Maria Berenice Horta

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, data e local de nascimento

Meu nome é Maria Berenice Horta de Mello. Nasci em 9 de junho de 1947, em Belo Horizonte.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Lembranças de infância

Minha infância, assim como a dos meus irmãos, foi uma infância mágica. A gente morava numa casa muito grande. Passamos a infância em quintais, na rua, era uma outra época. Hoje as crianças ficam confinadas, e naquela época a gente vivia em liberdade total. Em casa, meus pais trabalhavam fora e depois da escola a gente ficava o dia inteiro brincando, inventando coisas pra fazer e com o sentido muito agregador. Era a gente, mais os vizinhos, mais os amigos. Então a gente liderava as brincadeiras na nossa casa. Foi uma infância mágica, com muita liberdade, alegria e música. É uma coisa que não acontece tanto. Eu digo que a minha geração foi uma geração privilegiada porque eu nasci em 1947, no pós-guerra, época dos musicais da Broadway e tal. Então nós ouvimos praticamente todos os musicais, porque meu irmão importava os discos com os amigos através do Fã-Clube de Jazz. E depois da época dos musicais, veio a era do rádio. Nós ouvíamos rádio o dia inteiro, tinha músicas do mundo inteiro que tocavam na rádio, não só músicas americanas, mas francesas, cubanas, mexicanas, a gente ouvia de tudo. Depois da época do rádio veio o samba-canção, que deu início à bossa nova e assim simultaneamente até o iê-iê-iê. Então a nossa geração foi uma geração privilegiada, nós vivemos todos os movimentos musicais, a Tropicália, a música instrumental, nós ouvimos de tudo. E ouvimos também, principalmente, a música clássica, que era uma paixão desde a infância. Minha mãe conseguiu cultivar e seduzir a gente para essa música. Então a gente ouvia a radio do MEC, a Rádio Nacional. Nos horários da programação de música clássica ela apagava as luzes da casa todinha, mandava todo mundo sentar ou deitar, todo mundo ficava caladinho, desligava o telefone, fechava a casa toda: era a hora da gente ouvir a música clássica. Tinha todo aquele ritual. Então eu digo que a minha geração foi privilegiada porque nós conseguimos passar pela história da música brasileira quase toda. Estamos hoje na era da música eletrônica, então a gente ouviu muita coisa, não tinha jeito de não sair nenhum músico da família. Saiu o Paulo, o Toninho, a Lena, a Gilda cantava, e eu só não estudei música e segui carreira musical porque eu era muito preocupada com o lance da sobrevivência, achava que alguém tinha que se preocupar com a sobrevivência e achava tudo muito louco. Fiquei muito preocupada e não dei muita atenção, mas eu sou ótima ouvinte. Isso eu sou, com certeza.

Voltar ao topo EDUCAÇÃO

Nome e descrição da escola / Universidade

Eu tive o privilégio de estudar numa escola católica porque eu ganhei uma bolsa de estudo. Meus irmãos todos estudaram no Colégio Estadual Central, que também era uma excelente escola. Estudaram lá o Marcinho Borges, o Fernando Brant, o Murilo Antunes e muitos outros. Eu estudei no Colégio Imaculada Conceição porque eu ganhei uma bolsa de estudos. Mas foi válida a formação que eu obtive lá, uma formação humanística que depois desembocou em duas graduações na UFMG, em História e Ciências Sociais. Então eu tive essa formação humanística e que ajuda também a gente a conciliar esses valores da boa música. Acho que tudo desembocou, nessa vontade, nessa musicalidade que a gente tem.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Irmãos / Paulo e Toninho Horta

Como eu te disse, eu fiquei muito preocupada, porque os anos eram diferentes. Com o Paulo não, quando eu era criança ele já era mocinho. O Paulo já tocava, foi uma coisa natural, espontânea. Mas com o Toninho eu fiquei meio preocupada porque nós estávamos em plena ditadura militar e o músico arriscava muito ao tocar na noite, ao cantar, ao fazer o uso da palavra. Então eu ficava preocupada com o lance da segurança e o Toninho demorava às vezes a chegar em casa. Eu tinha essa função de ligar pra saber onde ele estava, se ele estaria preso, se ele estaria vivo. Eu tinha essa preocupação porque as coisas aconteciam na calada da noite, com o julgamento sumário de uma pessoa. Então nós nos preocupávamos com esse lance de ele ser músico nessa época de repressão. E o Toninho circulava nas várias tribos, do cinema, da música, entre os poetas. Ele circulava em todos os ambientes e eram ambientes muito visados. E quando a gente viu, era tudo o que ele queria. Ele respirava música, sonhava música. E aí a gente ficou preocupada com esse lance da segurança.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Clube da Esquina: origem

Mas a gente nunca teve dúvida de que ele seria um grande músico, assim como todos do Clube da Esquina. Eles já nasceram grandes porque eles tiveram uma coisa que eu acho importantíssima: o endosso da geração mais velha. Eles já nasceram com credibilidade. Todas as músicas que eles faziam já tinham endosso dos seus pares, dos outros músicos, da sociedade como um todo. Eles já nasceram grandes. Claro que eles batalharam a vida inteira, mas a credibilidade deles foi assim, dia a dia. E tinha uma coisa que era muito legal: uma competição saudável entre eles. Um fazia uma música e mostrava pra todo mundo, aí o outro queria fazer outra mais bonita, e também mostrava. Então houve aquele crescimento coletivo muito legal, um apoiando o outro. Foi um crescimento musical solidário, uma coisa muito bonita, uma coisa que a gente não vê hoje. Hoje tem muita competição, cada um mostra seu projeto depois de acabado, depois de finalizado. O projeto deles era um projeto aberto, todo mundo dava palpite, todo mundo tocava todos os instrumentos. Então foi uma coisa muito espontânea, muito linda. Eles tiveram essa credibilidade desde o início. E a gente viu que era uma coisa que veio para ficar, uma coisa divina, dos céus.

Voltar ao topo CLUBE DA ESQUINA

Avaliação

O Clube da Esquina trouxe uma inovação harmônica e melódica. Harmônica porque eles usavam uma vestimenta pra música totalmente inovadora. Enquanto a bossa nova teve influência do jazz, a música produzida aqui em Minas incorporou sutilezas do barroco, sutilezas da música clássica, da música flamenca, um pouco do jazz, um pouco de tudo. Foi um sincretismo inédito. E quando a gente viajava e ia pra outro lugar, quando ouvia o primeiro acorde você já sabia que aquela música era de Minas Gerais, porque tinha toda uma cor, todo um matiz, tinha assinatura. E eles todos têm essa coisa natural. A música do Milton, esse som de procissão, de cachoeira, de ladeiras, esses altos e baixos são as montanhas, a música não é linear, acompanha o desenho das montanhas. É uma assinatura única. Pra você ter uma idéia, no Japão são 35 sites de pessoas fãs do Clube da Esquina. Nós recebemos cartas e cartões do mundo inteiro querendo saber dos discos, das músicas. Então o Clube da Esquina já rodou o planeta muitas vezes. A emoção maior que nós tivemos na nossa casa foi quando, dez anos atrás, em 1995, uma jornalista japonesa esteve aqui no Brasil. Quando abriu a porta e ela entrou nós começamos a chorar. Falamos assim: “A música do nosso irmão já foi pro Japão”. Não só do nosso irmão, a música de Minas foi pro Japão e voltou. Então ela fez essa globalização antes da economia, atingiu esse nível antes da economia, da política, do meio ambiente, da política ambiental. A música já fez essa ligação do planeta. Esse que é o grande lance de qualquer boa música, esse entrosamento.

Voltar ao topo IRMÃO

Toninho Horta

O tempo todo eu sabia que seria assim. Eu não posso falar, pois eu sou presidente do fã-clube, mas o tempo todo a gente sentia a determinação dele. Para tudo o que ele quer fazer ele tem um primor, uma dedicação, um perfeccionismo, uma coisa exacerbada. A pessoa que tem esse perfil de ficar envolvida, desligar do resto do mundo, do resto das coisas, ficar concentrada naquela criação, nos arranjos, naquela música, e pensar sons, pensar introdução, meios, finalização, não tem como não ser bem-sucedida e respeitada no mundo inteiro pelo seu trabalho. E a gente viu que isso foi um trabalho árduo, porque só agora, depois que o Toninho já tem quase 40 anos que compõe, a música está sendo mais entendida e mais valorizada.

Voltar ao topo DISCO

Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli, Toninho Horta

Ele batalhou tanto pra gravar CD, pra gravar discos. Só em 1972 que eles conseguiram, a EMI-Odeon deu para eles uma chance. O Milton deu uma fita e ele começou a gravar músicas. Quem chegasse ia gravando, e depois a EMI transformou no disco. O estúdio era terrível, era o pior estúdio da EMI. Eles eram deixados em segundo plano, o Toninho, Danilo Caymmi, Novelli e Beto Guedes. Tanto é que na capa do disco eles estão num sanitário, ao redor de uma privada. Eles bateram uma foto de cima mostrando a condição que eles receberam da EMI, ou seja, nenhuma condição, nenhum crédito. Mas é um disco maravilhoso, primoroso, que depois de muita burocracia nós conseguimos a liberação pra gente prensar no nosso selo. É um disco maravilhoso que reflete aquele momento do despontar desse grupo, do Toninho, Beto, Novelli e Danilo Caymmi. Depois disso surgiram outros discos, mas esse foi o primeiro. Então a gente viu, nossa família, os amigos, que o Toninho não tinha outro jeito, ele ia ser um músico consagrado, respeitado, pois era tudo o que ele queria. Ele primou por isso, ele mereceu estar onde está, e é muito reconhecido, graças a Deus

Voltar ao topo TONINHO HORTA

Iniciação musical

Ele começou a carreira dele solo, e também paralelamente ao Clube da Esquina ele já fazia trabalhos independentes. Ele começou a compor aos 12 anos com a minha irmã, depois compôs com a minha prima e depois compôs com colegas de vizinhança, como Rubens Teodoro, muitas canções, mais de vinte e tantas canções. Depois ele conheceu o pessoal do Clube da Esquina, mas ele já começou solo, já teve uma carreira independente desde o início. Aos 10 anos, quando ele começou a estudar violão, a composição veio junto. Já compunha então desde os 13 anos. Aos 14, ele teve uma música gravada pelo Márcio, que era o vocalista do conjunto do Aécio Flávio. Aos 13, ele foi convidado pra fazer trilha musical de histórias infantis gravadas em vinil. André de Carvalho, um escritor aqui de Belo Horizonte, convidou Toninho. Ele musicou o disco todo, me parece que eram 24 historinhas. Fez uma música para cada história, uma coisa, um primor, com 13, 14 anos. E por aí vai. A história começa assim. Já fez música para teatros infantis, já fez música para cinema, para documentários. Já trabalhou demais, incansavelmente. Se tem um músico que é trabalhador compulsivo é o Toninho. Até hoje ele é um trabalhador compulsivo.

Irmã

Eu estou mais de perto do Toninho desde o Seminário de Música Instrumental de 1986. A partir de então, eu estou dando mais uma força, mas a minha irmã, a Gilda, que mora nos Estados Unidos, acompanhou o Toninho desde o início. Naquele momento eu estava casada, estava fazendo faculdade e criando filhos. Então, a partir de 1986, quando eu já tinha 3 filhos e já tinha feito faculdade, eu comecei a dar mais um suporte pra carreira dele aqui no Brasil. Mas a minha irmã continua até hoje dando um suporte na carreira internacional. Ela fica tipo ponte aérea EUA-Brasil.

Voltar ao topo TRABALHO

Livrão da Musica Brasileira

Hoje a gente está com esse projeto do Livrão da Música Brasileira, que já tem 19 anos. Começou exatamente nesse Seminário de Música Instrumental e o grande sonho dourado do Toninho é finalizar esse livro e entregar pros músicos. Vai ser a bíblia dos músicos desse milênio. As pesquisas desse Livrão já finalizaram e nós estamos numa fase agora de digitação das partituras, revisão final, e, se Deus quiser, até o primeiro semestre de 2006 ele vai estar nas mãos dos músicos do Brasil e do mundo inteiro. Esse é o grande sonho do Toninho, a realização da vida dele vai ser o lançamento desse Livrão. São 19 anos de pesquisa, porque quando o Toninho viaja, a gente fica meio parado um pouquinho, mas depois ele vem e dá mais uma alavancada. Então ele foi feito assim, passo a passo, com músicos do mundo inteiro. Porque ele fala sempre do Livrão nas entrevistas, então os músicos do mundo inteiro perguntam: “E o Livrão, já saiu?”. Vai ser um similar do Real Book americano. Todos os músicos do mundo tocam e cantam música americana porque eles têm o Real Book. E o Livrão pretende fazer essa função do Real Book: colocar as nossas partituras pro mundo inteiro, à disposição de todo mundo.

Voltar ao topo COTIDIANO

Fãs do Toninho

Os fãs são muito calorosos, mandam presentes, fotos, escrevem até testamentos, e nós temos um escritório que está sempre alimentando, dando retorno para esse público. Eles querem saber onde o Toninho está, eles querem saber da agenda do Toninho, eles querem saber todos os passos, todos os projetos dele, acompanham direto a carreira do Toninho. Nós temos um site, feito na Suécia, um fã dele que fez, então a gente passa as informações para Suécia e eles disponibilizam no site. Através do site os fãs estão conectados com o Toninho. E ele recentemente está conectado no Orkut, conversa com muitas pessoas. E a gente está sempre recebendo pessoas aqui em casa, são situações bem engraçadas. Às vezes chegam o pai e o filho ou a mãe e o filho à uma hora da manhã para se hospedar aqui em casa; querem passar o fim de semana com Toninho. E a gente acomoda do jeito que dá pra acomodar, e eles passam uma semana. Toninho viaja para Ouro Preto e tem um carinho muito grande com todos os fãs. Nós já recebemos fãs do Japão, da Indonésia, da Coréia, de várias partes do mundo, muitos americanos, italianos. Eles vêm e querem ficar aqui com o Toninho, na casa do Toninho, e o Toninho não mora aqui, mora no mundo. Ele está aqui, mas ele está em Nova York, no Rio, viajando. E quando o Toninho não está, a gente recebe com a mesma atenção e com mesmo carinho. É legal você ver a pessoa cativada pela nossa música mineira, que é a nossa música, é muito bonito. A música produzida aqui em Minas é maravilhosa, os compositores são muito inspirados, tem alguma coisa aqui de mistério que a gente não sabe o que é, mas tudo aqui é muito, muito denso. Um dos parceiros é o Jack Lee, um coreano. Ele fez um CD com ele, “From Belo To Seul”, de Belo horizonte para Seul. Este fã é tão ardoroso que quando foi inaugurado Camelot, uma casa noturna na Coréia, em Seul, ele chamou o Toninho para fazer o lançamento do CD nessa casa. Acontece que uma semana antes aconteceu um terremoto em Seul, e aí eles fizeram um show em homenagem às vítimas do terremoto. Então os fãs não querem só a atenção do Toninho, uma cartinha e tal, eles querem gravar, eles compõem música para o Toninho.

Voltar ao topo LIVRÃO

Projetos futuros

Um dos projetos para ano que vem, se Deus quiser, depois que sair o Livrão, é fazer um CD com as músicas todas que o Toninho recebeu do mundo inteiro, desses amigos que fizeram música para o Toninho. Nós vamos pegar autorização dos fonogramas e montar um CD com essas músicas dos amigos fazendo música para o Toninho. Tem músicas no mundo inteiro. Tem música em japonês, em coreano, em todas as línguas. Do Brasil então, só daqui de Belo Horizonte o Juarez Moreira, o Caxi Rajão, o Cleber Lopes, muitos músicos já fizeram música para o Toninho. Acho que nós vamos ter dois CDs, vai ser um projeto duplo por que são muitas músicas. O Toninho criou um círculo de amizades muito grande e essas amizades é que enchem de alegria a vida dele e a nossa vida. Uma vez eu falei com os meus filhos que é a coisa mais fácil a gente ter amigos, a gente não precisa sair e circular muito para fazer amigos, porque com os amigos do Toninho visitando lá em casa, nós fomos incorporando os amigos dos amigos dos amigos, e temos uma rede muito grande de amizades que foram construídas assim, espontaneamente. Amizades muito duradouras e felizes, isso que é o mais importante

Voltar ao topo MUSEU

Clube da Esquina

Eu achei fantástica essa idéia do Museu do Clube da Esquina. Eu senti uma honra muito grande porque a minha escola foi a escolhida para sediar o primeiro encontro dos integrantes do Clube da Esquina com essa moçada nova. E essa moçada nova precisa aprender muito com o Clube da Esquina. Quem viveu uma situação sabe, é um período difícil da história. Mas eles venceram, eles foram determinados e eles são respeitados no mundo inteiro. Essa moçada hoje com toda a liberdade, com toda a democracia, tem o campo aberto para produção musical, para produção intelectual, para produção virtual, nas artes plásticas, visuais, tem todo o campo aberto e eles não produzem. Então essa visita do Clube da Esquina no Colégio Estadual Central foi demais. Depois nós fizemos uma reflexão. Foi uma coisa muito saudável, porque mostramos para eles a responsabilidade deles de também construírem a arte, porque através da arte a pessoa se liberta, a pessoa é verdadeiramente um ser humano. Então foi uma coisa maravilhosa essa idéia do Clube da Esquina de ter esses encontros, levar para moçada tudo isso que aconteceu, e que está acontecendo. Porque a produção do Clube da Esquina não pára, está sempre acontecendo. Então foi uma lição de vida. Foi uma idéia maravilhosa do Marcinho Borges, só podia ter surgido dele, nosso grande poeta. Quem sabe outros movimentos, outros segmentos incorporem essa idéia para gente resgatar a nossa memória cultural.

Voltar ao topo ORIGEM

Clube da Esquina

O encontro do Toninho com esses músicos parece que estava escrito nas estrelas. O Toninho era jazzista, era perfeccionista, era muito mais sério, e se encontrou com a descontração do Lô Borges, do Beto Guedes, do Marcinho Borges, do Fernando Brant, e eles se assimilaram. O Lô e o Beto eram amantes dos Beatles e eles se encontraram, eu estava nesse encontro. Antes disso, eles se encontravam muito ali perto da Rua Tupis – tinha uma lanchonete que chamava Saci. Meus pais trabalhavam fora e quando eles chegavam em casa, perguntavam: “Cadê o Toninho?”. E eu ia atrás do Toninho, e via o Toninho com esses meninos. Foi uma troca de experiências muito grande, uma contribuição mútua, uma coisa fantástica. E eles se encontraram no Festival Estudantil da Canção – Belo Horizonte inteira estava lá nesse festival. O Lô entrou com “Equatorial” e o Toninho entrou com “Canto de Desalento” e “Iara Bela”. A Joyce defendeu a música do Toninho. Essa época foi um período muito vivo, porque a gente morava muito próximo do Beto, e muito próximo de onde aconteciam essas coisas, do edifício Levy, Marcinho, Marilton, que era amigo do meu irmão. Esse período está todo muito vivo, porque aconteceram muitas histórias, muitas coisas boas. Mas o mais importante é o seguinte: essa geração nova, que fica confinada no computador, entre quatro paredes, está perdendo tempo. A pessoa tem que se abrir, tem que se conectar, formar redes de amizades, a vida real tem mais significado do que a vida virtual e hoje essa moçada vive mais no virtual, infelizmente. E o grande lance dessa geração, desses meninos, foi a vontade de pensar coletivamente. Hoje, a pessoa tem um projeto de vida; eles tinham um projeto coletivo de cultura, de cinema, de música, de artes, com essa doação impressionante. Eu teria coisas para contar de todas as épocas, principalmente desse início, que foi fantástico; a primeira ida do Milton lá em casa, ele todo tímido – ele era amigo do meu irmão –, tocando baixo, e aí o Paulo falou pro Milton: “Milton, eu vou te apresentar o meu irmão Toninho, ele sabe tocar algumas coisas”. Toninho tocou algumas músicas de Vinicius e do Tom, e ele ficou encantado. “Nossa, mas ele toca muito bem, ele harmoniza.” E logo depois o Milton também deixou o baixo e foi tocar violão também e já cantava com o Sambacana. Então são muitas histórias, mas o mais importante de tudo isso é que desde o início eles tiveram essa credibilidade da geração mais velha, esse suporte da geração anterior ao Clube da Esquina, que eram os músicos amigos do meu irmão, do Marilton Borges, do Paulinho, Chiquito Braga, Aécio Flávio, esse pessoal todo. Eles endossaram, eles deram a maior atenção para essa moçada que estava começando, isso foi fantástico. Agora, será que essa moçada que está aí apoia os que estão começando? Eu gostaria que continuasse esse crescimento geração após geração. E um dos objetivos do Livrão é este: instrumentalizar o jovem de música e partituras de qualidade e de coisas boas, para ele manter essa cultura viva.

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