Márcio Borges

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Nome/ Local e data de nascimento
Meu nome é Márcio Hilton Fragoso Borges. Nasci em Belo Horizonte, no dia 31 de janeiro de 1946. Portanto, sou aquariano.

FAMÍLIA
Pais

Meu pai se chama Salomão Magalhães Borges e minha mãe se chama Maria Fragoso Borges. Salim e Maricota. Sobre meus pais eu sei bastante, principalmente depois dos depoimentos deles, que eu ouvi também. Agora mesmo eu vi meu pai conversando com um amigo dele de infância, os dois com 88 anos de idade. Então eles me passaram um pouco do que foi a infância deles. Eles cresceram numa Belo Horizonte que era absolutamente linda, era a cidade verde, a cidade jardim; era uma mini-Paris. Era uma cidade encantadora. As pessoas vinham do Nordeste, vinham de todos os cantos do Brasil para estudarem aqui. Tinha um clima absolutamente famoso no Brasil – era conhecido como um clima de recuperação de doenças do peito. Meus pais cresceram nessa cidade, foram jovens juntos, e eram amigos; isso no bairro aqui de Belo Horizonte, em Santa Efigênia. A minha mãe era da sala da Romualda, irmã do meu pai – minha tia, infelizmente já falecida, que a gente chamava de tia Aldinha –, e elas iam fazer dever juntas, uma na casa da outra. Aí meu pai começou, provavelmente, a dar uma paquerada na minha mãe dentro da casa dele, num desses momentos que ela estava lá estudando com tia Aldinha.

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Avós paternos

A minha avó Paulina, mãe do meu pai, fazia muito gosto; e meu avô também, apesar de ela ser de uma família humilde – eles tinham entre eles uma grande diferença de classe social. Meu pai era de uma classe média alta – considerada alta na época –, tinha automóvel em casa, o que era uma coisa rara; tinha piano… tinha um status.

FAMÍLIA
Mãe

E minha mãe, não. Minha mãe era filha de lavadeira, filha de soldado, uma vida pobre, uma vida impressionantemente heróica a da minha mãe, que com sete, oito anos de idade, botava aquelas latas de 20 quilos na cabeça. Fazia a rodilha, punha a lata na cabeça com bucho, dobradinha – que, na verdade, era resto do frigorífico que tinha lá perto da casa deles. Elas lavavam aquele bucho, ferventavam aquilo e iam vender dobradinha na rua pra complementar a renda miserável deles.

FAMÍLIA
Avô paterno

Meu pai já vinha de uma outra situação, era filho de militar. Meu vovô Borges foi comissionado major na época da revolução – mas ele, na verdade, era capitão. Depois que ele foi comissionado major, ele passou a ser efetivamente o major Borges pra todos. Era um homem muito altruísta, meu avô. Eu me lembro que, na minha mais tenra infância, ele manipulava remédios homeopáticos e distribuía de graça para as populações carentes; fazia fila de gente lá na porta da rua Ceará. Meu pai me disse que às vezes virava a noite com o vô, os dois manipulando remédio, fazendo receita pra entregar no dia seguinte para os pobres. Lá em casa é assim: meus exemplos foram meu pai e minha mãe, que sempre foram belos exemplos de altruísmo, de gente que respeita os outros. Isso é o que eu sei da vida deles, antes de eles começarem a ter aquela penca de filhos.

FAMÍLIA
Irmãos

Nós somos 11, eu sou o número dois. São: Marilton, Márcio, Sandra, Sheila, Lô, Yé, Solange, Sueli, Marcelo e Mauro. O Marcelo é o Telo; o Yé é o Marcos; a Sueli é a Dodoti –tem nomes e apelidos misturados – e o Lô é o Salomão Borges Filho.

FAMÍLIA
Irmão/ Lô Borges
O Lô levou o nome do meu pai, que, por sua vez, levou o nome de um médico espírita, homenagem do meu avô. Esse Magalhães do nome do meu pai não tem nada a ver, ninguém tem Magalhães na família, o da família mesmo é o Borges. Mas o Lô já ganhou completo – Salomão Borges Filho.

IDENTIFICAÇÃO
Apelido
Quando eu era muito pequenininho mesmo, até meus seis anos de idade, eu não tinha apelido, mas tinha um tio que, invariavelmente, me chamava de Jipe – só que ele era o único que me chamava com esse apelido. Durante anos e anos da minha vida ele nunca me chamou de outro nome, senão Jipe. Segundo ele, porque eu era pequenininho, quadrado e parrudo. Então ele falava que eu parecia a frente de um jipe… Mas apelido mesmo, que eu me lembre, só esse, carinhoso, do meu querido tio, irmão do meu pai, Ormezindo Borges, que também é falecido. Meu pai é o único sobrevivente dos irmãos, todos eles já se foram; ele tinha sete ou oito irmãos. E ele está aí, com 88 anos, sobrevivendo heroicamente.

FAMÍLIA
Pais

É uma dádiva poder estar com meu velhinho querido até hoje, minha mãezinha querida e amada. Tenho muito amor pelos meus pais, muito respeito por eles, porque a vida deles foi muito dura, com essa quantidade de filhos – e não só os filhos, mas também a paciência e o amor que eles tiveram com os agregados, os que vieram através dos filhos, como o Bituca – o Milton Nascimento – que, inclusive, é o Sol dessa coisa toda.

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“Bituca” (Milton Nascimento)

Eu costumo falar que o Bituca é o Sol e nós somos os planetas gravitando em torno dele. E eu tive a graça, a honra, o amor divino mesmo, de ter sido, na época da nossa juventude, talvez o melhor amigo dele, e de ter conseguido enchê-lo de amor próprio, para ele se dar valor e sair das besteiradas em que ele andava para virar o artista que o mundo inteiro conhece hoje.

FAMÍLIA
Irmãos

Para mim sempre foi muito tranqüilo vivenciar a chegada de meus irmãos mais novos, mesmo porque eu continuava não olhando pra baixo – só olhava pra cima, para o Marilton. O Marilton foi a maior influência da minha vida, foi o maior amor que eu já tive por alguém; foi o meu querido velhinho… Eu queria ser tudo o que ele era, porque ele era o meu contrário: era bonitão, saído, cheio das namoradas. E eu, aquele menino tímido, pequenininho, retraído, todo nos cantos. O Marilton sempre foi meu ídolo, e é até hoje – ele não saca isso, mas ele é sim. A pessoa da minha vida foi esse meu irmão mais velho, mesmo porque tudo que aconteceu na nossa família foi por causa dele. Essa penca de músicos que tem lá em casa, esse monte de gente com talento para a música, especificamente para a música, tudo vem dele.

INFÂNCIA
Lembranças da infância

A gente sempre foi muito unido, mas eu sempre precisei muito de amigos. O Lô, pelo comportamento, pelo temperamento dele, talvez nem tanto, mas eu não. Eu vivia na rua. Eu era um moleque de rua, e era moleque mesmo; sempre tive uma grande atração pela coisa marginal, pelos pobres, pelos filhos das putas. Tinha uma zona miserável lá perto de casa, na beira do rio Arrudas – onde tinha umas mulheres paupérrimas que se prostituíam –, e eu adorava. Era um lugar proibido, aqueles lugares tabus na minha infância: “Ó, não vai ali na Ponte do Cardoso!” Mas era só falar para eu não ir, que era lá que eu queria ficar. E eu ia pra lá, entrava naqueles corredores de favela e ficava, às vezes, a tarde inteira brincando com os meninos. Me lembro de um grande amigo – que eu não faço nem idéia do que foi feito dele – que durante um ano foi meu melhor amigo. Era um certo Paulinho, um pretinho filho de uma das prostitutas.
Eu fazia essas coisas escondido dos meus pais, obviamente – eles achavam que eu estava fazendo uma coisa e estava fazendo outra. Eu sou daquele tempo que a mãe falava: “Vai pra rua, menino. Fica fazendo bagunça dentro de casa não!”; porque a rua era um lugar seguro. A gente ainda vivia “no tempo da delicadeza”, como dizia aquela música genial do Chico Buarque. Obviamente já existia violência; sempre existiu, em todas as épocas. Essa própria cena da pobreza miserável, das mulheres se prostituindo, já é uma forma de violência. E isso foi na minha mais tenra infância, quando eu tinha uns oito, nove anos de idade.

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Brincadeiras de criança

Aí eu fugia de casa para ir brincar com o Paulinho na beira do Rio Arrudas – que era um ribeirão infecto, como é até hoje, era o esgoto da cidade. Eu ia nadar no rio Arrudas escondido da minha mãe, até que, um belo dia, me acharam lá todo doente, todo à morte, cheio de esquistossomose, xistose, giárdia – tudo quanto é verme horroroso tinha subido em mim e me prejudicado muito na minha infância.

FAMÍLIA
Problemas de saúde

Eu passei uma infância muito indo ao médico. Uma das coisas que eu mais lembro da minha infância é a quantidade de vezes que eu ia ao médico. Eu era muito desleixado comigo mesmo. Nadava no rio que é um esgoto, pegava tudo quanto é verme – esquistossomose era praticamente incurável naquela época. Outros amigos meus de infância pegaram coisas até piores, e acabaram, ao longo do tempo, não resistindo. Então eu era assim, muito fujão de casa.

INFÂNCIA
Lembranças da infância

Também gostava de roubar. A minha diversão era roubar na feira. Eu sempre fui o protótipo do mau elemento, aquele menino que falam assim: “Não anda com ele não”. Sempre fui um pouco acostumado a essa marginalidade. A mãe do Marinho, que era o meu principal melhor amigo (até escrevi um livro, “Os sete falcões”, e cito o Marinho lá), não gostava muito que ele andasse comigo. Eu era tido mesmo como uma certa má influência na cabeça daqueles filhinhos de papai e mamãe. Não diria que eu tenha sido “maldito” na minha infância, mas talvez tenham me “mal dito” por aí.
Uma vez eu cheguei em casa com um cavalo. A história é a seguinte: eu estava brincando, como sempre, lá perto do rio Arrudas, que era esse ribeirão-esgoto que corria perto de casa. Eu sempre corria para a margem do rio Arrudas, adorava a água. Era poluído, mas menino não tá nem aí, eu queria era ficar nadando, brincando. E lá tinha um pasto também. De vez em quando, eu pegava uns cavalos lá: pegava um pedaço de corda, laçava o cavalo, montava a pêlo mesmo. Um belo dia, eu quis levar o cavalo embora. E entrei em casa com o cavalo. Póc, póc, póc – pelo corredor adentro. Minha mãe tomou aquele susto, e o cavalo já fazendo aquela sujeirada pelo corredor; “Que é isso, menino?” “Achei esse cavalo.” Ela falou: “Cavalo a gente não acha, cavalo a gente rouba ou compra”. No Velho Oeste dos Estados Unidos, roubar cavalo dava forca! – ainda bem que não era lá, nem nessa época… Mas ela me obrigou a ir devolver e botar o cavalo no mesmo pasto que eu tinha achado. E lá fui eu, todo contrariado, devolver o cavalo. Eu devia ter uns 11 anos.
Mas eu era muito empestado mesmo. Eu era daqueles meninos tipo “o pestinha”. Dei muito trabalho pra minha mãe – e ela tinha a maior moral com os filhos, menos comigo, porque eu tinha aquela coisa de ser doente, de já ter uma revolta pelo fato de ser excessivamente vigiado por causa do negócio dos vermes, da xistose. Além de tudo, uma vez que eles foram tratar da minha xistose, descobriram que eu tinha uma história no coração. O que infernizaram minha vida com essa história do coração… Eu tinha que fazer eletrocardiograma a cada dois meses, uma vida totalmente vigiada. Aquilo realmente me exasperava; eu realmente não tive uma infância muito feliz não. O que eu me lembro é uma infância muito tensa, muito marginal, muito revoltada, muito a fim de zoar mesmo. Não estava naquela de bom comportamento. Com minha mãe mesmo, apesar de todo amor que eu tinha por ela, eu não apanhava não – minha mãe tinha aquele negócio de exemplar no chinelo: “Vem aqui pra apanhar”. Eu falava: “Eu não. Vem aqui me pegar pra bater! Eu vou me entregar pra você me bater?”. Ela ficava irada com isso, e eu sumia de casa, e ficava às vezes o dia inteiro fora, pra não chegar perto dela, para ela não me bater. Eu falava: “Só volto lá quando ela esquecer”. Mas ela não esquecia… Quando eu voltava já estava de noite, e ela falava para meu pai: “Você tem que dar uma surra nesse menino!”. Ela delegava a coisa para o meu pai: “Você tem que dar um exemplar nesse menino, ele apareceu aqui hoje com um cavalo roubado…”. E meu pai me trancava dentro do quarto dele, piscava o olho pra mim, e falava: “Chora!” E começava a dar correada na cama. A gente estabelecia logo aquela cumplicidade, do tipo: “Pô, esse é o pai que eu queria, um pai que respeita o filho marginal dele…”. Mas só que chegava lá fora, minha mãe já tinha percebido a encenação toda – boba é que ela não era. E ela falava: “Ah, não tem jeito, não. Você tá desencaminhando seus filhos!”.

FAMÍLIA
Relações familiares

Na verdade, a gente sempre foi uma família muito arruaceira. Não podia ser diferente. Com 11 filhos transitando com seus amigos, não tinha como ser uma coisa muito bem comportada. A gente sempre fugiu um pouco dos parâmetros, da nossa forma, porque aos filhos mais velhos também iam sendo delegadas funções, obrigações, e, de uma certa forma, poderes de vigiar os mais novos. Sempre teve uma coisa de azar do mais novo, porque tem sempre um mais velho mandando nele. Mas essa coisa também nunca foi muito rígida não, porque lá em casa todo mundo sempre foi muito propenso à desobediência civil. A gente tinha um gosto de vidro e corte…

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Iniciação musical

A música, na minha vida, entrou através de Marilton – obviamente, assim como entrou na vida de todos lá em casa. Tem todos os antecedentes do meu pai, da minha mãe, da minha avó que tocava bandolim… Mas ela tocava o bandolim na casa dela, não levava o bandolim pra tocar lá em casa. O meu tio avô, maestro Salvador Villas, era maestro da banda da polícia, da orquestra sinfônica não sei o quê… Mas quem me levou para a música e botou a música lá dentro de casa foi Marilton. Ele ganhou um cavaquinho e em poucos dias ele tocava eximiamente, muito mesmo. Tinha um outro menino que morava na rua Paraisópolis, lá perto de casa – o Tãozinho. Faltavam dois dedos de uma mão dele, mas era a mão que ele pegava pra bater, então não fazia falta nas posições. O Tãozinho tocava muito cavaquinho, e ele e Marilton começaram a tocar juntos. Então minhas primeiras lições de música foram na porta de casa, vendo Marilton e Tãozinho tocar cavaquinho. Tocavam bem, e eu ficava admirado de ver aquela coisa, que para mim era impossível. Eu não sabia nem pegar num instrumento – sempre fui um pouco desajeitado pra essa coisa de instrumento.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

E um dia Marilton chegou lá em casa com um disco que fez totalmente nossa cabeça. Ele levou esse disco – disco mesmo, aquele vinilzão, não era nem vinil, era acetato ainda, aquela coisa pesadona – eu acho que foi em 57. O disco se chamava “Chega de Saudade”, do João Gilberto – foi a primeira música de verdade que entrou lá em casa. E nós nos apaixonamos imediatamente, porque a gente sentiu que aquilo era diferente daquelas lenga-lengas “aboleradas” que tocavam no rádio e que eu não gostava muito. Gostava de uma rumba, das coisas que meu tio Luís tocava no violão. Eu me lembro perfeitamente do tio Luís tocando violão e cantando aquelas rumbas.
Tio Luís era daqueles que vestia sapato branco, terno de linho, chapeuzinho e ia para o baile dançar. Irmão da mamãe, ele era mulato, de bigodinho fininho, elegante, tipo um Nelson Gonçalves da antiga. Ele era muito legal, tocava bem violão. Tio João, irmão de mamãe, também tocava violão. Essas são as influências que eu lembro. Começavam assim as primeiras rodas de música que eu ouvi lá dentro de casa, com Marilton no cavaquinho e tio Luís no violão. Eu até lembro de umas coisas que o tio Luís tocava. Era uma coisa tipo salsa, toda “salerosa”.

PESSOAS
João Gilberto

Minhas primeiras empolgações com a música foram aquelas coisas espanholadas do tio Luís – aquela coisa mais latinona mesmo, mais rumba, mais merengue, aquela coisa mais balançadinha – e, ao mesmo tempo, aquela voz pequenininha do João Gilberto, que era absolutamente perfeita. Ele começava a mostrar pra gente que não precisava ser aqueles cantorezões de peito cheio pra fazer uma coisa primorosa e bonita. Mostrava que qualquer um, com sua própria voz, podia atingir a perfeição. E foi aquela a primeira lição de música que eu e Marilton tivemos: a perfeição do João Gilberto, em 1957. E aí ficou no sangue. Eu senti que já estava ali batizado em casa, embora ainda eu não tivesse feito um mergulho na música, que depois eu vim fazer. Foi essa história que, na verdade, levou Marilton a trilhar esse caminho.

FAMÍLIA
Irmão/ Marilton Borges

Dali a pouco minha mãe já estava comprando um piano. Primeiro um piano Brasil, de madeira e afinação mais difícil, mas que Marilton chegava lá e já debulhava, como se sempre tivesse tocado piano. Eu falava: “Bom, esse cara é fora de série!”. Aí o tempo foi indo, a gente foi crescendo, e eu sempre vendo Marilton ali com a música. Dali a pouco Marilton começou a freqüentar os conjuntos de baile – nessa época a gente já tinha mudado para o Edifício Levy.

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Edifício Levy / Wagner Tiso / “Bituca” (Milton Nascimento)

Logo quando a gente mudou para o Edifício Levy, Marilton de cara já achou os músicos do pedaço: o Wagner Tiso e o Milton Nascimento, que moravam no quarto andar. O Bituca morava numa pensão. O Wagner morava lá e estava estudando e trabalhando. Todo mundo jovem, ainda tinha aquela obrigação de estudante do secundário, essas coisas. O Bituca não. O Bituca já tinha feito o curso dele de Contabilidade, já estava mais adiantado do que nós na escola, já estava se preparando pra fazer o vestibular e tinha um emprego. Marilton já logo caçou Bituca e Wagner, mas eu não sei como exatamente eles se conheceram. Eu sei que um dia, quando cheguei em casa do Colégio Anchieta, de uniforme e tudo, dei com Bituca deitado na minha cama – era o quarto dos homens, aquela coisa dos beliches – e eu falei: “Uai, que negão é esse? O que é que esse negão tá fazendo na minha cama? Quem é você?”. Ele falou: “Eu é que te pergunto, quem é você?”. Eu falei: “Eu tô aqui no meu quarto, e você?”. Aí já ficamos nos conhecendo.

FORMAÇÃO MUSICAL
Preferências musicais

Dali a pouco chegou o Wagner, chegou o Marcelo Ferrari e chegou Marilton. E eu ouvi que eles começaram a ensaiar, porque estavam fazendo um quarteto vocal ao molde de ”Os Cariocas”, que era uma grande influência estética e sonora na vida da gente, naquela época dos trios ainda: Tamba Trio, Zimbo Trio… Tinha também o Jorge Ben – que depois virou Jorge Bem Jor –, que apareceu com uma batida totalmente diferente, que a gente era apaixonado. Ele mudou o nome, mas não mudou a genialidade. Essas coisas influenciavam muito a gente. Ouvíamos também muito disco de orquestra de baile: Lawrence Welk, Ferrante & Teicher, Ray Conniff. Linda época, me dá muita saudade desse som.

INFÂNCIA
Lembranças da infância

Pelo fato de eu ter passado pela infância um pouco doente, eu não podia ir em todas. Quer dizer, não era toda vez que eu conseguia escapar da vigilância paterna, materna e mesmo fraterna – Marilton também me vigiava muito. Me vigiava e me expulsava. Dizia: “Sai daqui, pô! Fica andando atrás de mim feito um rabo”, porque eu ficava mesmo, aonde Marilton ia eu ia atrás, querendo xeretar. Mas tinha hora que não dava, ele queria fazer as coisas dele e me expulsava.

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Leituras

E exatamente por causa disso, desse cerceamento, nem sempre dava pra eu escapulir, então eu estava sempre lendo, que é uma coisa boa de se fazer sozinho. A gente vem de uma geração de antes da televisão, não tinha televisão lá em casa. Aliás, não tinha televisão em nenhuma casa. Tinha rádio e livro, que era onde a gente buscava informação. Eu me lembro que meu pai sempre me incentivava muito a ler, ele me dava o Tesouro da Juventude, a coleção do Júlio Verne – eu lembro o cheiro dos livros até hoje. Impressionante… eu falei da coleção do Júlio Verne e me veio o cheiro dos livros… – que era uma coleção preta, bonita, com umas coisas douradas na lombada. Tinha “Vinte mil léguas submarinas”, “Viagem ao centro da terra”… Me deu também uma coleção de romances de capa e espada do Michel Zevaco, chamada “Pardaillan”. Eu lia aquilo e viajava. Nesses fornecimentos especiais do meu pai, eu fui adquirindo um grande gosto de ler, adorava ler. Na verdade, lá em casa, eu era o que tinha mais pendor pra ler. Eu é que embarcava mais nessa de ler – Marilton com a música e eu lendo.

FAMÍLIA
Irmãos

E as meninas crescendo. Sandra e Sônia. Nessa época a família era pequena ainda, não tinha nem vindo Lô, nem Yé, nem nada; tinha eu, Marilton, Sandra, Sônia e Sheila. Foi uma época em que nós fomos minoria, porque tinha três mulheres e dois homens. Não durou muito tempo essa minoria. Era nessa época que eu lia, lia muito. E de ler pra querer escrever é um passo. Falei assim: “É lindo ler, é lindo Michel Zevaco, é lindo o Júlio Verne…”.

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Leituras / Atividade de escritor

Aí meu pai me deu uma outra coleção, chamada “Saber Atual”, que vinha assim: “O que é isso? O que é aquilo? O que é literatura? O que é marxismo?”. Eu fui sabendo e quanto mais eu sabia o que era, mais eu queria saber. E fui me tornando um curioso, um grande curioso. E da curiosidade pra partir para os meus próprios experimentos, também foi um passo automático. Só que eu era muito tímido, tinha uma grande autocrítica, coisa que aliás eu tenho ainda. Sinceramente, às vezes até me trava o excesso de autocrítica. Faz parte de um componente da minha personalidade, eu sou severíssimo com meus próprios atos. E isso fez com que eu fosse escondendo as coisas que eu escrevia e não tivesse coragem de mostrar; fui escrevendo e largando as coisas dentro da tal malinha, que não era uma mala velha. Na época, ela era só uma mala. Eu escondia a mala debaixo da minha cama, que achava que era o lugar mais inexpugnável que eu tinha – menos quando o Bituca se escondia debaixo da minha cama pra se livrar das vassouradas da minha mãe… Aí eu fui guardando as coisas dentro da mala: eram crônicas, contos, versos, observações esparsas, pedaços de frases que eu ia escrevendo e jogando dentro da mala. E aquilo era meu segredo, não falava com ninguém que eu tinha aquela mala.
Até que um dia, meu pai descobriu a mala – não sei se felizmente ou infelizmente. Na época, pra mim, muito infelizmente. Eu me lembro que isso me traumatizou, foi como se eu tivesse sido desnudado de repente. Aí ele chegou e disse: “Meu filho, o que é isso aí?”. Eu pensei que tinha alguma coisa censurável – eu não tinha nenhum parâmetro, ia lá escrevendo. Achei: “Pô, escrevi o que não devia… lá vem a censura”. Mas na verdade meu pai estava espantado, segundo ele, com a qualidade dos escritos, porque revelavam uma maturidade maior do que ele reconhecia em mim como pai. Pra ele foi uma surpresa. Eu me lembro que quando eu fiquei meio apavorado, ele notou meu constrangimento por ter sido descoberto. Aí me deu um abraço e falou assim: “Meu filho, você está começando por onde eu jamais cheguei”. Eu falei: “Poxa, isso vindo do meu pai…”, que era meu ídolo intelectual, o jornalista da família, o cara que nos corrigia o português, a gramática, fazia absoluta questão de que todo mundo falasse corretamente, que usássemos linguagens pertinentes – a gente sempre foi muito desbocado em casa. Eu menos, porque nunca gostei de ficar falando mantras errados. Pra mim, o palavrão é um mantra esquisito, por isso não sou usuário de palavrão. Mas não tinha censura dentro de casa. Mesmo assim, meu pai zelava pela linguagem, pela correção do emprego, aquela coisa: “A crase não foi feita pra humilhar ninguém”. Então, quando ele falou sobre meus escritos, eu realmente pensei: “É um exagero do velho; ele tá querendo me estimular”.
Aí ele pegou um dos textos meus que ele achou na mala e levou para o Roberto Drummond, que era o editor-chefe de uma revista daqui, chamada “Alterosa”. Levou lá pensando: “Quem sabe o Márcio não ganha uns cobrezinhos como colaborador”. E o Roberto Drummond falou pra ele assim: “Qual é, Salomão? Fica escrevendo as coisas pro seu filho pra falar que é ele? Que maneira mais indiscreta de me pedir um emprego!”. Meu pai ficou injuriado com ele. Trinta e tantos anos depois, um belo dia, o Roberto Drummond escreveu uma crônica, pouco tempo antes de ele falecer, no “Estado de Minas”, lindíssima, chamada “Mea Culpa”, na qual ele contava essa história, falando assim: “Ainda bem que eu não dei emprego pra esse garoto, porque senão ele não tinha seguido o caminho da música e ia ser um jornalista como eu”. Então a história da mala era essa; ela era o meu reservatório secreto de um arsenal poético e mirabolâncias juvenis.

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Atividade de escritor

Eu escrevia sobre o cotidiano, sobre as coisas que eu via, sobre esses meninos filhos-da-puta, sobre a doença – porque eu me sentia um pouco doente por causa da minha infância. Eu custei muito tempo pra tirar um pouco essa coisa de eu ser um doente, porque foi uma coisa que me foi inculcada na infância e que custei a me libertar! Eu não podia jogar futebol, tanto que eu sou ruim de bola. Não podia jogar futebol, ninguém me deixava jogar futebol, meus próprios amigos não deixavam eu jogar: “Não, você não pode. Você sofre do coração, não pode jogar futebol”. Sempre aquele negócio do menino que sofre do coração. E isso, quando você tem 12, 13, 14 anos, é muito chato. Você se sente discriminado por ser um cara que sofre do coração – essas coisas não foram legais, nem um pouco. Muitos anos depois, eu fui fazer os exames e chegaram a uma conclusão: eu entrei até nos anais da medicina, porque eu era o primeiro caso colecionado até os anos 60 que tinha o tipo de bloqueio cardíaco que eu tenho e ele não ser provocado por doença de Chagas. Na verdade, eu tinha um coração de um chagásico, e eles achavam que o meu coração estava inchando e que eu ia morrer igual se morre da doença de Chagas. Era uma espada na minha cabeça durante toda a minha adolescência, eu achando que a qualquer hora eu ia. Eu não sabia o quanto eu ia durar.

FAMÍLIA
Problemas de saúde

Meu coração tem um bloqueio de feixe de ramo. Uma das válvulas dele não opera normalmente, ela abre ao contrário; e isso é o princípio do sintoma que faz o coração do chagásico inchar, estourar e levar à morte. Eu tive dois amigos que morreram da doença de Chagas, o Bauzinho – o Márcio Cardoso dos Santos – e o Zé Neto, grande amigo meu, compositor. Os dois morreram de doença de Chagas, adquiridas na infância. Então eles achavam que eu também tinha adquirido na infância, devido à promiscuidade em que eu vivia quando era menino, nadando no rio. Eles tinham certeza que eu tinha doença de Chagas e por isso não me deixavam fazer nada. Num belo dia, anos depois – porque que eu fui acompanhado durante anos –, comparando os exames, viram que não estava evoluindo como uma doença de Chagas, mas estava praticamente estacionado como estava há sete, oito anos. Foram fazer novos exames, a medicina foi evoluindo também, os eletros e as leituras foram ficando cada vez mais aperfeiçoados, e chegaram à conclusão de que era um defeito congênito – e, se era congênito, meu organismo já tinha se adaptado a ele e eu estava liberado. Mas aí já era tarde demais para eu estar liberado pra qualquer tipo de esporte, eu já não me interessava mais. Já estava a fim era de fazer cinema, já estava noutra. Quando me liberaram para a prática do esporte, eu já não queria nada com a bola, foi tarde demais pra mim. A hora que eu queria mesmo, quando eu era jovem, não pude. Essa é a história da mala – na mala tinha essa amargura de um jovem um pouco tolhido pra fazer as coisas da juventude, que é correr, pular e saltar. Eu era muito vigiado pra pular, correr e saltar, ninguém me deixava fazer essas coisas. Então eu ia roubar…

TRABALHO
Atividade de escritor

A descoberta dessa malinha pelo meu pai me bloqueou um pouco. Não foi exatamente um trauma, mas foi como se eu tivesse sido desnudado – aquele negócio, o menino tá fazendo bobagem no banheiro e o pai abre a porta. Eu me senti um pouco assim, meu pai abrindo a porta e me pegando no flagrante, que era o flagrante da mala. Mas também eu sou muito sem vergonha, e rapidamente eu falei: “Tudo bem, agora já não é segredo mais, então pode ler”. E eu deixei ele fazerem a devassa: “Façam o que quiserem com essas malas aí”. Todo mundo começou a ter conhecimento dos lances da mala, e começou a história: “O Marcinho escreve bem pra caramba”. E também foram me induzindo um pouco pra essa história – o excesso de elogios acaba forçando uma barra. Hoje, que sou pai, por exemplo, sei muito bem como que um elogio pode conduzir, ás vezes, mais do que uma reprimenda. Foi assim.

LAZER
Cinema
Quando eu vi, estava escrevendo. Mas eu queria mesmo era escrever roteiro de cinema, eu queria mexer com filme. Sempre fui apaixonado por cinema, desde a minha mais tenra infância. Lembro o primeiro filme que eu vi na minha vida: eu tinha oito anos de idade, entrei com meu pai à noite, na sessão das oito, no Cine Santa Tereza, e estava passando “Simbad, o marujo”, com o Sabu, um ator indiano que vinha da época do cinema mudo, mas que estava agora participando do cinema falado. Era um filme em preto-e-branco, obviamente – isso foi antes do cinema colorido, tecnicolor, não sei quê… Eu sou de um tempo que até o cinema era em preto-e-branco. Em cores, só a vida mesmo, que era bastante colorida, ainda bem.
A minha paixão por cinema é longínqua mesmo, vem de muito tempo. Até escrevi num livro sobre isso, sobre a emoção que senti quando eu vi aquela tela, aquele navio maravilhoso, aquele mar gigantesco, aquele toquinho de gente naquela tela gigantesca. Os cinemas eram legais, eram verdadeiros palácios da sétima arte, não era essa coisa de multissala, um monte de cubículo com aquela telinha 35 ali e vamos em frente. Eram uns telões mesmo. Eram templos da magia – apagava-se a luz, abriam-se as cortinas de veludo… Era um ritual ir ao cinema. E eu não só adorava ir ver esse ritual, como meu sonho era botar alguma coisa ali para as pessoas verem. Foi assim que eu comecei a virar um cinéfilo.

TRABALHO
Atividade de escritor

A capa do meu livro foi uma fusão de duas fotos compradas de estoque – um teatrinho no interior da Itália e aquela estrada de ferro de Minesotta, nos Estados Unidos. Eu tive a idéia da capa, e saí atrás de fotos que combinassem. Depois de uma grande pesquisa em vários livros de fotos, eu achei duas que coincidiam – o teatro e a estrada de ferro. Aí eu comprei as duas fotos, fomos para o Photoshop e fizemos a fusão. A idéia, o conceito que eu queria, já estava pronto na minha cabeça: eu queria uma estrada de ferro pedregosa que terminasse num palco iluminado – esse era o conceito que eu tinha. Eu sempre tive um pensamento muito cinematográfico, sempre pensei muito por imagens e sempre escrevi muito por imagens também. Talvez essa tenha sido a coisa que mais tenha alertado meu pai para um talento especial. A coisa mais impressionante é que meu pai, com 88 anos, sabe até hoje a descrição que eu fiz de um determinado personagem, num dos contos da mala – eu mesmo não guardo. Outro dia desses ele falou pra mim: “Olha como é preciso isso!”, porque com três adjetivos eu narrava um mau caráter e isso espantava meu pai – essa agudeza dos termos que eu ia buscar. Às vezes um gesto, às vezes uma característica, uma fungada, uma coisa assim. Mas é que eu sempre fui uma pessoa muito observadora, sempre observei muito os outros e sempre tive um talento. Se eu tenho algum talento, esse eu reconheço, na verdade até mais como uma espécie de maldição do que um talento, é ninguém me enganar no olho. Eu tenho um dom de sacar a pessoa no olho, e invariavelmente eu não erro; e quanto mais eu não erro, mais eu fico preocupadíssimo com esse condão, porque às vezes é chato. Às vezes a pessoa está no auge de um elogio pra mim, eu bato o olho nela e falo: “É falso. Essa pessoa vai me aprontar alguma”. E não dá outra, era falso mesmo e ela me apronta alguma. Às vezes numa levantada de sobrancelha eu já sei se o cara é do bem ou do mal. Isso desde que eu me entendo por gente – eu bato o olho e sei. Cada um continua sendo exatamente o que é, só que às vezes a gente se vê em situações que a pessoa quer te bajular por algum motivo de interesse próprio; ou às vezes quer te prejudicar por isso, por aquilo, sentimentos de justiça, ou injustiça, não sei. Mas o fato é que são nessas situações que eu pego, não é uma coisa a esmo – não sou cigana que sai lendo mão, não é bem isso. É um condão de, em determinadas situações, eu sacar onde é que está o coração do cara, independentemente do que ele estiver falando ou fazendo. Talvez isso tenha me transformado num escritor, essa destreza que eu tenho pra ler almas. Mas é uma coisa perigosa. Então resolvi transformar isso numa coisa do bem, que é escrever.
Bem, mas aquela minha mala teve um fim trágico, ela terminou incendiada. De propósito, porque depois dessa história da mala, ela virou uma relíquia. E de relíquia virou muleta. E de muleta, virou cadeira de roda. Eu não andava mais sem a mala, onde eu ia, lá ia essa mala. E 20 anos segurando essa mala velha sem fazer absolutamente nada com aquelas porcarias que estavam ali dentro. E eu resolvi, um belo dia, fazer um incêndio ritual do meu passado inteiro através daquela mala. Eu ainda não tinha uma concepção de museu, de preservar documentos – coisa que hoje estou correndo atrás. Mas naquela época eu esbanjei. Eu simplesmente incendiei a mala com todo seu conteúdo e fiquei livre dela. Confesso que hoje me faz um pouco de falta ver as preciosidades que foram queimadas, mas na época, durante muitos anos subseqüentes, me causou um grande alívio. Era ótimo estar livre daquela mala, falando assim: “Olha, eu posso viajar sem essa mala, eu posso andar sem essa mala, eu posso partir do zero sem essa mala, eu posso começar a escrever tudo de novo sem essa mala!”. Porque eu ficava muito preso aos textos velhos.
Então, quando eu queimei, foi como se eu tivesse me liberado. Eu limpei, eu zerei, apaguei o quadro-negro falando assim: “Terminada essa lição, vamos para a próxima. Quem ouviu, ouviu; quem não ouviu, ouvisse. Quem leu, leu; quem não leu, lesse”. As palavras estão aí, depende das circunstâncias. Eu não sou um cara muito apegado a coisas e objetos. Mas eu continuo acumulando um monte de papel. A coisa é o seguinte: aquela mala foi incendiada, mas dois meses depois, eu já estava com o dobro do volume de coisas noutra mala. Mas já não incendeio mais, já não tenho mais esses ímpetos iconoclastas: “Vamos derrubar tudo!”… Nem hábitos piromaníacos, de tascar fogo em tudo.
Eu gostava dos roteiros, mas a idéia dos roteiros eu ainda guardo, não sei pra quê, mas aquele negócio eu guardo. Como diz meu pai: “O saber não ocupa lugar”. Então eu guardo, não me pesa na memória, porque está guardado compactado, está zipado, não pesa muito, não.

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Baú

Minha história, na verdade, permanece em Santa Tereza com Marinho, meu grande amigo de infância, o Bauzinho. O Baú foi o melhor amigo que eu tive. Ele me esnobava porque ele sabia que eu era muito puxa-saco dele. Ele era genial. O Baú era mal-humoradíssimo, mas ele era engraçado. É diferente. Eu, no auge da minha fama, voltava pra Santa Tereza e ia direto pra casa do Baú, depois de seis, oito meses sem vê-lo. Eu estava voltando de uma turnê, uma excursão maravilhosa qualquer, da gravação de um disco espetacular, de algum grande feito que eu queria mostrar pra ele, chegava na casa dele e ele nem levantava da cama. Ele abria o olho e falava assim: “Ê, Barão…” – ele me chamava de Barão – “Você aqui de novo? Você não me dá folga”. Eu falava: “Cara, tem oito meses que você não me vê, como é que você fala que eu não te dou folga!?”. Ele: “Não, mas você é chato demais, oito meses é pouco; eu tenho que te ver uma vez por ano só”. Ele era absolutamente esnobe. O Bauzinho foi um dos que foram embora por doença de Chagas. Era muito meu amigo mesmo; eu tenho fotos dele carregando meus filhos. O Zé Roberto, por exemplo. De quando o Zé Roberto tinha um ano de idade e ainda dava pra carregar no colo. O Baú foi um dos melhores amigos que eu tive, se é que não foi o melhor. Mal-humorado, chato, mas a gente fazia coisas geniais. A gente tomava umas pingas e ia roubar um galo no galinheiro da vizinha. Ele falava assim: “A gente tem que roubar o galo, porque o galo é que enche o saco!”. O galo acordava ele toda manhã, bem de madrugada. Até que ele falou: “Um dia eu ainda vou cozinhar esse galo”. E me chamou pra gente armar o seqüestro do galo. Fizemos tudo direitinho, seqüestramos o galo, levamos o galo pra panela, o galo ficou horas cozinhando – horas, porque galo é duro! A gente só foi conseguir comer o galo quase de manhã. Aí deu aquele dó do galo: em vez do galo estar cantando, estava lá… e a gente palitando os dentes. Mas o Baú era legal demais. Viu quanta coisa eu já falei de roubar? Já roubei coisa na feira, roubei cavalo, roubei o galo do vizinho… Eu era dado a um roubozinho… Um furto, eu diria assim.

LOCALIDADES BELO HORIZONTE / FORMAÇÃO MUSICAL
Edifício Levy / Primeira composição

O quadro do Levy é bem aquilo que eu coloquei no livro. Na verdade, quando eu escrevi o livro, enfoquei mais o aspecto da minha amizade com o Bituca – que foi o que transformou tanto eu quanto ele. A história de a gente ter se apaixonado pela música, pela composição. Mas o meu primeiro parceiro mesmo, no Edifício Levy, foi o Marcelo Ferrari, que foi com quem eu fiz música pela primeira vez, a primeira vez que eu escrevi uma letra de música. Essa música se chama “Eu e o violão” e era uma bossa nova muito bonita, que eu ainda guardo, até hoje, alguns versos. Mas não sei tudo. Ela fazia muito sucesso lá nas escadarias do Levy.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

E essa música “Eu e o violão” foi o que levou o Bituca a ter um acesso de ciúmes. Falou: “Mas como? Fazer música com o Marcelo Ferrari e não faz comigo!”. Eu falei: “Mas você não tem música e o Marcelo tem, tá vendo? Tô te falando que o negócio é compor… o Marcelo já ouviu a história, já correu e já compôs”. Bituca também já tinha composto. Já tinha composto “Barulho de trem”, tinha composto umas outras coisas lá com o Berto – um primo dele em Três Pontas –, mas ele achava que eram experiências fracassadas. O Bituca teimava comigo que pra compor tinha que fazer curso de composição, tinha que ir pra escola de música, tinha que seguir um tipo de composição acadêmica. Eu falei: “Bituca, os arranjos que você faz pras músicas dos outros são iguais ou melhores do que as composições originais, em termos de valor. Elas são diferentes das músicas, mas se encaixam dentro da música, o que mostra que você sabe conduzir um pensamento musical pra chegar em algum lugar. Os arranjos que você faz são mais bonitos do que as músicas; você distribui as vozes aqui dentro de casa, no nosso quarto, pro Marilton, pro Wagner, pro Marcelo, pra você mesmo. Você é que fica: ‘Não, Marilton, faz assim; Wagner, você faz assim…’”. Ele ficava distribuindo tudo! Eu falei: “Isso é compor, cara. Só que você tá compondo em cima de música de outros!”. Aí o Bituca ficava encasquetado e respondia: “Pois é, isso tem a ver…”.
Mas eu nunca conseguia convencê-lo plenamente dessa história. Eu achava que ele devia compor, que ele devia dar atenção pra esse talento especial que ele tinha. Mas o Bituca era crooner – só que não era considerado um bom crooner. O melhor crooner que tinha aqui em Belo Horizonte na época era o Márcio José, era ele que pegava os grandes bailes. Marilton também era um grande crooner. Mas o Bituca, não; os caras achavam que ele tinha voz de taquara rachada. Falavam: “Não… você, com essa voz de taquara rachada, não pode ser crooner, cara”. Porque a voz do Bituca tem um timbre absolutamente especial e na época era diferentíssimo. O Bituca tinha um pouco de complexo com a voz dele. E eu tinha que ficar lá, fazendo aquela coisa com o cara, insuflando ele de amor próprio, porque ele já era supertímido, e ainda chegava, abria a boca e alguém zombava… Falavam: “Nossa! Vai tocar contrabaixo!”. Aí botaram um contrabaixo no cara e ele foi ser contrabaixista, porque não deixaram ele ser crooner. Mas ele já tinha feito Baile com o “Luar de Prata”, com o “W’s Boys”. Sei que, quando ele chegou em Belo Horizonte, a voz dele não agradou de cara, eu sou testemunha disso.
Mas a mim, sempre agradou muito, porque eu achava a coisa mais diferente que eu já tinha ouvido na minha vida. Comparava a voz de Marilton – uma voz bossa-nova, uma voz tarimbada, bacana, mais bem comportada – com a voz do Bituca, que era aquela coisa esganiçada, lá no alto. Era diferente; ele só cantava em tons altos. O Bituca tem uma extensão acho que de oito oitavas, que, segundo fiquei sabendo, na época só tinha a Ima Sumac – que era uma grande cantora, um mito por causa de uma extensão dessas. Eu sei que ele era uma coisa absurdamente impressionante como talento vocal. E soava bonito com as outras vozes, do Marcelo Ferrari, do Marilton, do Wagner, soava bonito demais. E eu ficava enchendo o saco do cara: “Você tem que cantar… Você tem que compor…”. Eu era aquele verdadeiro pentelho, o tempo inteiro. E o Bituca supertímido, não se dava muito com todo mundo. Acabou que, de repente, o meu amigo no Levy era ele, e eu dele – certamente porque nós dois éramos os chatos. Ele chegava pra mim e falava: “Olha, você fica andando com esse povo do Levy, puxando o saco deles, mas você vira as costas e eles falam mal de você. Falam que você é chato, que é jacu, que é suburbano…”. Claro, eu era suburbano mesmo, Santa Tereza era assim, era periferia. E o Edifício Levy, no centro da cidade, era classe média que morava no centro, porque o centro era o lugar mais aprazível na cidade, perto do Parque Municipal. Não tinha aquela coisa de ser o centro.

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Edifício Levy

E lá no Levy tinha o Cássio James, que era realmente amigo do Marcelo Ferrari, tinha o Leonardo Padrão, o Sérgio Maldonado. A turma era muito grande, tinha uns 50 meninos jovens. Eu sentia que tinha ali uns três ou quatro confiáveis mesmo, em termos de amizade. E os outros já eram muito amigos entre si. E hoje eu vejo que a juventude é assim mesmo, é segregadora pra caramba. Você tem uma turminha aqui e zero pra turminha de lá. Difícil penetrar num ambiente já formado, eu sentia isso. Mas de qualquer forma eu fui cada vez me juntando mais com o Bituca mesmo. E éramos eu e o Bituca juntos o tempo inteiro. Aí começavam as maledicências de jovem: “Pô, vocês tão namorando? Só ficam os dois juntos… Vão casar?”. E eu não tava nem aí. Mas não era só com Bituca, tinha com o Sérvulo também. Eu adorava andar com o Sérvulo e com o Bituca. O Sérvulo me levava para as sessões de cinema no CEC – Centro de Estudos Cinematográficos – e começou a me colocar no meio da roda da galera de cinema de BH. Já o Bituca era o Ponto dos Músicos. Esses meus dois amigos simbolizavam meus dois anseios principais, que eram a música e o cinema. O Sérvulo era o cara do cinema, o Bituca era o cara da música – apesar de minha primeira música ter sido feita com o Marcelo, “Eu e o violão”: “Um dia chega a tristeza/ Que sempre vem sem demora / E tudo perde a beleza / Pois meu amor foi embora.” Era óbvio, tudo bem primário, mas também eu tinha 16 anos, fazer o quê? Não podia estar no capricho total ainda. Nem sei se estou hoje, velho desse jeito.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

Eu me uni com Bituca pela timidez. Depois é que eu fui aprendendo a ficar mais safo na vida. Fui sendo um pouco empurrado pra isso também, porque eu era o cara das idéias na turma dos músicos. “O Marcinho é o cara das idéias, então o Marcinho dirige e escreve o roteiro.” Fui sendo empurrado pra isso, a ponto de chegarem e falarem: “O Marcinho escreve as letras”. E fui assumindo isso, um pouco à minha própria revelia, porque enquanto esperava a chance de fazer cinema, eu fui mandando ver – fazendo músicas evocavam imagens de cinema. Nossas músicas todas, principalmente minhas primeiras composições com o Bituca, são sempre muito cheias de imagens, são mini roteirinhos. Já que não podia fazer um filme, fazia música para o filme. Eu começava pela trilha sonora. Compusemos muita música assim, imaginando o filme que ela encaixaria – com “Vera Cruz”, por exemplo, foi assim. O próprio fato de a gente ter começado a compor mesmo, eu e o Bituca, foi um filme: “Jules et Jim”.

LAZER / PESSOAS
Cinema/ François Truffaut

“Jules et Jim” era uma linda história de amor. Depois, anos mais tarde, eu fui ler um livro chamado “Le Plaisir des yeux”, escrito pelo François Truffaut, que também foi o diretor de “Jules et Jim”. Foi a mesma coisa que fascinou Truffaut ao ler o romance original do Henry Pierre Roche, que escreveu esse romance aos 72 anos de idade – ele começou a carreira dele de escritor aos 72 anos de idade –, contando esse amor de juventude. Era a história de dois rapazes que são superamigos e que se apaixonam pela mesma mulher. Ambos vivem 20 anos repartindo a mesma mulher, praticamente. É uma história em tudo e por tudo, chocante. O amor verdadeiro, a amizade, um grito de liberdade, tudo nesse filme era absolutamente encantador. O texto do filme, que é muito em cima do texto do próprio livro do Henry Pierre Roche, é um texto encantador. Muitas cartas trocadas, é um filme muito epistolar. Os tempos de distanciamento… Um é austríaco, o outro é francês. Quando chega a Primeira Guerra, cada um está de um lado da trincheira. O francês está de um lado, o austríaco está do outro. Termina a guerra e eles voltam a se encontrar, e as cartas rolando entre eles, entre os três. E tem uma das frases numa das cartas que eu nunca vou me esquecer. É uma carta que um deles escreve para Catherine, que é a personagem feminina. A carta é escrita em plena guerra, com as bombas comendo, e o cara dentro da trincheira, e termina assim: “Seus seios são os obuses que eu amo” – e caindo obuses, explodindo do lado, ele termina a carta. Então o filme em tudo e por tudo é um filme literário, mágico, genial, cheio de imagens, de conceitos estimulantes. Aquilo pegou na veia.
Quando eu vi esse filme com o Sérvulo a primeira vez, falei: “Agora o Bituca tem que ver também”. E levei Bituca pra ver o filme. Eu tinha visto o filme numa pré-estréia promovida pelo Centro de Estudos Cinematográficos, pelo CEC, num domingo de manhã no Cine Metrópole, e logo depois o filme entrou no circuito comercial. Aí eu e o Bituca vimos esse filme dezenas de vezes. Só da primeira vez nós vimos o filme quatro vezes em seguida. A gente saía pra tomar uma água, eu pra fumar um cigarro – na época eu fumava, mas o Bituca nunca fumou –, e a gente não tinha coragem de sair do cinema. “Vamos embora?” “Não, não vamos não. Vamos ver mais uma.” E a gente voltava, assistia a mais uma sessão inteira. E assim íamos nos familiarizando cada vez mais, aprendendo cada vez mais sutilezas, mais detalhes, a harmonia da música.
Sei que quando terminou a última sessão, nós fomos lá para o Edifício Levy, voltamos pra casa e o Bituca foi direto para o meu quarto. Lá o Bituca, muito impositivo, falou: “Pega papel e lápis aí”. E eu: “Sim, senhor”. “Vamos lá, preparado?” “Preparado!” E começamos a compor. Compusemos logo três músicas numa tacada só, que são músicas que foram gravadas e que fazem parte do nosso repertório, da nossa história. Quando chegou o dia seguinte, eu não fui para a aula. Eu falei: “Agora vou dormir…” Minha aula era de manhã, mas eu não tinha condição, tinha virado a noite compondo! Nós começamos assim a nossa história. Demos aí o pontapé inicial na nossa parceria.

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“Bituca” (Milton Nascimento) / Ditadura Militar

O Bituca tocava contrabaixo no Berimbau Trio, que era ele, Wagner Tiso e Paulinho Braga. Tocavam na boate Berimbau – no Museu, vou reproduzir essa boate. Na porta dessa boate, eu e Bituca fizemos talvez a declaração mais linda de amor que duas pessoas possam ter feito uma pra outra: nós declaramos ali o nosso amor pela humanidade inteira. Uma paixão muito profunda mesmo, um amor muito profundo pelo povo, pelas pessoas, pelo brasileiro desprovido. E a boate Berimbau foi inaugurada, por uma coincidência lastimável, no dia 31 de março de 1964, exatamente no dia do Golpe Militar. A gente ouvindo no rádio as notícias do golpe e sabíamos que viria um período negro pela frente, como realmente veio. Ali, eu e o Bituca declaramos um amor lindo um pelo outro, uma fidelidade a essa história que tinha sido inspirada pelo “Jules et Jim”. A gente fez uma declaração de amor à música, à arte, ao cinema, ao povo, à liberdade, a tudo aquilo que a gente estava sendo privado exatamente naquele momento. E não deu outra – logo no dia seguinte teve a passeata “Por Deus e pela família”, do movimento “Tradição, Família e Propriedade”. Aí a direita botou suas garrinhas de fora; e foi quando começou nosso suplício, como a censura e outras coisas horríveis. Uma guerra como a que os personagens de “Jules et Jim” tiveram que passar… E a gente viu que o filme foi premonitório. Isso tudo nos fez entranhar o enredo do filme com o enredo da nossa vida. E a gente foi seguindo isso, sabendo que a gente vivia uma história especial, eu e Bituca. A gente não sabia ainda o nível, o tamanho dessa repercussão, dessa amizade tão impressionante. Mas eu falava com Bituca: “Bituca, você vai ser conhecido no mundo inteiro”. Aquele cara tímido, que mal abria a boca pra se expressar com os próprios amigos, ia ser conhecido no mundo inteiro. Ele falou: “Você viajou, você tá louco”. Eu falei: “Não, o mundo ainda vai saber disso. Essa história é muito poderosa. É um Sol muito quente para não iluminar o planeta inteiro”. Eu sabia que ia ser assim e assim foi.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

Esse trabalho do “Clube da Esquina” veio realmente ser conhecido, considerado e amado no mundo inteiro, inclusive pelas paixões das nossas vidas, como os músicos de jazz americanos, todos eles, que, de repente, estavam aparecendo nos discos. A gente ficava lá, nos tempos de Santa Tereza, ouvindo James Taylor. Quando a gente ia imaginar que o James Taylor ia cantar junto, cantar o nosso repertório? Nunca! A gente escutava Jon Andersen, Yes, Close to the Edge, aqueles discos apaixonantes, aquela coisa absolutamente de fã, de fanático – ouvia o disco, sabia o disco de cor, até arranhar de tanto ouvir. E, um dia, o cara tá cantando letra minha em português… São coisas que realmente a gente não imaginava. A gente sabia que o Sol era quente, mas não sabia que ia ser tanto. Sinceramente, não sabia que ia ser tanto não.

FORMAÇÃO MUSICAL
Aprimoramento
Eu tive uma vez um sonho, que talvez tenha sido a coisa que mais tenha me dado um norte. Um sonho que eu nunca mais vou me esquecer. No sonho estávamos eu, o Bituca e a Maria do Carmo – que foi minha mulher um tempo, durante 12 anos, mãe dos meus dois primeiros filhos, Zé Roberto e Gabriel. Estávamos sentados numa esquina – que não é a esquina do Clube da Esquina, mas a esquina da rua de baixo, ali em Santa Tereza – e aí começou a haver como uma esquadrilha de discos-voadores vindo de tudo quanto é lugar. Mas era uma coisa amedrontadora, mesmo porque eu sentia uma hostilidade. E olhava para o céu cheio de discos-voadores, vindo de todos os cantos do céu. Aí eu já estava no quintal da casa do meu padrinho, irmão da minha mãe, e um desses discos-voadores pousou no quintal da casa dele, mas não era um disco. Quando eu reparei bem, era um triângulo voador, como se fosse um triângulo de neon vazado no céu. E veio descendo aquele triângulo… Ele jogou um facho de luz, também triangular, no quintal, e alguma coisa imperativa me levava pra entrar debaixo daquele facho de luz. Eu fui e entrei. Quando eu entrei, era um ser todo de branco, luminoso, mas translúcido, e não tinha um formato. Tinha o formato de um homem ideal, com uma bata branca. Tudo leitoso, tudo vibrando igual ao triângulo. E ele descia desse facho e ficava pairando em cima da minha cabeça. Então ele me incutiu uma frase: “Você está muito preocupado com as obras de arte. Faça da sua vida a sua principal obra de arte”. Ele falou isso e subiu, e acabou o sonho. Aí eu tive isso como lema para o resto da minha vida: “Eu vou construir a minha vida como se ela fosse a minha obra de arte principal”. Daí eu ser um homem que vive muito atento aos detalhes, essa história de eu ser muito autocrítico, de não ter nenhuma auto-indulgência, de estar sempre propenso a estar me culpando excessivamente de coisas. Mas acho que era essa a preocupação que esse ser, que chegou nesse sonho, incutiu na minha cabeça. E eu cheguei a escrever esse conto exatamente como eu narrei. De qualquer forma, a ordem dele foi dada e eu procurei sempre cumpri-la, porque eu senti que era uma ordem vinda, do jeito que veio, de cima, inundando a minha mente. E daí em diante eu realmente procurei fazer isso. Transmiti imediatamente esse sonho para o Bituca e nós nos juramos seguir isso como sendo realmente a nossa trilha. Então eu sei que influenciei muito o Bituca, mas sei também que ele me influenciou em dobro; porque o Bituca é o Sol e eu sou a Lua…

TRABALHO
Avaliação

Quando eu ouvi minhas músicas sendo cantadas, sendo gravadas, não tive nem muito tempo de deglutir isso, de digerir direito, porque normalmente eu sempre estava agitado na produção dessas coisas, na concepção. Estava sempre envolvido do lado de dentro, então pra mim era sempre uma coisa de trabalho. Fazia parte dessa história de construir a minha vida como obra de arte. Eu falei: “É isso o que eu quero ser na vida: quero ser um artista, quero ser um homem do bem, uma pessoa que esteja do lado das causas justas, das causas certas” – que são sempre as causas populares, que são sempre as causas coletivas, porque o individualismo nunca pode estar muito certo, já que ele acaba em si mesmo. Aí já tem um componente de contradição, de inverdade. Sempre tive isso, de que eu tinha que me dar bem quando todos se dessem bem. Eu nunca quis me dar bem sozinho – índole de filho de uma família muito numerosa, sempre dividindo a comida por igual, dividindo o espaço exíguo da casa.

FAMÍLIA
Relações familiares

Sempre fui muito conformado com essa história de dividir. Sonhava muito com privacidade também, porque numa família muito grande, privacidade era uma coisa… Era quase como se fosse aquela vida na penitenciária, ou seja, sem nenhuma privacidade. Dorme de porta aberta, o espaço é aberto. Então sempre sonhava muito com essa história de privacidade. Privacidade era o sonho de ter uma casa que eu pudesse falar: “Essa casa é minha, vou dormir na hora que eu quiser, fechar a porta e ninguém entra”. Mas eu nunca confundi essa minha grande necessidade de privacidade com individualismo. Da necessidade de privacidade eu já desisti, jamais vou ter uma vida privada – tenho filhos, que invadem o quarto na hora que você está dormindo, fazem as necessidades de porta aberta, todo tipo de coisa da vida familiar. Já faz muito tempo que eu desisti de ter privacidade. Eu falei assim: “O que for público, pode ser tornado público. Então, eu não vou ter nada a esconder”. Isso também influencia um pouco minha índole, o meu jeito. Eu falo o que eu acho, em qualquer circunstância eu me manifesto claramente. Às vezes isso cria atritos e rusgas até dentro de casa. Sou o famoso “sem papas na língua”. Eu não tenho mesmo não. Do jeito que eu falo com meu filho, eu falo com o presidente da República; do jeito que eu falo com o presidente da República, eu falo com o jogador de futebol. Desse jeito eu falo com meu amigo mais íntimo. Ou seja, eu não sou um cara de duas caras, eu sou na cara. A pessoa sabe se estou bem ou se não estou pelo jeito de eu chegar, porque eu sou assim, sou uma pessoa escancarada. Eu não tenho segredos, nem zonas obscuras.

FAMÍLIA
Valores

Na minha vida cotidiana, eu quero ser o mais transparente possível, o tempo todo, porque eu tenho alguns valores que me foram inculcados desde pequeno, desde quando eu ia assistir à Missa do Galo com minha mãe e minha avó, nas noites de Natal, à meia-noite. São valores que têm muito a ver com os valores cristãos. Uma coisa que sempre meu pai falou, citando a palavra de Cristo: “Não jure. Que o seu sim seja sim, e que o seu não seja não”. E eu descobri que, atrás da singeleza dessa lição, tem uma profunda lição de vida, tem um trilho muito sério e certo pra se seguir – o sim é o sim, o não é o não. Quero dizer com isso que eu sou uma pessoa de palavra e valorizo muito o fato de eu ser um homem de palavra, zelo por ela. Eu não sou de ficar falando à toa; se eu falar que é sim, você pode ter certeza que é sim; se eu falar que é não, também não precisa insistir. Porque eu também não sou facilmente dobrável, não sou muito maleável. Mas se eu falei sim, esquece do resto. Se falei: “Olha, amanhã às tantas horas estarei aí”, acabou, estarei. Posso vir me arrastando, mas eu chego. Igual hoje, por exemplo, que eu estou um pouco doente, mas sim é sim. Eu gosto disso, porque é uma coisa que me faz acreditar em mim mesmo. E eu acho que, se eu acredito em mim, as pessoas podem acreditar também, porque eu não estou a fim de me enganar. Assim como eu disse que ninguém me engana, mas não me engana mesmo, eu também não estou a fim de enganar ninguém. Então isso me faz ser desse jeito que eu sou. Os meus amigos me conhecem e me respeitam, e sabem disso que eu estou falando. Falam assim: “Pô, o Marcinho é estourado”. Não é que sou estourado, é que eu falo na hora. Eu não levo pra remoer em casa; o meu cobertor e o meu travesseiro são sempre lugares da minha tranqüilidade. Quando eu encosto a cabeça na cama pra dormir, os problemas do dia já estão solucionados, porque eu não guardei para amanhã e nem pra pensar neles à noite. Eu vou vivendo pelos meus impulsos vitais, que são esses. Acredito nesses valores, que são poucos valores, são simples e fáceis de seguir: o sim é o sim, o não é o não. A verdade eu sei onde está, eu sei onde eu quero estar, em que time quero jogar. Eu não quero jogar no time dos aleijões mentais, dos aleijões de hábito, dos aleijões de caráter. Eu não quero jogar nesse time, eu quero jogar no time dos retos de caráter, das pessoas boas, de alma pura, sentimentos bons, que eu acho que são as coisas que valem a pena. Você fala assim: “Tô aqui vivo, tô aqui envelhecendo… Mas com verdade e não com mentira”. Eu não levo uma vida de mentira, e isso eu posso falar orgulhosamente para a posteridade: “Eu não levo uma vida de mentira. Minha vida não é dupla face. Só tem essa cara aqui”.

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Ditadura Militar

De 64 para frente, isto é, a partir do Golpe Militar, a gente se uniu pra dar conta das adversidades. A grande argamassa que juntou os tijolinhos foi a ditadura. Não vejo nenhum valor positivo nisso, mas a ditadura nos incitou a ficarmos cada vez mais unidos, a sermos cada vez mais corretos nas nossas decisões, para que, cada vez mais, nós nos colocássemos como uma oposição a essa afronta aos direitos humanos, aos direitos civis. Que nós nos colocássemos cada vez mais contra a violência e, principalmente, contra a violência promovida pelo próprio Estado. Esse Estado era um Estado de falência total dos valores. Aquilo que teria que zelar pelos seus cidadãos estava conspirando contra eles. É terrível viver uma situação dessas, principalmente quando se é jovem. A minha infância foi uma infância já cheia de grilos por causa do negócio de doença. A minha juventude foi debaixo de ditadura. A gente conseguiu sobreviver porque éramos fortes e unidos. E graças também às batidas de limão do Bigodoaldo.

PESSOAS
Bigodoaldo / “Bituca” (Milton Nascimento)
O Bigodoaldo foi um personagem maravilhoso, que ficava vendo eu e o Bituca compondo música. Cada música era como o nascimento de uma filha. E a gente ia para o Bigodoaldo comemorar o nascimento daquela filha. A gente tinha um ritual, e o Bigodoaldo ficava atrás do balcão falando assim: “Vocês são as pessoas mais impressionantes que eu já vi na minha vida”. A gente, dois jovens, e ele já um coroa… Falava assim: “Eu nunca vi uma amizade tão bonita feito a de vocês dois, é a coisa mais impressionante!”. A minha amizade com o Bituca era realmente bonita de se ver, porque é uma coisa que não surge toda hora. Na minha vida surgiu essa única vez, e eu tive essa sorte e essa graça. Mas uma amizade igual à minha e do Bituca… só houve aquela mesmo, só há aquela. Nunca mais vai ter um momento tão mágico, tão intenso, nem também tão doloroso. Eu vinha com todos os meus complexos, o Bituca com os dele. Então, na verdade, foi a união dos fracos que se tornou uma coisa superforte. Nós éramos os parias, eu e o Bituca – eu, o jacu que tinha vindo da periferia, um moleque desengonçado, mal vestido e vindo de uma família pobre; o Bituca sofrendo preconceitos na pele por causa da cor, por causa da origem humilde, por causa da origem interiorana. Aí caímos num ambiente todo urbanóide. Então era a união dos fracos. Bituca chegava e falava: “Esses caras tão de onda com você, não gostam de você não”. E dele não precisava nem falar, porque em cima dele a coisa era até um pouco mais explícita. Foi a união dos fracos, bem romântica mesmo – juntamos nossas fraquezas e os nossos defeitos para transformarmos isso numa coisa forte. E, ao mesmo tempo que eu alimentava a fraqueza do Bituca de força, de valor, de conseqüência, ele fazia a mesma coisa comigo. Ele me valorizava, ele me declarava amor fraternal de um jeito que eu nunca tinha recebido, então ele me fortalecia e eu fortalecia a ele. E nós dois nos fortalecíamos o suficiente para sair espalhando essa força motriz por aí, juntando mais gente em torno de nós – sem querer fazer nenhuma injustiça, por exemplo, à figura do Wagner Tiso, que foi o primeiro cara a insuflar no Bituca essa dose de amor-próprio que ele precisava para se soerguer, para ser o Milton Nascimento que ele é hoje. O Wagner Tiso é amigo do Bituca desde oito anos de idade, mas quem vai contar essa história é ele mesmo. Eu conto a partir do momento que eu já peguei o bonde, com o Wagner e o Bituca chegando no Edifício Levy, já na adolescência. Não eram crianças mais, já eram adolescentes, e eu também. Mas o fato é que quando eu peguei esse bonde com o Bituca, éramos o motorneiro e o condutor, só tinha os dois mesmo. Esse bonde começou a ser tocado por esse ímã de dois pólos, um pólo que era eu e outro pólo que era o Bituca. E a gente se atraía e se repulsava. Atração, repulsão, era mútuo o tempo inteiro. É igual ímã: você vem de um jeito, cola; você vem de outro, já não cola mais. Então era assim: dependendo do jeito que vinha, era repulsão total. Tinha dia de eu sair correndo do Bituca. Eu falava: “Ai, lá vem você de novo! Pelo amor de Deus! Não quero papo mais não” e zarpava, saía correndo. Porque às vezes era overdose. Esse excesso de amizade, de ficar junto o tempo todo, às vezes me sufocava e às vezes sufocava a ele também. Então tinha hora que um precisava sair correndo do outro, porque senão ficava igual marido e mulher. Aí eu falava: “Mas nós não somos casados nem nada!”. Éramos como Dom Quixote e Sancho Pança… Bituca era o Dom Quixote, e eu, o Sancho Pança, o fiel escudeiro. E o Bituca saiu com seu Rocinante, abrindo portas maravilhosas. E foram entrando outras pessoas nesse bonde, muito naturalmente. O Wagner Tiso já era passageiro desse bonde que eu peguei uma carona. Marilton também já era de dentro de casa, assim como o Lô.

PESSOAS
Beto Guedes

O Beto Guedes, menino, brigou uma vez com o Lô por causa de uma patinete. O Lô passou o Beto pra trás. Deu umas patacas velhas que ele tinha lá, que ganhou do vô Fragoso, e levou uma patinete maravilhosa do Beto, toda cromada. Aí o Beto quis destrocar, e o Lô não queria. Coisa de menino… Os dois tinham dez anos de idade, essa que é a verdade. E ali juntava com o Yé, que é o nosso outro irmão, mais ou menos da idade do Lô…

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Irmãos/ Lô e Yé Borges/ Beto Guedes

Eles fizeram um conjunto, o Lô, o Yé, o Beto e o Márcio – de quem esqueci o sobrenome agora –, tudo menino. Eles se apresentavam acho que no Pampulha Iate Clube, uma coisa assim, nas matinês de domingo – eram o “The Beavers”, um cover dos Beatles. Mas aqueles mini-covers, tudo menininho, cantando os primeiros sucessos dos Beatles. E o Bituca ficava orgulhosíssimo vendo os meninos ali crescerem já influenciados pela gente. O Beto influenciado, obviamente, pelo pai genial dele – o Godofredo Guedes –, que tem uma arca do tesouro a ser descoberta, tem quatrocentas e tantas composições, cada uma mais linda do que a outra. O pai do Beto é um excelente compositor. Então o Beto já vinha dessa tradição. E juntou com Lô, meninos ali da mesma história, no Levy. O Beto morava no Cesário Alvim, que era vizinho do Levy, e iam lá pra casa também, ficavam ali, um pouco ensaiando, um pouco brincando. E o Bituca todo orgulhoso de ver que a gente já estava influenciando os meninos. A gente levava eles para ver o filme dos Beatles, assim, pela mão. Pegava Lô, Yé e Beto e a gente levava eles para o cinema pra ver o filme dos Beatles. Lançavam um filme dos Beatles, a gente levava os meninos pra ver. Então já foram chegando junto da história, Beto e Lô.

PESSOAS
Tavinho Moura

O Tavinho Moura era meu colega de escola, da minha sala; ele era amigo do pessoal de cinema do CEC, que a gente freqüentava juntos. Conheci o Tavinho e saquei: “Ah, músico também…”. E trouxe o Tavinho para a história. Tavinho chegou no dia em que a gente estava fazendo a primeira audição do disco “Clube da Esquina”, em 72.

PESSOAS
Nelson Ângelo

O Nelsinho Ângelo foi o que primeiro embarcou no bonde, foi o primeiro a chegar. Estávamos eu e o Bituca, e o primeiro passageiro foi o Nelson Angelo. Um dos compositores mais geniais e talentosos que este país já viu. Nelsinho é um absurdo, e ele continua um absurdo. Ele é impressionante. Ele chegou em 63, 64, logo no início também. A gente estudava junto no Colégio Estadual. Tínhamos em comum a Marisa, que era amiga nossa e que foi minha namoradinha lá nos meus 17 anos. Foi ela que promoveu a aproximação do Bituca com o Nelson Ângelo.

PESSOAS
Fernando Brant

O Fernando Brant era da sala do Sérvulo Siqueira, que era meu segundo grande amigo no Edifício Levy, o do cinema. Foi o Sérvulo que apresentou o Bituca ao Fernando, num encontro que eles tiveram dentro de um ônibus.

TRABALHO
Parcerias

A gente foi se conhecendo na juventude, num ambiente estudantil; éramos todos estudantes, fazíamos nossas músicas para os estudantes. Os nossos primeiros auditórios eram os auditórios dos estudantes – aquele auditório em formato de mata-borrão feito pelo Niemeyer, no Colégio Estadual Central. A gente fez muito show ali enquanto éramos estudantes. Foi isso, uma turma. Primeiro, uma turma de edifício, como se fosse uma turminha de bar. Depois, fomos nos juntando pelos interesses de geração mesmo. Os músicos foram procurando os músicos, aquele negócio: quem se parece se junta. Fomos nos juntando, a turma foi crescendo, começamos a fazer as composições entre nós.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)/ Fernando Brant

Eu me lembro que me causou muito ciúme a primeira música que o Bituca fez com o Fernando, porque foi a primeira parceria dele que não foi comigo. Foi a primeira traição do nosso casamento, porque a gente tinha se prometido que jamais faríamos nada que não fosse um com o outro.

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“Travessia”

Mas o Bituca me traiu primeiro – ainda bem que ele traiu, e traiu magnificamente, logo com o Fernando Brant. Ele chegou um belo dia para o Fernando e falou: “Olha, eu estou com uma música aqui, mas essa música não é para o Marcinho Borges fazer”. O Bituca nega isso, mas o Sérvulo diz que ele ofereceu “Travessia” para o Sérvulo fazer. O Sérvulo me contou que em São Paulo – a família dele é paulista, então ele ia muito para São Paulo – o Bituca estava tentando a sorte lá uma vez ou outra, encontrou com Sérvulo e ofereceu a música para ele fazer, que veio ser “Travessia”. O Sérvulo tentou, mas se declarou incompetente: “Não, meu negócio não é poesia. Meu negócio é cinema, roteiro”. Devolveu para o Bituca e passou a bola. O Bituca ofereceu então para o Fernando Brant. Bom, como é uma história de traição eu não sei como se deu a traição… Eu sei a história que o Sérvulo me contou, que o Bituca antes tentou me trair com o Sérvulo. Não deu certo, então ele falou: “Mas a traição tem que ser perpetrada; estou cansado de fazer músicas com esse cara”. “Travessia”, na verdade, se chamava “O Vendedor de Sonhos”, porque a música tinha uma parte que depois foi cortada do arranjo final, e a referência do título ficou sem sentido. Por isso, o Fernando mudou pra “Travessia” – que é a última palavra do romance maravilhoso “Grande Sertão: Veredas”, do nosso querido João Guimarães Rosa, um dos ícones dos valores mineiros, um dos grandes orgulhos de Minas. O Fernando pinçou aquela palavra e botou como título da música, no que ele foi muito feliz, porque a música começava assim: “Quem quer comprar meus sonhos/Quando você foi embora…”. Então tinha esse rabichinho que a gente achava desnecessário. Muitos anos mais tarde, o Fernando e o Bituca vieram compor uma música chamada “Vendedor de Sonhos”, na qual eles revisitam a própria história. Então é isso. Aí deu “Travessia”…

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

Foi uma época de muito ciúme e frustração, porque quando o Bituca fez “Travessia” com o Fernando Brant, nós dois já tínhamos umas 20 músicas, ou mais, compostas. E nenhuma dessas 20 músicas foi apresentada no Festival. E logo a primeira música que ele fez com o Fernando foi. Isso quase me matou de ódio e de ciúme, falando francamente aqui. Fiquei com muito ódio, fiquei com muita raiva mesmo, custei a digerir isso. Me achava injustiçado: “Que injustiça!”, aquela choramingação. Eu nunca reclamei com ninguém, mas eu choramingava comigo mesmo, ficava cheio de auto-piedade, auto-indulgência – que foi, aliás, o único período da minha vida que eu tive muito isso, porque como eu até já afirmei aqui, não sou muito auto-indulgente, pelo contrário, sou bem autocrítico. Mas nessa época eu me achava a vítima, o marido traído. Falava: “Pô, o cara fez uma música com outro cara… Prometeu amor eterno e fez logo uma que vai ser um sucesso na vida dele! E minhas 20 ficaram no chinelo…”. Claro que não ficaram no chinelo, depois todas vieram a ser gravadas, fizeram sucesso e tudo, mas o sentimento na época era esse.

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Toninho Horta/ “Correntes”

Mas eu tive um belo prêmio de consolação, que foi compor com o Toninho Horta uma música chamada “Correntes”, que também se classificou nesse mesmo Festival Internacional da Canção. E eu pude participar da festa, ver tudo de perto, e ver o grande sucesso que foi “Travessia”, numa inesquecível apresentação no Maracanãzinho.

PESSOAS
Gonzaguinha

Nesse dia do Festival Internacional da Canção eu conheci o Gonzaguinha, que se apresentou a mim; ficamos nós dois vendo a apresentação de “Travessia”. O Gonzaguinha estava concorrendo também, ele tinha o crachá de circular nas internas, assim como eu. Então nós nos sentamos na coxia, atrás de uma cortina, vendo bem de pertinho. E o Bituca debaixo das luzes, recebendo aquela estrondosa ovação no Maracanãzinho superlotado, e eu e o Gonzaga chorando, igual duas crianças. O choro do Gonzaga era de pura emoção; o meu, de emoção e frustração, obviamente. Isso se chama ciúme. Mas valeu a pena. Tive muito ciúme de “Travessia”, muito mesmo; mexeu comigo profundamente.

PESSOAS
Novelli

Mas eu aproveitei os momentos de glória que estavam vivendo o Bituca e o Fernando Brant desde “Travessia” e fui descobrir outras coisas. Fui descobrir o Novelli, o belo professor de vida, de música e de tudo que ele é.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento) / Fernando Brant

Terminou o Festival e o Fernando e o Bituca tinham uma seqüência de entrevistas; era a celebridade chegando pra eles, e eu ainda um pouco na sombra. Quero dizer, eu tenho uma grande vocação pra ser o Richelieu da história, o conspirador na sombra. Eu tenho essa vocação, não fui eu que escolhi. Aí o Fernando e o Bituca foram para os holofotes, para as entrevistas, jornal “O Globo”, “TV Globo”, “Jornal do Brasil”, “Estado de Minas”… Foram dar o passo deles rumo à fama, e eu fui dar meu passo rumo ao aprendizado.

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Novelli / Beco das Garrafas
Eu saí do hotel, fui para a casa do Novelli, que morava num apartamento em Copacabana, e aí ia para o Beco das Garrafas cultuar aqueles grandes ídolos, Luiz Eça, os grandes músicos da época. Comecei a ir à tarde para o Beco das Garrafas; eu fazia disso um ritual. Eu ainda não tinha nem idade, nem grana, pra freqüentar boate de noite. Sabia que estava fora do meu alcance ir lá ver aqueles shows ao vivo. Mas à tarde eu ia lá e ficava na porta babando, vendo a foto dos caras – lembro disso até hoje. Ficava lá babando vendo o Tamba Trio, Tenório Júnior Trio… E o Novelli ali, me acompanhando, me ensinando coisas, me aplicando discos; foi um tempo divertido.

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Belo Horizonte / “Baú”

Aí eu voltei pra Belo Horizonte, pra Santa Tereza. Foi quando eu fui visitar o Baú, depois de meses no Rio, aquela repercussão toda. Aí o Baú: “Pô, cara, você aqui de novo!? Você não cansa de me perturbar não?”. Na verdade, tinha o Bauzão e o Bauzinho: o irmão dele, o Márcio, era o Bauzinho, e o Mauro era o Bauzão. Dois excelentes irmãos, me ajudaram muito nessa época que eu larguei um pouco pra lá as coisas.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Origens

A gente já tinha saído do Edifício Levy, tinha voltado para a casa de Santa Tereza, minha mãe já tinha fechado a escolinha… Foi um tempo que eu vivi uma vida de bairro, uma época que eu larguei Bituca e Fernando um pouco pra lá, fui viver minha vida de bairro. Estudava, chegava em casa e ia trabalhar – eu trabalhava nos Correios. E à noite ia para o Alto dos Piolhos jogar sinuca com o Lô, com o Toninho Horta, com o Bauzinho. O Toninho, muito jovem ainda, com uns 17 anos. O Lô já estava entrando nos seus 14 anos de idade. E eu já com meus 22, 23 anos. O Toninho ia lá pra casa, dar aula de harmonia e violão para o Lô, e o Lô continuava superamigo do Beto Guedes. E nessa história do Toninho dando aula para o Lô e para o Beto, começou a surgir um embrião da história do “Clube da Esquina”. Ele começa exatamente nessa época. Uma época em que eu larguei a vida do centro, larguei um pouco aquilo pra lá, um pouco decepcionado também. Tinha vivido aquele treco todo, feito 500 músicas e não aconteceu nada, e o cara faz uma e estoura… Eu falei: “Bom, Deus sabe o que faz”. Alguma lição tinha que aprender disso. E ficamos ali naquela história. O Bituca também viajou, mudou para o Rio. Vinha periodicamente pra BH; mas foi tentar uma vida no Rio, tinha uma agenda. “Travessia” já tinha acontecido, foi gravar disco nos Estados Unidos, foi gravar um disco na Codil, no Rio de Janeiro. Enfim, passou a ter uma vida profissional. Ele tinha aparecido, que era tudo que ele queria, tudo que nós queríamos. Só que na hora que ele apareceu, não apareceu exatamente como eu queria… Mas tudo bem, ele apareceu. E foi seguindo a vida. Foi para os Estados Unidos, fez uma turnê com o João Gilberto, ficou conhecendo Miles Davis… Já passou a um outro patamar. E eu voltei para a minha vidinha de bairro.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento) / Agostinho dos Santos

Neste período nós mantivemos pouco contato; Bituca me escrevia cartas. Aquela coisa do rompimento, pareceu uma separação mesmo. O cara foi morar no Rio de Janeiro e eu continuei em Belo Horizonte. Aquele período áureo do edifício Levy já tinha “volido”… sumiu. Eu voltei para a minha vidinha de bairro, de estudante, e o Bituca para a vida dele de artista, finalmente reconhecido, gravando, excursões, turnês, produção, empresário, essas histórias. Aí saiu um pouco da minha alçada. Mas o Bituca permanentemente me escrevendo cartas, cartas muito amorosas, muito estimulantes, querendo levantar meu astral – porque ele próprio sacou que eu fiquei meio de bola murcha por causa dessa história de “Travessia”, que na verdade ocorreu à revelia dele, porque foi o Agostinho dos Santos que escolheu essas três músicas. O Agostinho dos Santos escolheu músicas do Milton Nascimento, ele não escolheu músicas do Milton Nascimento e do Fernando Brant, do Milton Nascimento e do Márcio Borges; ele escolheu música do Bituca. E as três que ele gostava mais, por coincidência, não tinha nenhuma comigo. Foi o gosto do Agostinho dos Santos. Ele é uma figura genial, muito amigo nosso. Ajudou muito o Bituca no tempo de São Paulo.

LAZER
Cinema

E eu voltei para a minha vidinha de bairro, jogando sinuca, e foi quando eu comecei a namorar a Joyce; aí a gente começou a fazer o intercâmbio. Eu visitava meus amigos do Edifício Levy, esses quatro ou cinco que eu considerava verdadeiros amigos. Mas já estava surgindo uma nova geração do Edifício Levy, que era a geração do Paulinho Lagoa, do Paulo Vilara – que acabou sendo ator do meu filme, um curta-metragem que eu cheguei a fazer, “Joãozinho e Maria”. Eu já morava em Santa Tereza nessa época. Me lembro até hoje o dia que meu pai chegou com uma câmera e me deu de presente. Eu sabia que aquilo tinha sido um grande sacrifício dele, porque a gente era bem pobre. Era uma câmera Paillard Bolex 16mm. Eu juntei os dinheirinhos que eu tinha, vendi isso, vendi aquilo, fui pra São Cristóvão, no Rio de Janeiro, comprar resto de filme rebobinado. E com o resto de filme rebobinado e essa camerinha Paillard Bolex, eu fiz esse curta-metragem, que acabou ganhando um prêmio. Mas já foi parte de Santa Tereza de novo, a época do Levy já tinha dissipado. E Bituca veio ver a filmagem, que durou uns cinco dias. Nesses cinco dias o Bituca acompanhou as filmagens todas. A gente continuava superamigo, só não tínhamos mais aquela coisa de marido e mulher, porque já tinham se aberto as parcerias. E uma vez aberto, está aberto, e a realidade é essa. Mas a gente vai amadurecendo também, vai vendo que uma coisa é aqueles sonhos, aquelas promessas que a gente faz com 17 anos. Outra coisa é a realidade quando você tem 22. Quer dizer, tudo menino, mas já mudou muita coisa. Foi uma época tão ativa que os jovens de 17 anos estavam a fim de atropelar os de 20.

EVENTOS HISTÓRICOS
Ditadura Militar

Era uma época muito ativa, o movimento estudantil muito florescente, a gente aprendendo as ideologias, estudando os livros de Karl Marx, livros dificílimos que a gente entendia mais ou menos de orelha. Mas sentíamos que ali tinha uma grande justiça, tinha uma grande verdade ali dentro, um grande sonho que não era utópico, mas realizável – pelo menos a gente achava. Então isso foi nos mantendo ali, e eu participando do movimento estudantil. Comecei a freqüentar umas reuniões clandestinas da POLOP, que era a Política Operária, os estudantes se juntando com os operários. Comecei a freqüentar os primeiros núcleos de resistência armada à ditadura, mas não tive coragem. Eu falei: “Bom, meu altruísmo tem limite”. Eu não tenho vocação para mártir, eu não tinha vocação para o martírio, e sabia que aquilo ia terminar em martírio, como realmente terminou. Eu falei: “Não, eu vou ter que arranjar outra trincheira pra lutar contra a ditadura. Essa trincheira vai ser essa, que já está armada, que é esse barraco musical que a gente já está armando”. Foi quando eu comecei a dar um cunho cada vez mais panfletário para as minhas letras, cada vez mais mal arranjadas, mais mal acabadas; eu fui largando para trás aquela preocupação de rima, de ser bonitinho, de ficar falando de amor e flor. Foi a época de coisas como “Gran Circo”, “Lona Suja”, “O osso que vai se quebrar”, “Hoje é dia de El Rey”. Eram metáforas mais violentas. Aí as músicas começaram a ser censuradas, veio todo aquele período de obscurantismo terrível.

PESSOAS
“Bituca” (Milton Nascimento)

E o Bituca viajando muito para o exterior – porque ele, o tempo inteiro, plantou a carreira no Brasil e no exterior. Quando começou “Travessia”, um mês depois ele já estava gravando nos Estados Unidos, porque era aquilo que eu tinha dito pra ele que ia acontecer, há cinco, seis anos: “O mundo vai te descobrir, cara. Você é grande demais pra ficar enfurnado aqui no Edifício Levy”, eu sabia disso. E começou a acontecer de fato, e quanto mais acontecia, mais o Bituca dizia: “Olha, você foi o primeiro que me falou isso”. Isso deu a ele um sentimento de gratidão muito grande, e de amizade também. Tinha também aquela história dele se considerar o 12º filho dos Borges, e meu pai e minha mãe sempre dando muita força pra esse papo dele, pra essa viagem: “Pois é, então você tem que se comportar como 12º filho.” O Bituca sempre foi um irmão meu, mas não o 12º ou o 1º: Irmão é irmão, e isso a gente sempre foi. Mas como todos os irmãos, a gente tem momentos que está mais junto, momentos que está menos, momentos de rusga e de briga até. Eu briguei muito com Bituca, que também nunca foi flor que se cheirasse, assim como eu. A gente sempre se batia de frente, muito forte.

TRABALHO
Parcerias

Ao longo dessa minha trajetória, eu acabei colecionando um monte de parceiros também. Ou seja, depois de instituída aquela traição inicial que eu já falei, eu disse: “Então eu também vou ter parceiros”. Meu primeiro parceiro, na verdade, foi o Marcelo Ferrari, depois é que veio a seqüência toda com o Bituca.

PESSOAS
Toninho Horta / Fernando Brant / “Bituca” (Milton Nascimento)

Depois do Bituca, meu primeiro parceiro foi o Toninho Horta. Foi a primeira pessoa com quem eu fiz uma música depois que tinha prometido que não faria música com ninguém, só com o Bituca. Mas depois a gente liberou, fomos ficando mais maduros também, saímos daquela coisa ingênua, daquela coisa escolar demais. Abrimos a história de parcerias numa boa, maduramente, e as pessoas foram se transformando em amigas nossas: Fernando Brant, meu grande amigo até hoje. Toninho Horta, que foi o meu primeiro parceiro depois desse ciclo fechado com o Bituca… E continuei compondo com o Bituca também.

PESSOAS
Nelson Angelo

Fiz músicas também com o Nelson Ângelo – já que era pra abrir, abrimos entre nós mesmos. Aliás, considero o Nelson Ângelo um dos maiores compositores que esse Brasil já pariu em todos os tempos da existência. Ele é um gênio.

PESSOAS
Chico Lessa

Teve uma época também que eu fiz uma parceria com o Chico Lessa, um amigo meu de Vitória. A gente compôs uma música genial, chamada “No tom de sempre”, que virou o hino da nossa galera. Fizemos algumas músicas bacanas – eu adorava minhas composições com Chico Lessa. Eu ia pra Vitória, a gente ia passear de barco, pescar em alto mar, praticar mergulho. O Chico era um cara que sempre foi muito ligado à vida saudável, aqueles caras que são o contrário nosso, que somos da montanha. Como diz o Afonso Ávila aqui: “Bar, ó meu mar!”. Aqui é isso, mas lá não, lá era mar mesmo. O Chico Lessa era muito marítimo, muito mergulhador, conhecia muito de peixe, me ensinou a fazer moqueca capixaba genial. Não poderia deixar de lembrar Chico Lessa. Um grande amigo meu nessa época em que eu fiquei um pouco largado dessas coisas.
Nessa época que eu compunha com o Chico Lessa, apresentado a mim pelo Tavito, foi a mesma em que o Bituca estava se envolvendo com o “Som Imaginário”, fazendo aquele grupo que ficou antológico, que ficou histórico dentro da música popular.

PESSOAS
Tavito

O Tavito era um grande amigo nosso, também desde os primórdios do “Clube da Esquina”, dos movimentos musicais aqui de Minas. Tavito, com quem eu nunca fiz música, é uma pessoa que eu tenho a mais profunda admiração – grande artista, grande compositor, um guitarrista esplêndido, um violonista maravilhoso.

PESSOAS
Rick Delano

Quando voltei para Santa Tereza, comecei a mexer mais com essa coisa da política, do movimento estudantil, dos movimentos clandestinos. Nessa época eu freqüentava muito a casa do Rick Delano – Ricardo Guterrez, um grande amigo também, um homem talentosíssimo que, infelizmente, papai do céu levou bem cedo. Ele gostava muito de tomar um goró e não soube parar, e isso foi fatal pra ele; quando a maturidade chegou, ele chegou meio bombardeado, não sobreviveu e foi embora. Foi também um parceiro, fizemos umas músicas inéditas, que nunca foram gravadas por ninguém, senão por ele mesmo, em produções caseiras, independentes, às quais até recentemente eu tive acesso. Porque a ex-mulher dele, a Júnia Horta, que é tia do Toninho Horta, entrou em contato comigo há uns dias e me levou lá um acervo maravilhoso, umas pinturas do Ricardo e dois CDs gravados com as músicas dele, algumas minhas também. Foi uma emoção muito forte ouvir a voz do meu querido Rick Delano. Ele tinha aquela voz grande, grossa, bonita. Ele falava inglês muito bem… Era muito engraçado, porque ele era chinês, filho de portugueses com alemães e morava no Brasil. Então tinha dupla nacionalidade; ele tinha nacionalidade portuguesa e tinha nacionalidade chinesa – brasileira ele não tinha não, mas morava no Brasil – e era mais brasileiro que qualquer um de nós.

PESSOAS
David Tygel

Também não poderia deixar de falar no David Tygel, da galera do Boca Livre. Nós fizemos muita música também, foi uma pessoa muito importante na minha vida, numa época que eu vivia muito doidão, muito largado. E essas minhas músicas com David Tygel me ajudaram muito a segurar minha própria cabeça nessa época. É uma pessoa que eu tenho a maior gratidão e devo muito a ele, principalmente uma certa estabilidade emocional que ele me deu através da nossa parceria, numa época que eu estava me separando da minha primeira mulher, da Maria do Carmo. Eu ainda não tinha sequer conhecido a Claudinha, que acabou, graças a Deus, sendo a mulher da minha vida. Nessa época eu ainda estava meio traumatizado com aquele clima de separação, e o David Tygel foi muito importante pra mim nessa época. Ele era meu vizinho, eu ia pra casa dele, às vezes ele sentia que eu não tinha clima nenhum pra voltar pra casa, aquele clima de briga, as emoções muito à flor da pele, e ele me segurava lá: “Não, hoje você vai dormir aqui.”. E armava uma caminha pra mim. Ele me tratou mesmo igual a um irmão mais velho, com muito carinho. Eu tenho essa gratidão no meu coração pelo David Tygel.

PESSOAS
Zé Renato

O Zé Renato também, do Boca Livre. Tivemos uma curta parceria, porém intensa pelo grau de amizade e de admiração que eu tenho por ele, e que eu acho que ele tem por mim também, aquela coisa bem recíproca. Zé Renato, meu outro grande parceiro.

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“Clube da Esquina”

Tem também parcerias com os irmãos. O Lô, com quem eu construí 60% da minha obra como compositor, com a história de ele ir crescendo ali perto da gente. Tem uma história do “Clube da Esquina” que eu ainda não contei, quando eu faço minha primeira parceria com o Lô, que é meu irmão mais novo – quer dizer, mais novo do que eu, ele não é o mais novo da casa, o Telo ainda é mais novo que nós dois. Mas foi a primeira vez que eu compus com o Lô. Foi quando nós fizemos a música “Clube da Esquina”. Nós já estávamos de volta a Santa Tereza, o Bituca estava correndo o mundo da fama depois de “Travessia” e nós ali, na nossa vida doméstica de sempre, como era antes. E o Lô ficava só compondo, só tocava. Ele ficava insistentemente tocando um determinado tema lá, que era a primeira coisa que ele tinha composto; uma seqüência harmônica muito bonita, que era muito familiar lá em casa, mas não tinha melodia, não tinha nada. Só tinha os acordes do violão, que ele ficava fazendo sem parar – todo mundo já conhecia aquela seqüência, que depois acabou virando clássica, que é exatamente o início da música “Clube da Esquina”. Então um dia eu estava chegando do trabalho – eu trabalhava à tarde –, eram mais ou menos seis horas da tarde, naquela Rua Divinópolis, 136, e o Bituca tinha vindo do Rio, tinha chegado de uma das turnês dele pelo exterior e estava lá em casa. Em Belo Horizonte ele ficava invariavelmente ou na minha casa, ou na casa do Fernando Brant. Eram as duas famílias que ele tinha aqui. Eu cheguei e estavam os dois na varanda, o Lô e o Bituca, sentados numas cadeiras de ferro que tem lá em casa até hoje. O Lô fazendo aquela velha seqüência harmônica, que todo mundo de casa estava careca de conhecer. Mas tinha uma coisa nova na história – o Bituca estava no outro violão, fazendo uma música em cima daquela seqüência. E os dois violões cabiam maravilhosamente um dentro do outro. O Lô ia na harmonia e o Bituca solando, corda por corda, nota por nota. Eu achei aquilo tão bonitinho, fiquei tão emocionado de ver o Bituca, que era meu parceirão, nós já velhos e ele ali, dando aquela colher de chá para o Lô, com seus 16 anos de idade ainda. E eu fiquei achando aquela cena muito bonitinha. E resolvi interferir. Já tirei um lápis, um caderno, já comecei a rabiscar algumas palavras ali mesmo. Sentei no pé dos dois violões e ficava: “Não, repete agora, repete. Não, volta aquela parte”. E ele: “O que é que você tá fazendo aí?”. “Tô tentando escrever uma letra pra isso aí que vocês estão tocando”. E ficou pronto, simultaneamente, enquanto o Bituca acabava de arrematar a melodia em cima daqueles velhos acordes que o Lô fazia. Eu senti que ele estava doido pra compor e não vinha nenhuma melodia, mas aí o Bituca botou a melodia e fez a parceria. Eu coloquei a letra e resolvi homenagear nela basicamente o Lô, que era o menino da época. O Lô é quem freqüentava a tal esquina, mais do que nós, mais do que eu e o Bituca – porque a esquina era mais um lance dos meninos do bairro. Eles ficavam sentados naquela esquina contando caso, fazendo brincadeiras dessas de rua, coisas da nossa época: mãe-da-rua… brincadeira de menino mesmo. E eventualmente o Lô levava o violão e o Beto sentava ali também com o Toninho, que dava aula de harmonia para o Lô e para o Beto ali na esquina mesmo. Eu me lembrei dessa história toda e resolvi então, através de uma homenagem ao Lô, homenagear a esquina, que ao mesmo tempo é uma referência muito familiar.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Origem do nome

Quem usava muito esse termo do “Clube da Esquina” era minha mãe; mas ela usava pejorativamente, porque o clube nunca foi um clube. Ele era um pedaço de meio-fio. Por isso a própria palavra clube já traduzia uma ironia nossa em relação à esquina. Era só uma esquina, mas como ela era tão freqüentada, parecia um clube.

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“Clube da Esquina”

Então a gente começou a brincar de “Clube da Esquina”, e eu resolvi fazer uma homenagem a isso batizando a música com esse nome. Bituca gravou ela num disco, um disco bonito com capa do Kelio Rodrigues, que tem o Bituca desenhado a pincel atômico colorido, só o perfil dele, bem negrão. Logo depois ele foi solicitado a gravar um álbum duplo, porque ele tinha que gravar dois discos no ano pra cumprir o contrato. Aí ele propôs: “Por que é que eu não gravo um disco duplo? De uma vez só eu gravo os dois discos”. Os diretores artísticos da Odeon então eram o Adail Lessa e Milton Miranda, dois cavalheiros; pessoas que a indústria fonográfica jamais voltará a fornecer. Eram pessoas comprometidas com a arte, com a cultura, com o trabalho, eram pessoas respeitosas – o contrário dos executivos de hoje, que são uns mercenários que só pensam em vender bolacha como quem vende sabão em pó no supermercado. Eram avessos a essa prática execrável e aviltante do jabá, que é você pagar pra ser executado. Eram pessoas elegantes… Em suma: profissionais como não se faz mais hoje em dia. E essas pessoas tiveram a grandeza de reconhecer que ali tinha um trabalho de valor, apesar de sermos artistas jovens na época, praticamente desconhecidos – com exceção do Milton, que já começava a aparecer um pouco mais na mídia. Mesmo assim, Milton era aquele cara de “Travessia”, era o cantor de uma música só. Durante muitos anos existiu essa sombra na vida do Milton, “o cara de ‘Travessia…’”. Então todas as nossas músicas pregressas não tinham vez. E mesmo depois de ele ter gravado disco nos Estados Unidos, ter começado a ser considerado um cara realmente genial pelos grandes músicos americanos, era aquela coisa: “Santo de casa…”. Então, se não fosse essa grandeza mesmo de inteligência e de alma do Aldair Lessa e do Milton Miranda – que Deus os tenha, também já foram embora –, o “Clube da Esquina” não teria acontecido.
E, mais ousadamente ainda, o Bituca chamou o Lô pra dividir o disco com ele. Ele viu que o Lô, a partir daquela experiência da música “Clube da Esquina”, que nós fizemos ali, sentados na porta de casa, tinha frutificado. O Lô acelerou, começou a compor uma música atrás da outra. E tudo precisando de letra. Foi uma época muito fértil, cada dia saía uma música. E de repente a gente viu que estava com um material que dava folgadamente pra fazer dois discos, juntando as músicas do Lô com as músicas do Bituca, e as músicas que eles tinham feito entre eles, entre nós todos. Foi um tal de distribuir letra pra cá, distribuir letra pra lá: “Você faz essa, você faz aquela”. O Bituca, sempre muito consciente da história, distribuindo: “Não, essa aqui vai para o Fernando, essa aqui vai para o Ronaldo Bastos, essa aqui fica com o Marcinho…”, o Lô a mesma coisa.
Tivemos um grande trabalho de concepção artística geral de Ronaldo Bastos. Tem que se tirar o chapéu pra esse homem, porque grande parte da genialidade do disco “Clube da Esquina”, da durabilidade dele, se deve ao trabalho de formiguinha do seu Ronaldo Bastos, que agiu como um grande produtor – que ele viria a ser depois. Naquela época, ele ainda estava instrumentalizando os meios, aprendendo a lidar com aquilo. Ele transformou aquela nossa coisa caótica numa coisa ordenada, seqüencial. Falava assim: “Olha, não vai fazer esse tema não, porque esse tema o Fernando já está fazendo”, e foi ajeitando de um modo que as letras nunca se superpusessem, mas que fossem se somando uma à outra. Por isso esse disco tem aquele incrível clima de unidade, parece que foi uma música só composta, de princípio, meio e fim, e que atravessa o disco inteiro. Mas essa unidade foi muito bem pensada, principalmente pelo Bituca e pelo Ronaldo Bastos. Eu daquele meu jeito caótico, ia fazendo assim: “O que é que sobrou pra mim?”. “Ah, essa… pronto, toma… e outra”. Aí foi saindo “Girassol”, foi saindo “Trem de Doido”, “Tudo que você podia ser”… Foram saindo as grandes músicas daquele disco, que é um disco antológico. Mas a gente não sabia que estava marcando a música popular brasileira da forma que depois veio a ser considerada. A gente, na época, não sabia que estava marcando tanto ao fazermos aquele trabalho. Num determinado momento, inclusive, não ia se chamar “Clube da Esquina”: aquele disco ia se chamar “Documento Secreto n° 5”. Tinha isso, que era uma história nossa – a gente estava envolvido com clandestinidade, e ao mesmo tempo com o movimento estudantil. E o próprio disco era um disco todo enigmático, a começar da capa. É o produto mais
anticomercial de todos os tempos. A capa do disco são duas crianças, um menininho preto e um menininho branco. Nenhum dos dois tem nada a ver com a história, são apenas metáforas da amizade de um menininho preto e um menininho branco, flagrante que o Cafi achou numa estrada. Colheu aquela foto, mostrou a foto e falou assim: “A foto do disco é essa”. Falaram: “Mas que absurdo! O que é que tem essa foto?”, e ele falou: “O menininho preto é o Bituca e o menininho branco é o Lô; é o símbolo da história”. Bom, é um disco duplo, então você abre e o miolo não tem absolutamente nenhuma informação, mas uma centena de fotinhos em sépia, com a cara de pessoas absolutamente desconhecidas!
Era um disco totalmente secreto, um disco todo private joke, todo brincadeira interna. Quando você vira a capa do disco, aí sim está lá: “Clube da Esquina – Milton Nascimento e Lô Borges”. Aí você olha bem e pensa: “Mas quem será Milton Nascimento e Lô Borges no meio dessa confusão?”. Estão eles lá, no meio de cinco ou seis meninos descendo uma rua.
O disco tinha todo esse caráter de uma coisa secreta, por isso a idéia de o disco se chamar “Documento Secreto nº 5”. Era também pra fazer uma ligação imediata com a história da repressão, com a história dos dossiês. A idéia nossa era essa, que o disco tivesse, primeiro de tudo, essa leitura, uma leitura muito datada, muito voltada para a coisa da ditadura, da época, 72. Que ainda não era nem o pior tempo da ditadura, o pior ainda estaria por vir e a gente não sabia disso. Aí eu que comecei a insistir e falei: “Não, acho que esse disco tem que se chamar ‘Clube da Esquina’ por causa da história da música do Lô e do Bituca; a história deles começou com o ‘Clube da Esquina’”. Mas aí vinha alguém e argumentava contra: “Não, mas o ‘Clube da Esquina’ já foi gravado no disco anterior e aquele nem chama ‘Clube da Esquina’”. Eu falei: “Não importa, esse aqui vai ser o título do disco. O ‘Clube da Esquina’ é o seguinte: é essa galera aqui, esse monte de gente nessa foto. Esse que é o ‘Clube da Esquina’”. Então o “Clube da Esquina” já nasceu nessa coisa coletiva, do trabalho de muitos, da junção de muitas cabeças e muitos talentos. Fizemos o “Clube da Esquina”, lançamos o disco, o Lô foi para o Rio gravar. Mas a primeira audição do “Clube da Esquina” foi lá na Rua Divinópolis – eu morava nos fundos da Rua Divinópolis, num barracão que tem lá até hoje. Logo depois eu mudei para o Rio, mas eu morava lá então. Foi lá que apareceu o Tavinho Moura, que ficou conhecendo o Bituca pela primeira vez. Nessa audição eu me lembro que tinha vindo um pessoal do Rio, tinha o Paulinho Machado Carvalho, Paulinho da Viola, uma galera legal. Aí, quando a gente ouviu o disco – princípio, meio e fim – a gente sacou que tinha uma coisa espetacular na mão. Aí nós resolvemos nos dedicar a fazer o show de lançamento do disco, que foi uma epopéia – porque nós todos bebíamos muito na época, e era difícil conciliar o profissionalismo com o goró.

EVENTOS HISTÓRICOS
Ditadura Militar

Era um tempo de muita repressão, uma época de muita angústia disseminada; a gente fazia tudo muito com medo. Existia uma grande paranóia no ar, porque a repressão era de fato, ela não era só uma ameaça. A gente tinha notícias de amigos nossos sendo presos, capturados, torturados. E a gente estava sempre achando que nós poderíamos ser os próximos. Não era uma época nada tranqüila. Eu costumo dizer isso: minha infância foi aquela – doente, não pode jogar bola… ; minha adolescência, aquele treco de ser discriminado pela rapaziada, “Se junta com esse neguinho, vamos ver no que eles dão…”. E depois vem essa época da repressão, o pau comendo em cima, gás lacrimogêneo, prisão de amigos nossos e por aí vai. E aí eu me lembro de uma frase que eu sempre gosto de citar, uma frase do Paul Nizan, filósofo francês, marxista já recente. Ele tem uma frase que eu citei no livro – adoro citar essa frase porque pra mim é a coisa mais pertinente – falando a respeito da própria juventude: “Os piores tempos já passaram. Foram os melhores anos das nossas vidas”. Acho que minha vida foi exatamente isso, os piores tempos foram aqueles, porque foram tempos horríveis, mas foram os melhores anos das nossas vidas. Porque era um tempo em que a gente era jovem, e o tempo em que a gente é jovem, está disposto a superar tudo, a encarar o que vier com uma coragem, com um desprendimento que hoje, sendo já um pai de família, pensaria 20 vezes antes de me atirar numa aventura que pudesse pôr em risco a minha integridade física. Mas na época não pensava assim. A minha integridade física era o que menos importava; importava mesmo era mover aquela chama que não tem pavio, como já escrevi. Uma chama sem pavio, ela queima por si mesma. Aí eu me lembro também que eu escrevia muito a respeito dessas coisas na época, como as músicas com o Lô, na época do disco “Via Láctea”: “Isso não se apaga como uma vela/Nem se dispersa qual vento dos corações”. É isso, isso não se apaga como uma vela, isso é amor de verdade, vida de verdade. Então eu sou uma pessoa muito feliz porque eu vivi tudo intensamente, eu não entrei em nada meia-bomba, entrei sempre com tudo dentro. É o meu jeito de ser. Graças a Deus, em tudo que eu entro, é pra chegar até o fim.

TRABALHO
Atividade de escritor

Teve uma época que eu fiquei meio travado, foi logo depois de eu ter me casado com a Cláudia. A gente morou um tempo na França, depois eu voltei para o Brasil e comecei a síndrome de não conseguir terminar nada do que eu fazia. Passei bem uns quatro ou cinco anos em que eu não conseguia terminar nada que eu começava. Era um monte de projetos jogados pelas gavetas, iniciados e mal terminados; aquelas idéias mal alinhavadas que foram ficando aos pedaços. E a primeira coisa que eu voltei a conseguir fazer completo, com princípio, meio e fim, foi o livro “Os sonhos não envelhecem”.
Estimulado muito pela Cláudia também, que ficava me mostrando o espelho dos meus próprios vacilos, dos meus próprios erros… Ela falou: “Olha, será que, mais uma vez, você vai engavetar uma idéia boa? Será que, mais uma vez , você não vai conseguir chegar até o fim?”. E esse tipo de provocação foi me levando, me estimulando a encarar aquele cavalo de batalha que é escrever um livro. Um livro que eu sabia que estava mexendo com minha vida, que estava contando essas histórias que eu estou falando aqui. Foi uma época que eu revivi tudo aquilo na memória de uma forma muito intensa. Eu digo que sofri muito pra escrever esse livro. Refiltrar todas aquelas experiências, amargurar todo aquele ciúme de novo, passar todos aqueles processos, tudo de novo, foi chato pra mim, porque eu só conseguia escrever depois que eu tinha revivido bem as cenas dentro da minha cabeça. Então foi um processo muito prazeroso de escrever, mas também muito doloroso, muito emocionante. Quando eu terminei de escrever o livro, tecnicamente, eu peguei da primeira palavra até a última e falei: “Agora vou ler o livro como um todo”. Então essa foi a primeira vez que eu li o livro como um todo. Quando eu terminei o livro, chorei muito, mas eu chorei muito mesmo. Falei: “Não, mas então tá bom. As pessoas também vão chorar quando lerem” – porque o livro está emocionante mesmo.

EVENTOS HISTÓRICOS
Ditadura Militar

Acho que no livro eu consegui transmitir, apesar das lacunas da narrativa – algumas intencionais, outras por lapso mesmo –, um pouco daquela época, daquela história da nossa juventude, debaixo de uma ditadura brutal. A gente vendo nossos amigos se envolvendo em aventuras cada vez mais perigosas, depois alguns deles desaparecendo, simplesmente sumindo do mapa, outros reaparecendo nos porões das cadeias. Foi um avanço quando a gente começou a descobri-los nos porões dos quartéis, que foi quando começamos a lutar pela legalização dos status deles como prisioneiros políticos – porque não existia nem o status de preso político, eles eram simplesmente dados como desaparecidos. E nós: “Não, não estão desaparecidos. Foram localizados no quartel tal, na prisão tal, no quartel tal”. E assim, através daquele trabalho de formiguinha de uma geração inteira, trabalho do qual participei muito também, eles tiveram reconhecimento como presos políticos. Como presos políticos eles não podiam mais ficar lá, isolados na Ilha Grande, sei lá onde, foram todos para o presídio da Frei Caneca. E isso já foi uma grande vitória – eles todos estarem reunidos no pavilhão dos presos políticos. Ou seja, foi um avanço o reconhecimento da existência de presos políticos no Brasil. Então eles foram recolhidos ao pavilhão dos presos especiais, ou seja, os chamados presos políticos. Eles não davam essa bandeira de chamar “preso político”, eles falavam “presos especiais”; mas eram os presos políticos, por crimes de ideologia. Absurdo, ideologia ser crime… Mas foi, isso é o Brasil, não estou falando de ficção científica não, nem de George Orwell; estou falando do Brasil, coisas que eu vi. Aí todos foram confinados no pavilhão dos presos especiais, na Frei Caneca.
A próxima batalha foi conseguirmos que eles pudessem ser visitados uma vez por semana. Isso a gente conseguiu também, em reuniões que nós começamos a fazer, inclusive, dentro da própria Frei Caneca, com a participação dos próprios presos. Eu participava dessas reuniões, Chico Buarque, Gilberto Gil, o próprio Milton também chegou a visitar os presos comigo lá na Frei Caneca, além de outros artistas e intelectuais. De qualquer forma, era uma geração nossa, então a gente tinha aquela solidariedade, a gente sabia que a gente estava do lado de fora fazendo música, mas apenas porque não tínhamos pegado em armas como eles. Porque a vontade era fazer exatamente como eles tinham feito. Então a gente usava nossas músicas como as nossas metralhas, como as nossas bombas. Foi uma época que a gente fazia shows para quatro, cinco, dez mil estudantes, e os próprios presos políticos escutavam as obras do “Clube da Esquina” como obras libertárias, como obras que tinham a ver com aquele momento político que estava sendo vivido ali. Eram bandeiras de liberdade ali, dentro daquele oceano de escuridão que era a ditadura. O Ato Institucional nº 5 já tinha rolado, então esses foram os fatos que precederam a abertura política, que precederam a anistia, que foi o primeiro passo em direção às eleições diretas – que só ocorreram três anos depois da anistia, mas que tudo veio num processo histórico, que eu tenho orgulho de dizer que participei intensamente. Participei como artista, como panfletário, como clandestino, como um dos articuladores da história da anistia, como visitante dos presos políticos. Até hoje alguns são muito meus amigos, hoje em liberdade, claro. Então participei desse movimento como músico, como intelectual, e que veio culminar na grande festa cívica, no grande clamor cívico, que foi o movimento das “Diretas Já”.

EVENTOS HISTÓRICOS
“Diretas Já”: 20 anos

Ontem mesmo eu tive uma grande emoção ao receber do governador Aécio Neves, pessoalmente. O meu nome estava citado lá, como uma das cem pessoas que ele escolheu pra representar o povo brasileiro que lutou contra a ditadura, que lutou pelas “Diretas Já”. E eu tive a honra de ser um desses nomes escolhidos como representante dessa época. E ontem ele me chamou lá na praça pública, me deu uma pomba da paz linda, de gesso, como agradecimento à minha participação no movimento das “Diretas Já”. Foi um momento muito emocionante, porque tinha muitos anos que eu não via a Fafá de Belém, praticamente a vi desde pouco depois dessa coisa da anistia. Ela foi seguir a carreira dela, eu fui seguir a minha, a gente se perdeu pela vida, apesar do amor, da amizade, da consideração sempre ser a mesma. Então, depois de muitos anos, eu revi a Fafá ontem, e num momento especial, em que ela cantava o Hino Nacional. Ela veio caminhando pela praça diante dos homenageados e terminou de cantar o Hino Nacional exatamente diante de minha pessoa. E aí, quando ela terminou na minha frente, eu me abracei a ela e nós começamos a chorar, todos os dois. Foi um momento muito intenso ontem.
Depois, o governador, já no almoço de confraternização – ele é muito meu amigo, meu companheiro de outras histórias – me disse: “Aí, Marcinho… tô sabendo que você ficou muito emocionado hoje na hora lá da pomba”. Eu falei: “Fiquei demais, só você mesmo pra preparar uma grande emoção dessa”. E eu fiquei sabendo também que parece que Minas foi o único lugar onde se comemorou os 20 anos de “Diretas Já”. Eu não soube que isso tenha sido comemorado em outros Estados. Mas eu sei que aqui nós comemoramos pelo Brasil inteiro, porque tinha gente do Brasil inteiro aqui: artistas, intelectuais, políticos, senadores, a classe artística, gente do Brasil inteiro que vieram ser homenageadas. Estavam lá Jards Macalé, Fafá de Belém, Cristiane Torloni, Milton Gonçalves, Eduardo Suplicy, Tilden Lacerda… Foram duzentos e tantos homenageados. E eu tive a grande honra de ser um desses homenageados, então isso de certa forma justifica muita loucura – porque a gente acha, na época, que está vivendo uma loucura, mas depois vem a própria história… E aí, em praça pública, falando: “Não, a sua loucura foi pertinente; a sua loucura tinha um quê de ira divina, tinha um quê de justiça”. Na verdade, a gente era muito louco, mas esse sentimento de justiça, a gente sempre trouxe ele na palma da mão: verdade, justiça… valores eternos. Verdade eu não sei onde está, mas o coração da gente aponta, porque quando a gente faz qualquer coisa que sabe que não foi certo, o coração aponta antes da consciência, o coração dispara. Quando a gente está pra fazer alguma coisa errada, o coração dispara de um jeito que é bandeiroso… Algo dentro da gente sabe muito bem o que é que é certo e o que é que é errado, não precisa ninguém dizer; basta escutar essa voz interna, basta escutar esse coração disparado ou batendo tranqüilo. Às vezes ele bate tranqüilo, às vezes ele dispara de emoção também, como ontem disparou. Ontem disparou que eu caí num pranto convulsivo mesmo, abraçadão à Fafá, e nós dois chorando. Depois, falei: “Não, agora chega de chorar; agora vamos tomar uma pra comemorar a festa!”.

FAMÍLIA
Irmãos/Telo e Lô Borges

Mas as parcerias continuaram. Outro parceiro meu é o Telo Borges – meu irmão, não é o caçula, mas é quase o caçula. Pra primeira música que ele fez eu fiz uma letra. Ele era muito novinho, então eu fiz uma letra bem inocentezinha, bem ingenuazinha pra ele, que era pra ele poder cantar aquilo sem que soasse ridículo na voz de um menininho de 12, 13 anos. Um menininho de 12, 13 anos, não pode sair cantando “Meu amor… não sei o que… minha angústia…” Aí eu fiz pra ele o “Voa Bicho”: “A andorinha voou, voou/Fez um ninho no meu chapéu/E um buraco bem no meio do céu…”. Foi a primeira música que eu fiz pra ele, em cima de uma melodia dele. Depois fizemos “Vento de Maio”, “Alma de borracha”, “Ainda”… aí destampamos uma parceria muito bacana também. Lô e Telo, de casa, nós temos uma parceria forte.

FAMÍLIA
Irmão/Nico

Tem uma ou outra música com Nico, meu irmão caçula, que nunca vingou. Nossas parcerias nunca vingaram direito – porque o Nico também nunca botou os dois pés dentro da profissão. Como diz a música do Fernando Brant: ele sempre pôs um pé cá, outro lá. Então as músicas também ficaram um pé cá, outro lá. Pra ser músico, tem que cair dentro, não tem como ser meio músico. Ou você é músico inteiro, ou você não é nada. Mas também tenho alguma música com ele.

PESSOAS
Beto Lopes

Tenho também jovens parceiros, como o Beto Lopes. A gente tem aí umas duas ou três músicas, e prontos pra desenvolver outras. O Beto Lopes é um excelente guitarrista, um grande compositor.

PESSOAS
Tavinho Moura

Tem o Tavinho Moura também, com quem eu tenho grande parceria, bacana, nós temos altas músicas geniais: “Como vai Minha Aldeia”, “Salve o grande rei”, “Cruzada”… Nós temos algumas grandes músicas.

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“Bituca” (Milton Nascimento) / Lô Borges

Mas eu diria o seguinte: da minha vida como compositor, 90% dela está concentrada nesses dois: Milton Nascimento e Lô Borges. Com certeza aí vai 90% da minha obra.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

O meu processo de composição é assim: eu procuro fazer uma coisa de psicanalista amador. Eu procuro um pouco entrar, porque na verdade eu tento traduzir em palavras aquilo que o cara expressou musicalmente, na voz, na respiração. Eu fico prestando bastante atenção no “laraiá laiá…” que vem antes, porque toda música começa com um “larará lará”. Aí eu fico prestando atenção nessas voltinhas, pra não acentuar errado, pra não dar uma volta errada. E fico pensando um pouco na própria pessoa ali, no parceiro que está cantarolando na minha frente. De uma forma que eu possa penetrar no íntimo daquela pessoa. E, normalmente, como acho que música é filha, a gente tem esse sentimento de muita intimidade, mesmo ao estar compondo. Então eu me permito viajar nas intimidades. Eu não fico esperando muito a inspiração não; às vezes precisa ter uma idéia especial, mas eu não fico esperando muito. O negócio é o seguinte: tem que fazer, tem que fazer. Tem que estar pronto; é pra gravar, tem que estar pronto. Depois, a história de se ficou bom e ou não, eu também não julgo muito ao fazer.

PESSOAS / MÚSICAS
Nelson Ângelo / “Tiro Cruzado”

Nelson Ângelo, por exemplo. Nós fizemos “Tiro Cruzado”, que é uma das nossas músicas mais gravadas internacionalmente – Tom Jobim adorava essa música, tanto que a gravou. Ele adorava pelas palavras, pela malícia das palavras; ele tinha toda uma teoria em cima da malícia, da malevolência, do jogo de palavras, que são teorias – porque, na verdade, eu fui premido pelo tempo. A composição dessa letra foi assim: eles estavam dentro do estúdio, eu cheguei lá e o Nelson falou: “Olha, Marcinho, que bom que você chegou, porque está terminando o período de gravação, tem que botar voz e não tem nem letra ainda”. Eu falei: “Mas como botar a voz se não tem nem letra ainda?”. Ele: “Não, porque resolveram agora que essa música não vai ser instrumental”. Eu falei: “Então tá bom”. Enquanto eles acabavam de fazer o arranjo lá, em quinze minutos eu compus: “Pula do muro, cai do cavalo, pula que eu quero ver/Sombra no escuro, verde maduro, corre que eu quero ver/ Salta de lado, tira o cruzado, dança que eu quero ver/Corta de canivete que eu quero ver/ Segura que é agora que eu quero ver…”. Saiu em 15 minutos. Estava gravado, ficou.

FORMAÇÃO MUSICAL / DISCOS
Composições / “Clube da Esquina”

Então eu sou muito de fazer pela necessidade de fazer mesmo, como foi com o “Clube da Esquina”. Falaram: “Ó, tem 15 músicas. Você vai fazer seis, o outro vai fazer quatro, o outro vai fazer quatro e o outro vai fazer cinco”, sei lá quanto… não sei quanto dá essa conta, mas foi assim. Então eu sei que eu tenho seis músicas pra fazer, e é uma atrás da outra; acabou uma, essa aqui já está morta, vamos para a outra. Compus muito assim mesmo. Juntei umas 300 músicas, sei lá quantas, duzentas e poucas, já perdi a conta…

FAMÍLIA
Filhos / Valores

Sou pai zeloso. Se tem uma coisa que eu tenho orgulho na minha vida é de ser pai. Isso aí é uma coisa que eu exerço bem – eu acho que exerço várias coisas bem, mas o que eu exerço melhor mesmo é ser pai – porque eu sou um pai totalmente dedicado e amoroso com meus filhos, sempre fui. E mais ainda: sou aquele pai galinha dos pintinhos: quero todos debaixo das minhas asas eternamente, até sufoco um pouco. Mas eu quero, não importa a idade, não importa tamanho, não importa nada; eu quero meus filhos debaixo da minha vista. Mas eu sou um pai caprichoso. Adoro meus filhos, procuro dar a eles bons exemplos – mais pelo exemplo do que por falação. Não sou muito de ficar fazendo discurso na cabeça deles. Nem nunca fui de ficar incutindo muito valor. Acho que valores cada um acha os seus e que os cultive como quiser. Sou um defensor da liberdade. Eu dediquei a minha vida mesmo para defender a liberdade – a liberdade de expressão, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento. Então, dentro de casa eu procuro exercer isso: eu não vou querer saber de moldar ninguém. Meus filhos são testemunhas disso, de que eu não quero moldá-los, quero ser só companheiro e transmitir conhecimento, transmitir informação. Mas sempre num plano de igual pra igual – do mesmo jeito que estou transmitindo, também estou recebendo –, porque eu quero saber o que vem da geração deles pra mim, pra ter esse intercâmbio o tempo todo, pra não ter uns pontificando e outros obedecendo. Não, todo mundo pontifica, todo mundo obedece, todo mundo manda. Lá em casa é assim, eu sempre falo com meus filhos: “Olha, eu estou tão pronto pra mandar como para obedecer”. Porque eu acho que quem não sabe obedecer não pode mandar; agora, como eu sei obedecer muito bem, acho que eu tenho alguma razão de mandar também. É isso, porque eu acho que a coisa corre junta. Eu não quero ser só mandão, e quero mostrar isso também, principalmente para os meus filhos mais novos. Para a Helena, eu falo muito isso. Ela fala: “Mas você não deixa eu mandar em você”. Eu falo assim: “Você que acha que não. Por exemplo, você não me mandou fazer isso? Eu não fui correndo fazer? Não obedeci imediatamente?”. Ela: “É, é mesmo, mandei”. Então a gente vai refletindo e vai vendo que é isso mesmo, que pra ela se preparar, pra saber mandar um dia, ela tem que saber obedecer na boa, porque é aquela história: quem ama de verdade sabe render obediência. Tem que ter uma obediência ao que quer que seja, nem que seja a valores transcendentais, mas você tem que obedecer a alguma coisa. Pessoa que não está preparada para obedecer nada ou ninguém, está sem rédea. E cavalo solto correndo no mato sem rédea acaba se machucando ou quebrando a pata. Então obedecer não é mau não.

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