Maurício Maestro

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome, data e local de nascimento

Meu nome é Carlos Mauricio Mendonça Figueiredo. Eu nasci no Rio de Janeiro, na Tijuca, no ano de 1949, dia 10 de maio.

Família
Pais

Meu pai é Raimundo Geraldo Leite Figueiredo e minha mãe, Maria de Lourdes Mendonça Figueiredo.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Lembranças de infância

Meu pai era arquiteto, minha mãe, professora, mas os dois sempre mexeram com música por prazer. Eles conheciam muita gente no meio artístico, eram muito bem relacionados tanto com o pessoal da chamada velha guarda como Lamartine Babo, Elizeth Cardoso, dando assim alguns exemplos, quanto com o pessoal da bossa nova. Na hora que começou aquele movimento, teve muitas reuniões na minha casa, na casa onde a minha mãe mora até hoje e realmente era uma época em que as pessoas se freqüentavam e não era festa. A maneira das pessoas se divertirem era tocando. Foi realmente a primeira vez que meu instinto musical me despertou para eu realmente pensar: “Puxa, realmente isso é uma coisa boa de se fazer”. Porque antes eu até via eles tocando em casa, apesar de santo de casa nunca fazer muito milagre, e apesar de eu gostar muito das músicas até hoje, da música dos meus pais. Eles têm muita coisa gravada inclusive, não como primeira atividade, mas eles tinham essa parte. A minha mãe ainda toca piano até hoje, está com 80 anos e ainda toca bem piano. Então essa coisa em casa propiciou pra mim a entrada no ambiente de música. O pessoal da bossa nova realmente trouxe uma nova forma de perceber, inclusive, a questão da intimidade com o violão, aquela forma de procurar como fazer melhor, achar as harmonias, o desenvolvimento do ouvido musical. Pra mim, veio dessa época e realmente é uma coisa que as pessoas que me conhecem da música não me relacionam muito com essa parte do movimento da Bossa Nova porque eu era garoto, tinha 10 anos nessa época que as pessoas iam lá. Mas realmente foi a minha formação básica, eu conheço realmente o repertório de tudo daquilo. Conheci vendo o pessoal tocar na época em que as pessoas iam pra casa dos outros pra mostrar músicas novas. Começou ali um grande movimento de troca de informações e eu realmente bebi muito nessa fonte, graças a Deus.

Voltar ao topo CIDADE

Rio de Janeiro

Eu nasci na casa que meus pais moravam na Tijuca, na Rua Açoriano de Souza, que era uma ruazinha sem saída ali perto da Praça Sans Pena. Era uma rua que entrava, que ninguém nem percebia. Tinha um posto na entrada. Ela fazia um L, não, um J na verdade e a parte da casa em que eu morava era quase no fim da rua. Era uma época muito tranqüila, na rua não tinha movimento nenhum, era uma rua sem saída, numa época em que tinha pouquíssimos automóveis. Então realmente a minha infância mais tenra foi passada nesse ambiente, mas foi só até os quatro anos de idade. Depois, não sei se a prefeitura ou o governo resolveu abrir uma avenida que passava exatamente no fim da rua onde estava a casa em que eu morava, então a casa foi desapropriada. Então a minha família toda acabou se mudando pro Flamengo, que é um bairro que eu tenho grandes raízes também, em que praticamente eu vivi a maior parte da minha vida. Lá é a casa que eu te falei, que tinha essas reuniões. Continua viva a casa na Rua Almirante Tamandaré, 201, que é onde ainda mora a minha mãe e é realmente um bairro que eu considero muito agradável, que tem muita mistura, é um bairro democrático. E depois eu já morei em outros lugares também, já passei por outras coisas, mas realmente é lá onde tem mais marcas em termos de lugar de morar.

Infância
Brincadeiras de criança / Rio de Janeiro

No começo as minhas brincadeiras de menino na Tijuca eram nas casas, todas as casas eram de pessoas conhecidas, amigos com crianças também. Tenho algumas lembranças, mas era uma coisa mais restrita. Depois, eu fui pra um apartamento alugado que era na praia do Flamengo, numa época em que todo mundo saía de casa e morava junto, eram pais, avós, filhos, netos, eram casas grandes e morava todo mundo junto. Ali eu perdi um pouco aquela questão da vizinhança, porque era mais difícil a gente fazer amigos da minha idade num apartamento, era uma outra realidade, não tinha nem o Aterro do Flamengo ainda. Então eu passei meus quatro, cinco, seis anos meio recluso, digamos, nessa parte social. Quando a gente teve que mudar também para outro lugar lá perto, também num outro apartamento, foi numa época em que eu já comecei a estudar numa escola pública. Quando eu passei a estudar nessa escola, que ficava perto do Catete, ao lado do Palácio do Catete, uma escola chamada Rodrigues Alves, aí comecei a ter um grupo de amigos lá perto e comecei a fazer as minhas primeiras molecagens, digamos assim. Foi uma época legal, mas é engraçado, é curioso. Quando o metrô foi passar por ali, derrubaram o prédio principal dela que era lindo, um prédio antigo que fazia um conjunto arquitetônico muito bonito, com o palácio. Então as minhas memórias foram sendo apagadas, a casa onde eu nasci foi derrubada, a escola onde eu estudei foi em parte derrubada também. O que é que vai me restar daqui a pouco? Espero que preservem o resto do meu passado arquitetônico pelo menos. Mas aí comecei a ter a parte de relacionamento com gente da minha idade, começou por aí. Quando eu passei a morar no apartamento da Rua Almirante Tamandaré, eu já tinha uns oito para nove anos, ai que eu realmente formei um time de rua, um pessoal conhecido que morava perto. Na época, a maioria dos edifícios eram, basicamente, sobre pilotis e a parte de baixo era aberta, totalmente aberta, entrava e saía quem quisesse, a hora que quisesse. Para a garotada brincar, aquilo ali era o paraíso, porque quase não passava carro, era uma rua pequena, que só tinha um trecho. Era uma constante troca de locais onde brincar, quer dizer, cada um brincava no playground de um edifício, ou no outro, ou na rua mesmo. Era um lugar que atualmente é impensável. Hoje todos os edifícios lá têm grades, senhas, interfones, aquelas coisas todas. É uma coisa que deixa saudades, aquela liberdade que se tinha, aquela disponibilidade de espaço. E ali realmente eu formei a minha infância e pré-adolescência, nesse ambiente muito aberto que se refletia inclusive na casa das pessoas. Quando a gente abria a casa para as pessoas que vinham, chegavam pessoas a qualquer hora. Eu me lembro, dando um corte para a época que eu já estava como músico, começando, que os amigos meus chegavam na hora do almoço e entravam sem pedir, sem falar, sem avisar nada. Chegava aquela turma toda, aí tinha que arranjar almoço pra todo mundo. Era uma coisa curiosa, mas era uma coisa que o Rio de Janeiro tinha. Cidade Maravilhosa, as pessoas eram sociáveis, eram mesmo. Agora está perdendo muito, o Rio ficou uma cidade medrosa e com razão. As pessoas perderam muita aquela coisa fraterna de abertura das casas e tudo, hoje é impossível. E eu acho também que o Rio de Janeiro perdeu aquilo e não conseguiu ainda encontrar uma forma das pessoas se encontrarem mais, então eu sinto às vezes saudade daquele tempo. Por que, por exemplo, São Paulo sempre foi uma cidade muito hostil, as distâncias são maiores, é urbana demais, o tempo todo, mas as pessoas aprenderam a conviver e se ligar, se freqüentar. “Oi, você pode ir na minha casa?”, as pessoas marcam e vão. No Rio de Janeiro, você liga: “Ah, vou na sua casa amanhã”, “Ah, legal”, aí o cara não vai. Também, se fosse não ia adiantar porque o outro teria saído. Então o Rio de Janeiro ainda não encontrou alguma forma de se expressar, eu acho que está devendo ainda. A gente ainda precisa se perguntar com fazer para recuperar aquele sentimento gostoso que propiciou os encontros que levaram, por exemplo, a bossa nova a ser criada, o Clube da Esquina. Quando o pessoal de Minas Gerais veio ao Rio Janeiro encontrou essa mesma coisa ainda. Apesar de estar em uma época que ainda existiam problemas, regime militar, etc., ainda existia, na casa das pessoas, espaço para as pessoas se encontrarem e essa predisposição a abrir os seus espaços para os outros. Agora está mais difícil haver isso, mas vamos ver, vamos chegar lá.

Família
Avós

Na minha casa moravam o padrinho e a madrinha da minha mãe, mas eram tratados como avós e mais tarde a minha avó mesmo, mãe da minha mãe, foi morar lá. O meu pai era do Ceará, então a família toda mora ainda no Ceará, em Fortaleza. Ele era de uma cidade chamada Aracati, uma cidadezinha bonitinha ali daquela região do rio Jaguaribe que vai dar ali onde atualmente tem Canoa Quebrada, que é um lugar bastante conhecido. Meu avô era bastante boêmio e gostava de se divertir, tocava violino, tocava bombardino. Ele tinha um metro e meio, era pequenininho, era o Major Bruno. A história desse “major” é até engraçada porque ele nunca foi do exército. O pessoal todo de certas famílias mais abastadas eram coronéis e ele era muito baixinho, tinha um metro e meio. Então o apelido dele era Major, nunca passou para coronel. E apesar de ser de uma família com certas posses na época, nunca ligou muito para dinheiro. Ele gostava mesmo de aprontar, de se divertir e realmente era uma figura. Inclusive, ele fundou uma cidade pertinho de Canoa Quebrada, por ali no litoral, chamada Majorlândia que eu só não faço muita propaganda para não acabar com a maravilha que é o lugar ali. Foi chamada Majorlândia por causa do Major. Ainda hoje lá na praça tem uma esfinge, um perfil dele que é parecido com o meu. Se vocês quiserem ver como era o Major, é o meu perfil, só que eu tenho 1m83 e ele tinha um metro e meio, é a única diferença básica. Mas é um lugar maravilhoso, aquela região toda eu adoro, é um paraíso, não quero que ninguém fique sabendo.

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Cotidiano

Lá em casa moravam, a princípio, os padrinhos da minha mãe, meu pai, minha mãe, meu irmão e eu. Depois, passou a morar também a mãe da minha mãe. Quando minha tia faleceu, ela foi ficar lá. Eu tinha sete anos de idade. Então ficaram sete pessoas. Isso foi na época em que a gente mudou pra esse apartamento que a gente mora até hoje. Eles compraram dois apartamentos, então padrinho e madrinha foram moram num andar e minha mãe, meu pai, eu, meu irmão e a minha avó fomos morar nesse apartamento atual.

Infância
Lembranças de infância

Eu, quando era mais novo ainda, era fã de Ivon Cury, adorava Ivon Cury. Eu acho que é o seguinte: eu vi uma vez uma entrevista do Michel Legrand em que as pessoas perguntaram para ele: “O que você ouvia quando era criança? Você devia ouvir os clássicos, músicas maravilhosas”, “Eu ouvia de tudo, eu ouvia rádio, ouvia tudo que viesse e eu gostasse”. Eu acho que a criança, a não ser quando é imposto, não tem aquela coisa de separar muito o estilo, ela gosta do que gosta e pronto. Agora eu acho que o que se deve dar a ela é a opção. Eu adorava Ivon Cury, mas ouvia todas as coisas que eram mais sofisticadas também. Então eu acho que a formação do ouvido vai evoluindo também, mas tem que dar margem para a criança crescer para poder absorver coisas, porque se der pela primeira vez uma coisa mais sofisticada a alguém que nunca escutou, ele pode até gostar, mas vai ser difícil compreender. Então eu ouvia Rádio Nacional, ouvia discos dos meus pais, dos meus avós, discos clássicos, coisas mais variadas, coisas estrangeiras. Minha mãe adorava e ainda adora os musicais americanos, ela conhece todos os musicais. Então eu ouvi muito aquelas coisas que na época eu não sabia nem o que era, não sabia nem identificar. Eu atualmente ouço e já me lembro de toda essa época também. Eu acho que foi muito importante essa audição bastante ampla na infância.

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Escolas

Na época, a escola pública era realmente uma escola publica, ou seja, era o melhor que tinha. Escola particular nessa época era pra gente que não conseguia boas notas e ia para escola particular para pagar, passar e aí conseguir um diploma. Não existia escola particular no sentido de excelência. Podia ter uma ou outra, eu posso estar fazendo alguma injustiça, mas a base, a maioria das escolas boas era pública. As escolas particulares eram consideradas aquelas escolas feitas só para os alunos que não tinham muita capacidade para estudar. Então eu me orgulho de ter sido sempre aluno de escola pública. Primeiro, no Instituto de Educação. Minha mãe era professora, dava aula lá e eu fiz o jardim de infância no Instituto de Educação. Depois, na escola 1 e 2 do Rodrigues Alves, ao lado do Palácio do Catete. Eu via os presidentes entrarem e saírem, aqueles carros, eu só não ouvi o tiro do Getúlio porque eu ainda não estava lá, senão ouviria. Depois, eu passei no que era considerado na época um vestibular, passei para o colégio da Aplicação da Faculdade Nacional de Filosofia do Brasil, que fica na Lagoa até hoje. Era um colégio que dava um ensino diferenciado, era uma coisa mais elaborada, tinha toda uma tradição de ser um centro de aplicação de aulas para os formandos da Universidade do Brasil, da Faculdade Nacional de Filosofia. Então era um lugar que tinha um currículo, uma exigência com alunos que era muito grande. Mas ao mesmo tempo era um lugar onde tinha uma fraternidade entre os alunos e professores também muito interessante, uma coisa que continua até hoje. Pessoas que estudaram lá têm uma relação muito especial que não chegou nem a ser interrompida na época do começo da ditadura, que começou a apertar determinados, quer dizer, a dificultar um certo desenvolvimento do livre pensamento no Brasil e começou a prejudicar, digamos assim, a questão do ensino mesmo. Foi ali que houve um começo de queda do ensino público chegando ao ponto de hoje. Mas eu passei por uma fase boa dessa coisa do ensino público no Brasil. Depois, eu também entrei pra faculdade ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial), que é também pública. Nunca fiz cursinho de vestibular, sempre estudei em casa. Minha mãe era professora, ela me dava aula particulares para vestibulares. No colégio da Aplicação eu entrei em quarto lugar, na ESDI eu entrei em terceiro. Nunca nunca fiz cursinho. Acabei largando no caso a ESDI porque já estava com o negócio da música muito forte e não tinha muito tempo.

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Festival da Record

O grupo que eu fazia parte, o Momento Quatro, tinha acabado de participar do Festival da Record com a música do Edu Lobo. A gente cantava “Ponteio”, que foi campeã daquele ano, com ele. Na época, os festivais chegaram ao máximo da euforia do que representavam em termos de projeção. Então para nós aquilo era um mundo muito novo, atraente e que necessitava um mergulho muito grande daquelas experiências. Não dava tempo de ficar diversificando, estudando, tinha que viajar para São Paulo, para outros lugares pra tocar, começou a dificultar e eu resolvi parar com a coisa que eu sempre gostei, que era a parte de desenho. Eu sempre fui um desenhista nas horas vagas e às vezes eu sinto falta. Mas a vida é assim, a gente tem que escolher uma coisa.

Formação Musical
Primeiro instrumento

A partir daquela época em que a bossa nova invadiu a minha casa, na verdade invadiu a minha vontade de também tocar alguma coisa. Antes sempre teve violão, piano em casa, mas eu nunca tinha me interessado. Nessa época eu comecei a tentar escutar e tirar algumas coisas, mas eu era muito tímido, eu acho que ainda sou até hoje. Mas na época eu era assim, não queria mostrar pra ninguém enquanto eu estava preparando as coisas. Eu só comecei a mostrar que eu tocava violão quando eu já sabia tocar a música inteira, estava com a harmonia pronta, tudo certo, aí eu mostrava. Então eu fiquei o período dos 12 aos 15 anos num processo de elaboração, incubação, nesse universo de ouvir, tocar, tirar a harmonia. Eu sempre fui muito ligado à questão de harmonia, com grupos de vocais, com arranjo. Tem que prestar atenção no que está por dentro da música, não é só a melodia, e letra também não era o meu forte. Mas eu era muito atencioso com a estrutura na música. O violão eu fui aprendendo comigo mesmo, nunca entrei em aula. Eu até brinco que todas as coisas, praticamente tudo na música eu aprendi sendo autodidata. Meu problema muitas vezes é que quando o professor ia, o aluno faltava e vice-versa. Então aconteceu isso comigo, eu não completei nenhum curso. Tem coisa que eu sei que são muito avançadas e não sei coisas mais simples, básicas, eu não me interessava. Eu gostava de aprender o que me interessava pela audição. Quando eu gostava de uma coisa, podia ser uma coisa dificílima, mas eu tinha facilidade de aprender. E de repente, às vezes eu não queria aprender o bê-á-bá, era muito chato. Então talvez tenha lacunas no meu conhecimento musical, mas acho que é um caminho também essa coisa de ser guiado pelo emocional e aí a gente vai atrás do conhecimento das coisas que nos dão prazer. Às vezes isso dificulta um pouco as coisas quando tenho que fazer um arranjo e as pessoas querem exatamente as coisas que fazem falta nesse currículo. Então eu tenho que sair da minha óptica do que é, digamos, a coisa mais bonita para fazer e tenho que fazer a coisa que objetivamente é preciso para o gosto de outra pessoa, ou grupo. Ou às vezes pra fazer jingles, ou pra fazer uma trilha de cinema e outras coisas assim. Faz falta um determinado conhecimento de certas estruturas simples, mas eu compenso isso com a intuição. A intuição também consegue chegar àquilo, é claro que consegue chegar aqui também. Não é uma coisa imediata, às vezes eu sofro um pouco pra fazer as coisas mais fáceis, mais do que pra fazer as coisas mais difíceis.

Educação
Cotidiano escolar

Pra deixar de estudar foi nessa fase que eu cheguei à faculdade mesmo, porque eu sempre estudei, quer dizer, eu era uma razoável aluno, muito preguiçoso, mas eu gostava de estudar. Na época que eu era do primário, eu era o melhor aluno, depois passei muito bem para entrar no colégio Aplicação. Nas coisas que eu gostava de estudar eu era bom aluno, mas realmente eu era muito preguiçoso para muitas coisas. Eu comecei a não ter compromisso e a estudar só por estudar, pra mim não era muito interessante. Aí a música veio vindo mais ou menos ao mesmo tempo que os estudos tomaram um segundo plano. Mas na época eu acho que o estudo era de muito boa qualidade. Então eu sinto que eu tenho uma base universal, porque o Colégio da Aplicação era uma espécie de pré-universidade. Na verdade, ele não era só um colégio secundário, era como se fosse uma universidade dentro do ensino secundário. Toda a formação de pensamento era como se fosse uma universidade. Então talvez por isso eu não tenha sentido tanta falta de ir para a universidade, eu acho que eu já tive um pouco essa experiência.

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Maurício Maestro

Tem que perguntar às outras pessoas que colocaram isso quase como um apelido. Na verdade, o que aconteceu, objetivamente, foi que o primeiro arranjo que eu fiz para disco foi um arranjo para o Milton Nascimento – se não me engano, o segundo disco –, numa música do Nelsinho Ângelo chamada “Quatro Luas”, com arranjo de orquestra. Eu e Nelsinho fizemos praticamente a quatro mãos e aí na contracapa do disco saíram os arranjadores, maestro Luis Eça, maestro Paulo Moura – tinha mais gente – e maestro Mauricio Mendonça. Aí começaram a me chamar maestro Mauricio, meio de sacanagem. Porque maestro eu nunca fui, não sei reger, nunca estudei regência, sempre fui intuitivo, eu estudei particularmente harmonia, estudei orquestração, estudei coisas assim. Mas a minha forma de desenvolver sempre foi mais na prática, a regência nunca me atraiu particularmente. Então o nome Maestro é meio por aproximação, eu nunca pretendi ser maestro de nada. Talvez num time de futebol que eu jogava eu até tenha pensado em ser maestro, mas me faltava fôlego – e futebol também, lógico. Mas na música eu gosto de fazer arranjos, eu gosto de ver as pessoas executarem idéias que eu faço. Meu instrumento é mais o pensamento. Eu não sou grande instrumentista de nenhum instrumento, sou vocalista, canto bem, componho, faço um pouquinho de cada coisa. Mas o que eu gosto mesmo é do conjunto, ver como as coisas se encaixam, isso é o meu ofício, sou mais arranjador do que maestro na verdade. Então o apelido vem mais ou menos daí, foi assumido depois, fazer o quê? Quando a gente briga com o apelido, aí e que ele vai pegar mesmo. Mas é mais ou menos a mesma coisa: Paulinho da Viola toca cavaquinho, Nelson Cavaquinho toca violão, já dizia o bom Eudes Fraga. Então esse é o negócio, Mauricio Maestro faz arranjo.

Voltar ao topo ADOLESCÊNCIA

Músicas que ouvia / Tamba Trio

Eu escutava muito conjuntos vocais, escutei tudo da bossa nova. Eu escutei muito Tamba Trio, era fã total do Tamba Trio. E tive a felicidade de ter sido o Bebeto Castilho, do Tamba Trio, quem me pegou pra me jogar dentro da música profissional. Por uma feliz coincidência, a esposa dele na época era a Lurdinha, afilhada também dos padrinhos da minha mãe. Meus pais foram padrinhos de casamento dele, então ele se aproximou nessa época. Antes disso ele já freqüentava a nossa casa, mas depois ele se aproximou mesmo e foi um cara que me colocou dentro do ambiente musical, me apresentou à maioria das pessoas. Mas eu já era fã incondicional do Tamba Trio. Acho que é um dos pontos altos da estrutura harmônica de inventiva sonoridade e até hoje, quando aparece aquela sonoridade, arrepia, é um negócio fantástico e com a liderança de um dos maiores gênios da música brasileira, o Luizinho Eça. E os outros que tocaram, tanto o Hélcio Milito quanto o Ohana, o Dório também quando virou quarteto, uma coisa fantástica mesmo. E Os Cariocas também, na época, foram uma referência muito grande no gosto pelo vocal. Além disso todos os outros, Tom Jobim, Carlos Lyra, todos os outros que freqüentaram a minha casa… João Gilberto. Ele nunca foi lá, mas era a onipresença na turma toda, João Gilberto sempre foi a referência sonora da bossa nova, então realmente isso impregnou toda a minha formação musical. Desde a época em que eu comecei a me despertar para a música, essa foi a grande referência. Depois veio aquela geração que foi imediatamente anterior à minha, quando vieram excelentes compositores. Desde a época da bossa nova, surgiram excelentes compositores, Edu Lobo, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Ivan Lins um pouco depois, Gonzaguinha também um pouco depois, João Bosco logo depois também, um pouco também depois Djavan, Sidney Miller. Eu devo estar esquecendo gente boa com certeza porque era muita gente, mas esses talvez tenham sido os grandes. Quando eu vi essa turma chegar, eu já acreditei que podia fazer parte da turma, então já trabalhei mais nesse sentido junto com os meus amigos, todo o pessoal que estava começando na época, e a identidade foi muito grande. A aproximação do ponto que eu estava para o ponto em que eu queria chegar já ficou mais plausível.

Formação Musical
Grupo Momento Quatro / Primeira Gravação / Festival Internacional da Canção

Minha primeira experiência profissional como músico foi num grupo chamado Momento Quatro. Éramos eu, Zé Rodrix, Ricardo Vilas e David Tygel que depois veio a formar também o Boca Livre. Quando a gente começou, todos eram alunos do Colégio da Aplicação, e a gente matava aula junto fazendo música. Começamos a compor juntos ou separadamente para inscrever músicas em festivais da canção da época. Não tivemos nenhuma música classificada, mas isso não impediu da gente continuar trocando informações e começamos a aprender a cantar, para cantarmos as músicas. A nossa intenção, quando a gente começou a mostrar o trabalho, era vender o peixe das músicas que a gente estava fazendo. A gente teve um dos primeiros contatos com a Regina Werneck, que era do Quarteto em Cy, e na época ela nos apresentou a todo o pessoal do Quarteto e mais o Aluísio de Oliveira. E a gente foi a um ensaio que elas estavam fazendo na casa do Oscar Castro Neves, que é outro gênio também. E foi num ensaio assim que a gente mostrou as músicas que a gente tinha, composições nossas. O Aluísio de Oliveira, que era um cara de idéias, dono do selo Elenco, que gravou a maioria do pessoal da bossa nova, chegou e falou: “Vocês é que têm que cantar, essas músicas são pra vocês cantarem mesmo”. E na época – isso foi em 1966, portanto foi antes do começo da Tropicália – ele falou: “Vocês podiam usar umas coisas diferentes, podiam usar umas guitarras”. E a gente era meio MPB demais e ficamos assim meio assustados: “Nós não sabemos tocar guitarra”. A gente tocava violão, era uma coisa num molde mais tradicional, dentro do perfil da época. Mas ele já teve essa idéia antes do pessoal que depois veio trazer para a MPB as guitarras, as coisas assim. A gente acabou gravando dois discos, um LP pela Phillips. Teve uma vida efêmera o Momento Quatro, até o fim de 1968, um ano em que as coisas degringolaram todas no Brasil e a gente foi tomado de assalto por uma onda de muito medo, de muita insegurança e o grupo também não resistiu. Eu passei por cima de algumas coisas e acho que o Momento Quatro na verdade foi pra mim a entrada de todo um universo musical, profissional e de apresentação ao meio artístico de uma forma geral. A forma de me aproximar, de nos aproximarmos, eu e mais os outros, de todos daqueles ídolos. A gente sonhar em ser músico e de repente estava fazendo parte das mesmas coisas e nesse período de convivência a gente descobriu coisas muito importantes, que surpreendeu não só a nós, mas ao Brasil todo. Como foi o caso do Milton no festival de 1967, em que ele cantou “Travessia”, “Morro Velho” e “Maria Minha Fé”. E quando as pessoas ouviram aquele cara cantando daquele jeito, com aquele arranjo, aquelas músicas fantásticas, realmente foi uma parada, todo mundo pensou: “Peraí, tem coisa aí”. Foi um bicho completamente diferente. E aquilo era um jardim zoológico infestado de feras. De repente entra uma cara fazendo um negócio que ninguém sabia o que era, só sabia dizer que era uma coisa fantástica. Ali houve um impacto muito grande não só em mim e nos outros companheiros do Momento Quatro, mas acho que na música brasileira toda também. A gente viu o surgimento. Tinha gente que já se conhecia de antes, mas ali foi apresentada realmente a todos uma nova forma de sentir a música. E depois, como a música brasileira teve vários divisores de água, pelo menos na minha concepção, essa apresentação do Milton foi uma delas. Acho que muita gente pensou em música depois daquilo ali. Acho que era uma nova informação de composição, uma nova informação da maneira de cantar, de tocar, uma sonoridade que apareceu diferente, eu acho que isso tocou todo mundo. Apesar de não ter ganhado, eu acho que foi o verdadeiro vencedor daquele festival. Pra vencer não precisa tirar primeiro lugar, porque vence quem fica na verdade. Eu acho que festival era uma coisa que a princípio não me atraía muito pelo fato de ser uma competição. Em música não dá pra competir, são coisas totalmente díspares, você não pode classificar como competição coisas que são completamente diferentes. Isso acabou desvirtuando a função principal do festival, que era mostrar coisas novas que poderiam ser maravilhosas como foi o caso do Milton e como outras coisas que foram prejudicadas excessivamente pelo clima competitivo de festivais. Como foi “Sabiá” vaiado, impressionante, quer dizer, o que as pessoas queriam era uma música de apelo momentâneo que era o negócio do Geraldo Vandré e realmente era um absurdo vaiar uma coisa terna só por causa de uma questão de competição emocional. Então eu acho que a música nasce pra ser ouvida de outra forma, não pelo aspecto de competição. Então essa coisa de festival servia de qualquer forma pra trazer gente nova, não só pra mostrar o trabalho como também para influenciar na vontade das pessoas de mostrarem coisas. Então muita gente surgiu incentivada pelo fato de poder mostrar as coisas num festival e depois se tornar realmente uma expressão concreta dentro da música brasileira.

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Milton Nascimento

Na época, as pessoas todas se freqüentavam muito, tinham essa facilidade, o ambiente convidava as pessoas para irem em casa, ou coisas assim. Aí o Milton Nascimento, o Toninho Horta, o Nelson Ângelo eram pessoas que estavam vindo de Minas na mesma época. Eu me lembro que, numa determinada época, eu considero que a minha casa virou uma espécie de sucursal do Clube da Esquina no Rio de Janeiro. Milton adorava chegar na hora do almoço e pedir para a empregada que tinha lá, que era a Edwiges – ele adorava a Edwiges – para ela fazer umas empadinhas de queijo, porque ele era tarado pelas empadinhas de queijo. Ela adorava e ele também. E ela dizia: “Ih, chegou o Milton”, e ia fazer as empadinhas de queijo do Milton, que era simples, não exigia nada, mas ela já sabia e ia fazer. Era uma época que as pessoas tinham disponibilidade tanto para visitar os outros quanto para serem visitados, essa coisa que eu quero ver se a gente pode resgatar hoje em dia também. Ninguém marcava hora, chegava e ia e era uma coisa legal. Mas foi nessa época que a gente se envolveu mais pessoalmente. Desde que a maioria dos músicos de Minas começou a vir pro Rio, realmente o Clube da Esquina mudou. Não tinha mais a esquina, as esquinas podiam ser várias, mas o clube continuava por aqui também.

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Festival Internacional da Canção

O Momento Quatro foi a Belo Horizonte defender “Vera Cruz” com o Milton. Antes disso, eu não me lembro se foi antes, mas eu acho que uma coisa foi perto da outra. A gente já tinha feito coisas com o Milton, na primeira gravação de “Sentinela”, “Beco do Mota”. O Momento Quatro tinha feito os vocais, eu fiz os arranjos, e a gente chegou a gravar duas outras músicas, “Coragem” e o próprio “Vera Cruz”. “Coragem” acho que acabou não saindo em nenhum disco dele, mas depois ele gravou lá fora. E o “Vera Cruz” a gente foi defender no festival, arranjo do Eumir Deodato, uma coisa maravilhosa, Momento Quatro, Novelli de contrabaixo, Robertinho Silva de bateria e a música não foi classificada. Era pra classificar a música para o festival da Globo, que era o Festival da Canção, e não foi classificada. Foi uma das coisas mais jocosas. Não me lembro qual foi e não tenho nada contra as que foram, mas realmente “Vera Cruz” é uma musica eterna, é uma coisa maravilhosa. Por isso que esse negócio de festival competitivo é uma coisa muito estranha, é uma coisa que dá margem, quer dizer, quem sou eu pra dizer que uma musica é melhor que a outra, mas eu acho que é sim (risos). No segundo disco com o Milton eu fiz um arranjo orquestral e o Momento Quatro participou cantando algumas coisas. Eu fiz os arranjos vocais também, pouca coisa, mas era legal.

Formação Musical
Grupo Sagrada Família

Quando acabou o Momento Quatro, eu fiquei um período meio sem pai nem mãe em termos do que fazer e comecei a tocar baixo elétrico. E uma das primeiras coisas que eu fiz tocando baixo foi com o Nelsinho Ângelo e o Naná Vasconcelos. A gente chegou a formar um embrião de um trio chamado Os Trigêmeos, que era totalmente diferente. O apelido era Os Trigêmeos e a gente tocou junto num festival de 1969, Festival da Canção, uma música da Joyce com Sergio Flaksman, “Copacabana Velha de Guerra”, e eu tocava o baixo. Foi a primeira vez que eu toquei o baixo em grandes eventos e foi arranjo do Luizinho Eça – a gente já se conhecia. A gente já freqüentava a casa dele. O Bebeto Castilho tinha levado a gente lá para ver os ensaios do Tamba e coisas assim. O Luizinho estava começando, o Tamba tinha dado uma parada e tinha um outro pessoal que tinha ido pro México e ficado por lá. Ele estava querendo montar um novo grupo pra fazer uma temporada no México também e começou a pegar as pessoas que estavam mais perto, mais em volta, e me chamou pra tocar o baixo, chamou Nelsinho Ângelo, Naná Vasconcelos, Gegê da bateria, Cláudio Roditi de trompete com mais Bill Vaughan também, Zeca no trombone, Íon Muniz no sax e quatro cantoras, a própria Joyce, a Carminha, que na época era namorada do Luizinho, a Ângela e a Rose. Era a Sagrada Família, formada por 13 pessoas. Uma das outras opções de nome era a Última Ceia, mas como a gente estava apenas começando, não dava pra ser última. Fazer um dos primeiros trabalhos com o contrabaixo com um time assim é um sonho. Hoje eu vejo que é uma oportunidade que não surge para todo mundo. E o Luizinho Eça, que é canhoto, tocava piano e a mão esquerda dele voava. Então ele fazia aqueles baixos complicadíssimos naqueles arranjos no piano e eu tinha que reproduzir os baixos idênticos da mão esquerda dele, tinha que suar. Fazia aquelas gravações naquela linha de baixo e, puxa vida!, o negócio era bravo. Então foi um treino ótimo. A gente fazia vocais também, aprendizado realmente de primeira, dos grandes aprendizados que eu tive.

Pessoas
Oscar Castro Neves

Anteriormente, o Momento Quatro foi propiciado pelo convívio com o Oscar Castro Neves, que ainda é um dos grandes talentos da música brasileira como arranjador e como pessoa também é um cara fantástico. Ele me mostrou muita coisa: como fazer arranjo vocal, como era a estrutura musical dos arranjos vocais que a gente via ele fazendo. A gente trabalhou com ele num show acompanhando a Nara Leão no Teatro de Bolso de Ipanema e ele fazia os arranjos do show todo e dos vocais também. E eu comecei a perceber como era o encadeamento que fazia da parte das vozes e passei a fazer também os arranjos do Momento Quatro e do Boca Livre.

Pessoas
Joyce

Depois do Sagrada Família, eu já conhecia a Joyce. Começamos o Momento Quatro, e a Joyce estava sempre junto também. Era um grupo muito chegado com outras pessoas. E mais tarde, em 1975, a Joyce me chamou pra tocar num trio com ela, eu e Rubinho, baterista, acompanhando Vinicius de Moraes, numa temporada em Punta del Leste. A Joyce tinha casado com Nelsinho Ângelo, teve duas filhas e andou um tempo parada, meio afastada. Ela ficou meio dona de casa durante um tempo e tinha se separado no ano anterior e estava querendo retomar a carreira artística e um dos primeiros shows foi exatamente esse. Ela me chamou e ao Rubinho e a gente foi para Punta del Leste e eu e ela acabamos voltando casados. A gente ficou junto durante dois anos e começamos uma espécie de parceria de duo, uma coisa de dois violões, vozes. Chegamos a fazer muitos shows por aqui e viajamos para a Europa no ano de 1976. Viajamos depois para os Estados Unidos e para Nova York, de onde ela voltou casada como Tutty Moreno, com quem está até hoje, graças a Deus, e é um casal maravilhoso. (risos) Mas a parceria praticamente começou depois desse período, a gente já não estava mais junto. Ela fez a letra de “Mistérios”. Tinha ouvido eu cantar para ela uma vez ou duas, sei lá, eu nem me lembrava mais, e ela veio com a letra e a segunda parte. Ela fez a letra de “Clareana” quando a gente ainda estava junto, mas era uma música que eu tinha composto bem antes também. Tanto “Mistérios” quanto “Clareana” eu tinha composto antes da parceria, digamos assim, e ela fez a letra depois. E daí pra cá a gente fez muita música juntos também e o Boca Livre gravou outras tantas. Realmente é uma pessoa que tem uma facilidade extrema para tocar, cantar, compor música, melodia e letra, pegar um tema e desenvolver de uma forma realmente brilhante. Ela tem uma capacidade muito grande de expressão em várias línguas. É uma poliglota não só da parte de conhecimento da língua, mas da sonoridade. Ela é capaz de falar perfeitamente português, coisa que muita gente não consegue, inglês, francês, italiano, espanhol sem sotaque nenhum e direito. Então realmente isso a ajuda muito na carreira internacional e realmente ela tem um currículo invejável.

Formação Musical
Boca Livre

O Boca Livre exatamente sucedeu o fim dessa minha fase de tocar com a Joyce. A gente começou a se encontrar no fim de 1977, começo de 1978. O Davi, que fez parte do Momento Quatro, andou também sumido, aí ele começou, durante 1976, a organizar shows no Morro da Urca. O Davi foi o cara que idealizou e começou a realizar efetivamente os shows no Morro da Urca, um projeto chamado “Quem Sabe, Sobe”, antes de virar “Noites Cariocas”, antes de ser meio boate. Era um negócio de música brasileira, palco ao ar livre, maravilhoso, e por lá passou Caetano Veloso… Geraldinho Azevedo e Zé Ramalho começaram lá, foram apresentados praticamente ao público do Rio de Janeiro. Tinha shows instrumentais, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti. Eu e a Joyce chegamos a fazer shows lá também, muita gente. Cheguei a tocar lá uma vez acompanhando Aracy de Almeida, eu de vilão e ela cantando. É uma coisa interessante porque eu nunca fui dessa praia de música mais antiga, mas eu conhecia todo o repertório, ela estava precisando de alguém, aí eu fui lá. Foi uma experiência curiosa e sensacional. E dessa época também começou um contato com certos grupos novos que estavam acontecendo, começando também como o grupo Cantares, grupo Semente. O Semente era um grupo que tinha um vocalista maravilhoso, composições interessantíssimas e esse cara eu vi pela primeira vez num programa da TVE com Paulo Tapajós apresentando. O grupo era o Semente e o cara era o Zé Renato. O Zé Renato também é outro que, quando você ouve pela primeira vez, pára tudo. Ouvir o Zé Renato pela primeira vez foi que nem ouvir o Milton: “Parou, esse aí é diferente”. E eu tive a felicidade de depois ele aceitar fazer parte do Boca Livre. Além de ser um cara sensacional é um deus cantando, tem um registro de voz absurdamente bonito e musical e compõe muito bem, então traz toda a informação necessária para nutrir um bom grupo. E ele trouxe o Cláudio Nucci, que também é outro cara maravilhoso com uma capacidade imensa de compor, de se dar com o grupo, exímio vocalista, um cara com uma musicalidade fantástica e foi a primeira formação do Boca Livre que não durou o tempo, talvez, que a gente desejasse. Houve dissidências internas e acabou saindo o Cláudio e entrou o Lourenço, que está até hoje, que também é outro cara de uma musicalidade fantástica, é um coringa, toca flauta, violão, percussão, canta, compõe. Todo pessoal que faz ou fez parte do Boca Livre precisava atender mais de uma função para a coisa andar. Depois veio o Fernando Gama. Trabalhamos muito tempo juntos é um cara também de muita capacidade. Instrumentalmente é o melhor de nós todos, realmente é um virtuose, de violão, contrabaixo, canta muito, tem uma experiência fantástica. E acho que é um grupo que tem umas diferenciações apesar de ter muita gente que confunde algumas coisa do trabalho do Boca Livre, 14 Bis, Roupa Nova. Às vezes até pedem pra gente cantar música dos outros grupos e para eles também. Isso é uma coisa natural porque às vezes a pessoa ouve no rádio só algumas músicas e não faz muita distinção. Na hora que toca no rádio, ninguém está dizendo quem é que está cantando, então as pessoas confundem porque todos somos vocalistas também, então isso aproxima também o grupo. E é engraçado que, para mostrar certas semelhanças e diferenças, o Boca Livre e o 14 Bis se juntaram para gravar um disco ao vivo e fizemos muita coisa juntos também. Foi uma experiência muito interessante porque ao vivo dá para você ter uma distinção maior entre o que é uma coisa e o que é outra. Existem diferenças fundamentais. O trabalho do 14 Bis é mais calcado no instrumental mais pesado, que eles dominam muito bem, e o Boca Livre é mais calcado no vocal, que a gente domina. Nós pusemos os instrumentos mais como acompanhamento e eles usam os instrumentos mais como parte integrante do arranjo de uma forma diferente. Eu acho que os dois fazem as duas coisas mais ou menos semelhantes, mas as diferenças são acentuadas com os dois juntos no mesmo palco. Alias, sobre essas junções, o Boca Livre também teve uma experiência muito boa também quando a gente se juntou ao MPB-4 em 1980. Todos os dois grupos tinham acabado de fazer temporadas longas em teatros no Rio de Janeiro durante o verão. Nós no Teatro dos Quatro e eles no Teresa Raquel. Temporadas assim de dois meses, cheios. Na época que ainda se fazia show de música em teatro, resolvemos no fim do verão fazer um show juntos, lá na Concha Acústica da UERJ. Foi um show que teve tanta gente que as pessoas pulavam o muro, não parava de entrar gente, teve mais de dez mil pessoas. Foi uma surpresa e mais uma constatação de que o público gosta das coisas bem feitas, elaboradas. O público existe, a questão é criar a motivação.

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Origem

Foi na época de 1967, 1968 mais ou menos, época em que o pessoal estava chegando. Não é que teve uma sucursal, não teria uma, na verdade foram várias. O Rio de Janeiro todo foi uma sucursal, onde cada um morava. Na época, o Milton morava com várias pessoas. As sucursais aconteciam naturalmente, mas uma pequena, uma minifilial seria lá em casa também. Nessa época, o pessoal estava começando a descobrir as coisas, se descobrindo existencialmente também, mudando muito a forma de comportamento. Era uma época de muita mudança. Então todas as experiências que a gente ia passando eram incorporadas tanto na música como na vivência de cada um. Eram grupos, a gente saía para ir assistir shows juntos, convivia um na casa do outro, saia pra tomar porre juntos. Por exemplo, na época que a gente foi lá para Belo Horizonte cantar “Vera Cruz”, depois da apresentação a gente foi para casa, se não me engano, do Fernando Brant e eu fiquei tão bêbado que eu não me lembro casa de quem era, se era casa do Fernando, se era do Roberto Brant, irmão dele. Eu sei que foi um porre tão federal que eu não sabia o que tinha acontecido. Tudo o que me contarem eu acredito, porque realmente eu não me lembro de nada. Então era assim, a gente ia descobrindo as coisas, ao mesmo tempo em que ia fazendo música e vendo acontecer.

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Clube da Esquina

Para a música eu acho que o Clube da Esquina trouxe uma sensibilidade mineira que eu não sei se vem daquelas montanhas harmoniosas, daquela convivência meio bucólica daquelas pradarias, da energia daquele minério, não sei o que é. Eles trazem a questão da harmonia na música, uma coisa muito forte. Para o meu campo de atuação, o vocal, é um prato cheio. Todos esses compositores são excelentes harmonizadores, então eu acho que traz uma visão musical que ainda é muito importante dentro da formação do ouvido brasileiro. É diferente da coisa carioca que aqui é às vezes mais suingada, mais sambística, alguma coisa assim. Minas vinha com as coisas das toadas, um negócio mais sinfônico em termos da concepção, por um lado. “Morro Velho”, daquela época, é uma música de uma densidade, uma coisa fantástica. Além de várias outras composições. Iuri Popov, que é o nosso russo infiltrado lá no norte de Minas, é um cara que tem uma composição com uma harmonia fantástica, é uma outra cabeça de harmonização. Mesmo os caras mais pops, Lô Borges, Beto Guedes, são elaboradíssimos na parte harmônica, fazem coisas que são simples, mas interessantes como forma de expressão. Tem uma outra vertente, por exemplo, o Tavinho Moura, que às vezes tem coisas que são aparentemente mais simples em gênero, mas são complicadíssimas e são naturais. A gente vai percebendo cada um, como Toninho Horta, que para mim é o maior guitarrista do mundo, é o cara que consegue fazer o som de violão mais bonito que eu já vi e a concepção harmônica da mais absurdamente incrível. As composições dele são impressionantes, a capacidade que ele tem de criar soluções fantásticas dentro de coisas aparentemente simples… Realmente é uma turma brava (risos).

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Clube da Esquina: 1972

Quando eu ouvi o disco, não senti nada tão diferente do que eu já conhecia. O que me trouxe de novo foi o Lô, que era um cara que eu ainda não conhecia bem, e foi trazendo talvez novas possibilidades da parte de gravação. Foi uma época em que as formas de gravação evoluíram muito, se não me engano foi um dos primeiros, senão o primeiro disco da Odeon gravado em oito canais, que já era uma coisa impensável. Antigamente era gravado em dois canais, fazia back, gravava toda a base em dois canais, aí fazia voz em play-back. Depois disso veio a época multitrack, que foi uma coisa que trouxe uma grande inovação. Já foi possível fazer outro tipo de sonoridade bem diferente, com uma riqueza maior. E ao mesmo tempo trazendo novas composições, trazendo outras pessoas que também começaram a formar um bolo maior ainda em termos de diversidade da música mineira. Não só mineira, porque o Clube da Esquina não se limitava a Minas, Minas era apenas o centro por causa do Milton, mas tinha Danilo Caymmi, Novelli, muita gente que se agora eu começar a falar eu posso esquecer. Então realmente foi um disco que chamou muita atenção, não me surpreendeu tanto porque eu já conhecia a origem de tudo, mas é um disco fantástico até hoje.

Disco
Clube da Esquina 2: 1978

Eu gravei “Mistérios”, foi a primeira gravação de “Mistérios”. Eu fiz o arranjo instrumental e vocal e a Joyce fez o arranjo de base. E foi uma das primeiras gravações do Boca Livre. A gente tinha feito antes uma gravação para o Vital Lima lá de Belém, mas essa foi a primeira gravação de “Mistérios”. A gravação era uma loucura, digamos assim. Era muita gente gravando, eram sessões intermináveis. (risos) Era uma época em que as pessoas podiam fazer, ou talvez ainda possam, mas na época ainda se fazia muito: juntava toda a turma para gravar e ali o leque se abriu ainda mais. O número de pessoas que participou daquele disco foi fantástico, realmente uma coisa imensa. Mas esse clima eu já conhecia de antes, de todos os outros discos do Milton, menos do primeiro, que eu não o conhecia; só conhecia ouvindo, eu não participei de nada. A partir do segundo, eu participei de muita coisa, gravação de coro, chamava todo mundo pra tocar, pintava alguém: “Ah, você está aí? Então faz uma percussão”. Era todo mundo já do mesmo clube, não ia lá pra ganhar cachê, não tinha esse negócio, a gente ia porque gostava e estava ali na hora. Eu acho que, se não foi movimento, pelo menos foi muito movimentado.

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Ditadura Militar

Na época, a gente era disponível, as pessoas tinham disponibilidade. E de repente nada soava estranho. Márcio me liga à meia-noite e fala: “Pode emprestar teu carro? Tem uma pessoa que precisa ser levada para Belo Horizonte pois está com problemas de perseguição política. Tem que ser hoje e você é o cara que tem o carro. Você pode me emprestar o carro?”. “Ah, emprestar eu não sei se dá não, mas eu vou.” E aí eu fui junto. Saímos à meia-noite, uma hora, e fomos de carro pela estrada velha. Se fosse a estrada nova seria uma beleza, mas fomos pela estrada velha, aquela que passava dentro de Juiz de Fora, com curva pra burro. Chegamos lá em Belo Horizonte de manhã. Aí deixamos a pessoa no local necessário, fomos tomar um café da manhã e resolvemos voltar na hora. Só que naquela época a gente pensa que não tem limites físicos, aquela coisa toda. Aí eu fui pegar para dirigir, devia estar com a cabeça não muito alerta, e teve um problema na estrada. Eu acho que estava começando a chover, e o carro deu uma derrapada numa curva que estava na descida e eu não tive habilidade suficiente para controlar o carro e ele acabou rodando, capotando e por sorte em um lugar seguro. Se fosse para o outro lado, teria tido conseqüências piores. Ali perto de Congonhas a gente acabou com a aventura e o carro. Cada um tinha problemas. O Márcio tinha que voltar para se apresentar lá no trabalho dele para não criar nenhum problema, levantar as suspeitas. Eu também teria que voltar, mas também não deu. Eu tinha que levar o carro que não era meu, que eu peguei emprestado para essa aventura e tive que ligar falando: “Olha, peguei o carro emprestado e vim para Belo Horizonte”, tive que explicar. Por sorte, meus pais não se surpreenderam porque meu irmão já tinha tido problemas com política. Eles já eram escolados nessa parte de saber que as pessoas tinham necessidade de às vezes se esconder, porque meu irmão já tinha tido problemas com questão de movimento estudantil, então eu pude falar para eles diretamente do que é que se tratava. O motivo eles entenderam e não me deixaram de castigo. O carro estava no seguro, então deu pra respirar um pouquinho. Mas de qualquer maneira era uma situação muito incômoda pelo geral, embora ninguém tenha se machucado seriamente. Foi um susto muito grande, mas valeu a pena. O importante é que as coisas foram feitas, e são elas que dão graça à vida. A gente tem essa coisa para mostrar, para lembrar, e essas situações a gente tem que guardar com carinho. São sustos que a gente passa, mas que valem para a gente ter noção que tem horas que não adianta pensar: “Isso aí vai ser legal, ou não vai ser”. Tem que ser e foi. A gente faz e depois, se acontecer alguma coisa, algum problema, a gente sofre as conseqüências.

Formação Musical
Aprimoramento

Quando eu comecei a estudar, resolvi estudar realmente música. Meus pais sempre insistiram para eu estudar música também, mas eu achava que dava para aprender sozinho. Mas quando eu comecei a querer escrever música e fazer arranjo, eu vi que precisava escrever direito, ler, me alfabetizar. Eu já conhecia por outras pessoas a fama justificada da professora Wilma Graça, que era professora da maioria dos cobras da MPB que estavam começando. Realmente era fantástica a capacidade dela para ensinar. Tinha grande jovialidade. A casa dela era um clube da esquina dessa música, dessa época anterior um pouco. O Milton inclusive já estudou lá. Mas à casa da Wilma chegava um e saía outro, e quem tinha aula às duas da tarde ia ficando e aí ia acumulando. Quando dava sete da noite estava uma turma imensa. Uns ficavam lá no quarto onde tinha o piano aprendendo e os outros ficavam conversando. Então era realmente um lugar de ponto de encontro, além de lugar de estudo. Era um lugar de conhecimento. Eu acho que nada é sem conhecimento, estudo é uma coisa técnica, mas o conhecimento não. Eu acho que, graças a Deus, toda essa geração teve onde estudar e teve onde conhecer. Uma coisa completa a outra, a troca de informações espontânea solidifica a troca de informações, digamos assim, escolar ou didática. E a única coisa que eu realmente lamento profundamente dessa época que eu estudei com a Wilma Graça é que resolvi só estudar solfejo – porque ela era uma grande pianista, concertista maravilhosa. Meu instrumento era o violão e eu não quis estudar piano e me arrependo profundamente, porque seria a oportunidade de tocar piano e desenvolver uma coisa que hoje eu não sei usar. Eu sei tocar piano só pra fazer arranjo. Eu acho que o piano é um instrumento fantástico, mas como eu vinha daquela coisa, achava que o violão bastava e fiquei nessa, mas o resto foi tudo bom.

Família
Casamento

Eu fui casado três vezes. A primeira vez foi com a Joyce naquele período. Depois, eu casei durante 24 anos com uma mineira, a Danuza, e tive dois filhos. A gente se separou mais ou menos há quatro anos. Hoje, eu estou casado com a Kay Lyra, que é também de família de músicos – Carlos Lyra, Kate Lyra, que são artistas também –, e é uma pessoa que eu amo muito, fantástica, talentosa, canta maravilhosamente bem, compõe muito bem também, é musical e é uma pessoa muito importante pra mim.

Família
Filhos

Desse segundo casamento eu tenho dois filhos. O Francisco é músico tecladista, pianista e está fazendo o que eu não fiz, que é seguir pelo piano. Eu toco no grupo dele, Chama Violeta. Ele me chamou para ser o baixista e eu vou com muito orgulho. É um grupo de música instrumental, meio jazz, progressivo, música brasileira também, mas é um trabalho instrumental de nível altíssimo de composição. Ainda não tem CD, está começando a fazer, talvez venha a ter, a gente está planejando isso. Mas é um caminho mais difícil, música instrumental, composições próprias e sem nenhum apelo comercial. Para ele realmente não é a questão, a questão é o prazer de fazer. Ele é uma pessoa muito íntegra dentro do que se propõe a fazer e eu acredito que vai chegar a hora que as coisas vão ser reconhecidas, porque é um trabalho de muita qualidade e de me dá muito prazer de tocar, aprendo muito também com ele. Ele tem uma cabeça já antenada com muitas coisas que talvez eu só vá alcançar por intermédio das cabeças como a dele. Ele se formou dentro de outra época, mas conhece bastante Clube da Esquina, ele é antenado com tudo. E eu tenho que falar de minha filha Ana também. Ela foi pelo outro lado que eu acabei não indo, o desenho industrial. Ela estuda Desenho Industrial na PUC, é a primeira aluna, tem bolsa integral, é chato, puxa vida (risos). E ela não é Caxias não, ela estuda naturalmente, ela gosta das coisas e vai e tira boas notas. Onde eu parei, eles foram indo. Isso é bom para ver que os filhos são a continuidade da gente

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Clube da Esquina

Eu achei fantástico dar o depoimento, eu gosto de falar. Eu era muito tímido, mas eu de repente comecei a descobrir que podia falar e eu achei bom e agora tem que me mandar parar. Eu começo às vezes num assunto e vou emendando uma coisa na outra, vêm idéias. Claro que daqui a cinco minutos, quando a gente acabar aqui, eu vou lembrar de 30 coisas que eu gostaria de ter falado e aí vai ser tarde, mas eu marco uma outra entrevista. Vocês me encaminharam muito bem, não me deixaram fugir tanto, para me concentrar mais nas coisas diretas, e ao mesmo tempo me deixaram bem à vontade para poder falar coisas que eu estava pensando na hora.

Formação Musical
Clube da Esquina: avaliação

As coisas mais ou menos se misturavam na época. Eu estive na casa do Marcinho Borges, lá nos Borges, aquela fantástica reunião de figuras incríveis, musicais e animadíssimas, e era um lugar de efervescência, pensamento, música e convivência. Também estive convivendo com o pessoal lá do Fernando Brant, a família dos Brant, que era também outro núcleo de cabeças legais. Tive muita convivência também com Nelsinho Ângelo, que eu acho um excelente compositor, um violonista compositor dos mais criativos que eu já vi. Nelsinho chegou a morar um tempo na minha casa lá no Flamengo na época que ele veio para o Rio de Janeiro. Ele ainda estava sem lugar para morar e morou um período lá, então a gente trocava figurinhas durante muito tempo. É um cara que tem uma musicalidade fantástica, e é uma figura muito engraçada, cheio de caso pra contar. Mineiro tem essa coisa de muitos casos pra contar, o Clube da Esquina é muito rico com essas passagens. Eu não sou muito contador de casos, histórias, minha memória não é tão rica assim não. Eu acho que quando eu vou sendo perguntado, eu vou me lembrando. Não sou de ter tantas coisas a contar. Você perguntou o que eu mais teria a dizer, eu não sei, eu acho que é uma sensação geral que da minha parte se mistura muito com aquela coisa anterior que o Rio de Janeiro tinha. Eu peguei a mistura das duas coisas, eu não tenho aquela informação original do Clube da Esquina em Minas, eu tenho a informação da junção dele com a perspectiva que existia no Rio de Janeiro. Era uma época realmente de efervescência de todos os tipos, tanto política quanto de pensamento. Eu não posso também esquecer de uma questão. Eu falei muito da parte musical, mas a parte das letras era uma nova linguagem que eu vi chegando à parte da informação das palavras, a forma de se expressar, até de driblar as proibições da época da censura, a forma de falar as coisas com imagens, de criar sugestões da vivência por metáforas, isso daí também é uma coisa que veio dentro da mesma ótica. Às vezes muitas coisas não foram ditas diretamente, mas está tudo lá, todos os assuntos, ninguém se esquivou de falar sobre todas as necessidades, não só da vida brasileira, como da vida de cada um. Se você for ver bem, está tudo ali.

Formação Musical
Clube da Esquina: museu

Eu acho que brasileiro tem memória. Muita gente fala que brasileiro não tem memória; tem, mas às vezes falta o lugar pra guardar, falta o acesso. E essa é uma forma de dar acesso e se tornar mais fácil, porque muitas vezes a memória da gente não funciona, a gente esquece. Está lá, mas está guardado e muitas vezes a gente não sabe processar. Então às vezes a coisa vem, como hoje. Eu estou lembrando de coisas que eu não lembro todo dia. E de certa forma a memória não é a memória mecânica dos fatos, de colocar verbalmente. É a memória emocional do que aquilo me remete, é uma forma de me sentir capaz de ter ainda as mesmas emoções, sensações daquela época. Eu acho que é isso que faz com que os sonhos e as pessoas não envelheçam.

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