Juvenal Pereira

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome/ Local e data de nasciment

Meu nome e Juvenal Eustáquio Pereira. Eu nasci numa cidadezinha de Minas Gerais que se chamava Água Suja quando eu nasci, mas que depois mudou de nome e hoje se chama Romaria. Eu nasci em 24 de novembro de l946.

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Água suja / Romaria

A cidade nasceu em função da Guerra do Paraguai – era para lá que as pessoas fugiam para não serem convocadas para a guerra. E logo em seguida descobriram que tinha diamantes nessa região, então houve um afluxo de pessoas por causa disso e a cidade foi produzindo diamante e foi crescendo. E porque o diamante é uma atividade que suja a água e no cerrado todos os rios são de água limpa, a não ser na época de chuva, passou a ser o Rio da Água Suja. E com a descoberta do diamante, vieram tanto os exploradores quanto os exploradores da fé e inventaram a história de uma santa cuja imagem foi colocada em um lugar e quiseram construir a igreja em outro lugar, mas a santa fugiu do lugar e voltou pro outro. Parece que todas as histórias de santa no Brasil são semelhantes e essa santa se chama Nossa Senhora da Abadia. As pessoas vinham procurar o diamante, e procurar a cura de problemas financeiros. Se faziam promessas que, quando realizadas, eram cumpridas nesse santuário que hoje é uma construção enorme. É a maior construção que tem em nossa cidade, que hoje tem 3 mil habitantes fixos, e na época da festa passam de 100 mil pessoas, fazendo uma conta reduzida.
Então virou A Romaria de Água Suja. A época que mudou o nome foi mais ou menos em l950.

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Pais / Irmãos

Eu vivi e convivi com meu pai até os 16 anos, quando ele morreu. Mas eu gostava muito dele, tinha muita identificação, ele era músico, uma pessoa muito interessante, amorosa e eu gostava de ver ele tocar, ele tocava violão e eu gostava. Eu cheguei até a trabalhar com ele numa oficina de sapateiro, algum período. Eu ia lá aprender a fazer sapato, meia sola, numa época em que se consertava sapato. E ele era seleiro, fazia selas pra cavalo e fazia botinas e isso era uma profissão muito valorizada porque naquela época não tinha essa facilidade que você tem hoje de comprar sapato. Ele era uma pessoa muito agradável e muito gostosa de se relacionar. Minha mãe era uma professora de escola primária, muito enérgica. Me parece que essa é a lembrança que eu tenho dela, tinha uma cultura boa. Interessante os dois, porque meu pai tinha um lado poético, generoso, e minha mãe, mais exigente. A formação da minha musicalidade se divide entre essas duas vertentes. Eram 16 irmãos e acabou que um período cada um seguiu seu caminho.

Irmãos

Eu sei que minha mãe teve 22 gestações. Alguns nasceram prematuros, alguns morreram e nós vivemos em 16 durante muito tempo. Acho que convivi com eles uns 50 anos mais ou menos, com todos esses irmãos, e são muitas as variáveis, personalidades diferentes. Você imagina que salada de pessoas que era…

Voltar ao topo INFÂNCIA

Cotidiano

Eu acho que nasci com o socialismo dentro de casa, um socialismo prático, tendo que dividir o pão, o arroz, o feijão, a galinha, os trabalhos, as funções, as atividades, tudo era dividido porque tinha que somar pra poder conviver. E se você considerar que 16 pessoas são 16 identidades, até que nós somos vitoriosos, porque não teve nenhum assassinato, nenhuma briga que deixou seqüela profunda. Claro que 16 personalidades sempre têm conflitos, sempre procuram se ajustar, mas a convivência era agradável. Dos vivos, éramos dez homens e seis mulheres, os homens eram a maioria.

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Cidade / Campo

Nós somos da cidade, ninguém teve atividade rural. Os meus irmãos mais velhos tentaram a vida no garimpo e, à medida que foram se tornando adultos, foram para a capital. Minha mãe se aposentou e fomos todos para a capital e aí eu continuei estudando até um período e escolhi a fotografia como profissão. Depois de muitas etapas, eu virei jornalista e estou há mais de trinta anos trabalhando na imprensa.

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Infância

Olha, pra ser sincero não tinha nada de lazer não, era muito pouco. Eu lembro que a televisão chegou na minha casa em 1958 e a gente via televisão… Eu era criança nessa época, podia ver até às dez horas da noite, quando tinha uma propaganda dos cobertores Paraíba e estava na hora da gente ir dormir: “Tá na hora de dormir, não espere mamãe mandar”. Era muito controlado o que eu podia ver e o que não podia ver. E tinha só um canal de televisão na época.

Voltar ao topo *INFÂNCIA

Brincadeiras de criança

A gente morava em casa grande e eu lembro que eu gostava de ficar no quintal e de fazer brincadeiras e experiências. Um dia, me ensinaram a fazer pólvora e eu fazia experiências, descobria umas coisinhas. Como a casa era grande, tinha muita opção de ficar brincando em casa. Mas lazer como circo, por exemplo, era muito pouco porque o dinheiro que existia era zero. Lembro que logo eu comecei a trabalhar. Comecei a trabalhar com meus dez anos e acho que com 11 anos eu fui ser engraxate. Engraxava o sapato das pessoas no sábado e ganhava um dinheirinho, porque no domingo eu podia pagar minha matinê no cinema e já podia desfilar com a roupa que eu tinha comprado.

Voltar ao topo TRABALHO

Primeiro emprego

Depois, eu comecei a trabalhar e estudar. Com 11 anos era uma atividade. Eu comecei a trabalhar mesmo no emprego com 14 anos, com carteira assina e tudo.
O meu primeiro emprego foi numa empresa que se chamava Benemon, eles eram concessionários distribuidores dessas caçambas de caminhão. Eu era um office-boy e depois disso eu tive algumas atividades, fui vendedor de umas coleções de disco, fui pregador de cartaz de rua, procurava, tinha que me virar pra ajudar em casa. Depois, fiz um concurso, trabalhei numa empresa de carnês que se chamava Erontex. Você pagava o carnê, ganhava um terno e eu embalava. Trabalhei numa empresa que vendia coleções de discos, eu ficava lá longe embrulhando a coleção de discos, fazendo as caixinhas pra entregar para as pessoas que compravam. Eu ficava num porão ouvindo um desses programas de rádio, desses programas de sangue, de contar crimes, eu adorava. E a música de sucesso naquela época se chamava “Churrasquinho de Mãe”, que era do Teixeirinha. Tinha também “Disparada”, tinha Chico Buarque e ai começou o movimento da Jovem Guarda, MPB. Mas eu fui mudando de emprego. Depois desse emprego, eu fiz concurso para um emprego público que se chamava Instituto Brasileiro de Reforma Agrária. A cultura era a de que se você tivesse um emprego público federal você estaria assegurado pelo resto da vida. E eu ai fui nessa onda, fiz o concurso público, passei e trabalhei ali um tempo, fiz dois jornais nesse lugar. Mudei muito de atividade porque eu sou muito inquieto e logo descubro que eu quero ir mais além, nunca acho que a situação está boa, nunca. Sempre acho que posso ir um pouquinho além.
Trabalhei quatro anos e disse: “Eu não quero isso. Isso aqui não é meu futuro, é muito pouco”. E comecei a estudar fotografia. Eu acho que o divisor de águas da minha vida foi quando eu conheci um amigo cuja mãe dava aula numa escola de odontologia. Ela gostava muito de arte, gostava de jazz, de música, de literatura, de pintura e fui me informando e me alimentando com ela. Ela fez um ateliê na casa dela que eu e outros amigos freqüentávamos e ai eu comecei a descobrir a fotografia. Eu gostava de cinema, fiz um cursinho de cinema, desses de cineclube, e gostava muito de ver, de estudar cinema, de ler. Mas isso cresceu com a convivência com essa senhora, que se chamava Antonieta Salles, que era mãe desse meu amigo, que se chamava Renato Salles, e que, um dia, deu um tiro na cabeça e foi embora… Fomos amigos um bom tempo.

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Belo Horizonte

Nessa época, eu estava em Belo Horizonte. Em Romaria, eu fiquei até os oito anos. A minha infância em Romaria era rio, era cavalo, era no mato, ir buscar coisas, buscar frutas, fazer estilingue, matar passarinho, matar pardal e assar, comer com pimenta e sal. Cruel, né? Fui para Belo Horizonte num caminhão quase que como um pau-de-arara, com os poucos móveis que tínhamos, embaixo cheio de galinha pra vender, um cachorro em cima do caminhão e chegamos em Belo Horizonte em 1955. Essa historia que eu te contei sobre o primeiro emprego, como engraxate, já foi na trajetória de capital, morando na capital já.

Romaria

Eu voltei pra Romaria 30 anos depois que eu saí de lá, e vou de vez em quando. Mas eu acho que os meus laços afetivos são os de ter nascido, de ter algumas pessoas com quem eu me relaciono, de ter lá uma senhora que se chama Maria Damasceno que fez um livro sobre a cidade e me pediu para ajudá-la. Fiz alguns textos para o livro. Depois, teve um encontro dos antigos moradores e eu fui convidado. Depois, teve uma festa de Folia de Reis que eu fui festeiro, eu e mais um monte de gente. Há pouco tempo levei meu filho lá pra conhecer. De vez em quando eu vou lá pra ver. Mas não tenho nenhum vínculo com a cidade a não ser o de ter nascido lá, só.

Belo Horizonte

A gente foi pra uma casa legal, uma casa enorme, continha quatro quartos e era na Floresta, na Rua Pouso Alegre. Essa casa era no alto e me agradava muito ver tudo do alto. Você podia ver de lá o pátio de manobra das estações de ferro. Tinha as locomotivas, aquelas locomotivas pretas a vapor, outras a carvão, e estava começando a entrar o diesel. Era um momento de transição e eu gostava muito de ver esse movimento das locomotivas. Era agradável ir lá ficar vendo. Como era perto, era bem interessante. Pra quem nasceu na roça, ver locomotiva pela primeira vez era interessante. Era trem de ferro, na época.

Voltar ao topo *TRABALHO

Atividades profissionais

Olha, a gente tinha que arrumar dinheiro pra casa. O único dinheiro fixo era o de minha mãe, que era uma aposentadoria de professora primária. Aí meu pai abriu uma oficina de reforma de sapatos lá perto de nossa casa e eu ajudava ele de vez em quando. Depois, ajudei um pouco mais, mas não era uma profissão de futuro, porque estava morrendo essa história de reforma, então eu fui estudar. Estudei na escola técnica um pouco e depois mudei, fui fazendo as coisas e acabei o estudo, finalizei o segundo ano científico. Eu trabalhava de manhã, à tarde e estudava à noite. Mas eu queria viver, falei: “Puxa, só trabalho e estudo, preciso de viver”. E aí parei o estudo e comecei a fazer um estudo autodidata, porque eu queria ter um pouco de vida, passear, fazer outra coisa. A diplomação não me faz falta e não sinto necessidade, porque o jornalismo me deu muita informação. Eu aprendi, eu fiz política, arte, antropologia, tudo isso no jornalismo, entrevistei pessoas, de presidente da República a favelado. Quer dizer, eu participei de entrevistas e num outro período eu entrevistei também.

Projetos Futuros

Eu gosto muito de escrever. Escrevi um livro, mas não foi publicado, é sobre minha trajetória como fotógrafo e como indivíduo. Eu penso em publicar em 2006. Penso eu penso em publicar tanto um livro de fotografia, do meu trabalho fotográfico, como um livro de memórias – essa é pretensão que eu tenho pra 2006.

Voltar ao topo PARENTES

Pai

Até no leito de morte ele tocava música. A família dele era de músicos, a família de meu pai toda. Os irmãos tocavam juntos, era bonito, eu tenho fotos lindas deles todos com instrumentos. Lembro que eles faziam sarais musicais e convidavam a gente, depois envelheceram, mas meu pai tocou até quase morrer, tocou violão. Nenhum dos meus irmãos puxou o dom musical, mas meu pai tocava e cantava. Em Romaria, ele era seresteiro, ele era convidado para fazer seresta, cidade pequenininha… Em Belo Horizonte, ele tocava com os irmãos dele, mas nunca tocou para ganhar dinheiro, só pelo prazer.
Não tenho muitas fotos dessa época. Eu tenho algumas fotos que eu peguei do álbum de família e guardei, e tem uma foto dele tocando o violão. Um dos irmãos contratou um fotógrafo para fotografar ele com o violão e acho que foi a última foto dele, porque depois ele já estava doente, ele teve câncer e depois disso começou todo o processo de morte. Ele foi pro hospital; depois, ele ficou na cama e aí apagou, morreu. Não sei exatamente o ano da morte dele, mas acho que foi em 1962, não tenho certeza absoluta, mas eu tinha 16 anos. Eu era novinho, menino, adolescente.

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Mãe / Atividade de fotógrafo

Quando meu pai morreu, todo mundo já era independente. O mais novo já tinha 12 anos, e pra ele foi um alívio, porque era muito sofrimento. A morte dele não foi uma coisa traumática, eu me lembro com prazer dele, mas não lembro de sofrer a ausência dele. Eu me lembro que quando meu pai morreu, a gente morava num apartamento e depois, com as economias da gente, conseguimos construir uma casa financiada pela Caixa e fomos morar nessa casa. Mas poucos meses depois de mudar para essa casa, eu já fui trabalhar como jornalista. Fui trabalhar na revista O Cruzeiro como fotografo e nunca mais morei com eles. De 1969 até hoje, eu nunca mais morei com eles. Visito sempre, mas a partir daí eu fui trabalhar na revista O Cruzeiro em Salvador. Eu comecei em Belo Horizonte trabalhando com Fernando Brant. Vou fazer um histórico da fotografia. Eu troquei uma espingarda por uma máquina fotográfica.

Voltar ao topo FOTOGRAFIA

Inicio da Atividade de Fotógrafo

Em 1968, eu tinha 21 anos e foi quando eu troquei a espingarda mesmo. Essa espingarda tinha uma mira ruim, eu tentava atirar e não acertava nada e um dia veio um parente meu que gostava de armas e perguntou: “Você não quer trocar essa espingarda por uma máquina fotográfica?”. Ele levou a espingarda e três meses depois veio a máquina fotográfica. Eu já estava fazendo cinema lá no cineclube e já gostava disso. O marido da dona Antonieta Salles tinha uma máquina fotográfica e eu pedia emprestada pra fazer algumas fotos. Ele começou a emprestar mais, e eu fazia foto. Aprendia, estudava uma coisa ali, lia, assinava revistas. Como eu me propus a ser autodidata, eu procurava os livros nas bibliotecas, me dedicava a aprender – até hoje eu faço isso. Primeiro com a máquina emprestada e depois com minha máquina, eu comecei a fotografar a família, os amigos e vendia por mixaria de dois reais – um real para pagar o filme e um para a revelação, o que permitia comprar outro filme e outra revelação. Parte do meu salário quase todo era dedicado a isso, a filmes e revelação. E um dia uma amiga me convida para fazer uma reportagem para um desses jornais, se chamava Jornal do Comércio. Eu fui fazer, ela foi publicada e eu fiquei superorgulhoso: “Olha, minha reportagem publicada!”. Fiquei superfeliz com aquilo e fui fazer uma outra reportagem pra eles, e encontrei um fotógrafo da revista O Cruzeiro. Ele estava entrevistando um jogador de futebol que se chamava Perfumo, e nos encontramos num lugar que se chamava Mangueiras, quase em frente à Igreja da Pampulha. Eu estava fazendo uma matéria para o jornal que não era sobre o Perfumo, e vi o fotógrafo da revista O Cruzeiro. Era o máximo. Ele me deu atenção e começa a me contar o que era vida de um fotógrafo, me contou tantas maravilhas da vida de um fotógrafo, que eu saí dali embevecido. Eu perguntei: “Será que eu posso te visitar um dia?”. E ele falou: “Pode”. No dia seguinte, fui lá e falei: “Oh! Estou aqui, vim aqui te visitar”. Ele ficou surpreso de eu chegar e eu disse: “Olha, quero ser fotógrafo, tenho vontade. Tem alguma oportunidade?”. Ai ele me apresentou para o diretor da revista, e eles me deram uma matéria pra eu fazer. Eu imaginava que eu tinha algum conceito fotográfico, que gostava disso e daquilo outro e fiz a reportagem, mas eu fiz numa ótica que era minha. Eu priorizava as altas luzes, umas coisas bem fortes e ele disse: “Olha, não bem assim que a gente quer não, a gente quer uma foto mais limpa, porque é pra publicar”. E ai falei: “Então posso fazer de novo?”. Aí fui e fiz: “Ah, agora sim é o que a gente quer”,. Aí me deram a matéria e foi publicada minha primeira matéria em revista. Foi na revista A Cigarra, que era do mesmo grupo da revista O Cruzeiro. Publicada essa matéria, me deram outras matérias pra eu fazer nessa mesma revista.

Voltar ao topo PESSOAS

Fernando Brant

Nessa redação, eu e o Fernando Brant éramos os mais novos. Temos idades próximas, ficamos amigos – os mais novos se juntam. O Fernando Brant tinha feito algumas letras com o Milton Nascimento. Como a gente ficou amigo, ele foi me trazendo pra perto do Clube da Esquina e os meus amigos passaram a ser essa turma da música, da literatura, que era o que gostava.

Voltar ao topo BAHIA

Salvador

Deu um tempo e eu fui contratado pra trabalhar na revista. Me perguntaram onde eu queria ir. Eu tinha duas opções: Rio de Janeiro ou Salvador. E eu escolhi Salvador porque eu gostava muito das músicas do Caetano, do Gil, do Edu Lobo, que falava muito das coisas da Bahia, da Maria Bethânia. Isso foi em 1971. Eu fui para O Cruzeiro em 1970, e em 1971 fui contratado. Aí fui trabalhar em Salvador sozinho, não conhecia ninguém, tinha 23 anos. Em Salvador, na Bahia de Todos os Santos, trabalhando na revista, comecei a ser totalmente independente. Tinha meu salário, tinha que ter casa – até então, tinha a casa dos pais – nunca tinha passado por essa experiência de viver sozinho e comecei e criar meu próprio caminho. Logo depois, arrumei uma namorada e a gente ficou junto um tempo. Continuei fazendo reportagens na Bahia e aprendendo cada vez mais, publicando matérias que me pautavam, mas eram matérias muito caretas, muito oficiais, uma merda. Eu não gostava das matérias que eu fazia lá, mas me dava oportunidade de aprender, de ver como exercitar o trabalho jornalístico, exercitar a fotografia. E eu sempre gostei de escrever, de ler e de imitar essa história da minha mãe, de ser professora – acho que eu novinho já ia pra biblioteca estudar, pra ver poesias, pra ver coisas, porque eu não tinha biblioteca em casa e então eu ia. E também não tinha a opção de ver TV, era muito de rádio. Não era precário, era o fluxo mesmo da vida, 1950 não era 1999, nem 2004. São quase 60 anos atrás. Aí eu resolvi escrever algumas matérias para a revista e escrevi. Inclusive, quando o Gilberto Gil voltou de Londres, ele foi pra Bahia e eu propus uma matéria. Eles concordaram e eu fui fazer uma matéria com ele. Fiquei três dias entrevistando Gil, passeando com ele por Salvador, ele me deu uma entrevista longa e foi publicada. Deu quatro páginas da revista. Eu fiz um título em que eu queria homenageá-lo. Quando ele saiu do Brasil, ele fez aquela música “Aquele Abraço”, que era uma música de despedida, e o título da matéria foi: “Alô, negão, aquele abraço. Ficamos aqui com o abraço pra te receber” e ele ficou muito feliz com a matéria. Um dia, me encontrei com ele e ele falou: “Aí Juvenal!”.

Voltar ao topo EVENTOS HISTÓRICOS

Ditadura Militar

Ah, só pancadaria, só trash. Horrível. Houve uma época horrível de liberdade totalmente cerceada, uma época em que você tinha medo de ser ouvido e uma época em que você quase não falava. Época do dedo duro, do entregão, mas eu nunca fui um ativista político, nunca fiquei na linha de frente. Eu era informado, mas como eu precisava trabalhar e precisava ganhar minha vida, pagar minhas coisas e sobreviver, eu não tinha tempo pra me dedicar a esses encontros políticos e também eu tinha medo de ser preso, de perder as coisas. Porque a coisa não estava fácil não, era muito pesado, feio e tinha muita tortura. A luta era igual, tanto do lado dos políticos que queriam derrubar o poder, quanto do contrário. Eu fui descobrir isso depois, quando eu fui fazer uma pesquisa no Jornal da Tarde sobre fotografia e vi como eram as duas coisas. Os terroristas que eram os que queriam mudar o poder mandavam ver, a policia também mandava ver e então a luta era brava entre os dois. E fazendo a pesquisa, eu via: “Hoje os terroristas explodiram isso, os terroristas seqüestraram tal fulano”. E claro que era muito desigual, porque o poder constituído era muito mais forte do que o insurgente.

TRABALHO
Atividade de Fotógrafo

Uma matéria que eu fiz, que me marcou muito, foi uma matéria sobre um terreiro. Eu tinha uma ascendência negra que era totalmente velada na família, ninguém gostava muito de contar essa história por causa dos preconceitos que se somam. A ascendência negra era por parte de pai. O meu pai era neto de uma negra alforriada. Eu falei: “Eu preciso saber sobre a cultura negra”, porque em Minas tudo é muito contido e na Bahia é tudo exposto. Os negros são lindos, bonitos, as negronas maravilhosas, soltas, liberadas, e eu fiquei encantado com aquela coisa e comecei a querer saber como é que era aquela história dos negros do candomblé. E um dia teve uma oferenda a Iemanjá, que era no terreiro mais conceituado da Bahia, que se chama Axé Opô Afonjá, e eu fui fazer a matéria com essas senhoras, os tocadores. Todo mundo foi num barco até o alto mar fazer a oferenda e aí fiz uma matéria sobre a obrigação a Iemanjá. Mas foram poucas assim que escrevi lá na Bahia, porque O Cruzeiro era muito serviçal ao poder nesse período. Tinha algumas matérias que o Millôr Fernandes dizia: “Essa revista é impressa com cocô” (risos), imprensa supermarrom. Mas eu tinha tido uma oportunidade maravilhosa de sair de Belo Horizonte pra essa que era uma grande revista e além disso era Salvador. Eu morei lá dois anos e meio e meu casamento ficou mal. Eu estava muito triste com a separação e fui embora. Saí da Bahia, vendi tudo que eu tinha, peguei um ônibus, fui para Belo Horizonte e passei um período em Ouro Preto num festival de inverno, fazendo um trabalho lá.

Voltar ao topo BRASÍLIA

Jornal Zero Hora

Depois eu fui morar no Rio Grande do Sul. Morei nove meses lá, e como eu tinha vontade de estudar antropologia, eu comecei estudar sobre os gaúchos. Ia pro Instituto Histórico estudar, e vendo a vida gaúcha acontecer, eu descobri que tinha uns cursos de antropologia em Brasília. Me mudei para Brasília e fui fazer cursinho. Lá em Porto Alegre eu trabalhei no Jornal Zero Hora, e trabalhei com uma outra fotógrafa que tinha um estúdio. Ela fazia uns eventos fotográficos, dava aulas para criança, depois vendíamos as fotos que fazíamos. Resolvi ir pra Brasília estudar antropologia e logo que eu cheguei lá, fui trabalhar em um jornal. Cheguei num dia em Brasília e no dia seguinte fui trabalhar num jornal. Foi meu primeiro emprego lá, eu fiquei três meses sem receber nada, o cara não me pagava, o jornal estava falido.
Eu, minha máquina fotográfica, uma máquina de escrever e minhas roupas viajamos muito. Eu nem podia ter muita coisa, porque se se tem muita coisa fica difícil de viajar. Em Brasília, eu cheguei em 1975. Em Salvador, eu morei de 1971 a 1974. Saí de lá em junho de 1974, fui para Ouro Preto. Fiquei um mês lá, fui a Porto Alegre. Fiquei lá de setembro de 1974 a março de 1975 e fui a Brasília. Em Brasília, eu trabalhei nos jornais e conheci uma outra história de Brasília muito interessante. Eu fiquei empolgado com Brasília, porque existia uma resistência ao poder e começavam os movimentos pela anistia, pela retomada para a democracia. Eu fui lá com os amigos me convidando, fui para os movimentos políticos de Brasília, de resistência, de tentativa de mudança, e fui trabalhar no Diário de Brasília, onde fiquei três meses sem receber. Depois, fui para o Jornal de Brasília e fiquei um tempo, mas teve uma greve e fui demitido. Fui para o Correio Brasiliense e trabalhei um tempo lá. Depois, eu fui trabalhar como freelancer na Veja e depois na IstoÉ. Fiquei como freelancer muito tempo, porque eu acho que gosto de ser independente. E em Brasília eu fiz muita coisa, fiz escola de fotografia, participei de movimento cultural. Era legal aquela cidade, era muito pulsante.

Voltar ao topo ***FAMÍLIA

Casamento

Eu fiquei em Brasília de 1975 a 1981. Casei de novo lá, mas aí casei mesmo, com cartório, com todas as coisas que é preciso. Não foi na igreja, foi embaixo de uma árvore, num lugar aberto. Os amigos fizeram uma decoração, foi muito bonito, um casamento interessante. Tocou-se forró a noite inteira, até o dia amanhecer, até às nove horas do dia seguinte, quando a festa acabou, todo mundo apagado, cada um pra um lado, foi divertido.

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Ditadura Militar / Diretas Já

Foram cinco anos em Brasília muito intensos, de muito aprendizado, de muita informação política. Como lá eu trabalhei nas grandes revistas, eu conheci como é a liturgia do poder e como é o poder, e quase que eu fui pra lá para aprender a ser político – o que é ser político, o que é a política, e como a política funciona. Visitei, como repórter e fotógrafo, os ministérios, a câmara dos deputados, o senado, a Presidência da República, toda a ‘entourage’ que o poder tem. Eu cheguei lá no governo Geisel, fotografei a posse do Figueiredo e saí quando Figueiredo ainda estava no poder. Depois do Figueiredo, veio Sarney, eleições e diretas, 1984. Eu já estava aqui em São Paulo.

Voltar ao topo MATRIMÔNIO

Nome, Descrição e Atividade da Esposa

Eu saí de lá em 1981. Saí de lá porque a Sheila, com quem fui casado, uma mulher muito interessante, falou: “Não, Jô, a gente tem que sair daqui. Aqui a possibilidade é muito reduzida, vamos pra uma cidade maior”. Ela me entusiasmou…
A Sheila estudava História. A gente casou e ela começou a se interessar por fotografia e a me ajudar na fotografia. A gente conseguia fazer as coisas juntos e ela abandonou a universidade. Viajamos para o Maranhão fazendo muitas coisas em conjunto, tentando que a fotografia se tornasse uma coisa forte pra ela, que significasse pra ela um objeto profissional e de prazer também. Ela me ajudava no laboratório, a gente usava muito laboratório preto e branco. Eu tinha um laboratório na minha casa e ela falava: “Jô, é só ficar balançando a banheira, saber balançar a banheira?”. E ela acabou se dedicando e hoje trabalha numa grande agência de fotografia em Nova York. Ela teve uma trajetória, saiu da História para se dedicar à fotografia.

São Paulo

Viemos para São Paulo, ficamos aqui um tempo e eu fui trabalhar na FAU, com o Cristiano Mascaro. Fiquei pouco tempo lá porque o lugar de trabalho não era minha onda. Eu sou jornalista. Ficar num lugar acadêmico não me deixava confortável. Fui trabalhar numa revista de motocicleta, depois fui trabalhar na IstoÉ e depois eu fiz um monte coisas aqui, são 20 anos aqui.Acho vai ser difícil sair daqui. Acho que só quando ficar bem velhinho, eu vá pra outro lugar.
A gente chegou aqui em 1981 e se separou em 1989, eu já estava na grande imprensa. Um pouco de como foi São Paulo: eu cheguei em 1981, fui pra FAU, depois fui para essa revista de motociclismo, fui para IstoÉ e depois fiz uma campanha política. Isso como fotógrafo. Junto com isso, a cidade, as pessoas da cidade, os eventos da cidade. E logo que cheguei aqui, criamos a União dos Fotógrafos de São Paulo.

Brasília

Em Brasília, criamos a União dos Fotógrafos de Brasília com esses amigos que me levaram para os movimentos políticos. Fizemos muita coisa lá, fizemos várias exposições e a fotografia passou a ter uma importância – não ter importância, ela sempre teve importância –, ela passou a ser considerada uma coisa mais forte e representativa com a formação da União dos Fotógrafos que reivindicava o direito autoral, crédito obrigatório, valores e atributos que na fotografia não eram levados em conta. Porque, para os profissionais da fotografia, a fotografia era só uma coisa de ganhar dinheiro, mas eles não ligavam para arquivo. Alguns ligavam, mas a maior parte não dava importância. E essa formação da União dos Fotógrafos foi uma alavanca para dignificar e dar valor ao acervo fotográfico, ao crédito, ao valor do seu trabalho. E vindo para São Paulo, como eu já tinha essa experiência lá, me chamaram para formar a União dos Fotógrafos de São Paulo. Nós formamos, eu fui vice-presidente e com esse aprendizado com a comunidade fotográfica, eu fui tendo acesso à fotografia, à informação fotográfica. E fizemos muitas coisas aqui – um monte de exposições, livros, enfim, muita coisa.

Voltar ao topo ATIVIDADE PROFISSIONAL

O Cruzeiro

Eu faço as duas coisas, tanto com meu acervo, quanto para os de outros. Quando eu estava lá n’O Cruzeiro com Fernando Brant, O Cruzeiro tinha um arquivo meio bagunçadinho. Eu comecei a organizar e vi ali uma coisa importante. Eu não jogava minhas fotos fora, eu guardava as fotos que eu fazia, envelopes, negativos e eu tinha uma malinha que foi ficando maior, maior, aí comprei um baú daqueles de lata. E eu colocava os cromos, os negativos naquele baú, mas com a organização que eu podia, porque é caro você fazer organização de acervo. E foi somando, somando. Quando ficou grande, eu contratei um arquivista do Estadão para organizar meu arquivo. Aí passou a ser importante e era fácil de achar tudo. Ficamos meses fazendo isso e os arquivos aumentaram, aumentaram, aumentaram e hoje tem mais de 100 mil fotos arquivadas, e agora em CDs também. Aqui em São Paulo teve uma fotógrafa que foi a primeira fotógrafa brasileira – mas não era brasileira, era alemã – e a filha disse que tinha todo os negativos, as fotos dela numa caixa de bolo. Chamava-se Hildegard Rosenthal e aí ela me deu esse arquivo e falou: “O senhor cuida disso pra mim? Minha mãe já morreu, eu não queria que isso se perdesse e se você puder organizar…”. E comecei a organizar. Eu fiz arquivo, organizei exposições de uma coisa importante, e isso se deve ao meu trabalho de organizador – saiu de uma caixa de bolo e hoje está na História, é um lugar de referência. Hoje, você pode ver quem foi Hildegard e o que foi que ela fez. Isso foi iniciativa minha a pedido da filha dela. Mas a irmã dela era muito esquisita, uma personalidade confusa e acabou brigando comigo. Eu comecei a negociação com o Instituto Moreira Salles e ela terminou e não me pagou, nem me falou nada. Eu tive que ir lá no Moreira Salles e dizer: “E aí? Eu faço tudo e não ganho nada?”. Ele acabou me indenizando, pagando uma grana por ter vendido. Mas eu tive que reivindicar. Na verdade, a gente tem sempre que reivindicar, senão ninguém te dá nada. Tem uma máxima de Direito que diz: ”Quem dorme, não reivindica direitos“. Eu sempre tive que ir atrás. Me deu dor de cabeça, me chateou um pouco a história, mas está bem. Hoje está aí para estudiosos, esse acervo é muito bom. Isso vem rolando desde 1991, eu já tinha 10 anos de São Paulo, já tinha feito um monte de coisas aqui, já tinha trabalhado na grande imprensa. Em 1991, eu já tinha trabalhado para o Estadão, para a Folha, eu já tinha conhecido bastante a cidade. Isso me permitiu uma intimidade maior com o fazer fotográfico e a cultura fotográfica de São Paulo. Em 1991, eu criei um evento chamado Mês Internacional da Fotografia, porque todos os amigos falavam: ”Vou pra Nova York”, faziam um portfólio todo bonito e levava para Nova York.

Paris

Eu não tinha viajado ainda. Tinha ido para Paris quando eu tirei férias, tinha ido pelo Estadão e lá conheci algumas coisas, mas eu fui de férias mesmo, não pelo prazer de ver fotografia – mas vi. Então, uma senhora chamada Stefânia Brill, crítica de fotografia e agente cultural, me apresentou uma Casa da Fotografia Fuji, que ela tinha criado. A Fuji tinha aberto uma loja em São Paulo e nesse novo prédio tinha um espaço, “A Casa da Fotografia”. Como eu já estava no meio fotográfico, na comunidade fotográfica – a União dos Fotógrafos, e tabela do sindicato e essa coisa toda da fotografia – eu já era uma pessoa conhecida, e um dia eles me convidaram para assistir a uma palestra em que ela ia falar sobre o Mois de la Photo, que é um evento de fotografia muito grande que tem em Paris. Ela me mostrou, apresentou os slides e as exposições e a minha cabeça começou a viajar, viajar. Quando ela terminou isso tudo, pensei: “Puxa, bem que a gente podia fazer uma coisa dessas em São Paulo, uma cidade tão grande e tão rica”.

Saí dali e no dia seguinte eu comecei a ligar para as pessoas e falar: “Vamos fazer uma coisa? Vamos fazer um Mês da Fotografia no Brasil?”. Como eu conhecia os pensadores, os que atuavam na fotografia, todos os que eu convidei toparam e aí nós começamos a fazer. A primeira reunião foi na Casa da Fotografia, porque foi lá que eu tinha visto e então fomos pra lá fazer. A segunda reunião foi no Museu da Imagem e do Som, e depois foi na F4, numa agência de fotografia, porque a Nair Benedito era uma das convidadas pra fazer o grupo. Eu convidei a Nair Benedito, a Isabel Amado o Rubens Fernandes Junior, Yatan Canabrava, Eduardo Castanha, Marcos Santini, eram dez. Então começamos a criar esse Mês da Fotografia, tivemos que fazer estatuto, toda aquela burocracia jurídica. Pra gente fazer o Mês da Fotografia, começamos a procurar as entidades ligadas que poderiam ajudar na construção dele e onde a gente conseguiu o primeiro e grande apoio foi na Aliança Francesa. Logo os caras toparam. Eles tiveram uma abertura muito grande e toparam a história. Era um grande investimento. E convidaram duas pessoas para ir a Paris representar o Brasil no Mois de la Photo. Eu fui, e a outra pessoa era a Stefânia Bril, que tinha morrido e não foi.

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Paris

Eu fui sozinho pra lá. A Nair Benedito e o Eduardo Castanho estavam em Paris. Eles também eram dessa entidade que a gente criou, que se chamava Na Foto, e ficamos os três representando o Brasil. Durante a atividade era só um, mas como não tinha brasileiro, a gente deu um jeito de ir. O Eduardo tinha um apartamento em Paris e ei fiquei hospedado com ele, mas ele roncava (risos) e minhas noites em Paris foram horríveis. Os dias eram ótimos, mas as noites, mal dormidas. Mas foi muito interessante pra mim, de Água Suja, estar em Paris? Quando cheguei a Paris, tinha o meu nome com um motorista me esperando. Eu falava: “Não acredito, é muito pra mim! Um mineirinho de Água Suja chega em Paris e é recebido assim”. Fiquei envaidecido, claro, mas eu só ouvia, eu não falava muito porque o que eu ia falar num universo daquele, tão amplo, tão magnificente, os palácios, os encontros, os curadores do mundo ali reunidos? Eu fiquei só ouvindo. Eu não falava francês. A Nair Benedito falava bem francês e o Eduardo Castanho falava inglês. Eu estava assessorado pelos dois e ficava só ouvindo e eles me contavam o que acontecia. De vez em quando eu falava e eles traduziam. Mas foi muito interessante. Nosso encontro foi muito bonito, foi divertido, foi legal a gente estar junto ali naquela balada. E dois anos depois foi feito o primeiro Mês da Fotografia no Brasil, que foi um divisor de águas da fotografia brasileira. Eu acho que tem antes e depois do Mês da Fotografia. Claro que muitas vezes as pessoas vêem de forma diferente, mas no meu entendimento eu acho que foi ali que a fotografia brasileira passou a ser considerada no cenário mundial. Foi em 1993 o primeiro Mês da Fotografia, que acontece bianualmente. Já são mais de 200 exposições internacionais até hoje. O currículo do Mês da Fotografia no Brasil é muito grande e isso fomentou no Brasil o interesse de fazer atividades fotográficas. Existia, mas era muito tímido. Aí viu-se que era possível abrir, possível ter um universo a se expandir e então a fotografia brasileira está muito bem cotada hoje no cenário mundial.

Quando um grupo se une, há muitas diferenças, e o grupo se esfacelou. Ele teve uma presidência, foi da Nair. Foram dois mandatos. Eu só fiquei no primeiro ano e ai me desentendi. Algumas histórias não foram como eu pensava e depois eu voltei no terceiro evento do Mês da Fotografia. O Marcos Santini já era o presidente do Na Foto e me convidou para fazer um evento. Eu fiz esse e depois fiz outros. Fiz um no metrô de São Paulo. Eu tinha feito um livro do metrô. Viajei por todas as estações, conheci o metrô com intimidade e vi que os espaços eram abertos e não tinha nada que ocupava as grandes espaços. Aí eu propus a eles fazer umas exposições em algumas estações do metrô e eles toparam. Mas a minha idéia era muito ambiciosa. Eu queria representar todos os jornais brasileiros. Da estação Jabaquara até a Tucuruvi iam ser os jornais do Sul até o Norte. As estações Barra Funda a Itaquera iam ser os do Mato Grosso até Minas Gerais. E as estações da Paulista eram os jornais e as revistas mais importantes. Mandei cartas para todos eles e sabe quantos responderam? Quatro: o Estadão, um jornal de Minas Gerais, um fotógrafo de Minas Gerais e uma entidade do Rio de Janeiro. A gente fez em quatro estações. O que o Estadão fez, nas Clínicas, foi muito bem feita, muito bem montada e todo mundo gostou muito. Os patrocinadores, o metrô e o jornal gostaram muito do que foi feito. Gostaram tanto que eu fiz uma proposta de fazer uma exposição do Estadão no metrô de Paris e eles toparam. Me mandaram para Paris, me pagaram tudo, nós conseguimos chegar em Paris, conseguimos a receptividade do metrô em Paris, mas, quando chegamos aqui, houve problemas internos do jornal, que abortou o projeto de exposição em Paris. O tema da exposição era o Estadão, o jornal o Estado de São Paulo.

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Atividades Profissionais

A exposição de Paris não existiu porque quando chegou aqui teve umas briguinhas entre os diretores do jornal. Sobre a história lá eu não poderia dizer, poderia estar omitindo algum fato importante, mas eu acho que foi uma… melou a história. Mas foi legal porque eu fui lá e fiz um bom ensaio sobre o metrô, eu aproveitei minha viagem, mas fiquei triste porque todo meu investimento de muito tempo foi abortado. Algum tempo depois, eu fiz outra exposição em dez estações do metrô, em que eu era o curador. Foram várias tendências, fotógrafos. Teve um de Brasília, aquele Klaus Mitteldorf, na estação Barra Funda. Então eu achava que estava bem representado no Mês da Fotografia. E depois disso eu não participei mais. Mas hoje, 2005, eu estou tendendo a direcionar meu potencial para divulgar o meu trabalho. Quero fazer um livro meu, fazer um histórico pessoal e até estou dando essa entrevista para vocês aqui porque eu acho que quero direcionar meu trabalho para o Juvenal fotógrafo, porque o Juvenal articulador político e camarada da fotografia já deu uma contribuição muito grande. Sinto que a minha idade já não é mais a de um garoto de aventuras. Eu tenho um filho pra criar e tenho que cuidar do meu futuro, pensar numa maneira de sobreviver com o que eu fiz. Eu não tenho aposentadoria, não paguei Institutos de Pensão, mas com a fotografia eu consegui ter um patrimônio, tenho umas casas na praia e tenho um patrimônio que pode certamente me ajudar se em um momento ou outro vier a me faltar a força de trabalho – até o meu próprio arquivo pode me dar uma ajuda… Porque eu sei a importância dele, eu estudei isso, eu aprendi que à fotografia é importante o acervo, como vocês do Museu da Pessoa sabem como é importante ter uma memória visual. Eu sei disso porque eu vivi durante todo esse tempo da minha vida sabendo o quão importante é o registro e que parte do que eu ganho hoje vem da venda de fotos de arquivo.

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Projetos

A minha proposta de vida é o Brasil. Todo o meu trabalho foi dedicado a fazer coisas do Brasil, por isso a minha pretensão de fazer um livro cujo título já está definido, “Brasil, Meu Olhar Enternecido”, que é a visão de um fotógrafo sobre o Brasil. Já comecei no ano passado… já comecei desde que eu sou fotógrafo… Vai ser um livro de quando eu comecei a ser fotógrafo até uns dois anos atrás, com uma trajetória, e outra trajetória agora a partir do ano passado, quando eu fiz uma viagem do centro do Brasil até o Norte e o Nordeste, pra ter um Brasil contemporâneo. No fim do ano eu vou fazer a fronteira oeste do Brasil. Eu vou do extremo sul do Brasil ao extremo norte pela fronteira oeste. Paraguai, Uruguai, Argentina, tudo pela margem brasileira fazendo esse trabalho fotográfico e o ano que vem eu venho pelo litoral; aí eu fecho num período de três anos o Brasil contemporâneo. Assim eu tenho o Brasil dos 30 anos passados e os três anos de um Brasil novo, que é um Brasil de uma visão um pouco diferente da que eu tive. Eu já convidei uns escritores que eu gostaria que fizessem o texto. Como eu te disse, eu aprendi muito a fazer isso, eu tenho know-how agora pra fazer, sei como convencer as pessoas que são capazes de me ajudar a fazer um bom trabalho.

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Tambor de Crioula

Eu acho que só sou um pesquisador de DNA. Meu pai era segregado. Minha avó, que era neta de ingleses, não gostava do meu pai porque ele era mulato e então ele tinha segregação dentro de casa. O marido da minha avó era filho de ingleses. Eu não conheci meu avô, mas meu pai era um segregado, meio mulatinho, e a família não gostava muito dele. Eu via aquela história e achava meio esquisita. Eu não me sentia segregado porque a pele negra em mim não é assim proeminente, mas como eu gostava de pesquisar, comecei a perguntar quem era, como era e a história toda. Eu gostava de ver os negros, eu gostava da manifestação, da história deles. Li a história de Zumbi. Com meu interesse jornalístico, já fui até Palmares pra saber onde era o quilombo. Tudo que eu queria fazer é conhecer o Brasil. Eu quero ir atrás, porque eu acho que tem muito mais para ser conhecido. Em Minas Gerais era um negro sofrido, negro tímido, e até hoje o negro é muito discriminado lá. E na Bahia não, negro é lindo, black is beautiful, o negro tinha identidade. Depois, fui pro Maranhão estudar e fiquei lá três meses estudando o Tambor de Crioula, o Mina. O Tambor de Crioula é muito popular e eu fui ver o Mina Jeje e o Mina Nagô, que são duas entidades negras, de religiões negras mais fechadas. Como eu estava lá, eu vivi um pouco com a história deles, mas eu não consegui ser antropólogo. Sobre a história de antropologia, quando eu fui pra Brasília para estudar – já tinha feito cursinho, preenchido ficha, pagado inscrição –, e um dia antes do vestibular um amigo meu me convidou para trabalhar com os índios Ianomâmis em Roraima. No dia seguinte era o vestibular. O vestibular ficou e eu fui pra Roraima. Eu vi a fila do vestibular pela janela do avião… Tchau, carreira acadêmica. Essa experiência com os Ianomâmis foi absolutamente revolucionária, porque o índio era uma coisa romântica e também uma história pesada, forte, de abandono, prostituição, mas muito interessante, por que o índio é bonito. Eles são bonitos, fora da couraça em que eles estão todos fodidos. Foi construída uma estrada pela qual vieram a gonorréia, o sarampo, a tuberculose, a trocar sexo por biscoito, a trocar sexo por roupa e os problemas de doença de pele. A nossa idéia era a reconstrução de uma aldeia, mas por um puta azar nosso, o Geisel fez um decreto em que os antropólogos estrangeiros não podiam mais trabalhar nas áreas de fronteiras e eu trabalhava com um antropólogo escocês. Nosso projeto abortou e eu fiquei lá só um mês com os Ianomâmis. Mas se não ficasse, talvez hoje estivesse lá ou até ia pra outro lugar. A idéia era ir morar com eles.

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Fernando Brant / Clube da Esquina

Eu estava entrando no jornalismo e trabalhava num emprego público. Queria fazer jornal lá e ao chegar na revista O Cruzeiro, meu parceiro foi o Fernando Brant. Ele ele que me introduziu. Nos trabalhávamos juntos e no fim de tarde íamos tomar cerveja com Milton Nascimento, com Márcio Borges, com Lô e aí vem Toninho Horta e todo grupo. Eles iam para Belo Horizonte e o Fernando Brant era muito catalisador. Ele é uma figura, um cara maravilhoso, que aproxima as pessoas. Ele tem uma atração absurda, até hoje é um pólo, e ele me apresentou a todo mundo. E como era maravilhoso ficar perto das pessoas que faziam música, eu fiquei, e ai o Milton me convidou, junto com o Fernando Brant, para eu fazer as fotos do álbum “Clube da Esquina”, aquelas fotos do primeiro . E eu fui, com o Brant, conhecer todos que moravam em Belo Horizonte e fiquei nove meses trabalhando aqui com o Fernando. Nesses nove meses foi muita intensa a aproximação do pessoal que estava fazendo ainda a produção do primeiro long-play do Clube da Esquina. Tinha fotos da gravações, mas também tinha os retratos dos amigos que o Milton queria homenagear, que ajudaram ele. Aqueles são os amigos do Clube. Essa foi minha proximidade, mas aí O Cruzeiro me contratou e eu saí fora do Clube da Esquina. Fui pra Bahia, mas continuamos os laços de amizade. Os amigos sempre vinham me visitar e continuei visitando os amigos e até hoje nós temos uma relação afetiva. Foi criado o museu há pouco tempo e eu sou sócio fundador. Teve uma festa linda. Essa é a história do Clube.

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Projetos Futuros

Minha vontade é de publicar um livro de texto que eu até hoje eu não li, um livro que conte a trajetória de um fotógrafo brasileiro, de como é a vida dele. Já está escrito e eu quero arrumar uma editora, mas eu tenho uma certa timidez com meu próprio trabalho. Eu sou muito capaz de desenvolver o trabalho dos outros, mas sou muito criterioso com o meu e então eu fico assim. Ele está escrito há muito tempo, meu irmão já leu, revisou, a família me deu força, mas fica lá quietinho. Eu me propus para em 2006 publicar esse livro e então acho que no ano que vem eu viro uma outra página na fotografia. Não sei se é definitivo, mas vai se chamar “Meu Olhar”. Já o livro de fotografias vai se chamar “Brasil, Meu Olhar Enternecido”, que e só sobre o Brasil. Talvez ele chame outros e outros e outros.

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