Milton Nascimento

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Voltar ao topo MILTON NASCIMENTO POR BITUCA. E VICE-VERSA

Entrevista concedida a Márcio Borges publicada originalmente no livreto da Coleção
Milton Nascimento – Uma Travessia de Sucessos, produzida por Seleções Reader´s Digest

Esta deve ser uma das maiores entrevistas que Milton Nascimento já concedeu em sua vida. Diz ele que é a maior. Ela aconteceu no espaço de 24 horas, em sua bela casa, situada no alto de uma montanha, num condomínio fechado da Joatinga, Rio. Começou na tarde chuvosa de uma quinta-feira, dia 19 de novembro de 98, logo depois de uma sessão de fotos comandada por nosso bom e velho Cafi. Quer dizer, começou mesmo foi dias antes, à minha revelia, quando Milton me escolheu para ser o repórter desta empreitada da Seleções Reader’s Digest, logo eu, que pensava conheçer de cór as respostas e os casos. E mesmo assim, Bituca, como sempre, me surpreendeu. Contou tudo de novo, mas sob uma ótica totalmente nova e pessoal. Falou de coisas que nunca tinha falado a ninguém. Relembrou coisas praticamente de dentro do berço. Por volta das onze e meia da noite, paramos para ver um filme de Clint Eastwood e depois nos recolhemos. Na manhã de sexta-feira, antes das dez, já estava Bituca rondando minha cama: “Das Baixínhans, vamos trabalhar!” Saboreamos nosso frugal café-da-manhã e continuamos nossa conversa até as três da tarde, almoçando sem parar a conversa, quando então, depois da sobremesa, demos por encerrada a missão e seu chofer me conduziu de volta ao aeroporto, o mais rápido possível de volta ao meu computador. O material, quase cinco horas de gravação, é simplesmente a vida deste extraordinário artista narrada por ele mesmo, e contém a parte mais importante do muito que foi conversado entre nós dois naquelas 24 horas. Aqui ele comenta também a sua própria obra, quase música a música. Cada uma delas tem uma história, uma identidade e um passado. Entrego o material tal como foi captado, procurando manter a espontaneidade e o clima dos diálogos. Acresço que quase 99% do tempo estivemos apenas eu e Bituca reunidos, isolados do movimento da casa, do barulho, dos telefones e compromissos. Durou pouco, mas rendeu este lindo material. A gente é assim.

Voltar ao topo Capítulo 1.

O preço do estrelato

MÁRCIO – Bituca, a primeira coisa que eu queria conversar com você: em vez da gente começar pelas letras, começar pelas coisas pessoais, pra gente já ficar logo num clima. Você já foi perguntado zil vezes, e depois o mundo inteiro sabe, o que a cultura ganhou, o que a música ganhou, o que você próprio ganhou com sua vida, com sua carreira. Eu gostaria de perguntar bem direto pra você pensar: o que você perdeu, o que você considera que foi uma perda, com o estrelato, com a fama, com sua vida pública? Porque você virou uma pessoa pública, né…Então é isso: você considera que perdeu alguma coisa? E o que foi?
BITUCA – Bom, o que eu acho que perdi, mas eu acho, né, porque a coisa que eu mais prezo na minha vida é conhecer pessoas, fazer amizades, ter tempo pra isso, e agora depois que a gente fica conhecido fica mais difícil, porque as pessoas reconhecem o artista e se aproximam do artista, é claro, porque é quem eles conhecem, e muitas vezes eles se esquecem da pessoa.Isso é uma coisa tão forte que, por exemplo, às vezes eu chego pra alguém e falo da importância que essa pessoa tem pra mim e ela não acredita, ela acha que eu é que tenho importância pra ela e ela não tem importância pra mim.
MÁRCIO – Eu mesmo já vi e fui testemunha várias vezes, de sentir você, eu não diria frustrado, porque você não tem nenhum motivo para ser uma pessoa frustrada, mas incomodado com isso, porque senti que você perde aquele espaço que tinha quando era um ilustre desconhecido, que era um espaço de poder fazer as coisas mais irresponsavelmente, ou seja, uma irreponsabilidade no sentido de não carregar no seu ombro tanta coisa. Eu particularmente acho que isso foi uma coisa que você perdeu como pessoa, foi privado disso, desse contato expontâneo com os outros. Você era um cara que fazia amizade dentro de ônibus. Você conheceu, por exemplo, o Fernando Brant dentro de um ônibus, você fazia amizade com pessoa andando na rua, eu me lembro disso. Você era uma pessoa muito dada, era mesmo uma espécie de pesquisador disso, das pessoas, da alma humana…
BITUCA – Inclusive esse negócio que eu estava falando, das pessoas não acreditarem o quanto que elas possam ser importantes pra mim, isso é uma coisa muito forte e muito difícil, porque eu tenho que ficar o tempo todo tentando provar para as pessoas que elas são importantes pra mim e que sem elas eu não sou nada. E fica ruço, isso porque as pessoas veem o artista mesmo, aquele negócio… Eu prefiro mais, assim, que uma pessoa chegue e me dê um abraço, ou me dê um beijo, do que me peça um autógrafo… porque o autógrafo é legal e tudo, é uma coisa que conquista as pessoas, que elas guardam no coração, essas coisas todas, mas aí você dá o autógrafo àquela ali, aí a pessoa vai embora e você nunca mais vai ver aquela pessoa, você não conversou nada, né…
MÁRCIO – De repente você estava muito mais a fim de levar ela em casa, ficar uma noite inteira conversando com ela, do que entregar um autógrafo só…
BITUCA – É isso mesmo, justamente o que acontecia antes. Então, isso eu acho que foi a maior perda. Por exemplo: cada vez mais eu fico mais conhecido e tenho mais ofertas de shows, essas coisas todas. Até onde eu pude, por exemplo, ficar quatro dias numa cidade, pra depois cantar, era o que eu gostava de fazer, o que eu gosto de fazer, mas não tem mais tempo…
MÁRCIO – Claro, conhecia primeiro a cidade, conhecia primeiro as pessoas, os pontos, né, buscava uma relação mais íntima com tudo. Isso eu acho que foi sua grande perda mesmo, essa liberdade. Quer dizer, o mundo ganhou Milton Nascimento e …o mundo está perdendo o Bituca. E eu acho o seguinte: que é páreo duro Bituca com Milton Nascimento. Eu, por ser criado, nascido e crescido junto com Bituca, pra mim a personalidadade do Bituca é muito maior do que a personalidade do Milton Nascimento, porque ela inclusive engloba a personalidade de Milton Nascimento e ainda luta pra continuar sendo o Bituca…
BITUCA – É, é isso aí.
MÁRCIO – A parte do Bituca já fica então situada (risos).

Voltar ao topo Capítulo 2.

Do Nascimento de Milton

MÁRCIO – Então vamos falar do Milton Nascimento.Você se lembra de uma vez que me falou que se você fosse famoso a primeira coisa que ia fazer era mudar de nome, que Milton Nascimento não tinha sonoridade? A gente ficava brincando, você inventava uns, tipo Wilson Bittencourt, não-sei-quê, você lembra disso?
BITUCA – É que eu nunca gostei do nome, Milton Nascimento…
MÁRCIO – Pois é, me fala disso. Porque eu acho genial esse nome Milton, inclusive tenho um irmão chamado Milton, o Marcos Milton, né?
BITUCA – Pois é, mas eu tinha um problema com esse Milton Nascimento que eu nem sei explicar daonde que veio, e nem porque. E é uma coisa interessante… Hoje, por exemplo, quando eu vou pra algum lugar, na rua, se alguém me chama de Milton eu até me sinto assim apto a olhar pra essa pessoa, e coisa, mas se me chama de Milton Nascimento…(risos) é um peso tão grande! É, chegar a pessoa “Oi Milton Nascimento!” é outra coisa do que me chamar de Milton, não é? Mas eu não gostava nem do Milton nem do Nascimento. Mas agora eu gosto. Eu gosto agora. Mas eu preferia que as pessoas me chamassem de Milton.
MÁRCIO – Está bom. Agora, qual é a memória mais antiga que você tem, memória de Bituca ou Milton Nascimento. Qual a coisa mais antiga que você lembra? Por exemplo, a sua mais tenra infância na Tijuca. Porque hoje você é um artista do mundo, mas muito tempo você foi considerado sinônimo da música mineira. E hoje todo mundo sabe que você nem mineiro é. Então fala desse carioca da Tijuca, Bituca.
BITUCA – Bom, minha mãe, de sangue, trabalhava na casa da minha madrinha, que era mãe da minha mãe adotiva. Então, mesmo antes de ir pra Três Pontas com dois anos, ou lá o que seja, eu e minha mãe Lília nos adotamos. Então, era a pessoa que eu mais amava nesta vida. Desde que eu era pequenininho eu só queria saber dela, chamava ela de Iazinha… e ela só sabia de mim…
MÁRCIO – Ficava grudado nela o tempo todo.
BITUCA – Grudado, o tempo todo!
MÁRCIO – Aquela coisa de menino de dois anos, que adota um e não desgruda.
BITUCA – Antes disso, antes disso! Então era aquele negócio. E eu lembro mesmo que ficava muito feliz toda vez que ela aparecia, né, e era uma porção de gente lá em casa, que era uma pensão da minha madrinha, mas era com ela, pra ela que eu abria os braços. Então, a coisa que eu lembro mais assim… é do piano que tinha na casa da minha madrinha e que a Lília, né, minha mãe, tocava, estudava, a irmã dela também, e eu com esses dois anos de idade, ou menos.. dois anos eu fui pra Três Pontas, então é menos! Eu já ficava do lado, balançando e sussurrando qualquer coisa e elas me botavam no colo pra eu tocar o piano, eu acertava algumas notas lá, e coisa. Isso é a memória mais antiga que eu lembro disso.

Voltar ao topo Capítulo 3.

Pais naturais: brigas e buscas

BITUCA – Agora, lembro também duma época mais pra trás, quando minha mãe de sangue ainda estava com meu pai de sangue também, e eu lembro de brigas deles. E eu lembro que uma vez atirei uma… uma…escova de dentes no…nesse meu pai. Isso foi em Juiz de Fora.
MÁRCIO – Então isso é memória de seu primeiro ano de vida. Seria, né?
BITUCA – Seria sim.
MÁRCIO – O que mais você lembra desse seu primeiro ano de vida? Você se lembra da Lília, sua mãe pela vida, né, lembra as brigas de sua mãe natural com o seu pai…
BITUCA – É.
MÁRCIO – …E qual é a última memória que você tem de sua mãe natural?
(Pausa longa)
BITUCA – Eu não sei. Não guardei não.
MÁRCIO – Você só lembra dela viva mesmo, não é? Agora, eu me lembro que depois que você era mais jovem, você perdeu seu pai de vista durante muitos anos, né, mas uma vez você chegou a reencontrá-lo, não foi?
BITUCA – Não, não. Isso foi uma história muito…eu acho fantástica, como as coisas da minha vida. Que eu estava fazendo um show, logo depois do festival da Travessia, esses negócios, a gente estava fazendo um show lá em Ipanema e apareceu a minha prima Wilma, que é uma pessoa que era tão parecida comigo que, inclusive, ela foi várias vezes em Três Pontas, na casa dos meus pais, e ela ficava na porta, aí paravam carros e ela dava autógrafos como se fosse eu.
(Risos)
MÁRCIO – A Wilma é muito sósia mesmo, ela é impressionante!
BITUCA – A Wilma chegou, aí eu perguntei a ela se ela tinha notícias do meu pai…Porque eu não queria nenhum… nenhum contato, assim, eu queria só ver. E ela, depois de muito trabalho lá, descobriu aonde esse meu pai estava. Aí nós fomos…foi uma coisa completamente maluca, porque nós saímos de Copacabana, que eu morava, fomos pra Tijuca e quando a gente parou e ela falou: “é aqui!”, era justamente no mesmo local quando eu tinha morado com a minha madrinha e com minha mãe e com Lília e com coisa… No mesmo, só que era uma casa quando eu morei e depois fizeram um edifício. Então ele estava morando no lugar que eu morei. Ele era porteiro do prédio que fizeram lá, em frente ao Tijuca Tênis Clube e do lado da Igreja da…do Sagrado Coração, acho que é isso. Eu fiquei bobo na hora que vi. Eu falei: “eu não acredito que..que ele tá aqui”
MÁRCIO – Você chegou a vê-lo?
BITUCA – Quando eu cheguei tinha um cara lá, o porteiro, e falou que ele tinha sido despedido na véspera. Aí nunca mais tive notícia nenhuma dele.
MÁRCIO – Puxa!! Tem uns vinte anos isso.
BITUCA – Foi no ano da Travessia. Tem trinta anos isso.
MÁRCIO – Foi sua última referência, que você teve dele.
BITUCA – Foi. Eu não sei nada, não sei nada dele.
MÁRCIO – Você imagina que ela saiba que é seu pai, sendo você a pessoa famosa e internacionalmente conhecida que é?
BITUCA – Eu acho que sim, né, porque não é possível que ele não saiba, que ele ainda não tenha atinado pra alguma coisa.
MÁRCIO – O que você faria se seu pai um dia aparecesse? Vamos supor que, se por algum destino qualquer de Deus, seu pai esteja vivo hoje, e um dia aparecesse para você e dissesse: “Bituca, sou seu pai.”
BITUCA – Olha, eu cumprimentaria como eu cumprimento qualquer pessoa, porque na realidade o meu pai se chama Josino de Brito Campos, e está em Três Pontas, e vem pro Rio, não-sei-quê…Então, ele é que é meu pai. Então eu receberia como uma pessoa, trataria super-bem…
MÁRCIO – O fato dele ser seu pai, pra você, é um mero acidente biológico.
BITUCA – Justamente.

Voltar ao topo Capítulo 4.

Pais adotivos: música e astronomia

MÁRCIO – Bom, aí você fez dois anos, foi pra Três Pontas. A dona Lília era aluna do Villa Lobos, né, aqui no tempo do Rio de Janeiro, mas levou consigo essa carga. Ela era um pessoa, digamos, mais evoluida intelectual, espiritual e culturalmente do que a cidade de Três Pontas na época, porque eu me lembro que já conversei pessoalmente com ela isso, quando a gente tinha a graça de tê-la ainda, né? (Bituca vai concordando) Eu sentia nela aquela inquietação de…de quem tinha convivido, ou seja, ela foi aluna de Villa Lobos, não precisa ir mais longe. Como é que você chegou na música? Mas eu não digo assim como você chegou na música profissional, W’s Boys, não é isso. Ou seja, como você deu sequência pra aquele colo que você sentava na Tijuca quando tinha um ano de idade, e tocava o piano e acertava algumas notas? Depois foi pra sanfoninha, né, tem aquela foto sua, bonitinha…
BITUCA – O primeiro contato meu com a música foi a gaita…
MÁRCIO – Presente de Papai Noel.
BITUCA – Papai Noel. E aí eu comecei a tocar umas músicas assim e tinha um negócio que todas as férias eu vinha pro Rio com meus pais pra casa da minha madrinha e teve uma vez que eu vi…usava muito acordeon naquela época, né, aí eu lembro que vi um espetáculo do Mário Mascarenhas com quinhentos acordeons. Isso eu era aquele guri de calça curta, fui lá e quase que eu morri quando aqueles quinhentos acordeons começaram a tocar no Tijuca (risos). E eu era louco pra ter…o que eu queria mesmo é ter um piano, mas a gente não tinha dinheiro nem pra ter o piano, nem pra ter o acordeon. Então eu acabei ganhando uma sanfoninha de quatro baixos, não, primeiro foi uma de dois baixos incrivelmente terrível, e depois uma de quatro baixos, um pouco menos terrível, mas não tinha os acidentes. Então, quando eu começava a tocar e não tinha a nota que eu queria eu fazia com a voz o som.
MÁRCIO – Completava.
BITUCA – É, fazia o som; aliás não lembro como eu conseguia fazer aquilo, o som da nota que estava faltando na sanfoninha. E a sanfona foi por muito tempo a minha companheira. E só mais tarde é que a minha madrinha mandou pra minha mãe um violão de presente e eu lembro que tinha alguma coisa escrita, sei lá, devia ser alguma coisa de passatempo, né, porque Três Pontas era uma coisa meio parada demais pra ela e a minha madrinha falava que era um presente pelo tanto que ela gostava de mim.
Só que quem atendeu a porta da casa fui eu e quando eu vi aquele negócio parecido com violão, eu levei logo pro meu quarto, daonde ele não saiu jamais.(risos) Aí meu pai Josino, que mexe com eletrônica e tudo, eletrônica, matemática, física, etcétera, etcétera, etcétera…
MÁRCIO – …rádio, satélite artificial…
BITUCA – (rindo) O que for…essas coisa todas. Então ele resolveu fazer meu violão ficar elétrico. Então ele encheu de fios, tomadas e não-sei-quê e tal-e-coisa e eletrificou meu violão e eu lembro que minha mãe reclamava muito dele porque ele fez o negócio no violão, mas nunca me deu um amplificador. (gargalhadas)
MÁRCIO – (rindo) Detalhe!
BITUCA – Até hoje eu não ganhei esse amplificador dele. E quando a gente conversava nisso ele sempre falava, fala, né, pra mim, que cada qual aqui é pai do violão elétrico, ou da guitarra, e eu já tinha o meu violão elétrico há muito tempo. Aí ele é claro que fica todo orgulhoso, mas aí vinha ela: “é, pois é, mas o que precisava não tinha, não é?” (gargalhadas)
MÁRCIO – Eu sei que seu Zino é uma espécie, assim, no bom sentido, de Professor Pardal, né?
BITUCA – É isso mesmo.
MÁRCIO – Ele tem um laboratório eletrônico em casa; eu me lembro que ele inventa aparelhos, não é? Oscilômetros, não-sei-quê, ele pega determinados aparelhos e combina e cria um terceiro aparelho com uma terceira finalidade, pegar espectros de som, de não-sei-quê, não é? Agora eu queria saber como e se teve uma influência desta mentalidade científica de seu pai, se ele te influenciou, porque ao que me conste você é o anti-cientista. (Bituca cai na gargalhada) Mas de alguma forma isso deve ter influenciado você. Como você traduz essa coisa Professor Pardal do seu Zino? Porque eu sei que você é doido com ele, vivem super-juntos…
BITUCA – O negócio dele, só pra falar mais uma coisa, ele inventou tantas coisas e ele foi uma dessas pessoas, assim, consumidas pela…pelo mundo em geral. Porque tem muita coisa, muitas invenções dele, que ele apresentou como mineiro lá, às…apresentou várias vezes…
MÁRCIO – Entidades científicas…
BITUCA – Eu não lembro o nome das coisas, né..
MÁRCIO – Congressos…
BITUCA – Essas coisa assim…E as pessoas roubaram dele, as idéias. Então é uma coisa que a gente lá em casa, eu, minha mãe, meus irmãos, a gente ficava danado, revoltado, mas era o lance dele, não adianta, que ele não conseguiria fazer de outra maneira.
MÁRCIO – Ele fazia e largava, deixava quem quisesse levar.
BITUCA – Mostrava pra quem quiser e aí pronto, subia. E tem muita coisa aprovada, eu não sei o nome das coisas, mas coisas que foram patenteadas por outros, normalmente por fábricas bem…conceituadas. Agora, o lance dele, enquanto ele tinha essa coisa com a física e tal, ele tinha, tem, né, uma coisa que é muito ligada com o cosmo. A gente tinha um telescópio que virava binóculo que virava microscópio e tal, e era um negócio muito legal, eu, meu pai e meus amigos, assim de noite, descobrindo as luas de Saturno, as luas de Júpiter, aqueles negócios, vendo todas as…Teve uma época que eu sabia a posição de todos os astros no céu e sabia o que ia acontecer e o nome deles…
MÁRCIO – Alí está Procyon, alí está Antares…
BITUCA – É, o nome deles, aquelas coisas todas. Isso, foi a coisa que ele me passou, que eu absorvi mais da coisa. Eu, se não fosse músico, ia mexer com astronomia.
MÁRCIO – Com certeza, porque você sempre foi ligado no “ora, direis, ouvir estrelas…” Aí tinha que acabar virando uma. (risos)
BITUCA – É, era estrela demais pra um Bituca só. Então eu fiquei na minha, né. Mas aí, foi isso.

Voltar ao topo Capítulo 5

. Uma família eclética

MÁRCIO – Então, dando sequência na biografia, aí tinha de um lado a dona Lília, uma pessoa urbana, de outro o seu Zino, uma pessoa interiorana. Um com a mentalidade científica…
BITUCA – Aguçada!
MÁRCIO – … e a outra com um temperamento totalmente artístico, né, porque a dona Lília só não foi artista porque a vida não deu a ela essa chance, né, mas deu ao seu filho.
BITUCA – E era uma coisa muito linda também, porque a gente tinha os discos de operetas, música clássica, temas de filmes e também a gente com os amigos partíamos pra música popular brasileira, essas coisas todas. Tinha os discos das cantoras de jazz com grandes bandas…Então, lá em casa sempre ouvi de tudo. Eu acho que era uma casa bem diferente do restante das outras casas de Três Pontas.
MÁRCIO – Por falar em diferente, a primeira vez que você me levou à sua casa, a muitos e muitos anos atrás, quando a gente era adolescente, a coisa que mais me surpreendeu na sua casa como uma casa diferente, eu até escrevi isso no nosso livro (Os Sonhos não Envelhecem – Histórias do Clube da Esquina, Geração Editorial), que foi a primeira vez que eu experimentei, assim, vendo pessoalmente, o que eu chamaria de um amor universal. Porque o amor familiar, o amor pelos laços sangüíneos, ele é mais naturalmente seguido. Agora, é muito mais difícil, né, você construir uma família recolhendo filhos de terceiros e transformá-los em seus filhos legítimos e na sua família verdadeira. Isso foi o que seu Zino e dona Lília fizeram, porque você não foi o único filho que eles adotaram. Tem o Fernando e a Bete, né, e a única filha natural que é a Jaceline.
BITUCA – Isso é uma coisa também que geralmente as pessoas perguntam muito a respeito de preconceitos, né, porque existiam preconceitos, mas na cidade. Agora, lá dentro de casa, nunca. É eu nunca fui tratado como um filho adotivo. No máximo que tinha assim era que… é…tem gente que pergunta se eu sabia que era filho adotivo. (risos)
MÁRCIO – (rindo) Pais brancos…
BITUCA – Pais brancos, irmãos brancos…Aí eu olho e falo assim: o negócio é o seguinte. Eu, quando a cegonha me trouxe, a porta estava fechada e ela teve que entrar pela chaminé. (gargalhadas) É assim que nós todos explicávamos essa coisa a todo mundo.
MÁRCIO – O que mostra bem o humor da casa, né? O seu Zino tem um humor finíssimo.
BITUCA – Pois é. E aí, foi uma coisa muito linda, né, sempre. Tem o Fernando, que foi adotado mais tarde, mas próximo, depois quando a gente já estava…
MÁRCIO – Aviso aos navegantes: não se trata de Fernando Brant.
BITUCA – Não, é o Fernando Pita. Aí depois veio a Bete e foi uma coisa engraçada. Que eu lembro que quando a Bete foi adotada, a dona Lília me falou “é, que vocês dois estão virando mocinhos, daqui a pouco está cada um partindo pra sua vida e a gente vai ficar sozinho aqui. Então nós vamos adotar mais.” Aí, eu não sei se a gente gostou muito da idéia não, mas eu só sei que quando a Bete chegou lá em casa eu levei o maior susto do planeta, porque ela veio duma família que teve muitos problemas. Era só uma barriga…era uma coisa assim completamente…nem era feia não, era uma coisa que dava pena.
MÁRCIO – Aquela subnutrição, vermes…
BITUCA – É. E aí depois ela foi modificando e virou…
MÁRCIO – Virou minha noivinha quando ela tinha cinco anos de idade.
BITUCA – Pois é. Então foi uma coisa muito jóia, esta história.

Voltar ao topo Capítulo 6.

A família cresce e
Bituca desiste de ser economista

BITUCA – E ainda uma coisa: porque depois que eles se casaram eles vieram pro Rio pra ter um filho e houve um erro médico no parto e matou a criança e quase matou a dona Lília e ela foi proibida de ter filhos. Nunca mais podia ter. Então eles adotaram a gente e tudo. Quer dizer, eu já estava, né, mas veio o Fernando, veio a Bete, isso tudo, aí teve um dia que eu já morava em Belo Horizonte, lá no edifício Levy, na Benvinda’s Place. Eu estava andando na rua, não, eu estava no ônibus, aí alguém me falou ” a Lília adoeceu, né, como é que ela está?” E eu tinha esquecido que, fazia tempo que eu não ia lá em casa, e eu não sabia que ela tinha ficado grávida. E adoecer lá em Três Pontas, quer dizer que teve filho. Fulana adoeceu ontem. Pronto! Mas só que não tinha nascido ainda não. A pessoa falou na frente. As notícias chegam antes do fato, né. (risos) Aí eu peguei um ônibus em Belo Horizonte e fui pra Três Pontas. Cheguei lá, encontrei minha mãe com um barrigão. Eu me lembro que eu fiquei até danado, né, mas não era ciúme não, era medo dela ter alguma coisa, porque sempre foi aquele negócio que não podia ter filhos, não podia, não podia, e tal, aí todo mundo grilou, menos ela…
MÁRCIO – Que achava e tinha certeza de que ia ser tudo normal, como foi.
BITUCA – E daí nasceu a Jaceline, que ia ser Jackeline, mas pra ficar um negócio mais suave tiraram o K e ficou Jaceline. E aí foi aquele sucesso. Uma coisa linda é que nunca teve diferença de um filho pra outro, nem de… eu pra Jaceline, nem de ninguém. Então eu posso dizer que, minha infância, minha família, eu devo tudo à minha família. E fui super bem criado e uma coisa: é um tipo de liberdade que eu até hoje acho que poucas famílias (com voz embargada) dão pra seus filhos…porque nada que…que eu fiz…nada, não tinha nada imposto. Nada do que eu fiz foi imposto. Então eu nunca fiz nada imposto, a não ser estudar no colégio, essa coisa toda, que meu pai falava que música não era só questão de talento, era questão de sorte. Então que era pra eu ter alguma coisa, porque se não desse certo na música, poder fazer um técnico, fazer uma universidade, qualquer coisa assim. Mas eu também só fiz porque concordei. Estudei contabilidade, que era como se fosse o científico na época, né. E depois, você sabe muito bem que nós fomos pra fazer minha inscrição pro vestibular na Faculdade de Economia e você sabe o que aconteceu, né?
MÁRCIO – Desvirtuamos.
BITUCA – É!!!
MÁRCIO – Pegamos outro bonde!
BITUCA – Pegamos os papéis, botamos fogo e fomos pra um, como é que chama aquele bar…?
MÁRCIO – Bigodoaldo’s?!
BITUCA – Não, não. Aquele do lado do Levy.
MÁRCIO – O Tirol.
BITUCA – Fomos para o Tirol, pegamos um violão e bebemos todo o bar que tinha lá.
MÁRCIO -É, mas aí nós já demos um pulo muito grande na história que eu quero voltar lá atrás. (risos)

Capítulo 7. Meninos tocando clandestinos

MÁRCIO -Aí surge seu envolvimento com a….
BITUCA – Com a música.
MÁRCIO – Com os caminhos da vida, né? Aí já não é mais tocando piano no colinho da mãe, mas aí já começou uma história de fazer baile, ou pelo menos começar a ensaiar uns conjuntos, não-sei-quê.
BITUCA – É o seguinte: que a gente morava numa rua e tem uma coisa muito interessante que eu vi, inclusive num programa, acho que foi do Jô Soares, uma entrevista do Wagner Tiso, que era praticamente meu vizinho naquela rua, e o Silvio Brito, que é meu primo, e também era quase vizinho. Eu tinha um negócio, que eu pegava a sanfona e a gaita, sentava na frente da varanda, punha a sanfona perto do meu pé, a gaita no joelho e ficava tocando aqueles negócios lá, do jeito que eu sabia. E uma coisa que eu nunca notei foi que o Wagner Tiso passava ali e na hora que ele via que eu estava fazendo isso ele se escondia, pra não me perturbar, e ficava lá. E ele nesta entrevista dizendo que ali ele sacou que eu seria companheiro dele
pra vida. E assim foi. Então a gente fez um conjunto vocal e no primeiro ensaio apareceu o Wagner Tiso lá, com acordeon, e eu até não queria muito não, mas tinha o Dida que é amigo meu e amigo do Wagner, e acabou o Wagner entrando pras nossas vidas. Dai a gente começou a fazer as coisas juntos. E aí tinha o movimento da bossa nova, tinha o do rock-n’-roll, tinha coisa acontecendo adoidado, tango e tudo que tinha. E quando começou a bossa nova, a gente pegava as músicas pelo rádio, e aí tinha a cantora, que era a Tereza Sacho. E ela, quando começava uma música que a gente estava gostando, pegava a caneta e ia escrevendo a letra do jeito que dava, ou eu também. E eu e Wagner íamos pegando a melodia, porque a harmonia era a coisa mais difícil de se ouvir, porque o rádio era muito ruim. Às vezes até a gente só ia ouvir essa música outra vez um mês depois, ou dois meses, e tal. Então, quando a gente ia ouvir essa música, a gente já tinha feito a harmonia da nossa cabeça, né. E assim foi o nosso começo. E começamos a tocar na noite também; eu tinha 14 e o Wagner era mais novo. E fomos tocar com os melhores músicos de Três Pontas, né. Era um som lindo que acontecia na boate Automóvel Club, à noite, a gente escondido do Juizado de Menores, e quando chegava o pessoal do Juizado de Menores, o porteiro anunciava lá pra gente e a gente ia correndo pra cozinha. E era uma ótima hora, porque a gente ficava lá comendo batata frita e….
MÁRCIO – Você começou sua vida profissional clandestino.
BITUCA – Clandestinamente, fora… outlaw!
MÁRCIO – Outlaw. Chic! (risos)
BITUCA – Daí nós fomos, eu e Wagner, crescendo, né. A gente tinha vários conjuntos, tinha um que era tipo dos The Platters, que cantava música americana, e rock -n’ roll também, aquele negócio… Tinha as outras coisas que a gente fazia com bossa nova e as músicas americanas e tal, e nos bares a gente tocava de tudo.
MÁRCIO – Já era o famoso W’s Boys?
BITUCA – Não, não, o W’s Boys veio depois.
MÁRCIO – Então conta aí até chegar já nos W’s Boys.
BITUCA – Bom, a gente fazia muito teatro em Três Pontas, tocava no Grupo Escolar, nas festas que tinha, e a gente era muito, como é que se diz, gozador, né. Então tinha umas pessoas lá em Três Pontas que a gente ficava imitando, aqueles negócios todos. E tinha um especialmente, o Silvio Brito, né, que toda festa que tinha em Três Pontas ele cantava; ele tinha uma voz parecida com a do Joselito, que era um cantor espanhol daquela época, que era um menino também…
MÁRCIO – (cantando) “Una vez un ruiseñor? Con las claras de…”
BITUCA – Isso aí. Em todo lugar que a gente ia, estava lá o Silvinho Brito. Então nós planejamos o assassinato do Silvio Brito…
MÁRCIO – (rindo) Porque que não deu certo o assassinato?
BITUCA – Mais tarde foi até ótimo, porque o Silvinho é o maior barato, nós todos somos apaixonados com ele.
MÁRCIO – Graças a Deus vocês não assassinaram ele. Silvio Brito é o maior colosso.
BITUCA – Não assassinamos ele não. E aí a gente…e era uma coisa tão incrível o lance meu e do Wagner, porque às vezes eu ia cantar com outro pianista, qualquer coisa, eu não conseguia dar a interpretação que eu sentia, porque os caminhos que a gente tinha transado só nós que sabíamos mesmo, né, e às vezes não precisava nem ensaiar, nem passar pro outro, nem nada, que um já sabia o que o outro ia fazer.

Voltar ao topo Capítulo 8.

A marca da originalidade

MÁRCIO – Dai começou essa coisa que anos mais tarde veio a ser reconhecida como uma originalidade, né, porque você quando apareceu, apareceu como uma coisa original.
BITUCA – Eu acho que tudo vem disso aí.
MÁRCIO – Talvez se vocês tivessem pegado as harmonias todas certinhas…
BITUCA – Ah, não, aí não. Seria outra coisa. E uma coisa muito interessante é que quando eu tive assim o meu primeiro contato com músicos profissionais de cidade grande, foi lá em Belo Horizonte, então a gente foi no Berimbau, né que é o lugar onde o pessoal se apresentava. Então a gente foi asssistir o show de um grupo lá e eu quase caí pra trás, porque eles tocaram músicas que eu e Wagner tocávamos, mas de uma maneira completamente diferente da nossa. E eu peguei, fiquei desesperado. Falei: “Pô!, tenho que aprender tudo de novo!” E aí nessa época eu tocava com Marilton, seu irmão, e o Marcelo Ferrari, o Turinha, que era um puta percussionista. E depois eu fui conhecendo o pessoal, mas desde que saí cabisbaixo, que eu falei pro Marilton: “eu tenho que mudar tudo, tenho que aprender tudo de novo”, aí Marilton falou: “você está louco! Tem que tocar desse jeito aí.”
MÁRCIO – Está muito melhor do que o original.
BITUCA – Mas eu…fiquei meio assim. Mas acabei ficando amigo dos outros músicos de Belo Horizonte e a atitude era igual a essa do Marilton, né. O pessoal ficava louco com as coisas que a gente tocava. Por exemplo, uma coisa: o Blue Moon que todo mundo toca de um jeito, o Wagner chegou tocando, parecia que ele estava tocando a música de trás pra frente, porque Blue Moon é em maior e ele tocava numa sequência menor, com não-sei-quê, aquele negócio todo. Por exemplo, no Rio ele ficou sendo conhecido como o pianista do Blue Moon, mais tarde. Então nós tínhamos essas coisas assim. A gente ia cantar, tocar, era direto, né. Até hoje, né, isso ficou pra sempre guardado na gente. Eu vou tocar com o Wagner, não preciso nem…
MÁRCIO – Vocês já se conhecem por música. E como é que chega o W’s Boys nessa história?
BITUCA – O W’s Boys foi que o pai do Wagner, que trabalhava no Banco da Lavoura, lá em Três Pontas, foi transferido pra Alfenas. Aí, claro que o Wagner foi, mas isso era demais pra nós, né. Então eu comecei a ir a Alfenas todo fim de semana, e tal, e o Wagner arranjou um grupo lá, uns músicos, que era uma família, todos com W, e o Wagner também, né, e que fizeram um conjuntinho lá. A hora que eu cheguei, eu quase caí pra trás, tão bons que eram aqueles músicos. Tinha o Russo, que era o trumpetista, que tinha um som assim pro lado do Miles Davis, mas não era o Miles Davis, era o Russo. O Wanderley, que era o saxofonista, que também tinha um sopro incrível, mas não era nada, era dele! Infelizmente eu não sei nada deles hoje. A gente ensaiou e então formou o grupo e eu cheguei cantando lá e eles também ficaram loucos e fizemos esse conjunto de baile que foi um sucesso danado no sul de Minas.

Voltar ao topo Capítulo 9.

Nos bares da vida

MÁRCIO – Aí surge o quê? Belo Horizonte. Por que Belo Horizonte?
BITUCA – O negócio é o seguinte: é que tinha um irmão do Wagner, o Gileno, que morava em Belo Horizonte. E os primos dele que moravam todos em Belo Horizonte e formaram com o Rogério Lacerda, um baterista lá de Beagá, o conjunto Holliday, e me chamaram pra ser o crooner desse conjunto. A gente tocava muito no Cruzeiro. Acho que a minha paixão com o Cruzeiro como time vem daí.
MÁRCIO- Podia ter sido o Galo. O Atlético tinha uma séde tão bonita…
BITUCA – Mas aí eu comecei então a me dividir entre o Holliday e o W’s Boys. Então ia pra Belo Horizonte, e tal, e depois estava ficando muito difícil ir toda semana pra Belo Horizonte, aí acabei indo de vez. E foi uma coisa muito interessante, porque logo que eu cheguei em Belo Horizonte, um amigo nosso lá de Alfenas, pai de duas meninas amigas nossas, arrumou um emprego pra mim na Central Elétrica de Furnas, então eu já cheguei com trabalho lá. E o pessoal lá era muito legal, né, porque ao mesmo tempo que eu estava trabalhando lá, eu fazia meus bailes, minhas coisas da noite, então tinha hora que eu estava lá no escritório e o ronco vinha de qualquer jeito, e a turma da sala que eu trabalhei sempre encobria essas minhas passagens pelo…
MÁRCIO – Barroso e companhia.
BITUCA – Barroso e companhia, os Capitães…Então foi isso. Chegando lá eu fiz um grupo com o Marilton, o Marcelo e o Turinho, que eu já falei, e a gente fez o Evolussamba. E mais tarde, o Wagner chegou e veio pro Evolussamba.
MÁRCIO – (cantarola um trecho) “O Morro não tem vez”. Que foi quando eu descobri que aquele arranjo era ainda mais bonito do que a música. E eu descobri que você é que tinha feito o arranjo e pensei : “esse Bituca não tá com nada não. Esse negócio de escritório de Furnas não vai dar certo não.” (Bituca ri)
BITUCA – Aí o Marilton arrumou um lugar pra gente tocar, uma boate que naquela época era bem longe, né. Chamava Fujiyama. Não tinha nada a ver com o que a gente tocava, mas a gente foi pra lá e por nossa sorte tinha um produtor de um programa de televisão que tocava umas músicas que a gente admirava lá. Ele foi um dia nessa boate, não sei por quê, e viu a gente tocando, convidou pra gente fazer o programa. Eu falei, “mas nunca que eu vou tocar junto daqueles caras”, aquele negócio todo. E o Marilton sempre na frente : ” vamos, sim”, e tal. Aí o cara falou assim: ” eu estava mesmo precisando de gente pra tocar nesse programa, porque os músicos que fazem este programa fazem bailes também e não vão estar aí no final da semana que vem, então vocês podiam ir e cantar lá no lugar deles.” Aí eu falei, “bom, assim, tudo bem, né”, mas qual não foi meu susto quando a gente chegou, a gente dando uma ensaiadinha num cantinho lá escondido, quando vê, estavam todos os músicos que a gente admirava ouvindo a gente e gostando, né. E aí foi aquele negócio. Nós já fomos tocar na, no…começamos a fazer parte da música lá do local, né.

Voltar ao topo Capítulo 10.

Vinícius & Berimbau

BITUCA – Daí, muitas coisas aconteceram. Até que a coisa que marcou mesmo a gente em Belo Horizonte foi um dia que…ah, tem duas coisas. Uma foi o dia que o Vinicius de Moraes foi dar uma palestra numa universidade lá em Beagá. Quem ia tocar era o Tempo Trio, que era do Hélvius Vilela, Pascoal Meireles e o Paulinho Horta, pra acompanhar o Vinícius. Mas eles não podiam ir naquele dia, aí o Hélvius apareceu lá na pensão onde eu morava e falou: “Bituca, você tem que ir pra substituir a gente de qualquer jeito, porque a gente não pode deixar furo, tocar com Vinícius de Moraes…” Eu fiquei maluco. “Tocar com Vinícius de Moraes, que doideira!” Aí cheguei, me apresentei pro Vinícius, aí começou aquele show dele, a palestra dele com os estudantes, aquele célebre copo de uisque, a mesinha, e ele falava e cantava as músicas e eu acompanhava no violão. Aí ele perguntou, ou alguém soprou pra ele, que eu tinha umas músicas minhas também e eu acabei tocando umas músicas minhas. Aí continuou lá a palestra e uma hora alguém perguntou pro o Vinícius o que ele achava que estava acontecendo de novo na música popular brasileira. Ele pegou, me… me mostrou, né? Isso aí passou pra mil coisas, que depois a gente saiu pelas noites, fomos tocar nuns bares com o Vinícius e tinha um arranjo que eu tinha feito pra Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, eu ensinei pras umas pessoas, assim, com a harmonia que eu tinha criado, aquele negócio todo, e a gente cantou e o Vinícius cantando com a gente…Foi uma coisa linda, uma noite que só acabou acho que dez horas da manhã do outro dia. Isso foi uma coisa marcante. Agora, a outra foi um dia que eu estava também lá na pensão, fazendo sei-lá-o-quê, que o Wagner chegou e falou: “Bituca, nós fomos contratados pra tocar no Berimbau”, que era a casa… o máximo de Belo Horizonte. Aí eu fiquei muito feliz, aí ele falou assim: “só que você vai tocar contrabaixo.(risos) E nós vamos começar hoje.” Aí eu falei: “Wagner, você está maluco, eu nunca toquei um contrabaixo na minha vida, não sei nem como é que pega naquilo e você quer pra hoje?” (risos) Ele falou: “é hoje, porque senão a gente não pega esse negócio. Se vira, sai atrás de quem tenha contrabaixo, pegue emprestado…” Eu fui atrás do Ildeu (Lino Soares), que tinha uns dois ou três contrabaixos lá e falei: “Ildeu, como é que pega nisso?” ele pegou, fez umas três posições diferentes lá. Aí eu aprendi e fui pro Berimbau de noite. Aí apareceu também na nossa vida o Paulinho Braga. Então foi uma que nos primeiros dias o sangue escorria dos meus dedos assim, não adiantava botar esparadrapo nem nada que o sangue estava correndo. Depois foi melhorando e eu fui pegando gosto pela coisa e eu acho que fui um dos instrumentos que eu toquei melhor na minha vida.
MÁRCIO – É, você era um grande contrabaixista.
BITUCA – Muito obrigado. E tinha uma coisa também que eu fazia com o contrabaixo que mais tarde foi usado por outras pessoas, né, que era tocar o contrabaixo e emitir notas pela boca também, junto, em alguns solos, né. E a gente criou um trio completamente diferente de tudo que acontecia, acho que em qualquer parte do Brasil. Talvez se assemelhasse assim, bem de longe, ao Tamba, mas bem de longe.
MÁRCIO – É verdade. Agora, o Berimbau. Eu escrevi no livro a respeito do Berimbau, dessas histórias, não-sei-quê, que a gente freqüentava o Berimbau, no edifício Maletta, pois é. Aí um dia eu encontro com o Nivaldo Ornellas que me diz: “pois é, li seu livro, não-sei-quê, mas tem uma grande injustiça que você fez no livro. Porque eu fui proprietário do Berimbau aos dezoito anos de idade, e você não falou que ele foi inaugurado no dia que estourou o golpe militar, dia 31 de março de 1964 e eu fui proprietário.” Eu juro que tinha esquecido. Você sabia disso?
BITUCA – É, eu acho que tinha o Hélvius também; não sei se ele foi proprietário.
MÁRCIO – Então foi uma injustiça que eu retrato aqui agora nesta oportunidade de falar para a posteridade. O Berimbau, uma das casas mais geniais que já existiram em Belo Horizonte, num dos pontos mais geniais que já existiram neste planeta, que foi o Maletta dos anos 60, que foi um foco de cultura e de revolução e que sairam grandes talentos dali, né…
BITUCA – Alí tinha tudo, né. Desde o pessoal de cinema, o pessoal das artes plásticas, o pessoal de literatura, de jornalismo, todo mundo estava alí e foi o pessoal que saiu depois e aconteceu no Brasil. O pessoal de jornalismo fundou o Jornal da Tarde em São Paulo e, o pessoal de cinema, que veio pra cá.
MÁRCIO – Muitos nomes, né. Foi uma geração privilegiada que conviveu alí naquele espaço. De qualquer forma, fica feita aí a justiça a Nivaldo Ornellas, que era um jovem proprietário de uma casa de música maravilhosa, nos moldes que a gente vê muito hoje em Nova Iorque, exatamente aquele clima.
BITUCA – Tinha os retratos na parede, né.
MÁRCIO – Eu lembro que tinha um retratão de Jorge Ben…
BITUCA – Miles Davis, Modern Jazz Quartet, John Coltrane…

Voltar ao topo Capítulo 11.

Surge o compositor

MÁRCIO – Essa nossa seqüência está meio maluca, vai lá na frente, volta cá trás, né, mas vamos seguir adiante. Eu queria que você falasse agora como surgiu o Bituca compositor. Por acaso foi com seu primo Berto? Não estou lembrado.
BITUCA – Não, não. As primeiras músicas que eu fiz foi com Wagner e depois com um outro rapazinho de Belo Horizonte, Noite Vazia, uma coisa assim, que era até muito bonita. Mas essas músicas que a gente compunha era uma coisa assim, muito de criança, né. Tanto que quando a gente tocava mesmo era muito raro a gente…a gente não tocava músicas nossas. Eu, por exemplo, só gostava de cantar música dos outros. Eu tinha uma felicidade em poder cantar coisa de todo mundo. Por exemplo, tem o arranjo de A Felicidade, que quando eu gravei com o Som Imaginário… isso é uma coisa que nasceu lá em Alfenas. A gente ia andando pela rua assim de noite, toda aquela harmonia, nada eu mexi depois. E aquele modo de interpretar bem diferente…Vem cá, nós estamos aonde, no Berimbau Trio?
MÁRCIO – Não, não. Eu dei uma voltada só pra falar nesse início seu como compositor, né.
BITUCA – Então, nessa época, aconteceu uma coisa muito interessante, porque a gente veio para o Rio de Janeiro com o Pacífico Mascarenhas, que é um cara que…que gosta de música, né. Então ele tinha as composições dele e a gente armou um conjunto vocal assim, do tipo de Os Cariocas, era o Sambacana. E uma vez a gente veio pro Rio, eu, Wagner e Pacífico, fomos num estúdio, onde estava o Moacir Santos, que fazia os arranjos do disco de uma cantora chamada Luiza, que eu não sei onde é que ela foi parar, porque ela cantava tão bem… Ele aproveitou a gente e botou para fazer o coro numa música, acho que era do Marcos Valle. Depois, era o último dia de gravação, ela convidou a gente pra ir numa festa lá na casa dela e a gente foi e o Pacífico tem muito daquela coisa dele, né. As pessoas que ele gosta ele quer que todo mundo conheça, né. Então, ele queria que eu e Wagner tocássemos de qualquer maneira numa festa onde estavam quase todos os nomes do pessoal da bossa nova. Eu falei: “eu não toco aqui nem….” eu sempre assim, né. Acabei pegando o violão e o Wagner, o piano e a gente tocou uma música nossa, Aconteceu, que chama. E aí ficou por isso, e tal. Aí, nessa festa, estava a Elis Regina, que tinha acabado de chegar do Rio Grande do Sul. Não era conhecida, ela tinha gravado um disco de rock, e eu conhecia esse disco, que eu não sei como foi parar na minha mão. Aí, na hora que a gente saiu, a gente foi saindo pelas ruas de Copacabana, cheguei no carro dela e comecei a cantar uma das músicas daquele disco, ela: “Sshhh!!!Cala essa boca! Esquece isso!” Rimos pra caramba, eu peguei e fiquei quieto, né. Isso é uma coisa que mais tarde vai dar numa outra história, que quando eu estava em São Paulo, no Berimbau de Ouro, o segundo, porque o primeiro foi o que a Elis ganhou com Arrastão, e ela ia cantar no encerramento do segundo festival. Então, eu estava andando pelo corredor da TV Excelsior e vi que a Elis estava vindo. Eu achei que ela não ia me reconhecer, nem nada, e eu não queria bancar aquele pessoal chato, né, que fica puxando o saco dos artistas. Eu peguei, passei assim, com a cabeça meio abaixada, assim, olhando de…de esguelho, né, louco pra pular em cima dela do tanto que eu gostava. Aí, estou andando e ouço um barulho de sapato! PAM! Ela falou: “escuta, mineiro não tem educação não?” Aí, eu parei, olhei e não tinha mineiro nenhum mais, né. Ela falou assim: “olha, as pessoas, que tem educação fazem o seguinte: quando a gente se encontra assim de manhã a gente fala “bom dia”, quando é de tarde a gente fala “boa tarde” e quando é de noite, a gente fala “boa noite”. Aí, eu vermelho feito não sei quê falei: “não, Elis, é que eu não queria te perturbar…” Ela: “não tem nada disso não. Eu quero que você vá lá em casa pra cantar aquela música que você cantou naquela festa na casa da Luiza. E começou a cantar Aconteceu. Isso era uns três ou quatro anos depois. Ai eu fiquei olhando pra ela assim tipo babando, ela pegou, falou assim: “Memória, meu caro, memória.” E saiu balançando aqueles tamancos dela. (risos)

Voltar ao topo Capítulo 12.

O prestidigitador e sua sorte

MÁRCIO – Eu queria fazer uma pergunta pra você. Furnas. Eu me lembro que eu ia lá te capturar pras noitadas, te raptar pros Bigodoaldo’s da vida, que tinha…
BITUCA – A melhor batida de limão de todos os tempos….
MÁRCIO – E me impressionava muito que você, na datilografia, era um The Flash. (risos) Você tinha consciência que você tinha uma super-habilidade na mão?
BITUCA – O negócio é o seguinte. Quando eu fui pro exército, aí me falaram assim: ” se eles te perguntarem se você toca, você fala que não; se eles te perguntarem se você isso, você fala que não, tudo você fala que não”. Aí tinha um negócio lá: “você é datilógrafo?” aí eu botei “sim”. Aí me mandaram pro escritório da Companhia de Comunicações, só que eu não sabia nem…Aí eu comecei aquilo devagarinho e eu sei que quando eu saí eu era um exímio.
MÁRCIO – Eu sei que você era impressionante. E conversava ao mesmo tempo. Como é que funciona isso dentro de sua cabeça?
BITUCA – Eu não pensava, porque se eu parasse pra pensar, aí nada ia dar certo.
MÁRCIO – E você levou isso pra música, né. Porque você toca um violão super-diferente, essa habilidade. Como é que é isso, de onde que vem esses chamados talentos inatos?
BITUCA – Eu não faço a mínima idéia.
MÁRCIO – Você acha que vem de Deus, vem de um poder superior? Eu acho que só pode…
BITUCA – Eu acho. É assim que eu penso.
MÁRCIO – E o Ponto dos Músicos? Ah, tem também aquela coisa de seu Zino, né, que te falava que música não basta ter talento, mas é preciso ter sorte. Então, primeiro você fala do Ponto dos Músicos e depois responde: aonde que você acha que foi a sua sorte? Pra você dizer assim: a minha grande sorte foi esta, pronto!
BITUCA – O Ponto dos Músicos lá em Belo Horizonte foi um contato assim, muito bonito, muito legal, porque era um lugar que todos os músicos iam, ficavam, assim, na rua, perto de um bar. A gente trocava idéias, conversava e a gente ia pra casa de um, aquele negócio, né, filava bóia na casa de um, na mãe de um, na mãe de outro. A gente tinha muita amizade, mesmo.
MÁRCIO -Quais foram seus grandes amigos, seus melhores amigos do Ponto dos Músicos?
BITUCA – Olha, tinha o Hélvius Vilela, o Ildeu Soares, o Pascoal Meireles, o Celinho do piston, o Figo Seco, também do piston, a Helena Ribeiro, que era a cantora, o Nazário (Cordeiro) que era um violonista. Tinha uma pessoa excepcional, fantástica, que era o Bosco. Aquele era um baterista que inclusive segurou muito as minhas barras, quando eu estava muito triste por lá, essas coisas assim. Ele vinha, me levava pra casa dele, aí ficava lá, eu e a família dele, uma coisa maravilhosa. É uma coisa que tinha em Belo Horizonte que eu acho que não tinha em lugar nenhum mais, né.
MÁRCIO – É verdade, eu também sinto isso. Aquela época de Belo Horizonte, teve uma coisa alí que não teve mais em lugar nenhum, uma solidariedade, né, uma amizade, uma alegria de estar vivo, né, uma coisa assim, que era empolgante.
BITUCA – E a gente ia tocar. Qualquer lugar que tinha um instrumento o pessoal chamava a gente pra ir tocar e ia todo mundo, não tinha aquele negócio da ciumeira, de nada, todo mundo queria é tocar, conviver e ser amigo. O maior barato. O Márcio José, cantor também, e tal. Em vez de ciúme era o maior barato. Ele cantava, eu ia ver, eu cantava, ele ia ver…Uma escola de vida também, né. Cada um…porque tinha músicos que eram da Polícia, o pessoal do trombone, e tal e coisa, então tinham uma maneira de pensar…E tem uma coisa. Que a gente tinha o Berimbau Trio, e coisa, mas a amizade da gente era tanta que acabava todo mundo um tocando com o outro, né. Tinha os festivais lá, sem competição, era só cada um dando força pro outro. Era muito bonito. O Ponto dos Músicos foi isso. A segunda pergunta qual foi mesmo?
MÁRCIO – Qual foi o seu momento de sorte, qual a sorte que você deu na vida?
BITUCA – Meu momento de sorte foi quando apareceu na minha vida o Agostinho dos Santos. Porque ele chegou, me viu tocando num boteco lá, que eu estava substituindo alguém, lá em São Paulo, né, que era só assim. Só quando a mãe de alguém morria ou qualquer coisa acontecia com a pessoa é que a gente arrumava emprego, né. Cinquenta músicos e uma coisa pra tocar, um lugar pra tocar. E aí o Agostinho me viu numa boate, numa noite, e chegou perto de mim e falou isso: “quem é você, heim?” Eu falei: ” ah, eu sou o Bituca, sou de Minas”, começamos a conversar, aí ele pegou, resolveu ser meu pai. Aonde ele ia ele me levava. Inclusive a célebre coisa que eu nunca deixo de falar, né. Que eu tinha tido uma experiência muito chata com o Berimbau de Ouro, cantando a música do Baden (Powell), e tal. Esse festival, a única coisa boa que ele me rendeu de bom foi uma amizade que eu tenho até hoje, que é a Sue, uma amiga minha da Bahia. Então eu não queria saber mais de festivais. Aí um dia o Agostinho dos Santos chega e fala pra mim : “olha, vai ter o Festival da Canção do Rio de Janeiro, você tem que botar suas músicas lá” e ele ficou mais de mês falando aquilo no meu ouvido e eu: “não, não quero não.” Aí um dia ele chegou pra mim e falou: “Bicho!” porque ele era o cara que falava “bicho”, o primeiro que eu ouvi falando “bicho” foi o Agostinho dos Santos. “Eu arrumei um disco pra eu fazer, o produtor, e tudo, então quero que você grave três músicas pra eu mostrar pro produtor escolher uma.” Eu ainda fiquei assim: “pôxa, eu vou mostrar três e vão aproveitar uma só…” Aí, eu inocentemente fui num lugar que ele arrumou lá, gravei as três músicas, que eram Maria Minha Fé, Morro Velho e Travessia. Bom, eu entreguei a fita pro Agostinho e bem mais tarde é eu vi que em lugares que eu nem era cumprimentado passei a ser, e tal, até que, aquele negócio, né, todo mundo: ” Parabéns!Parabéns!” E eu: “parabéns pra quê?” até que a Elis chegou pra mim e falou: ” Eu sabia! Eu sabia que você tem música no Festival do Rio de Janeiro!” E eu: “Mas eu não inscrevi música no Festival”. Então ela falou assim: ” Então, tem outro Milton Nascimento.” Eu falei: “Ah, não, isso não! Pelo amor Deus!” Aí, uma hora andando lá pela Consolação, ouvi uma risada atrás de mim, olhei pra trás e aí que eu compreeendi tudo, né. Olhei prá tras e era o Agostinho do Santos rindo da minha cara.
MÁRCIO – Ele tinha inscrito as três músicas à sua revelia. Foi essa história que foi sua chance, né. O Festival da Travessia. Bom, falou de Travessia tem que falar de Fernando Brant. Então conta a história de Travessia e aí a gente já começa a lista de músicas que você vai comentar.

Voltar ao topo Capítulo 13.

Travessia

BITUCA – Bom, o Fernando foi, assim, da leva de Belo Horizonte, um dos grandes amigos que eu tive, e tenho, né, graça a Deus, mas ele não mexia com música; ele só gostava. Aí, lá em São Paulo, eu fiz a música de Travessia, fiz Morro Velho, que eu escrevi a letra, e chegou na hora de Travessia, eu achei que não era pra eu fazer a letra, e nem pra você fazer, porque ela não tinha cara de nenhum de nós dois. Aí eu falei assim: “ah, quer saber? Eu vou dar essa pro Fernando fazer.” Aí viajei pra Belo Horizonte, falei pro Fernando e ele: “Você está louco, eu não mexo com isso não, rapaz”, não-sei-quê, aquele negócio todo, não queria fazer. Aí eu tive que convencer, e ele: “eu nunca mexi com isso, sou teu amigo, eu gosto, mas não sei mexer com isso não, nunca escrevi nada”. Aí, deixei a música com ele e ele falou: “mas, e se ficar ruim?” Eu falei: ” Se ficar ruim, vai ser o negócio. Vai ser a música da nossa amizade, aquela hora que a gente está tão bêbado, ou você ou eu (imitando a voz de bêbado): “Você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida!”, aquele negócio assim, aí a gente pega, vai cantar.” Aí ele concordou. Eu voltei pra São Paulo. Passados uns tempos, eu voltei pra Belo Horizonte e estava num bar lá no Malleta e ele com um papel na mão, e não tirava o papel da mão, e eu perguntando a ele o que era aquilo e ele falou “não é nada não”. Uma hora falei pra ele: “Fernando, ou você guarda esse papel ou deixa eu ver.” Ele me deu e foi correndo pro banheiro, de vergonha. Quando ele voltou…
MÁRCIO – …você já estava cantando.
BITUCA – Estava. Aí eu falei: “vamos pegar um violão” E fomos pra casa dos pais dele, pegamos o violão da Maria Célia, irmã dele, e começamos a dedilhar.
MÁRCIO – É impressionante o Fernando ter começado por Travessia, né. Trata-se de um….canalha. (risos) Como é que um cara pode começar com Travessia? Agora eu falo da minha parte: a gente já tinha algumas músicas, né, algumas dúzias de música nós dois, né, tínhamos aquele negócio das juras eternas de parceria, aquelas histórias. E quando você me mostrou Travessia, que eu acho que deve ter sido esse mesmo papel que o Fernando te mandou, né, eu senti que ali tinha terminado minha carreira. (risos) Eu senti nitidamente que o Fernando estava começando por onde eu ainda não tinha chegado. Eu já tinha quinhentas músicas com você e senti: “Puxa, agora o Bituca começou.” Então, de minha parte, né, primeiro Travessia me despertou um ódio mortal (risos), ciúme, né, muito ciúme. E logo depois que eu digeri o ciúme, ela virou assim, como se fosse um gabarito, um parâmetro.”Bom, agora eu tenho que dar um pulo e chegar em Travessia e dali eu não posso descer mais”. E foi quando eu comecei a me esforçar por depurar mais a palavra.

Voltar ao topo Capítulo 14.

Cais

MÁRCIO – Aí chega Ronaldo Bastos. Me fala um pouco da chegada de Ronaldo Bastos, Passeata dos Cem Mil, aquelas histórias.
BITUCA – Eu vim aqui pro Rio, pro Festival, né, ainda não conhecia ninguém, aí encontrei com o Wagner, o Wagner me levou pra um boteco onde o pessoal de música se reunia aqui e era aquele negócio, primeiro que eu era o compositor de São Paulo, porque o Agostinho botou minhas músicas por São Paulo. Aí eu parecia um ET, né, eles ficavam: “Puxa, três músicas no Festival!”
MÁRCIO – Aliás, diga-se de passagem, só você e Vinícius classificaram três músicas nesse Festival, né.
BITUCA – Só nós. Agora, teve uma coisa muito interessante, quando o (Augusto) Marzagão, que era o chefe do Festival, foi a São Paulo e falou que eu tinha que vir pro Rio, esse negócio todo. Eu peguei o ônibus e fui dando um adeus, assim, pra São Paulo, mas numa felicidade de sair de São Paulo, que os dois anos que eu passei lá foram vinte anos de sofrimento, né. Foram dois anos terríveis, que eu podia ter apelado pra muitas coisas que tinha tão facilmente, como drogas, como outras coisas assim, e eu consegui passar ileso, né. Eu cheguei a passar uma semana sem comer porque não tinha emprego lá. Pra cada cinquenta músicos tinha uma vaga, né. Eu falei: “depois disso que eu passei aqui, se eu não fui destruido por qualquer tipo de coisa, nada me destrói mais.” Isso, inclusive, me deu uma força muito grande. Aí, cheguei aqui no Rio, de manhã, fui direto pro stand do Festival. Cheguei lá, daquele meu jeito, aí falei com uma secretária lá que eu queria falar com o Augusto Marzagão. Aí ela falou assim: “olha, ele está em reunião, você quer deixar recado?” “A senhora faz o seguinte: diz pra ele que o Milton Nascimento esteve aqui e que eu volto mais tarde.” Quando eu falei “Milton Nascimento”, na minha cabeça ficou uma coisa tipo Olívia Palito, quando ela quer o Popeye (risos), que dá aquele negócio daquela roda nos pés dela. Então aconteceu isso com a secretária. Deu uma roda no pé dela que ela entrou por aquele troço adentro lá e de repente saiu um monte de gente, eu levei o maior susto. Aí teve o Eumir Deodato, a Geni Marcondes, que me pegaram e foram os chefes aqui no Rio. Mas não era isso que eu estava falando. Estava falando do Ronaldo. Então, foram me apresentando as pessoas aqui no Rio, e tal, e eu fui batendo papo e de repente encontro alguém com um papo semelhante ao teu, ao do Fernando e ao meu, né. Aí falei assim: “esse cara aí não tem jeito não.” E aí foi uma gamação também, né, logo. E depois eu vi que ele realmente era diferente de muitos outros que tinham…
MÁRCIO – Aí tinha Rio Vermelho, né.
BITUCA – Teve Cais, né, e mais coisa assim.
MÁRCIO – Aí foi crescendo a turma. Mas imediatamente depois do Festival você caiu fora pros Estados Unidos.
BITUCA – Na realidade, aquele Festival, as pessoas já chegaram aqui…que o Eumir tinha feito a cabeça de todo mundo lá fora, que precisavam ver o que estava acontecendo de novo aqui: era eu. Então tinha Quincy Jones, né, muita gente. O Creed Taylor, que era dono de uma gravadora, e Herbie Hankock, que me conheceu logo depois do Festival, também, e tudo. Então, 67 eu estava aqui, no começo de 68 já estava nos Estados Unidos, fazendo apresentações e gravando o disco Courage, que foi o segundo.

Voltar ao topo Capitulo 15.

Ditadura

MÁRCIO – Vamos mudar de assunto. Ditadura, e tal. Houve um dado momento, lá, que só sobrou você aqui na linha de frente. Como é que você vê hoje o seu papel naqueles dias?
BITUCA – Os meus colegas, né, Caetano, Gil, Chico Buarque, Geraldo Vandré, e coisa, as pessoas foram saindo do Brasil. Então, teve um negócio aqui que aconteceu, que a crítica era muito…má, maliciosa comigo, né. Ajuntou muita coisa pra cima de mim, que os olhos estavam voltados pra mim. Enquanto isso, fomos trabalhando com os estudantes. Agora, ao mesmo tempo que era uma coisa assim, de amor ao meu país, e me solidarizar com os estudantes, eu tive muito problema, você sabe. Problema de censura nos discos, como o Milagre dos Peixes, que foi quase todo censurado. A Odeon queria que eu fizesse outro disco, eu falei: “não, vai sair desse jeito”, usando a voz como instrumento, como uma arma. E olhe que tentaram censurar a voz também.
MÁRCIO – Acharam que a voz estava agressiva demais. Eu lembro disso, Impressionante. Censuram as palavras, você disse “tudo bem, eu canto sem palavras”, aí acharam que tinha ficado mais forte e quiseram censurar a voz.
BITUCA – E foi uma coisa que acabou virando um dos discos mais fortes da gente, né. Foi uma coisa muito forte, que houve comigo e os estudantes. Porque eu viajava pelo Brasil todo, numa época que a imprensa sempre acabava comigo. Então, os estudantes armavam shows e eu ia fazer, para ajudar na causa. Então, fui parar no SNI, fui parar numa delegacia também, no Leblon, a polícia ficava na porta da casa da gente, pra vigiar as pessoas que chegavam lá, me acusando de uma porção de coisas, me proibindo de ir a São Paulo, pra visitar meu filho Pablo, essas coisas todas.
Então foi uma coisa muito forte. Eu estava sempre à frente dos movimentos, inclusive o da liberdade de imprensa, que é uma coisa que eu penso, pôxa, quem dava a cara pro tapa era a gente, né. Depois, quando ganharam liberdade de imprensa se voltaram contra a gente. Agora, pra dizer a verdade, foi uma época assim, que todo show que a gente fazia diziam que ia ter uma bomba que ia estourar, a gente estava sempre com medo de ir aos lugares e, de repente, as pessoas iam desaparecendo, os amigos que a gente tinha, sei lá.

Voltar ao topo Capítulo 16.

Esquinas do mundo

MÁRCIO – Mas agora vamos falar de seu relacionamento criativo com a América Latina, Grupo Água, etc.
BITUCA – Meu relacionamento com a América Latina começou com o pessoal do Uruguai. Chegaram vários uruguaios aqui, tocando nossas músicas…Depois, veio o Grupo Água, que eu acho que foi a melhor coisa que já aconteceu no Chile, um grupo de garotos, não é, que vieram e me apresentaram as coisas da música latinoamericana. A gente trabalhou muito tempo junto, depois veio Mercedes Sosa, todo mundo. Mercedes Sosa foi engraçado, porque a primeira vez que eu vi um show dela, eu estava na platéia, junto com Vinícius de Moraes. Agora, eu achei ela tão forte que eu fiquei com medo de falar com ela depois. Aí, na hora que acabou, o Vinícius: ” vamos lá falar com ela. ” Eu falei: “Vinícius, eu estou indo embora pra casa,” Ele pegou na minha mão igual pega na mão de criança, e falou: “você vai lá sim.” Ai me levou lá. Dois ou três dias depois nós estávamos no estúdio gravando.
MÁRCIO – Bituca, eu queria que você falasse agora dos países. Fala aí da Dinamarca.
BITUCA – A Dinamarca é um país bem interessante na minha vida, porque eu sempre fui louco pela Dinamarca, mas nunca sabia, não sabia nem como é que era, a não ser os contos de Andersen, né, até que apareceram em Belo Horzonte uns daneses, né, e foram lá pra me chamar pra ir tocar na Dinamarca, porque tempos antes, eu tinha visto esse negócio dos países, o lugar que mais vendia disco meu, assim, em termos de população, era a Dinamarca. Eu quase caí pra trás. Bom, eu fui pra Dinamarca e teve esse negócio de filas enormes pra ver meu show. Agora, tem uma coisa que aconteceu na Dinamarca que foi muito interessante. Que todo lugar, antes, que eu ia, o pessoal perguntava: “qual é estilo a tua música?” Eu nunca soube que estilo que era, porque era samba? era mas não era, era jazz? era mas não era, era rock? era mas não era. Aí, quando eu fui a primeira vez que eu fui na Dinamarca, tinha lá o cartaz do festival de jazz, não sei quê, então, tinha lá, por exemplo, Miles Davis, jazz, Fulano de Tal, rythm and blues, Milton Nascimento, Milton. (risos)
Por falar em rock, eu tenho uma boa pra contar. Uma vez o Jim Capaldi veio aqui no Brasil e aí o pessoal da imprensa perguntou pra ele o que ele curtia de rock aqui no Brasil. Aí, ele falou: “Milton Nascimento.” Aí o pessoal começou a rir e falaram: “olha, mas Milton Nascimento não é rock.” Aí ele falou assim: ” Pois então vocês não entendem nada de rock.”
(risos)
MÁRCIO – Estados Unidos.
BITUCA – Estados Unidos, pra chegar e fazer show, é muito bom. Todo mundo, né. Não tem lugar ruim pra gente não. Eu lembro uma época que eu ia muito pra Europa e não ia pros Estados Unidos, pra fazer show, né, porque diziam que os americanos só gostavam de músicas cantadas em inglês. Até o dia que a gente resolveu fazer um show, foi no Carnegie Hall, o primeiro que eu fiz. Põe fila nisso. (risos) Fiz dois dias e o New York Times já deu quase uma página inteira, Foi bem importante, porque o cara, eu não lembro o nome do cara, fez uma crítica, crítica, não, um artigo sobre os músicos mineiros, e o cara escreveu uma coisa que nunca ninguém no Brasil escreveu igual. Então, ele falava de todo mundo e teve uma hora que ele falava assim: pois é, se você for ouvir, as pessoas são completamente ligadas em mim, no Lô, Beto, Tavinho, não sei quê, mas se você for ouvir com atenção, cada um tem seu estilo próprio. Nada é igual ao outro. E ele falou também sobre a nossa versão (Milton e Beto Guedes) do Norwegian Wood. Ele diz que foi a melhor interpretação de música dos
Beatles de todos os tempos, e que John Lennon devia estar todo feliz lá onde ele estava.
MÁRCIO – Pô, bela crítica. E o Japão. Oguênke des ká?
BITUCA – Arigaatô, sayonara, né. O Japão é o lugar que a gente tem o maior fã clube. Chama Fã Clube da Esquina. Eles inclusive tem um edifício lá, um prédio, que eles dão aula de português, através das nossas músicas.
MÁRCIO – De nossas músicas…O que eu sei é que o fã clube do Clube, eu recentemente entrei em contato com eles, eles são organizadíssimos. Os caras, eles lá sabem detalhes da nossa obra. Eles sabem, por exemplo, qual o instrumento que Beto Guedes tocou no Norwegian Wood, se foi um Rickenbacker ou uma Stratocaster, uma Les Paul. Eles descem a esses detalhes. Ou seja, são fãs mesmo.

Voltar ao topo Capítulo 17.

Nomes

MÁRCIO – Bituca, agora eu falo uns nomes e você diz o que eles significam pra você, ou pra bem ou pra mal. Começo logo com Miles Davis.
BITUCA – O rei. O deus. A fera.
MÁRCIO – Por quê que o Miles Davis nunca tocou com você?
BITUCA – Toquei no mesmo show que ele, mas não…eu abria o show dele nos Estados Unidos, mas ele era meio louquinho, né. Aí, quando eu estava perto ele não queria nem saber de mim. Quando eu estava longe, ele dava entrevista dizendo que eu era a única coisa de música que estava acontecendo no mundo…vá entender.
MÁRCIO – Tom Jobim.
BITUCA – Pra mim, o grande compositor de todos os tempos. E também, o cara do piano, pra mim.
MÁRCIO – Boa Palavra.
BITUCA – Uma das música mais bonitas do Caetano, que mais mexeram comigo.Inclusive até hoje eu ainda toco assim, de vez em quando, e ainda quero gravar um dia. É uma das músicas mais bonitas do cancioneiro brasileiro.
MÁRCIO – Com certeza. Clementina de Jesus.
BITUCA – Clementina de Jesus tem uma coisa que é muito interessante, que até hoje eu não consegui entender. Eu acho que é a voz da África do Brasil, né, e acontece que uma vez eu fui à casa dela com o Hermínio Bello de Carvalho, e nós estávamos assim, na sala, bateram na porta e era a imprensa. E ela, então, conversou umas coisas com a filha dela numa língua que ninguém sabia o quê que era. Só que eu entendi tudo, como se estivesse falando em Português pra mim. Depois eu esqueci de perguntar pra ela que língua era aquela, porque só nós três, negros, é que entendemos. Os outros não.
MÁRCIO – Wayne Shorter
BITUCA – Wayne é meu irmão americano. É o cara que realmente me botou pra ser conhecido no mundo inteiro.
MÁRCIO – A música que você não compôs e gostaria de ter feito.
BUTUCA – Eu vou falar do tema, não da música. Mas um dia que eu fiquei completamente embasbacado, e bravo comigo, porque eu não tinha pensado nisso, foi quando eu ouvi pela primeira vez Ebony and Ivory, do Paul McCartney, cantado por ele e o Stevie Wonder, que fala das teclas do piano, brancas e pretas, e que convivem em prefeita harmonia, e por que não nós? Então, eu olhei pro meu piano, vi aquelas teclas alí, e perguntei: “meu deus, como é que eu não pensei nisso?” E aí, mais tarde o Tunai apareceu com a música, então eu fiz a letra de Certas Canções baseado nesse sentimento aí.
MÁRCIO – O mundo hoje.
BITUCA – O mundo hoje , eu acho que ele está mais duro, né. Acho que vem muita informação na cabeça das pessoas, especialmente dos jovens, né, e informação não com característica do amor, da amizade, dessas coisas, mas mais a informação baseada no dinheiro. Então, é muito difícil a gente conhecer, assim, pessoas que sejam como na nossa época, que gostava um do outro pelo simples prazer de gostar.
MÁRCIO – Brasil.
BITUCA – O Brasil é um país absolutamente lindo, acho que é o país mais bonito do mundo. Agora, só que falta interesse, não só dos políticos, mas do povo brasileiro mesmo, em conservar o Brasil limpo, lindo e amado, né. Porque se fala muito nos políticos, mas tem coisa que não são os polítcos que tem que fazer. Tem coisas que somos nós, os habitantes, que temos que fazer, como preservar, como não sujar, como não matar. Então, tem ao mesmo tempo o negócio das crianças, as escolas estão fazendo as crianças tomarem consciência da importância do meio-ambiente, mas falta uma coisa que dê um empurrão para que as coisas aconteçam, né.
MÁRCIO – Música brasileira atual.
BITUCA – Tem duas músicas brasileiras. A que as pessoas fazem como aquilo que acreditam, e aí tem muita gente boa, e tem a de consumo imediato, que, aliás, não é só no Brasil não, é no mundo todo. E tira-se pouca coisa realmente boa. Por exemplo, o negócio da gravadora. Antes vinha escrito no disco que disco é cultura. Hoje não existe isso mais. Então, tinham os caras que vendiam porque vendiam, e aí as gravadoras aproveitavm o que ganhavam pra investir nas pessoas que não vendiam tanto mas tinham importância como artistas. E hoje isso nem existe mais.
MÁRCIO – E o ser humano, a pessoa de carne e osso incarnada neste planeta?
BITUCA – O ser humano é o principal objeto de todas as nossas lutas, né. Como você mesmo falou, eu também sou apaixonado pelo ser humano. Pode ter uma paisagem na minha frente, que se tiver uma pessoa, eu olho pra pessoa.
MÁRCIO – Concordo inteiramente. A paisagem mais bonita é a pessoa.

Voltar ao topo Capítulo 18.

Bituca fala de certas canções

Morro Velho

MÁRCIO – Bituca, eu queria dar uma repassada, pra você ir contando pra gente, especialmente pro público que vai ouvir essa coleção, como é que essas músicas nasceram. Morro Velho, por exemplo.
BITUCA – Morro Velho eu fiz quando eu morava em São Paulo, baseado numa coisa que eu quase vivi, né, que eu fui testemunha de um pessoal de uma fazenda lá no interior de Minas, que a gente ia passar as férias, com o pessoal parente do Wagner Tiso, e tinha esse cara, que é o camarada, que era um cara muito legal, com os filhos dele, assim, e o trem passava alí perto… Então Morro Velho é uma coisa de verdade, não é uma coisa que eu sou o protagonista, mas isso realmente existiu, como quase todas músicas que a gente fez são vindas de fatos da nossa vida.

Para Lennon e McCartney

MÁRCIO – Para Lennon e McCartney é aquela história, né. Depois do Festival Estudantil da Canção em Belo Horizonte, nos anos 60, a Leise, namorada do Fernando Brant, foi lá pra casa pra gente fazer uma macarronada, juntou os participantes todos do Festival, Eduardo Conde, Tavinho Moura, não sei mais quem, né. Aí nós ficamos lá tocando piano, e o Lô ficou lá fazendo um tema. Depois foi essa coisa: enquanto a Leise fazia a macarronada, eu e Fernando nos trancafiamos dentro do quarto de meu pai e minha mãe, e em vinte minutos, que a gente estava com muita pressa de comer macarronada, nós aparecemos com a letra de Para Lennon e McCartney.
BITUCA – E acabou sendo uma das músicas mais marcantes da minha carreira.
E uma coisa muito linda, que teve um dia que eu cheguei em Santa Tereza, na casa dos…nossos pais, né, dos Borges, a casa toda aberta, eu entrei, andei aquilo tudo e não tinha nenhum. Nenhum dos meus amigos lá. Aí eu descí pra ir num boteco que tinha alí perto e apareceu o Lô. Aí eu falei: “Lô, vamos lá no boteco comigo”, que eu ia pedir uma batida de limão pra mim e um guaraná pro Lô, né . Aí quando eu cheguei e falei pro cara lá: “Uma batida de limão pra mim”, e ia falar o resto, aí o Lô falou : “e uma batida de limão pra mim também.” Aí que eu olhei bem pra cara dele é que eu saquei que ele não era mais uma criança que estava alí no meu lado.Eu inclusive ia dar uma bronca. Mas aí nós tomamos lá umas duas caipirinhas, que pra ele já era bastante, novato na história, e ele pegou, veio e me falou que tinha uma coisa que ele se ressentia muito, que ele achava que eu não gostava dele. Porque a gente ia pra Belo Horizonte, saía e nunca convidava ele. Eu falei: “Olha, Lô, pra mim até agora você era uma criança.”
MÁRCIO – A gente não convida criança pra ir pros lugares que a gente ía.
BITUCA – Tá doido, convidar uma criança pra sair com a gente. A gente ia tudo preso! (risos)

Clube da Esquina

BITUCA – Aí foi uma conversa muito linda, e tal, ele falando das minhas músicas, de mim, como cantor e como amigo, essas coisas todas, e naquele instante nasceu a amizade, né. Então ele me disse lá no bar que ele tinha umas coisinhas que não estavam acabadas, e queria me mostrar, e aproveitar que não tinha ninguém na casa. Aí subimos os dois, ele começou a tocar uma coisa lá, uma sequência de harmonia, eu peguei meu violão e fiz a melodia em cima, e assim nasceu nossa primeira música, que naquele dia mesmo se chamou Clube da Esquina. Que aí eu lembro que a gente estava tocando e você chegou com sua mãe, lá na sala, e logo você pegou caderno, e coisa, e já começou a fazer a letra em cima daquilo que você estava ouvindo. Então, naquele dia nasceu o Clube da Esquina, né.
MÁRCIO- Como dizem hoje, o legendário Clube da Esquina. A palavra legendário colou no Clube da Esquina, né. Eu vejo na imprensa: eles não põem assim: “o Clube da Esquina”. É sempre “o legendário Clube da Esquina.” Que história é essa de legendário?
BITUCA – E eu sei lá!!! (risos)
MÁRCIO – San Vicente!

San Vicente

BITUCA – San Vicente foi uma música que eu fiz para uma peça do José Vicente, né, que era um cara bem conhecido. Ele escreveu Hoje é Dia de Rock e mais um monte de peças, todas ótimas. Então a Norma Benguell era uma das atrizes e eles me chamaram pra fazer a música dessa peça, que é uma coisa que acontecia numa cidade da América Latina, mas a gente estava falando do Brasil. Só que se falasse do Brasil, naquela época não dava e a gente ainda ia preso, né. Então, San Vicente é uma coisa latina. E essa música foi uma coisa muito interessante, porque o Fernando botou letra mais tarde e, quando eu soube, de repente começaram a aparecer gravações de San Vicente de pessoas da América Latina que eu nem sabia que me conheciam. Foi o primeiro grande elo com o pessoal do Chile, do México, da Venezuela, da Argentina, do Uruguai, tudo. Então, tenho várias relações que começaram daí. O Brasil não se considerava um país da América Latina. Tudo que vinha desses outros países, desses nossos irmãos, era considerado brega, era iirc!, aquele negócio, ou tinha outras coisas assim como livros, todos censurados. Então, o Brasil era muito separado do restante da América Latina, né.

Fé Cega, Faca Amolada

BITUCA – Fé Cega, Faca Amolada foi tipo uma continuação do Nada Será Como Antes, que foi uma música que eu fiz e conversei com o Ronaldo Bastos. A gente, no meio da música, mandava uma mensagem pra uns amigos nossos que estavam refugiados em Londres.Tinha: “I’ll see you in September”, que em setembro a gente iria se encontrar. A continuação dessa história foi Fé Cega, Faca Amolada.

Minas

BITUCA – Minas nasceu desde quando o Rúbio, que era um menino, resolveu juntar do jeito dele as sílabas do meu nome, e depois deu nome pro disco também. Ficou sendo Minas. E o Novelli tinha feito uma música que…que era minha, né. Então, a gente combinou e gravou.

Cio da Terra

BITUCA- O Cio da Terra foi minha primeira parceria com o Chico Buarque. De repente, eu fui a um estúdio, estava o Francis Hime tocando uma música que eu achei linda. Fui lá e cumprimentei o Francis, “puxa, que música linda”, e ele: ˜não, essa música não é minha não, é do Chico.” Era O Que Será. Então, cheguei pro Chico, né, foi quando nós ficamos amigos mesmo, cheguei pro Chico e falei: “eu tenho que gravar essa música de qualquer maneira.” Aí ele falou: ” Você grava ela dum jeito comigo e depois você grava de outro em seu disco.” Porque ela tem três versões, essa música, que foi pro filme Dona Flor e seus Dois Maridos. E aí, a partir desse dia, a gente começou a andar junto. Aliás, a primeira música minha e do Chico foi Primeiro de Maio, uma música pouco conhecida, mas linda, o maior barato. E a segunda foi Cio da Terra, uma música a respeito da terra.

Maria Maria

BITUCA – Maria Maria nasceu quando o Grupo Corpo começou. Nasceu de um balé que se chama Maria Maria e a música também pra esse balé. Antes era só solfejada, depois ganhou letra do Fernando e acabou virando a música, o hino das mulheres latino-americanas.

Canção da América (Unencounter)

BITUCA – Essa é uma música que nasceu lá nos Estados Unidos, por causa de, não é desencontro, mas um não-encontro que aconteceu, entre um amigo meu e eu. Eu prefiro não entrar muito assim em detalhe da Canção da América, porque cada um…aliás, essas músicas, né, cada um interpreta de um jeito. Todas as músicas que a gente canta, eu gosto de ouvir a opinião das pessoas. Tem coisas, assim, que são completamente diferentes das coisas que eu pensei, mas que tem tudo a ver. Por exemplo, o Ponta de Areia, que é uma das músicas que o povo gosta lá no exterior, então o pessoal não entende a letra, mas na hora que eu acabava o show, cada um vinha me perguntar o que tinha, o que queria dizer a letra. Eu falava: “não, o quê que vocês acharam?” Aí eles me explicavam e eu ficava bobo de ver tanta beleza assim.

Nos Bailes da Vida

BITUCA – Nos Bailes da Vida foi uma música que a gente fez em homenagem aos músicos que tocam na noite, que são geralmente músicos assim, que as pessoas não dão muito valor, e tal, e são uns tremendos músicos. E também que eu nasci do baile, desde meus 14 anos de idade, né.
MÁRCIO -Só um parêntese. Eu digo que esta música cunhou uma das frases mais citadas, talvez de toda a cultura brasileira, que é “todo artista tem que ir aonde o povo está.” Eu já vi essa frase do Fernando reproduzida em cem mil lugares. Esse músico anônimo éramos nós mesmos, não é não?
BITUCA – Somos nós mesmos. E aconteceu uma coisa muito interessante, porque ela, juntamente com Coração de Estudante e Menestrel das Alagoas, essas três foram as músicas que marcaram a época de Tancredo Neves, né.
MÁRCIO – Com certeza, são as músicas da Nova República.
BITUCA – Exatamente.

A Barca dos Amantes

BITUCA – A Barca dos Amantes foi a primeira composição que eu fiz com o poeta português, músico também, Sérgio Godinho, e que eu fiz a música em cima da letra e que foi uma loucura também; foi uma coisa que mexeu muito com a alma de todo mundo, né. E é uma coisa que acontece com nossas músicas, é que elas costumam virar hinos de várias coisas, são…
MÁRCIO – Palavras de ordem.
BITUCA – É.

Rouxinol

BITUCA – Rouxinol foi uma época que eu estava de mal comigo, a vida estava de mal de mim, uma coisa assim, e eu tinha resolvido que ia cantar pela última vez num show. Mas eu não queria fazer igual vários artistas que falam que vão abandonar e acabam não abandonando nada. Eu tinha marcado o show, era um show com a Jazz Sinfônica de São Paulo, os Rouxinóis de Divinópolis e os Curimins de Belo Horizonte, que são corais infanto-juvenis. Aí, naquela noite foi uma coisa, que nesse show eu não cantava Travessia, mas naquela noite resolvi cantar no bis, e foi uma coisa incrível, porque um dos meninos ficou me encarando enquanto eu cantava, em vez de ficar olhando pra frente como os outros meninos. E aquilo foi me incomodando, e ao mesmo tempo que me incomodava, foi a primeira vez que eu cantei Travessia passando a música como um filme de minha vida, e quando eu acabei, foi uma coisa muito forte, porque ninguém nunca me viu cantar Travessia daquele jeito, eu nem lembro como eu cantei, só sei que foi uma coisa muito forte, e só sei que na hora que eu acabei os músicos da orquestra ficaram de pé, o pessoal da platéia também. Foi uma coisa muito bonita e aconteceu que a última palavra da melodia que eu cantei, eu cantei olhando pra esse garoto, “viver”, né. Porque eu acho que eu tinha decretado a minha morte, né, porque parar com música pra mim é igual a morte. E esse “viver” eu fiz olhando pra ele.
Depois, mais tarde, eu chamei o garoto no camarim, porque ele passou uma energia pra mim que ele me desconcertou, tirou de minha cabeça aquela idéia de parar com música.
MÁRCIO – Bendito menino. E você fez Rouxinol pra ele. Devia ter feito uma estátua.
BITUCA – Cheguei e a música veio. Música e letra, no ato.

Cravo e Canela

BITUCA – Essa eu fiz numa época que eu andava muito com a Dina Sfat, né, a gente, nós éramos muito amigos, né. Eu fiz pra um personagem dela num filme do Ruy Guerra. Era uma pessoa que falava umas coisas que ninguém entendia, mas não era uma louca, né. E eu fiz pensando na Dina Sfat. A música não entrou para o filme, mas aí Ronaldo botou essa letra pensando na Dina. E é uma coisa muito interessante, que eu recebi uma carta de Cuba, Léo Brauer, que é um dos grandes artistas de lá, é maestro e tudo. Ele ficava estudando Cravo e Canela porque ela é em compasso composto, mas não tem aquele negócio forçado, não tem cara de, aliás, isso é uma característica minha. Na hora que eu estou fazendo, eu não estou nem aí pra compasso, se é 5 por 4, se é isso ou aquilo ou coisa, e a música sai natural como se fosse 4 por 4 ou 2 por 4, né. Então Cravo e Canela mexeu com a cabeça de muito músico aí no mundo.

Voltar ao topo Epílogo

Fim

MÁRCIO – Tinha sempre essas histórias, né, Bituca, dos caras falando que você estava compondo errado e você provando que não tinha nada de errado. Tinha até uma história engraçada com o Ron Carter, você lembra dessa história que você me contou uma vez?
BITUCA – Ah, não foi só no Ron Carter, foi…
MÁRCIO – Foi na turma toda.
BITUCA – Na turma toda, né. Novena, que é nada mais nada menos do que…
MÁRCIO – A primeira música que a gente fez…
BITUCA – …que se chamava Paz do Amor Que Vem, e inclusive, mais tarde, eu quero ver se faço uma gravação com as duas letras, né.
MÁRCIO – Ô Bituca, eu acho que nós merecemos isso, viu, cara. A primeira música que a gente fez na vida e nós não fomos fiéis nem ao título.
BITUCA – É…é aquele negócio, né, da timidez da gente, quanto às coisas que a gente faz….(pausa)…Então, eu estava no estúdio, estava o Pat Metheny, o Herbie Hanckock, o Jack DeJohnette e Naná Vasconcelos. Então, eu falei pro Pat, na hora que a gente estava escrevendo as cifras, aquele negócio todo, que essa tinha sido realmente a minha primeira música. Ele mostrou a primeira música que ele fez também, e tal, e a gente gravou, e teve uma hora que eu dei um acorde no meio que todo mundo parou. Parou, assim, eu olhando, foi uma coisa incrível, que eu ví que tinha derrubado os meus ídolos. (risos) O acorde que estava dando era aquele, mas eles tinham que seguir naqueles que eles já estavam dando mesmo. Aí tivemos que fazer a gravação de novo, e aí aconteceu uma outra coisa engraçada, porque eu faço uma coisa no violão e depois, da outra vez, o Herbie Hanckock pensou que eu ia repetir o negócio, e eu não repito, então ele deu o acorde e…
MÁRCIO- Caiu!…
BITUCA – É. (risos)
MÁRCIO – Então, palavras finais de Milton Nascimento.
BITUCA – Muito bom fazer isso, principalmente com um repórter (pondo a mão à altura do peito e rindo) à minha altura.
MÁRCIO – Você está dizendo que eu bato no seu ombro?
BITUCA – (rindo) Eu jamais falaria isso, porque eu já ouvi cada resposta quando…bom, é isso aí. Até a próxima.

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6 Mensagens para Milton Nascimento

  1. maria patricia disse:

    Chuiquito, sou sua prima, filha da irmã de seu pai. Para vc saber quem é: lembra do pão doce disputado por vc e meu irmão? Estou à anos a sua procura, aguardo respostas sua.

  2. Maurits van der Ley disse:

    Caro Marcio Borges.

    Chamo a sua atencao aos excelentes textos sobre Milton Nascimento, do Epistemologo Edson de Melo.

    O texto abaixo foi retirado de seu BLOG. http://blogpai.wordpress.com/about/

    Componentes recivilizatórios da cultura brasileira.
    Milton Nascimento e Ludwig van Beethoven – A Troca da Usia Aristotélica pela Poiésis.

    Para formar a representação do significado da obra de Milton Nascimento, foi contraposta, na Epistemologia de Edson de Melo, aos resquícios de panteísmo e “Sturm und Drang”, nos modos teleológicos, metafísicos e arquitetônicos da música alemã.

    O pensamento morfológico, como encontramos em L. van Beethoven, é exemplo marcante. Seu sentido espiral ascendente, inspirado em W. Von Goethe, principalmente na Nona Sinfonia, advém diretamente desta tradição.

    Assim, surgiu a grande forma, voltada às concepções idealizadas de beleza e veracidade.

    Neste aspecto intervêm elementos originalmente teológicos, impulsionados por Pitágoras, estendidos pelo platonismo e aristotelismo, como princípios civilizatórios como notou B. Russell.

    A idealização absolutista de intencionalidade e extensionalidade, como na lógica estóica.

    Em contrapartida, Milton Nascimento sugere sua reforma pela proposta de processo compositor, como sistema complexo-aberto, advindo de atividades musicais artesanais, poiéticas e práticas.

    Este rechaçamento musical construtivista simboliza a troca do cerne metafísico, usia aristotélica, ou Wesen dos alemães, pela Poiésis. Sua reconstrução metódica e protótipo de reformas civilizatórias.

    Nesse sentido, construções rítmicas, como, por exemplo, em “Saudades dos Aviões da Panair”, em sua natureza quase melódica, quase harmônica, são impulsos reformadores.

    Uma peça como “Gran Circo” propõe conceitos e tipos de formas. Podem ser cada ponto espaço-temporal do Brasil.

    Aí, tem-se a sugestação de alternativa à música impulsionada pela filosofia ou pintura, como Adorno viu em Debussy e Stravinsky, em sua “Die Philosophie der neuen Musik”.

    A forma pode ser análoga a realidade trans-subjetiva, como propôs Heitor Villa-Lobos nos Choros, principalmente de numero 11.

    A atividade compositora pode ser coletiva, centrifugal, sob agentes diversos e inconscientes da totalidade, organizando-se espontaneamente.

    Supera o intencionamento centripetal da tradição platônico-aristotélica. Produz elementos musicais emergentes. Inspira novos impulsos civilizatórios, como desenvolvemos nas Epistemologia deste autor.

    Sua simultaneidade, intensidade, e polarizações exigem respostas. Novos conceitos. Nova conceituação do conceito, na tradição cognitiva do Ocidente.

    O Brasil tem traços intensos de tradição histórica, na terminologia de Feyerabend.

    A pluralidade de deuses, o ecletismo pragmaticista em consultá-los, decidindo-se pelo que resolve.

    A abundância de conceitos imaginativos, próximos a realidade trans-subjetiva, flexíveis, dos quais nos orgulhamos.

    O predomínio da capacidade e possibilidade de metamorfoses que promove a criatividade.

    O liberalismo que impede o elitismo, classicismo e total predomínio de conceitos e idéias platônicas.

    Entre nós, os índios manifestavam em sua religião e mitologia o ecletismo condimentado com seu pragmatismo característico. Processo compositor característico que herdamos.

    Milton Nascimento foi, nos anos setenta, o projeto de inauguração da reforma civilizatória brasileira pela inédita composição musical de tradição histórica.

  3. Tiago Borba disse:

    Maravilhoso! Me sinto ainda um privilegiado que, como músico, embora não tenha vivido esse tempo, pois tenho apenas 32 anos, sinto saudades, mesmo um pouco melancólico pela sensação de que minha geração não tem se esforçado para dar uma continuidade à altura dessa história fantástica e deliciosa que foi, não, que É o "Clube da Esquina".

    Me orgulho por ter lido essa entrevista!!!

  4. Em se tratando de Milton, tudo que puder ser lido é pouco, Mas nesta entrevista está tudo e um pouco mais do que eu queria. Bão dimais da conta, sô! Apenas um pedido, se possível. Márcio e Ângelo vejam se confirmam com o Milton se a foto da capa de um álbum de 1990, em que Bituca aparece atravessando uma estrada nevoenta, foi mesmo feita em Pouso Alto.

  5. mayara disse:

    eu não entendi absolutamente nada sobre o tema o ser humano é o principal objetos de todas as nossas lutas eu sou apaixonado pelo ser humano.Pode ter uma paisagem na minha frente que,se tiver uma pessoa eu olho para pessoa .A paisagem mais bonita é a pessoa.De Milton Nascimento??por favor me ajudem!

  6. Carlos HB disse:

    Passei por uma boa época dessas. Por isso, pude ler essa entrevista como se fosse um dejá-vu antológico^^