente preservar a memória de tudo aquilo que é movimento, que é criativo, que produz e que produziu, como o Clube da Esquina. E esses artistas, hoje consagrados e conhecidos, produziram e são marcas, são referências na música popular brasileira. Eu acho que a gente tem que preservar. Nós não podemos perder a dimensão da evolução, do sentido de andar, mas também de preservar aquilo que foi importante, que foi marcante na nossa história.
Recentemente nós líamos pelos jornais a triste memória do 31 de março, sendo contada nos seus 40 anos. Inclusive alunos do próprio Colégio Tirandentes, de Santa Tereza, não conseguiam traduzir nada da memória do que foi 1964. Alunos de 16, 18 anos. Eu acho que nós não podemos perder esses fatos históricos, culturais e artísticos, do ponto de vista da preservação. A criação do museu para mim tem essa importância fundamental, porque não preserva a música, mas preserva o movimento, preserva a importância dele para a história cultural, para a história musical de Belo Horizonte e do país.
Nós temos integrantes do clube que foram para o mundo. Eu acho que o Toninho Horta é um exemplo claro disso, porque ele é um músico genial. E é preciso que a gente preserve essa história para essas gerações mais novas, porque senão elas acabam não sabendo da importância que foi. Aí nós misturamos um pouco a memória histórica do ponto de vista da cultura e da música que o Clube representa, e também com a história da cidade. É claro que não tem como dissociar essas coisas.
A constituição de qualquer movimento – qualquer expressão, seja ela cultural, das suas mais diversas formas, seja política, seja na arquitetura – está dentro de um contexto. Ela está dentro de uma realidade e a história do clube se confunde com a história de Belo Horizonte, com a própria história do país. Então um museu que trata do Clube da Esquina, dessa geração, com certeza vai estar recuperando também a memória histórica de Minas, de Belo Horizonte e do país.

Voltar ao topo EVENTOS HISTÓRICOS

Diretas Já

Eu gosto demais de “Sentinela”. Cada coisa tem o seu momento e ele se perpetua no tempo também quando a gente recupera a memória. Essa música me faz voltar em 1985. Aí já com “Travessia”, que é aquela passagem da Praça da Liberdade, que é outro momento histórico importante. “Travessia” é aquela travessia que o país estava fazendo, que era passar da ditadura para a democracia, com a eleição do Tancredo. E foi ali, naquela travessa, que é a passagem do Palácio da Liberdade para o início da Avenida João Pinheiro. A gente tinha uma expectativa enorme do país, que era essa travessia da ditadura para a democracia, que é a morte do Tancredo.
Aí me lembra “Coração de Estudante”, que foi a música hino daquele momento triste da história. Mas aí a “Travessia” me puxa na memória, que é esse vazio com a morte do Tancredo. E era a travessia da ditadura para a democracia. São coisas que a gente liga à música, liga aos fatos, às nossas relações afetivas, amorosas. Sempre tem uma música que nos marca naqueles momentos, assim como os fatos políticos também são marcados por momentos culturais, artísticos e musicais, como a presença de cada artista do Clube na vida social, cultural, política do país.

Voltar ao topo CIDADES

Belo Horizonte

Quando eu estava em Patrocínio já conhecia algumas músicas do Clube. Eu vim pra Belo Horizonte com 17 anos. E o que é que nós tínhamos? Uma alienação muito grande, principalmente no interior, devido à própria repressão cultural e política que o país estava vivendo. Mas eu já tinha conhecimento, já ouvia falar, já ouvia as músicas, mas de maneira muito incipiente. A descoberta para mim daquilo que foi caracterizado como os integrantes do Clube da Esquina se dá já na universidade, com a participação no Movimento Estudantil.
Aí é que eu começo a descobrir e entrar na boêmia – que a cidade grande também te atrai. No Estadual, você vai descobrindo a cidade, descobrindo aquilo que ela tem de gostoso, aquilo que ela tem de bom, aquilo que ela tem de diferente da vida nostálgica, até bucólica, do interior. Belo Horizonte descortina, para um menino de 17 anos, um punhado de alternativas, de possibilidades. E aí você vai descobrindo os bares, as noites e as músicas.
Minha turma era o pessoal da escola, da cidade de Patrocínio, porque a gente convivia muito, acabava andando em bando. Na expressão própria do interior, quando você é desmamado – quando o bezerro é desmamado, ele começa andar com outros bezerros -, quando você corta o cordão umbilical com a sua cidade, com a sua realidade, você procura outra manada para poder estar enturmando e não estar sozinho no mundo.

Voltar ao topo LOCALIDADES BELO HORIZONTE

Savassi

Eu circulava muito pela Savassi. Eu morava na rua Professor Moraes, ali na Savassi, em 1974. Então você tinha o Tom Chopim, você tinha o Bebis, você tinha aqueles bares todos ali da Savassi, que aos 17 não permitia você ingerir bebida alcoólica – mas sempre tinha um garçom para dar um jeito… O Centro da cidade era um atrativo para você estar presente.
O New Hamburger é um bar famoso da cidade. Foi famoso, durou muito tempo. Era um bar na área central da cidade, onde nós do interior nos reuníamos para ouvir, para cantar, para namorar, para beber. Também, na década de 70, ali ao lado do edifício Robertão, da Loteria Mineira, na rua Augusto de Lima, entre a Espírito Santo e a Rio de Janeiro. São os bares da vida que a gente ia a pé, da Savassi para o Centro, do Centro para a Savassi, nas madrugadas próprias da década de 70, 80, quando era permitido você fazer isso em Belo Horizonte. Infelizmente, nós já não podemos mais fazer isso, nem nossos filhos.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Museu
Eu acho que essa iniciativa é fundamental para essa preservação da memória histórica. E eu trato como memória histórica, não trato como memória da música popular brasileira, na expressão restrita da música. Eu acho que o Clube da Esquina foi muito mais do que música. Ele foi um movimento de expressão cultural da cidade nas suas mais diversas formas, porque influenciou muita coisa. É claro que influenciou enormemente na música, porque é um movimento musical, mas ele influenciou gerações no seu modo de ser, de pensar, de ver a vida, de brigar contra a injustiça, de se posicionar diante do mundo.
Eu acho que essa iniciativa é muito importante. O Márcio é que está puxando isso e tem um papel fundamental, porque ele não vai falar do umbigo, mas vai falar de outros umbigos que estiveram com ele ali, criando, participando, contribuindo nessa formação do grupo e na formação do museu hoje. Eu acho que é fundamental e vejo como uma obrigação da sociedade organizada de Minas, do país e, especialmente de Belo Horizonte, estar engajada nesse projeto. Eu acho que é preciso fazer um chamamento para a área artística, cultural e para aqueles que têm compromisso com esse país e com a preservação dessa memória para se engajarem no projeto. Então eu acho que isso é muito importante.

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