Joyce

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, data e local de nascimento

Meu nome é Joyce Silveira Moreno, originalmente Joyce Silveira Palhano de Jesus. Silveira Moreno é nome de casada, nasci no Rio de Janeiro no dia 31 de janeiro de 1948.

Família
Pais

Minha mãe, que foi quem me criou, se chamava Zemir Silveira Palhano de Jesus, e meu pai se chamava Helge Arvid Johnston, era dinamarquês. Eu fui registrada originalmente só com o nome da minha mãe.

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Lembranças de infância

A minha família é supermusical desde lá de trás. O meu avô materno era comandante de navio e ele gostava muito de música. Ele era da Marinha Mercante e então ele trazia dos Estados Unidos, para onde ele ia muito, discos de jazz, disco de ópera. Então isso fez com que minha mãe e as irmãs e irmãos dela crescessem ouvindo muita música e ela levou isso pra casa. Quando eu nasci, a casa já era supermusical. Ela ouvia música direto, meus irmãos também, os filhos dela do primeiro casamento, e um, particularmente, que é o Newton, 13 anos mais velho do que eu, era músico, fazia baile, era amigo do pessoal da bossa nova, especialmente do Roberto Menescal, com quem ele tinha estudado no colégio Santo Inácio e também de vários outros músicos. Então a minha casa recebia muita gente quando eu tinha uns dez anos. Pessoas como Menescal, Luiz Carlos Vinhas, o pessoal que tocava no conjunto do meu irmão, Eumir Deodato, que tocava acordeom na época com ele, fazia baile – o Vinhas substituía o Eumir quando ele faltava –, Hugo Marota, João Palmas, Sérgio Barroso Neto, esses músicos todos dessa época, que faziam baile com meu irmão, tocavam com ele. Meu irmão era guitarrista. E eu acabei aprendendo a tocar por causa disso, eu ficava observando, ficava ali meio cabreira, porque eu era pequena e ninguém dava muita bola. Mas eu ficava olhando tudo, ouvindo tudo e aí acabei aprendendo a tocar. Com 14 anos eu comecei a tocar sozinha no violão do meu irmão. Quando ele saía para trabalhar – ele era bancário e estudante de Direito – eu pegava o violão dele e ficava tocando. Foi assim que eu comecei a tocar.

Voltar ao topo CIDADE

Rio de Janeiro

Eu fui criada em Copacabana, no Posto 6, onde eu nasci. Estudei no Colégio São Paulo, que era uma escola católica, de freiras, em Ipanema, no Arpoador, na Avenida Vieira Souto, de frente para a praia de Ipanema. Eu fui completamente Garota de Ipanema nessa época (risos). Estudei ali desde o primário até o fim do curso clássico e a gente morava em Copacabana, num apartamento bastante simples, de dois quartos, que minha mãe comprou com muito sacrifício. Ela era funcionária pública, sustentava os filhos sozinha. Ela foi casada duas vezes, uma com o pai dos meus irmãos e outra com o meu pai, e nas duas vezes ela, digamos assim, não se deu muito bem, então ela teve que segurar a barra toda sozinha e segurou brilhantemente, formou todos os filhos, botou todo mundo na Universidade, foi uma tremenda guerreira mesmo. Então eu cresci ali no Posto 6, que é um cantinho de Copacabana especialmente sossegado, um dos mais tranqüilos e naquela época, anos 60, época da minha adolescência, do meu despertar pra música, era um lugar paradisíaco. Copacabana, Ipanema, aquela área ali era o paraíso para uma adolescente.

Infância
Lembranças de infância

A minha casa não era muito típica nesse ponto, porque se ouvia muito jazz, muito, muito, muito. Meu irmão, esse que era guitarrista, trazia todos esses discos do Miles Davis, da Ella Fitzgerald, aquele famoso disco da Julie London com Barney Kessel – que foi o disco que formou o pessoal da bossa nova no início – a gente tinha em casa, ouvia-se muito isso. A minha mãe gostava do Sinatra, Lúcio Alves e Dick Farney, eram os cantores que ela adorava. Então a gente ouvia muita música, e sendo carioca, morando no Rio de Janeiro, tinha uma presença de samba muito forte, a cultura do samba é muito forte, então o carnaval nessa época era um carnaval de rua muito saudável, em todos os bairros tinha muito carnaval e tudo isso foi formando o caldeirão musical dentro de mim. Na minha infância, a gente ouvia também a Rádio Nacional. A música brasileira, muito especialmente o samba, que é a música da minha cidade, foi muito forte – e também o jazz que chegava através do meu irmão. Quando apareceu a bossa nova – eu tinha 11 anos de idade, por aí –, eu fiquei estatelada, enlouquecida com aquelas harmonias, com o João Gilberto, aquela coisa, aqueles acordes, aquilo me pirou geral e me deu muita vontade de aprender a tocar e de começar a fazer música também.

Formação Musical
Iniciação musical

Eu já cantava, já gostava de cantar. Quando eu era pequena, meu irmão me botava pra cantar com eles nas festinhas, cantava Noel Rosa, aquele repertório. Depois, já com 13 anos, eu ia às minhas próprias festinhas e cantava as coisas de bossa nova que pintavam na época, “Barquinho”, “Meditação”, esses repertórios do João. Quando eu comecei a tocar, obviamente comecei a tentar reproduzir no violão e fui aprendendo sozinha, começando a tocar. Meu irmão, imagina, não me ensinou a tocar. Desde quando irmão mais velho ajuda a irmã chata? De jeito nenhum, ele tinha mais o que fazer. (risos) Eu aprendi sozinha mesmo, cheguei até a dar aula para uns desavisados, coitadinhos, que não sabiam que eu nunca tinha estudado violão. Mas com 18 anos eu encontrei o Jodacil Damaceno, que é um concertista clássico, companheiro de geração do Turíbio Santos e que me deu aulas de técnica de violão, de leitura, enfim, de teoria musical. Estudei também com a Wilma Graça, mas foi o Jodacil quem botou a minha mão no lugar. Eu devo a ele a minha mão direita e ele sabe muito bem disso. Outros violonistas que estudaram com ele foram o Guinga, a Rosinha de Valença… Ele foi um grande professor e através do clássico aparelhava a gente para tocar o popular também com maior desenvoltura. Então toda a minha formação de violonista nesse início quem ajeitou foi o Jodacil. Foi meu grande professor.

Voltar ao topo ADOLESCÊNCIA

Músicas que ouvia

Era muito bossa nova na veia. Era o que a gente ouvia, era o que a gente gostava. Era o Tamba Trio, eram os trios, era a música instrumental dessa época que era gloriosa, Luizinho Eça era um ídolo pra nós, Silvinha Teles era a minha cantora predileta. Depois, quando saiu o primeiro disco da Wanda Sá, era o “Wanda Vagamente”, eu tinha 16 anos, adorei aquele disco. Ouvíamos também os discos da Nara, que tinha um repertório muito interessante e estava sempre buscando coisas novas. Enfim, a gente ouvia tudo aquilo. João Gilberto era o Deus e os santos eram muitos, eram todos esses que eu estou falando. Ouvir bossa nova era muito por aí, especialmente pra quem era carioca nos anos 60 e adolescente. Era a música da juventude, era a coisa mais pop que tinha, tanto que, quando apareceram os Beatles, ninguém nem deu muita bola porque aquilo que a gente tinha era tão rico, tão sofisticado, tão cheio de harmonias, tão cheio de riqueza melódica. Eu particularmente só fui me interessar por Beatles bem mais tarde e assim mesmo porque muitos companheiros de geração estavam se interessando. Aí eu parei pra ouvir e falei: “Esses caras são bacanas, eles tem uma música legal também”. Mas para quem vinha de uma cultura de bossa nova e jazz era difícil gostar de outra coisa.

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Faculdade

Eu fiz vestibular pra PUC, passei e entrei na Faculdade de Jornalismo, que na época era o que hoje se chamaria Comunicação. Eu queria ser jornalista caso a idéia de fazer música não desse certo. Estudei jornalismo, fui estagiária do Jornal do Brasil, do Caderno B, em 1967, de onde eu saí porque eu tive uma música classificada no Festival Internacional da Canção, assinei um contrato com uma gravadora e a minha vida de músico começou.

Voltar ao topo FESTIVAIS

Festival Internacional da Canção / Primeira gravação

Eram música e letra minhas. O que aconteceu foi que na verdade eu acompanhava como fã os festivais da Record, o Festival Internacional, esses grandes festivais da época. E tirando a turma do meu irmão, que era muito mais velha do que eu, eu não conhecia ninguém na área musical. Eu tinha tido umas gravações esporádicas antes disso, chamada pelo Roberto Menescal, muitos jingles, porque ele era amigo do meu irmão. Então ele me ouviu cantar uma vez. Meu irmão botou para ele ouvir uma fita caseira que eu tinha gravado e ele gostou muito. Na ocasião, eu achei que eles estavam de sacanagem comigo, mas não era não, era sério. (risos) E depois ele me chamou para um disco de um mineiro, o Pacifico Mascarenhas, que estava fazendo um disco próprio, acho que era até um disco em esquema independente, chamado “Conjunto Sambacana”, que na verdade não existia, era um nome fantasia. Conjunto Sambacana era o conjunto do Menescal tocando. Na vontade do Pacifico, pelo que o Menescal me contou na época, seriam Os Cariocas cantando, mas eu acho que o dinheiro não deu pra cobrir aquilo tudo, então o Menescal arregimentou uma garotada, inclusive eu, que na época tinha 16 anos, e assim eu fiz meu primeiro trabalho profissional, entrei em estúdio pela primeira vez, ganhei um dinheirinho. Mas foi só aquilo, gravei os vocais ali junto com o grupo, mas ficou nessa. Nunca mais tinha acontecido nada, nem eu tinha muita pretensão, porque às pessoas que eu curtia eu não tinha ainda acesso por mim mesmo. Quando surgiu esse festival de 1967, eu me inscrevi e tive duas músicas selecionadas. Acabou ficando uma, que era uma música chamada “Me disseram”, que na época deu muita polêmica porque eu falava no feminino singular, falava “meu homem”, com 19 anos e cara de criança. Então uns diziam que era música de puta, outros diziam que não, que era musica de feminista. (risos) E na verdade eu estava ali me expressando do jeito que eu sabia e podia naquele momento. E o que aconteceu foi que, com a música tendo sido classificada, eu tomei coragem pra cantar. Um outro amigo meu que se classificou também, o Jards Macalé, me convidou pra cantar a música dele e então eu fui cantar duas músicas nesse festival. Nenhuma das duas teve grande sorte nas apresentações, no festival em si, mas isso me abriu as portas para um contrato com a Philips – que depois passou a se chamar Polygram e hoje se chama Universal – para que saísse o meu primeiro disco. Nesse festival eu fiz muitas amizades e conheci pessoas que também estavam estreando, como o próprio Bituca, como Toninho Horta, como Marcinho Borges, como Ronaldo Bastos, como outras várias pessoas que estavam chegando ali também pela primeira vez. Então foi um festival bacana, de novas amizades, de novos encontros e de outros que já eram quase veteranos, que já tinham começado e eu também fui conhecendo, Dori Caymmi, Nelson Motta, Danilo Caymmi. Eu já tinha conhecido os baianos primeiro. Foram meus primeiros amigos na área da música, Caetano Veloso, Gal Costa, Bethânia – Gilberto Gil eu conheci depois –, Torquato Neto, que foi uma das primeiras pessoas com quem eu fiz amizade na época… Enfim, havia um ambiente muito musical no Rio de Janeiro e muita gente nova, muita coisa nova aparecendo. Tinha também a rapaziada nova do samba, Paulinho da Viola, Elton Medeiros. E aí fui conhecendo essas pessoas também, Maurício Tapajós.

Formação Musical
Primeira gravação

Tinha um ambiente musical muito interessante e assim eu acabei fazendo meu primeiro disco, que saiu em 1968, aos 20 vinte anos. Metade era de músicas minhas e a outra metade era de músicas desses meus amigos que me deram composições inéditas. Então tinha música do Marcos Valle, tinha do Caetano Veloso, tinha uma do Paulinho da Viola, tinha uma parceira minha com o Jards Macalé, tinha a primeira música gravada do Toninho Horta e Ronaldo Bastos, “Litoral”, além das músicas que eu fiz sozinha. Tinha Francis Hime e Vinicius de Moraes, que escreveu o texto da contracapa do disco e foi muito generoso, muito bacana desde o início da minha carreira, foi um superpadrinho que eu tive. Vinicius e Tom foram pessoas que me abraçaram mesmo. Então esse foi o meu primeiro disco e foi meu início mesmo em uma carreira profissional.

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origem

Não via o Clube da Esquina como um coletivo ainda. Mas, claro, do Bituca não há o que dizer, era aquela coisa deslumbrante. Ele chegou naquele festival com três músicas, todas três maravilhosas, arrasou, acabou com o baile, ele fechou, foi incrível e nossa amizade começou ali. E com o Toninho Horta a mesma coisa. Porque o Toninho, com 19 anos – foi quando a gente se conheceu, nós somos da mesma idade –, já era o Toninho, já tocava praticamente como ele toca hoje, ele já veio pronto, nasceu já prontinho. A linguagem de violão do Toninho era escandalosamente avançada e própria. Então essas foram as duas pessoas que de cara bateu: “Alô, tem uma coisa diferente aí”. E não por acaso estão eles aí. Em 1969, eu defendi “Iara Bela”, do Toninho, naquele Festival Universitário de Belo Horizonte.

Cidade
Rio de Janeiro

Na verdade, Minas é que me freqüentou antes de eu freqüentar Minas, porque começou a vir um monte de mineiro pro Rio de Janeiro e os cariocas começaram a abrir suas casas. Tanto eu quanto Ronaldo Bastos, quanto Luizinho Eça, quanto Mauricio Maestro, quanto os Caymmi, Paulinho Jobim. Vinha chegando aquele monte de gente e a gente ia acomodando um aqui, outro ali, ficava um na casa de um, outro na casa de outro até se ajeitar, tinha essa coisa. O Rio sempre foi muito generoso com relação às pessoas que chegam. As pessoas vão chegando e vão virando cariocas, vão chegando e vão botando o pé naquele mar, chegando e ficando. E isso aconteceu com os baianos, aconteceu com os mineiros, aconteceu com gaúchos, aconteceu com os cearenses. Sempre tem essa coisa do Rio ser muito cosmopolita mesmo. E nesse momento calhou de ser o momento em que os mineiros estavam vindo em hordas para o Rio de Janeiro. A gente ia recebendo todo mundo e as pessoas iam chegando.

Cidade
Belo Horizonte

A primeira vez que eu fui a Belo Horizonte, foi exatamente para cantar no Festival Universitário. Eu nunca tinha ido a Belo Horizonte antes, não conhecia nem a cidade, mas conhecia as histórias e tinha todos esses amigos. Tinha Nelson Ângelo, fui conhecer Lô Borges e Beto Guedes em Belo Horizonte, tinha o Marcinho Borges, tinha o Fernando Brant queridíssimo, Helvius Vilela, esse pessoal todo que veio vindo.

Formação Musical
Clube da Esquina: avaliação / origem

E quando o Bituca explodiu nacionalmente, incentivou muito o pessoal a vir para o Rio de Janeiro e todos foram ficando por aqui e sendo também bem sucedidos, porque todos eram supertalentosos, brilhantes. Houve também esse momento em que nós tínhamos uma turma, quer dizer, eu era uma pessoa de muitas turmas, mas de uma das turmas, que era uma turma muito intensa porque a gente convivia muito, fazia parte esse primeiro núcleo. Segundo Ronaldo Bastos considera, o Clube de Esquina não é um movimento mineiro apenas, também é um movimento carioca porque houve muita gente do Rio envolvida. E se a gente for ver dessa forma, a gente acaba considerando que nós todos fizemos parte desse primeiro núcleo do Clube de Esquina, do que viria a ser chamado Clube de Esquina. A gente estava junto o tempo todo e fazendo muita música. Os lugares onde as pessoas se reuniam eram principalmente na casa do Luizinho Eça e na casa do Tom, por causa principalmente do Paulinho, que era amigo de todo mundo, e do próprio Tom também, que via com muitos bons olhos essas amizades musicais do Paulinho. Tinha também a casa do Marcos Valle, que foi o grande incentivador do Milton no início da carreira, que foi quem ajudou o Milton num momento muito difícil, depois da primeira explosão, depois que as pessoas se deram conta de o quanto a música do Milton era complexa. Ficou um pouquinho difícil para ele com relação à gravadora, rádio, essas coisas. Aí o Marcos o convida pra gravar “Viola Enluarada” e ele explode outra vez, os dois cantando juntos. Foi um gesto superbacana de admiração do Marcos por um colega que ele via que tinha muito talento; e o Marcos estava num grande momento de carreira, então estava podendo fazer isso. Foi bacana. E ia-se muito na minha casa também, que era uma casa pequena, porém aberta e muito sincera, e estava sempre recebendo as pessoas também, do mesmo jeito. E onde mais? Tinha a própria casa do Bituca, que morava naquele cafofo na Xavier da Silveira, que a gente também freqüentava embora fosse um ovo, mas sempre se estava por lá. Enfim, era muito isso, casa de um, casa de outro, as pessoas se freqüentavam e se viam, trocavam idéias, mostravam músicas, cada um queria mostrar uma música melhor do que o outro, tinha uma coisa bacana, saudável. Tinha a casa dos Caymmi também, que quando os pais estavam viajando, o Danilo dava muitas festinhas, recebia muito. (risos) Às vezes o Bituca dormia lá em casa. As coisas eram muito tranqüilas nesse ponto, as pessoas eram muito abertas, muito confiantes e muito jovens e tudo era muito amoroso, muito sincero, muito verdadeiro, isso era bacana.

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Família

Olha, algumas daquelas músicas do “Clube da Esquina” eu já conhecia. Em 1970, eu viajei para o México com o Luizinho Eça e um grupo chamado Sagrada Família, da qual faziam parte Naná, Mauricio Maestro, Nelson Ângelo – o líder era o Luizinho – Ion Muniz, que é um grande saxofonista, enfim, era um grupo de 13 pessoas e eu fazia parte desse grupo. Eu voltei dessa turnê casada com Nelsinho Ângelo. Foi o meu primeiro casamento, que durou 4 anos e pouco. Tive duas filhas com ele, a Clara e a Ana, e as duas são cantoras também. Mas voltando a isso, eu conheci as pessoas que freqüentavam e continuavam freqüentando a minha casa, que dessa vez era a nossa casa mesmo. Morávamos eu, ele, mais o Novelli e a Luci. Casamos no mesmo dia, casamos juntos numa cerimônia dupla e dividíamos um apartamento e começamos a tocar juntos – a idéia era fazer um grupo. Eu tinha nessa época esse contrato com a Philips e chutei o contrato de uma maneira que depois até me arrependi, porque ficou esquisito, a gravadora ficou meio grilada comigo. Mas eu tinha feito dois discos, aquele primeiro que eu falei e um outro em 1969 que tinha músicas minhas e de Nelsinho, música do Danilo, músicas de outras pessoas também dessa nossa geração. E quando a gente foi morar nessa, digamos, comunidade – a gente estava em 1970, todo mundo meio hippie –, convidamos o Toninho, que estava a duras penas terminando o 2° grau, batalhando para ter o diplomazinho dele – mas o que ele queria, o que ele era, o que ele nasceu pra fazer, era música – para ficar morando lá com a gente. O Naná, que fazia parte do grupo, saiu e foi para Europa como Gato Barbieri e aí entrou o Nenê, que também foi morar lá em casa. Nenê é baterista do Rio Grande do Sul e esse grupo se chamou A Tribo. E era uma tribo mesmo, a gente morava todo mundo junto nesse apartamento que era grande, no Jardim Botânico. O Bituca morava um pouquinho acima e fazia as refeições lá, claro, direto. (risos) Ele descia por uma escadinha que tinha ali e ia lá pra casa. De forma que eu tinha contato com essas músicas que estavam sendo feitas. Já tinha conhecido o Lô e o Beto em Belo Horizonte, antes, na época desse festival em 1969, que também tinham chamado muito a minha atenção porque eram dois garotos que na época tinham 19 anos, eram meninos. Não, tinham 17 anos, porque o Beto Guedes estava para ser convocado pelo exército e era uma paranóia essa história de que iam cortar o cabelo dele. (risos) Chamou muito a atenção porque era uma coisa meio Beatles, mas era meio Beatles com acorde e era bacana pra caramba o que eles faziam, era uma coisa diferente, não era aquela coisa burra de acorde perfeito, era um negócio muito legal. Enfim, todas as pessoas faziam parte desse grande coletivo de músicos e nesse apartamento do Jardim Botânico a gente recebeu muita gente, como o Paul Horn, flautista americano de jazz que ia gravar com a gente e ficou superamarrado no som que a gente fazia, mas que acabou não dando certo. Eram coisas que estavam acontecendo, uma coisa que rolava, mas que a gente nem se dava conta. Depois as mulheres todas engravidaram, eu, a Luci, a mulher no Nenê, a empregada, ficou todo mundo grávida ao mesmo tempo e aí eles foram à luta e tiveram que arrumar trabalho como sideman, músico acompanhante. Acabaram indo tocar com a Elis Regina, que ficou com essa banda que, no fim das contas, era A Tribo com mais uma ou duas adições, que durou algum tempo. E nessa época eu estava meio parada, estava de mãe, tive minhas duas filhas, se bem que na segunda filha eu cheguei a gravar um disco com o Nelsinho – eu vou chegar nele daqui a pouco. Mas essa foi uma fase em que eu estava acompanhando bem o processo todo de criação, ouvia as músicas, as pessoas mostravam, chegavam, faziam as músicas novas.

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Minas/ Gerais / Clube da Esquina 2

Do primeiro “Clube de Esquina” eu não acompanhei as gravações. Acompanhei o cotidiano de gravação de outros discos do Bituca depois, o “Minas”, o “Geraes”, o “Clube de Esquina 2”, no qual eu gravei uma música tocando violão, uma música minha, mas no primeiro não, eu estava realmente ocupada. (risos) As gravações do Bituca basicamente eram grandes festas. As pessoas chegavam: “Vai fazer o que hoje?”, “Qual é a boa de hoje?”, “Ah, vou lá na gravação do Milton”, era assim. Não sei como eles conseguiam gravar, porque era muita gente, muito barulho, muita interferência, mas ainda assim saíram discos espetaculares, os melhores da vida dele, eu acho.

Voltar ao topo GRAVADORA

Odeon

Aí surgiu uma proposta, porque A Tribo chegou a gravar um pouquinho, umas três ou quatro faixas para a Odeon, que era onde estava o Milton, onde viria a ser o lar do Clube de Esquina, quando ele passou a ter esse nome. E eu gravei um compacto duplo com quatro músicas, “Nada Será como Antes”, do Bituca e do Ronaldo, gravei uma música do Nelsinho, uma do Danilo e “Maria Fulô”, do Sivuca, era um compacto de quatro músicas. Tinha um diretor artístico na Odeon chamado Milton Miranda, e pouco depois disso ele me chamou lá, perguntando se eu queria gravar um disco meu, que ele estava a fim de fazer um disco comigo, e ele até queria que o Milton fosse o produtor. Ele conhecia os meus trabalhos anteriores e sabia que era um trabalho basicamente de composição, mas eu estava realmente em uma fase em que eu fiquei alguns anos sem compor nada e então eu disse a ele que, naquele momento, trabalho de composição eu não tinha, mas eu tinha para oferecer a ele artistas espetaculares que estavam prontos para gravar. E falei no Nelson Ângelo, no Toninho Horta, no Danilo Caymmi, no Beto Guedes – no Lô Borges eu não precisei falar porque já tinha o trabalho com o Bituca – no Novelli, falei, falei muito, apaixonadamente do trabalho desses caras, mas falei: “Tem uma coisa efervescente, se você não pegar, você vai ser bobo. Você tem que ir à luta e tem que conseguir gravar esses caras. Eu me disponho a fazer um disco, mas eu gostaria ou de gravar as músicas desses caras, ou de participar de algum projeto que incluísse todo mundo”. Era uma fase em que era tudo muito coletivo, então ele falou: “De cara eu lhe ofereço o seguinte: já que você está casada com o Nelsinho e bem envolvida com o trabalho dele, proponho que vocês façam um disco juntos, você faz um disco com ele e eu vou tentar colocar os outros que você está me falando, para ver se eu consigo fazer eles gravarem também”. Aí eu voltei pra casa com essa novidade e o que aconteceu foi que ele não conseguiu fazer todo mundo individualmente, mas ele propôs um disco coletivo com Beto, Danilo, Toninho e Novelli, que é aquele disco da latrina que tem na capa (risos), foto do Cafi, do qual eu não participei diretamente, mas participei tendo dado a sugestão na gravadora de maneira muito enfática para o Milton Miranda e ele foi maravilhoso de ter topado. Então eu gravei o disco com o Nelsinho. Esse disco tem só uma música minha, que é “Os Meus 20 Anos”, parceria minha com Ronaldo Bastos. Eu canto várias músicas do Nelsinho, o repertorio é basicamente dele. Foi em 1972, se não me engano, que a gente fez esse disco. No início eu estava grávida da Aninha e a gente continuou depois que ela já tinha nascido. Todo mundo toca ali, os músicos todos, tem Toninho Horta, Novelli, Tenório Junior, que Deus o tenha, maravilha, querido, Hélcio Milito, do Tamba Trio, Rubinho Moreira, estava todo mundo lá, Beto Guedes tocando baixo, cantando, fazendo vocal de apoio… um povo.

Discos
Clube da Esquina 2

Eu tinha participado dos coros daquele disco “Minas”, do Bituca, e do “Geraes“ não, mas eu assisti muitas gravações. Aí eu fui para os Estados Unidos e a essa altura já estava separada. Fiquei lá uns seis meses, conheci o Claus Ogerman, maestro alemão que fazia os arranjos do Tom, do Sinatra, desse povo todo e, com o Mauricio Maestro, gravei um projeto para o Claus Ogerman de composições nossas, juntos, separados, e esse projeto nunca foi lançado. Mas era um projeto lindíssimo, com muitos músicos de jazz de lá da época, tipo Michael Brecker, uns caras da pesada, Joe Farrell, Buster Williams, que era o baixista. E o repertório era muito novo. Quando eu voltei para o Brasil, eu já tinha conhecido o Tutty, com quem eu me casei. O Tutty Moreno, baterista, se a gente pensar na divisão dos grupos que tinha antes, era um cara da Tropicália. Era dos baianos, morou em Londres com o Gil, dividiram apartamento. Enfim, a relação que ele tinha com os baianos era mais ou menos a que eu tinha com os cariocas e com os mineiros, de muita intensidade, de troca, como morar em comunidade, essa história toda, e por isso a gente nunca tinha se conhecido, embora a gente tivesse muitos amigos em comum. Mas então a gente foi se conhecer em Nova York e aí voltamos casados de lá.
Eu tinha um repertório muito grande de músicas minhas e comecei a mostrar para as pessoas, porque até então eu sempre ficava achando: “Não, eu vou guardar, porque quando eu fizer um disco…”, mas aí chegou uma hora em que eu resolvi mostrar para as pessoas. E a primeira pessoa que ouviu foi justamente o Milton. Eu e Mauricio fomos à casa dele mostrar a demo do disco que nós fizemos com o Claus Ogerman e tinha essa música “Mistérios”, que era uma parceria minha com Mauricio. Era um tema que ele tinha começado a fazer lá em Nova York, que estava meio empacado, ele parou nas duas primeiras frases e não sabia como continuar e aí eu terminei a melodia para ele e fiz a letra. A gente ficou com essa música pronta, gravamos e ficou superbonita. Daí o Bituca ouviu essa música e quando ele ouviu – já conheço a peça, saquei que tinha acontecido alguma coisa – o olho dele ficou com um brilho diferente, e ele falou: “Ah, deixa essa fita aqui, deixa eu ouvir essa música”. E aí veio logo a notícia de que ele queria gravar no “Clube de Esquina 2” e nós participamos da gravação. Eu toquei violão, o Mauricio fez um arranjo superbonito, botou o Boca Livre, que estava iniciando, para cantar e assim foi que a gente teve a nossa música lindamente gravada pelo Bituca.

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avaliação

Se o Clube da Esquina é um movimento, eu acho que é uma coisa para os musicólogos responderem, porque quando se está no meio dos acontecimentos, não se tem muito essa clareza do que é o quê. Mas você pode considerar como um movimento musical. Eu tive muitas críticas ao Clube de Esquina, porque eu achava um movimento muito misógino, porque só tinha homem e era um movimento sem musa. A bossa nova tinha a Nara Leão, a Tropicália tinha a Gal e a Bethânia, todos os movimentos tinham lá as suas musas e o Clube de Esquina era um movimento de meninos. Até que eu me toquei que a musa do Clube de Esquina era o Bituca, então aí eu entendi. Mas era um movimento, sim, e tendo o Bituca como centro. Eu estou brincando com essa história de musa, ou muso – tinham o Bituca como pólo irradiador e aglutinador das pessoas. Eu acho que aquilo foi um movimento de pessoas extremamente brilhantes, extremamente talentosas que gravitaram em torno do Milton, cada um com a sua linguagem. Se você vê, os trabalhos são diferentes: o trabalho do Toninho Horta é uma coisa, o trabalho do Nelson Ângelo é outra coisa, o trabalho do Lô Borges é outra coisa, o trabalho do Beto Guedes é outra coisa, do Flávio Venturini é outra coisa. São trabalhos que não nasceram propriamente do trabalho do Bituca, mas gravitaram em torno do trabalho do Bituca e o Bituca, além do grande compositor que ele é, um dos maiores do planeta, ele foi também o melhor porta-voz que esses compositores poderiam sonhar. Na verdade, toda essa geração na qual eu me incluo e todas essas pessoas dessa geração, cada uma no seu caminho, cada uma no seu estilo, somos todos filhos do Tom Jobim, eu acho que vem tudo dali. O Tom Jobim é a grande árvore frondosa da onde vêm todos esses galhos que vão florescer em Edu Lobo, por exemplo, em Marcos Valle, em Dori Caymmi, em Francis Hime, freudianamente nos baianos como Caetano Veloso, Gilberto Gil, que tentam fazer o oposto do que o pai faz, tentam matar o pai simbolicamente através da Tropicália, mas não tem jeito, a herança está lá. Tem o Chico Buarque, que é também herdeiro direto. Todas as pessoas dessa geração. E com o Milton Nascimento não seria diferente. Ele e todos os compositores dessa árvore que se chama Clube de Esquina são descendentes diretos do Tom Jobim e portanto do que se convencionou chamar bossa nova, mas que é a música popular brasileira clássica. Tem essa coisa da harmonia que é incrível. Como eles são um pouquinho mais pop, Bituca foi ficando um pouquinho mais pop até por influência dos mais jovens, do Lô Borges e do Beto Guedes, do Toninho Horta, então ele traz essa informação harmônica para essa cultura meio pop também. É isso que eu acho que, por exemplo, nos Estados Unidos, as pessoas curtiram muito, como Pat Metheny, que ficou apaixonado por essa concepção musical, de misturar isso.

Discos
Passarinho Urbano, Feminina, Água e Luz, Tardes Cariocas

A década de 80 foi engraçada porque de início foi uma década muito interessante. No Brasil, em 80, como eu tinha tido música gravada pelo Bituca, pela Elis Regina, pela Maria Bethânia, muita gente começou a gravar as minhas músicas, então a gravadora resolveu me chamar, a velha e boa Odeon – nessa época já se chamava EMI-Odeon –, porque eu tinha me desligado da gravadora. Depois que eu tinha feito aquele disco com o Nelsinho, o Milton Miranda mandou me chamar e quis que eu continuasse lá pra fazer um outro tipo de trabalho que eu não estava a fim de fazer e ao mesmo tempo ele dispensou todos os artistas que ele tinha contratado ali naquele momento em que ele me contratou. Eu fiquei meio injuriada com aquilo, pedi dispensa da gravadora, fiquei um tempo sem gravar e gravei um disco na Itália chamado “Passarinho Urbano”. Eu fui para a Itália em 1975 com o Vinicius de Moraes e fiz uma temporada na Europa com ele, Itália, França e tal. O produtor dele era o Sérgio Bardotti. Eu gravei um disco de músicas censuradas, só de autores que estavam sendo censurados no Brasil naquele momento. Tem Bituca, tem Chico Buarque, tem Maurício Tapajós, tem o próprio Vinicius de Moraes com Carlos Lyra, tem Caetano Veloso, tem Edu Lobo, está todo mundo lá e esse disco saiu em 1976 na Itália. É um disco de, praticamente, voz e violão. Depois disso, eu fui para os Estados Unidos e fiz aquele disco com Claus Ogerman em 1977, que não chegou a ser lançado, e voltei para o Brasil com a mala cheia de músicas. Comecei a mostrar e as pessoas começaram a gravar. Foi ficando bom, foi ficando interessante ver as minhas músicas em tantas vozes bacanas. Aí a EMI me chamou para que eu gravasse um novo projeto lá, então eu fiz o disco “Feminina”. Fui convidada para participar do festival MPB 80 da Rede Globo. Eu não tinha nenhuma música inédita para colocar no festival, só “Clareana”, que era música do Mauricio Maestro e letra minha, e era muito singela, simplesinha, uma cantiga de ninar, mas era o que eu tinha. Coloquei no festival, a música explodiu nacionalmente e virou um supersucesso e acabou que a gente vendeu disco à beça e foi muito bom. Com isso, “Feminina” virou um disco meio marco na minha carreira porque tinha essa temática feminina. As músicas desse disco têm todas um discurso muito feminino e ao mesmo tempo era um disco com a minha cara, um disco em que eu tomei as rédeas do meu trabalho. Fiz tudo ali, fiz os arranjos de base, toquei violão em todas as faixas, fiz quase todas as letras – quando não são minhas, são da Ana Terra, minha parceira em duas músicas nesse disco –, enfim, foi um disco em que eu tive muito controle do meu próprio trabalho. E pra mim foi um negócio sensacional, foi quando eu vi que podia fazer tudo isso, ser dona realmente do trabalho e fazer do meu jeito, com a minha cara, com a minha cabeça. Então esse disco foi muito importante pra mim e foi um disco muito bem-sucedido comercialmente. O seguinte também, “Água e Luz”, também fez muito sucesso. E depois disso eu tive um pequeno arranca-rabo com a gravadora e resolvi fazer um disco independente, o “Tardes Cariocas”. Essa atitude me custou um pouco caro porque na época fiquei meio visada como encrenqueira e foi um pouco difícil, passei um tempo no mercado da música independente e fora do mercadão, o que me dificultou um pouco a carreira, mas por outro lado impediu que eu fosse pressionada a fazer coisas que eu não queria. Porque estava em um momento de transição, estava surgindo o rock brasileiro e as pessoas querendo “popificar” a MPB e eu não ia estar a fim de fazer isso, isso não ia dar certo comigo e não era o caminho que eu queria. Por outro lado, eu fiz discos como “Tardes Cariocas” na época que viraram cult no exterior e foram discos independentes que tiveram uma carreira própria e foram legais. Aí começa a pintar convite para fazer coisa no exterior, na Europa, no Japão. Em 1985, eu fui ao Japão pela primeira vez e foi o início de uma relação de trabalho que frutifica até hoje. Já são 20 anos indo praticamente todos os anos pra lá, direto, às vezes até duas vezes por ano, fazendo show lá direto e gravando discos para o mercado japonês. Aí pintou, no início dos anos 90, uma outra vertente, os DJs, que descobriram o meu trabalho a partir do disco “Feminina” e começaram a tocar na pista e isso me trouxe um público jovem incrível na Europa – garotada, garotada mesmo, pelo lado do suingue, pela coisa rítmica que a minha música tem, que é a carioquice da minha música mesmo, do samba e das coisas mais rítmicas. Então o trabalho foi abrindo muito para esse lado, foi ficando legal e continua legal até hoje.

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Sem Você, Toninho Horta

Toninho Horta e eu gravamos um disco em Nova York, mas que foi para uma gravadora japonesa. Esse disco foi um impulso na verdade, porque, de todos, os meus casamentos, casamentos mesmo, com maridos de verdade, eu fui casada com o Clube de Esquina através da pessoa do Nelsinho, depois casei e sou casada até hoje com a Tropicália de certa forma através do Tutty. Mas musicalmente o meu casamento com o Toninho é um grande casamento (risos) mesmo, é um casamento musical e que dá muito certo porque a gente tem uma compreensão musical do universo um do outro muito grande. A gente passa anos sem se encontrar, sem se falar e já aconteceu da gente se cruzar na Dinamarca, em Viena ou não sei aonde e: “Vamos tocar?”, aí não ensaia, não precisa, já está ensaiado desde que nos conhecemos em 1967, não tem mesmo necessidade de ensaio. A gente tem um entendimento musical muito, muito grande mesmo. E aí o que aconteceu foi que eu convidei o Toninho para ser special guest em um show que eu fui fazer de uma temporada no Japão. O Tom Jobim tinha morrido recentemente e nós todos estávamos muito mexidos com isso. E na volta do Japão, a gente parou em Nova York e vinha com a gente o Kazuo Yoshida, um produtor japonês que já trabalhou comigo em outros discos, e ele sugeriu: “Vamos fazer um disco? Vocês querem gravar um disco?”. Aí a gente falou: “Tá, vamos fazer um disco de violão e voz só com músicas do Tom Jobim”. Aí a gente alugou um estúdio, e em uma noite a gente gravou o disco todo, eu e o Toninho, pá, direto, no pau. Fizemos 10 músicas em uma sessão e depois o Yoshida veio ao Brasil e gravou mais duas faixas porque a gravadora queria ouvir a voz do Toninho cantando. A gente então gente fez uma faixa para o Toninho cantar. Eles também queriam ouvir meu violão um pouco mais, porque era só o Toninho tocando, e a gente gravou também comigo tocando violão. No mais, a argamassa, o grosso do disco foi feito em uma noite, 10 faixas direto, e muito na emoção, sem ensaio. Tem música em que você vê que a gente não combinou nada, como ia acabar, como começa do jeito que saiu, ficou uma jam session. O nome do disco é “Sem Você”, e é dedicado ao Tom.

Formação Musical
Composições

Meu parceiro principal é meu violão. Ele é quem me dá tudo, me dá todas as idéias, me sugere coisas. Eu nunca fico na mão, ele está sempre ali, eu pego e sempre aparece alguma coisa. Basicamente, as pessoas falam de mim assim: “A cantora e compositora Joyce”. Mas acho que eu sou um músico e o músico comanda a cantora, que é o instrumento do músico. Então na verdade é o violão que manda em mim, ele é que me diz o que eu tenho que fazer. Quando eu vou compor, quando eu estou compondo as minhas músicas, geralmente é a música que sai primeiro, depois eu trabalho letra. Às vezes algum parceiro me manda a letra, por exemplo, Paulo César Pinheiro, a gente tem muitas músicas e muitas delas foram letras que ele me mandou e que eu musiquei. Eu tenho parcerias com Mauricio Maestro, com Edu Lobo, com Marcos Valle, com João Donato, em que eles me deram músicas e eu letrei. Mas a coisa rola comigo mesma, quando eu estou sozinha em casa, quando eu vou compor, quando eu pego um violão, ele me dá umas idéias e uma música sai, aí a comunicação é direta com as divindades do som e os deuses da música estão sempre ali para quebrar um galho pra mim – é comunicação direta com o além. Letra não, letra dá um trabalho, é uma coisa que você trabalha, corta, muda vírgula, muda palavra, tira palavra do lugar: “Não, essa daqui não soou legal, eu não quero dizer bem isso, é aquilo outro”. Música é muito mais fácil de fazer do que letra. Geralmente eu gravo, eu tenho o meu gravadorzinho no estúdio, no meu escritório em casa, trabalho ali, faço as coisas ali, gravo e vou trabalhando. Agora, por exemplo, estou trabalhando em uma trilha de um filme de uma diretora espanhola e eu fico trabalhando em cima do roteiro do filme que ela me deu, mas ainda não vi as imagens – na verdade ela está começando a filmar agora, então eu vou ter que ver as imagens pra mudar tudo. Mas eu trabalho muito sozinha, é um ofício muito solitário. Eu nunca consegui trabalhar como o Vinicius de Moraes. Vinicius de Moraes foi uma pessoa com quem eu trabalhei muito, viajei com ele. A gente viajava de trem, ficava em hotel e ele me chamava: “Vem cá, vamos fazer um samba, vamos fazer uma música”. Eu tenho um pudor dessas coisas, eu não sei fazer isso, eu gosto de compor sozinha, mesmo quando eu componho com parceiros. Eu vou e faço a coisa, aí eu mostro depois para o parceiro quando eu acho que está bom: “Está bom assim? Gostou?”. Aí eu vou discutir, vamos ver: “É isso mesmo que você queria? Não é? É? Não é? Vamos mexer”. Mas com essa coisa da festa de fazer música todo mundo junto eu fico meio encabulada, eu gosto de compor sozinha.

Formação Musical
Intérpretes

Quando eu fiz “Da Cor Brasileira”, eu tinha certeza que Maria Bethânia iria gravar e não deu outra. E uma vez Bethânia se apaixonou por uma música minha que ela acabou não gravando. Eu tinha certeza que a música não era dela, a música era da Gal Costa. Aí eu tive que passar por negociações, liguei para ela, perguntei: “Posso mostrar pra a Gal?”, “Pode”. Aí eu mostrei pra Gal e a ela gravou, não deu outra. “Mistérios” era a cara do Bituca desde que o Mauricio mostrou o primeiro esboço da melodia, quando ele estava começando a fazer – depois a gente sentou junto e terminou a música. Desde o início, eu ouvi aquelas duas primeiras frases da música, a primeira parte da música, que é a parte que o Mauricio escreveu, e eu sempre ouvia a voz do Bituca cantando aquilo, eu sabia que aquela música era para ele. E tem muito isso. Quando eu fiz, com a Ana Terra, “Essa Mulher” e mostrei para a Elis Regina com mais um monte de músicas, eu tinha um pressentimento com essa música. Depois, a Elis me ligou e falou: “Sabe como vai ser o nome do meu disco? ‘Essa Mulher’”. Não deu outra, ela estava vivendo aquilo, a história que a música contava era a história dela ali também, uma mulher tendo que ser artista, tendo que ser mãe, tendo que ser mulher, tendo que ser tudo ao mesmo tempo, aquela tripla jornada de trabalho da gente, então bateu com a coisa toda que estava sendo dita na letra da Ana. Às vezes isso acontece, mas às vezes também é imprevisível. Às vezes você acha que a música é a cara de alguém e esse alguém não se comove com a música, ou se comove com outra que você pensava que não, que fulano ia gostar mais daquela, sei lá, é muito imprevisível.

Formação Musical
Canto

Eu me apaixono por músicas às vezes. É assim: a cantora se diverte enquanto a compositora trabalha, porque cantar para mim é uma coisa muito prazerosa, é uma coisa meio que nem comer, ou ir à praia nadar no mar, ou você acordar naquele dia lindo e falar: “Vou andar na lagoa”, ou namorar, ou qualquer coisa assim, é uma coisa prazerosa, é uma coisa gostosa, é bom cantar, e adoro cantar, eu me divirto pra caramba cantando. E compor não, compor é um ofício, é um trabalho, é uma coisa que você coloca a sua alma naquilo, mas dá um trabalho desgraçado, dá muito mais trabalho do que qualquer coisa, é uma coisa muito louca. Então às vezes eu me apaixono. Por exemplo, no meu penúltimo disco, que é o “Banda Maluca”, tem uma música francesa que eu escutei numa gravação dos anos 50 da Blossom Dearie. Ela gravou em um francês pavoroso essa música, que é uma valsa dos anos 30. Quando ela gravou, já era uma música obscura e depois ela ficou mais obscura ainda, 80 anos depois. Eu não sosseguei enquanto eu não encontrei a letra correta e não gravei a música do meu jeito, mas eu fiquei em uma paixão com aquela música tão grande que enquanto eu não gravei eu não sosseguei. Eu acho que isso acontece muito, mesmo quando você ouve alguma coisa que bate e você fala: “Eu quero cantar isso aí” e você não sossega enquanto não consegue. É uma paixão mesmo.

Família
Filhas

Elas começaram a cantar pequenas, na verdade. Eu tenho três filhas e mais uma filha biônica. São a Clara e a Ana, filhas do meu casamento com Nelson Ângelo, a Mariana, que é a minha filha com o Tutty, que nasceu em 1979, e quando eu casei com o Tutty, ele já tinha uma filha do primeiro casamento dele, a Kadi, que eu digo que é a minha filha biônica. Kadi é k-a-d-i (soletrando) – ninguém nunca entende esse nome, é um nome meio estranho mesmo que ele inventou para ela. Mas, enfim, são essas quatro meninas. E a Clara e a Ana, que são as duas mais velhas, sempre foram muito ligadas em música, sempre gostaram de cantar, cantaram em discos de todo mundo. O primeiro disco que elas participaram foi um disco do Egberto Gismonti e depois disso muita gente começou a chamá-las, porque essas crianças tão afinadas chamaram a atenção. Elas tinham uma amiguinha, a Maria Bravo, filha do Zé Rodrix e da Lise Bravo, que também era muito afinada, e as três eram muito chamadas para coro infantil, desde Balão Mágico, até Dona Ivone Lara, Gonzaguinha. Elas chegaram a participar de um festival com o Bituca lá em Minas cantando “Coração Civil”. Elas sempre curtiram muito e iam comigo. Também na gravação de “Clareana” tem umas risadinhas e elas cantam a música no fim – as duas eram dois passarinhos. A Clara sempre teve muita vontade de fazer música, de ir para o palco. Ela estudou balé profissionalmente mesmo, foi para a França, estudou canto com a Christiane Legrand, ela se preparou para isso, a vida toda dela foi muito voltada pra isso. A Ana tentou fugir disso e fez faculdade de nutrição, se formou como nutricionista, chegou a trabalhar como nutricionista, mas chegou uma hora que não deu e ela chutou o balde e resolveu ser cantora. Então as duas tem discos. A Clara usa o nome de Clara Moreno, que é o nome do padrasto na verdade. Não é por nada não, mas é porque ela gosta da combinação e do paradoxo de uma pessoa se chamar Clara e Moreno ao mesmo tempo, que é superlegal. Então a Clara tem três ou quatro discos, sendo que o primeiro foi feito aqui no Brasil, dois no Japão e o terceiro, que é esse ultimo dela chamado “Morena Bossa Nova”, saiu primeiro aqui e depois no Japão. Ela mexe muito com música eletrônica, mas gosta muito de jazz. Ela tem um gosto musical bastante eclético e eu acho que o próximo projeto dela vai para um lado mais acústico, mas desde o primeiro disco ela mexe muito com música eletrônica e nas horas vagas também trabalha como DJ lá em São Paulo, onde ela mora. A Ana é bem diferente. Está no terceiro disco – o mais recente chama-se “Samba Sincopado”. Ela é muito acústica, da bossa nova, gosta da música mineira também, tem esse lado meio Clube de Esquina na vida dela, e gosta muito de samba. Nesse último disco dela, ela gravou sambas da carreira da Nara Leão, só sambas, e cantou com Elton Medeiros. Então ela tem um caminho mais para o lado do samba mesmo. Quando elas pedem eu dou palpite, ajudo, se quiserem eu ajudo com certeza, mas elas têm os caminhos delas, são personalidades bem diferentes e de caminhos traçados bem particulares, bem pessoais, cada uma na sua.

Formação Musical
Clube da Esquina: avaliação

Em termos de Clube da Esquina, que é o que você pergunta, eu acho que foi e ainda é uma referência musical para muita gente. É um momento brilhante, um dos muitos momentos brilhantes, como a Tropicália, como essa segunda geração de bossa nova que tem Edu Lobo, Dori Caymmi e Marcos Valle e como uma geração de novos sambistas. Eu acho que aconteceu tudo mais ou menos ao mesmo tempo numa época em que o Brasil estava vivendo uma ditadura militar, um momento muito forte, em que todo mundo ficou muito mexido. E ao mesmo tempo, é uma geração que vem dessa grande árvore musical que são a bossa nova e o Tom Jobim, que por sua vez também vem dos sambistas dos anos 30. Quer dizer, a música brasileira teve no século 20 muitos apogeus e o Clube de Esquina com certeza foi um deles.

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Clube da Esquina

Eu tenho às vezes uma reserva com a palavra “museu”, porque você pensa que é uma coisa que está fossilizada e não é, é uma coisa completamente viva no mundo. Mas feita essa ressalva, eu acho importante como memória de um momento que ainda é um momento presente, porque daqui a um tempo, quando a palavra “museu” estiver justificada, quando todos nós nos chamarmos saudade, como diria Nelson Cavaquinho (risos), a gente vai poder deixar essa memória para as futuras gerações e, principalmente, gerações de músicos e pessoas interessadas em cultura. Nos Estados Unidos, por exemplo, o jazz tem isso, a música norte-americana tem toda a memória quase completa, faltou documentar e guardar pouca coisa, e isso é superimportante, porque as gerações vão se sucedendo e outras pessoas vão chegando. E, se existir uma geração tão brilhante, modéstia à parte, como a nossa, que foi e é uma geração com muito brilho, é preciso ter essa informação e essa memória para que ela possa ser, de preferência, mais brilhante que a nossa. É preciso deixar esse registro.

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2 Mensagens para Joyce

  1. Ester O Almeida disse:

    Sempre amei ver e ouvir Joyce, o jeito meigo, o olhar cheio de ternura… mas a música Clara e Ana realmente marcaram mais… Neste momento vim pesquisar se esta música foi feita realmente durante a gestação das meninas e se foi intencional. Na minha memória sim, mas como quero trabalhar com meus alunos pequenos, gostaria de colocar os fatos bem embasados.
    Vou aproveitar a Joyce como exemplo de mulher, não deixou de ser feminina pra se colocar nas diversas situações da vida.
    Vou continuar procurando…

  2. Carlos disse:

    Parabéns pelo site. Sou mineiro e tenho 40 anos. Ouvi muitas músicas do Clube da Esquina em minha infância, mas confesso que na adolescência fui mais Rock' n Roll. Agora tenho quase tudo do Milton e não paro de buscar informações sobre um dos movimentos musicais mais importantes da MPB. Fixei nos meus favoritos. Um abraço com carinho.