Marcelo da Cruz Silva

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, data e local de nascimento

Me chamo Marcelo da Cruz Silva, nasci na cidade do Rio de Janeiro em 23 de novembro de 1963, então sou carioca.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Nome e descrição da atividade dos pais

Meu pai se chama Eden Edson da Cruz Silva e Neuza da Cruz Silva, meu pai é carioca e a minha mãe baiana. Meu pai era um pouco de tudo, foi músico, foi cinegrafista, mas ele morreu muito cedo, ele morreu com 25 anos, eu tinha dois anos quando ele faleceu. Ele faleceu em um acidente de carro, então, muito novo, quando estava começando a viver faleceu. E a minha mãe criou a mim e a minha irmã mais nova. Dona de casa, teve que parar de trabalhar, virou pensionista, aí conseguiu educar os filhos. A minha mãe tem uma história muito bonita, essa coisa da música eu herdei um pouco dela também. Porque ela em casa, eu me lembro, eu bem pequeno, com uns quatro, cinco anos ficava escutando Villa Lobos, Turíbio Santos. Minha mãe gostava de ouvir Frank Purcell, Sinatra, então, desde pequeno eu escuto música e aquilo claro que um dia ia aflorar.

Irmão

Eu tenho uma irmã dois anos mais nova, a Celina. Minha irmã é casada, tem um filho de quatro anos, o João Victor, mas a minha irmã é dona de casa, casou e virou dona de casa, parou com tudo. O sonho dela era ter casa, marido e um filho, está realizada! Mora no Leblon e está lá vivendo a vidinha dela, eu estou sempre com ela.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Brincadeiras de criança

A gente não tinha a figura paterna, então a mãe era mãe e pai ao mesmo tempo, ela tinha que se desdobrar para ser pai e ser mãe. Então aquela coisa de infância, de criança, a gente brincando, morava em Botafogo, na rua onde hoje é a Cobal de Botafogo, aquele terreno era uma garagem de bondes. Então eu me lembro de eu pequeno, ficava na janela olhando os bondes, porque eles subiam a Rua Voluntários da Pátria, que era mão dupla naquela época, em 1966, por aí. Então eu me lembro de ver os bondes entrando na garagem. Quando a prefeitura desativou os bondes da cidade do Rio de Janeiro, desmontaram a garagem e ficou um terreno vazio e eu me lembro que começaram a usar para montar parques de diversões, circos, então eu estava sempre na janela de frente olhando o movimento do circo, quem ia para o circo, para o parque de diversão. E era uma época que não tinha muito carro na rua como tem hoje, então, eu com os meus oito, nove anos, fazia carrinho de rolimã, descia a rua que era com um pouco de ladeira e saia lá na Rua Voluntários da Pátria, soltava pipa ali no terreno, rodava peão. Foi assim, para Rio de Janeiro, foi uma infância até muito legal, uma infância que para o meu filho de um ano e oito meses, infelizmente não tem, porque ele está preso no apartamento e tem que ficar preso com os brinquedos… Mas eu ainda peguei o final de uma época muito bonita da cidade do Rio de Janeiro, aquela coisa dos ônibus elétricos, era uma cidade super tranqüila. Claro, a gente também vivia um regime militar, então você tinha segurança o tempo inteiro, eu me lembro que a noite passava o guarda noturno apitando para dizer que ele estava passando, então 10 horas da noite você escutava aquele apito e sabia que era o guarda noturno da polícia que passava – isso não existe mais! Mas era um negócio que você brincava na rua tranqüilo. Eu me lembro ali no bairro mesmo, nas ruas mais para dentro, eu via porquinhos, cabras, cavalo. Me lembro que tinha um homem que descia a Rua Voluntários da Pátria à cavalo, um negócio muito interessante. Eu pequenininho, eu ouvia o barulho dos cascos da ferradura, eu ia para a janela e passava ele com um cavalo branco descendo. Anos depois eu vim saber que ele foi um general do exército aposentado. Então essas coisas vão marcando a infância da gente. O Cristo Redentor, sempre olhando para o Cristo, porque eu tinha vista para o Cristo, então eu fui crescendo nesse ambiente. Entrei para a creche, depois maternal, colégio público, foram realmente anos muito bonitos. Hoje em dia, é interessante, com esse negócio de Orkut, você vai reencontrando pessoas da sua infância que você não vê a 20, 30 anos e a gente vai reencontrando e todo mundo casado, com filho e todo mundo concorda nessa questão, era muito melhor há 30 anos atrás, muito melhor. Você tinha uma qualidade de vida que você infelizmente não tem mais.

Voltar ao topo RIO DE JANEIRO

Botafogo/Flamengo

Eu passei a vida inteira em Botafogo. Eu saí de Botafogo para casar, com 33 anos e fui morar no Flamengo, que é do lado. Então quer dizer, dei um passo e mudei de bairro, mas a minha vida inteira foi ali naquela cercania, que é um bairro também que tinha um monte de artistas, nasceu ali, foi criado ali, coisa que você vai descobrindo com o tempo: “Pô, também fui teu vizinho!”, um negócio bem interessante, mas a minha vida toda foi ali, Zona Sul.

Voltar ao topo FORMAÇÃO PROFISSIONAL

Fotografia

Meu interesse pela fotografia em si, foi aquela coisa da observação, você observa muito, então desde pequeno eu gostava de paisagem, a minha mãe me levava para o Jardim Botânico, Parque Lage e eu observava que é tudo em linhas, a gente vive num simétrico e é aquela coisa da natureza, teu olho é uma lente, uma máquina fotográfica. Então lá com 12 anos eu já tinha uma maquininha que tinha uns flashizinhos quadradinhos, não sei se vocês se lembram disso. Eram as máquinas da Kodak que você tinha um cubo, que cada lado do cubo era um flash, então você encaixava o cubo e fazia a foto, aí o cubo girava e tinha outro fash, aí você só podia tirar quatro fotos com flash (RISOS), ou então era aquele importado, você comprava um estojinho e vinha três cubos, dava para tirar 12 fotos, à noite, com flash. Eu comecei assim, com aquele equipamento que, hoje em dia, é peça de museu. Mas é interessante e achava legal aquele cubo girando e quando batia o flash, queimava a lâmpada, aí depois eu pegava aquilo e ficava brincando, montava os cubinhos, dali começa, eu lá, com nove, dez anos, primeira câmera fotográfica que eu ganhei era assim, com cubo.

Iniciação musical
Depois você vai se aperfeiçoando, vai fazendo cursos, aí eu fiz alguns cursos de fotografia, mas eu sempre levei como hobby. Quando eu terminei o ginásio, eu fui fazer vestibular, trabalhava na Fininvest, já estava naquele ambiente financeiro e falei: “Pô, acho que vou por aqui mesmo! Vou fazer Economia na faculdade!”. Foi o meu fim, porque eu entrei na faculdade de economia em 1985 e descobri um cara que tocava violão e outro teclado, aí eu já estava começado com guitarra e: “Pô, vamos montar uma banda?” (RISOS) A Economia foi para o espaço, a gente matava aula para levar os violões e ficava no pátio tocando e a aula rolando lá no prédio.
Tive uma banda de Rock Progressivo que era uma cópia chupada do 14 Bis (RISOS), guitarra, bateria e teclado! Claro, o tecladista fã do Flávio Venturini, eu fã do Flávio Venturini, o baterista Flávio Venturini, tinha que ser. Aí a gente entrava em festivais e era muito engraçado, porque quando a gente entrava com aquela formação no palco, o tecladista começava, aí os outros concorrentes: “Pô, os caras vão com o som de 14 Bis!”, era na lata! Tinha as harmonias parecidas, influência, não é? Eu também ouvia muito Supertramp na minha adolescência, então eu achava maravilhoso aqueles teclados com sax, aquelas levadas de baixo, som progressivo, eu sempre gostei de Pink Floyd, Supertramp, Yes, minha praia sempre foi mais essas viagens, Jethro Tull. Comecei com música em 1984, foi quando eu realmente entrei na faculdade, fiz dois períodos, falei: “Não, está maluco!”, larguei isso, larguei emprego: “Quero ser músico”. (RISOS) Mal sabia aonde eu ia me meter.

Voltar ao topo CLUBE DA ESQUINA

Disco

Mas foi assim, em 1983, 1984, o que me marcou mesmo, despertar para música, foi com 19 anos. Eu estava andando na rua, a Fininvest ficava na Rua do Carmo, aí não sei porquê eu fui, acho que estava no horário de almoço, eu estava andando, começando a subir a Rua Uruguaiana, saindo do Largo da Carioca, quando você entra na Rua Uruguaiana, tinha uma loja de discos do lado direito. Eu estou passando na calçada e escutei o som de um piano, uma melodia bonita pra caramba, eu parei e: “Pô, vou entrar!”, eu já era ligado, gostava de música, aí eu entrei, cheguei lá para o vendedor e falei: “O que é isso que está tocando aí?”. Aí um dos vendedores: “Ah, deixa eu ir lá ver!”, aí ele me traz um LP de capa dupla, aí eu olhei assim: “Que disco é esse? Não tem nome na capa!”, tinham dois garotos na capa, aí eu virei e li: “Milton Nascimento e Lô Borges, Clube da Esquina” e falei: “Vou levar!”. A música que estava tocando era “Um girassol da cor do seu cabelo”, a introdução do piano. Aí cara, eu levei aquele disco, fui para o trabalho, quando cheguei em casa, botei o disco, nossa, eu ouvi até o dia seguinte, aí chorava, ouvia e chorava e falei: “Pô, eu quero é isso!”. Aí foi quando eu despertei. Isso foi acho que em 1982, com 19 anos, aí comecei a mergulhar nessa coisa de Minas, procurar informação, eles quase não faziam shows aqui. Em 1983 comecei a buscar discos do Beto Guedes, porque aí tu vai descobrindo os caras, eu olhava as fotos, abria o álbum assim e ficava tentando identificar quem é esse aqui, quem é esse aqui: “Não, esse aqui é o Toninho, esse aqui deve ser o Lô Borges! Esse aqui é o Milton, claro!”, e Danilo Caymmi, Dorival, e ia buscando informação, pesquisando. Até que quando eu entrei na faculdade, isso final de 1982, em 1983, eu comecei a estudar violão, fui estudar violão clássico, porque eu queria tocar aquelas músicas do álbum. Aí cai numa escola de violão clássico, aí o cara tinha que botar o pé no banquinho, o violão apoiado nessa perna, aí um mês só tocando aquelas coisas de arpejo eu falei: “Pô, não é isso que eu quero tocar!”. Mas aí o cara: “Mas não, você tem que aprender a arpejar, não sei o que!”, “Mas eu não quero, eu quero tocar Milton Nascimento!”, ele: “Não, mas calma, você tem que tocar violão clássico!”. Um mês depois eu me enchi e falei: “Quer saber, pô, eu não quero tocar violão clássico, quero tocar Milton Nascimento!”. Aí eu me enchi!

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Milton Nascimento

Em 1984 teve um show do Milton na Praça da Apoteose, foi quando ele gravou aquele álbum ao vivo. Quando saiu na imprensa eu falei: “Pô, vou nesse show!”. Chamei o meu primo: “O Milton Nascimento vai tocar!”. Meu primo mais novo, garoto ainda: “Quem é Milton Nascimento?” “Ah, você vai ver na hora. Vamos embora!”. Aí levei, comprei os ingressos, lá a Apoteose, que show lindo, cara, aí eu falei: “Isso que eu quero para a minha vida!”. Esse show foi marcante, porque era Robertinho Silva, Wagner Tiso, Neném de percussão, Hélio Delmiro, guitarra, e Paulinho Carvalho, baixo. Pô, na Apoteose, 40 mil pessoas! E o Milton naquela época de ouro dele, maravilhosa, tocando tudo, com a boina. O Milton para mim era um Deus, você que é fã, você vê esses caras e fala: “É Deus que está no palco tocando e você é um privilegiado de estar na platéia”; e eu tenho comigo, eu trouxe, tenho até hoje o ingresso, guardei. Porque eu sempre tive mania de cada ano ter agenda, então eu anotava o meu dia-a-dia, então eu tenho agendas de 15 anos da minha vida. Então às vezes quando me falha a memória eu vou lá na agenda e: “Pô, esse dia eu estava fazendo isso!” (RISOS), eu vou até mostrar para o Marcio.

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Lena Horta/Yuri Popoff

Isso foi em 1984, em 1985 eu entrei na faculdade de Economia, encontrei esses caras que eram músicos, aí a Economia durou um ano exato. Eu tranquei a faculdade e com a banda fui entrando em festivais. Em 1985 a gente tocava muito em festival. Todo festival de música a gente entrava, no interior do Estado do Rio, ia, compunha as músicas, tudo bem, era cópia chupada e mal feita do 14 Bis, mas era um som que a gente curtia, então a gente ia, tocava. Um festival uma vez em Friburgo de música jovem, aí nesse festival eu toquei percussão na bateria porque o baterista não pode ir e eu já tinha uma noção: “Ah, eu levo!”, aí tocamos. Um amigo nosso ganhou em primeiro lugar, um bom compositor esse menino, o Valdo, lá do Amazonas, ele terminou a faculdade de Economia. O pai mandou ele para o Rio estudar, o cara não queria dizer para o pai que estava fazendo música, então ele, paralelamente estudava e a música correndo solta. Final de 1985, setembro, mais ou menos, teve um show na FUNART, do Andersen Viana, irmão do Marcos, Andersen Viana e Suíte Floral, porque eu sempre estava comprando jornal para ver quem estava tocando aqui no Rio de Janeiro, aí eu olhei lá: “Formação da banda: Lena Horta e Yuri Popoff”, eu falei: “Pô, finalmente eu vou conhecer a irmã do Toninho Horta, já que eu não conheço o Toninho, vou conhecer a irmã”. Aí fui ao show, foi legal, um som muito estranho do Andersen era muito cello, era coisa sinfônica, mas show bonito, uma concepção bonita. Aí no final do show eu fui falar com a Lena e Yuri, me apresentei: “Sou fã de vocês!”, e Lena e Yuri tinham acabado de mudar para o Rio e não conheciam ninguém, e eu me prontifiquei: “Pô, vou levar vocês!”, aí virei amigo deles. Eles iam lá em casa, eu ia para a casa deles, eles só tinham a Mariana e a Diana que eram pequenininhas, eu virei o tio Marcelinho, saia direto com o Yuri. O Yuri foi tocar no Jazz Mania. Aí o Yuri começou a se entrosar com o pessoal do Rio, a gente estava sempre junto, toda semana: “Vamos para o Jazz Mania ver fulano?”, “Vamos!”. Tanto que de tanto ir para o Jazz Mania eu acabei trabalhando lá um mês como operador de som, o cara ficou doente e pediu para eu substituir, todo mundo me conhecia, os donos, os portugueses de lá, o pessoal da casa, eu já entrava direto lá, vi tudo lá, vi Pat Metheny, Herbie Hancock, esses caras todos. Eu fiquei amigo do Yuri e da Lena.

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Seminário de Musica Instrumental/Toninho Horta

Em 1986 o Yuri virou para mim e: “Olha só Marcelinho, vai rolar um seminário em ouro Preto de música instrumental que o Toninho está realizando…”, eu: “Pô Yuri, o meu sonho é conhecer o Toninho, o cara para mim é Deus!”, e realmente, olha, sinceramente, esses anos todos como músico, como ouvinte, como fã, eu nunca vi um cara tocar como o Toninho. Vi todos os guitarristas possíveis e imagináveis que você pode saber, vi show desses caras todos, os únicos que me impressionaram até hoje foram dois, Toninho Horta e Jeff Beck. Foram os únicos que estão num nível acima muito superior a qualquer outro. Pô, o Toninho sola acorde! Eu nunca vi isso na minha vida! Nunca vi nenhum guitarrista fazer isso, solar acorde, cara! Ele não sola nota, ele sola acorde! Ah, vai tomar banho, é gênio. E Jeff Beck porque é um monstro, ele faz o que quer com a guitarra. Eu vi um show do Jeff Beck aqui no Museu da Arte Moderna. O que era aquilo? Já tenho todos os CDs do Jeff Beck, é um gênio também, só que na praia dele, Rock’n’ Roll, como guitarrista de Rock não tem, é Deus mesmo, esse negócio de Eric Clapton, Steve Vai, esses caras são uns primatas perto do Jeff Beck! Jeff Beck tem 65 anos. Foi isso, o Yuri me falou do seminário em Ouro Preto que o Toninho ia realizar, eu trabalhava e falei: “Pô, como é que eu vou para…”, aí tudo bem, o Yuri me deu a programação e eu falei: “Pô, vou no show do Sagrado Coração da Terra e do 14 Bis!”, era sábado e domingo. Peguei um ônibus na sexta com esse amigo meu que era tecladista, era fã do Flávio, vamos para Ouro Preto, vamos embora e o Yuri estava dando aula no seminário, ele e Lena, eu combinei com o Yuri: “Chegando lá vocês vão para o hotel tal porque a gente arruma um lugar lá para vocês!”. Aí eu peguei o ônibus meia-noite e cheguei em Ouro Preto às sete da manhã e fomos direto para o hotel, encontramos o Yuri. O Yuri: “Eu vou dar aula agora, vamos lá para a minha aula!”, aí eu fui lá assistir a aula de contrabaixo. Pô, aquele seminário foi inesquecível, o Toninho tentou realizar no ano passado, a gente teve reunião em Belo Horizonte com o Gilvan de Oliveira, com a Claudinha, Toninho, um monte de gente, mas não conseguimos levar a frente. Era assim, você andava em Ouro Preto e só tinha músico, cada um com o seu instrumento, neguinho carregando contrabaixo, cello, era uma coisa linda, você respirava música. Eu fiquei só dois dias, imagino o seminário inteiro! Mas em dois dias eu vi Hermeto Pascal, vi um balé, fui para esse show do Morro da Forca, vocês conhecem lá em Ouro Preto? Cheguei lá em cima, eu trouxe até as fotos, aquela multidão, lindo, e estava uma névoa, a Maria Fumaça passando lá em baixo. Primeiro tocou o Sagrado Coração da Terra, aí eu fiquei atrás da bateria do Neném, fiz um monte de foto, tem foto do Neném de barba, uma coisa rara, o Neném barbado (RISOS)! Tem foto dele barbado, cara! E nisso eu já tinha conhecido o Neném, isso foi, que dia foi esse show? Foi num domingo, no sábado, depois da aula do Yuri, a gente saiu da aula e o Yuri: “Ah, vamos lá no centro!”, aí tinha um bar e quando a gente passou na porta do bar o Toninho estava lá dentro e o Toninho: “Oh, Yuri!”, aí quando eu olhei: “Caramba, o Toninho Horta!”, eu não sabia se eu sumia, cavava um buraco, se desmaiava (RISOS), eu falei: “Meu Deus! Finalmente vou conhecer o cara!”, eu todo tímido, o Tuique do meu lado: “Cara, é o Toninho Horta!”, “Eu sei que é o Toninho Horta!”, e o Yuri: “Pô, vamos lá!”. E o Toninho lá tomando uma cerveja em pleno balcão, aí: “Esses aqui são meus amigos lá do Rio, esse aqui é o Marcelinho, gente finíssima, também toca!”, aí ele: “Oi, tudo bom?”, ele foi me abraçando, meu Deus, eu gelado, coisa de fã. Fã, um negócio engraçado: “Meu Deus, é o Toninho Horta! Hoje eu posso morrer feliz, conheci o Toninho Horta!”, eu já tinha visto o Milton ao vivo, então estava tudo certo, não tinha visto o Lô, que é uma figurinha rara. Aí o Toninho: “Pô, vocês vieram, que legal!”, “A gente está lá no hotel com o Yuri!”, “Pô, vamos para o show…”, aí fomos para o show do Hermeto com o Toninho, assistimos. No dia seguinte foi no Morro da Forca, aí a gente tinha que voltar no domingo à noite para o Rio de Janeiro, segunda-feira tinha que ralar. Aí assistimos um show lindo! O Flávio estava tocando de luva, era frio para caramba, o teclado ficava todo molhado! Aí eu olhava assim o Toninho: “Oh, Flávio, está frio pra caramba!”, ele: “Pô nem fala, eu estou todo duro”. A gente assim, do lado do Flávio, o Flávio tocando ali, e não era o 14 Bis, não, era o show do Flávio, porque o Cláudio tocou e o Neném fez bateria e o Paulinho fez o baixo, aí rolou a multidão, um show lindo, o Flávio tocando as músicas do Andarilho, nossa, que coisa bonita! Aí acabaram lá os nossos delírios, dois dias de êxtase, pegamos o ônibus e fomos embora.

Família Horta
Em 1986, em 1987 teve um projeto no Teatro Teotônio Vilela, lá na Faculdade Cândido Mendes da Rua da Assembléia, que era Projeto Brahma Extra de Música Instrumental. A Brahma patrocinava esse projeto, era todas às segundas-feiras ao meio-dia, Projeto Meio-Dia. Eu estou lá lendo jornal e Toninho Horta, eu: “Opa!”, liguei para o Yuri: “O Toninho vai tocar?”, “É, a Lena vai tocar com ele, vai lá…”, “Mas pô, será que ele lembra de mim?”, “Claro que lembra!”. Aí eu fui, como a Lena já me conheceu, pô, tudo bem! Aí eu cheguei lá, Projeto Brahma. Assisti na primeira fila, cheguei cedo, duas horas antes para pegar a primeira fila, era gratuito. Aí rolou, era Toninho e Lena fazendo a participação de flauta, aí no final acabou, eu fui lá falar com o Toninho: “Pô, tudo bom, eu tive lá no seminário, sou amigo do Yuri…”, “Claro que eu lembro!”, aí a Lena: “Oi Marcelo, tudo bom?”, “Tudo bom!”. Aí o Toninho: “O que você está fazendo?”, “Eu não estou fazendo nada!”, já tinha perdido o emprego a essa altura, já tinha pedido as contas, não queria saber de Economia, nem de Fininvest, fiquei seis anos na Fininvest, enchi o saco, eu pedi as contas. Aí o Toninho: “Vamos lá para a casa da Gilda!”. Eu fui, ele com um jazz chorus, ajudei ele a botar o jazz chorus no carro. Aí fomos para a casa da Gilda, no edifício Apolo, lá na Praia do Flamengo, no final da Praia do Flamengo, um prédio amarelo, a Gilda morava lá. Eu conheci a Gilda e falei: “Pô, mais uma figurinha ali do Clube da Esquina que eu estou conhecendo!”, porque aí eu ia marcando com um pontinho quem eu conhecia (RISOS), o álbum é todo marcado nas fotos com os pontinhos! Tipo álbum de figurinha, engraçado. Eu com a Gilda, super simpática, fiquei amigo da Gilda, o Toninho ficou hospedado… ele foi embora para Belo Horizonte, fui à praia com ele no mesmo dia, acabou o show, era meio-dia, ai três horas da tarde, eu e o Toninho na Praia do Leme e conversando, aí eu falando: “Pô, eu também toco numa banda, mas nada sério!”, ele: “Você gosta de guitarra, estuda?”. Aí eu falei: “Pô cara, depois de te conhecer eu vou estudar o quê, eu vou parar! Minha guitarra é muito medíocre!” (RISOS) Meio que me travou, até hoje eu sou travado, tiro as músicas, mas cara, não dá, isso aí eu acho que é gene, já nasce. O Toninho acho que tinha avô maestro, dona Geralda tocava bandolim de corda, não dá. Perdi o meu pai cedo, a minha mãe não entendia nada de música, bom eu vou pesquisar a minha árvore genealógica para saber se tinha algum músico? Eu não vou perder o meu tempo com isso, eu tocava, mas sabia que não ia passar disso, de tocar para os amigos. Fiquei amigo do Toninho em 1987, aí em 1987 mesmo, a Gilda estava montando uma turnê para o Toninho, aí me ligou: “Pô, você não quer viajar como road?”. Eu falei: “Road é o que? Aquele cara que cuida dos instrumentos? Pode ser, vamos lá!”. Como tocava guitarra, sabia pelo menos plugar um up, não é? Aí a Gilda armou uma turnê em 1987, Toninho Horta e Orquestra Fantasma. Nossa, que loucura que foi aquilo, bicho! Eu já estreei na turnê dando tudo errado, tipo assim, Neném na última hora desistiu de viajar porque o Beto ia fazer um show não sei aonde. Neném malandro, já conhecia os esquemas, não trocou o certo pelo duvidoso. Aí viajamos eu, o Yuri, André Dequech, Toninho e sem o batera. O primeiro show em Salvador: “Pô, como é que a gente vai fazer?”, “Vamos fazer sem batera mesmo!” Tinha uma banda, era num bar em Salvador, e tinha uma banda que abria, aí os caras tocaram e o Toninho tocou, um lugar lotado. No final do show veio os músicos da outra banda falar com o Toninho, com os músicos, aí o Toninho vira para o batera e fala: “Vem cá, eu vou fazer Recife, Belém e Campina Grande. Você não quer vir com a gente?” (RISOS) O batera: “Quem? Eu?”, “Não, toma aqui as pastas”, aí o cara foi. Largou a banda dele e foi viajar o nordeste com a gente. Foi um negócio muito louco, muito louco. A Gilda mandou fazer umas camisas estampadas pro Toninho, aí fizemos a turnê, foi legal para caramba! Dali eu fui para Belo Horizonte, não tinha jeito. O Toninho: “Não, eu estou precisando de você lá!”, aí eu fui morar na casa do Toninho lá na Serra. O Toninho morava num apartamento lá na Serra que eu acho que era uma rua abaixo da rua que o Beto morava. Então era assim, toda a noite ia para a Cervejaria Brasil, aí ficava eu, o Toninho, o Beto. O Yuri ia toda a semana para lá também, ficava lá aquela turma; eu conheci o Murilo Antunes… aí você começa a conhecer todo mundo. Eu fiquei lá uns seis meses e o Toninho, em 1987, ele fez essa turnê e quando acabou a turnê ele foi dirigir a Maria Bethânia, ele era diretor musical da Maria Bethânia. Ela estava gravando um disco aqui no Rio; a Ângela e as crianças ficaram lá na casa da minha mãe, era um apartamento duplex. O Toninho saía de manhã e a Ângela ficou uns 15 dias lá em casa com as crianças. Me lembro do Manuel pequenininho, um bebezinho, a minha mãe forrava o chão, botava uns edredons e ficava o Manuel ali, a Luiza. Eu morava num prédio grande que tinha uma praça no meio dos blocos, aí eu descia com os meninos, era muito legal… o Toninho ia gravar. Um dia eu fui também na gravação para assistir… Aí começou essa coisa… conheci dona Geralda, Paulinho, Berê, Letícia, aí acabei virando o filho mais novo para a dona Geralda. A dona Geralda é engraçada, eu chego lá: “Oh meu filho vem tomar um café!”, virou tipo uma segunda mãe para mim, ela é uma segunda mãe que eu tenho, quando eu ligo para ela: “Quando é que você vem aqui? Você tem um tempão…” me cobra visita. Porque o mineiro tem isso, essa coisa família.

Lô Borges
Isso em 1987. Em 1988, o Lô veio fazer um show; finalmente eu ia conhecer o Lô Borges. Porque o Lô veio tocar no Parque Laje, eu tenho umas fotos, também. Eu nunca tinha visto um show do Lô ao vivo, isso em 1987. Olha como o tempo passa rápido: 1984 show do Milton, 1985 faculdade, amigos, festivais, 1986 Seminário, eu conheci o Yuri e a Lena, aí já conheci o Toninho, em 1987 eu já viajo com o Toninho, aí pinta o show do Lô, acho que foi em 1987 também. Aí fui lá ver Lô Borges. Aí pô, nunca tinha visto show do Lô, maior emoção, e o Lô também tinha anos que não ía no Rio de janeiro, e o lugar era lindo, era dentro do Parque Laje, aquela casa com o Cristo lá em cima, nossa, que coisa linda! E o Lô me entra no palco com a camisa do Cruzeiro (RISOS), eu falei: “Eu botafoguense, o Lô Borges com a camisa do Cruzeiro?”. Muito louco, com aquela gibson preta, e a banda era Paulinho Carvalho, o Telo Borges e o Maguinho, um baterista lá de São Paulo novinho, acho que nessa época o Lô morava em São Paulo, aí teve contato e levou esse menino, o garoto devia ter uns 17, 18 anos. Fizeram um showzasso, o publico foi abaixo, o Lô tocando aquelas músicas todas que eu levei anos, eu escutava o disco em 1983 e pô, em 1987 eu estava vendo ao vivo, aí eu já tinha comprado os discos do Lô, aquela coisa de achar os outros discos e era o show, acho que era o Sonho Real, nessa época ele tinha lançado o Sonho Real, ele tinha vindo para cá fazer esse show no Rio, tenho a impressão que era o Sonho Real!

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Avaliação

Eu divido a música, até falei isso com o Toninho, a história da música no Brasil, vem dos chorões, lá do começo do século, dali desponta Villa Lobos; de Villa Lobos tem outra virada, aqui Bossa Nova e depois tem o Clube da Esquina. Eu considero os maiores movimentos musicais no Brasil, tiro fora Tropicália, Mutantes, pelo amor de Deus: “Vão aprender harmonia”. Então, harmonizadores para mim é Villa Lobos, Tom Jobim é Milton, Toninho, Lô, entendeu? Eu divido a música brasileira nessas três, e do Clube da Esquina para cá, não surgiu para mim nada: “Isso é diferente”, não vejo nada de diferente, eu vejo a música brasileira, eu acho que ela está ficando burra, infelizmente. Porque eu não vejo, eu pinçaria assim um Lenini, sabe, que faz um negócio diferente, é um ou dois, não tem. Para você ter uma idéia, eu não consigo mais escutar, eu fico os Cds, até os próprios mesmos, isso é uma coisa que eu já questionei, com o Toninho, com o Lô, com toda a tecnologia que há hoje, eu não consigo escutar um disco com o timbre do Clube da Esquina, com aquele som de dois canais, não tem, é impressionante, não tem! Os primeiros discos do Lô, do Toninho, do Beto, aquela sonoridade se perdeu, se perdeu, eles perderam aquela sonoridade, eu não sei por que, até hoje me perguntam: “Pô, os caras super criativos!”, será que isso não enche o saco, é o preço à gravadora, tem que cumprir contrato, aí vai, sai compondo, eu não entendo isso, eu não entendo cara! A sonoridade das músicas não é a mesma de 30 anos atrás. Tudo bem, a gente fica velho e isso é inevitável, realmente, se eu ficar uma semana sem pegar na guitarra os dedos ficam duros, não tem jeito, então música é um negócio que você tem que ficar todos os dias… e eles estão numa idade que eles não praticam música, todo dia, a gente sabe disso, até pelos compromissos que eles têm. Então é tipo assim, o Toninho foi fazer uma música para o Serginho Mendes, ia gravar no dia seguinte, fez a música um dia antes no quarto do hotel, aí me liga: “Pô, passa aqui!’, aí eu fui lá no hotel , isso na semana do show do Teatro Rival, “Eu fiz essa música para eles!”; “Para quem?”; “Para gravar amanhã com o Sergio Mendes!”; “Pô, só tive tempo para fazer hoje!” O cara fez e ficou linda! Aí ele: “Pô, mas não tem música, quando é que você…”; “Eu fiz agora de manhã!”; “Então a Manhã é Carioca!”; “Pô, lindo!”; Botou “A mulher é carioca”, mas perdeu, não sei por que, eu escuto os primeiros discos, eu escuto os novos e não escuto mais a sonoridade. Eu não sei porque, não sei se a tecnologia atrapalha naquela época que você tinha que chegar, contar um, dois, três e não podia voltar a fita, não sei, perdeu, perdeu no tempo! Porque hoje em dia com Pro Tools você grava uma voz guia e grava outra: “Ah, mas aquela nota lá a gente ajeita no Pro Tools!”, eu não sei se é… Mas as próprias composições, não sei, harmonicamente, eu não consigo escutar Milton Nascimento hoje. Esse disco mais novo dele, eu não consigo cara, não sei porque, é o mesmo cara, sabe? Você escuta esses discos novos do Milton e não é a mesma coisa, cara! Não é a mesma coisa que o Gerais, o Minas, o Milagre dos Peixes, O Clube da Esquina 2 e 1, não é, cara, o cara caiu de qualidade? Não é porque ele é um gênio, e gênios… Acomodou? Talvez, não sei, encheu o saco? Pode ser, mas sabe, mas não é a mesma sonoridade, não é! E a própria coisa com o Toninho, com o Lô, eu acho que ele fez também um disco que é uma obra prima. Aquele penúltimo dele que ele fez agora, Um dia e meio! Esse disco é uma obra prima, esse disco, ele se redimiu dos anteriores dele, eu falei: “Pô bicho, Feira Moderna com essa capa aí, ficou toda maluca! Isso não é você, isso é gravadora!”. Mas acho que tem isso também, né? Porque os músicos, músicos desse quilate, os caras tem que ter o tempo para parar e pensar na música. E às vezes não é assim: “Ah, eu vou fazer a música agora!”, eles têm o próprio processo deles, que é um processo no ritmo de vida deles. E na medida com que os caras ficam famosos, que os compromissos profissionais aumentam, eles vão deixando a música mais para trás, porque é um monte de entrevista, viagem para não sei aonde. Aí eu vejo a qualidade das harmonias caindo, eu não vejo mais aquelas harmonias, as orquestrações, hoje em dia, pô, todo mundo faz uma orquestra, você bota dois teclados ali fazendo a orquestra toda. Eu não aceito isso, difícil de engolir, você teve o seu ouvido acostumado a ouvir aquele som, de repente entra a era dos teclados, aquelas coisas, as vozes, os coros, não é a mesma coisa, acho que isso atrapalhou muito a música. Então quando eu vejo agora, vou gravar um disco de Guinga e Toninho só de violões, eu acho que tem que ser isso aí, tem que ser por aí, pelo amor de Deus, esse show do Milton foi com Orquestra lá na Apoteose, lindo cara! Hoje em dia ele, claro, aquela coisa, tu não vai querer comparar Milton Nascimento, Som Imaginário, com essa banda que acompanha ele hoje, porque melhor que os caras sejam, não é o Sonho Imaginário, sabe, eu gosto deles todos, Lincoln, o Kiko, mas cara, não é o Som Imaginário; não é um Wagner Tiso, entendeu? A coisa é aí, e as mãos que estão ali tirando o som.

Clube da Esquina
Museu
Para mim é um privilégio fazer parte disso. Nem sei da onde surgiu essa idéia de lembrar o meu nome, porque eu sempre falo que sou o fã que deu certo (RISOS); eu sou um fã que deu certo, que de fã virei amigo, né, cara? Então eu acho que sou um privilegiado e acho que o Marcinho tinha mais que ter feito isso há muito mais tempo. E o Clube da Esquina, diferente da Bossa Nova, porque a Bossa Nova está registrada, mas está perdida, você não tem, onde é que você vai colher informação da Bossa Nova? O Museu não, você tem tudo ali, o Marcio está colhendo tudo para posteridade, para os meus netos, pô, esses caras existiram e foram o máximo, foram os melhores! Hoje em dia quem ouve, onde é que você vai buscar informação de Vinicius de Morais? Só com quem foi amigo dele que está vivo! Você vai na internet, puxa um texto ali, mas não tem. Ou então no Museu da Imagem e do Som, assim, vai fazer uma pesquisa, então eu acho importante resguardar a história de um movimento musical que mudou a cabeça de uma geração inteira, que foi a minha e que está mudando de novo. Meu filho vai para show, com um ano e nove meses, foi lá ver Toninho e Guinga. Semana passada levei ele para ver Jane Duboc. Tem que começar desde pequeno a ouvir coisa boa, porque tem muita porcaria, infelizmente tem muita porcaria, aquele lixo musical que é o que as gravadoras mandam. Até hoje eu recebi um e-mail da Joana Hime que eu quero gravar esse CD, os dois ao vivo, só que o Guinga tem um contrato com a Biscoito Fino, mas o contrato eu sei que é de um disco só, ele lançou o Casa de Vila, eu mandei um e-mail para a Joana explicando a situação, porque eu queria registrar o encontro dos dois. Porque daqui a pouco os caras não estão mais aí, e ninguém registrou o encontro dos dois no palco, entendeu? Eu não quero ganhar dinheiro, eu sou designer, não preciso ganhar dinheiro com música, aí ela: “Ah não, infelizmente não vai ser possível devido o contrato com o Guinga, temos outros projetos com o Guinga, mas se você quiser conversar mais….”, eu: “Pô minha filha, eu não tenho…”, aí aquela coisa, para não ser indelicado eu nem respondi o e-mail, né? Pô, é aquela coisa, de quem é a Biscoito Fino? É da mãe dela e da mulher da dona do Bradesco, uma empresária, então não me venha com essa de Biscoito Fino porque tem muito Piraquê ali no meio, entendeu? Sabe, eles estão interessados que eu grave o show para eles lançarem pelo selo deles, muito engraçado, estou investindo um dinheiro, vou pagar a gravação para chegar: “Toma aqui, lança!”, francamente! É complicado! É o meu presente para o Toninho e o Guinga, eu sou amigo dos dois, eu quero registrar esse momento, é único, a agenda dos caras são enormes, não sei quando vão se juntar de novo, entendeu? Aí, infelizmente chega o empresário, que, pô, isso aí para mim é empresário, não tem dom de música, está vendo lá o lado da gravadora dos pais: “Tudo bem, não registra”. Eu também sou prático, não pode, não pode: “Ah, está bom obrigado, estou comunicando o Toninho que também não vai ser possível…”, eu também vou alfinetar, para jogar a culpa neles, porque a culpa é deles, eu quero gravar, estou pagando do meu bolso e eles não querem, então paciência.
Mas eu gostaria de parabenizar vocês por essa iniciativa que vai preservar para as futuras gerações essa riqueza musical que é a obra do Clube da Esquina… o que é o Clube da Esquina, que outras gerações vão poder conhecer, anos à frente e com a tecnologia isso vai estar guardado para sempre. A gente tem essa garantia, o que não ocorreu com o Villa Lobos, com grandes compositores, hoje com a tecnologia a gente tem essa oportunidade de registrar isso para gerações futuras que também vão poder dar continuidade ao trabalho do Clube da Esquina, que virão novos músicos. Mas quando morrer esses caras, tipo Carlinhos Lyra, acabou, entendeu?, infelizmente não tem, não se pensou nisso. Tom Jobim morreu e aí? Não se fala, o mais impressionante é isso, não se fala. Não sei se existe mais aula de música nas escolas públicas, quer dizer, não tem esse interesse em investir em cultura porque um povo culto é um povo que toma conta do país e não querem que nosso povo tome conta para não tomar o poder, o poder tem de estar na mão daqueles clãs que estão aí há 50 anos. Mas com a iniciativa como essa do Marcio, que abre a internet que é um lugar livre, você não precisa ter um museu com uma estrutura física de uma casa, com um monte de peças e instrumentos, tem a internet ali, aquilo ali ninguém tira. A grande vantagem é essa, está ali para sempre, se entrar a ditadura: “Ah, vamos cortar, tirar tudo de lá!”, não, o site está lá fora, sobrevive lá fora, entendeu? Não tem como mais, e a história está preservada. Essa coisa do museu vivo, porque é o primeiro museu vivo, o Clube da Esquina, que se tem notícia, porque eu já até andei pesquisando isso, no mundo não tem um museu em que as pessoas ainda estejam vivas produzindo e trabalhando. Então é uma iniciativa única, isso aí tinha que ser feito não só na área da música, da educação, dos esportes. Aqui no Brasil a coisa vai passando e vai se perdendo no tempo, então você não ouve mais se falar em Garrincha. Se você for perguntar para qualquer aluno de escola pública quem é Villa Lobos, ninguém sabe, cara, impressionante isso. Meu tio foi aluno de Villa Lobos, de escola pública, ele falava: “Pô, o Villa Lobos chegava lá de charutão, que nota é essa? Que nota é essa?”, aí escrevia lá no pentagrama, aí mandava as crianças cantarem. Pô, Villa Lobos eu li na biografia dele, uma vez ele reuniu 40 mil crianças no Estádio de São Januário, regeu um coro de 40 mil vozes, olha que coisa! E meu tio e minha tia estavam lá nesse dia, eles me contaram, eu contei isso para: “Ah, a gente foi, era todas as crianças da rede municipal…”, ele regeu um coral, foi uma coisa linda, todos eles ali no gramado e o Villa Lobos regendo o coral, olha que coisa, isso não existe mais, ninguém faz mais isso. Ele tinha um projeto de implantar música em todas as escolas, uma matéria obrigatória, depois de dois anos que ele morreu acabaram com o projeto do cara, ele queria levar a música para o país inteiro, quem é que se preocupa com isso? Infelizmente, então, que Deus abençoe Marcinho, Marcinho precisava viver mais uns 300 anos; Lô, Beto, Toninho, Wagner (RISOS), esses caras deviam ganhar a eternidade pelo que eles fizeram. Porque, no meu caso, eu poderia ser hoje um economista bem sucedido, estar num grande banco ganhando rios de dinheiro, mas será que eu iria ser uma pessoa feliz comigo? No meu interior? E a minha vida mudou por causa do Clube da Esquina, fui me interessar por música, por arte, por causa deles e é um legado que eu queria deixar para o meu filho, eu estou repetindo a história para o meu filho, o meu filho é adotado; adotei com um dia de vida, fui buscar ele em Bom Despacho, terra da minha sogra, fiquei três anos na fila de adoção, aí pintou lá buscar, ai quem sabe não é um futuro Milton, aí a história se repete

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