Josino de Brito Campos

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome e data de nascimento

Meu nome é Josino de Brito Campos. Nasci no dia 8 de janeiro de 1917.

Pais
Sou filho de Francisco Vieira Campos e Purcina de Paula Brito.

Apelido:
Zino, que é o meu apelido, foram os meus amigos que deram, porque acharam que era mais palatal. Josino é um nome meio feio e Zino é mais fácil de falar.

Pai
Meu pai era coletor federal, e também tinha lavoura; plantava café, matava gado, essa coisa toda.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Primeira infância

A minha infância eu passei em Três Pontas; depois eu fui para Campos Gerais, fazer cavalo pra lá, porque não tinha mais condução.

PARENTES
Avós maternos
Em Campos Gerais nós tínhamos o Dr. Josino de Paulo Brito, que era médico e senador. Ele era meu avô. E minha avó era Bárbara Carolina de Campos.

Brincadeiras de criança
Quando eu era criança em Três Pontas, gostava muito de trepar na árvore pra apanhar fruta, brincar de criança, jogar malha, pinhão… Sabe o que é pinhão? É uma frutinha que a gente come. A gente fazia uma biloca – que é um buraco – e ficava jogando com a unha pro pinhão cair dentro do buraco. Quem ganhava ficava com o pinhão e ia comer assado: punha na brasa, ele estourava, abria e a gente comia a parte interna. Mas só comia quem ganhava.

Voltar ao topo CIDADES

Campos Gerais

Na minha infância, Campos Gerais era uma cidade boa, tinha um cafezal dos melhores do Brasil. Quem falou isso foi uma senhora do Rio de Janeiro. Estava com um pessoal lá de emprego, e ela me perguntou: “O senhor de onde é?”. Eu falei: “Eu sou de Campos Gerais”. Aí ela disse: “De Campos Gerais? Pois lá é a cidade que produz o melhor café do Brasil!”. Isso eu guardei até hoje.

Avô materno
O meu avô era médico; tinha as máquinas dele de fazer coisa de comer, criava gado e também porcos de tamanho inusitado naquela época. Pareciam elefantes. E era bravinho… Eu morava numa casa lá na fazenda dele, e um dia ele estava deitado, caiu um raio, entrou pela parede afora, de uma parede para a outra, e jogou terra na cabeça dele. Ele passou a mão e estava cheio de farelo na cabeça, de terra. Ele mesmo fazia o trabalho de todo povo. Depois, ele ainda ensinou uns homens naquele tempo a trabalhar com doente; esses dois médicos que ele ensinou trabalhavam em Varginha. Nós, primeiro, trabalhávamos com vovô e depois, passamos a ir pra perto de Varginha, porque o meu avô tinha ensinado pra eles aquele negócio, a medicina. A gente ia lá pra fazer o exame, mas ele ensinava os exames para os outros e os outros é que faziam exames no povo de Varginha.

Voltar ao topo *INFÂNCIA

Brincadeiras de criança

Minha infância era muito boa. Nós éramos pequenos, mocinhos, meninotes, e passavam lá na nossa rua muitos homens trabalhando a cavalo e sempre eles levavam uma matula – matula é um embrulho. Então nós descobrimos uma coisa: quando o homem passava, ele sempre estava catando coisas. E nós passamos a pegar um tijolo, amarrar uma fitinha, uma coisa, e pôr lá. Ele vinha, passava, via aquilo, descia do cavalo, pegava o tijolo e punha dentro do bornal. Era nossa brincadeira e nunca fomos apanhados. Gostava de jogar biloca, gostava de tirar leite… Fruta eu não roubava não, mas tinha um que roubava e era meu amigo, que ainda é vivo. Chegava na época, roubava a fruta e o dono pensava que esse menino estava vendendo a fruta; e ele estava apanhando e comendo… Ainda é vivo até hoje! Esse meu amigo se chama Manuel Piedade de Campos.
Eu gostava muito de brincar na horta. A horta tinha três mangueiras, dava manga e a gente comia. Eu gostava muito de trepar na mangueira, pegava com os pés no varal da coisa e bancava o artista. Só que um dia escorreguei e caí cabeça abaixo, mas não quebrou nada não. Gostava também de passar de uma árvore para a outra, que era um trio em carreira. A gente ia roubar a fruta, trepava numa árvore, comia e passava pro outro. Comia e também vigiava as vizinhas que moravam perto, por cima do muro. Ficava olhando…

Lembranças da infância
Tinha também os bailes no Clube Trespontano. Primeiro em casa, o papai dava baile pra nós; nós éramos pequenos e ele convidava as meninas de perto e levava pra casa. Tinha uma varandona e ali que papai tocava, e nós começávamos a dançar. Depois, ele comprou um aparelho de toca-discos. Punha pra nós dançar e nós dançávamos. O papai não tocava nenhum instrumento; ele cantava e os outros tocavam flauta ou violão. O pessoal dançava, eu mesmo dancei… Jogava também baralho, mas eu não gostava.

Irmãos
Tenho irmãos e irmãs. A primeira irmã era a Alzira, moça bonita, inteligente e professora… bateu até morrer. Infelizmente, ela pegou uma doença que matou… E tem mais três mulheres. Homens éramos o Zete, José, eu e Milton. Fora aqueles meninos que morriam no parto, perdemos muito. Lá em casa foi mais de uma dúzia de filhos, e dessa coisa toda se salvaram uns dez. A família era grande.

Moradia
Nós morávamos numa casa bem grande, era muito bom. Nós mudamos de casa muitas vezes. Nós moramos, por exemplo, na primeira vez que eu me lembro, numa casa com escada pra gente subir, que era alta… Depois dessa, nós passamos para uma outra casa perto de umas casas de Tiradentes. Depois, saímos de lá e fomos para a última casa, que ficou pra nós até nos tornarmos homem. Ali era uma casa muito grande, tinha uma entrada, que chamava varanda de entrada, depois a varanda de comer, grande, maior que isso aqui… Muitos quartos, cada um tinha um quarto. Tinha um corredor… Era engraçado; nesse corredor tinha umas coisas de madeira, do lado, e ali se guardavam coisas de comer. A mamãe ficava sempre vigiando, e um dia o papai pôs um relógio no armário e ficou ali uns dias; aí eu peguei o relógio, fui pro terreiro, pra debaixo da árvore e fui consertar ele, quer dizer, desmanchei ele pra depois montar. Eu montei, mas não funcionou, então eu levei pra dentro de casa, pus dentro do armário e ficou ali. O papai passou: “Zino, que negócio é esse? Precisa dar corda nesse coiso!”. Eu disse: “Eu vou dar…”. E assim aconteceu muitas vezes. No fim das contas, eu tirei o relógio, escondi dele e depois fui montar, mas não consegui… Então papai ficou bravo.

Brincadeiras de infância
Eu andava a cavalo numa coisa de milho, aquele pauzinho de milho; a gente andava a cavalo nele, fazia uma cabecinha, punha um barbantinho e saía. Dançava, papai gostava, convidava aquelas meninas por perto e dava uma coisa na vista dele…

Pais
Papai era bravo, mas era também muito bom pra nós… E a mamãe batia palma. Minha mãe era filha do dr. Josino, esse que falei que era médico, porque papai era de Três Pontas, ela também, mas depois o pai dela tinha ido pra Campos Gerais. Então papai foi pra lá, casou com ela e ficou o meu avô lá em Campos Gerais, que era médico, e o papai em Três Pontas, que era coletor federal.

Voltar ao topo TRABALHO

Atividades profissionais

O primeiro rádio que eu montei foi quando ainda era criança; fiz um rádio com galena, que é uma pedrinha que regula também uma passagem de corrente. Eu trepei na nossa mangueira e lá eu fiz uma antena. Consegui pegar uma estação, muito longe, mas um ruído próprio disso e chegamos a fazer até conversas. Depois, mais tarde, quando eu cresci, eu fabricava transmissores e repetidores que falavam no Brasil inteiro; mais tarde falei até no Japão com o aparelho que eu fiz. Eletrônica, né? Esse primeiro rádio que eu montei eu devia ter uns 13, 14…15 anos. A idéia de montar um rádio veio porque eu era muito fuça! Eu ficava vigiando tudo; fazia um remédio, eu queria saber como é que era o remédio. Eu trabalhei com Aristides Vieira de Mendonça, que tinha uma casa de remédios e ali eu aprendi alguma coisa. Ele era meu professor. Eu pegava dele as coisas pra fazer e fazia; eu era meio complicado.

INFÂNCIA
Brincadeiras de criança
A única coisa que eu não fazia era cantar, até hoje eu não canto; mas lá em casa todo mundo cantava. Papai cantava, mamãe cantava, meus outros irmãos também, mas eu não cantava não. Eu fazia essas coisas: fazia remédios, tirava fotografias, gostava muito… inventei esse negócio de tirar fotografia. Eu era meio aventureiro… Tocava na vaca, pegava no rabo dela e batia; um dia, ela meteu um coice na minha cabeça! Teve uma outra vez que eu fui encostar um cavalo para abrir uma porteira, o cavalo saiu e eu caí…essas coisas de criança.

Lembranças da infância
Eu ia pra igreja, mas com papai. A gente quase sempre ia com um pé de sapato, pra não estragar o outro pé, mas escondido do papai. Aí papai falou: “Tem que calçar os dois pés!”. A gente ia pra igreja e as moças, as irmãs também.Nós assistíamos à missa, eu tocava o sino.

TRABALHO
Atividades profissionais
Depois, eu fiz a eletrificação da igreja e pus luz e som, isso eu já era moço. Um dia eu estava fazendo um serviço lá, pus umas caixas na parede, porque eu ia pra São Paulo, comprava lá e fazia o serviço pra qualquer outro… Eu fui pra São Paulo, comprei uns alto-falantes, fiz o aparelho pra tocar o alto-falante na igreja. Aquilo foi uma beleza! Terminado aquilo, chegou um homem: “Escuta, você está pondo alto-falante nessas coisas?”. Eu disse: “Tô”. “Não, mas tem que pôr na parede!” Eu disse: “Na parede não, eu gosto daqui porque fica no meio da igreja e o som é mais viável, e tem lá no fundo e na outra porta”. Por fim, “profissionei”, fiquei por profissão. Passado algum tempo, o homem foi lá e cortou tudo. Aí saiu a briga! Lá fui eu brigar com o homem. Briguei com ele, mas depois arranjou – mas não arranjou do jeito que podia… O homem não sabia nada, sabia só mandar, mas não sabia nada… Eu tenho um retrato meu, numa mesa aí, até vi hoje; eu numa mesa com um aparelhinho que eu mesmo fiz, está num retrato desses aí.

Voltar ao topo LAZER

Footing

Na praça tinha o footing. A gente andava pra lá e pra cá na praça, ao lado da igreja; namorava, dava umas conversadas… Às vezes a gente parava ali e ficava conversando.

Atividades profissionais
Depois, eu mudei de Estado, de cidade, e estranhei muito o negócio. Foi em São Paulo, eu mudei pra lá; mudei não, eu fui pra lá e fiquei. Depois, eu acabei com aquilo e voltei pra casa, porque não estava dando certo. Eu ia pra lá para comprar peças pra montar transmissores, repetidores, comprar remédios. Eu ia sozinho. Então eu comprei um carro, um fusca que eu tenho até hoje, que eu também conserto. Tenho e é bom!

Voltar ao topo EVENTOS HISTÓRICOS

Segunda Guerra Mundial

Eu fui soldado na Segunda Guerra Mundial. Foi assim: fui pro Rio e estudei, fiz faculdade e aprimorei o negócio de fazer esses aparelhos. Então fui convidado pra ir pro Norte; eu não queria ir, mas aí falaram: “Vai, Josino. Acontece que se você não for agora, depois você vai ter que ir, porque os homens, os moços todos já estão entrando na guerra, e você precisa arranjar um jeito também pra desarmar tudo”. Eu fiz uns exames, fui falar com o pessoal que mandava lá e fui chamado pra ir para Bahia. Tomei o avião pra Bahia, fui pra lá, desci, e quando entrei na casa, tinha aquela porção de cadáveres. Eu quis sair e os outros: “Não, você não vai sair!”. “Tá bom, vou ficar.” Fiquei e banquei o soldado lá. Fui numa cidade pequena e pra frente dessa cidade tinha o mar; e eles me puseram lá na coisa do mar. Eu ia a pé na cidade buscar remédio… remédio não, coisa pra comer. Na primeira vez que eu fui lá não tinha nada, tinha pão e banana. Eu peguei e levei… Era longe! Graças a Deus deu tudo certo. Depois, o chefão dos Estados Unidos foi lá, me conheceu e me passou uns pitos, porque eu não podia dirigir: “Não, você é soldado, você não é chofer!”. “Mas eu gosto de andar, essas coisas…” Depois eu dei uns golos pra ele, ele ficou satisfeito e me deixou…mas aí eu também criei sentido. Peguei o carro e fui até a praia… – na praia não, num terreiro – e quando eu vi, estava debaixo de um avião, um avião desses grandes; e eu ia bater no avião porque todo mundo estava trabalhando, dando tiro… Era guerra mesmo!
Tinha uma serra e eles fizeram um buraco debaixo da serra pra esconder as coisas. Mas não teve nada não; não morri. Uma coisa interessante foi o seguinte: minha tia foi pra lá, que era mulher do meu tio, e quando acabou o negócio, ela falou assim: “Agora você vai levar isso tudo aí pra mim” – porque ela foi pra lá, esteve lá uns tempos e comprou uma porção de coisa; ela era argentina – então eu levei pouca coisa pra mim, porque ela levou uma porção de coisas e o avião não podia levar aquilo tudo… Aconteceu isso. Coitada, eu levei tudo pra ela; pra mim, não fez falta não, deixei uns armários desses aí, cheio de cigarro, porque os soldados me davam cigarros; eu fumava um e punha o resto lá, e lá ficava.

Voltar ao topo EDUCAÇÃO

Academia de Comércio

Aí voltei pro Rio, fiquei lá muito tempo. Depois, fui para Três Pontas e lá fiz uma escola, a Academia de Comércio. Fiz a escola dessas coisas que você está vendo aí: matemática, física, economia, política, estatística… essa coisa toda eu fazia; não sei se é mau, mas eu fazia tudo! Estudei também, latim, inglês, português e a língua dos índios, aprendi alguma coisa em tucupi.

Voltar ao topo CASAMENTO

Esposa

Quando eu conheci a Lília foi um encanto. Eu trabalhava na General Eletric; eu estava lá no Rio e arranjei umas namoradas. Arranjei três namoradas de uma vez! Combinei com uma, com outra e com outra, encontramos lá no centro da cidade, as três comigo; só faltou bater, foi engraçado. Mas depois eu fui pra casa de meu tio, que era engenheiro; ele fez uma ilha que tinha lá, mas eu esqueci o nome dela. Eu continuei na Sede de Engenharia e ele me telefonou “Você vem pra cá, eu também preciso de gente!”. Aí eu fui pra Resende. Cheguei e fui pra um hotel, tava lá meu tio e minha tia, que eram casados, e era em frente a uma igreja cheia de escadas, tinha uma porção de moças lá. A minha tia que falava: “Aquela mocinha é bonita”. Aí eu fui, encontrei com aquelas moças que estavam na escada e comecei a conversar com a Lília, aquela menina… Ela, muito religiosa, queria que eu rezasse com ela. Eu disse: “Eu não quero rezar com você, eu vou rezar do meu jeito!”. E nós brigamos ali bastante. Depois o que aconteceu? Em menos de um mês eu já estava passeando com ela, saindo com uma turma para ver fazenda… fiz a fazenda, depois fui pro Rio – ela era do Rio – casei lá, vim para Três Pontas e levei a vida toda aqui.

Casei no Rio, foi tudo muito bom. Fomos pra igreja, mas eu não fui batizado não. Ela era muito devota, mas me aceitou. Eu falei pra ela: “Eu não vou comungar, mas eu vou rezar”. Casamos, eu levei ela pra Três Pontas e vivemos muito bem toda a vida…

TRABALHO
Atividades profissionais
Saí da General Eletric quando eu fui pro Norte. Eu fiquei lá, ajudando os outros, fazendo outros serviços. Por exemplo, lá eu fazia essas estações transmissoras. Fazia e faço até hoje. Eu parei de fazer porque agora eu estou velho, mas eu fiz pelo menos umas vinte e tantas cidades.

Esposa
A coitada não sabia nem matar uma galinha. Um dia eu cheguei em casa, ela estava no quarto e disse: “Eu fui lá na cozinha e matei um “coiso“, mas eu estou fechada aqui porque eu cortei o pescoço dele e ele começou a pular; eu vim pro quarto e até agora o bicho não parou!”. Eu fui ver e o bicho já estava morto… Era assim, ela não matava… Outra vez estávamos nós dois na janela e tinha umas abóboras em cima do “coiso”, uma dessas compridas, e a gente estava conversando ali. Ela falou: “Olha, depois eu vou lá levar umas frutas pra sua mãe”. Eu disse: “Que fruta?”. “Aquela lá.” “Não, aquela fruta não é de comer assim não, de qualquer jeito; tem que fazer, cozinhar.” Era muito engraçado. Ela estranhou um pouco sair do Rio de Janeiro, mas durou pouco; depois ela ficou 100%. Não amolava ninguém, nem papai, nem mamãe; ela sempre estava junto. Até hoje eu me lembro dela com a mesma intensidade…

Voltar ao topo DECENDÊNCIA

Filhos

Nós tivemos poucos filhos. Teve um que foi em Varginha, teve um no Rio… Ela, coitada, não sabia cozinhar, mas aprendeu. Aprendeu a cozinhar, a bordar, costurar… Agora, ela era bravinha também! Tenho muita saudade dela, mas é uma saudade boa, muito boa. Tenho lá em casa o pai dela, a mãe dela e ela.

Voltar ao topo PAIS DA ESPOSA

Sogros

Aconteceu o seguinte: a Dona Augusta, que era mãe dela, adoeceu e eu fui lá pra Três Pontas e a levei pra São Paulo. Pelejamos lá e não deu certo. Levei ela pra casa outra vez e lá ela morreu. Ela estava muito mal, ficou um mês sentada numa cadeira que mandamos fazer pra ela, aí ela morreu. Nós fizemos o enterro dela lá em Três Pontas. Depois, o Seu Edgar, o pai dela, que ficou no Rio, veio pra Três Pontas e ficou doente. Eu levei ele pro Rio, no hospital, e ele morreu; então fiz o enterro dele lá. Depois voltamos pra cá. Ficamos aqui e aqui ela morreu, em Varginha

Voltar ao topo BITUCA

Filho/Milton Nascimento

Nós estávamos na casa dos pais da Lília, do seu Edgar, que era o chefe, e da dona Augusta, que era a mulher. Então a cozinheira dela arranjou um menino, que foi uma gravidez fora da casa e ela deu à luz ele na casa da dona Augusta, lá no Rio. Depois, a cozinheira morreu e ficou ele sozinho, e a Lília é que tratava do menino. O menino deu algum trabalho pra gente… Uma vez nós estávamos no centro da cidade e disseram: “Bituca sumiu”. Lá fui eu correr atrás dele – andei pra lá, andei pra cá e acabei descobrindo – ele estava na rua… Naquela época, tudo era de bonde, e um bonde passou e parou ali pra pegar e o outro descer, e o Bituca, que era menininho desse tamanho, estava sentado no degrauzinho. Então uma pessoa passou lá e disse: “Seu menininho está aqui, fugido”. Levou e deixou ele numa coisa do exército. Quando eu cheguei lá eu saí pelejando, pelejando, pelejando, andando pra todo lugar; achei ele e levei ele pra casa. Depois de lá, peguei um carro, fomos pra cidade em que a mulher morava, pra mostrar pra mãe do menino a avó dele. Assim que ele ficou conhecendo ela. E nós adotamos o menino; era nosso filho, meu e da Lília. Nessa época, nós morávamos no Rio; depois é que viemos pra Três Pontas. O apelido Bituca vem de botocudo, porque ele era beiçudinho… Botocudo passou pra Bituca e pronto! Está aí, é Bituca até hoje, se Deus quiser. Certa vez nós fomos a São Paulo, porque o Bituca já estava aqui em Três Pontas e ele estava querendo aprender a beber… Um dia, eu saí e disse: “Você não vai beber mais não”. Levei ele de São Paulo. Tinha uma mulher que estava querendo ficar com ele, e eu não deixei não.

Bete
Eu estava em casa certa vez e o telefone tocou: “Aqui tem uma menina…”. Eu estava trabalhando com eletrônica, eu fazia o transmissor, fazia tudo, punha pra funcionar… Tinha uma moça que trabalhou comigo lá vigiando. Eu saía pra trabalhar e ela ficava tomando conta do aparelho; ela não mexia, só ficava vigiando e eles pediram pra pôr a moça lá pra poder comer, ela era muito pobre… Então eu saí de casa, fui lá e peguei a menina, a Bete, mas ela estava transparente, os bracinhos dela eram só osso e eu estava com a Lília. Falei pra ela: “Vamos levar ela”. Lília disse: “É capaz dela não dar…”. Tava fraquinha… Em vez de ir pra casa, levei ela na casa de uma minha irmã, da Bete… levei e saí, andei, andei, andei e não achei o médico nem o farmacêutico; fui no farmacêutico, tarde da noite, bati na porta e esperei ele levantar: “Tem uma menina lá que está morrendo, você tem que ir!”. Ele disse: “Não, não vou”. “Vai porque é uma menina, você tem que ir”. “Então, vamos”. Saí, levamos o remédio e falei: “A menina está morrendo, ela está transparente de tão magra”. Fomos lá, aplicamos o remédio, levei a menina pra casa. Cheguei lá, a Lília sentou e ficou vigiando ela; quando foi de manhã, ela saiu e pôs outro no lugar dela, porque ela não ficava sem ninguém por perto… Graças a Deus, hoje ela está uma moçona forte.

A Bete é filha de uma minha irmã, mas eu também criei; criei muita gente… Tem um outro que eu também criei, que estava aqui até agora, mas acho que não está não, era um rapaz que tinha aqui. Mas ele me ajudou um pouco, ajudou assim, pra fazer limpeza. Depois a mãe dele morreu, ele foi pra outro lugar. Ele foi pra cadeia uma vez, e eu fui lá tirar ele da cadeia. Passei mal porque ele foi preso por acharem que ele fez uma briga num bar qualquer; então pegaram ele e puseram na cadeia. A mãe dele mandou me chamar e disse: “O “coiso“ está na cadeia”. Aí eu disse: “Então, eu vou lá”. Fui lá, fucei, tirei ele da cadeia. Eu faço tudo que não gosto.

Milton Nascimento
O Bituca veio pra Três Pontas menino pequeno, porque a mãe dele morreu. A dona Augusta estava doente, então nós tínhamos que dar um jeito nele, e ele foi criado aqui conosco, com a Lília. Ela nunca foi brava não com ele, era muito boa.
Ele gostava muito de assentar na rua e enchia de menino; ele ficava cantando, porque a Lília o ensinou a cantar. Depois ele ficava ali, sentado no banco, juntava uns meninos lá… Cantava em qualquer lugar, mas foi a Lília que foi ensinando ele a cantar. Ela ensinava essas musiquinhas, mas eu nunca cantei.
A Lília aprendeu a cantar no Rio. Quando eu estava aqui, ela cantou com o homem que fazia canto aqui… acho que é Villa-Lobos. Aí ela aprendeu e ensinou pro Bituca. Ele cantava com ela desde pequenininho. Os meninos gostavam muito dele porque ele ficava lá cantando, com uma porção de moleques. No começo, ele não tocava nenhum instrumento; começou aquilo no Rio, quando eu comprei uma sanfoninha pra ele, a sanfoninha tem aí…mas ele não teve aula. A Lília gostava de mexer com ele e ele também gostava. De brincar ele gostava praticamente disto: música. A Lília gostava de música, ele gostava de música, eu também gostava de comprar disco pra pôr pra tocar em casa… Todos os discos que tem aí foram de lá.
O Bituca não era de fazer traquinagem, mas, às vezes, passava algum aperto. Por exemplo, teve lá uma ocasião, no carnaval. Ele era pequenininho ainda; a Lília arrumou ele direitinho, ele entrou e foram tirar ele da festa. Quando eu soube, eu fui lá brigar e tirei ele. Não tinha valor, queriam pôr ele pra fora e nós achávamos que não; nós tivemos ele como um filho mesmo e é assim até hoje! Deixamos ele no Rio, acho que não chegou a um ano. Depois nós levamos ele outra vez, tiramos ele do Rio e levamos pra Três Pontas e foi lá que ele estudou com os canadenses, que estavam lecionando em Três Pontas. Então eu levei ele lá na escola deles. Eles lecionavam tudo. Mas levei ele lá porque ele já cantava alguma coisa. O Bituca tinha um livrinho e ele levou o livrinho pra lá; chegou lá, deram pros professores, eles abriram o negócio: “Escuta, você tem aqui as notas que você cantava no Rio, vamos ver o que é que você faz, canta aí!”. E ele cantou. “Como é que puseram uma nota vermelha dessa aqui? Você canta direitinho!” Eles puseram a nota errada; eles é que não sabiam cantar; eu tenho os papéis dele até hoje. Eles deram pra cantar, porque eles viram que ele sabia cantar. Eles até me chamaram: “Escuta, esse menino, como é que é? Ele sabe cantar?”. Eu disse: “Ele sabe cantar mesmo”. “Pois é, mas aqui as notas estão vermelhas, mas ele canta.” “Essa coisa não serve pra você não.” E deram outra coisa pra ele.

TRABALHO
Atividades profissionais
Eu fui o diretor e um dos fundadores da Rádio Clube Três Pontas. O negócio foi o seguinte: eu estava trabalhando no Banco da Lavoura. No banco era pesado, mas eu conhecia bem… Quando eu saí do banco, eu me encontrei na praça com dois homens – os dois hoje já são mortos. Quando eu cheguei perto da igreja, os dois se acercaram e falaram: “Ah, eu preciso de você”. “O que é?” – o negócio no banco já não estava bom… – e eles continuaram: “Nós estamos precisando pôr aqui um aparelho de transmissão e queremos que você faça isso”. Eu disse: “Eu não posso fazer, como é que eu vou fazer?”. Um deles disse “Eu sei que você sabe fazer, porque você anda fazendo esses aparelhos aí”. Eu disse: “Bom, eu vou fazer”. Depois, passado algum tempo, pus todas as peças no lugar e briguei muito com os sujeitos que não estavam trabalhando direito… E arranjei pro Bituca ir pra lá, pra cantar e falar. Eu fiquei muito satisfeito com ele e sou satisfeito até hoje.

MILTON NASCIMENTO
Eu e a Lília percebemos que o Bituca ia se tornar música mesmo lá Rio, porque lá eles tinham piano; eles tocavam piano e ele ficava ao lado, dando uns “pon, pon, pon“, uns pulinhos e isso foi aumentando, aumentando, aumentando… Depois nós fomos pra São Paulo – foi dessa vez que falei pra ele que ele não podia beber essas coisas, porque podia fazer mal, não dava certo – e lá nós encontramos uma moça, que nos recebeu bem, conversamos com ela. Tinha um sujeito, um cantor lá do Sul, estrangeiro, e mandou um recado pra mim, que era pra mandar o Milton para ele ver. Eu não sei como é que o homem descobriu, mas eu sei que eu recebi o recado lá e falei pro Bituca: “Olha, tem um recado aqui pra você ir lá, pra ele cantar e você também”. Ficou mais ou menos essa conversa e de fato deu tudo certo. Todas as vezes que eu posso, eu acompanho os shows dele; eu saio daqui e vou lá.
O Bituca toda a vida foi boa pessoa. Gosto muito dele, como um filho. Eu brigo com os outros por causa dele, briguei muitas vezes por isso… A Lília toda a vida foi muito agarrada a mim e a ele… E esse museu do Bituca, que fica ao lado da minha casa, parece mentira, mas vem gente do mundo inteiro ver. Dinamarca, Noruega, Suécia, Suíça, França, aqui no Sul, Rio Grande do Sul… Todas as cidades, quase todos os países já viram ele cantar… Eu sempre falei “Bituca, você precisa ir pra África”. Ele falava: “Ah, não vou lá não, não dá pra mim ir”. Um dia, ele me telefonou; ele tinha ido acho que pra Espanha, por ali… e de lá me telefonou: “Ah, eu estou aqui, aqui é assim… mas o pessoal aqui é mais bonito do que eu!”. E toda a vida eu tive muito apego a ele; eu tenho ele como a um filho mesmo.

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