Maria Fragoso Borges

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Nome/Local e data de nascimento

Eu sou Maria Fragoso Borges. Nasci aqui em Belo Horizonte, em 4 do 4 de 1920. Sou velha à beça…[Risos]

FAMÍLIA
Pais
O nome do meu pai é Carlos Joaquim Fragoso. O da minha mãe, Raimunda da Conceição Fragoso. Meu pai era da Polícia Militar; ele morreu como major da polícia. Minha mãe era costureira. Fazia muitos anos não costurava e morreu tem dois, três meses, com 104 anos. Morreu dia 28 de outubro com 104 anos. Caiu, quebrou o fêmur e não agüentou a cirurgia.

Apelido
Tenho um apelido, é Maricota. Quem me deu esse apelido foi o meu querido sogro. Morei algumas vezes na casa dele, e eu não tinha filho ainda. E ele me chamava: “Vem cá, Maricota. Vem cá, Maricotinha”. Ele era muito carinhoso comigo, gostava demais de mim. E esse apelido de Maricota ficou. Foi ele que me pôs esse apelido. Eu gosto de ser chamada de Maricota.

LOCALIDADES BELO HORIZONTE
Santa Tereza/Santa Efigênia
Eu cresci no bairro de Santa Tereza e no bairro de Santa Efigênia. Mudança, sabe como é: muda para lá, muda para cá. Então eu morei muito pouco aqui em Santa Tereza, depois mudamos lá para Santa Efigênia; foi lá que eu meu casei, na Igreja de Santa Efigênia.

ADOLESCÊNCIA

Voltar ao topo NAMORO

Eu conheci o Salomão, meu marido, nessa época. O caso foi o seguinte: eu estudava na Escola Normal Modelo, e a irmã dele era da minha sala, a Romualda; coitadinha, até já morreu. Muito minha amiga, e estudava na minha sala. Então nós fazíamos muito trabalho juntas. Até hoje se usa isso, fazer trabalho em conjunto. Uma hora eu ia para casa dela, outra hora ela ia para minha casa e eu o conhecia lá da casa dela. Mas achava ele superantipático e metido, porque simplesmente ele não cumprimentava a gente. Se encontrasse comigo na rua, e eu ia praticamente quase todo dia na casa dele, não me cumprimentava. Então eu falava assim para a Aldinha, que era o apelido da irmã: “Aldinha, seu irmão é um cavalo, hein? Não cumprimenta ninguém!”. Eu tinha intimidade com ela, muita mesmo. “Não cumprimenta ninguém, não conhece ninguém na rua.” Aí ela falou: “Manda ele assombrar outro, não liga para ele não”. E ele tinha uma namorada, que era vizinha deles e vizinha nossa, já que nessa ocasião a gente morava lá em Santa Efigênia também… Não é bem Santa Efigênia, porque agora Santa Efigênia é lá no alto… Eu morava na Avenida Bernardo Monteiro, e eles moravam onde é o Hospital Otaviano Neves, então era perto.
E eu mais Aldinha continuávamos andando juntas, fazendo as coisas juntas. Íamos para a padaria juntas, comprávamos as coisas juntas, passeávamos juntas; e ele na “metição” dele. E a moça morava por ali também. Nós tratávamos o dente no mesmo dentista, porque meu pai era militar e o dela também, e lá na Rua Manaus tinha o dentista para os filhos dos oficiais. A gente ficava sentada lá no pico e ela contava dele; foi ela quem apelidou ele de Salim e eu chamo ele assim até hoje. Ela contava lorota do Salim: “Porque eu vou casar com Salim…”. E um dia, ela chegou lá toda chorosa. Eu falei “O que foi Nasi?”. Ela falou assim: “Salim mandou uma carta horrível para mim. Que não quer mais mexer comigo, não quer me namorar mais”. Eu falei: “Homem é assim mesmo, daqui a pouco ele volta”. Por coincidência, era aniversário de uma sobrinha dele, a Divina. Essas datas eu não esqueço, outras até pode ser, mas essa eu não esqueço: 19 de julho de 1937. E eu fui lá para o aniversário. Aquelas festinhas dentro de casa, radiola de antigamente tocando. Vocês nem lembram disso porque vocês não são dessa época… Era radiola, os rapazinhos de terno e tudo. Os rapazes que nós tínhamos perto de nós eram os estudantes de medicina que moravam lá por perto, naquelas casas dos estudantes. Mas eles eram terríveis, porque a gente era vizinho e eles sentavam naquele murinho da Faculdade de Medicina e quando passávamos ali para ir para a Escola Normal, eles mexiam com a gente, não respeitavam. Eles eram vizinhos e não respeitavam. Então estava todo mundo dançando e eu comigo: “Eu não vou dançar de jeito nenhum, porque amanhã vão mexer comigo e eu vou ficar com muita raiva”. E aí a minha sogra – coitadinha, já morreu – estava sentada no quarto com uma filha dela conversando e eu fui, entrei para lá e fiquei conversando com ela. Eu a conhecia muito, e ela me chamava de Conceição. Ela virou: “Conceição, por que você não está dançando?”. “Eu vou contar para senhora: a gente dança aqui hoje e amanhã, na hora de passar para ir para escola, a gente vai ouvir tanta besteira que é preferível não dançar. Melhor ficar batendo papo aqui com a senhora.” Aí eu fiquei junto com ela.
E passado um tempo, uma meia hora, o Salomão chegou da rua – ele não estava em casa. Chegou na porta do quarto da mãe dele e falou assim: “Está batendo papo aí, Dona Paulina, com a Conceição?”. A mãe dele chamava Paulina. Ela falou: “Estou. Estou batendo papo com a Conceição e estou achando um absurdo. Está todo mundo dançando e ela, uma moça bonitinha, aqui sentada porque não dança com estudante. Você pode dançar com ela, porque você não é estudante”. Ela que me jogou no braço dele. Aí começamos a dançar e a tal da namorada estava lá, encostada no piano que tinha na casa da minha sogra; mas ela me fuzilava! Aí eu virei para ele e falei assim: “Salomão, eu achava melhor você parar de dançar comigo e dançar com a sua namorada, porque senão eu vou cair dura aqui no chão do fuzilamento dela”. Ele disse: “Eu não tenho namorada”. Eu falei: “Você tem”. “Não. Eu tinha, mas não tenho mais.” Eu falei: “É a Nasinha, sua namorada, eu sei disso”. Ele: “Mas você deve saber que eu não sou namorado dela mais, eu já escrevi para ela e não quero mais nada”. “Eu achei isso bobagem; manda carta, depois revoga tudo.” Ele disse: “Não, com ela eu não quero mais nada”. “Então vamos dançar.” [Risos] Continuamos a dançar e ele começou a conversar comigo: “Você fazia trabalho aqui com a Aldinha”. Falei: “Faço. E falei muito mal de você, porque você passa por mim na rua e não me cumprimenta”. “Ah, é porque eu não vi”. Eu falei: “Ah deixa de ser besta, que não viu o quê? Você não cumprimenta porque você é muito metido; você se acha muito bonito”. Ele era muito bonito, o rosto dele era muito bonito. “Você é muito bonito e acha que todo mundo está querendo fazer uma homenagem à sua beleza.” Foi mais ou menos assim.
Aí começamos um namorico ali; isso foi dia 19. No dia 23, tinha uma festa, mas era festa mesmo, com jazz tocando na casa da minha tia. O filho dela chamava-se João. Por sinal, era doido para me namorar, ele era meu primo em segundo grau. Eu falei: “De jeito nenhum”. Aí eu convidei o Salomão: “Tem uma festa no dia 23, se você quiser ir, aparecer lá, é na casa da minha tia. Você vai, te apresento a ela e tudo”. Aí fiquei eu esperando ele na varanda para ver se ele vinha. “Não vou entrar lá sozinha, não conheço ninguém. Conheço os homens” – todos eram militares também – “mas as moças eu não conheço.” Aí ele chegou. Toda hora o Joãozinho vinha me tirar para dançar. “De jeito nenhum, estou com umas dores nas pernas danada.” Aí o outro irmão dele veio, o Garcia: “Maria, por que você não dança com o João, hein?”. Eu falei: “Eu não danço porque eu não estou querendo dançar, uai. Eu não sou obrigada a dançar, eu danço se eu quiser. Não vou dançar com ninguém”. Ele falou “Nem comigo?”. “Nem com você.” Eu estava esperando. Na hora que o Salomão chegou, estava aquela música boa de dançar. Encontrei com ele na varanda e já saímos dançando. Mas eles me xingaram tanto: “Você estava era esperando namorado, por isso que você não quis dançar”. Falei: “Não, não sou namorada dele, não”. Aquele dia que nós começamos a namorar mesmo. Ele começou a me paquerar lá no Instituto e aí começamos a namorar.
Nós namoramos muito rápido porque meu pai era muito ranzinza. Bravo que é uma coisa horrível. Então ele não ia nem em casa porque não podia namorar. Não ia à minha casa de jeito nenhum. Aí de vez em quando a gente se encontrava escondido. Papai começou a me vigiar. Papai me tirou da escola; ele ia para porta da escola todo dia. Eu fiquei em casa apaixonada, porque não encontrava com ele. Mas eu tinha um compromisso dia 7 de setembro; eu era a única cantora da minha sala, do coral do Instituto. Então eu não podia faltar. Eu tinha o compromisso de ir no 7 de Setembro onde é hoje a rodoviária – era um parque, uma coisa assim – a feira de amostras, cheia de coisa, e lá que nós íamos representar. Aí eu fui, e ele também foi para lá. O papai nem pensou nisso. Nós nos encontramos e marcamos o encontro de uma vez. Ele falou: “Eu vou na sua casa qualquer dia dessa semana”. Mas os nossos pais eram muito amigos. O pai dele também era militar e eram muito amigos. Depois, ele foi em casa com o pai dele, para pedir o casamento. Namoramos um mês, se tanto. Foi para pedir casamento e papai consentiu porque conhecia a família toda.

FAMÍLIA
Casamento
Nós casamos dia 21 de maio. Foi muito rápido, foi rápido demais. Tão metido que ele era. É, foi aquela beleza. E estamos até hoje aí, vamos fazer 66 anos de casado.

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Santa Efigênia/Santa Tereza

Aqui em Belo Horizonte tinha footing, o footing de Santa Efigênia, que era na avenida. Do lado de lá, que é do lado da Igreja de São José, era do povo mais alinhado. E do lado de cá, era das empregadas. Era gozado, mas era separado mesmo. Quem separou, não sei, mas era separado. Às vezes eu ia lá, mas era muito pouco, eu gostava muito de fazer footing aqui em Santa Tereza. Aqui na praça e na Rua Mármore, até lá em cima. E eu encontrava muito o Salomão aqui, porque minha avó morava aqui. Eu mudei para Santa Efigênia, mas minha avó morava aqui. Então eu vinha para casa da minha avó, dormia, ia fazer footing e encontrar com o Salomão. Fazia o footing também com as amigas. Minha tia era nova e passeava muito comigo; o nome dela é Guiomar. E foi assim. Lá em Santa Efigênia tinha um footing também, na Avenida Brasil. Mas eu não gostava muito do footing da Avenida Brasil. Eu gostava mais daqui de Santa Tereza, quando eu vinha para casa da minha avó.

BELO HORIZONTE
Santa Tereza
Eu freqüentava a missa aqui em Santa Tereza; eu cantava no coral de Santa Tereza. Mas essa igreja demorou muito tempo para construir. Nossa Senhora! Mas muito tempo mesmo. Eu casei, fiquei cinco anos sem ter filhos, tive um monte de filhos e a igreja nada de ficar pronta. Uma tristeza essa igreja, demorou demais, demorou muito mesmo. Eu passeava aqui na praça, em Santa Tereza, na Rua Mármore. Na Rua Mármore a gente ia para lá, para cá, aquelas bobajadas. Participava das procissões, pois eu tinha que cantar.

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Iniciação musical/ Primeiro instrumento

Eu aprendi a cantar no Instituto de Educação, na Escola Normal Modelo, porque nós tínhamos professoras de canto. Esqueço o primeiro nome dela, não-sei-o-quê Vasconcelos, não lembro mais. Ela dava aula de canto nas salas; antigamente tinha aula de canto e de música. E esse meu primo que fez aniversário, o João, ele era músico e dava aula de música para mim. E eu aprendi tanto música, que eu lia música como quem lê jornal. Eu pegava a pauta assim e ia cantando as notas como se lesse um jornal. Depois, aprendi a tocar piano, toquei muito piano. Hoje, não passa nada.

FORMAÇÃO MUSICAL
Preferências musicais/Canto

Nessa época, para ouvir, eu gostava era de Orlando Silva, Carlos Galhardo. Quando eu casei então, eu mais ele, nós noivamos ao som das músicas de Noel Rosa, de Serra da Boa Esperança. Ele escrevia as músicas e vinha, e nós começávamos a cantar. Cantava, cantava, cantava até a hora de ele ir embora. Toda a vida eu cantei muito. Depois, eu cantei na capela do Colégio Arnaldo. E lá na rua Ceará, onde minha sogra morava, em frente tinha uma cantora de ópera; eu esqueci o nome dela… E ela ficava doida por uma pessoa que conhecesse música para fazer a segunda voz com ela. Ela cantava no Colégio Arnaldo também. E ela ia lá em casa para pedir a Salomão se deixava eu ensaiar com ela, para eu cantar com ela. E eu sabia ler a pauta e era a segunda voz. Sempre fui. No coral da igreja, coral do Instituto, tudo. Eu sempre vivi cantando. Noivei cantando e criei meus filhos cantando. Gostava muito de cantar. Agora não, operei das cordas vocais e não tenho voz mais.

Casamento
Eu lembro muito do dia do meu casamento. Eu fui morar no barracão da casa da minha sogra. Esse barracão estava alugado, não sei… ficou pronta a pintura e tudo mais no dia do casamento. Então eu fui para lá para lavar as louças, as coisas para guardar. Estava na hora de ir embora, porque tinha que me aprontar, tomar banho, me arrumar para ir para o casamento. Salomão foi me levar. E nós encontramos com a Nasinha na esquina. Aí ela ficou resmungando, resmungando; ele nem ligou, foi embora. Ela esperou. Ela sabia que ele ia me levar em casa. Quando ele voltou, ela cercou ele e disse: “Eu tenho fé que um caminhão vai passar em cima de você, que você não vai casar com ela”. É, que amor de doido, esse? Ele falou: “Eu estou com fé em Deus que eu vou casar e muito bem casado”. E ele não me contou isso. Meu vestido tinha uma cauda grande – eu achava bonito ver a cauda saindo da cintura, aquela coisa dentro da igreja. E o meu casamento foi um casamento chique, porque o primo dele era músico da sinfônica do batalhão e ele pôs a orquestra sinfônica para tocar. E ficou muito lindo nosso casamento por isso. Muito lindo. Casamos, fomos morar no nosso barracãozinho e fomos levando. Me casei com 18 anos. Fiz 18 anos no dia quatro de abril e casei no dia 21 de maio.

BELO HORIZONTE
Santa Efigênia
Fomos morar lá em Santa Efigênia. Era lá onde é o Hospital Otaviano Neves. Rua Ceará, 186. Até o número eles conservaram.

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Formatura

Terminei o curso normal depois de casada. Eu era louca para ter uma escola. Não sei por quê. Tinha vontade de ter uma escola minha, de menino pequeno. Eu gostava muito de menino pequeno. E consegui, graças a Deus. Mas isso deixa mais para diante. Então tive que conciliar a vida de dona de casa com estudante. Tinha de usar uniforme! Quando eu me formei, eu já tinha os 11 filhos.

Magistério

É… Eu na verdade tive 12 filhos, um morreu ao nascer. Morreu no ventre. Mas eu não me conformava de chegar nos grupos para trabalhar como professora e ser substituta ou contratada. Eu não era formada, eu era considerada leiga. Tinha o curso inteiro e era considerada leiga. Falei: “Pois é, eu tenho que arrumar um lugar para estudar, uma hora para estudar, porque eu não agüento mais esse negócio de ser leiga. Não sou leiga. Eu fiz o curso inteiro, por que eu sou leiga?”. E aí me falaram que em Matozinhos tinha uma escola que a gente fazia um ano e se formava. Essa época eu já morava no Levy. Levantava às quatro horas da manhã para fazer as coisas todas e pegava o ônibus de Três Marias às sete horas. Não, minto, de Três Marias às seis horas. Quando eram sete horas, ele estava passando em Matozinhos. E tinha duas colegas que ficaram minhas amigas mesmo, até madrinhas de casamento, muito amigas mesmo, a Irene e a Uda. Nós íamos juntas e voltávamos juntas. A gente descia correndo porque a escola era perto da estrada onde pegava o ônibus, e a gente já escutava o sinal batendo. Se a gente perdesse aquele ônibus não precisava nem de ir porque não dava tempo. Então eu sofri muito com isso, sabe? Porque eu já era formada e eram todas aquelas mesmas “leléias”, toda vez a mesma coisa. Nós éramos pobres, não tínhamos dinheiro para pagar a condução. Às vezes, a gente comprava um pastel, que era um pastel grande, e dividia por três. A Uda era muito moleca, caía uma carninha no chão, ela pegava e dizia assim: “Eu pego muito mais pesado que o micróbio, eu posso comer”. Então nós levávamos a vida numa farra, nós três. Tudo nosso era feito junto. Todas nós éramos formadas. Então nós fazíamos tudo em conjunto: eu, Uda e Maria Irene. Estudávamos até a hora do almoço e voltávamos. Ficava esperando um ônibus de Três Marias que ia passar, dava o sinal e nós saíamos correndo. Daí dois minutos passava o ônibus. Assim: “Lá vão as pobretonas, em pé”. A Uda era muito moleca, sabe? Tudo dela era com muita molecagem. Até hoje ela é moleca. Ela dizia: “As pobretonas! Lá vão as pobretonas. Vão embora”. Era assim.

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Filhos

Agora vou falar dos filhos. O primeiro deles é Marilton. Mas os nomes de todos eles duma vez são: Marilton, Márcio Nilton, Sandra Maria, Sônia Maria, Sheila Maria, Salomão Borges Filho, Marcos Milton, Solange Maria, Sueli Paulina – no dia que nasceu ela morreu, então eu pus o nome da minha sogra –, Marcelo Borges e Mauro Nilton Borges, que é o Nico. Todos os 12. Alguns têm nomes duplos. Por exemplo, os outros chamam e eu não. O Nico, por exemplo, eu xingo ele: “Você não chama Nico não, menino. Você chama é Mauro Nilton”. Um dia desses eu falei isso com ele. Não sei quem falou assim com ele: “Ô, Nico” e qualquer coisa…” Eu disse: “Por que você respondeu? Você não chama Nico. Você chama Mauro Nilton!”. As meninas todas começam com S; os meninos todos com M, com exceção do Lô, que pegou o nome do pai. Não sei por que escolhi. Antigamente, não sabia se ia ter menino, se ia ter menina, não usava essas coisas. Eu falei: “Se for ter menino agora vai ser o seu nome, não sabe?”. Ele falou: “Para quê?”. “As meninas são todas Maria, agora vamos ter um Salomão também aqui em casa.” E aí nasceu menino e eu pus o nome de Salomão.

Graças a Deus, a convivência dos meus filhos é maravilhosa. Até hoje, ai daquele que pegar num dedinho dum filho meu. Eu tenho dez para ir atrás para achar ruim. Nossa Senhora! Eu criei a molecada – eu chamava de molecada – toda aqui. Nessa época, o muro era baixinho, usava-se pôr a cadeira no passeio; a mãe sentava e os meninos brincavam de roda, brincavam de tudo, de chicotinho queimado… tudo ali perto da gente, da casa da vizinha, da outra, de cá, todo mundo daqui. Então era uso, de tardinha, assim, às cinco e meia, seis horas, estar todo mundo no portão. E os meninos brincavam na rua, que a rua não tinha trânsito. Era muito difícil passar carro. Jogava bola, fazia tudo ali. E depois foi ficando muito difícil.

Gravidez
Levei cinco anos para ter filho. Pois é, ficava doida para ter filho. Aí um belo dia fiquei grávida. E eu fiz um trato com Nosso Senhor. Eu disse assim: “Se eu tiver um filho, eu vou ter quantos o Senhor quiser. Não vou evitar, não vou tomar remédio, não vou fazer nada”. Tive 12 porque ele mandou 12. Mas eu quase também saí fugida lá da cama de parto, não podia mais ver porque não agüentava mais. Foi por isso que eu tive esse monte de filho. Eu passei cinco anos sem ter filhos; no dia que fez cinco anos e dez dias, nasceu Marilton, no dia 31 de maio.

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Marilton Borges

Marilton é do dia 31 de maio. Nasceu aquele menino enorme, de 5 quilos, um monstro de menino. O parto era em casa, com parteira. E a parteira era da Maternidade da Santa Casa; ela tinha feito os partos da minha mãe, era alemã. Então ela falou assim: “Eu acredito porque foi eu que aparei, porque se me contasse eu não acreditava, um menino desse tamanho”. Nasceu criado aquele bichão; o maior que eu tive foi ele.

Mas, graças a Deus, na criação dos meus filhos o Salomão ajudou muito. Ele trabalhava, era soldado. Primeiro, ele foi soldado. Quando eu casei com ele, ele era sargento. Ele detestava a vida militar, acho que foi por influência do pai, não sei. Aí ele fez concurso e passou no DASP, que era serviço público federal. Passou e foi nomeado para o Correio. Então ficou trabalhando no Correio. Mas ele me ajudava, Sábado e domingo ele me ajudava. Punha os meninos para ajudar, para encerar a casa, dava banho nos meninos todos para mim, enchia a banheira d’água, punha os meninos e dava banho, as meninas tomavam banho de calcinha, era gozado demais. Também penteava o cabelo. Todo mundo corria dele para pentear cabelo. Ele amassava a cara dos meninos. “Mãe, você mesmo penteia? Papai não!”. Eu falava: “Eu não, estou ocupada”. E eu tinha muita alegria de ter muito filho.

Relações familiares

Nós saíamos todos juntos. Procissão de enterro, ia todo mundo junto: eu, Salomão e a meninada toda. Uma vez nós perdemos Sônia. Era muito menino pequeno. Eu carregava um, Salim carregava outro, e os pequenininhos ainda andando. Aí eu perdi Sônia. Quando chegou aqui na esquina – eu já morava aqui – eu olhei assim: “Salim, está faltando um”. “Quem está faltando?” “Sônia!” Eu contava… Eu contei e disse: “Está faltando um!”. Aí eu falei com ele assim: “Segura” – não sei qual é que estava no meu colo – “Segura que eu vou correndo lá na praça. Eu conheço muita gente da igreja, eles podem ter visto”. E eu sai correndo e quando eu cheguei lá na esquina da praça, tinha um bolo assim na praça, aquela porção de gente e uma criança chorando muito. Eu falei: “Só pode ser.” Mas quando eu cheguei lá veio um dando a mão, era meu irmão. Meu irmão que achou. Luis achou e falou assim: “Achei essa menina perdida aqui, posso levar para mim?”. Eu falei: “De jeito nenhum! Já vim aqui buscar”.
E a gente saia todo mundo junto; tomava bonde todo mundo junto. O final dos bondes era aqui atrás. E era final de linha. Demorava… Descia no final. Enchia dois bancos de menino. Passeava no parque, fazia piquenique no parque. Fazia comida, levava toalha, levava coberta pra forrar a grama para os meninos pequenos dormir. Nós fizemos muito disso. Passeávamos muito com os meninos. Nós tínhamos muito gosto de ter os filhos que tínhamos. E temos até hoje. Você vê, não tem um filho que chegue aqui e não beije e abrace eu e o pai. “A benção, mãe. A benção, pai.” Não tem um! Outro dia, Salim passou mal; Marilton chorou tanto…e dizia: “Oh, não posso perder meu velhinho. Não posso perder meu velhinho”. É um amor louco. É uma família muito unida, muito unida mesmo. Graças a Deus! Todo mundo é muito unido mesmo. Chega Natal aqui em casa, você pensa que é festa de muita gente, de muitas famílias, e é só minha família aqui. Desocupa um bocado essa sala, eu faço novena de Natal, e depois o encerramento é no dia 24. E todo mundo junto. O Telo é que toca as músicas, e todo mundo canta a novena, é uma beleza, só você vendo. Minha família é maravilhosa, graças a Deus. Dão trabalho porque todo mundo dá trabalho: os meninos pequenos adoecem, e tudo, mas… Teve uma época que teve quatro ou cinco de sarampo. Eu falei: “Meu Deus! Vou botar um monte de gente agora”. E eu estava doente também. Estava de pneumonia. A minha irmã que foi para minha casa. Ela tinha só um filho e foi para minha casa para poder ajudar a olhar os meninos.

Relações familiares
No dia-a-dia todo mundo ajudava, de A a Z. Marilton, Márcio, todo mundo lavava vasilha, todo mundo passava pano no chão, todo mundo fazia tudo. “Eu não sou mulher, não.” “Eu não falei que você é mulher, falei? Falei que você vai lavar as vasilhas. Não é só mulher que lava vasilha não; homem também lava.” Eu era brava com eles. O Salomão era bonzinho. “Salim, fulano e fulano hoje aprontaram tanto que precisam levar umas correiadas.” Ele falava:“Ah, você vai levar. Para dentro do quarto, entra para dentro do quarto”. Chegava no quarto, fechava a porta, batia na cama e mandava os meninos gritar. Mas você pode com um trem desses? Criar uma família desse jeito? Eles tinham muito medo de mim, mas dele eles não tinham. Ele batia na cama com a correia e mandava eles gritar. “Toma, agora está apanhando, não tinha cura.” Depois eles contavam: “Papai bateu foi na cama”.

FAMÍLIA
Relações familiares

É muito difícil. Eu não falo que seja fácil. Mas é uma alegria. É absurdo, essas mães têm um filho e dizem: “Eu não agüento”. Eu falo: “Pronto, meu Deus do Céu, eu passava a noite inteirinha ninando meus meninos, tendo cuidado com eles, olhando, gostava daquilo. Eu gostava e gosto, gosto muito”. A Solange, minha filha que mora comigo e cuida de mim, é hoje meu anjo da guarda. Ela que cuida de mim, que me dá remédio, tudo. Eu tenho problema sério. Em outubro estive no C.T.I., estive muito mal e quando eu entrei no C.T.I. eu perdi os sentidos. Então eles me quebraram todo desse lado aqui. Está vendo o osso aqui? É, me quebraram toda. Estava tratando com um ortopedista e agora, a partir de amanhã, eu vou tratar também com fisioterapeuta, porque o ortopedista mandou. Porque não tem nada para fazer. Eu fiz tratamento para recuperar os músculos. Nas costas, desse lado, os músculos acabaram todos, ficou só um buraco nas costas. Eu preciso de cuidar mesmo, sabe? Então ela é meu anjo de guarda. Graças a Deus, na hora certinha ela vem aqui. Às vezes eu estou sentada tomando sol e ela chega com um copo de suco e dois comprimidos. “Está na hora, mãe”. E eu tomo. Daqui a pouquinho vem ela: “Mas você veio agorinha, está na hora?”, O meu médico, que cuida de mim há 17 anos, não conversa comigo. Ele conversa é com ela. “A senhora erra tudo, deixa que Solange sabe fazer tudo.” Ela escreve tudo. Quando ela não pode vir, como foi da última vez, ela mandou tudo escrito para mim. O remédio que eu estava tomando. E mandou pedir receita de mais não sei quantos remédios; eu fiquei com uma raiva. E manda o papel para ele. E ele pega e consegue, todo o negócio é deles dois. Agora minha roupa está superlarga; eu emagreci dez quilos dessas internadas que eu passei. E diminuí! A roupa está toda batendo no pé, vou ter que mandar consertar minha roupa toda…

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Filhos

Tinha diferença na educação dos meninos e das meninas. É assim: os meninos podiam ir na esquina lá de cima, naquele pedacinho de rua; antigamente não passava nada ali. Então os garotos tinham sempre mania de jogar bola ali. Eles podiam ir lá, mas as meninas não podiam, de jeito nenhum; elas ficavam aqui. Então elas, para poder fazer raiva nos meninos, quando eu falava assim: “Sônia, vá lá e chama o Marcinho que eu estou precisando dele”, subiam as três. Eu chamava as três de bebé. Sandra, Sônia e Sheila, porque a diferença era de um ano para cada uma. Iam as três bebé: “Marilton e Márcio, mamãe está chamando!”. E voltavam desembestadas correndo… Era uma tristeza.
Mas o Marilton, o mais velho, me ajudou muito também. Meus filhos estudaram todos no Instituto de Educação. Fizeram jardim, primário lá. E aquele caminho do parque tinha que trazer para lá e para cá. Ora eu, ora Salomão ia buscar. Marilton também ia, mas ele não gostava, porque eles pintavam muito com Marilton. Eles desciam no caminho do parque… Uma vez, o óculos de Sônia caiu dentro da lagoa do parque na hora que eles estavam voltando da escola, vê se pode. Então não gostava muito que ele fosse buscar não, sabe? Só quando eu estava sem poder ir mesmo que eu deixava ele buscar os meninos. Eu estava com aquele barrigão e era difícil ir no parque buscar os meninos. Eles estudavam lá.

Filhos

Mas teve um caso até engraçado. Marcinho chegou em casa e Marilton que tinha ido buscar. E qual que era mais novo? Marilton, Márcio, não era Sandra… não, Sandra está maiorzinha, deve ser Sheila… O Lô, acho que era o Lô. Os meninos chegaram, gostavam de contar novidade, os meninos. Foi Marcinho que contou. Falou: “Mãe, a senhora não acredita”. Eu falei: “O que aconteceu, meu filho?”. “Marilton pôs a Sheila no Espírito Santo.” E eu: “Nossa Senhora! Onde é que está esse Espírito Santo que Marilton achou para poder pôr Sheila?”. “Marilton pôs Sheila no Espírito Santo, mãe. Olha que absurdo.” Eu falei: “Meu Deus, onde é que é o Espírito Santo, meu filho? Onde é que ele está?”. Ele falou assim: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Aqui”. Gente, mas eu ri tanto. Ele até chorou de raiva de tanto que eu ria. Espírito Santo, pôs a menina no Espírito Santo… pôs no ombro, pôs aqui em cima! E tinha falado que pôs a menina no Espírito Santo. Era umas papagaiadas que eles inventavam. Aquilo a gente achava graça. E eu toda vida gostei demais de menino, toda vida gostei muito dos meus filhos.

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Problemas de saúde

A hora que eu entrei no C.T.I., falo isso com você com sinceridade, não é para fazer graça, não – estava lá no Hospital São Lucas, quem estava me acompanhando eram Marcinho e Solange; depois tinha um homem e uma mulher, porque eu estava muito inchada e ninguém me agüentava, tinha sempre uns dois – eu estava conversando com Marcinho sobre o Clube da Esquina, nós estávamos conversando sobre esse projeto que ele estava fazendo. Estava conversando com ele e de repente passei mal. O Zé Roberto chamou o Marcinho pelo telefone, lá em Mauá, e eu fiquei só com Solange. Aí Marcinho voltou e falou assim: “Então, mãe…” – querendo conversar sobre o que está fazendo. E eu falei assim: “Ah, Marcinho, ah, Marcinho, ah, eu não falo mais nada”. Eu já estava cansada, cansada… aí ele correu e chamou o médico. O médico chegou, estava com o estetoscópio aqui, tirou, e falou: “Eu não vou ouvir a senhora não, porque o estado da senhora é gravíssimo. Eu vou levar a senhora para o C.T.I.”. E a hora que eu fui entrando para o C.T.I., eu não falava, mas eu escutava tudo. Ele virou para mim e falou assim: “A senhora está muito ruim, eu não sei se eu vou conseguir salvar a senhora”. E eu fiquei pensando: “Meu Pai, eu vou ter tanta saudade dos meus filhos”. O que eu lembrei? Dos filhos. “Vou ter tanta saudade deles.” Eu gosto demais dos meus filhos, sabe? Eu tenho paixão pelos meus filhos. Eu pensei assim: “Meu Pai, eu vou sentir tanta saudade”. E foi aí que eu perdi os sentidos e não vi mais nada. Fiquei seis horas desacordada, não vi nada que fizeram comigo no C.T.I. Anteontem, o doutor Roberto me perguntou: “Eles puseram um negócio dentro da boca da senhora?”. Eu falei: “Eu não sei, dr. Roberto, eu não vi nada”. “Ah, então ele sedou a senhora?” Falei: “Não sedou, não fez nada. Ele só falou comigo”. Ele ia tirar a minha camisola porque ele ia me… Esqueci a palavra… Fazer com o corpo todo, ele ia fazer. E eu não vi mais nada. Devia ser umas nove e meia, dez horas, quando eu estava conversando com o Marcinho e que entrei para o C.T.I.. Quando eu voltei já eram quatro e meia da manhã. Fiquei seis horas longe do mundo. Mas Deus não me levou porque eu estava com muita saudade dos meus filhos.

Relações familiares

E eu pensando: “Meu Deus, quanta saudade dos meus filhos”. Eu gosto quando junta todo mundo. O café da tarde que é uma confusão. Você faz o café, o café acaba, você torna a fazer o café, o café acaba. É uma tristeza, sabe? Todo mundo passa, chega, toma café, vai embora, você nem vê ele. E essa confusão. Quando viu, já foi.

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Marilton Borges/Márcio Borges

Marilton era metido a pai dos meninos, porque era o mais velho, buscava os meninos na escola, e tudo; então, punha os meninos de castigo. Bater, não batia, não, mas punha de castigo, xingava. Ele era bravo com os meninos, gritava com os meninos. Já Marcinho, não. Marcinho era mais era rueiro, sabe? Gostava muito duma rua. A roupa de Marcinho era impecável. Ele arrumava a gaveta dele, lá dentro do armário, era impecável. Ai daquele que pusesse a mão naquelas roupas malditas lá. Ele sapateava, xingava. Marcinho era um tal sapateador, esse aí é igual meu pai. Meu pai ia xingar a gente, sapateava feito não sei o quê. Saiu igualzinho meu pai, sapateando, parecendo doido, bailarino. E xingava. Marcinho era assim.

FILHAS
Sandra Borges
A Sandra era para ter nascido homem, porque era uma moleca. Se acompanhava os mais velhos? Acompanhava. Precisava tomar uns tapas para ficar de castigo, para não ir atrás dos meninos. “Porque os meninos são homens, você é mulher. Tem que ficar é dentro de casa.” Quebrou o braço de cá andando na beiradinha da casa. A Sandra ajudava muito a criar os irmãos. Dava mamadeira, fazia mingau, dava banho nos meninos pequenos. Ela me ajudou muito a criar os meninos pequenos.

Sônia Borges

Sônia, uma grande preguiçosa. Tudo ela estava doente, não podia fazer porque estava doente. “Estou com dor-de-cabeça, estou com não sei o quê.” Mas fazia, tinha que fazer. “Você faz, depois você deita a cabeça.” Mas ela sempre embromadora, sem querer fazer as coisas.

Voltar ao topo EDUCAÇÃO DOS FILHOS

Sônia

Todos os filhos gostavam de estudar. Era bom porque todo mundo gostava de estudar. Mas a Sônia não era muito. Gostava mais de ir para o colégio. Sandra e Sheila formaram-se no Instituto de Educação, desde pequenas. Já Sônia não. Não podia tomar bomba. Tomava bomba, tinha que sair. Ela tomou uma bomba e foi para o Ângelo Roncado, aqui na Chateaubriant, e formou ali. Todas as minhas filhas são professoras. E todas aprenderam a profissão comigo. Eu ensinei a todas. Eu tive uma escola aqui nessa casa. Então eu precisava falar que eu ensinei todas a ser professora. Sandra, Sônia e Sheila foram professoras aqui.

Sheila Borges
A Sheila era uma sonsinha, não brigava com ninguém, não xingava ninguém, fazia as coisas que ela tinha que fazer. Então a Sandra mais a Sônia xingavam ela: “Você é fingida. É só quando mamãe está perto que você é assim. Você é fingida”. Está lá operada, coitada. ”Você é fingida.” Às vezes, ela deitava no beliche pedia e a Sueli, que é a mais nova, para coçar o pé dela e ela, de boba, coçava. Mas ela tinha um gênio mais brando.

FAMÍLIA
Filhos/Lô Borges/Yé Borges
O Lô era manhoso. Chorão, chorão. Tinha uma poltrona de lado; se ele fosse contrariado em alguma coisa, ele chorava e esticava, esticava… Um dia ele furou a poltrona de tanto esticar. O Lô era muito manhoso, muito manhoso mesmo. Agora não é mais, mas era. A origem do apelido Lô é assim: se eu gritasse: “Salomão”, o Salim respondia. Então eu dizia: “Salô! Salô” para chamar ele, e aí ficou Lô. Esse foi um verdadeiro apelido que eu pus. O Yé também fui eu que pus, que é o Marcos Milton, porque o meu sogro morreu e o Yé nasceu depois de 13 dias. E eu queria pôr o nome do meu sogro, que era José Joaquim. E fiquei com medo de falar com Salim e ele lembrar aquilo tudo. Aquela tristeza toda que nós passamos tinha só 13 dias. Ele queria também, mas achou que era egoísmo dele escolher o nome para o menino, se era eu que escolhia sempre, só porque o pai dele morreu. Então não falou. Ninguém falou e foi Marcos Milton. Até hoje eu chamo ele de José. Até hoje: “Oh, José. Vem cá, José. Está chegando, José?”. Ficou José para mim. E de José ficou Yé. O Yé é por isso. Mas eu chamo ele é de José, não chamo ele nem de Yé, nem de Marcos. Até hoje. Ele para mim é José. Gostava muito do meu sogro, então eu chamava ele de José.

FILHAS
Solange Borges/Sueli Borges/Sônia Borges

Depois do Yé, vem Solange. A Solange era a vítima dos irmãos. É, era das menores, os outros eram maiores já. A Solange morria de medo de qualquer coisa. Então meus filhos todos foram criados no berço. Não criei menino na mão, todos criados no berço. E ela estava no berço e eles passavam uma régua assim, nos berço patente, que tinha uma porção de gradinha. “Trrrrrrrrrr.” A menina ficava roxa. Eles faziam covardia com ela, jogavam barata morta no berço dela, faziam tudo quanto era covardia. A Solange foi a vítima dos irmãos. Ela era muito medrosa e eles faziam muito medo pra ela. E a Sueli, que vem depois da Solange, era “marca Lô”. Agora, tão engraçado ela ser “marca Lô”, porque eles nasceram no mesmo dia; o Lô é 10 de janeiro e ela é 10 de janeiro também. Qualquer coisinha, estrebuchava. Eu dizia: “Podia espichar até morrer, quando você morrer eu te enterro. Eu te garanto que eu te enterro”. Estrebuchava para quê? Bater, machucar? A Sônia fazia birra e entrava debaixo da cama, aí o pai dela jogava bacia d’água nela para ela sair debaixo da cama; ele jogava água nela, aí ela saia. Era muita peruada aqui nessa casa, tinha muita peruada.

FILHOS
Marcelo Borges/Mauro Borges

O Marcelo eu nem lembro bem, porque ele já era o penúltimo. Já as meninas que cuidavam, davam banho, lavavam roupa, levavam para ir para escola e tudo. Muito malandro para estudar, o Marcelo. Malandro até não sei mais onde para estudar. E o Mauro era o caçula. O Marilton fazia tudo por ele, até hoje. Mauro tem 46 anos, eu acho. Até hoje ele chega aqui em casa, e quando Marilton está aqui e a bolsa de Marilton está em cima da mesa, ele abre a bolsa dele e tira dinheiro. Até hoje! Ele é casado, pai de três filhos e faz isso. Marilton dava a ele toda autonomia, podia fazer o que quisesse. Qualquer coisa: “Esse aí é meu filho”. Ele que criava, levava ele para jogar bola, olhava ele direitinho. Marilton sempre fala que Mauro era filho dele, tratava muito bem dele. O apelido de Mauro é Nico, mas eu não chamo ele de Nico. Chamo ele de Mauro: “Meu filho, o nome que eu te pus é Mauro”. Agora todo mundo aqui em casa que pôs esse apelido nele. E todo mundo chama ele de Nico, até o pai dele. Não sei de onde vem o apelido. Não sei porque eles puseram nele o nome de Nico. Eu não, eu chamo ele é de Mauro. Até hoje eu chamo ele, e se ele me tenta muito, eu chamo ele de Mauro Nilton, para ele saber que é ele mesmo. Quando eu estou brava é Mauro Nilton. Ele já sabe.

Voltar ao topo MARIDO

Salomão Borges

Salomão, o pai dos meninos, era jornalista; editorialista do Estado de Minas, 32 anos ele foi. Nossa, você imagina, até hoje ele corrige erro de português. Ele lê qualquer coisa e não lê com o intuito de ler, lê com o intuito de corrigir, porque ele corrigia matéria no Estado de Minas. Ele não admitia erros; então os meninos são bons em português por causa do pai, não era por minha causa; eu não era tão boa assim em português, era muito boa em matemática. Música, matemática, mas português eu não era. A Sandra é professora de português, coordenadora de português do Pitágoras. Ela é craque, craque mesmo. Se você quiser saber qualquer coisa, pergunta a ela, ela sabe tudo. E quando ela tem qualquer duvidazinha, ela vem e conversa com o pai dela. Os netos chamam o avô de sábio. É. “Vovô é um sábio, tudo que a gente não sabe, pergunta a ele e ele sabe. Vovô é um sábio.” A Sheila morava em Vitória, agora ela está morando outra vez aqui; morou aqui, depois foi para Vitória. O mais velho dela até já casou e tudo. Quando ele ia fazer dever de casa, era por telefone. Salim respondia para ele. Ele acertava porque Salim estava perto. Mas todo dia Leonardo telefonava para o avô dele pra fazer o dever de português certo. Tudo ele perguntava ao avô dele. Então, a Sandra mesmo falou comigo outro dia: “Papai é um sábio. Qualquer coisa que a senhora tiver dúvida vai atrás dele”. Eu falo: “Para vocês. Para mim ele não é sábio”. Eu falo assim. Eu tenho ódio quando ele corrige qualquer coisa que eu escrevo. Eu falo: “Olha, eu não sou jornalista, não trabalho no Estado de Minas e não sou sua filha. Eu escrevo do jeito que eu quiser. E sou professora, você não é. Não corrige nada que eu escrever”.

FAMÍLIA/ATIDADES
Filhos

As meninas seguiram minha profissão. Todas são formadas, todas elas. Embora eu não sonhasse que elas fossem ser professoras. Aqui em casa foi tudo muito aberto. Cada um ia fazer o que quisesse. Para mim, por exemplo, os meninos iam ser jornalistas, porque o pai era jornalista. Agora as meninas eu não gostaria muito que elas fossem professoras, porque é muito triste ser professora. Porque o negócio é o seguinte: se o menino sai bem numa prova, se ele faz aquela prova maravilhosa, bem, ele puxou o pai, puxou a mãe, puxou o avô, o tataravô. Agora se ele erra tudo, a professora não ensinou nada. O problema é que a professora não tem valor nenhum. Mas elas todas quiseram ser professoras por causa da escolinha que eu tinha aqui.

TRABALHO
Atividades profissionais/Escola

Nós moramos nessa casa, em Santa Tereza até 63 ou 64, mais ou menos. E eu fundei a escola e mudei para o Levy, porque a minha casa foi transformada numa escola. Uma escola muito bem montada, porque veio inspetor da Secretaria de Educação. Ela era registrada na Secretaria. Em 49, ela era registrada na Secretaria. Eu trabalhava num grupo e trabalhava na minha escola. A inspetora escolar todo mês ia à escola. E a minha inspetora também vinha todo mês aqui olhar os livros todos, olhar tudo, olhar os meninos, ver se estava tudo certo. Até o quadro tinha o lugar certo de pôr: com a luz entrando à esquerda. O quadro, por exemplo, tinha que ficar ali, e aqui a porta. Mas eu tomava aulas com a dona Nazira Abi-Saber e ela me ensinava: “Olha o quadro tem que ser com a luz da esquerda, a luz da porta à esquerda. Não pode ser da altura não sei quanto”. Ela me ensinava tudo. Então mandei fazer até as carteiras. Minhas carteiras estão até hoje aqui na igreja. Eu dei para a igreja, porque eles têm catecismo, e as carteiras estão lá até hoje. Eram carteiras duplas, com lugar para pôr os objetos embaixo.
Eu tinha vontade de ter uma escola de tanto que eu sofri como leiga. Eu não sou leiga, eu posso ter uma escola, eu posso dirigir uma escola. Na escola que eu trabalhava, lá no JK, eu era auxiliar da minha irmã, que era diretora da escola; ela era formada pelo curso de Administração do Instituto de Educação. Mas como ela também teve muito filho, eu a auxiliava muito. Toda vez que ela ia ter menino, eu ficava quatro, cinco meses dirigindo a escola, então eu sabia dirigir, não sabia? Eu dirigi uma escola do Estado com 40 meninos em cada sala. E os meus aqui eram 115. Eu cheguei a ter mais de 120 meninos aqui. E todo menino era doido pela escolinha da Dona Maria. As mães passavam apertadas sabe? Era todo mundo doido com a escola, adoravam a escola.
A escola era registrada no INPS, vinha o inspetor do INPS olhar a escrita. Era tudo muito legalizado, tudo. Eu tinha acho que umas duas ou três professoras que não eram de casa, pagava o INPS todo mês para elas, pagava para mim, que era dona da escola. E Sônia, Sheila e Sandra não podiam porque elas eram muito meninas ainda. A Sheila tinha 15 anos. Mas todas elas ajudavam os pequeninhos. Então eu punha duas professoras na sala dos pequenininhos, e a Sheila ajudava. A Sandra dava aula mesmo. A Sandra toda vida foi muito boa em português, ela estava estudando ainda, mas toda vida foi muito boa em português. Dava aula. Tive muito menino aqui nessa escola. Foi aquele chororó quando adoeci e falei que não ia ter mais escola. Entreguei os livros todos. Os livros todos da escola estão lá na Secretaria. Entreguei tudo. A escola se chamava Curso Nossa Senhora de Fátima. Mas eu tinha muito gosto com a escola, tinha bandeira na escola, uma bandeira branca com lista azul e com o escudo grande escrito Curso Nossa Senhora de Fátima. Aquela imagem de Nossa Senhora de Fátima que está ali era da escola. Sou devota de Nossa Senhora de Fátima. Até hoje ela está aí. Eu acendo vela para ela todo dia. Tinha coroação dessa Nossa Senhora. Quando era primeira comunhão dos meninos, eles iam em procissão com Nossa Senhora. Fazia um andor para Nossa Senhora, levava para igreja… eu tinha muito gosto com a escola.
Os meninos que saiam daqui iam direto para o colégio. Primeiro ano e quarto ano eram meus. Primeiro ano porque eu sou catedrática em alfabetizar. Eu alfabetizei os meus todos. E quarto ano porque era o momento pesado para poder ir para o colégio e logo para admissão. Depois, eu resolvi ter uma admissão aqui e eu pus Marcinho como professor de inglês. Marcinho fala inglês, alemão, espanhol, fala tudo. E pedi a Salomão para dar umas aulas de português para eles. Gente, eu quase morri de rir. Você dava a ele o sumário: “É isso que eles vão ter que aprender”. Isso aqui era para aprender em uma semana, duas semanas. Ele dava tudo num dia só. Eu falava: “Você vai matar os meninos”. No outro dia eu tirei ele: “Os meninos vão morrer porque não vão conseguir. Vai acabar todo mundo fugindo da escola”. Mas Marcinho dava bonitinho aula de inglês, os meninos adoravam a aula de inglês, parece que ele era muito bom. Mas gostava de matar aula também, sabe? “Ah, hoje eu não posso.” Aí eu passava azedo, porque eu não sei inglês. Não sabia nada de inglês.

LUGARES
Edifício Levy

Tivemos que organizar a família para sair de Santa Tereza, instalar a escola e mudar para o Edifício Levy. Foi o seguinte: eu reuni todo mundo e falei: “Vou fazer uma escola aqui e eu vou ganhar um dinheiro com essa escola. Seu pai ganha pouco, eu tenho que pagar colégio para vocês. E nós vamos morar no centro e vocês não vão precisar tomar condução para ir para o colégio. Vocês vão a pé para o colégio”. Aí eles entenderam bem e gostaram. Eles adoraram o Edifício Levy. Teve gente que chorou até não ter mais onde quando eles pediram o apartamento. Porque a bagunça era muita. Nossa Senhora! Você ficava doida, era dor de cabeça mesmo. O Marilton e o Marcinho já estavam rapazes; Marilton já devia ter uns 19, mais ou menos, e Marcinho, uns 17. Ou Marilton uns 20 e Marcinho uns 18, uma coisa assim. E eles tinham uma pensão – nós morávamos no último andar, 17° andar. E a pensão ficava no quinto andar, eu acho. E o Bituca morava nessa pensão.

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“Bituca”(Milton Nascimento)

Aí Marcinho conheceu Bituca. Marilton e Marcinho ficaram amigos do Bituca; ficavam tocando violão nas escadas do edifício, violão na portaria do prédio e o porteiro gritando. Um dia chegaram lá em casa com o Bituca. Eu falei assim: “Vocês vão fazer o quê?”. E eu tinha um excomungado dum piano Brasil lá em casa – oh, piano ruim. “Nós vamos aprender a tocar piano. Bituca vai ensinar.” Eu falei: “Você sabe tocar piano?”. Ele falou: “Sei, sei sim. Vou ensinar os meninos a tocar piano.” Mentira pura, tudo mentira, tudo para passar pelo buraco da agulha, só. Aí o Bituca todo dia estava lá em casa. Eu falei: “Mas vai ter aula todo dia?”. “Não, mãe, ele está aqui porque nós estamos ensaiando uma música.” Aí já virou o ensaio de uma música. E aí no ensaio da música o Bituca estava todo dia, dava aula de noite. E eu tinha cinco meninas dentro de casa, não podia pôr um rapazinho dentro de casa que eu não conhecesse. Então eu falei: “Eles ficam até a hora de eu sair. A hora que eu sair, por favor, saiam todos”. E eu falava com os meninos: “E tranca a porta. Não quero ninguém de fora aqui em casa”. Ia para o grupo, dava minha aula, chegava cansada e ia pro quarto deles para ver se estava todo mundo certinho lá. Bituca estava dormindo na cama junto com Mauro e com Marcelo. O beliche era dos dois. Bituca estava ferrado no sono. Eu acordava ele, dava vassourada nele. Dei muita vassourada nele, porque ele era muito desobediente. Aí um dia ele falou assim: “Eu quero ser o décimo segundo dessa família”. Eu falei: “Então tem que obedecer às ordens da família. Você pode ficar aqui”. Ele era doido por Mauro, ele é até padrinho do Mauro. “Você pode ficar aqui, mas é pra ajudar a olhar, não é para fazer bagunça. Pode tocar.” Eu não me incomodava que tocasse, cantasse, era indiferente. “Pode tocar, pode cantar, mas deixa as meninas dormir, os pequenos dormir. Fecha as portas dos quartos para não fazer barulho, deixa os pequenos dormir. E eu quero achar tudo normal aqui dentro de casa.” “Está bom.” Saiu da pensão e ficou lá em casa. Igual um doido, ele bebia demais da conta.
Um dia eu cheguei do grupo com os cadernos todos na mão, cansada feito não sei o quê, desci do ônibus, ainda tinha que andar um pedação e quando cheguei na portaria vi que ele estava segurando o edifício, com as duas mãos. Ele já estava morando comigo. Eu falei: “Bituca, o que você está fazendo aí?”. E ele sussurrando: “Dona Maricota, fala baixo, o edifício vai cair”. Eu falei sussurrando também: “O edifício vai cair e você está deixando seus irmãos todos lá dentro?”. “Mas eu não posso subir porque ele vai cair.” “Olha para cima para você ver.” E a gente olhou pra cima e parecia que o edifício ia cair mesmo. Eu vi que ele estava ruim, não adiantava discutir com ele. Eu falei: “Ih, vai cair mesmo, Bituca. Deixa eu te ajudar”. Pus os cadernos todos no chão: “Bituca, eu estou achando que ele agora firmou”. Ele olhava assim: “Eu não, eu não”. Eu falei: “Olha, Bituca, acho que agora ele firmou. Não vai cair mais não, não está balançando mais não. Pega meus cadernos e vamos subir depressa de elevador para nossa casa”. Aí subimos. Chegou lá, e o Salomão já tinha chegado do Jornal. Colocou-o dentro da banheira e deu banho nele. Mas olha, deu tanto banho no Bituca, mas tanto banho… Quando uma pessoa está daquele jeito, tem que tomar banho para ver se melhora. A Sheila xinga Bituca até hoje. Falava: “Bituca é um ordinário. Eu passei aquelas roupas dele até enjoar. Não tinha obrigação de passar”. Ela passava dos irmãos, passava o dele também. É, às vezes ele vinha com a roupa úmida. Ela passava roupa muito bem. “Sheila, pelo amor de Deus, passa esse paletó para mim que eu tenho show agora, ele está molhado.” Sheila falava: “Mas como é que eu vou passar uma roupa molhada, meu filho?”. Aí ele dizia: “Você vai passando até secar”.
Depois, eu mudei do Levy. Fui para o Capri, porque eles pediram a casa, porque era aquela bagunça de música. Eu não queria sair de lá, porque era perto do mercado, para mim era muito melhor. Aí arranjamos um apartamento no Capri. Bituca foi para São Paulo. E nós mudamos para o Capri. E Bituca tinha medo do porteiro. Ele era tão preto quanto o Bituca, igual o Bituca. E ele morria de medo do homem. “Dona Maricota, eu tenho medo dele me avançar.” Eu chegava do grupo, ele estava na esquina. Quando ele chegava de São Paulo ficava com a maletinha dele, ali parado, porque ele sabia a hora que eu chegava do grupo. Eu falava: “Você já chegou, Bituca, o que você fez em São Paulo?”. “Está muito ruim, não deu certo lá, não sei o quê…” Eu falei: “E por que você está aqui na esquina?”. “Eu não entro com aquele homem de jeito nenhum. A senhora tem que me pôr lá dentro.” Aí eu abri com a minha chave a porta: “Entra, Bituca, entra logo com essa maleta, vamos entrar, vamos embora”. Aí vai Maricota para o fogão fazer comida para Bituca que estava branco de fome. Era assim, desse jeito. Me deu muito trabalho. Ele me deu muito trabalho, o Bituca. Mas eu não sei se quem conheceu primeiro o Bituca foi Marcinho ou se foi Marilton. Eu acho que foi Marilton. Mas quem ficou mais amigo dele foi Marcinho.

Marilton Borges

Marilton já se interessava por música. Já tocava, tinha um conjunto chamado Gemini 7. Eu levava as meninas no sábado no Círculo Militar porque Marilton estava tocando e elas iam dançar e eu ficava sentada esperando; não tinha muito jeito, porque elas gostavam de ir. Marilton, quando fez um ano, ganhou uma gaita. Uma gaitinha assim pequenininha. Ele tocava tudo naquela gaitinha. Tocava mesmo. Tinha um jeito fora de série para música. Desde pequenininho, de um ano. Era flautinha, era bandolim, violãozinho, a gente dava pequenininho. Ele tocava tudo. Tudo que desse a ele, ele tocava. Tocava as músicas. Toda a vida teve muito jeito. Ele toca muito bem, mesmo. Mas ele não gosta de tocar aqui no Natal. Ele falava assim: “Esse problema é do Telo, não é meu”. Aí o Salomão deu um cavaquinho para ele e ele tocou tudo que ele sabia de música no cavaquinho. Ele, desde pequenininho, tinha o dom da música. Mas a minha mãe tocava bandolim e tocava flauta. Minha mãe tocava um bandolim lindo… Eu sou a mais velha e lembro da minha mãe com aquela barriga, esperando meus irmãos, com o bandolim em cima da barriga. Eu falava: “Eu não agüento fazer essa mão que a senhora faz. Essa mão balançando, assim. Eu não agüento fazer isso”. Tocava flauta, muito mesmo. Tinha esses dois parentes. Meu tio, irmão do pai da minha mãe, o Simão. Meu avô, o pai da minha mãe, era da banda de música. E os filhos de Simão, os irmãos de João, todos eram músicos. A família era toda de músicos. E Salim tinha também o primo dele que era da Sinfônica. Mas era maravilhoso pra tocar. Até é irmão de leite de Salim… Vem de família. Minha mãe tocava, minha tia tocava violão, elas faziam aquela farra com violão, com cavaquinho, bandolim, tudo. O povo todo gostava de tocar e fazer barulho.

Quando os meninos eram adolescentes, eu achava que eles iam ter outra profissão. Marilton e Márcio começaram a trabalhar no Correio. Salomão trabalhava lá e o diretor do Correio gostava demais dele. “Salomão, você deve ter algum menino na idade de entrar para o Correio para ser mensageiro.” Ele botou Marilton e Márcio juntos para trabalhar no Correio, mas eles eram malandros, não queriam nada, jogavam os telegramas fora, essa coisa que os meninos ordinários fazem. Mas eles trabalharam no Correio muito tempo. Mas Marilton era mais trabalhador do que Márcio. Porque ele, antes do Correio, era boy numa firma grande. E Marcinho gostava de estudar. Marcinho largou a faculdade porque o professor faltava uma semana às vezes e mandava Marcinho dar aula para ele. Um dia ele ficou com raiva e falou: “Mãe, a senhora quer saber de uma coisa? Eu não volto mais lá na faculdade”. Ele estudava na FAFICH. “Por que, meu filho?” “O professor ganha o dinheiro e eu dou a aula, que desaforo é esse? Não vou. E nem vou avisar ele. Vou deixar todo mundo sem aula.” Marcinho foi assim.

FILHOS
Marcio Borges/Marilton Borges

Esse grupo de adolescentes de 19, 20 anos que se reunia ali no Levy parecia tudo maconheiro. Eu falava assim: “Vocês estão todos parecendo maconheiros”. Com aqueles cabelos emaranhados, tudo parecendo bicho. Cabelão esquisito. Não pode falar que ele é feio de jeito nenhum. “Maricota, eu não sou feio.” “Mas você é lindo, você é belo, nunca vi tão lindo.” Eu falava para ele. Mas era tudo assim, cabelão. Agora, Marcinho nunca gostou de cabelão, nem de roupa hippie, roupa rasgada, roupa feia, não, ele sempre gostou de roupa arrumadinha. Tinha um ciúme danado das roupas. Ele sempre gostou de andar bem arrumado. Sempre gostou. Nunca deixou a roupa dele jogada, não deixava. Mas Marilton era lambão, deixava tudo jogado, tinha que apanhar. Bituca nem se fala.

LOCALIDADES BELO HORIZONTE
Edifício Levy

O apartamento era assim: tinha o meu quarto, o quarto das meninas, o quarto dos homens e o quartinho de empregada, que tinha uma cama de casal. Lá era de Marilton, porque ele trabalhava de noite, então ele levava a chave da porta da cozinha e da área, para não incomodar ninguém. Ele dormia nessa cama de casal.

Marilton Borges

Um dia aconteceu um fato muito engraçado. Não sei qual das meninas foi chamar Marilton para ir trabalhar. “Vou chamar Marilton!” Chegou: “Mãe, Marilton teve um filho.” Eu fui lá ver o que era. E tinha alguém deitado junto com ele. Era o Nelson Ned, primo da namorada dele. E estava deitado lá em casa, no cantinho de Marilton. Em casa era lugar de tudo mundo. A Martinha, como Marcinho gostava das coisas muito arrumadas. Ela olhava o guarda-roupa dele assim. “Eu eu vou vestir aquela camisa”. Eu falava: “Se Marcinho deixar, porque depois ele vai xingar e eu não vou querer”. Ela falava: “Ah, Marcinho gosta de mim, ele deixa”. Ela ia lá, tirava a camisa, surrava a camisa, surrava, depois via que estava surrada para entregar. E eu falava: “Marcinho, não vou deixar Martinha tirar mais nenhuma camisa aqui, hein? Você deixa ela tirar e ela não lava e nem coisa nenhuma e entrega surrada para eu limpar, lavar e passar”. Ele falava: “Deixa ela, mãe, ela gosta das camisas, deixa ela vestir”. Ela também não saía lá de casa.

BITUCA
As meninas não participavam muito do grupo. Participavam assim: com Bituca, no quarto, tocando violão e elas cantando. Assim elas participavam. Quando ele tocava violão, elas cantavam. Bituca perseguia a Sueli. Sueli ficava com ódio do Bituca. Ele estava no piano e falava: “Sueli, vem cá, vou te ensinar a tocar ‘Índia’”. E aí começava a ensinar ela a cantar “Índia”. E ai ele ia mudando de tom… Ia subindo o tom. No fim, ela esgoelava e não saía mais nada. Ela tem apelido de Dodote. Ele falava: “Dodote vamos cantar ‘Índia’?”. “Vai sobrar pouco, porque você não vai me fazer de boba mais não. Eu não vou ser boba mais não.” Ele adorava fazer Sueli de boba. Até hoje se ele chegar aqui em casa ele vai convidar ela para cantar “Índia”. E ele vai mudando de tom e ela quase arrebenta o papo de tanto cantar.

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Beth Carvalho

Quando os meninos começaram a trabalhar como músicos, eu acompanhava eles para os bailes. Teve um festival na Secretaria de Saúde, ali perto do Minascentro, que é como se chama hoje. Eu fiz tanta faixa para esses meninos. E fui para o festival, eles participando. Marilton ganhou de melhor intérprete. Cada um ganhou uma garrafa de uísque. E não sei quem inventou: “Vamos lá para casa do Marilton?”. E veio aquele povo todo com a garrafinha de uísque para cá. E era um sábado. Eu lembro que Salim tinha comprado muito peixe no mercado, que era para fazer no domingo. E eu estava me queixando aqui em casa. “Aqui em casa é restaurante, tem que fazer tudo em muito. Não sabe quantos que chegam para comer.” E ficou sem pão, sem tira-gosto, estavam só bebendo. Eu pensei: “Vou fazer o peixe. Faço um pirão bem grande porque aí eles comem. Faço arroz, um peixe ensopado e pirão”. E eles beberam até cair. Aquela menina, a Beth Carvalho, escorregou perto daquela janela ali e não saia de lá nem a pau. Já estava na hora de os meninos chegar, de ir para escola e ela não levantava de jeito nenhum. Mas ficou muita gente, os Golden Boys, os Valle. Tudo garoto na copa, na cozinha, comendo e bebendo. Teve uma hora que eu falei: “Agora vai todo mundo embora que meus alunos vão chegar e o que eles vão falar?”. Aí eles foram saindo, foram embora, mas a Beth Carvalho ficou ali. Ficou ali até as tantas – não tomei conhecimento dela mais. Ficou deitada dormindo.

Naná Vasconcelos

Essa casa era cheia de gente, Naná Vasconcelos chegava aqui em casa e amassava minhas panelas todas de alumínio. Eu xingava ele… Ele falava assim: “Olha que som lindo”. Batia numa. “Que som maravilhoso.” Aí eu ficava com dó de xingar.

ELIS REGINA
A Elis não vinha aqui em casa. Elis eu conheci lá na EMI Odeon. Nós estávamos gravando o disco dos Borges. Mas ela ficou tão doida comigo que ela me carregava. Eu falava: “Menina, você é do meu tamanho, você não é maior que eu”. Ela me carregava. “Dona Maricota, eu vou ser uma velha igual você, entrar para o estúdio com meus filhos também, cantar também, tudo.” Tadinha, né? Eu fui na casa dela, ela me pediu para ir a São Paulo, para eu fazer uma visita para a mãe dela que tinha sido operada. Quando ela fez o último show dela aqui, ela me pediu para eu ir na casa dela, que ela daqui ia fazer show no Rio. E ela estava preocupada com a mãe dela. Ela era muito amiga de Marcinho. Ela olhava os meninos de Marcinho, Marcinho olhava os meninos dela, e ficou muito amiga minha. Telefonava para mim. Para show dela aqui eu ia mesmo, pena que o “Trem Azul” foi o último. Eu ia porque eu gostava dela, da música dela. Depois, porque eu fiquei conhecendo ela lá. Ela cantou “Vento de Maio”, que é do Marcelo. Depois fez o show aqui, o “Trem Azul”. Eu gostava demais dela e eu estava viajando quando ela morreu. Eu estava no Rio Grande do Sul fazendo uma excursão. Eu tinha tanta pena, chorei tanto, meu Deus do Céu. Nunca chorei tanto. A Solange falava: “Mãe, eu não posso falar em Elis”. Ela era fã incondicional, ela tinha todos os discos. Ela começou a quebrar todos os discos. Começou a chorar – e eu não estava em casa, eles que me contaram. Ela sapateava em cima dos discos chorando, gritando. Ela era muito amiga dos meninos, do Lô, do Marcinho, Marilton. Deus não quis, o que se pode fazer? Ela chegou a vir aqui em casa, mas nós não estávamos, tínhamos ido fazer piquenique no parque. Ela deixou um bilhete: “Maricota passeadeira, eu vim aqui e você não está. Elis”. Fiquei com tanta pena dela ter vindo aqui. Foi quando ela estava fazendo show aqui.

“Bituca”(Milton Nascimento)
Quando o Bituca ganhou o primeiro festival, em 70, eu estava lá. Marilton cantou com Maria Alcina naquele festival. E eu fui. Eu tenho uma irmã que mora no Rio, e nós duas fomos ao festival. Foi uma beleza.Você sabe que o Bituca casou? Ele casou. E me chamou para ser madrinha do casamento dele. Eu e Salomão. Chegamos lá, quase na hora do casamento e encontramos com o Bituca onde ele marcou. Estava com uma roupa horrível, surrada. Eu falei: “Bituca, você não vai se aprontar para o casamento, não? Está quase na hora”. Ele falou: “Eu já estou pronto”. Salim falou para ele: “Deixa de ser moleque”. Salim xingava. Fomos naquela loja Ducal. Em Copacabana tinha loja Ducal. Entramos, compramos tudo, vestimos ele todo: sapatão, meia, terno, gravata, tudo. Salim comprou tudo na prestação. A gente fez tudo por ele. Chegava com fome, a gente dava comida, morava na nossa casa, lavava roupa dele, passava a roupa dele. As minhas meninas eram o mesmo que empregada dele, para lavar e passar roupa. Ele vinha toda hora aqui em casa, todo dia ele vinha.
Depois ele se arranjou, mudou para o Rio, aí ganhou os festivais e foi ganhando fama.. A última vez que ele veio aqui foi quando eu fiz 60 anos de casada. Dei até uma festa e ele veio para festa. Tinha um buquezinho para distinguir a família, que era muito grande. Ele disse, me dá o meu que eu vou sair daqui com o meu. Eu falei: “Mas lá na igreja vai dar, Bituca”. “Eu quero sair daqui com o meu, vou entrar no hotel com o meu.” Aí tive que dar a ele e tudo. Foi a última vez que Bituca veio aqui em casa. E veio uma vez, sou muito grata a ele, quando a minha mãe fez 100 anos. Ele foi cantar com os meninos de Petrópolis, ele mesmo que trouxe os meninos com ônibus, com tudo. Eu nem sabia que os meninos viriam. E cantou o “Panis Angelico” na missa de minha mãe. É. Lindo, lindo, lindo. Eu pedi a ele; eu telefonei e pedi. Eu falei: “Você canta para sua avó que está fazendo 100 anos?”. Aí ele veio e cantou e trouxe os meninos e tudo. Então eu devo esse favor a ele.
Agora, ele fica furioso quando eu falo que eu não tenho 12 filhos. Ele quer brigar. Os meus filhos não fazem isso comigo. Vamos ver se agora com o Museu do Clube da Esquina isso muda, porque os meus filhos não fazem isso comigo. Eles viajam, telefonam, escrevem. Ele não escreve, não sabe se eu estou viva, se eu estou morta. Não liga para Marilton, não liga para Marcinho.. De vez em quando ele liga para o Lô, de vez em quando.

CLUBE DA ESQUINA
Origem do Clube

A esquina é o seguinte: eu voltei aqui para minha casa e Bituca voltou também. E eles iam lá para essa esquina aqui debaixo, tem até uma placa que a prefeitura pôs e tudo. Eles iam para esquina lá debaixo e com giz eles riscavam assim: mesa 2, mesa 3, mesa 5, sabe como é? E punham uns riscos assim que eram as cadeiras. E não deixavam as meninas ir lá de jeito nenhum. Ficava aquele monte de gente, era Bituca, Marilton… não, Marilton trabalhava de noite, não tinha tempo para isso não. Bituca, Marcinho, Lô, Yé, João Luís, o marido dessa minha filha que foi operada, também não saia lá da esquina. E ficava surrando as calças naquele cascalho daquela esquina e tocando violão. Mas as meninas eles não deixavam ir, porque eles falavam muita bobagem, não queriam deixar as meninas e as irmãs irem para lá. E ficavam lá até tarde. Os vizinhos tinham ódio deles. Chamavam a polícia, tinha dia que chegava todo mundo correndo aqui: “O que foi que aconteceu?”. Eu tinha que esconder eles todos e fechar a porta, pegar a vassoura e começar a varrer lá na frente, como se nada tivesse acontecendo. A polícia parava: “É aqui que tem uma rapaziada que toca ali na esquina?”. Eu falava: “Eu não, eu tenho uma rapaziada, mas está todo mundo no colégio essa hora”. Tinha que mentir. Tinha todo tipo de gente, gente que nem conhecia… Então eu dizia pra polícia: “Eu tenho muitos filhos, mas eles estão todos na aula agora. Só estão os pequenininhos em casa”. Mas isso foi muito tempo, muitas vezes. Chegava o camburão, às vezes sem eles pressentirem, e queria prender, e nós íamos para lá para brigar, para não deixar… eles não estavam fazendo nada demais.

HOMENAGENS
No dia da inauguração da placa, Marcinho falou, Bituca falou, Lô falou, Beto falou, todo mundo falou. Quando todos acabaram de falar, eu disse: “Então agora eu vou falar”. Estava cheio de gente. A vizinhança toda, o prefeito. “Agora quem vai falar sou eu. Vocês estão muito alegres com essa placa do Clube da Esquina. Eu também estou muito alegre com a placa do Clube da Esquina, mas só eu sei o que eu passei com esse Clube da Esquina. Porque essa vizinhança toda que está aqui não gostava do Clube da Esquina. Chamava a polícia e jogava pedra nos meninos, jogava água, a vizinhança aqui não gostava do Clube da Esquina. Eles estão aqui agora porque é uma festa de prefeito, de vereador, então está todo mundo aqui, mas ninguém gostava. É isso que eu tenho a dizer. E eu estou muito feliz.” E alguém virou e falou assim: “Eu nunca fiz nada para os meninos de Clube da Esquina”. Falou alto. Aí o Sérgio de Castro veio de lá, me deu um abraço. “O melhor discurso que teve aqui foi o da senhora.” Que isso, vê se é possível? Eu sofri com esses meninos ai, sofria mesmo, porque tinha que esconder, tinha que tirar. Às vezes, alguém sabia que a polícia estava fazendo ronda, avisava e eu ia lá. Vinha tudo para dentro de casa depressa, correndo, porque sabia que o negócio era feio. Punha no camburão mesmo e levava. Eles nunca, graças a Deus, foram no camburão.

ORIGEM DO NOME
Clube da Esquina:

O Clube da Esquina fui eu que inventei o nome. Ninguém fala desse Clube da Esquina sem me pedir licença. Eles iam para lá e eu precisava dos meninos aqui em casa, porque casa que tem 11 filhos não tem empregada. Empregada não fica dentro de casa com essas meninadas. Menino suja tudo, faz bagunça, eu vivia penando. Então eu queria um dos meninos, ou o Marilton, ou Marcinho, ou Lô, para me ajudar com menino pequeno chorando. Eu fazendo as coisas e nunca que eles estavam dentro de casa. Eu então falava para uma das meninas: “Vai lá naquele inferno daquele clube da esquina, porque aquilo é um clube do inferno. Vai lá e chama o Yé e o Lô, depressa que estou chamando”. Aí eles vinham para olhar os pequenos. Eu não dava conta. Aqui em casa – agora não, que o quintal é bonito, tudo pavimentado – era terra pura. Eu pus aqueles varais de arame, e não usava esse negócio de comprar fralda. Era fazer fralda de morim. Aquele fraldeiro para eu lavar! E pendurava as fraldas no arame farpado. Punha lá e punha aquele pau para suspender. Os cachorros chegavam lá, faziam assim com o pau e caia tudo na terra, tinha que lavar tudo de novo. Aí ia todo mundo de castigo. Eu gostava muito do castigo. Quando brigavam, eu botava um sentado na frente do outro, olhando um para cara do outro. [Risos] Eu gostava muito do castigo.
Então o Clube da Esquina surgiu e foi eu que falei. Aquilo é um clube que eles fizeram, eu fui lá e vi. O Lô, não sei quem, fez as mesas, numerou. E para os gaiatos que passavam, eles vendiam as mesas, para ganhar um trocado. Vendiam as mesas e tocavam ali. Várias vezes eu apelidei o Clube da Esquina de “Maldito Clube da Esquina”. E eu que pus o nome de Clube da Esquina, porque eu vi que eles estavam querendo fazer um clube ali, com as mesas, com os bancos.

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“Clube da Esquina”

Marcinho, Bituca e Lô estavam lá na esquina. O Lô tinha tocado, feito a melodia, sei lá. Eu sei que ele e Bituca tinham feito a melodia, Marcinho achou bonita e falou: “Eu vou fazer a letra dessa música. Eu vou lá em casa e vou pegar um papel e um lápis”. E veio correndo aqui em casa. Quando chegou aqui em casa, a luz acabou. Eles pintavam muito comigo, eu era muito boba. “Mãe, me arranja uma vela pelo amor de Deus.” Eu falei: “Quem é que está morrendo?”. Diz ele: “É uma música que eu quero fazer, e se eu não fizer ela morre. Me arranja uma vela aí”. E todo mundo atrás de uma vela, estava todo mundo no escuro dentro de casa. A meninada tudo no escuro. “Vamos sentar aqui fora, a lua e as estrelas clareiam a gente aqui.” E eu tive, no escuro, que rebuscar meus guardados todos, revirar meus trem todo para achar um toco de vela para Marcinho. Aí eu fui com ele lá para fora: “Agora a senhora segura a vela.” Eu sou idiota mesmo, fiquei segurando a vela. E ele escrevendo a letra. Ele escreveu a letra todinha comigo segurando a vela. Ele fala que eu sou a iluminadora dele. [Risos] Fiquei segurando a vela, que era pequenininha e se pusesse em cima da mesa não clareava; tinha que ficar no alto. Ele escreveu e foi para lá. Eu falei: “Leva a vela para vocês poderem cantar a música”. Na hora que ele chegou lá, a luz chegou. Foi engraçado mesmo esse negócio do Clube da Esquina. Mais uma do Clube da Esquina. Se não fosse eu, não saía a letra. Se eu não achasse um toco de vela, não saia a letra. Saiu a letra por isso.

DISCOS
“Os Borges”

Teve o disco “Os Borges”, nós todos fomos para lá. Todos não… Mamãe ficou aqui com os pequenos. E eu fui, Marilton, Márcio, Sandra, quem mais? Sandra estava dando aula, eu já tinha a escola. As meninas não foram. E eu fui para lá com os meninos, eu e Salim. Fomos nós dois juntos para entrar no estúdio da EMI para fazer o disco “Os Borges”. E fizemos o disco, todo mundo cantou, eu cantei, Salim cantou, Bituca cantou. Como chama aquele Arantes? Guilherme Arantes cantou, todo mundo cantou no disco dos Borges. Ficou muito bonito o disco, depois não foi adiante. Agora eles estão com a idéia de fazer o segundo disco dos Borges. Que bom que nesse segundo eu nem canto, não tenho voz mais para cantar.

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Reuniões familiares

Natal, aqui não falta nenhum. Todos os filhos, todos os netos, todas as noras e todos os genros. No Natal é todo mundo aqui. A gente canta, reza, faz a procissão, faz tudo de acordo com o livrinho que eles vendem. Um canta, Marcelo toca o piano com a música, depois faz aquela farra, troca presente e depois vai para copa. E fica até de manhã. Vai para copa, para o quintal, quando não está chovendo. Esse ano choveu demais. Eu não fiz nada, porque é proibido pegar numa colher. Então agora eu estou me dando ao luxo de ter duas empregadas.

Problemas de saúde

Estou me dando o luxo de ter duas empregadas porque eu não posso fazer nada. Quem me dá banho é Solange, quem me põe na cama é Solange. Porque com esse negócio do C.T.I., me arrasou esse lado e eu não posso firmar essa mão. Então como é que eu subo na cama? Como é que eu deito? Tem que firmar uma mão, né? Então eu não consigo, e o médico falou que meus ossos estão péssimos. Fiz uma radiografia, sexta-feira, fui buscar ontem. Está péssima a radiografia. Está péssima mesmo. Isso aqui no ombro está só comido. Perdeu acho que mais da metade da musculatura e nas costas está um buraco. Então agora eu vou começar a fazer fisioterapia. E não sei se eu vou agora, porque Sheila vem aqui para casa, ela vem essa semana e eu não posso ficar por conta da fisioterapia. Se bem que eles sabem, eu não posso pegar nem uma colher.

Reuniões familiares

Quando a família se reúne, todo mundo canta, senta no terreiro, meu genro, marido da Sandra, toca o cavaquinho, e todo mundo canta. Aqui em casa é a casa da música. Os vizinhos não reclamam mais. Agora não. Agora é Clube da Esquina. Agora vem gente aqui, pára carro, as pessoas fazem fila, ficam dando entrevista não sei para quem com o Bituca aqui no jardim. Aqui está sempre assim de gente. Ele sentado ali na beirada do jardim, Lô sentado na beirada do jardim perto dele e um menino da Globo. Muito tempo já. A rua fica cheia. O Clube da Esquina está lá na esquina. O dono do boteco da esquina – porque tem um boteco na frente – morreu, mas ele foi meu aluno aqui na escola. E ele gostava demais de mim, ele cuidava da placa, limpava ela, não deixava ninguém mexer. E tinha um cuidado… agora é a família dele que está lá. Não sei se eles têm o mesmo cuidado. Não chego mais nem no portão, porque eu não ando sozinha mais. Ele cuidava de tudo, limpava, passava Kaol… Ele gostava muito de mim. Morreu do coração.

ESCOLA
A minha escola fechou porque eu adoeci. Eu tive sepcemia. Fui para o hospital e tudo. E eu não podia fazer nada. Fiquei doente seis meses, na época não tinha esses antibióticos fortes, bons. Então eu tomei um antibiótico – era de três em três horas que tinha que tomar – e eu fiquei muito ruim. Meu marido falava: “De jeito nenhum, você não vai mexer com escola de jeito nenhum. Você não come, você fica a noite inteira pelejando, não vai mexer com escola”. Eu falei: “Então espera até o fim do ano. No fim do ano eu fecho”. Avisei as mães. Porque tem um aluno que a mãe dele é vizinha de fundo aqui comigo, da rua de lá. Luizinho, hoje ele é engenheiro. Esse menino foi um problema para poder sair da escola. Ele tinha passado para o quarto ano. Desde o jardim que ele estudava comigo. Os irmãos dele se formaram comigo, o Evaldo e o Edimar. E eles eram três filhos. O Evaldo, que era engenheiro, o Edivaldo e o Luizinho. Mas ele disse que não ia para outra escola de jeito nenhum, que desde o jardim, pequenininho, ele era meu aluno. Ele me adorava. Aí a mãe dele arranjou e pôs ele no grupo. E sabe o que aconteceu? Ele chorava tanto que a mãe dele tinha que ficar sentada no banco do jardim o tempo todo da aula. E ele sentado perto da janela. Toda hora ele levantava e via a mãe dele. Ela dizia: “Dona Maria, a senhora me deu um trabalho”. Eu respondia: “Eu não… eu estou doente”. Eu morei na casa com a escola. Depois, eu fiz salas lá no fundo. Ocupava a casa, e as salas eram da escola.

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Clube da Esquina

Nunca imaginei que aqueles meninos, que iam lá no quarto, ficavam compondo e tocando violão, fossem tão longe como foram. Que se tornassem referências mundiais. Fiquei tão feliz, fico tão feliz. Adoro as músicas dos meus filhos. O Lô tem uma música do girassol, e todo show que ele faz ele sabe que ele tem que tocar. Eu e minha irmã adoramos as músicas. Eu adoro as músicas dos meus filhos. O Marcelo agora – que maravilha! – ganhou o Grammy! Tenho uma felicidade como se fosse meu. É, eu gosto, gosto muito. Porque puxou a minha família; eu cresci vendo a minha mãe tocando bandolim, flauta, e o meu pai tocando violão. E os meus filhos estão seguindo os passos da minha família. Na minha família mesmo, entre os meus irmãos não tem nenhum músico, músico mesmo.
Se eu fosse deixar um conselho, eu falaria o seguinte: mandaria um recado para as mães. Um filho não é propriedade sua. Um filho é de Deus, então ele tem autonomia. Ele não pode ser criado, por exemplo, assim: se meu marido é médico, ele tem que ser médico de qualquer maneira. Definitivamente não! Toda a vida os meus filhos tiveram autonomia, fizeram o que quiseram, dentro da ordem e do bem viver, do tratamento certo. Nenhum foi obrigado a nada. Primeiro, eu dou esse conselho para as mães. Não obrigue os seus filhos a serem médicos, doutores, ser isso, ser aquilo, porque eles vão com má vontade, eles não querem. Mas para os rapazinhos que estão começando agora, digo: não comecem em esquina. Não comecem numa esquina, porque vão dar muito dissabor aos pais e vão passar muito aperto. Começem na garagem da sua casa, num quartinho desocupado. Toquem, porque tocar é divino. A música é divina. Aqueles que gostam de tocar, toquem mesmo, que eu acho lindo e maravilhoso qualquer música. Eu não gosto desses rap, não sei o quê, mas música, sim. Música é divina, eu sou doida por música. Então, tenham cuidado para não ficar nas esquinas. Fiquem dentro de casa, no quartinho, numa garagem… Porque não pense que todo vizinho é bonzinho! É bonzinho quando você está bem com ele. A hora que o seu filho começar a fazer bagunça na rua, você acha ruim. Tenho dito.

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2 Mensagens para Maria Fragoso Borges

  1. solange borges disse:

    que saudades da senhora minha mamãezinha querida bjos no céu sua filha solange borges

  2. Marisa disse:

    Eu estudei no sua escola! entrei no jardim e fui até o quarto ano (último ano), fui aluna da Sheila e tb dama de honra do seu casamento… quanto tempo se passou!!!