Maria Lúcia Scarpelli

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome/ Local e data de nascimento

Meu nome é Maria Lucia Scarpeli dos Santos. Nasci em Belo Horizonte, em 6 de novembro de 1947.

TRABALHO
Atividades profissionais

Minha trajetória profissional é voltada ao trabalho social. Eu venho do movimento social e dirigi o Procon estadual de Minas Gerais e o Procon municipal de Belo Horizonte. Então é um trabalho social, pois significa ampliar a consciência de cidadania. Sou advogada especializada em Direito Econômico, por isso fui trabalhar na área de Defesa do Consumidor. E a Comissão na Câmara é unificada, é junto com Direitos Humanos, que também tem tudo a ver com cidadania. Então eu trabalho com Direito do Consumidor e Direitos Humanos.
Eu entrei no Procon em 1986, mas antes eu já tinha participado do movimento popular. Eu nunca participei de movimento de igreja, mas de bairro. Eu fui presidente de associação comunitária e trabalhei no SESC como organizadora de eventos sociais e culturais, com adolescentes e adultos, como se fosse uma recreadora; depois fui para o Procon e agora estou na carreira política. Tudo o que eu faço está ligado realmente à demanda social, à vontade que a pessoa tem de ser informada. Também fui professora, então eu sempre gostei de trabalhar com isso. Gosto de provocar as pessoas para elas terem uma autocrítica de como estão vivendo, para buscar novos caminhos, para conscientizar e ampliar os horizontes. A pessoa deve saber ao que ela tem direito, ao que ela pode reivindicar, ao que ela pode lutar. E também aonde ela deve ir para buscar ajuda.

FORMAÇÃO MUSICAL
Iniciação musical
Meu vínculo com o Clube da Esquina começou com o fato de que eu sou de família de músicos. Eu sou descendente de italiano e é muito comum a família de italiano ter músicos. E quando meu avô veio para o Brasil ele trouxe toda a técnica de fazer foles de acordeão. Ele consertava os acordeões da Rua Bonfim, que era um ponto tradicional. O tio Antonio era muito tradicional. Meu pai também tinha contato com músicos. E os meus irmãos e eu crescemos nesse ambiente, tocando e aprendendo música. Quando meu irmão ficou adulto ele passou a tocar em Belo Horizonte, em vários locais onde estava fervendo aquele movimento cultural – quando estava começando o Clube da Esquina, em 1970, lá em Santa Teresa. Ele tocava e sempre revezava as turmas. Então a gente ia conhecendo todo mundo. E por conta desse ambiente musical da família, acompanhando meu irmão, obviamente eu me tornei, depois, loucamente apaixonada e fã absoluta de toda a turma do Clube da Esquina.
Eu tocava violino e o meu irmão acordeão, igual ao meu pai. Meu pai tocava bandoneón. Aí meu irmão profissionalizou-se no acordeão; hoje ele é economista e músico. E outro irmão toca acordeão – na minha família vários tocam acordeão. Tinha um tio que era professor e dava aula, também na Rua Bonfim. Então é um ambiente que a gente conviveu desde pequeno. À noite, eu escutava meu pai consertando piano, fole; ouvia sons musicais. Nós éramos embalados pela música assim. Era muito interessante.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Irmão

O nome do meu irmão que se especializou é José Geraldo Scarpeli. As pessoas o chamam de José Scarpeli. Hoje ele tem uma banda muito interessante, que se chama “A Outra Face”; e eles se encontram. O Braguinha é um músico excelente, o Ben Hur também. Eles se encontram e tocam, fazem vários shows em Belo Horizonte. E naquela época eles encontravam muito com toda a turma, com o Balona, o Célio Borges, o Márcio Borges, o Lô Borges, o Flávio Venturini, o Ezequiel, o Chiquinho. Eram vários músicos. Eu tinha um primo que tocava contrabaixo que foi para o Rio, para a Rede Globo. Ficou lá, nunca mais voltou. Então ele levou a raiz da família Scarpeli para tocar lá no Rio de Janeiro. (riso) E eu acompanho até hoje. É muito interessante. Quando alguém está tocando e na platéia tem um músico, aquele músico levanta e dá uma canja no pistão, no sax, no teclado. E a gente vai sempre encontrando com essas pessoas nesse mundo artístico maravilhoso.

ADOLESCÊNCIA
Entrada na adolescência

Eu ia junto com meu irmão para os bailes. Eu nasci em 47, então já estava com 13. E eu casei com 16, com um amigo de infância. Então com 13 anos eu já acompanhava. E nesses bailes os vestidos eram lindos. Eu lembro que eu tinha um vestido azul que me apaixonou a vida inteira. Eu sonho com ele até hoje! Era de um pano bem fino, cruzado. A saia era larga, ampla, para dar o movimento na hora da dança. E eram aquelas músicas… – apesar de que tinham músicas de protesto também, porque quando o tropicalismo emudeceu um pouco, o Clube da Esquina assumiu as músicas de protesto e de denúncia em relação à ditadura militar. Mas os bailes eram bailes românticos, muito bons. Tocavam muito Bossa Nova, essas músicas.
Essa música ela é diferenciada do Clube da Esquina, que é uma música muito regional. É a nossa mineiridade, mas com toques, por exemplo, de barroco mineiro. A gente tem também uma diferença muito grande, porque o Beto Guedes tem um estilo mais rural; já outro compositor puxa mais para o barroco. Foi um fervilhar maravilhoso na cidade, porque explodiu lá no Clube da Esquina, em Santa Teresa, e foi desdobrando nos outros ambientes – e eram vários ambientes ao mesmo tempo. Eu me lembro que tinham os clubes pequenos, sociais, que reproduziam esse ambiente. Por exemplo, tinha um clube em Belo Horizonte chamado Democrata; lá tinha os bailes do Democrata. A gente adorava, porque era aquela música ao vivo, fantástica. A pessoa no violão, no acordeão, no piano, no pistão. Agora eu vejo a diferença dos dias atuais, pra essa música gravada, com tudo já pronto; ou então um instrumento que reproduz uma série de instrumentos. Eu acho isso uma desvalorização muito grande para o músico. Então eu não privilegio esses ambientes. Eu só vou em locais que têm música ao vivo e com o conjunto tocando.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Clube da Esquina: Avaliação

Eu não lembro o momento em que o primeiro “Clube da Esquina” foi lançado, porque não teve um momento muito preciso. Porque era aquela coisa: “Ah, vamos nos encontrar na esquina. Nós estamos lá na esquina.” Então era esse negócio, de todo mundo saber que naquela esquina, em Santa Teresa, as pessoas iam e se encontravam. Depois adotaram o nome para o movimento, que era o movimento mineiro de cultura. Como a Bahia tinha o Tropicalismo, Minas tinha esse movimento, que era bastante característico. Era pura Minas Gerais. Mas do momento certo em que foi lançado o “Clube da Esquina”, eu não me lembro.
Eu ouvia muito o pessoal que se reunia na esquina. Chamavam: “Vamos lá na esquina! Vamos lá!” E muitas vezes eu via o pessoal sair mesmo com o instrumento para tocar. “Onde você está indo?” “Eu estou indo para a esquina. Lá na esquina.” A gente já sabia que esquina que era. Era aquela esquina especifica, um lugar mágico onde os músicos se reuniam. E interessante como também as pessoas de diferentes idades se aproximavam. Os mais novos sonhavam em fazer a mesma coisa. Era muito interessante. E eu acho que isso aí tem que ser resgatado para lembrar que Minas sempre foi um celeiro de cultura e de arte; para lembrar a importância do movimento Clube da Esquina na cultura nacional e internacional, porque é reconhecido internacionalmente. Isso é muito importante, para que não se perca no correr do tempo.

MÚSICAS
“Travessia”

As músicas que eu gosto são “Pan Air”, “Travessia”… “Travessia” para mim é muito significativa. Eu acho linda todas. “Maria, Maria”… A gente fala muito do Milton, mas a gente gosta de todas. Do Flávio Venturini, de todos eles. Eu acho que porque (riso) eu entendo a “Travessia” exatamente assim, de você ter que ir, ter que caminhar, de ser impulsionada sempre a crescer, de acreditar que pode fazer e pode construir. Isso eu acho muito bonito. Então me marca bastante. Eu fico muito emocionada com “Travessia”: (cantando) “Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver/ Forte sou, mas não tem jeito, muito tenho que falar/ Minha casa não é minha e nem é meu esse lugar…” – ah, muito bonito! – “…Solto a voz na estrada, já não quero falar. Meu caminho é de pedras…” Ah muito lindo; muito, muito emocionante. Eu tenho a voz afinada de tanto ouvir em casa, afinando o acordeão.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

Eu acho que Deus, quando foi fazer as criaturas, fez todos nós e depois disse: “Agora eu vou fazer pessoas que vão ser completamente diferentes…” – eu fico até muito arrepiada – “Vou fazer pessoas que vão planar acima do normal.” E então criou os músicos, os artistas. Quando eu vejo um músico tocar, eu fico tão maravilhada, porque eles ficam tão dentro da música, como se fossem a música, fossem o espaço físico. Eles penetram. E eu vi isso a vida inteira, desde nova – e eu estou com 56 anos. Então é daí minha adoração por eles todos, pelo pessoal do Clube da Esquina. São pessoas excepcionais.
Eu acho que nós não podemos comparar as pessoas e falar que todas são iguais. Não são. Eles, os músicos, têm uma divindade muito grande. Eles habitam em outra esfera muito acima da nossa, que somos normais. Acho que nós temos que ficar maravilhados observando. E tem esse negócio de levar a música regional, de atravessar pelas montanhas e ir. Tem uma capa do Milton que faz isso, que são as montanhas dos Gerais. Vai pelas montanhas e vai embora. Eu acho que também pela topografia de Belo Horizonte e pela forma de vida, porque nós não temos praia. Então onde vive o belo-horizontino? Ele vive em bar, à noite. Então até a topografia nos obriga a estar juntos, com essa montanha que nos cerca. E isso se reflete muito nesse negócio de se encontrar na esquina, de ficar compondo músicas, de cantar. Aquele negócio intimista que só se acha em Minas Gerais, porque nas cidades litorâneas as pessoas vão se distanciando. E aqui é o contrário. Nós fazemos o movimento de ir agregando. E isso faz com que as pessoas se reunam e aí cresçam. Daí nascem os movimentos culturais fantásticos.
Eu acho que o Clube da Esquina é o único movimento mineiro que ficou no registro da história do Brasil e ficará sempre. Ficou, transpôs as Minas, transpôs o Brasil e tornou-se internacional. Acho que é o que ficou. Nós não temos mais nenhum movimento cultural que tenha esse registro forte, característico, com uma história, com percurso, com adesões.
O Clube da Esquina tem um estilo próprio. Houve uma proximidade com o rock progressivo e o Milton chegou até a gravar com alguns. Eu acho que é a característica bastante diferenciada. É melodioso, é muito diferente. Você identifica longe o que é o Clube da Esquina, a turma do Clube da Esquina. Toda vez que eu vejo o Lô, eu falo para ele: “Não se perca pelo mundo afora. Sua raiz é aqui, retorne sempre.” O Milton está retornando, o Flávio Venturini está retornando. Todos. Alguns se distanciaram um pouco, foram para fora, fizeram sucesso e não voltaram. Eu acho que nós temos esse motivo de orgulho e temos que passar. Não pode ficar fechado naquelas pessoas que conviveram na época, que estavam lá, que foram testemunhas em 1970. Porque o Tropicalismo foi de 1960, o Clube da Esquina de 70. Então não pode ficar somente esse testemunho de quem viveu na época. Os jovens têm que saber, têm que entender o que é o Clube da Esquina, principalmente para valorizar uma música que é muito trabalhada. É muito de sentimento.
Hoje alguns gostam muito de ouvir uma música que eles chamam de transcendental. Não é transcendental esse barulho louco, sem ritmo, sem melodia, sem harmonia nem nada. Transcendentais são as músicas do Clube da Esquina, do Lô Borges, do Milton, do Flávio Venturini, do Márcio, de todos eles. Isso é que é transcendental, que é o que fica; que fica no coração, que você se emociona. Você canta, o seu avô canta, a gente canta, o filho vai cantar e não vai se perder no tempo. Esses movimentos que aparecem circunstancialmente vêm e vão como o vento. É uma brisa, não é nem vento – é uma brisa rápida, de momento, de circunstância, de modismo. E não registra nada. Nem culturalmente, nem intelectualmente, nem sentimentalmente. Vai e pronto. Modismo. E o que fica é o que é bom. Aquilo que é apurado, aquilo que é arte, trabalhada com muita dedicação e amor. Aquilo é amor puro.
Eu defino assim: o Clube da Esquina é amor puro. Amor pela arte, amor pela cultura. Eles iam fazendo aquilo, compunham e se misturavam nas obras. Por isso que tem muita influência de um na obra do outro. Então eu acho fantástico.
Eu acho fantástico esse trabalho de fazer um Museu. O meu irmão ficou emocionado. E daí foi um irmão ligando para o outro, foi aquela corrente de pessoas. Agora não é renascer, porque não morreu. Você renasce aquilo que está morto. Você não está renascendo. Você está simplesmente certificando-se da importância e consolidando mais ainda esse movimento, que vai ficar. Porque quando você fala da Semana da Arte Moderna, você relaciona com São Paulo. Quando você fala dos Movimento Farroupilha, das revoluções libertárias que ocorreram no Brasil você vai identificando. E em Minas nós temos um movimento revolucionário, que eu digo que é o Clube da Esquina. É revolucionário, é erudito, é popular, é lindo e é arte regional. Regionalismo de Minas Gerais com toda as nossas diferenças de fazer arte. Dá vontade de sentar agora e ouvir tudo de novo. E eu gosto do disco, do vinil. Porque tem fotos lindas. O CD não tem graça não. Eu gosto de pegar o discão e por para ouvir.

CLUBE DA ESQUINA

Museu

Eu fico muito emocionada de dar a entrevista pro Museu Clube da Esquina. Fico muito emocionada, muito grata e muito honrada. E eu agradeço em nome de toda a minha família que mexeu com música. Já perdi primos que tocavam na noite em Belo Horizonte. Meu outro primo está no Rio, o Maurício. Meu irmão, meu avô, meu pai – que tocava tangos de uma forma belíssima, o bandoneon tão sentimental. Então dedico a todos essa oportunidade que eu tenho, de fazer uma homenagem a todos da minha família que sempre lidaram com música e que ensinaram a todos nós a termos essa sensibilidade para perceber a beleza na música. E também eu acho extraordinário essa oportunidade de poder falar do meu sentimento, da minha emoção. E da paixão que eu tenho por todos esses músicos maravilhosos, fantásticos, do Clube da Esquina.

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