Luíz Alves

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome/ Local e data de nascimento

Meu nome é Luíz Carlos Carvalho Alves. Sou carioca, nasci no Rio de Janeiro, em Botafogo, no dia 5 de outubro de 1944.

FAMÍLIA
Pais

O nome do meu pai é Augusto Freitas Alves e o da minha mãe é Léia Carvalho Alves. Meu pai era cunhador de moedas da Casa da Moeda, mas era músico também. Tocava violão. E minha mãe era do lar. Meu pai tocava música regional. Ele tocava com a Carmélia Alves e tinha um conjunto vocal também. Era a época do rádio.

FORMAÇÃO MUSICAL
Primeiro instrumento

Eu acredito que o meu gosto pela música vem do fato de o meu pai ser músico. E a minha mãe também gostava de compor, gostava de cantar. E eu tenho um tio, que é o mais novo dos irmãos do meu pai, que era uns cinco anos mais velho do que eu, que era músico também. Ele, o Fernando, tocava bateria. Me influenciou muito. Ele ficava me ensinando aquelas coisas. Tudo o que ele aprendia sobre percussão, ele me ensinava, mas eu também aprendia violão com o meu pai. Então eu fiz aquela miscelânea toda de percussão com violão. Eu tinha uns oito anos de idade. Eu ainda não tinha nada definido sobre o que eu queria ser, se eu queria tocar ou não. Eu era moleque, queria brincar na rua, jogar bola, aquelas coisas. Eu somei cordas e percussão e deu uma boa salada. Meu avô era cearense, minha avó também. A minha mãe era carioca, filha de português. Quer dizer, uma salada, uma coisa brasileira.

FORMAÇÃO MUSICAL
Profissionalização

Eu comecei a estudar violão com o professor Joaquim Naegli, no Méier, no subúrbio do Rio. Com 15 anos, formei um conjunto vocal. Nós fomos pra Rádio Mayrink Veiga e começamos a tocar. Isso foi em 1958. Eu tinha uns 15 anos. Depois, eu comecei a fazer baile. E quem sempre me influenciou muito foi esse meu tio, o Fernando Careca. Ele chegou pra mim e falou: “Por que você não toca contrabaixo. Você tem jeito pra harmonia”. Eu não era muito solista, não era como aqueles caras espevitados, de ficar solando. Eu era mais tímido. Eu era guitarra base, fazia mais base. Então eu fui. E nisso já tinha uns 18 anos. Fui servir no exército, servi como pára-quedista aqui no Rio, e quando eu dei baixa do exército, não sabia o que eu iria fazer da vida. E tinha uma boate no Rio chamada Drink pra onde todos iam de fim de semana.
Naquela época, todas as boates, todos os bares tinham um conjunto trabalhando, porque a música era ao vivo. Não tinha negócio de DJ, de rap, não tinha nada disso. Tudo era música ao vivo mesmo. Então o coro comia. Todo mundo trabalhava. E aí o Fernando, meu tio, falou assim: “Estão precisando de um baixista lá na boate Drink”. E nessa boate Drink tocava o Djalma Ferreira, cantava o Miltinho. Era uma boate famosíssima ali naquele centro do Leme, aqui no Rio. E tinha uma boate chamada Arpege que era do Valdir Calmon. Tinha a boate Fred’s, do lado, que tinha show com orquestra, tinha show de carnaval. Tinha a boate Sacha´s também. E eu fui. Cheguei à tarde na Drink pra ver como é que eu iria tocar, ensaiar. E quando eu cheguei lá, um amigo do meu tio, chamado Tião, que até já faleceu e que tocava baixo na boate, me deu umas dicas sobre como se pegava no instrumento. Era um instrumento com escala de baixo acústico, mas era elétrico. Era um instrumento alemão. O primeiro que eu vi daquela época. Era um baixo Framos. E toda a escala de baixo acústico era com espelho, mas o corpo era pequenininho, elétrico. Aí eu falei: “Ih, meu Deus, piorou”. Eu tocava violão, harmonizava, tinha bom ouvido, musicalidade, mas ainda faltava. Tinha que ter estrada, tinha que começar a estudar pra poder tocar direito. Quando chegou a noite, arrumei um terninho, um paletozinho, uma gravata, fui lá e quando eu cheguei já tinham arrumado outro, porque viram que eu era muito novo. Me deram uma desculpa, mas eu saí.
Aí eu conheci o Anselmo Mazoni, pianista, que era muito amigo da minha família. Ele tocava na boate Arpege. Ele me viu lá e falou: “Você não quer fazer lá? Porque não tem ninguém tocando. Tá faltando músico. Você quer tocar lá?”. Daí eu fui. E no Arpege, os instrumentos eram aqueles baixos elétricos comuns. Aí era mais fácil até pra mim, porque como eu tocava violão, era mais ou menos a mesma afinação. A afinação do baixo é mi-lá-ré-sol, uma oitava abaixo. Então eu fui ficando no Arpege.

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Milton Nascimento e Som Imaginário

O Robertinho Silva tocava no Drink, que depois foi comprada pelo Cauby Peixoto. Eu o conheci assim, por acaso, porque eu tocava na outra boate. Nós fomos nos conhecendo quando nos encontrávamos nas esquinas, na hora do intervalo. Quando chegava a madrugada, a gente saía das boates e se reunia naqueles barzinhos pra jantar, pra bater papo. Foi quando eu conheci o Wagner. Eu achava que ele era garçom, porque ele não tinha a cara de hoje, parecia um garçom. Eu até falava pro Robertinho: “Pô, esse cara aí é garçom?”. Mas era tudo numa boa. E o Wagner era muito amigo do Reizinho, que era um baterista. E a gente foi ficando amigo também. Uma vez, nós fomos pra uma boate e o Wagner estava tocando. Eu fiquei amarrado nele tocando. Falei: “Pô, o Wagner toca bonito à beça”. As harmonias já eram modernas. Então eu me amarrei no Wagner. E ele gostou da gente, pintou um casamento legal, musical.
E aquela época era bossa nova, dos trios, samba-jazz. Já era quase 70. Então nós resolvemos: “Vamos formar um trio, já que nós temos afinidade”. E fomos ensaiando, fazendo algumas apresentações. Quando eu conheci o Wagner, ele tocava com o Paulo Moura, e o Wagner me chamou pra tocar com o quarteto Paulo Moura. Éramos eu, o Pascoal Meireles, o Wagner e o Paulo Moura. Nós fomos tocar com a Maísa e depois que nós voltamos dessa temporada, nós fizemos com o Milton. Ele tinha feito o Festival da Canção e foi quando tudo começou. Foi o Wagner que nos introduziu nos mineiros. Foi ele quem apresentou o Milton pra gente. O Milton era novinho, tinha chegado logo na época do festival. O Wagner falava à beça dele: “Tem um amigo meu amigo que vocês precisam ver as músicas”. Então o Wagner apresentou a gente pro Milton e daí nós fomos tocar juntos. Nessa época, o Robertinho ficou tocando com o Cauby. Nós fizemos um show com o Milton Nascimento, Paulo Moura e mais um vocal, a Málu Balona. Aí, o José Mynsen chamou a gente, fim de 69, pra formar um grupo pra acompanhar o Milton. Ele já estava conhecido. Tinha feito sucesso com “Travessia”, mas ele ficou um pouco parado no tempo. Ele só fez aquele negócio e ficou meio indefinido. Aquela época era uma doideira danada, época da ditadura, uma barra. E foi o José Mynsen quem impulsionou o Milton, que já estava com aquela nova concepção de hippie, do movimento de paz e amor, essas coisas todas. E o José Mynsen deu a idéia de a gente fazer uma coisa mais descontraída, com todo mundo sem camisa, com cordão. Aí ele nos apresentou o Tavito, que eu não conhecia. A gente não conhecia o Tavito e o Zé Rodrix, porque a gente era mais músico de ficar tocando na boate, na noite, e o Zé Rodrix vinha de teatro, tinha uma outra concepção. Ele também tocava piano, tocava aquela ocarinazinha. Ele era muito talentoso. Foi uma fusão legal, que deu certo. Foi um som legal. Na época foi uma coisa até nova. Foi surpreendente. A gente tinha uma concepção pop, moderna, como o Gênesis. Mas não durou muito.

FORMAÇÃO MUSICAL
Aprimoramento

Eu conheci os Borges nas vezes que eu fui a Belo Horizonte. Nós fizemos show no Teatro Marília, em Belo Horizonte, com o Paulo Moura, e ali começamos a nos conhecer. Eu conheci o Marcinho, o irmão dele que toca piano também, aquela turma. E sempre que eu ia a Belo Horizonte, sempre que a gente ia fazer show, a gente ficava com aquela turminha. A gente se encontrava, ficava ouvindo música, mostrando músicas. E quando o Milton veio fazer o disco na Odeon, veio o pessoal pra cá também. Começou a vir o Beto Guedes, o Lô Borges. Eles eram mais novos. Depois, com o Milton fizemos o “Clube da Esquina.” Depois, tocamos no Som Imaginário. Aí foi uma mesclagem com o Toninho Horta, com aquela turma toda. Deu uma mesclada legal. Foi uma fase muito boa pra mim, particularmente, porque conheci muita gente boa, fiz grandes amizades e aprendi muito também. Aprendi muita coisa, porque o mineiro é o rei da harmonia. É uma harmonia musical moderna. É uma concepção diferente de tocar. E quando juntou conosco, os cariocas, aquela coisa deu certo.

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“Milagre dos Peixes”

Nós fizemos o disco “Milagre dos Peixes” com uma formação diferente, porque aconteceram várias coisas. Entrou o Fredera na guitarra, que depois saiu. O Naná Vasconcelos fazia a percussão, mas depois ele saiu. Daí teve uma outra formação, que era o Toninho Horta, o Nivaldo Ornelas, eu, o Robertinho Vale. Nós fizemos essa formação e tocamos com a Orquestra Sinfônica daqui do Rio e com a Orquestra Sinfônica de São Paulo, porque o disco foi gravado ao vivo. E aí eu me lembro que o Milton sumiu. A gente estava no Teatro João Caetano e na hora do show começar o Milton sumiu. Ele ficou nervoso e foi embora. Ele ficou com medo de entrar por causa da pressão política. Tempos depois, eu comentei com ele sobre isso, e eu não sabia que tinha sido por causa da pressão. Ele disse que estava sendo ameaçado e que tinha ficado nervosíssimo. E a gente pronto pra entrar no show, todo mundo esperando, e nada do Milton aparecer. Eu tinha visto ele sair. “Não fala nada que eu saí”, disse o Milton. Depois ele voltou. Acho que tinha dado uma volta de carro.
Então eu participei do “Milagre dos Peixes” e depois nós fizemos algumas coisas juntos. Mas aí cada um tomou seu rumo e o Milton teve outras formações. O Som Imaginário também teve outra formação. O Wagner, como era o líder do grupo, continuou. Aí entrou o Jamil no baixo, o Paulinho Braga na bateria e uma época teve também o Novelli.

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Parcerias

Minha convivência com o Clube da Esquina foi mais profissional, mas a gente fez amizade. Ao longo desses anos, eu fui várias vezes a Belo Horizonte. Vira e mexe encontrava o Milton. Voltei a trabalhar com ele em outras épocas e, há pouco tempo, eu fiz aquele “Tambores de Minas.” Eu fiz esse show agora, o “Crooner”. Também viajamos. Fomos pra Europa, eu, o Toninho Horta, o Wagner, o Robertinho. Fizemos com o Milton a excursão pela Europa. Foi um envolvimento mais profissional, mas a amizade ficou. Somos amigos até hoje. A gente se ama.

DISCOS
“Clube da Esquina”

Eu acho que o “Clube da Esquina” foi um marco na música brasileira. Era uma época que não estava acontecendo nada no Brasil em termos de música. Estava tudo parado e foi uma coisa nova, uma inovação mesmo diante da música brasileira. Assim como tem a concepção da música da bossa nova, antes da bossa nova e depois da bossa nova, também tem a do Clube da Esquina: o antes e o depois na música brasileira.

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Clube da Esquina: Avaliação

Eu vejo o Clube da Esquina como um movimento muito forte, mas eu acho que tinha que ter uma dimensão maior. Eu acho que a mídia deveria divulgar mais. Foi um movimento musical-político. As letras do Márcio eram muito boas, assim como as do Ronaldo. O próprio Ronaldo é um poeta também. Surgiram grandes músicos e grandes escritores. Acho que tinha que ter um empurrão maior em cima disso, como tiveram os baianos. Hoje em dia, só estão os baianos por cima da carne seca. Só dá baiano. E eu não sei por que esse movimento, que também foi um movimento forte, não aconteceu muito. Eu não sei se é porque o mineiro é meio quieto. [Risos] É isso aí.

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Clube da Esquina

Eu achei sensacional essa idéia do Museu. Quando o Márcio me falou dessa idéia, eu disse: “Pô, até que enfim apareceu alguma coisa pra levantar!”. Porque teve uma época em que a Gisele me ligou – já tem uns anos isso – querendo fazer um show pra reacender a chama daquele movimento, da época do Som Imaginário. Quer dizer, do nosso grupo. Aí não sei o que houve, a Gisele falou que teve uns problemas, aquelas coisas particulares que a gente não sabe. E, infelizmente, ficou por aí mesmo.

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2 Mensagens para Luíz Alves

  1. willian lott disse:

    Adorei o site e adorei a entrevista do Luiz. Mas quero muito uma informação do próprio Luiz Alves. Toquei na França com o tio dele, Fernando, em 1990. Nunca mais tive notícias dele e gostaria de saber como ele está.

  2. ricardo Sa disse:

    Concordo 100% que os baianos tiveram maior midia (até hoje).O Clube da Esquina para mim foi no inicio dos anos 70, tenho amigos com diferença de 10 anos, que curtiram a fase Lo, Beto e Venturini. Meu genro 35 anos curte tudo e toca violão do CE.Quem tem bom gosto e incorporou as musicas nas passagens da sua vida reconhece o CE no cenario da MPB.Eu curto todas as fases!! Cheguei neste site procurando quem foi o baixista do CE,. Descobri! o Grande Luiz Alves com grandes performance, jamais vistas na época!! Li e reli o livro do Marcinho !!!