Louise Martins (Lelete)

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, local e data de nascimento

Meu nome é Louise Margareth Martins. Nasci em Belo Horizonte, em 20/02/1957.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Pais

Meu pai é Levi Inácio Martins e minha mãe Iolanda Morim Martins. Minha mãe era do lar e o meu pai é construtor, tem uma construtora.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Ligações com a música

Minha ligação com a música é que eu sempre gostei de música e fui casada com o Gonzaguinha – que é um dos grandes compositores brasileiros.

Voltar ao topo GONZAGUINHA

FM 98

Eu conheci o Gonzaguinha quando trabalhava na primeira FM do Brasil que foi a 98, que era a Rádio Del Rey na época. Daí que o conheci quando era relações públicas da Credial Turismo, também. Um amigo meu que tinha uma casa em Nova Lima – chamava Pedro Paulo – levou o Gonzaga para conhecer esse restaurante dele. Eu estava lá nesse dia e aí o conheci. Daí ficamos grandes amigos, até que um dia não teve mais jeito, o Gonzaga mudou pra Belo Horizonte e viveu aqui 11 anos antes dele falecer. Ele veio para Belo Horizonte por minha causa, porque ele é carioca, ele tinha a vida dele lá e tal. Aí ele resolveu mudar pra Belo Horizonte porque aqui é a ponte aérea pro Brasil inteiro e ele já estava meio cansado do Rio de Janeiro, e achava que o Rio era só uma grande vitrine e que ele estava precisando de uma calma maior. Então ele veio para Belo Horizonte. Mesmo porque eu tinha o meu trabalho aqui e não abria mão de sair daqui também.

Voltar ao topo PESSOAS

Cláudia Brandão

A Claudinha desde os 11 anos de idade andava muito com os meus irmãos mais novos, então ela é como se fosse uma irmã mais nova minha, sabe? Ela foi criada dentro da minha casa, a minha mãe adorava a Cláudia. E é uma pessoa muito especial, sou madrinha da Isabel, da filha mais velha dela. E eu que fiz esse grande casamento, sabe? Porque forcei a barra, acabou todo mundo casando e deu o maior pé do mundo. Estão há 20 e tantos anos juntos já, Cláudia e Márcio Borges.
A Claudinha passou a conviver muito com essas pessoas por minha causa porque ela andava muito comigo e com o Gonzaga e ia pra show conosco, pra casa do Fernando Brant.

Fernando Brant

Então no Clube da Esquina, a pessoa chave na minha vida, que começou a história toda com o pessoal foi o Fernando Brant e eu ia muito pra casa do Fernando. O Gonzaga era muito amigo do Fernando, então nós sempre convivemos muito com o Fernando, com a Leize e com as duas meninas. Depois que eu fui conhecendo as outras pessoas: o Beto Guedes, o Marcinho, o Lô, as outras pessoas todas; mas o primeiro contato foi com o Fernando. O meu relacionamento mais forte assim no começo foi com o Fernando.
Eu os conheci assim, eu tinha 18 pra 19 anos de idade, a Ana Luiza ainda era bebezinho. E foi ótimo, eles moravam lá na Cachoeirinha, só que num outro lugar, e a gente ia sempre pra lá, ficava lá conversando horas e horas, tomando cerveja, e sempre um grande papo. Fernando muito amigo, Leize também, e pra mim são pessoas que eu adoro e tenho, sabe, no fundo do coração porque me deram muita força. A Leize foi uma pessoa que descobriu que eu estava grávida, então era uma pessoa que eu tinha uma intimidade muito forte. Nós somos muito bem relacionadas até hoje.
O Gonzaga não tem nenhuma parceria com o Fernando. Aqui em Minas ele só tem parceria com o Tavinho Moura. Mas com o Fernando eu acho que ele tinha medo do ciúme do Bituca e o Fernando também, então, aí ficou (risos). Eu acho que se ele tivesse vivido mais um pouquinho, forçosamente ia acontecer alguma coisa, entendeu? Digo, naturalmente. Não forçosamente, desculpe.

Voltar ao topo VIVÊNCIAS

Relacionamentos

No nosso circulo de convivência rolava muita música. Primeiro que eu estava sempre em contato com pessoas que estavam criando o tempo inteiro, não é? Então um fazia e mostrava para o outro. Acabava todo mundo participando, palpitando. Então era uma coisa muito forte na época porque estava todo mundo muito produtivo. O Brasil inteiro foi assim uma época de grande atividade musical, os anos 80, era uma coisa borbulhante o processo de criação de todos eles. Então era muito interessante, cada hora você via uma coisa mais perfeita sendo criada porque todos são geniais, não é? Então, era ótimo!

ADOLESCÊNCIA
Músicas que ouvia

Olha, eu vou te falar, eu não ouvia música nacional não, eu sou da geração, sabe, que foi totalmente… Recebeu uma lavagem cerebral, na época. Então era um povo que não participava ativamente da política. Então quero dizer, a minha geração é bem distante da do Gonzaga, da do Fernando e tal, são muitos anos de diferença. Eu passei a participar mais ativamente da música nacional depois de conviver com o Gonzaga. Antes o meu negócio era Jethro Tull, Ten Years After, sabe? E outras coisas mais, que era o que a juventude na época ouvia, era música internacional. Então só depois dessa convivência que eu passei a participar mais, ir em gravações de pessoas interessantes como a Elis e várias outras pessoas. Então você passa a conviver em outro mundo. E mesmo porque a qualidade ficou muito forte, não tinha jeito de qualquer classe social ou de qualquer faixa etária não ouvir aquele tanto de coisa boa que estava sendo criado naquela época.

Voltar ao topo GONZAGÃO

Família

Meu sogro ficou aqui em casa muito tempo, ele ficou se tratando aqui muitos meses, porque ficou muito doente. E a grande aproximação do seu Luiz com o Gonzaga, foi justamente na época que nós fomos viver juntos, porque ele não tinha muita convivência com o Gonzaga antes da gente viver juntos.
A relação dele com o Gonzaga era ótima, sabe? Ele descobriu que o filho dele era uma pessoa admirável. E a grande divergência, que era uma divergência política, com o tempo as coisas foram mudando, a situação do país, o comunismo já não virou aquela coisa de comer criancinha, aquela coisa ridícula. Então as pessoas passaram a respeitar as outras, politicamente falando. Meu sogro, por sua vez, se viu também numa imposição do momento de aceitar que o filho dele tinha uma maneira diferente de pensar, que não era uma maneira PDS, “pedesista”. Ele, dentro da visão do nordestino, era perfeita sua posição política, sócio-política, entendeu? Porque o que funciona, o que funcionava no Nordeste era o PDS mesmo. Era ali que ele conseguia os grandes frutos, as rodovias, os grandes recursos pra região que ele tinha grande interesse. E depois ele passou a conviver com o Gonzaga e viu que o Gonzaga também, que a visão política do Gonzaga era uma coisa super interessante, e que ele visava o social plenamente. Teve um dia lá em casa que ele fez um comentário, quando viu o Gonzaga falando na televisão, ele falou: “Como ele fala bem! E eu que pensei que o meu filho fosse um comunista, ele é um estadista!” Sabe? Então, quer dizer, ele passou a ter muito orgulho do poder do Gonzaga, da visão de futuro que ele tinha. Era um cara que fez o próprio selo; tinha sua própria editora. O trabalho dele era todo super organizado; ele tinha uma produtora. Quer dizer, era uma pessoa que ele passou a ver com os olhos de maravilha.

Voltar ao topo CIDADES

Exu

Há muitos anos existe um Museu do Gonzagão lá em Exu. Esse museu foi idealizado pelo meu sogro. Ele planejou isso em vida; ele que organizou tudo, arranjou as museólogas para fazer o museu. Ele e a dona Helena Gonzaga pegaram todo o material, organizaram tudo. Só que ele não ficou pra ver e quem inaugurou esse museu foi o Gonzaguinha e logo depois eu continuei lá dando um apoio e agora quem toca isso tudo é o pessoal da região mesmo. E nós temos uma fundação que se chama Fundação Asa Branca, e é essa Fundação Asa Branca que gera recursos e promoções pra esse museu.

Belo Horizonte

Olha, quando o Gonzaga veio pra BH, até o linguajar, a maneira de falar eu acho que ele acrescentou muito “uai”, muito “ocê”. Então, ele pegou a… E fora que ele gostava imensamente de Belo Horizonte, se sentia super bem aqui – de estar vivendo aqui. Tanto que ele foi enterrado aqui, também. Daí que eu acho que o lugar em que ele melhor viveu, realmente, foi aqui. E aqui é ponte aérea pro Brasil inteiro, então isso nunca atrasou a vida dele. Ele era um homem que vivia no ar, não é? E ele tinha um ponto chave que era o escritório no Rio, então todas as ações eram ligadas a esse escritório e pé no mundo!

PESSOAS
Gonzaguinha

O Gonzaga era uma pessoa muito forte. Quem se aproximava dele via que ele valia a pena porque ele era uma pessoa altamente interessante, sabe? Um homem verdadeiro, uma pessoa sem “nove horas”, sem meias palavras. Isso assusta, mas ao mesmo tempo eu acho que é muito valoroso. Assusta quem tem a mente estreita. Agora, quem está pronto pra ver o mundo de verdade gosta desse tipo de gente, gente verdadeira, que não vai te mentir, que não vai omitir nada, só pelo prazer de ficar omisso, em cima do muro. Isso ele nunca fez.

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Movimento

O Gonzaga era apaixonado com o povo todo, principalmente o Bituca. O Bituca era o ídolo do Gonzaga. E o Fernando, ele era louco com o Fernando. O Marcinho também, ele achava que o Marcinho era um dos grandes gênios da MPB, que era um grande compositor. Então o Clube da Esquina eu lembro que a primeira vez que eu ouvi foi com o Gonzaga, na casa do Fernando. Depois eu levei esse disco pra casa. Eu até mostrei esse disco pra Claudinha, acho que foi a primeira vez que ela ouviu na vida, foi lá em casa. E tem uma grande história na vida da gente. Porque é um Clube, é um grupo de pessoas muito fortes e cada um tem um plano de vôo pleno independente e, ao mesmo tempo, super juntos todos. E eu acho grande barato isso, sabe? Porque o trabalho deles se interligam de uma maneira muito plena; tanto o Fernando com o Bituca, com o Ronaldo, com todos. É uma coisa muito natural, a ligação do grupo. Acho que isso é o grande lance do Clube da Esquina.

Voltar ao topo BITUCA

Milton Nascimento

O Gonzaga era muito amigo do Bituca. Ele chegou até a morar um tempo na casa do Gonzaga, no Rio de Janeiro, e eles eram amigos há muitos anos. Nós convivemos com o Bituca muito pouco porque o Bituca, ele também, é uma pessoa muito fechada e tal, mas nas oportunidades que nós tivemos contato foi ótima! Foi sempre ótima! Bituca é uma pessoa ótima!

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Avaliação

O Clube da Esquina não foi importante só para a música brasileira, mas para a música mundial, não é? Porque eu acho que o Clube da Esquina é uma referência pro mundo, não é pro Brasil. O Bituca, por exemplo, é um dos maiores instrumentistas, intérprete e compositor do mundo. Eu acho que é uma das vozes mais plenas no mundo inteiro, não tem, sabe assim? Ele é hours concours. E por sua vez eu acho que o trabalho de todos já está assim super reconhecido mundialmente, não só pela força de penetração que o Bituca tem, mas pela qualidade, pela essência do trabalho deles.

Voltar ao topo *FAMÍLIA

Filhos

Na verdade eu tenho quatro filhos. Porque eu ajudei a criar três do Gonzaga e a Mariana, que é a minha filha com ele. A Mariana – ela tem 23 anos – é uma pessoa maravilhosa. Ela toca violão, toca teclado. Formou-se em farmácia agora. Então ela é a única que não mexe com música e ao mesmo tempo tem música no sangue, não tem jeito, cara, não adianta! Então quando abre a voz tem uma voz plena, uma voz maravilhosa. A Fernanda e a Amora têm um grupo que se chama As Chicas, no Rio de Janeiro. E o Daniel Gonzaga ele é compositor e tem um trabalho muito bom. Um trabalho muito denso, mas é MPB boa, de qualidade. Muito bom, todos os três.

Voltar ao topo MUSEU

Clube da Esquina

Olha, essa iniciativa é a coisa mais perfeita. Porque eu acho que essa onda digital tem que ser divulgada da melhor maneira. E por exemplo, o trabalho do Gonzaga é uma coisa que está meio à gauche, por quê? Porque ele não está aqui pra divulgação e porque não tem uma penetração grandiosa nos meios de comunicação. E, por exemplo, a juventude não sabe quem é Gonzaguinha, eles sabem quem é Gonzagão, o velho da sanfona e tal. Por quê? Por causa da onda de forró que teve aí, então todo mundo conhece as músicas e tal. E o Gonzaguinha foi um dos grandes compositores que nós tivemos e, no entanto, é uma pessoa que se você for numa faculdade, se você chegar numa sala, poucas pessoas vão saber quem é Gonzaguinha. Aí vira e fala assim: “E aquela música: O que é o que é?” Aí todo mundo sabe. Pois é, essa música é daquele cara, entendeu? São coisas, por exemplo, que as pessoas criam que marcam e tal, mas o Brasil é um país muito sem memória. Então, acho importantíssimo esse trabalho justamente por isso, porque essa falta de memória, falta de cultuar a memória é uma coisa que nós temos de muito ruim. Você vê, nos Estados Unidos, o Elvis Presley é cultuado até hoje, absurdamente. O Seu Luiz Gonzaga é um Elvis Presley do Brasil e, no entanto, não existe nenhum tipo de propagação da imagem, de “forçassão” de imagem com a juventude, pra saberem quem foram os grandes nomes, do país. Porque eu acho muito importante, porque um país sem memória não tem nada.

Voltar ao topo *TRABALHOS

Resgate da obra de Gonzaguinha

O último disco que ele deixou pronto eu lancei pela Som Livre. Agora, ele tem muitas músicas inéditas. O Daniel, filho dele, vai gravar um disco de obras do seu Luis Gonzaga, e dele. Tem um outro projeto muito interessante que é um filme que o Breno Silveira, o mesmo cara que fez o Dois Filhos de Francisco, está fazendo agora: Gonzagão e Gonzaguinha. E tem um livro que foi lançado agora há pouco tempo, da Regina Echeverria. E, breve, nós vamos ter o grande evento que são 100 anos de Gonzagão. Mais na frente vai acontecer um grande movimento, uma grande movimentação em torno dessa memória toda.

Voltar ao topo DO CLUBE

Considerações finais

O que eu quero dizer para a próxima geração é que esse Clube da Esquina vale a pena demais ser lembrado e tem que ser revista essa obra toda, com muito carinho. Eu acho genial esse trabalho deles saírem pelo Brasil itinerante, com o Museu itinerante. Então isso pra mim é o ponto chave. Achei isso genial. Eu fui em dois lugares já, e achei genial. Fui num show do Flavinho; num show do Beto, do Lô. Então, eu acho perfeito, mas no interior é mais emocionante, sabe? As pessoas vivem uma possibilidade totalmente diferente. E é uma coisa de muita emoção e eu acho que as pessoas têm mais é que aproveitar essa onda, essa possibilidade, desse canal aberto digital que eu acho que é a coisa mais fantástica.
Agora, eu queria falar o seguinte: essa cumplicidade minha com a Claudinha e com o Marcinho é uma das coisas melhores que existe, sabe? A Claudinha é uma filha que eu tenho, que cuidei assim com o maior carinho e cuido até hoje. E o Marcinho eu só tenho a agradecer pelo carinho que ele cuida dela, sabe? E as meninas maravilhosas que ele deixou pra gente. E fora as pérolas musicais.

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