Luiz Otávio Faria

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, data e local de nascimento

Meu nome completo é Luiz Otávio Chaves Faria, daqui do Rio de Janeiro e minha idade é 54 anos, nasci no dia 9 de maio de 1953.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Nome e descrição da atividade dos pais

Geraldo Chaves Faria e Lílian Maria Chaves Faria. Meu pai ainda está vivo, minha mãe morreu. Meu pai é um aposentado hoje, porque ele tem 83 anos. Ele é um ex-militar e foi executivo de empresa, essas coisas, e vive em São Paulo. E a minha mãe, ela morreu quando eu tinha 11 anos de idade. Então, a visão que eu tenho da minha mãe é aquela da criança de 11 anos de idade. E acho por isso que eu me apaixonei pelas mulheres de uma maneira bem forte. É isso.

Voltar ao topo PARENTES

Avós maternos

Eu fui criado pelos meus avós maternos. Eram dois italianos e primos-irmãos. Ele se chamava Silvano Armando Delanina e a mãe da minha mãe chamava Armanda Ema Fabrina Polverelli Lupatelli Delanina. E a minha mãe quando casou com meu pai, abdicou de todos os nomes que ela tinha italianos para ficar com o sobrenome do meu pai, que é de uma família mineira. O pai do meu pai era mineiro e foi um marechal, que é o Caetano de Faria; é uma família Caetano de Faria. E aí casou com a minha bisavó. E meus avós maternos me criaram, porque minha mãe quando morreu, eu tinha 11 para 12 anos de idade. E quando ela morreu a estrutura familiar desabou. Ela morreu de câncer, então ela demorou cinco anos para morrer. Nesses cinco anos, meu pai foi morar em São Paulo, foi trabalhar e a gente ficou vivendo com meus avós. A gente morava em Ipanema e meu avô e minha mãe eram vizinhos no mesmo edifício. Então quando ela ficou doente, por um tempo ficou aquela estrutura da casa. Mas, depois, ela teve que ficar com os pais dela. Porque meu pai morava em São Paulo, trabalhava, vinha no fim de semana, ficava aquela coisa. O negócio foi quebrando, quebrando, até que ela morreu. Já estávamos praticamente morando com meus avós mesmo, aí continuamos.

Voltar ao topo *FAMÍLIA

Irmãos

Eu sou o caçula, tenho irmãos mais velhos. Um morreu no ano passado com 59 anos, tenho um irmão mais velho com 60 anos e tenho uma irmã com 55.

Avós
Meu avô era um funcionário público e minha avó uma italiana, dona de casa, uma “mama” mesmo. E nós fomos criados, em uma família italiana, italiana mesmo, porque meus avós vieram da Itália, então eles tinham o hábito… eu nunca comi uma massa que não tivesse sido feita em casa. Minha avó tinha um espaço lá na casa, na cozinha, que era só das máquinas de fazer massa. Então ela fazia massa: “Vai comer o que hoje?” “Ah, vai comer espaguete”. Ela fazia, botava massa na máquina que fazia espaguete, lasanha, raviolli. Então eu sempre comi massa feita em casa, aquela coisa da família italiana. E isso foi o legado que eles deram, até hoje eu adoro um bom vinho, adoro uma boa comida.

Voltar ao topo FORMAÇÃO PROFISSIONAL

Fotografia/Arquitetura/Cinema

O negócio da minha paixão pela fotografia foi uma coisa de garoto. Eu fui criado na praia, na beira do mar. Então eu vivia na praia e Ipanema, é um visual aquilo. Então desde pequenininho, eu pegava onda e tal e sempre adorei a coisa da fotografia, de registrar alguma coisa. Mas quando eu era novo, o filme era caro, a máquina fotográfica era cara. Então eu tinha aquela vontade. Fui crescendo, estudando, fui fazer arquitetura. No meio da arquitetura conheci um fotógrafo e falei: “Eu quero aprender”. O cara falou: “Se você quiser você faz a assistência”. Aí eu ia para lá, não ganhava nada, mas o cara deixava eu ficar lá no estúdio dele. E com aquilo lá, ele viu meu interesse, eu era um jovem de 16 anos, interessado, eu ficava lá limpando as máquinas dele, lentes. E aí ele foi vendo meu interesse. Depois eu conheci um cara que me colocou na coisa do cinema. Porque na verdade, eu sempre fui uma pessoa de cinema, de fotografia em movimento. Então, entrei na televisão e com 18 anos já estava trabalhando na televisão. E com 20 anos eu já era cinegrafista na TV Globo. Só que naquela época, na década de 1970, não existia o vídeo. O vídeo que existia era para fazer em estúdio, aquelas câmeras grandes e tal. Tudo que era feito em termos de jornalismo, era em 16 milímetros. Então, o indivíduo para ser fotógrafo, tinha que estudar fotografia, saber o que é um filme, qual é a asa daquele filme, o que aquilo dá, a relação velocidade/diafragma, aquelas coisas todas. Então a gente tinha que estudar, fazer cursos. E você ia fazer uma reportagem, uma matéria que o cara te dava um rolo de filme e falava: “Olha, você tem dez minutos só e vai chegar fulano no aeroporto”. Então você com aquele rolinho de filme, tinha que fazer os dez minutos legais. Então você tinha que chegar lá, medir a luz com fotômetro e rodar. E então isso fez uma escola de geração de fotógrafos de fotografia de movimento e de cinema, com uma experiência muito grande. Porque a gente aprendeu realmente o que é. Porque hoje temos as câmeras de vídeo, digital, onde a garotada aprende que: “Tem que bater um branco aqui, aperto outro botão, dou cor no monitor, está colorido, bonito e foi”. Mas a fotografia é mais do que isso. Eu comecei a trabalhar com televisão, até que um dia comprei uma máquina fotográfica, que eu gostava tanto e comecei a ganhar dinheiro. Com 20 anos já morava sozinho, já tinha uma profissão, estudava arquitetura e tinha uma profissão. Eu fiz a capa do Clube da Esquina já tinha 23 para 24 anos.

Voltar ao topo FORMAÇÃO PROFISSIONAL/CLUBEDAESQUINA

Capas de Discos

Estudava aqui no Rio, estudava na Gama Filha. Eu fiz a capa do Clube da Esquina, fiz a capa da Sarah Voughan, eu tinha 23, 24 anos de idade. Então eu comprei uma máquina fotográfica com vinte e poucos anos e comecei… Toda a experiência que eu tinha em filmar no meu dia a dia, eu comecei… Então, a fotografia estática me deu uma noção enorme de enquadramento. Porque a fotografia é o enquadramento. Você enquadra legal, você pode estar aqui em um ambiente onde tem isso tudo, mas se eu enquadrar só você, eu estou com a luzinha que está rebatendo ali no teu rosto… Então, me deu essa noção enorme do enquadramento. Eu comecei a fotografar. Um dia, estou filmando lá e um amigo meu: “Tu não quer fazer uma capa de disco, não?”. Eu falei: “Capa de disco? Faço”. Era de um grande músico de música clássica, que era o Marlos Nobre. Era Polygram a gravadora. Fui lá, fiz a capa do Marlos Nobre, aí o cara falou: “Eles gostaram, você não quer fazer a do Roberto Sidon?”, era um pianista clássico, aí falei: “Eu faço também”. Aí nessa foi… Um amigo meu, que é o Denis Carvalho, um dia falou: “Vou te apresentar um cara aqui que é demais”, que era o Bituca. Eu falei: “Ah, legal!”. Mas eu tinha uma vida naquela época que era intensa, eu queria saber de trabalhar e mulher. Minha cabeça era assim. Trabalhava, ganhava dinheiro, namorava e viajava. E como no meu trabalho eu viajava muito, porque durante anos eu trabalhei fazendo documentários pelo Brasil, documentários para a National Geographic, eu vivia viajando. E em uma dessas, ele me apresentou o Bituca. Um amigo meu me chamou para fazer uma capa dele, que era o Danilo Caymmi. Eu fui, fiz a capa do Danilo. Um dia a Nana chamou, era a irmã dele, “Tu não quer fazer a minha?”. Eu filmava e fazia umas capas. Só que naquela época fazer capa de disco era uma… Porque a capa de um disco, ela é a vida daquele artista. Então ali está a vida do cara. Então, você fazer a capa dele, o cara começa a te pedir um monte de coisa. E eu comecei a me envolver com isso e eu sempre fui ligado em música, então aquilo foi… Então a minha vida, eu morava em um apartamento, tinha três quartos, eu morava sozinho, a sala era um estúdio com as pranchetas, porque naquela época se fazia capa em uma prancheta. Então você tinha que mandar fazer as letras, já ver o tamanho das letras que tinha o corpo da letra e tal. A capa do Clube da Esquina foi uma loucura, eu e o Cafi fazendo a capa. Ronaldo Bastos era o produtor do disco, ainda ajudou a gente na criação da capa. E aí era uma loucura, porque era muita foto. E eu tinha na minha casa, aquelas pranchetas, então, se eu não estava trabalhando, filmando, eu estava fazendo capa de disco. Então a minha vida era só trabalhar e fazer isso. Então era assim uma coisa muito intensa.

Arquitetura

Para você fazer a planta de uma casa, hoje você faz em um computador, no Autocad, mas na minha época, você tinha que fazer em uma prancheta, com uma paralela e escrever a nanquim com normógrafo. Normógrafo, não sei se vocês sabem. E era com normógrafo que se escrevia. E eu era assim, perfeito em fazer isso, eu adorava fazer isso. E eu trabalhava com as canetas 0.5; 0.2; 0.1. E isso daí me deu uma noção, porque quando eu fui fazer capa de disco era a mesma coisa, eu tinha que criar dentro de um espaço. Então isso aí me deu um plus a mais. Porque antigamente, até hoje, o fotógrafo fotografa e um cara cria, faz a parte de criação. Mas só que eu e o Cafi, na verdade, começamos a misturar isso tudo, a fotografar e a criar. Porque já estava aqui, fazendo, já estava envolvido com o negócio, sabia desenhar: “Vou eu fazer tudo mesmo”, porque aí ficava mais fácil.

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Capa do Disco

Eu conheci o Bituca, e aí aquela coisa, a gente bebia, tomava uma e tal. E nessa, um dia ele falou: “Eu vou fazer um disco, você quer fazer a capa do disco?”. Eu falei: “Faço”. Quando chegou na época lá, ele falou: “Tem um fotógrafo que sempre faz a capa comigo que é o Cafi, então vou te apresentar ele”. É o Cafi que vocês devem conhecer; o Cafi é uma figura. Começamos nós dois a trabalhar. Não só fizemos à capa do Clube da Esquina, como fizemos a capa da Sarah Vaughan juntos também e fizemos outros trabalhos juntos. Mas dali criou uma amizade e tal e a gente curtia muito. Porque na verdade, o Clube da Esquina foram dois meses de gravação. Era toda noite, das nove da noite até o dia amanhecer e nós participamos todos os dias. Da capa do primeiro Clube da Esquina, isso daí foi uma coisa na estrada, tinha esses dois moleques e o Cafi tirou a foto desses moleques que estavam lá. Só que um era negro e o outro era branco. Foi uma coincidência porque nessa época a gente olhava muito para o céu, sabe? E o Cafi e eu, a gente ficava tirando muito foto de nuvem, por isso que pintou um grupo aqui no Rio que criava que era Nuvem Cigana. Tanto que a capa original do Clube da Esquina, ela tem uma nuvenzinha, o selo é uma nuvenzinha. E como aquela capa tem uma história maluca, porque a gente ia fazer uma coisa, depois resolvemos fazer outra, assim, da noite para o dia. E aí o diretor da gravadora, de marketing, no final falou: “Então inventa mais alguma coisa aí”. Quando ele viu a capa ele ficou tão encantado, que falou: “Então inventa”. Porque a gente chegava com a capa no original, no tamanho, com as fotos, que tinha que fazer um fotolito com aquilo. Então quando nós chegamos com a capa pronta, o cara olhou e falou: “Não acredito, isso é demais”. Aí falou: “Inventa um negócio aí”. Nós inventamos. “Inventa aí que eu vou pagar mais alguma coisa para vocês”. “Ah, legal”, então a gente inventou na hora. A gente botou essa nuvenzinha aqui, mas a gente estava querendo botar essa nuvenzinha para dar de brinde para o cara que comprar o disco, ele ganhava uma nuvenzinha para ele botar no carro, um adesivo. Tanto que na época os carros no Brasil todo ficavam com o adesivo da nuvenzinha. “Pô, do caramba! Legal, beleza”. “Ah, inventa outro agora”. Foi uma caixinha de fósforo com a nuvenzinha. “Ah, pô, legal”. Aí inventamos mais uma meia dúzia de produtos assim na hora, e aí a capa do Clube da Esquina veio com várias inovações. Como aquilo foi uma vivência, assim, era um encontro, todo dia um monte de amigos se encontravam e vinham outros talentosos a se agregar. Cada noite era uma festa e as únicas pessoas que fotografavam isso tudo era Cafi e eu. Então eu acho que foram dois meses, ou mais de dois meses, toda noite fotografando e a gente gastava filmes e filmes. Então, nós ficamos com um material, tanto que quando a gente foi montando a capa era tanta foto que às vezes, a gente estava… Era muita foto caia no chão e aí a gente pisava em cima. De vez em quando acabava pisando em alguma foto. Eu falava: “Pô Cafi!”. E ele falava: “Não, quando está pisando é que está bom. Quando está pisando em cima delas é que está legal”. Aí eu sabia, quando a gente já está pisando em cima das fotos é que está bom para caramba. Era muita foto mesmo, era foto demais. A gente tinha um laboratório dentro de casa e ia revelando, falava: “Não, essa aqui é legal”. Entrava dentro do laboratório, revelava: “Vamos botar essa daqui”. Então era todo dia fotografando. Só que a capa, quando a gente pensou, a gente pensou a capa em foto, ela seria uma foto de todo mundo. Quando você abre ela assim, a foto de todo mundo lá no meio. Mas a capa ela seria foto de todo mundo quando fosse pequenininho. E aí, começamos: “Você tem foto pequenininho”, “ah, eu tenho”, “tem que ser até cinco anos, aquela foto de oito anos, de você no colégio com a bandeira atrás”. Naquela época todo mundo tirava foto no colégio, com a bandeira do Brasil atrás. Então foi pintando foto de todo mundo e foi muito engraçado, porque às vezes tinha uns caras que não tinham nada a ver com o Clube da Esquina, e falavam: “Pô, estou sabendo que a capa vai ser as fotos de quando todo mundo era pequeno, dá para botar a minha aí, e tal?”. Então cada história muito engraçada. Mas aí o que aconteceu? Bituca já tinha pedido foto para o Wayne Shorter. O Wayne Shorter tinha mandado foto dos Estados Unidos, meio pequenininho. E quando aconteceu a gente foi saber que a mãe do Marcinho não tinha uma foto do Lô pequenininho. E aí dançou a nossa idéia, mas depois de a gente arregimentar essas fotos todas. Só que um processo de capa, de criação de capa, é um processo muito intenso, muito maluco, muito neurótico. Porque às vezes você está achando que vai fazer uma coisa e chega lá não é. E cada dia que você acorda você pensa que é de um jeito, e você já acorda e acha que é de outro. Isso você que está criando a capa. Ainda vem o dono do disco, no caso o Bituca, cada dia acordava e mandava uma vinheta. Até que o Bituca não era muito de ficar alugando, não. Mas às vezes, ele falava: “Vocês estão pensando em quê?”. “Estamos pensando nisso”. “Ah, legal!”. Mas é um processo muito… Então quando dançou isso, que a gente falou: “Oh, Bituca, nós estamos pensando em fazer isso, aí não tinha mais… nós começamos a trabalhar em cima disso, depois de um tempo falamos: “E agora rapaz, como é que vamos fazer? Como que vai ser isso?”. Aí pronto, ficamos malucos. Até que a gente pensando: “Bom, vamos fazer uma foto”. Ficou eu e o Cafi pensando. Um dia chegou o Vicente Bastos, irmão de Ronaldo Bastos, que tinha morado em Londres e tal. Ele chegou lá em casa quando a gente estava trabalhando e falou: “Rapaz, cheguei de Londres, vi essa exposição desse fotógrafo. Esse fotógrafo aqui é demais. Ele fez o trabalho todo da Revolução Industrial Inglesa”. E quando ele deu o cartão do fotógrafo, a foto é a capa do Clube da Esquina, aí quando eu olhei aquilo lá, os moleques todos pendurados olhando. Então aquela foto na realidade, aquela foto é uma foto de um fotógrafo inglês, do começo do século passado, que fez um trabalho fotográfico da Revolução Industrial Inglesa. E aí quando a gente viu aquilo ali, eu falei: “Cara, isso aqui é a capa do Clube da Esquina”, a turma toda olhando para onde, né? O Cafi: “Pô, é isso mesmo”. O Ronaldo: “É isso mesmo”. Só que aquela foto não era nossa, aquela foto era de um inglês. E eu falei: “Ronaldo, então agora o problema é seu. Resolvemos que a capa vai ser essa”. Aí ele virou: “Mas como é que a gente vai ter autorização?”. Foi uma maluquice, no outro dia, nós ampliamos a foto e tal. E na época estava se criando um processo gráfico que era um jato de areia. Quando a gente falou da foto, o Ronaldo foi para a EMI, que era Odeon, que era EMI inglesa, e falou: “Olha, os dois malucos lá falaram que a foto é essa, só que…”. “Esses dois loucos, como é que os caras… E agora, como que a gente vai ter autorização? Esses caras são malucos”. Aí falou: “Não, mas nós vamos ter que ter autorização, os caras resolveram que é isso”. E aí a Odeon aqui, falou com os caras lá na EMI, em Londres e eu só sei que em três dias apareceu a autorização da foto. Aí os caras falaram: “Oh, pode usar a foto”. Aí “Pô, legal”. Aí Cafi e eu fizemos um trabalho gráfico em cima da foto. Fomos para São Paulo em uma gráfica na época, era uma ótima gráfica. Fizemos um trabalho todo, passamos uma semana lá trabalhando com os caras. Eu falava: “Quero ver como é que fica assim”, aí o cara imprimia. “Não está legal” e o cara imprimia tudo de novo e até que chegamos lá na textura que a gente queria, e ficou aquilo lá. E aí quando foi lançado o disco, nós – para você ver como era uma loucura, a gente vê a mídia e tal – nós falamos, vieram entrevistar, a capa do Clube da Esquina, aí nós man
damos uma vinheta assim: “Oh, está vendo esse aqui, que está bem…”, porque naquelas fotos se você reparar mesmo, tem um que está assim, deitado no parapeito assim, com a mão assim, com as perninhas, “Esse aqui, ó, esse aqui é o Charles Chaplin quando era pequenininho”. E aí, se você pegar matérias da época do lançamento do disco, tem jornais, O Globo, Folha de S.Paulo, “Charles Chaplin na capa do Clube da Esquina”. Então isso deu uma mídia louca para o Bituca. Mas isso era só uma bobagem, porque a gente ficava tomando umas e falava: “Pô, esse caras aqui estão fazendo o quê? Esse aqui é quem? Esse aqui é o fulano, esse aqui é Chaplin. Esse aqui só pode ser o Chaplin. Está nessa boa aqui, olhando tudo, o mais esperto é esse aqui”. E aí bom, mas enfim, fizemos a capa e foi um processo assim de muita foto. Porque era muita gente, era Chico Buarque, de artistas mesmo famosos na época, eu acho que estavam todos ali: Elis Regina, Chico Buarque, Francis Hime, fora a galera que já era toda amiga. Se gravava orquestra, as crianças dos Canarinhos de Petrópolis, foi uma produção grandiosa. Foi muito legal, foi uma experiência para todos, muito rica, muito rica. A gente ria, chorava, tudo era emoção. Do começo ao fim. Agora, imagina, com a idade de vocês, a gente vivendo uma coisa dessas. Éramos todos novos. Hoje nós estamos mais maduros, mas imagina com 20 e poucos anos você vivendo tudo isso, era um sonho. Estávamos fazendo um sonho virar realidade.

Clube da Esquina
Avaliação

Você sabe que a gente na época não tinha noção de nada disso, não. Bituca fez um trabalho, “Pô, legal!”. A gente não tinha consciência do que estava acontecendo. Porque assim, a gente na época, a gente fez capas, Cafi e eu, capas que depois nós fomos ter consciência que elas passaram a ser antológicas. Mas na hora a gente estava fazendo uma capa de disco, inventando um negócio lá. O tal do álbum duplo, o tal daquele espaço, da gente aproveitar ele de uma maneira… A gente não tinha consciência “Ah, isso aí”. Eu já ouvi falar assim “Ah, o Locca, o Cafi são os caras que criaram, fizeram coisas antológicas”, mas assim, isso nunca, tanto para o Cafi quanto para mim, isso nunca foi… Nós ganhamos prêmio com capas de Sarah Vaughan, nos Estados Unidos, ela ganhou Grammy. Mas isso aqui no Brasil eles não dão valor a nada. Aqui se o cara faz um negocinho fora do país, o cara tocou em um bar lá, bem sarapa mesmo, mas aí saiu uma notinha lá, aí aqui no Brasil, “Pô, Patrícia arrebentou lá em Grão Mogol”. Aí fica: “Patrícia é demais e tal”. Então, aqui a gente faz mil coisas, a gente faz o mesmo trabalho, mas se você pegar assim; eu não faço mais capa de disco há anos, até porque eu não tenho tempo para fazer.

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Atividade atual

Eu sou diretor de fotografia de cinema. Eu vou rodar um longa metragem agora, com um roteiro maravilhoso do Ricardo Zimmer. Ele me convidou para fazer direção de fotografia desse longa que vai ser rodado lá em Gramado. E faço trabalhos, documentários, institucionais, comerciais, essas coisas. E assim, quando eu tenho tempo de fazer alguma capa de disco é da minha mulher. Mas assim mesmo, eu não tenho conseguido fazer muitas. As três últimas capas dela eu não consegui fazer. Uma ela foi gravar em Cuba, com músicos cubanos. Aí a gravadora queria que eu fizesse um clipe dela. Eu estava a fim de fazer aquele clipe porque era com um pessoal lá de Cuba, do cinema de Cuba, eu estava afinzão. Mas eu não consegui porque eu estava envolvido em um projeto de um filme na Amazônia. Eu até cheguei a ver, tal, estava pensando em parar tudo que eu estava fazendo lá na Amazônia para eu passar uma semana em Havana, e saindo de Manaus, mas não deu. E eu não fiz nem a capa, nem o clipe, é uma tristeza arretada. Mas enfim, é a vida. Mas hoje em dia, se faz capa de CD com uma certa facilidade, facilitou tudo. E tem capas lindas de CD, muito bonitas, muito criativas. É que o espaço ficou pequeno. Então passou. Porque na época do LP você tinha um espaço. Porque na nossa época, a capa, ela na verdade, por a gente ter feito capas interessantes, ela passou a ser uma coisa atrativa para quem ia comprar o disco. Então o cara falava: “Eu vou comprar aquela capa lá. Eu vou comprar aquele disco, já viu a capa do disco do fulano? É demais aquela capa”. Então a indústria fonográfica começou a sacar que a capa era um mote de venda, porque até então, se você pegar as capas da década de 50, 60 eram capas… Na década de 70 é que a capa de disco… e foi quando a gente começou a fazer e a usar aquele espaço de uma maneira…

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Esposa

Eu sou casado com a Selma Reis, há 23 anos. Eu casei com a minha mulher em cinco dias. Eu conheci ela no sábado e casei na quinta. Então como a gente casou muito rápido, eu sempre fui um cara que olho tudo. Pode passar mulher, sempre fui assim. Então no começo da nossa convivência, ela, a Selma falava assim: “Cara, você…”. Eu falava: “Pô, mas é minha profissão, eu olho tudo mesmo, não tem jeito”. E até hoje, depois ela se acostumou com aquele jeito. Porque se passar um cara bonito eu vou olhar e falar: “Que cara bonito esse”, aí se passar uma mulher bonita: “Nossa, que mulher bonita”, e até um cachorro: “Pó, olha esse cachorro. Olha o pêlo daquele cachorro”. Então eu sou ligado nessa coisa e comento. Então minha mulher, até ela se acostumar com esse jeito, ela demorou um pouquinho. E até hoje, quando a gente viaja assim, a gente viaja muito, eu e ela, a gente adora viajar, então, às vezes a gente está em um lugar, por exemplo tu vai para Bahia. E tu chega na Bahia é cada mulher, é cada negão que pelo amor de Deus, amigo. Está ali tomando uma, tal e passa aquele negão, aquele rastafari, minha mulher fala: “Olha, que homem, né?”. Eu falo: “Meu amor, não vou te enganar não, esse é…”, pelo amor de Deus. Então passa aquela morena, que nossa Senhora. Se você não tiver isso na sua vida, eu acho que a vida é isso, você estar o tempo todo ligado.

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Capas de Discos

Porque assim, na década de 60, as capas não tinham o pensamento de que aquilo era um produto e aquela embalagem poderia alavancar vendas. Foi na década de 70 mesmo que, final da década de 60, 70, com os Beatles, que começou a se fazer, “A capa de disco é um negócio”. E aqui no Brasil começou isso mesmo, nessa época, também década de 70, começo da década de 70. E no final da década de 70 foi quando realmente a indústria fonográfica, caiu a ficha dela de que capa de disco era um bom negócio. Então é o seguinte: você era valorizado em fazer uma capa, criador de capa de disco na década de 70, um fotógrafo, ele era valorizado. Aquilo, o cara pagava uma grana legal para o indivíduo criar aquela capa de disco. Hoje você faz um CD, você entra dentro do estúdio grava um CD. Quer dizer, até em casa você faz um CD. Depende da qualidade, mas se você quiser, você faz um CD em casa e faz uma demo. Antigamente para você fazer uma demo, você tinha que entrar dentro do estúdio. Então, com essa facilidade dessa mídia toda, que é maravilhosa, por outro lado ela desvalorizou o criador desse produto. Então hoje, às vezes, eu fico sabendo quanto é que um selo desse paga para fazer a capa de um CD, eu olho e falo: “Nossa Senhora!”. Aí eu vejo assim, tem o cara que tem o selo dele e contrata uma galera para fazer todas as capas do selo dele. O cara vai fazer lá 15, 10 por ano no selo do cara, e todo mês o cara vai estar fazendo umazinha lá, duas, tal. Então aquilo, ele dá aquela cocada de mariola, junto lá dois, então fica tudo… Então, isso tudo por um lado foi legal, porque você tem outro time, mas por outro lado também desvalorizou o criador dessa geração que, por sinal, eu vejo, às vezes, cada capa que eu falo: “Pô, galera legal mesmo”. Tem umas capas que eu acho maravilhosa. Até eu tive a oportunidade o ano passado de ver muita capa de disco porque o Prêmio Tim convidou minha mulher para ser uma das juradas. Porque eles fazem isso, pegam um artista que lançou um CD naquele ano, pegam e convidam ele para ser jurado. Então em casa todas as capas, todos os CDs que as gravadoras deram para o Prêmio Tim, parou lá em casa, para minha mulher ouvir. Então eu ouvi e vi muito trabalho legal para caramba, uns trabalhos maravilhosos. E eu vejo assim, o cara fez essa capa toda e ganha uma cocada na mariola? Desvalorizou. Então por esse lado é ruim, mas também o produto barateou. Então tem mil coisas, é uma coisa de mercado mesmo. Eu não faço mais porque eu não tenho tempo de me envolver. Eu até agora estou envolvido num disco da minha mulher, mas eu fico meio apavorado, porque eu estou envolvido com outros trabalhos e se embolar, eu não vou ter jeito de fazer aquilo que ela… Então eu já vou adiantando, tentando adiantar tudo, entendeu, para poder…

Atividade atual

Eu estou envolvido em várias coisas com a música, envolvido com a Orquestra Petrobrás Sinfônica. Eles estão me convidando para fazer uns DVDs para eles, então a música está sempre navegando dentro de casa, navegando nos trabalhos. É muito interessante isso.

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Disco

Eu participei da gravação toda. Cafi e eu, a gente começava… a gravação era nove horas da noite. A gente se encontrava seis, sete horas, começava a tomar umas e aí já chegava no estúdio na maior animação. E aí passava a noite toda e para mim era uma loucura porque eu passava a noite fotografando e de dia tinha que filmar. Então só com vinte e poucos anos mesmo que dava para agüentar esse rojão. Porque hoje eu jamais faria um negócio desses. Mas com vinte e poucos anos eu ia, né? Eu passei uns dois meses da minha vida, totalmente virado. Porque eu trabalhava na televisão, então tinha meus horários da televisão e que na verdade bancava a minha vida. A capa de disco sempre foi uma coisa que era mais. E era uma paixão fazer a capa de um disco e tal. Porque tu via a música, era a música e a imagem, era tudo ali junto, era uma beleza. Porque eu fazia o estático de noite e de dia eu ia fazer o movimento. Então era assim, a minha cabeça vivia nos enquadramentos, nos movimentos, nos detalhes. Eu sou um cara extremamente detalhista. Estou olhando seu brinco. Já olhei teus anéis. Já olhei o brinco de vocês duas, já olhei tudo.
E o Clube da Esquina, se você ver aquela capa é cheia de detalhe. Cheia de detalhe e cada fotinho daquela ali, tem um momento que se pegar, eu te conto todos eles. Sabe assim, “esse aqui está acontecendo isso, esse aqui está acontecendo isso”.

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Seu Nonato/Beto Guedes/Milton Nascimento

Tem uma que a gente estava em uma sala assim, porque aquilo era gravado dentro da Odeon, da EMI. Tinha o seu Nonato do cafezinho. E a gente sempre botava o seu Nonato, Cafi e eu que fomos os primeiros a botar o seu Nonato do cafezinho nos créditos. E seu Nonato era uma figura. Então, ele via aquela cambada, que era tudo garoto, de 20 poucos anos, ele um senhor de 60 e tantos anos, e ele chegava para aquela cambada de garotada, e falava assim: “Você quer café, fresco?”. E em uma dessas, ele chegou lá e tinha uma jornalista, porque só deixava o jornalista, tudo quanto é jornalista querendo e não entrava ninguém, entendeu? Só ficava a gente lá dentro, porque o bicho pegava lá dentro, lá dentro era uma festa. E os jornalistas ficavam do lado de fora querendo saber. E em uma dessas, a gente estava em uma sala que tinha um jornalista e aí estava uma galera e estava o Beto Guedes. E aí todo mundo falando um monte de bobagens, falar bobagem é bom demais, se não fica sério a pampa o tempo todo. Aí a jornalista toda séria, era uma menina assim, toda jeitozinha, aí entra o Beto, e o Beto comia cabelo, bicho, o cara comendo cabelo. “Beto, e o que você mais gosta de fazer?”, aí o Beto olhou assim para ela e falou: “O que eu mais gosto de fazer? O que eu mais gosto de fazer é bater prego em madeira”. Pô, olha só rapaz, isso é resposta que o indivíduo dê? O que você mais gosta de fazer? Ah, o que eu mais gosto de fazer é bater prego em madeira. “Bater prego em madeira?”. “É, porque quando você pega o martelo você faz pá, aí o prego tum, pá, e o prego tum, pô isso é demais, né?”. Pó, ela ficou assim, sem entender nada. E pior que ele falou a verdade, ele era amarradão em bater prego em madeira. Mas assim, tem mil histórias. Cada coisa. Por exemplo, o Bituca tem lá uma música que chama “E daí”, que é uma música do Bituca com Ruy Guerra. E essa música é trilha sonora de um longa chamado A Queda do Ruy Guerra. Bituca fez várias vozes naquilo e foi incrível porque no dia da gravação, rapaz, foi uma loucura, porque Bituca foi gravando, botando as vozes e aquilo foi soando. Se você ouvir, aquilo foi soando, soando, e cada hora é uma voz. Aquilo foi dando uma choradeira em todo mundo, rapaz. E todo mundo chorando e aquele negócio que quando terminou tudo, todo mundo caiu, todo mundo ficou doente, bicho. Eu caí de cama, fiquei caidaço e foi uma emoção, rapaz. Foi assim, um negócio muito maluco dentro do estúdio. Bituca saiu também da gravação, ficou de cama. Foi uma loucura. Então assim, teve momentos muito emocionantes, e fora o tanto de bobagem que era falada. Aí não pode se falar muito tanto não, por que…

EMOÇÃO
Museu/Márcio Borges

Olha, eu vou te dizer, o Marcinho (CHORO), ele era um cara, ele é iluminado, sabe? Então isso daí, eu acho demais dele. De resgatar isso tudo, de fazer essa coisa assim, realmente, isso é muito legal dele. E o Marcinho, desde que a gente era mais jovem, o povo brigava demais também, sabe? E o Marcinho sempre foi aquele cara agregador. Era ele que agregava tudo e a todos, sabe? E o exemplo dele hoje de um homem maduro, é esse aí, de fazer essa iniciativa. É realmente muito legal, muito legal mesmo. E eu ter participado disso com um pequeno… eu sou pequenininho dentro disso tudo, entendeu? Mas é tão emocionante ver ele resgatar isso, porque isso é a vida dele mesmo, é a vida, sabe? É uma coisa que aconteceu dentro da casa dele, tudo veio da família dele, da mãe, do pai, do irmão, sabe? Então, isso é assim, que os patrocinadores patrocinem o Marcinho Borges a vida toda, as idéias dele, porque ele é um cara fora de série. Achei isso aí muito legal. Muito legal mesmo.

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