Marilton Borges

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome/ Local e data de nascimento

Meu nome é Marilton Fragoso Borges. Nasci em Belo Horizonte, mais precisamente em Santa Tereza, no dia 31 de maio de 43.

FAMÍLIA
Pais/Tio materno

Meu pai é o velho Salomão Magalhães Borges e minha mãe, a dona Maria Fragoso Borges. Meu pai toca um pianinho, mas quando eu era criança ele era mais ligado às letras. A recordação que eu tenho do meu pai de quando eu era menino era que você podia fazer qualquer errada, menos falar e escrever errado [Risos]. Ele ficava bravo demais! Isso ele nunca gostou. Já a parte musical vem da família da minha mãe, através do tio João, irmão da minha mãe, vivo até hoje. Ele tocava violão muito bem, cantava muito bem; e mamãe pertencia ao coro da igreja. Minha mãe até hoje lê correntemente partitura musical. Talvez seja o único Borges que aconteça isso [Risos]… ela é o único Borges que lê música para valer mesmo [Risos], porque o resto, todo mundo é de orelha. Eu inclusive, eu leio cifra mais ou menos.

FAMÍLIA
Avós maternos/Avós paternos

Minha avó materna faleceu ano passado, em 2003; ela tocava bandolim. A minha avó paterna, eu fiquei sabendo que ela tocava também um instrumento, mas eu não cheguei a ver isso. Agora, minha avó materna, há alguns anos, a gente estava passando um fim de semana na praia e eu perguntei pra ela: “Oh, vó, que negócio é esse de seus filhos tocarem instrumentos? Sua filha, a minha mãe, lê música…”. Então ela contou a história do velho Olegário Soares, pai dela. Meu bisavô foi o primeiro músico de categoria especial da banda da Polícia Militar de Minas Gerais. O que era o músico de categoria especial? Era um músico que tocava todos os instrumentos da banda. Não tinha um instrumento da banda da Polícia Militar que não tocasse. Isso veio desaguar nos Borges cá embaixo já, nos bisnetos dele, porque todo mundo toca alguma coisa… essa coisa lá de casa, entende? Foi a minha avó que me contou essa história, eu não sabia. Foi daí que veio esse gene musical que está conosco até hoje.

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Santa Tereza

O bairro de Santa Tereza hoje, pela proximidade com o centro de Belo Horizonte, é um bairro muito valorizado. Mas na nossa infância foi um bairro que foi ocupado. Porque ali tinha um quartel da Polícia Militar, onde é hoje o Colégio Tiradentes; era ocupado por militares. Tanto que se falava assim: “Vai, vai-te soldado!”. O pessoal da classe média melhorzinha não gostava muito de Santa Tereza não… “Vai-te soldado!” E assim, a classe média mais pobre, funcionários públicos é que foram morar ali. Era um bairro muito pacato, muitos lotes vagos – eu passei minha infância brincando naqueles lotes vagos –, muito brejo. A casa da minha mãe mesmo foi construída em cima de um brejo. Já tivemos que fazer várias reformas na casa, que de vez em quando a casa racha toda [Risos]. Até hoje, e já se passaram cinqüenta anos! Então o bairro era isso.
A peculiaridade do bairro de Santa Teresa… E é até hoje, ele nunca foi um bairro de passagem. Mesmo… Agora que fizeram a passagem, ele ainda é um bairro de chegada, apesar da proximidade com o centro da cidade. Então você chega em Santa Teresa, mas você não passa por Santa Teresa, porque você não vai para lugar nenhum. Santa Teresa é o fim [Risos]. Essa coisa peculiar permitiu ao bairro ser uma coisa incrustada dentro de Belo Horizonte, uma cidade do interior dentro de Belo Horizonte, onde até bem pouco tempo as pessoas ficavam na calçada, batendo papo no fim de tarde, aquela coisa bem interiorana; todo mundo conhece todo mundo: “Dona Fulana, me arranja uma xícara de arroz aí, fazendo um favor?”. “Senhora tem açúcar aí? Me arruma aí um pouquinho.” Depois você ia lá e mandava pagar uma xícara de arroz ou de açúcar que você pegou com o vizinho. Aquela coisa bem de interior mesmo. Até bem pouco tempo, Santa Tereza era assim. Agora vieram os bairros.
Eu fui presidente durante três anos da Associação Comunitária dos moradores do bairro e eu consegui aprovar a Área de Diretrizes Especiais; foi a primeira, e até hoje é a única área ADE em Belo Horizonte. Isso significa que você tem parâmetros para construir, você não pode construir com mais “n” andares, tem que ser até quatro andares; me parece que tem que ter um distanciamento da calçada, distanciamento do muro para preservar quem mora em casa do outro lado, coisas assim. Então eu consegui isso, graças a Deus e graças aos companheiros lá também. Mas eu fui de gabinete em gabinete, aproveitando que a gente é mais ou menos conhecido aqui, pedindo: “Fulano, aprova porque isso é importante pra Santa Tereza”.
Então Santa Tereza hoje, graças a Deus, continua sendo um bairro de chegada, e nunca de passagem. E é essa recordação que eu tenho do meu bairro, um bairro com a sua matinê das 10, matinê das 2… O Cine Santa Tereza, que hoje está parado, vai se transformar num centro cultural ali no centro, o Centro Cultural Leste, ali na pracinha de Santa Tereza. Também a gente que conseguiu isso. É um prédio grande, tipo um galpão mesmo. A gente conseguiu que a prefeitura tombasse aquilo pra gente. Eu acho que eu fiz algumas coisas pelo meu bairro, apesar de hoje eu estar virando mais sabarense porque estou com um sítio lá, onde estou indo morar. Mas eu estou conseguindo, a gente conseguiu isso pro nosso bairro: o tombamento do cinema, o bairro se transformar numa área de diretrizes especiais, sabe, aquela coisa da infância. Ali na pracinha, por exemplo, tinha o footing, que era a rapaziada parada e as meninas passeando. E de vez em quando o cara chegava: “Posso falar com você?”. [Risos] “Pode, fala.” Aí saía, ia para o murinho, pros escurinhos, dava uns amassos ali, aquelas coisas. E era engraçado, tinha aquela coisa assim meio preconceituosa. A Praça Santa Tereza tinha três módulos, eram três pracinhas: aqui ficavam os rapazes do bairro, na outra ficavam os soldados e as empregadas [Risos]. E a outra era mista, ficava todo mundo [Risos]. A praça era assim: em frente ao Macarrão do Bolão era um módulo, em frente à igreja era outro módulo e em frente ao cinema, outro módulo. E o trânsito passava por ali.

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Cinema

Nas matinês, a gente tinha as séries. Acho que por isso que eu tomei raiva de novela. Porque se você não podia ir na outra semana, você perdia o fio da meada completamente. Tinha as séries de Rocky Lane, Capitão América, faroeste em série, Hopalong Cassidy. Que mais? Que velharia, nossa Senhora! Ataque de velharia que eu tive aqui agora, violento [Risos]. Então era isso, sabe, tinha as séries cinematográficas, aquela coisa. E a gente ficava ali. Eu me lembro que eu era tão magrinho na época que – às vezes não tinha grana – chegava, puxava aquela porta sanfonada do cinema, um botava o pé e puxava assim, e o outro passava [Risos].

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Lembranças da infância

E outra coisa da minha infância é que eu fui ser seminarista em Campo Belo, fui estudar em seminário, fiquei perto de dois anos lá; tanto que eu fui muito influenciado pelos padres crúzios, os padres holandeses que estão até hoje lá… Mas eu não tinha a menor vocação. Comecei a namorar as meninas na cidade e tal. Meu negócio não era esse, realmente. “Mas, celibato? Tchau! [Risos] Um abraço! Castidade jamais!” Mas eu fui influenciado pelos padres, tomei muito vinho deles lá em Santa Tereza [Risos]. Fazia a cabeça para ir pra matinê, aí ajudava a missa, depois chegava lá e biritava o vinho do padre.

FAMÍLIA
Irmão/Márcio Borges

Como tinha muito brejo onde eu morava, o Marcinho, meu irmão, pegou na beirada do rio Arrudas uma bela de uma xistose, que lhe inchou todo… Esquistossomose, né? Porque era muito insalubre.

LAZER
Futebol

Mas tinha o campo do Minas no fim da rua Divinópolis, que era um campo de futebol de terra. Eu joguei futebol até os quase cinqüenta anos; fui sempre um aficionado por futebol. Jogava naqueles times todos de Santa Tereza. Eu era um belo goleador, apesar de minha pequena estatura; fazia muito gol. Ruim de bola, mas goleador. Mas nunca fui craque não.

LOCALIDADES BELO HORIZONTE
Santa Tereza

As regiões de Santa Tereza tinham alguns apelidos: tinha o Baixo Mandiocal e o Alto Mandiocal. O Alto Mandiocal era o society de Santa Teresa, pra cima da praça, o pessoal que morava bem. E nós, coitados, que morávamos para baixo da praça, éramos o Baixo Mandiocal. E ali tinha, na beirada do trem, a casa de prostituição da Baiana, onde eu tive as minhas primeiras experiências sexuais, levado por um ex-secretário de Cultura de Minas Gerais, o Fernando Paz, que na verdade foi colega meu e do Marcinho. Nós fizemos ginásio juntos e chamávamos ele de Fernando Cobrinha, ou Fernando Queixada, que ele é prognata, tem um queixão. Hoje ele disfarçou o queixo com a barba, então com a barba não aparece o queixão do Fernando [Risos]. Desculpa, Fernando! [Risos.]
Mas o Fernando foi o cara que me levou para a primeira aventura amorosa, na cama mesmo, lá na Baiana. Na beirada do rio Arrudas, ao lado da linha do trem. Então Santa Tereza era isso, limitada pelos trilhos da Central e do ribeirão Arrudas. O ribeirão Arrudas já era poluído, não tanto quanto hoje, mas já era poluído. Por exemplo, lá no campo de Minas, a bola caía e não tinha problema, a gente entrava lá e ia buscar a bola [Risos]. “Eu vou perder a bola para a correnteza? Imagina.” Jamais. Outra coisa da infância, um negócio assim bem baixo nível mesmo, mas não tem como não falar, era aquela rivalidade com a turma do Horto, da Floresta. Eu me lembro que uma vez um tal de Satiro, Satirinho – que era uma liderança lá no Horto – foi na barraquinha de Santa Tereza, que tinha no mês de maio e era onde tocavam as músicas de sucesso da época num alto-falante: “Que alguém oferece a alguém como prova de muito amor e carinho…”. Ali ficava o pessoal. “E agora, com Carlos Gonzaga: ‘Diana’. Fulano oferece para a moça de blusa amarela que está sentada no lugar tal. Ou está em pé, passando.” Era aquela coisa, o cara se identificava pela roupa, e também anunciava. E a rapaziada já encarnava.
Bom, esse Satirinho apareceu na barraquinha um dia, com um paletó bonito, sabe, um paletó creme, e na época o pessoal começou a dar rasgadinhas no paletó. Aí começaram a dar chute na bunda do Satirinho. [Risos] Dar cascudo nele. Ele saiu correndo! Eu me lembro que eu fui o cara que pegou o paletó [Risos] e abriu até na nuca o rasgo [Risos]. E eu me lembro também que peguei um ônibus em Santa Tereza, lá na Floresta, e a hora em que eu fui entrando no ônibus tomei um pombo-sem-asa no pé do ouvido, mas com força mesmo. Na hora em que eu olhei pra trás, era um tal de Roninho, que jogava no juvenil do América. Esse Roninho depois foi jogar futebol em Santa Tereza, aí teve a forra. Eu falei: “Olha, eu não esqueci daquele pombo-sem-asa”. “Que é isso, eu?” Eu falei: “É você mesmo. E agora você está no meu domínio, amigo, se segura que tem”. Então tinha essa rivalidade. Ninguém matou ninguém, mas tinha sempre uma porradinha e tal.

Voltar ao topo FORMAÇÃO MUSICAL

Iniciação musical

Quando eu tinha dezoito anos, mamãe tinha a escolinha lá. E quando ela ampliou a escola precisou da casa inteira. Então nós fomos para o Edifício Levy. Mas enquanto a gente ficou ali, eu me lembro, por exemplo, que eu pegava as garrafas vazias e enchia com água. Tinha um murinho baixo na nossa porta, e eu graduava as garrafas vazias, cada uma emitia uma nota musical, “tan, tan, tan”, fazia uma escala. E ali eu ficava na porta tocando as garrafinhas, o povo parava: “Oh, que bonitinho, menino danado, que menino talentoso”. E eu ficava tocando aquilo ali, aquela garrafinha. Então foi assim – fora o violão do tio João, que me ensinou a tocar violão, me deu um cavaquinho e depois um violão – o primeiro contato meu com música.

FAMÍLIA
Irmãos

Na verdade era o seguinte: havia uma diferença de gerações: éramos eu, o Marcinho e a Sandra, os três mais velhos; depois vinham os do meio, que eram a Sônia, a Sheila, o Yé, o Lô; e os mais novos, que eram a Solange, a Sueli, o Nico e o Telo. Então havia uma divisão de gerações. Na verdade eram as três meninas, os dois tentados, eu e Marcinho, os do meio, que eram o Lô e o Yé… Mas isso em Santa Tereza ainda, que depois já pegaram a adolescência do Levy, já pegamos a adolescência dessa meninada, mais os do meio, que eram o Lô, o Yé e os mais novos.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Brincadeiras de criança

Então a gente jogou muito bente-altas na rua. Tinha um tal de Papinha, que era um maluco, mas depois se reformou e hoje é um cabo reformado da polícia. A gente jogava bente-altas e ele fazia bente-altas de bicicleta, no paralelepípedo. Ele jogava para cima, se jogava e caía de costas no paralelepípedo, para fazer um ponto de bente-altas. A gente tinha muito, muito mesmo, a brincadeira do nego fugido — que eu acho que é uma brincadeira que vem lá da época dos escravos: “Nego fugido pego!”. A gente brincava assim: uma turma ia capturar o nego fugido, mas o cara que era nego fugido ia para o outro bairro! [Risos] E saía aquela patrulha pra capturar o nego fugido; ou então você era o nego fugido e ia se esconder o mais longe possível, porque se pegavam o nego fugido, era cascudo, então você não queria ser pego pela turma. Tinha também a brincadeira do pau de bosta, que era maravilhosa! Pau de bosta é o seguinte: você pegava, por exemplo, cocô de cachorro e botava num pedaço de pau. Aí dois companheiros fingiam que estavam brigando. “Eu vou brigar com você!” “Não, que eu vou te dar porrada!” Aquele negócio sério. Aí vinha o bobo, o incauto chegando. “Você briga comigo daqui a pouco, que você está com o pau na mão.” “Não. Eu não, vou tirar. Segura para mim!” Segurava para o cara, e o cara puxava… [Risos] Essa é a brincadeira do pau de bosta. É coisa de infância. A outra brincadeira que tinha demais era assim: de noite, você botava uma linha preta, enchia de detrito uma lata de vinte quilos e pendurava, então ela ficava assim… E o cara vinha com a namorada, todo limpinho, negócio de branquinho, e a hora que esbarrava, descia aquilo tudo nos dois e a meninada caía no cerrado dando risada. Quer dizer, todo mundo achava muito engraçado. Essas eram as brincadeiras da nossa infância.

FAMÍLIA
Mãe

Nossa Senhora, a Maricota sofreu demais com essas coisas; eu e Marcinho pilotando essa sacanagem toda [Risos]. Era uma loucura. Mamãe ficava doida. A gente ficava jogando bola lá em cima, onde a rua Divinópolis fica mais ou menos plana, que é no alto dela, no princípio. E subiam as três irmãs. A Sandra falava [imitando]: “Marilton e Márcio, mamãe está chamando!”. [Risos] E descia correndo, porque desciam os dois atrás para dar porrada [Risos]. A gente ficava puto porque elas vinham chamar a gente para nos cortar. Elas vinham, falavam em coro, acho que até contavam: “Um, dois, três: Marilton e Márcio, mamãe está chamando!”. [Risos] Outra história é que eu estava com o pano de chão na mão e fui jogar na Sandra. A Sandra saiu fora e era a mamãe que estava chegando. Mamãe tomou aquela panada de chão na cara [Risos]. “Oh, menino sem-vergonha, safado, filho-da-mãe.” [Risos] Mamãe batia muito.

FAMÍLIA
Pai

Papai nunca bateu, papai sempre aquela paz; isso que ele é hoje, velhinho aos 88, ele era com 40, com 50, aquela paz. Eu acho que fui muito explosivo na minha juventude, mas quando você vai ficando mais maduro, você vai ficando mais pacato. A diferença é que meu pai foi a vida inteira isso. Eu hoje sou muito meu pai. Eu pareço, as pessoas acham que eu pareço muito com meu pai. No aspecto do temperamento, sabe, bonachão, sempre levando as coisas numa boa. Papai é um autodidata, ele fez até o segundo ano do ginásio, se tanto; acho que não fez o ginásio todo. Mas foi presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais e considerado um dos maiores, um dos melhores editorialistas do Estado de Minas. Ele tem um texto maravilhoso, portentoso. Ele sempre teve esse apego com a língua portuguesa, até hoje a gente vê, porque a gente fala e nem sempre a gente fala certo; a gente comete uns errinhos de concordância e tal, e ele corrige na hora:“Opa, fala direito cara”. Hoje nem tanto, porque hoje ele está com 88 anos, apesar de a inteligência estar a mil, mas ele está mais tropegozinho. Mas absolutamente inteligente. Isso ele não cobra mais não, mas até pouco tempo, ele cobrava; acho que é por isso mesmo, por ter sido um autodidata, por ter sido um cara que lutou tanto.

FAMÍLIA
Tio materno/ Tio João

O tio João ele era e é, até hoje, um bonachão. O cara mais engraçado da família. Ele é muito engraçado. Hoje a gente vê o tio João mais nos enterros, eu vejo ele muito pouco, só quando morre alguém. Quando morreu minha velha, minha vó, por exemplo, minha mãe chegou lá chorando. Ele chegou perto de mim, e falou assim: “Olha, sua mãe está comportada. Eu pensei que ela ia dar muito mais escândalo do que ela está dando”. [Risos] Sabe? Ele, o enterro dos irmãos dele que morreram e tal. Ele com a minha avó… Minha avó dava gargalhada em enterro… Isso aí é tio João fazendo palhaçada. Aquilo é um palhaço mesmo, é um cara engraçadíssimo. Então tio João é isso. É também um cara muito musical, tocava violão bem. E também um grande jogador de dama. Eu me lembro que depois ele jogava botão com a gente. Ele era aquele cara que se transportava à infância e ficava com os sobrinhos como se fosse um menino. Quando ele queria jogar botão com a gente — ele ganhava sempre da gente—, ele dizia [batendo palmas]: “Palmas para o campeão, chegou o campeão!” [Risos] Só para sacanear, né… Dama também. Então um cara assim, muito alegre, muito… E a gente tocava junto. Eu me lembro ele tocando: [Cantarolando] “Criança feliz, feliz a cantar…”, com harmonia, bonitinho e tal, do jeito que é.

FORMAÇÃO MUSICAL
Influências

Minha primeira grande influência musical foi o tio João. Depois foi a Vivina, que era uma prima por parte de pai, formada no conservatório. Comecei a aprender piano com ela, mas não agüentei; eu fiquei ali com ela uns dois, três meses, mas eu não tive saco para as valsinhas e para aquele aprendizado formal de música. Mas essas foram as duas pessoas que me influenciaram, a princípio, com música.

FAMÍLIA
Irmãos

Depois eu virava a influência dos meninos, porque aí com esse negócio de eu gostar muito de música, tocar em garrafinha, tocar violão com o tio João e tal, e dali a pouco veio o Lô. Eu me lembro que o próprio Marcinho – que a gente tinha o quarto dos homens lá – tinha uma malinha pequenininha, onde ele escrevia os textos dele. Então um dia eu falei para o papai. Eu lia escondido os textos do Marcinho, que ele tinha pavor de que alguém pegasse na malinha dele. Xingava. Tinha aquilo, altos segredos, segredo de Estado. E um dia eu falei pro meu pai: “Pai, de vez em quando você dá uma olhada naquela malinha ali, que tem cada coisa boa que você não vai acreditar”. “É mesmo?” Então de uma certa forma a gente começou a incentivar o Marcinho a escrever e a ter o texto bonito que ele tem até hoje.

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Primeiro emprego

Eu comecei trabalhar muito novo. Com catorze anos eu era contínuo da Belgo-Mineira; era o nome que se dava para office-boy na época. Eu servia café na Belgo-Mineira e tal. Quer dizer, pras pessoas formais isso era um empregão; pra mim isso e merda era a mesma coisa [Risos]. Sabe, não me ligava nisso não. Outro dia até me emocionei, que eu estou vendo se consigo me aposentar e fui pegar um documento na Belgo-Mineira, e tem lá: aprendiz. Aquela carinha de fuinha, que eu era muito magrinho. A cara de fuinha é aquela cara de menino bobo. Eu estava com quinze, catorze anos.

TRABALHO
Atividades profissionais

Depois trabalhei com o Marcinho; nós fomos estafetas dos Correios, entregávamos os telegramas. Tinha aquele uniforme… E com aquelas brigas de Santa Tereza, passava um aperto danado, porque você tinha que passar em território inimigo pra entregar os telegramas, de uniforme e tudo… [Risos] Os caras, além da gozeira, queriam te pegar de porrada [Risos]. Era duro. Então tinha que entregar telegrama na Floresta, no Horto, puxa, era uma loucura, porque Santa Tereza, Floresta e Horto eram grandes rivais.

FORMAÇÃO MUSICAL
Aprimoramento

Sempre gostei de música, mas eu nunca tive um aprendizado formal de violão não. Tanto que eu afinava o violão com a afinação do cavaquinho. E dava dois bordões em cima. As quatro cordas debaixo do violão eu afinava com a afinação do cavaquinho. E eu tocava do meu jeito o violão. Depois virou moda algumas pessoas que tocam violão, os compositores de hoje, o próprio Lô, cada um tem uma afinação diferente para tocar certa música. Às vezes os caras botam em cima do palco trezentos violões, cada um com uma afinação diferente, pra adquirir a sonoridade que se quer. O Bituca é um dos poucos caras que usam uma afinação só; mas o Bituca e o Toninho Horta são ases da corda solta, que é um negócio que pouca gente se liga. É a corda solta no violão. Ela dá uma sonoridade… Conjugada com uma, duas ou três apertadas, dá uma sonoridade absolutamente diferente, a corda solta. Mas não conheço ninguém como o Bituca e o Toninho Horta para fazer isso. Aquela coisa da corda solta, sabe. Eles fazem isso muito bem. Sem alterar uma nota do violão.

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“Bituca”(Milton Nascimento)

Então mudamos pro Levy, e eu começava a tocar muito nas escadarias de lá. Eu, mudando daquela cidade do interior pro centro da cidade, pujante… Naquela época era chique você morar no centro de Belo Horizonte, não é essa degradação que está hoje. Nos anos 70, era chique morar no centro. As famílias de classe média mais abastada moravam ou em Lourdes ou no centro ou Funcionários. Tanto que, hoje, a regional da prefeitura que trata das coisas, trata regional centro—sul, até hoje. Por quê? Porque o centro era agregado à zona Sul. Saindo do bairro, eu descobri que não tem acústica melhor do que a escadaria de prédio para você tocar alguma coisa. Tocar um violão principalmente. Então um dia eu estou tocando um violão na escada e respondeu outro violão — nós morávamos no 17° andar — lá embaixo. Eu falei: “Uai”. Aí eu fui descendo. Encontrei com um pretinho magrelo, esquisito, feio para danar [Risos]. Bituca. Foi assim que eu e Bituca nos conhecemos. Aí foi aquela aproximação mágica, através da música. Começamos então a tocar: “Você conhece essa aqui, você conhece essa aqui?”. “Não, mas esse violão seu está muito desafinado.” Ele tocava o violão todo desafinado, sabe? “Não, essa nota não está boa não.” Começamos a trocar idéia e eu disse: “Deixa eu afinar esse violão para você, dá aqui”. E começamos a tocar sucessos. Tinha umas músicas italianas, do Nico Fidenco, que o Bituca fazia de uma forma maravilhosa: [Cantarolando] “Te voglio ato lá, lá, lá, rá, rá…legato a un granello de sabria… O Bituca fazia isso com uma perfeição fantástica.
E o Bituca, vindo de Três Pontas, já tinha uma experiência profissional, porque lá ele fazia baile com os W’s Boys. Ele não gosta que fale, mas o Bituca é mais velho que eu um ano. Ele fala que eu sou o mais velho dos Borges; o mais velho dos Borges é ele! Um ano e fumacinha… Ele fala: “O mais velho é o Marilton”. Mas eu não passo aquela graxa de sapato que ele passa na cabeça [Risos]. Por isso que a minha está branca e a dele não! [Risos.] Brincadeira, né, Bituca… Mas então, na época que eu conheci o Bituca eu tive essa impressão: “Epa, estou conhecendo um gênio, bicho. Esse cara canta para caramba e toca para caramba”. Ele já com essa coisa das cordas soltas que eu estou falando. Isso é uma coisa que não tem como você plagiar ou copiar, não tem como. É ele, o Toninho e fim. Depois vem o Pat Metheny, vem esses caras que tentam dar aquele chupão, mas não é a mesma coisa. O cara é bom, o Pat Metheny é genial, é ótimo; mas o Toninho é o Toninho, né [Risos]. Sem ser bairrista, sendo bairrista para caramba [Risos]. Então é isso. Aí eu falei com o Bituca: “Bituca, deixa eu falar um negócio pra você”, isso aí depois de um mês e tal… Eu falei: “Em casa tem uma galera lá que gosta de música”. Nós fomos. O Bituca, que comia a comida da pensão da Benvinda, que era horrorosa, e também morava nessa pensão, começou a filar bóia lá em casa. Ele morava no quarto andar, mas ficava no 17º. Tinha também o Marcelo Ferrari, que até era um outro cara que tocava violão, gostava muito, e também morava no Levy. A gente começou a tocar junto e tal. Pra almoçar era hora na casa do Marcelo, outra hora lá em casa. Aí ele já conheceu o Marcinho.

PESSOAS
Wagner Tiso/Gileno Tiso

O Wagner chegou um pouco depois. Quando ele chegou, falaram: “Olha, está chegando o Wagner aí…”, que era primo de um pessoal que morava lá, que são o Joãozinho do Sax e o Gileno Tiso Veiga, irmão do Wagner. O Gileno já tocava em conjuntos de baile; ele é dentista e um grande pianista. Grande tudo, que toca trompete também muito bem, contrabaixo…ele é danado.

Primeira apresentação
Aí o Bituca foi contratado por uma banda chamada Conjunto Holiday, para fazer uma hora dançante ali no Banco Mineiro da Produção, que ficava na praça Sete, , e me levou com ele. Ele falou: “Marilton, vou falar para você dar uma canja lá e cantar”. Eu falei: “Canja? O que é isso?”. “Não, você canta uma…” Eu quase morri de vergonha, minha bunda quase caiu no chão de vergonha. Falei: “Meu Deus do céu, vou cantar para esse povo todo me vendo? Que é isso Bituca!”. Então eu senti o primeiro gosto de um palco através do Bituca.

Profissionalização
Por influência do Bituca também, a gente começou a freqüentar os ambientes musicais de Belo Horizonte. Tinha a Churrascaria Palácio, onde o Hélvius Vilela, o Aécio Flávio, Valtinho, grandes feras de Belo Horizonte tocavam. Então a gente ia para lá ver e tal. Um dia o Nazário Cordeiro, que tocava na Churrascaria Palácio também, não pôde ir e falou: “Marilton, me substitui”. Eu quase morri de vergonha. Falei: “Mas substituir você?”. Ele falou: “Ah, pega um violão seu, me substitui aí”. Eu não tinha repertório, não tinha nada. Nessa altura o Bituca já estava fazendo os bailes com essa banda, o Conjunto Holiday. Aí tinha a turma do conjunto Lancaster… olha para você ver, Conjunto Lancaster… Lancaster era um desodorante, ou um perfume que tinha na época, e a gente falava que era o conjunto mais cheiroso de Belo Horizonte. [Risos] Aí esse pessoal do Lancaster estava lá e me chamou: “Ah, você não quer cantar com a gente, não?”. E começou a minha carreira musical, a profissional. Eu fui ganhar o meu primeiro dinheirinho.
Ao mesmo tempo, a gente estava fazendo um quarteto musical, chamado Quarteto Evolussamba, que era o Wagner, o Bituca, o Marcelo e eu. Fizemos o Quarteto Evolussamba, em cima daquela onda d’Os Cariocas. Meu primeiro salário eu bebi todo, certamente. Bebia muito… [Risos]. Meu pai nunca precisou de mim, graças a Deus, então certamente eu bebi tudo ou comprei roupa. Não tem outra, porque eu não tinha um passarinho para tratar, né [Risos]. A gente fez poucas apresentações na televisão com o Quarteto Evolussamba, mas era um negócio muito bom. O Wagner já tinha a idéia de ir embora, o Bituca também, de sair fora de Belo Horizonte e tal. E eu pensei em sair, eu tentei até sair também, sabe, mas eu tenho uma ligação muito forte com Belo Horizonte, com Santa Teresa em especial. Ou seja, eu tentei morar no Rio, morei algumas vezes, até me dei bem profissionalmente, mas meu negócio é aqui, essa fazenda iluminada aqui mesmo.

Instrumentos
Eu só cantava. E o piano, porque hoje eu trabalho como tecladista, fui tocar muitos anos depois, no fim dos anos 70. Porque tinha o piano da Maricota, e eu tocava mais ou menos em casa. Um dia o pianista da banda que eu trabalhava não foi, e eu estava de olho naquele couvert [Risos], precisava daquele couvert. Ele não foi e não tinha ninguém. Com a casa lotada, o dono da casa falou pra mim, que era o crooner da banda: “Marilton, eu já vi você brincando aí no piano. Senta aí, engana aí… Manda aí, eu preciso de música na casa”. Eu sentei — isso são os anos 70, são trinta e tantos anos — sentei e não levantei mais do piano.
Com o violão eu não investi. Mas esse negócio de tocar com a mão fechada que o Bituca tem, eu tinha também.

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Supletivo

Houve um momento em que eu e o Wagner ficamos na dúvida se a gente ia conseguir alguma coisa com a música mesmo ou não. Nós não tocamos muito na noite juntos, a nossa experiência juntos foi só no Evolussamba, mas continuamos muito amigos, somos amigos até hoje. Então ele falou: “Vamos estudar?”. Tinha um curso chamado Curso Mário de Oliveira, na rua Tamoios, no centro de Belo Horizonte. E nós fomos para o Curso Mário de Oliveira pra fazer, na época, o madureza, que hoje é supletivo. Fomos fazer o madureza de científico, ou clássico, sei lá. E eu e o Wagner fomos juntos, nos matriculamos juntos. Só que a gente ficava dormindo no colo, porque a gente tocava na noite e a aula era de manhã, ficava aquelas duas marmotas dormindo um no colo do outro. “Vocês dois aí no fundo.” “Oi!” [Risos] “Sim, senhor…” À tarde eram os ensaios, então não prosperou; a gente ficou lá uns dois ou três meses e desistimos do madureza do Mário de Oliveira.

Ensaios
Nossos ensaios eram basicamente nas casas; os vizinhos reclamavam muito. Ensaiava-se muito vocal, mais que os instrumentos; em geral você ia pro palco lá na hora de tocar. Usava-se muito pouco ensaio. Ensaiava mais a harmonia, acompanhamento da música, etc. e tal. Os bateristas não participavam. Mas às vezes a gente fazia bateria e tudo na casa da gente mesmo e era a maior loucura, aquela zoada que às vezes ficava doido. Mas era assim, em casa mesmo, que a gente ensaiava. Nossa Senhora! Os vizinhos do Prédio Levy morriam de ódio, porque era aquela zoada o tempo todo. Se bem que a gente morava no último andar também. Tinha umas festas lá que eles davam também… Eu acho que a coisa era mais educada naquela época, as pessoas tinham uma convivência melhor, as pessoas permitiam mais: “Vamos deixar os fulanos ensaiar aí, na hora que eu quiser dar a minha festa aqui na minha casa também ele vai ter que segurar a onda”. E é o que a gente fazia. Não tinha muito grilo. Depois, quando a gente começou a tocar nos bares, a gente começou a ensaiar nos próprios bares.

PESSOAS
Nelson Ned

O quarto dos homens… tem uma história interessante do quarto dos homens. Eu namorava uma moça chamada Eliane, lá em Santa Teresa. Fui, num belo domingo, na casa da Eliane, e passei o dia lá com o pessoal dela. Conheci um primo dela, que tinha problema de nanismo, era desse tamanhinho. É o Nelson Ned: “Olha o Nelsinho, meu primo, você conhece o Nelsinho?” – mamãe morria de medo de eu casar com a Eliane, e meus filhos ficarem iguais ao Nelsinho [Risos]. Aí o Nelsinho falou: “Viu, eu estou tocando violão e tal…” e cantou comigo. Eu falei: “E lá em casa nós somos onze e todo mundo toca violão e canta, é uma farra danada”. “Eu quero conhecer seus irmãos todos.” Eu falei: “Uai, vamos sim”. “Mas é hoje que eu quero.” Eu falei: “Não, hoje não dá, hoje é domingo já; são nove horas da noite. Eu estou indo embora para casa”. “Não, eu durmo lá!” Ele é muito saído. Eu falei: “Então, se o seu pai deixar, se sua mãe deixar.” Ele é um pouco mais novo que eu, o Nelson Ned, pouca coisa, eu estou com 60, ele deve ter uns cinqüenta e poucos agora. É isso mesmo. Mas naquela época era muita diferença, eu já era um rapaz, e ele era um menino. Eles deixaram: “Não, pode ir. Para sua casa pode ir, uai”. Então lá vou eu, o Nelsinho comigo, lá vamos nós [Risos]. Maldade… [Risos.] Chegamos em casa, todo mundo dormindo, porque se dormia cedo naquela época, onze horas e todo mundo dormindo. Eu levei o Nelsinho para o quarto dos homem. O Lô, os meninos, o Yé, sabe… Tinha o quarto dos homens, e tinha dois beliches, Lô, Yé, Marcinho e eu, com o pessoal mais velho dormindo embaixo, pros meninos dormir em cima, porque a gente chegava bochechado de noite. Como é que a gente ia subir para cima do beliche? Ia cair em cima dos outros. Então, na parte de baixo, eu num, Marcinho no outro; em cima, Lô num canto, Yé no outro. O Nico e o Telo já dormiam no quarto das crianças, que era um outro quarto colocado pros menores. Bom, os meninos dormindo, e eu cheguei na cama, o Nelsinho tipo valete de copas, um para cima, outro para baixo. Nelsinho lá e eu aqui. Ele de cueca, deitamos. [Sussurrando] Tudo escuro, fecha o pano. Abre o pano no outro dia, papai chamando os meninos para ir para a aula [Risos]. Ele abre a porta. A hora que ele olhou, voltou o Salomão para trás. Chegou lá: “Maria, o Marilton teve um trem feio essa noite”. [Risos] “Tem um trem feio lá que eu não sei o que é. Ele teve um parto esquisito.” [Risos] Mamãe falou: “Eu não sabia nem que ele estava grávido!” [Risos] Aí foi aquela farra.
E depois eu fui revê-lo – eu nunca mais vi o Nelson Ned – já com nome, cara de sucesso. Eu tocando na noite do Rio de Janeiro, lá pros anos 78, 79, e entra o Nelson Ned com segurança, todo aquele aparato de grande estrela internacional etc. e tal. Ele ficou lá na mesa dele, cheio de puxa-saco, e eu estava tocando piano na noite, com minha banda. De repente, cheguei perto dele: “Você sabe que já dormiu na minha cama?”. “Que é isso? Eu não sou veado não, rapaz! Que que há rapaz? Você está pensando o quê?”. Eu falei: “Eu sou aquele lá de Belo Horizonte, que era namorado da Eliane; você foi lá para casa… Borges, Marilton”. Ele começou a chorar copiosamente. Mas começou a chorar, me abraçou, chorou, chorou, chorou…, então qualquer coisa que remetesse à infância dele batia forte. Aí fomos eu com o Nelsinho de novo, de mão dada; botei no banquinho, cantou a noite inteira comigo lá. Foi a maior farra isso. Já grande estrela. Cantou aquelas coisas todas, queria que eu fosse para a banda dele. Agradeci e falei: “Nelsinho, não é bem minha onda não”. Foram um barato essas duas passagens minhas com Nelson Ned.

Marku Ribas
O Marku Ribas foi tocar numa cidade do interior, interiorzão bravo mesmo. Chegou lá e mandou uma tora desse tamanho… [risos] Chegou doidão e falou assim: “Você tem JazzChorus aí?” – JazzChorus é aquele aparelho para guitarra, e para você achar um JazzChorus num interior é bravo… O cara do som tinha. “Tem.” [Imitando sotaque carioca]: “Me dá doix [Risos], meu violão é extéreo.” [Risos] Ele queria apertar o cara. “Dois eu não tenho não, bicho…” O músico, quando fica doidão e quer subir no banquinho, sobe mesmo. Isso é uma coisa engraçada. Mas eu não preciso ficar doidão não, isso é um troço que eu tenho comprovado ao longo desta minha vida. Porque na verdade, apesar de não ter gravado, eu ganhei um festival internacional com a Maria Alcina cantando “Fio Maravilha”, eu estava com ela no palco. A gente transitou nas paradas de sucesso, nos lugares de sucesso. E o que eu fico às vezes triste é que o sucesso balança as pessoas. O sujeito perde o jeito de ser, perde a essência. Ele fica tão cercado por uma entourage, por puxa-sacos, que em vez de ser ele mesmo ele vira uma entidade, vira uma outra coisa. É triste isso, porque é bacana o sucesso de um amigo, um cidadão que você viu começando, você ver virar uma grande estrela. Isso é bacana, a gente fica orgulhoso.
O Bituca, quando ganhou o Festival Internacional da Canção com “Travessia”, não ganhou; ele tirou segundo lugar com “Travessia”. Quando eu vi a capa da Manchete, que era uma revista de sucesso na época, com o Bituca e a Kim Novack, nossa…! Eu e Bituca falávamos babando da Kim Novack e, de repente, ele está na capa de uma revista com ela; quer dizer, não era o Bituca que estava na capa, era eu! Você entende? O Bituca, apesar da entourage, mantém esses valores. E não é porque é o Bituca e porque é meu amigo não, ele mantém isso. A gente tem muito pouco contato, a gente se vê muito pouco, mas sempre que a gente se vê é uma festa, é uma grande festa. Mas tem alguns amigos nossos que ficam preocupados com o próprio umbigo; eles se acham o centro do Universo, mas não são. São aquele mesmo substrato de merda que nós todos somos no Universo, aquela mesma coisinha, só que conseguiram um brilho. Tem alguns companheiros nossos que não sabem disso. Na brincadeira, essa história do Marcos Ribas é um pouco isso, sabe. O sujeito chega no interior [imitando sotaque carioca]: “Oh, me dá doix”. Quer dizer, dois o quê, bicho? Dois JazzChorus? Se tiver um, bota a mão pro céu!


Canto

Modéstia à parte, eu cantava muito bem. Hoje eu não canto mais porque o cigarro devastou minha voz. O negócio de mexer em rádio também, você começa a puxar… Porque a gente já tem a voz meio aguda e no rádio eu comecei a puxar minha voz pro grave. Foi o erro. De repente, você vai acabando com os seus agudos. A extensão vocal diminui; com a idade também ela diminui. Hoje, o Lô canta um tom e meio abaixo, o Bituca também canta alguns tons abaixo. Mas é normal, com a idade a sua extensão vai diminuindo.

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Festivais de Belo Horizonte

Mas então eu ganhei um festival em Belo Horizonte. Inclusive tinha a Lady Francisco, que foi uma grande atriz e na época ela era apresentadora da TV Vila Rica, hoje TV Bandeirantes. E o festival teve o Lô e o Beto cantando “Equatorial”. Eu cantei com o Wagner “Como Vai, Minha Aldeia”, do Tavinho. Eu perdi de melhor intérprete por pouquinho pro Eduardo Conde, aquele ator da Globo, que é um grande cantor. Perdi por pouco, foi pau a pau com ele como melhor intérprete, mas ele ganhou. E eu cantei muito bem com o Wagner “Como Vai, Minha Aldeia”. E cantei o que mais? Cantei “Clube da Esquina 1”. Eu fui a primeira pessoa que cantou ela em algum lugar, porque a música ainda não tinha sido gravada pelo Bituca ainda… olha que coisa, como é que eu fui lembrar disso aqui agora? Nem lembrava mais. Fui o primeiro cara a cantar “Clube da Esquina 1” para o público. Esses festivais eram um negócio sério. “Vera Cruz”, por exemplo, que é do Bituca e do Marcinho, essa música primorosa, linda, que já foi gravada por “n” bandas do mundo inteiro, tomou pau aqui num festival em Belo Horizonte com um samba de quinta categoria do Jota Dangelo. Quinta categoria! O Jota, que é meu amigo, que me perdoe, mas, sabe…
Belo Horizonte tem umas coisas que você não entende. Os festivais tinham aquelas coisas “Chama aquela dona Fulaninha, dona Chiquinha não sei de quanta, que é vizinha da prima da mulher do secretário de Estado”. A outra: “Chama a dona Fulana que deu aula no século retrasado” – nem foi no passado, porque no passado nós todos estávamos – “…ela deu aula para não sei quem”. São júris absolutamente desqualificados; eu acho que a coisa tem que ser mais técnica. Mas sempre gostei dos festivais, sempre achei que tiveram a maior importância para mostrar gente nova, gente que aparecia. Tanto que apareceu essa safra toda, como Chico Buarque… essa turma toda veio em cima de festival. O Bituca também. Mas tinha esse lado negativo, que era essa distorção da qualidade das coisas através de júris absolutamente suspeitos. Na verdade, os festivais eram uma grande confraternização, não era uma concorrência. A concorrência era para quem estivesse vendo lá, porque no fim era aquela cachaçada danada. Todo mundo ia para um restaurante, tomava todas e todo mundo se abraçava, todo mundo se beijava, todo mundo… Não existia essa coisa de competir. Era uma grande mostra. E quando a Lady Francisco foi apresentar os ganhadores, ela disse: “E agora, a terceira concorrente da noite…” – e em vez de falar “Equatorial”, ela leu mal – “Equatoril! De Lu Borges e Bete Guedes!”. Ela pisou no nome da música e dos intérpretes. E dos compositores! Não acertou nada… [Risos] Ah, correge a prenúncia, minha filha, pelo amor de Deus! [Risos] Dá seu jeito!
A recepção pelo público da música “Clube da Esquina 1” foi legal, algumas pessoas gostaram muito. Na verdade, esses festivais de Belo Horizonte tinham um diferencial dos grandes festivais de Rio e de São Paulo, porque lá tinha aquelas torcidas mais profissionalizadas. Aqui não tinha muita. “Vamos vaiar fulano porque ele é forte etc. e tal; a música dele é boa…” Aqui não tinha muito disso não, sabe. Tinha as torcidas das músicas, mas todo mundo aplaudia todo mundo. Eu não me lembro de ter sido vaiado. Desses poucos festivais que eu participei, eu não me lembro de ter sido vaiado.

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Number One

No Rio, eu participei de festival, porque eu trabalhava na noite lá e aí você vê como é que são as coisas dos festivais. Eu cantava numa casa chamada Number One, que tinha no Rio de Janeiro, na rua Maria Quitéria, perto da praia, em Ipanema; nós tínhamos o Quarteto Forma, que acompanhava o Osmar Milito, um grande pianista da noite do Rio de Janeiro. E a gente fazia backing vocal pra Maria Alcina, que fazia o show noturno da casa. Foi lá também que, por exemplo, o Sérgio Mendes viu o Paulinho da Costa tocando conosco.

Paulinho da Costa
O Paulinho da Costa tocava lá, um grande percussionista. Eu levava ele em casa, depois ele chegava: “Mineiro, como é que é? O homem me chamou para ir embora para os Estados Unidos”. E a mulher dele magrelinha… barrigudinha por causa da gravidez… eu me lembro disso. Ele falou: “Estou com a mulher grávida”. Falei: “Deixa com a sua mãe, deixa com a sua avó, deixa com a sua tia. Isso é a oportunidade da sua vida, cara, vai embora. Vai embora”. Hoje, o Paulinho da Costa é um dos maiores percussionistas do mundo. Grava aí com Madonna, com Michael Jackson. Nunca mais voltou para o Brasil. E hoje, certamente, se passar por mim, não vai me conhecer, que isso que eu estou falando tem 30 anos. Mas era um cara que trabalhava conosco nessa época, fez o festival com Maria Alcina também, no “Fio Maravilha”.

LOCALIDADES RIO DE JANEIRO
Number One

Freqüentavam o Number One todos os grandes nomes da cúpula da Rede Globo. Boni, Daniel Filho, os caras de crachá. Dizem que é a turma do crachá dourado, ou cinza, não sei. Tem um crachá lá que é assim: só pra pica-grossa, você está entendendo? [Risos] E essa turma freqüentava o Number One. Outro que freqüentava o Number One também é o Jorge Ben. Hoje, Jorge Ben Jor, segundo os numerologistas [Risos]. O Jorge Ben freqüentava. Ele e a turma do Trio Mocotó. O Nereu freqüentava a casa; ele tinha aquele negócio – que depois eu trouxe pra noite –, cantava: [Cantarolando] “Lá no Japão, os chinas comem sentados no chão/Mas quem…
…”. Aí ele falava: “Toco cru pegando fogo, o toco é meu”.Esse Nereu era uma figuraça da noite do Rio. Aí ele falava: “Tou com o cru pegando fogo, o toco é meu”.Esse Nereu era uma figuraça da noite do Rio.
Então o Jorge Ben falou: “Eu estou com uma música, rapaz”, falando do Fio. O Fio era um grande centroavante do Flamengo, que fazia gol de tudo quanto é jeito. Hoje é entregador de pizza nos Estados Unidos. O Fio era um grande ídolo do Flamengo. E o Jorge Ben, flamenguista roxo, falou: “Eu fiz uma música para o Fio”, e mostrou pra gente. Mostrou lá na noite. O Boni [imitando]: “Inscreve que isso ganha festival” – com aquele sotaque paulista pesado. Resultado: “Faz com o pessoal aqui da boate mesmo que vocês já estão acostumados”. Não deu outra: chamaram o maestro Severino Filho pra dar um brilho no arranjo, que era o maestro d’Os Cariocas, e fomos lá. Fase nacional, uma fase nacional! Fomos pra parte internacional e ganhamos a parte internacional, com a Maria Alcina.

FESTIVAIS
Festival Rio de Janeiro

Eu tenho um amigo meu que jogou no Flamengo e falou assim: “Marilton, você não sabe o que é que é um Maracanã urrando para cima de você”. Eu falei: “Eu sei o que é que é um Maracanãzinho”. Bandeira rubro-negra de cabo a rabo. A hora em que a Maria Alcina entrava [imitando o vozeirão da cantora]: “Fio Maravilha… aquele negócio, aquela loucura, sabe. Você vê como é que são as coisas de festival onde tem Rede Globo no meio. O Boni, que tinha sugerido à gente, que era o big boss, correndo na coxia e o pessoal: “Mais um!”, querendo que repetisse, porque não podia, era um festival, pô! Tocou uma vez. E ele [imitando sotaque paulistano]: “Pode repetir que eu garanto, eu mando nesta porra aqui!”. E a gente repetiu duas, três vezes o “Fio Maravilha” na fase nacional. Teve bis. A única música em festival que teve bis, que era a música que o Boni estava torcendo. E eu tive, segundo McLuhan, meus quinze segundos de celebridade. Assinei autógrafo na praia de Ipanema e o cacete, porque durante uma semana eu fui rei da praia de Ipanema… [Risos] Essa foi a última vez que participei de um festival, porque pouco deu. Isso foi em 69 ou 70, por aí. Mas eu saí na revista. Quando a Maria Alcina ganhou o festival, nós saímos em capa de revista de circulação nacional etc. e tal, e foi uma loucura. Mas são boas lembranças. Ficou este ensinamento: festival, se o cara não for escorado em um, a chance é mínima. Tem a escora ou da gravadora ou da emissora. Não vá achando que pelos seu belos olhos você vai ganhar festival, porque não vai não, xará, não vai mesmo! [Risos] Pode ser muito bom, muito talentoso, ter muito boa música, mas não vai.

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Origem do clube

Essa questão do Clube da Esquina, que todo mundo sabe, era uma coisa meio pejorativa, que minha mãe falava, porque o pessoal ficava sem fazer nada, sentado naquela calçada, mandando ver, lá em Santa Teresa. Ficava ali o dia inteiro tocando violão, aquela pasmaceira, aquela coisa. O telefone tocava: “Cadê Lô?”. Eu confesso que freqüentava um pouco, aquela questão da geração mesmo, já era mais velho. Bituca aparecia às vezes, porque Bituca já morava no Rio, em São Paulo. Vinha, às vezes passava temporadas aqui. Mas ficava mais era o Lô; Beto vinha, porque tinha ficado amigo dele lá no centro da cidade. Mas ficava mais era o Lô e a roda dele de Santa Tereza; os caras vinham tocar violão. O João Luis, meu cunhado, casou com a Sheila, minha irmã, depois. Então ficava aquela coisa . O telefone tocava: “Cadê o Lô, cadê o fulano, cadê o Yé?”. Mamãe: “Estão lá no clube; no Clube da Esquina!”. Mas assim, de uma forma pejorativa. Me lembro do Lô muito tímido, mostrando a primeira parte da música pro Bituca. Aí o Bituca: “Vamos fazer uma segunda parte?”, que foi aquela: [Cantarolando] “Tá, ra, ra, ru, re, ra…”.
Pouco depois, Tavinho chegou com o “Como vai minha aldeia”. E depois tem esse festival do canal 7, a Vila Rica que a gente vai e participa com a música, antes mesmo de virar um disco. Então eu me lembro disso aí, desses primeiros associados do Clube da Esquina: Marcinho, Bituca, Lô… Quer dizer, o Clube da Esquina inicial era: Marcinho, Bituca, Lô, um pouco de Beto, um pouco de Fernando. Esses foram os mais atuantes, os mais firmes, pelo menos na música e nesse primeiro disco, que foi o Clube da Esquina 1.

DISCOS
“Clube da Esquina”

Da gravação do Clube da Esquina 1 eu lembro pouco, porque, na verdade, a minha turma era outra. Eu não era da mesma turma. Tinha essa turma do Lô, do Bituca e tal… Quando o Bituca ficou amigo de Marcinho, eles ficaram mais em uma outra turma.

FAMÍLIA
Irmãos

A minha turma era o Hélvius Vilela, o Nivaldo Ornellas, aquela turma que já tocava profissionalmente. Inclusive é um troço que eu queria registrar, um negócio que eu senti muito: quando o Lô e o Beto, meninos ainda, foram fazer um show no Teatro Fonte da Saudade, por exemplo — foi o primeiro show deles juntos — Bituca apresentando Toninho, Lô e Beto –, eu fui, mas como um irmão mais velho, eu não participava… Ou eu morava no Rio, não sei. Eu não sei se eu já morava no Rio. E eu fui lá ver o ensaio. Eu senti os músicos já mais profissionais, o Luis Alves, o Robertinho Silva, Wagner, um certo ar de superioridade em relação aos meninos que estavam chegando. Aqueles meninos, sabe. Como quem diz assim: “Quem são esses meninos? Que que há…” E eu me lembro que eu fiquei muito revoltado com isso, porque eu acho que os caras mais velhos tinham que dar um: “Aí rapaziada, vamos lá”, sabe? Depois não, ficou todo mundo numa boa, mas nesse primeiro momento eu senti isso, esse certo preconceito dos caras profissionais contra os não-profissionais.

Paulinho Braga
E outro dia, por exemplo, eu estava vendo o Kiko Continentino – que é um talentosíssimo músico da nova geração, toca na banda do Bituca e escreve muito bem – fazendo um ensaio sobre o Milton Nascimento. Ele me mandou esse ensaio por e-mail, e um depoimento do Paulinho Braga que fala assim: “Pois é, quando eu conheci o Milton, ele estava tocando violão; ele e uns caras que não me lembro mais”. Um dos caras era eu. Paulinho lembra sim, só que Paulinho tem mágoa porque ele gostava de tocar muito livre, e quando ele foi tocar comigo, em algumas festas que eu peguei aqui em Belo Horizonte, ele teve que tocar. E ele nunca me perdoou por ter feito ele tocar mais quadradinho, sabe. Mais tarde, a hora em que ele foi tocar com o Tom Jobim, teve que tocar quadradinho também, senão o Tom Jobim expulsava ele da banda. Não sei se foi mágoa ou senilidade – pode ser também, Paulinho está velho, às vezes é um ataque de senilidade, não sei. O Paulinho falou: “O Bituca e uns caras aí”. Um dos caras era eu, que não tenho a menor importância, mas eu acho que ele tinha que ter a elegância de falar que eu estava no meio. Eu sou meio danado também, eu gosto de bater, de vez em quando eu bato. Não bato muito não, mas bato.

FAMÍLIA
Irmão/Lô Borges

Olha, eu não tenho essa certeza de que o meu envolvimento com a música acabou influenciando o resto da família. O Lô diz que sim. O Lô, em todos os depoimentos, diz que se influenciou vendo eu e Bituca tocando juntos, porque a gente tocava de uma forma amadora, não era forma profissional. Eu e o Bituca nunca tivemos uma relação profissional. Sempre foi uma relação de amizade. Tocando, etc. e tal. Eu acho que talvez tenha influenciado nesse aspecto de ouvir coisa boa, porque eu sempre gostei de ouvir coisa boa… Eu e o Bituca ouvíamos muita bossa nova, muita música italiana de qualidade. A gente ouvia muito standard americano, e os meninos trançando ali, pegando o violão, aquela coisa da geração, que hoje já está pra mais ou menos a mesma coisa. O Lô está com 50, eu com 60 anos. Mas quando você tem 30 e o cara está com 20, você já é um homem e o cara está saindo da adolescência. Isso dá diferença.

Preferências musicais
Eu tinha muita resistência aos Beatles no princípio. Eu fui gostar de Beatles muito mais tarde; hoje eu gosto de Beatles. Mas no primeiro momento eu não gostei. A partir daqueles discos em que eles começaram a elaborar melhor os arranjos, em que as harmonias começaram a ficar mais elaboradas, é que eu comecei a gostar dos Beatles, mas isso lá na frente. Por exemplo “I want to hold your hand”: eu não gosto. Iê-iê-iê eu não gostava não. Eu associava muito com esse iê-iê-iê de Roberto Carlos, que era uma outra turma também. Hoje, por exemplo, eu sou apaixonado por Roberto Carlos. Pra você ver como é que são as coisas. Eu tinha pavor na época. Hoje, o Roberto Carlos me leva às lágrimas falando da mulher dele que morreu e tal, eu fico emocionado. Eu acho que na vida, a gente vai amadurecendo; a gente não piora, a gente refina o “sensiômetro” da gente. A forma de sentir as coisas fica mais refinada. Mas eu não gostava, era radical. Não gostava, mas os meninos curtiam. Tivemos até o The Beavers, que foi um amigo meu, o Isaías Lansky, que tinha um programa de televisão infantil, e botou os meninos lá. Era o Márcio, o Mará – que era meio empresário –, tinha o irmão do Gilberto, o Gonçalo Abreu – que foi vereador aqui em Belo Horizonte –, o Lô e o Beto. Eles tinham o The Beavers, que era muito interessante, muito gracioso, em cima dos Beatles. Eu não gostava de Beatles, mas tem hora que a burrice pára, porque não gostar de Beatles é burrice. Aí, de repente, eu comecei: “Espera aí, epa, epa”. Passei a ouvir com mais atenção o Paul McCartney, que hoje é uma das minhas devoções. Essa música nova do Paul McCartney eu fico igual tiete, querendo saber: “Como é que é? Mas que legal, esse cara é danado”. Mas não foi sempre assim. Eu tive essa resistência aos Beatles, eu tinha muita resistência à guitarra. De repente, hoje eu tenho um filho guitarrista. E por quê? Porque eu incentivei a tocar guitarra. Quando ele nasceu eu já tinha parado com esse preconceito bobo contra guitarra, contra rock.

DISCOS
“Clube da Esquina”

Eu não participei da gravação do disco “Clube da Esquina”. Eu, na época, tinha um preconceito muito forte, muito forte mesmo, contra esse negócio de droga. Hoje até que não, mas na época eu tinha um preconceito muito grande. Eu achava que era um costume meio degradante. Hoje eu não tenho; eu continuo não fumando maconha, mas eu não tenho nada contra quem fuma. Mas naquela época era um costume disseminado entre os músicos, e eu saía fora. “Ah, esse povo é maconheiro. Eu não vou mexer com isso não. Eu gosto é de uísque, não vou mexer com esses maconheiros não.” Então minha turma era outra. Os meus costumes eram outros. E isso, de uma certa forma, fez com que eu fosse pra outro caminho. Será que eu fui prejudicado ou não? Não sei, eu não sei. Eu levo uma vida boa, eu tenho uma vida boa. Não fiquei famoso como eles, mas também não deixo de ter meu reconhecimento, ser respeitado no meio. Eu achei meu caminho. Mas na época: “Ah, não mexe com o Marilton não, o Marilton é careta. O Marilton é muito careta. Não mexe com esse não. Esse é um caretão, esse cara está por fora”. Isso influenciou de uma certa forma. Houve um divisor. Eu fui pra outro canto, fui para outro lado.

TRABALHO
Atividades profissionais

Eu fui trabalhar com música, tocando na noite. E mais tarde, depois que a gente gravou o disco “Os Borges”, em 80, eu fui à Rádio Inconfidência divulgar o disco. E tinha um amigo meu de lá atrás, Claudinei Albertini, que era coordenador, diretor artístico da rádio. Ele falou: “Bicho, mas você fala legal, você é solto. Por que você não vem aqui para a rádio?”. Eu falei: “O que é que eu tenho que fazer para vir?”. Ele falou: “Vem”. Eu falei: “Então já estou. Que dia que eu começo?”. “Agora.” Eu falei: “Então eu estou trabalhando”. E aí começou a minha vida na área de comunicação, de rádio; eu já tinha uma experiência de televisão como produtor. E depois eu virei apresentador de televisão, aqui em Belo Horizonte também. Tive um programa diário, o Happy Hour, que era um programa que eu sentava num piano, entrevistava políticos, jogadores de futebol, músicos. A gente fazia uma grande zoada. Até hoje eu tenho viúvas do Happy Hour na rua, entre populares. O sujeito chega: “Por que a televisão te tirou do ar?”. Eu falo: “Eu não sei”. “Por que é que você não volta?” “Eu não vou pedir a eles. Se eles me chamarem, eu vou lá e faço.” Eu não vou pedir pelo amor de Deus. “Deixa eu voltar pro rádio, deixa eu voltar pra a televisão?” Não. Se me chamar, eu estou aí. Mas se não me chamar, está bom também, eu estou com a vida boa, está legal.

DISCOS
“Os Borges”

Já no disco Os Borges eu tive uma participação bem ativa. A Duca, que era a mulher do Marcinho na época e é a mãe do Zé Roberto, do Gabi, começou a perseguir essa idéia do disco. “Vamos fazer o disco da família?” Eu falei: “Vamos”. E eu comprei a idéia. Aproveitei que na época eu era diretor de criação do estúdio HP, trabalhava com propaganda, fazia jingles, trilhas. Então eu estava muito inteirado. Até hoje, graças a Deus, estou interado com as tecnologias de gravação; eu sou um cara que sempre foi apaixonado por isso. Como eu era diretor de criação do estúdio HP e estava por dentro das coisas, aproveitei que estava em um estúdio e falei: “Uai, vou ajudar meus irmãos. Vamos fazer um disco”.

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“O carona”/“O outro cais”
“Carona”/“Outro cais”

Foi quando eu compus “Carona”, que é uma música que Gonzaguinha Cantou comigo; eu fiz a letra e a música. E compus “Outro cais”, que a Elis Regina gravou.Esta música é uma homenagem ao Bituca e está no disco “Os Borges”; a harmonia dela lembra a harmonia do “Cais”, do Bituca. E a Elis Regina chegou no estúdio, não me conhecia, conhecia Marcinho, e disse: “O que é que é isso? Como é que é? Que música é essa? Eu quero cantar ela, uai”. Eu: “Uai, então canta”. Ela era tão genial, que a música estava pro meu tom, pra eu cantar, e ela cantou no tom de homem, cantou mais baixo, subiu; ela fez uma confusão lá, a extensão dela era imensa, e deu certo. Ficou lindo.

PESSOAS
Elis Regina

Foi ali que eu conheci a Elis e o César Camargo. Eu fui fã da Elis Regina, mas muito mais do César Camargo; muita gente não gosta, mas eu acho ele o maior músico desse país. O grande músico desse país é o César Camargo, porque ele tem uma marca; ele faz um arranjo, seja onde é que for, e, se você ouvir, tem marca, tem grife. Outro que também tem grife é o Lincoln Olivetti. Nego não concorda com isso não. O Wagner Tiso, por exemplo, é um músico fantástico, sinfônico, o Wagner é grande. Mas o Wagner a gente não reconhece muito ao ouvir um arranjo dele. Agora se você ouvir uma música no rádio ou qualquer lugar: “Oh, isso é do César Camargo”. “Opa, isso é do Lincoln Olivetti.” Os caras têm grife. Tem um estilo de escrever arranjo, um estilo próprio. E o César tem grife no tocar também. Você ouve o piano do César, você fala assim: “Isso é o César que está tocando”, não tem como. Às vezes é arranjo dos outros, mas se ele botar o piano dele, você sabe que é o César Camargo. Então, nessa época de “Os Borges”, eu conheci o César. Saímos pra almoçar juntos, com a Elis. Ela falou: “A Odeon contratou o Borges errado; tinha que contratar era esse aqui!”. O Lô era contratado da Odeon na época. [Risos] Ela estava sacaneando o Lô. “O Borges que canta é esse aqui.” Eu falei: “Olha, Elis, eu não sou cantor, sou pianista. Já parei de cantar há muito tempo”.

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“Os Borges”

No disco “Os Borges” eu cantei “Carona”. Eu solei. Mas cantei as outras todas, eu entrei cantando a música do Marcinho. As músicas do Telo eu cantei com ele. Eu cantei praticamente no disco todo com o pessoal. O disco “Os Borges”, de uma certa forma, é o meu disco, porque eu canto em quase todas as músicas, tenho arranjo de base em quase todas também. E eu fico orgulhoso quando as pessoas falam: “Esse disco dos Borges é uma referência musical”. As pessoas adoram aquele disco até hoje, procuram e não acham. Eu falo: “Ai, que bom”, porque, na verdade, o meu ego me dá beliscada, porque eu fiz a maioria dos arranjos, eu cantei na maioria das músicas, eu participei na maioria das coisas, ajudei na mixagem…
Aquele disco tem muito do Marilton, do pensamento musical do Marilton Borges. Então aquele disco, quando o sujeito fala: “Esse é um disco histórico”. Eu falo: “Opa, eu fiz um disco histórico”, apesar de não ter uma carreira de disco; eu tenho uma carreira mais paralela. Mas foi isso, essa coisa de fazer o disco da família inteira. Infelizmente – hoje até não tem isso muito não –, na época tinha um distanciamento, sabe? Na hora de fazer o show, a execução do projeto ficou meio esquisita. O pessoal era muito amador. Profissional ali éramos o Lô, eu e o Telo, de uma certa forma. O Telo tocava na banda do Lô. Então, na hora de executar o projeto, de botar o projeto em cima do palco, ficou esquisito. É nego tomando gole, nego tropeçando no palco, nego caindo… E o Lô cagando e andando pro azar. Porque se ele dia: “Olha, não vamos deixar isso acontecer não”… Porque eu estava a fim de não deixar isso acontecer. Mas eu sozinho não ia dar, não ia conseguir. O Marcinho estava mais ou menos a fim; a Duca também, então eu precisava de mais gente pra pilotar o projeto no palco. Porque o disco foi um sucesso, um barato; apesar de não ter vendido muito, é um disco que até hoje colecionador fica doido atrás dele. Foi lançado ultimamente em CD, eu fiquei sabendo. Eu não tenho esse CD, mas foi lançado.
Mas é um disco, segundo os entendidos, histórico. Eu acho que esse projeto do Museu do Clube da Esquina, de uma certa forma, pode resgatar essa coisa de fazer a segunda geração dos Borges, que são os meninos do Marcinho, o filho do Murilo, os meus filhos, botar essa meninada para gravar. Botar essa meninada para continuar, porque eu acho que a história é feita desses pequenos nós: você é um nó no meio de uma corda compridíssima. Eu entendo a história assim: a corda que não tem fim, com pequenos nós. Eu sou um nó naquilo. Tem que ter um nó na frente para a história continuar. E esse nó na frente são meus filhos; os outros nós serão meus netos, pra coisa continuar e não parar.

FAMÍLIA
Filhos

Eu tenho dois filhos, o Rodrigo e o Bruno. O Bruno começou a se envolver com música, mas ele é absolutamente alternativo; se eu sou alternativo, o Bruno é trezentas mil vezes mais alternativo. Ele gosta de rock pesado mesmo, aquelas coisas. E ele tem a compreensão de que ser alternativo é muito mais complicado do que não ser. Hoje ele se formou em design gráfico, fez um curso técnico e está querendo agora fazer faculdade também. Ele ouve música o dia inteiro quando está em casa. E ele é uma pessoa tão humilde, tão simples… Ele sabe que o gosto musical dele não é bem o gosto da família, então ele mete no fone e larga o pau, pra não incomodar ninguém… [Risos] Mas música está no sangue dele também.
O Rodrigo já tem essa coisa mais harmônica, mais jazzista. E o Rodrigo tem uma particularidade: ele é muito estudioso. Ele estudou guitarra com o Beto Lopes, estudou com Celsinho Moreira, foi estudar canto com a Babaia, ele não brinca não. O Rodrigo gosta muito de fazer bem feito, não gosta de perder. Tanto que ele agora é um programador de rádio, se formou em propaganda. Tem uma história do Rodrigo quando menino, de como ele é musical. Eu e o Maurity Verônica, que já faleceu e era um músico da orquestra sinfônica, um contrabaixista da pesada, a gente estava querendo tirar uma música do César Camargo muito difícil. A gente ouvia o disco, bolachão, e não conseguia. Compasso composto, onze por sete, treze por oito, dezessete por não sei o quê. Sei lá, estava aquela coisa difícil de tocar. E eu: “Maurity, como é que nós vamos fazer para tirar essa música, bicho?”. A gente ouvindo, a música rodando. Ele falou: “Olha para o pé do seu filho”. O Rodrigo tinha quatro para cinco anos, e estava encostado em mim. Ele era muito gordinho, o pezinho parecia um pão de queijo dentro da sandalhinha. “Olha pro pé.” O Rodrigo marcando compasso certinho. E nós começamos a contar no pé do Rodrigo e deu certo. Tiramos a música. [Risos] Então foi uma primeira contribuição que o Rodrigo fez pro pai. Foi o início da carreira dele como músico.
Depois, rapazinho já – ele estava no Isabela Hendrix ainda –, foi fazer a peça Liberdade, liberdade. “Ô, pai, vou cantar lá, tocar violão.” Eu falei: “Então vamos”. E fui. E é igual mãe de miss: eu, Tatá, minha mulher, nós fomos igual mãe de miss. “Cadê o Rodrigo?” Eu falei: “O que o Rodrigo vai fazer?”. E de repente a gente ouve uma voz no fundo do teatro com violão: [Cantarolando] “A mão que toca um violão, se for preciso…” Coincidentemente, uma música do Marcos Vale, gravada pelo Bituca e pelo Marcos Vale. Entra o Rodrigo, pelo meio da platéia cantando isso, aí eu desabei, lógico que eu desabei, comecei a chorar. Por pouco eu não dou vexame, porque é emocionante. O Rodrigo foi isso. Ele não queria servir o Exército. Eu fiz tudo para tirá-lo, mas eu estava trabalhando fora, e não consegui. Eu conheço todo mundo em Belo Horizonte, mas eu estava fora. Não consegui tirar ele do Exército. Ele foi fazer CPOR. Me ligou: “Pai, me tira, minha onda não é essa não, dar tiro, etc. e tal”. Foi um dos primeiros alunos do CPOR, mas não conseguimos tirar: fez bem feito. Ao mesmo tempo, com 17 anos, entrou pra faculdade, ou seja, com pouco mais de 20 anos, estava formado em propaganda. E está aí, sempre fazendo bem feito. Agora ele está fazendo pós-graduação em Ciência da Informação.
O Bruno já é mais o Marilton, não gosta muito de estudar não. Eu nunca gostei de estudar. É o mais novo. O outro é eu de novo. O Rodrigo, nesse aspecto de fazer tudo bem feito – o perfeccionismo – ele herdou muito da minha mulher, que é muito perfeccionista. E o Bruno é eu, é aquela coisa largada, aquela coisa alternativa e rebelde pela própria natureza, mas fazer o quê? Cada um é cada um.
O Rodrigo é muito amigo do Gabriel Guedes; eles tiveram um trabalho juntos. Tem até um troço engraçado que o Lô e o Beto iam para o interior fazer um show em alguns lugares, e apresentaram o Rodrigo como filho do Lô. “Esse é o filho do Lô.” Ele falou: “Não, eu sou filho do irmão do Lô. Eu sou sobrinho do Lô, sou filho do Marilton”. “Marilton? Quem que é Marilton?” Até que chegaram umas moças muito bonitas: “Você é filho do Lô, né?”. Ele: “Sou”. [Risos.] Igual aquela história do Frank Sinatra. O cara falou assim: “Você é o Frank Sinatra?”. Ele falou: “Não, eu sou o Sebastião lá de Rio Acima”. Aí ele chegou no hotel, chegou no aeroporto: “Frank!”. Ele falou: “Não, sou Sebastião de Rio Acima, sou Frank Sinatra não”. Aí chegou no táxi: “Porra, nós temos que arrumar uma limusine, né, Frank?”. Ele falou: “Não, eu sou o Sebastião de Rio Acima.” Aí chegou no hotel: “Seu Frank, o apartamento presidencial”. “Não, eu sou o Sebastião de Rio Acima.” E na hora em que ele entrou no apartamento, uma loura maravilhosa, nua: “Frank!”. Ele: [Cantarolando]: “When somebody love…” [Risos] Com o Rodrigo aconteceu isso também. “Não, sou filho do Lô mesmo.” [Risos]

TRABALHO
Atividades profissionais

Na Rádio Inconfidência, durante muitos anos, às 18 horas, tocava “Saudades do Brasil”, do Tom Jobim. Eles tocavam, era um momento de pausa… Mas isso era coisa do Claudinei. Depois do “Saudades do Brasil” é que eu entrei com um negócio em horário nobre, que ninguém acreditava que ia dar certo e deu. Entrei com música instrumental brasileira, porque a Brasileiríssima só tocava música brasileira. Entrei com instrumental brasileiro às seis da tarde. Acabava o “Saudades do Brasil”, entrava das seis às sete, até A Hora do Brasil. E tive a alegria de fazer esse programa ao vivo com alguns amigos; fiz com o César. Era aquela coisa como a gente está fazendo aqui: a coisa mais descontraída do mundo. O cara ia lá dentro: “Olha, esse disco é bom, vou tocar”. O músico convidado é que fazia a programação, batia papo. Foi um grande sucesso lá da rádio. Mas a música que tocava na Brasileiríssima era “Saudades do Brasil” do Jobim. Lindíssimo, era a hora em que ficava aquela loucura na rádio, que a rádio era uma loucura, um lufa-lufa [inspira profundamente], a gente respirava e tocava isso.
Trabalhei também com publicidade, inclusive ganhei alguns prêmios. Eu fazia jingles. Na Rádio Itatiaia, que é a principal rádio AM de Belo Horizonte, a campeã, eu sou o músico mais executado. Por quê? Porque há trinta anos que tem uma vinheta que eu fiz para o jornalismo que está até hoje. O jingle era o seguinte: a gente tinha uma permuta no estúdio HP, a gente sempre mandava alguma coisa para eles assim, numa boa. Então a gente não ocupava os músicos pra também não ficar pedindo ao músico pra tocar… [Cantarolando]: “.Itatiaia, jornalismo.”
Depois tiraram o Itatiaia, ficou só: “Pramm, jornalismo”. Está até hoje no ar. Eu falo para o Emanuel Carneiro, que é o dono da rádio: “Eu sou o músico mineiro mais executado na Itatiaia. Toda hora, de hora em hora, vocês me tocam aí”. [Risos] Mas fiz outros jingles. O primeiro shopping center de Belo Horizonte foi o BH Shopping, e fui eu quem fez o primeiro jingle dele, ganhei prêmio nacional. Era assim: [Cantando] “Shopping center maravilhoso lugar, báraran…”
Eu não lembro mais a letra. Mas ganhei prêmio com esse jingle. Ganhei prêmio também com o jingle do Biocolor: [Cantarolando] “Biocolor valoriza o seu clique. Biocolor qualidade Kodak.”
Ganhei um monte de prêmios. Não valia nada, porque, no fim das contas, esse prêmio você ganhava, mas quem ganhava mesmo era a agência. Eu me lembro que os meus dois filhos estavam doentes, eram meninos, e eu fiz esse do BH Shopping que ganhou prêmio. Depois eu fui tocar no jantar da Associação Mineira de Propaganda no fim do ano. “Melhor jingle”, eu falei: “Opa”, eu sabia que meu jingle estava concorrendo. “‘Shopping center’, agência não sei o quê.” Foi o dono da agência receber. Os caras não te davam nem um briefing para você fazer o jingle; eu fiz um mote na época desse jingle que era: “Shopping é melhor porque não tem chuva, não tem calor e nem vento”. Aí o cara chega: “Não tem chuva, não tem calor…”. Virou o tema da campanha do shopping. Ganhou prêmio para tudo quanto é lado, e nem falaram: “Quem fez isso aqui tudo, quem bolou isso aqui foi esse cachorro aí que está tocando piano para vocês tomar uísque”. É aquela coisa da humildade da profissão do músico, você fica ali tocando. Eles te botam pra tocar ali e vamos embora. Por isso que eu acho que, de uma certa forma, esses meninos hoje – que qualquer menino que faz três acordes no violão já vira artista – estão certos, é isso mesmo. Porque a gente fica bancando os bobos, tocando para os outros. Esses meninos todos aí hoje são todos artistas. “Não, eu não toco na noite, eu sou artista.” Mas ele está certo. Porque ficar tocando na noite, ficar tocando em recepções, acontece isso, como aconteceu comigo diversas vezes. A gente é desrespeitado diversas vezes.

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(Milton Nascimento)

O Bituca foi desrespeitado algumas vezes também. Eu me lembro, ele já era o Milton Nascimento — e quem me contou esse caso foi o próprio Bituca. Ele chegou de uma temporada na Europa, foi a uma festa com um amigo nosso, que não interessa quem, mas foi à festa, e o amigo falou: “Não, vamos lá, eu preciso da sua presença lá”. Ele foi. Chegou lá, a dona grã-fina da festa falou: “O senhor não vai cantar nada para a gente não?”. Ele falou: “Ô, minha senhora, eu vim cá como convidado do fulano. Eu estou vindo da Europa, para eu cantar tem que ter uma produção, alguma coisa. Tem que ter um microfone bom”. “Tem o violão da minha filha.” Ele: “Não, não é assim, não sei o que tal”. “Então, o que o senhor está fazendo aqui?”. Se o Milton Nascimento sofre esse tipo de constrangimento, imagine a gente; ele é JB, eu sou PTB, meu filho [Risos]. Sabe, ele é importadão, bacana, Milton Nascimento é grife. Eu, Marilton? Nego te desrespeita mesmo. Por isso é que eu acho que esses meninos que hoje fazem três acordes e já viram artistas estão certos. Tem que ser isso mesmo. Tem que ser artista mesmo. “Eu sou artista”, e pronto.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

Esses meninos – esses meninos que eu digo é menino Bituca, menino Lô, menino Beto, menino Toninho, Tavinho, essa moçada – têm um negócio chamado riqueza harmônica. Que é um negócio sério. Tem uma riqueza melódica diferente também. Música é ritmo, melodia e harmonia. Se a sua música é rica harmonicamente, melodicamente e ritmicamente, você tem aí um tesouro nas mãos. Mas mais do que esse tesouro nas mãos, eu acho que essa música é uma referência do século XX. Quando os estudiosos — então a importância desse museu — lá na frente, falarem assim: “Qual o cara?”. Não é a única referência. Bossa nova é uma referência, principalmente da juventude classe média do Rio de Janeiro. Se você pegar a referência da Bahia, dos baianos, você tem a Tropicália, uma grande referência. E agora esse movimento também das timbaladas, não vamos negar, seria burrice negar – não vou correr aquele risco do passado de achar ruim com os Beatles, que depois eu quebrei a cara… Apesar de todo o apoio de Antonio Carlos Magalhães e assemelhados que eles tinham – na verdade era um grande projeto, pra fazer aquele menino que morreu, o Luís Eduardo, presidente – atrás desse projeto veio esse boom da música baiana, essa explosão da música. Mas ela é importante. Você vê essas multidões que vão para a Bahia no carnaval, não estão tão equivocadas, né? Eu acho que é uma bobagem você negar isso. É um negócio que tem que estudar, tem que ver o que é. Tem alguma coisa atrás disso, além da grande divulgação, do dinheiro que cerca isso tudo. Tem alguma coisa. O Carlinhos Brown não é um primata. É um cara inteligente, é um cara talentoso. Tem que ver isso.
São referências musicais ao longo dos tempos. E o Clube da Esquina é isso. Mais do que um clube fechado de amigos, de parceiros e de companheiros, é uma referência da música que emergiu de Minas Gerais pro resto do mundo. Veja bem, sem querer desfazer de outros movimentos, a hora em que você ouve isso aí, é reverenciado, assim como Jobim, você está entendendo? Assim como Caetano e Gil, são coisas que o mundo inteiro reconhece. O mundo inteiro reconhece como formas superiores de expressão cultural. Então esse museu, de uma certa forma, deixa isso pras próximas gerações. Pra essas gerações ele deixa esse testemunho, esse acervo todo de fotos, gravações, depoimentos. Quer dizer, ele complementa, porque já tem um tesouro musical todo pronto, que são as gravações. Eu acho que o Marcinho foi muito feliz.

FAMÍLIA
Irmão/Márcio Borges

Na minha vida eu tive a alegria de conhecer dois gênios: um é Bituca, outro é Marcinho. Marcinho é um gênio, é um irmão querido que sabe das coisas, ele sabe… O Brasil não conhece ele direito não. Perguntaram para o Lamarca e ele falou assim: “O maior poeta da língua portuguesa chama-se Márcio Borges”. Carlos Lamarca, um herói brasileiro. O Marcinho é um gênio. Eu me considero um cara modestamente inteligente, eu sou inteligente. Mas o inteligente tem que baixar a cabeça e render homenagem aos gênios, como Bituca e como Marcinho.

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Clube da Esquina

Marcinho, esse gênio, está conseguindo isso, que é essa referência cultural do que aconteceu em Minas, que não vai parar. Daí a pouco já vai ter música do Gabriel Guedes, já vai ter música do Rodrigo e dos meninos do Marcinho. Isso tudo vai continuar. Mas a referência de como começou isso tudo, Marcinho está conseguindo fazer de uma forma brilhante. Ele está de parabéns e eu estou envaidecido de poder, modestamente, contribuir com o meu depoimento aqui. Está sendo muito bom participar, porque, na verdade, eu, que nunca fiz análise, fiz meu primeiro divã de psicanalista aqui, hoje [Risos]. Eu estou dando uma passeada no meu passado. Essa sede de ser contemporâneo – a gente tem vontade de ser contemporâneo sempre – às vezes faz você esquecer um pouco. Você não pode virar as costas para o seu passado. Hoje eu tive a oportunidade de externar alguns pontos de vista que eu acho que eu nunca tinha falado para ninguém.

Fale na Esquina

Uma mensagem para Marilton Borges

  1. Sérgio Mello disse:

    Estive no Marilton's sábado agora, dia 22 de junho/13. E pude respirar um pouco do ar daquela "Minas cultural", se é que dá pra entender… O epicentro de um movimento musical tão relevante! Coisa bonita, pra gente que sabe das coisas. Seu texto é bastante rico, Marilton, aprendi um pouco mais com ele. Obrigado. Sérgio Mello.