Murilo Antunes

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Nome/ Local e data de nascimento

Meu nome é Murilo Antunes Fernandes de Oliveira. Nasci em Pedra Azul, no vale do Jequitinhonha, nordeste de Minas Gerais, no dia 25 de junho de 1950.

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Pais/ Avós

O nome do meu pai é Joel Fernandes de Oliveira. Minha mãe é Ester Heloisa Antunes de Oliveira. Ambos são naturais de Pedra Azul.
O meu pai foi tropeiro na juventude. O meu avô era fazendeiro e meu pai ia junto, fazendo comida pra tropa. Minha mãe era dona de casa. Somos cinco irmãos. Três mulheres e dois homens.

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Pedra Azul

Pedra Azul é muito lindo, um presépio. Lá a gente podia sair sozinho, não tinha violência. Eu mudei de lá com sete anos. Antes disso fiz o primário, ia ao cinema todo domingo, matinê. Desde pequeno eu gosto de cinema e de música. Lembro muito de um rádio que tinha na sala de casa, um rádio antigão, daqueles de válvula com olho mágico. A primeira coisa que eu fazia quando chegava da escola era sentar no banquinho do lado rádio, ficar ouvindo música enquanto saía a comida. Adorava Luiz Gonzaga. Ele foi o artista que mais viajou pelo Brasil, e não tinha esse negócio de avião. Ele viajava com a banda dele de caminhão, com triângulo, zabumba, chegava na praça e mandava ver. Aí eu soube que ele ia para Pedra Azul, eu devia ter uns cinco anos. E a gente não podia sair à noite. A nossa casa era na avenida e o quarto de costura da minha mãe dava janela pra rua. No dia do Luiz Gonzaga, abri a janela e fugi pra ver o show. Estou lá no gargalo, embaixo do caminhão do Luiz Gonzaga, interrompem o show: “Atenção! Quem viu um menino vestido com uma camisa assim, calça assado, calça curta, favor comunicar aqui em cima”. Era o meu pessoal. Tomei umas palmadas, mas valeu a pena.
Lá em casa ninguém tocava nenhum instrumento. Minha mãe cantava pra gente dormir, depois a gente foi crescendo. Ela tinha um repertório, sabia coisas de Assis Valente, Noel Rosa, músicas de serenatas. Ela ensinava pra gente. Aprendeu um violãozinho, uns lá menor, uns dó maior, mas só pra folguedo. Quando nos mudamos pra Montes Claros, meu pai começou a fazer parte do Lions Clube. Ele era da diretoria. Estavam em expansão, então meu pai ia pras cidades inaugurar sedes. Nós íamos junto, porque a gente ia fazer serenata nas cidades, Grão-Mongol, Januária, Francisco Sá, essas redondezas de Montes Claros. A gente ia passear e fazer serenata. Então desde pequeno a gente abria a boca no mundo, no bom sentido.

FAMÍLIA
Avós

Meu pai sempre gostou muito de ler e também escrevia uns versos. Tinha uma letra muito linda, caligrafia e tal. Em casa tinha poucos livros, quase nada. O meu avô era fazendeiro. Ele esperava a boiada engordar, vendia e tinha que entregar. Não tinha estrada asfaltada, eles levavam os bois andando, na tropa mesmo. Não tinha esse negócio de caminhão e os bois não eram segurados. Numa dessas, ele vendeu uma boiada pra Bahia. Foram levar e no meio dessa viagem, que demorava um mês, 20 dias, deu uma peste na boiada. Foi matando uma, matando outra. Sobrou mixaria. Ele quebrou, e, automaticamente, meu pai quebrou.

CIDADES
Montes Claros

A gente não tinha o que gastar, tinha que se virar. E sempre foi assim. Uma coisa bacana é que eles foram investir no estudo da gente. Nos mudamos todos pra Montes Claros porque lá o ginásio era melhor. Fiquei em Montes Claros dos sete aos 15 anos. Essa fase é muito marcante pra qualquer pessoa, e lá foi um barato. Montes Claros é uma cidade muito musical. Tinha muita música regional, folclore, serenatas. Na cidade, tinha vários grupos de seresta e a gente tinha um contato muito direto com essas coisas, com essa música de raiz. Isso é uma das coisas que influenciam muito na minha composição. Eu digo assim: a gente sai do sertão, mas o sertão não sai da gente. Apesar da aridez, da falta de água, é tudo muito sofrido, a miséria é grande, não é um lugar com muita qualidade de vida, tem pouco emprego. A base é agropecuária, então emprega muito pouca gente. Mas, por outro lado, foi onde eu comecei a jogar futebol, que é uma experiência genial na minha vida. Joguei muito tempo. Primeiro num time de Montes Claros chamado Ateneu, isso com doze anos, por aí. O técnico do nosso time brigou com os diretores do clube porque eles não queriam dar chuteiras pra gente. Aí saiu do time, foi pro outro. O time inteirinho foi com ele, porque era um técnico bacana. Fomos pro Casimiro de Abreu.
Eu tinha curiosidade de saber quem era ele, que é um poeta fluminense muito bom. Eu estudava no Colégio dos Irmãos Maristas, e tinha essa curiosidade de saber quem era esse cara, esse Casimiro de Abreu. “Tenho que saber pelo menos quem é.” E fui descobrindo poemas, fui gostando daquilo, comecei a fazer umas quadrinhas. Eu adorava ler. A gente tinha aula de canto, aula de oratória, de caligrafia. O ensino era muito mais completo. A gente ficava com uma visão mais ampla do que hoje. Nesse colégio tinha o ensino do português, da poesia. Um professor, um irmão marista, foi o organizador de uma antologia luso-brasileira que ficou muito famosa, era muito boa. Foi ali que comecei a ver os poetas brasileiros e os portugueses. E vinha desde José de Anchieta, passava por Camões, misturava os brasileiros, os portugueses e dava uma visão da poética do meu país muito bacana.
A gente agitava muito. Em Montes Claros, tinha uma turma do colégio que a gente expandiu, uma turma muito boa, pessoal que adorava música. Todos nós tocávamos um pouquinho, mas tinha um em especial que tocava muito bem, que estudava e era tarado por música. Era muito difícil conseguir discos. Na minha casa, por exemplo, não tinha radiola, eletrola, não tinha jeito de ter ainda, só depois. Esse amigo construiu uma radiola hi-fi estereofônica, grandona. E a gente conseguia os discos de amigos, parentes dos meus colegas que iam pro Rio de Janeiro passar férias, passear. A gente fazia vaquinha pra ele poder comprar o disco do João Gilberto que tinha saído, as novidades.
Não tinha vitrola mas tinha o rádio, nunca deixei de ter. Tem hora que é ele. A gente ia direto pra fazenda, em Montes Claros. O pessoal tinha muito esse hábito. E eu sempre levava o radinho pra ficar andando a cavalo e ouvindo música.

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L
As influências

A gente se reunia na casa desse amigo que construiu a radiola pra ouvir as músicas. Foi onde eu ouvi pela primeira vez algumas coisas como Coltrane, Charles Mingus, Miles Davis e bossa nova. Basicamente isso. E a MPB, que estava começando a esquentar as turbinas. O mercado fonográfico ainda não era forte. Nossa principal referência era o rádio mesmo, a Rádio Nacional, programas de calouros, Rádio Mairink Veiga. A gente se juntava pra ouvir a Rádio Mairink Veiga. Tinha um programa chamado “Hoje é Dia de Rock”. Passava num sábado, às quatro horas da tarde. A gente se juntava e trancava a porta pra poder ouvir alto – rock é alto. Ficava dançando e escutando aquilo. A gente colecionava a “Revista do Rádio”, que tinha as letras de músicas. A gente ouvia muito Elvis Presley, Neil Sedaka, Paul Anka, Chuck Berry, Bill Halley e seus Cometas.
Em Montes Claros tem muita festa religiosa. Festa do Rosário lá é muito bacana. Tive o prazer de conhecer um senhor chamado doutor Hermes de Paula. Esse cara era um folclorista. Era médico, atendia no consultório e o tempo livre ele usava viajando. Enfiava o jipe pelo mato afora e ia gravar, tinha um daqueles gravadores de rolo. Em lugares onde a estrada acabava, ele continuava o trajeto de burro, botava o gravador no lombo do burro e seguia pela trilha. Assim ele conseguiu um registro muito importante de toda essa cultura do norte de Minas. A gente ficou amigo e nessas festas religiosas ele sempre estava presente. Logo que mudei pra Montes Claros, a primeira Festa do Rosário que eu vi eu estava na casa da minha avó, perto da igreja do Rosário, e o meu pai me pediu pra comprar um cigarro. Na hora que estava esperando o cara me dar o cigarro, entra um sujeito e pede uma pinga. Um sujeito todo vestido de branco, com uns espelhos na cabeça, fitas coloridas, negro, umas latas nos pés pra fazer ritmo. Nunca tinha visto aquilo.
Pedra Azul já tem um outro tipo de folclore, é bem distinto. Inclusive são trezentos e poucos quilômetros de distância. Lá a gente tinha o Boi de Janeiro, a grande festa de Pedra Azul. Em janeiro. Ficava o boi, que era uma pessoa, e o pessoal tocando tambores, sanfona. Tinha vários grupos desses, ainda hoje tem. Em 2004 ainda existem oito grupos desses bois. É muito interessante, eles tocam aquela flauta de pífaro, é uma farra danada. Fica o boi perseguindo as pessoas, aquela fuzarca.
Tem boi em outras regiões do país. No Maranhão tem o Boi Bumbá, uma festa equivalente, só que as músicas mudam, a levada, os ritmos. Todo o Nordeste tem essas festas, mas não tem uma que canta a mesma música da outra. Essa de Pedra Azul é muito rica. Você amarra o dinheirinho que quer dar pros caras nas fitas do boi. É superbacana.
Aquele homem que eu encontrei em Montes Claros, eu fui saber, a gente estava indo mais ou menos pro mesmo lado. Então corri pra casa, joguei o cigarro pra alguém que estava na varanda e fui atrás dele. “Que cara é esse, pra onde é que esse cara vai?” Cheguei e tinha aquela quantidade deles, uns 200 vestidos dessa forma. Era a Marujada. É a história da Nau Catarineta, dos escravos que vieram da África pro Brasil e no meio do caminho teve uma calmaria. As caravelas pararam no meio do mar com os escravos. E ali teve uma rebelião. O pessoal forçou muito a barra pra eles remarem. E no escaler, no porão do navio, eles levavam uma imagem de Nossa Senhora do Rosário. Foram combinando e num momento eles tomaram o navio e começaram a rezar pra que o vento voltasse. Chegaram no Brasil donos do navio. A história toda se passa em alto-mar. Agora, imagine, no meio do sertão, Montes Claros, bem no centro do norte de Minas, esses caras ficam contando história de mar! Lá não tem água. São as curiosidades da passagem dessa história oral. Os mais velhos foram contando pros outros e construindo essas músicas muito bacanas. Sempre me intrigou saber como isso chegou até lá. E é forte, é grande. Mas conheço a tradição, vêm esses marujos vestidos da forma que eu descrevi, e na frente tem os caboclinhos, que são crianças vestidas de índio. A escola de samba do sertão é essa. Fiz uma canção pro Yuri Popov em cima de uma pesquisa que ele vem fazendo há muito tempo sobre as Festas do Rosário e as Marujadas. Fui me lembrando desses caboclinhos, dos marujos, das músicas. Eu e o Tavinho Moura fizemos várias viagens pra recolher essas canções.
Ouvi muita coisa gravada por aquele meu amigo em suas viagens. Ele publicou um livro, “Montes Claros: Sua gente, seus costumes”. É um livro grosso, muito completo. Um volume fala das pessoas e das famílias. O outro é só das festas, das tradições. Tem versos, conta a história da Nau Catarineta, tem aquelas adivinhas, “o que é o que é: cai em pé e corre deitado”.

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Estudos

Sempre me interessei por História, mas não sabia. Já aqui em Belo Horizonte — eu não fiz universidade, terminei o segundo grau e debandei pra música mesmo — eu fui fazer matéria isolada, História social e política do Brasil. Gostava bastante de História, ainda mais com o fervedouro que estava o Brasil. Era importante ter um conhecimento. A gente ia pegar a história da colonização, dos escravos, de quem sofre opressão. Sempre estive com eles, nunca fui do lado de lá. Eles é que são a minha turma.

Voltar ao topo TRABALHO

Parcerias

Trabalhei na produção de um longa-metragem do Carlos Alberto Prates Corrêa chamado “Cabaré mineiro”. O Tavinho Moura era assistente de direção. A seqüência final eram os marujos. A gente filmou em Contria, que é próximo a Corinto, e trouxe os marujos lá de Montes Claros pra cantarem. Eles passaram dois dias conosco, e deu pra ver como é que eles conviviam entre si. É uma coisa que a gente aprende. Por exemplo, tem o capitão da marujada, que é o chefe, o que pilota, e todo mundo obedece a ele. Na hora que estão lá fora festejando, eles é que são servidos e obedecidos. Na hora de comer, o capitão é que serve os outros, então eles quebram a hierarquia dos privilégios, fazem uma coisa solidária.

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Cinema

Em Montes Claros, a gente ia muito no Cine Fátima, Cine São Luís, Cine Coronel Ribeiro, esses três. O Cine Coronel e o São Luís eram do irmão do Darcy Ribeiro, que é muito amigo da minha família. Às vezes tinha filme com censura de 14 anos. Aí você tinha que dar um jeito. Eu convencia minha mãe pra ir no cinema, porque eu tinha12 anos. Às vezes, estando com ela, eu conseguia. Mas eu não me esqueço de “A um passo da eternidade”. Eu, louco pra ver, falei: “Vamos, mãe!”. Ela foi e nós conseguimos passar na porta da bilheteria, mas aí veio o diabo de um fiscal com uma lanterninha verificar todo mundo, e me tirou. O filme estava começando, no letreiro. “Pô, que decepção.” Maior sacanagem.
Passava mais filme americano. Os filmes brasileiros eu também adorava, Mazzaropi, as chanchadas da Atlântida. Lá não chegavam os filmes de Humberto Mauro, esses primórdios, “Limite”, do Mário Peixoto, que é um filme maravilhoso. Mas deu pra despertar pra aquela linguagem. Adorava aqueles seriados que passavam. Um capítulo num domingo, outro capítulo no outro domingo, na mesma hora. Passava o longa, aí passava um capítulo, normalmente de uns 15 minutos.
Mas tinha a coisa da música. Nos cinemas de Montes Claros, além de exibir os filmes, era onde aconteciam os shows. Eu ia em tudo que você pensar: os bregões, os bacana. Tinha show do Cauby Peixoto, Ângela Maria, e uns menos votados, tipo Adilson Ramos. Ia Toni Campello, Celly Campello. A primeira vez em que eu vi Roberto Carlos, ele cantou num ginásio lá. O disco que tem o “Calhambeque”. Aconteceu uma coisa engraçada no show do Roberto Carlos. Eu levei a minha irmã, a mais nova. Ela queria ver de todo jeito. A gente estava mais na bossa nova, não ligava muito pra Roberto Carlos. Mas a gente sabia da importância e via as pessoas adorarem ele. Estávamos no ginásio. De repente o Roberto Carlos está cantando e acaba o som. Molecagem de turma, cortaram o fio do Roberto Carlos. Mas depois eu fui numa festa no clube e o Roberto Carlos sentou à nossa mesa. Foi bacana demais. Era uma turma bacana, tinha uns oito caras, e ele sentou. Fazia assim relações públicas.

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Futebol

Só fui conhecer televisão aos 12 anos de idade. A televisão veio pro Brasil em 52, conheci em 62. Em Pedra Azul não tinha. Em Montes Claros, quando nos mudamos, eu vi a primeira vez. Eles foram fazer teste, isso em 62, pra ver onde colocar a antena. A televisão estava chegando lá. Um amigo do meu pai era técnico de televisão e ia fazer esse teste da antena num lugar alto, a uns 20, 30 quilômetros de Montes Claros. E eu fui junto porque ele ia fazer o teste na hora de um jogo de futebol do Santos e Milan. O Santos ganhou de dois a um, o Pelé jogava. Essa foi a primeira vez que eu vi televisão. A recepção era ruim demais, chuvisco, muito precária. Mas eu já tinha 12 anos, então minha infância foi feliz sem televisão. Não fez falta nenhuma. E vi o Pelé pela primeira vez, o Raoni.
Já vi o Rei jogar ao vivo, em Montes Claros. O meu tio era técnico do Ateneu de Montes Claros, e o Santos foi jogar com o Ateneu. Eu era mascote do time, ia com ele em todo jogo, entrava de graça. Ficava no banco de reserva junto com o meu tio. Então eu vi ele pertinho, foi muito bacana. Foi um jogo à noite. O Santos ganhou, como sempre ganhava.

Voltar ao topo ADOLESCÊNCIA

Movimento hippie

Nosso visual era pré-hippie, a gente ainda não tinha cabelos grandes, barba. A moda hippie foi logo depois, eu já estava em Belo Horizonte. Nessa época, em Montes Claros, a gente usava jeans e camiseta. Era por aí.

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Belo Horizonte

Em 65 eu me mudei pra Belo Horizonte. Vim de trem. Tinha vindo uma vez só pra Belo Horizonte, pra representar meu pai no casamento do meu tio. Viemos eu e o meu irmão. A primeira vez que eu vim a Belo Horizonte estava com 12 anos. Fiquei uns três dias. Achei uma maravilha. A maior cidade que eu tinha visto. Como não tinha televisão, eu imaginava a cidade como o rádio falava. Lembro que cheguei num sábado e a cidade estava vazia. Uma maravilha. Fiquei andando, rodando, naquela medida pra não me perder. Desci na estação e fiquei andando por ali. Fiquei hospedado na casa da minha tia, na avenida João Pinheiro, perto do Palácio da Liberdade. Já existia o Xodó, que era o maior sucesso tomar milk-shake, comer misto-quente. Ficava rodando pra ver essas coisas. Eu nunca tinha pegado ônibus. Em Montes Claros não tinha. Só que a porta de entrada dos passageiros eram todas por trás. Aí entrei pela frente a primeira vez, tomei a maior vaia das pessoas, aquele jacu. Já não tinha mais bonde, tinha trólebus. Era muito legal o elétrico também, a gente usava muito pra ir pra escola. Ele vinha nos trilhos que eram anteriormente dos bondes.
Essa primeira vez vim só como visitante. Em 65 já vim com a família toda. Aconteceu um fato gozado e por pouco eu não iria ser compositor. A coisa que eu mais amava era música, mas acontece que eu gostava muito de futebol também. Segundo meus parceiros e companheiros, eu jogava bem. Foi um pessoal do Atlético — sou atleticano — lá em Montes Claros pra ver o nosso time. Porque esse nosso time virou notícia. O Casimiro de Abreu ficou 72 partidas invicto. É uma marca muito impressionante. O cara do Atlético foi lá ver a gente jogar. E escolheu dois caras: eu e o ponta-esquerda — eu jogava de lateral esquerdo. Escolheu e queria trazer pra Belo Horizonte pra jogar no Atlético. Foram em casa conversar com meus pais, porque eu era menor. E meu pai falou: “Estou acertando minha transferência pra Belo Horizonte. Vou mudar pra lá no fim do ano com a família, então quando ele chegar lá vocês acertam”. Foram quatro meses intermináveis. Eu estava doido pra ir pro Atlético. Quando chegou aqui, eles marcaram o dia de eu ir treinar a primeira vez. Só que a gente tinha muita dificuldade de grana e tinha que trabalhar. Meu pai me arrumou um emprego com um amigo dele e no mesmo dia de eu ir treinar, tive que trabalhar. Então, este sonho esboroou. A gente veio pra Belo Horizonte pra estudar. Meu pai trabalhava no Banco do Brasil, então, com dificuldade ele conseguia transferência. Ele foi transferido pra cá, a gente veio junto. De mala e cuia.

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Colégio Estadual

Mas foi relax lidar com a frustração do futebol. A juventude é um barato, a gente não tem bode, não tem neura. Ao mesmo tempo, eu estava descobrindo um mundo genial. Eu caí no Colégio Estadual, onde estudou o Marcinho, o Fernando Brant, o Nelson Angelo, o Toninho Horta.

TRABALHO
Atividades profissionais

Meu emprego era no comércio. Esse amigo do meu pai tinha uma tapeçaria, vendia tapetes e cortinas. Ficava na Avenida Paraná, no centrão. As madames paravam os carros de bacana na porta e a mulher descia com aquele narizinho empinado. E fazia a gente tirar aqueles trenhão de tecido: “Ah, não quero esse mais não, eu quero é aquele”. Isso me irritava profundamente. Mas aí eu estava estudando, rapidamente saí daquilo e fui pro escritório da loja. Virei o chefe do escritório. Contabilidade era tranqüilo, era uma forma de eu sair das madames. Trabalhava o dia inteiro e de noite ia pra aula. No Estadual eu fiz o segundo ano do científico. O primeiro fiz ainda em Montes Claros. Trabalhei dois anos nesse comércio. Aí fiz o concurso pro First National Citybank, um banco americano. Precisava ganhar algum pra comprar meus discos e livros. Trabalhei dois anos lá. Foi nessa época que eu comecei a compor, fiz minha primeira música. Aí tirei férias do banco, não tinha nada gravado ainda, e na hora de voltar: “Quer saber, vou fazer música. Por que eu tenho que trabalhar em banco?”. Não voltei pro banco nunca mais. Quando chegamos em Belo Horizonte, antes desse trabalho, fomos morar na avenida do Contorno, perto do Hospital Felício Roxo.

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Paulinho Pedra Azul

Só pra registrar as pessoas que eu conheci em Pedra Azul: o Paulinho Pedra Azul, um artista admirável, assim como Saulo Laranjeira. Mesmo eu mudando de Pedra Azul pra Montes Claros, a gente ia todas as férias pra Pedra Azul, que era onde tinha muitos amigos e parentes. Ia pras fazendas. São pessoas que eu admiro muito. Conheci essas pessoas nas brincadeiras de infância e depois nessas férias todas. O Paulinho já tocava e compunha, o Saulo também já fazia aquelas coisas dele.
Eles são mais novos que eu. O Saulo é mais ou menos da minha idade, e o Paulinho é mais novo. Essas férias todas duraram muito tempo, até eu me mudar pra Belo Horizonte. Quando estava em Montes Claros, essa turma que eu contei, às vezes a gente se encontrava antes de uma festa pra tomar um “birinight” e já ir embalado. Nós fazíamos muita serenata. Numa dessas vezes, a gente estava fazendo serenata perto da casa do Godofredo Guedes, perto da Igreja da Catedral. Isso em 64, logo depois da Revolução, daquele golpe famigerado. De repente, pára uma radiopatrulha, a gente com o violão na mão. E era meu. Em vez de prenderem a gente, prenderam o violão. Disseram: “Se quiser de volta vai lá na delegacia amanhã”. [Risos] O violão era meu, eu que tive que ir. Me lembro até o nome do delegado, major Abdo. Lembro porque eu dei umas namoradas com a filha dele, mas ele não podia nem sonhar isso, senão complicava. Eu entro na sala dele e está assim: o violão e em cima da mesa um trabucão 45. “Puxa vida, o que eu estou fazendo aqui?” Aí ele vira: “Ô, menino, esse violão é seu?”. “É sim senhor.” “Quer dizer que vocês estavam fazendo bagunça na rua?” “Não, senhor, a gente estava fazendo serenata.” “Quer dizer que esse violão é seu?” “É sim, senhor.” “Pra ter ele de volta, você vai ter que cantar pra eu ver.” [Risos] Ele adorava música. Era um cara legal. Aí eu me apavorei: “Puxa, o que eu faço agora?”. Ainda pedi pra tentar achar um amigo meu que tocava muito bem, porque eu tocava de enganação. Mas esse amigo não estava em casa. Acabei tocando uma dessas músicas pra ganhar a liberdade [Risos].

PESSOAS
Beto Guedes

Montes Claros foi onde eu vi pela primeira vez o Beto Guedes, que viria a ser meu parceiro. A primeira vez em que eu vi o Beto, ele tinha um conjunto chamado Os Brucutus. Todo mundo como o cabelo igual aos Beatles, aquela franjinha, vestidos de preto com botinha de salto. Tudo nos trinques. Era cover dos Beatles. Vi eles tocando num clube lá e achei o maior barato. A gente já gostava de Beatles, estava começando a chegar em Montes Claros. O Beto tinha uns 12 anos, eu tinha 13. Ele tocava baixo, toca muito bem, até hoje. O baixo era grandão, maior que ele, aquele cotoquinho. Mas já mandava bem demais. Montes Claros também me deu a convivência com o sertanejo. É uma coisa fundamental na minha formação, tanto que várias músicas minhas descrevem isso. Foi onde eu pude compreender com muita rapidez o Guimarães Rosa e ficar fascinado por ele. Depois eu vim a entrar no Guimarães Rosa mesmo em Belo Horizonte. Porque a gente não tinha essa tradição da leitura. Você não tinha disponibilidade de dinheiro, de ficar comprando livro. Os pais da gente também vinham de outra realidade, a coisa do sertão, da viração. Não tinha hábito de leitura, a gente tinha que ir se virando.
O mundo pra mim era o do sertão, não conhecia outro. Ouvia falar de Nova Iorque, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, mas eu não conhecia nada disso. Então o mundo pra mim era o dos vaqueiros. Ir pras fazendas de parentes, de amigos e ver aquelas sessões de ferrar o boi, de fazer o tratamento, vacinar gado. As vacas todas tinham nome. Pegava a lista, era genial: Mimosa, não sei o quê. É uma lista. O Guimarães Rosa descreve isso muito bem. Ele sempre tem um nome diferente das vacas. Os caras tratavam quase como gente. Fiz uma música depois com Tavinho Moura que se chama “Boi é gente”: [Recitando] “Boi é gente, quem vai negar?/Serve a Deus pra depois morrer”.

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Pedra Azul/ Montes Claros

O sertão me deu ensinamentos práticos. O primeiro é a simplicidade. As pessoas se virarem com o que têm. Você não tem esbanjamento porque não tem nada pra esbanjar. Tem que conviver com o que existe ali. E por isso era auto-suficiente. As fazendas faziam tudo ali: queijo, arroz, feijão, frutas, leite, carne. Tinha serralheria, então as pessoas resolviam os currais, as pranchas de madeira tudo ali. E essa coisa do tempo lento. As pessoas deixavam o tempo passar, faziam as coisas no seu devido tempo, na sua cadência, sem sofreguidão. Isso eu aprendi pra sempre. Essa coisa das comidas, do palavreado, do casos, das lendas.
Tem uma lenda de Pedra Azul que é fenomenal. Comecei a roteirizar essa história, que é uma lenda muito conhecida em todo vale do Jequitinhonha. Bicho da Carneira. É a história de um camarada muito querido, um fazendeiro que tinha muitos agregados. Quando ele morreu, foi um velório muito comprido, porque as pessoas tinham que chegar da roça, vinham a cavalo e demoravam pra chegar. Nesse esticamento do velório, as unhas e os cabelos e os pêlos do cara começaram a crescer e foi virando o Bicho da Carneira. Aí taparam o caixão e enterraram. A amante dele não podia aparecer no velório. Chegou à noite, no cemitério, quando já não teria ninguém, a carneira, que é o túmulo, estava revirada e vazia. A partir daí, se sumia um bezerro na roça, um porco aparecia morto, era reputado ao Bicho da Carneira. Dia de lua cheia, você bota o prato de comida na soleira da porta, senão ele vai querer comer gente. Todo mundo conhece isso no vale do Jequitinhonha. Antes se chamava Bicho da Fortaleza, porque Pedra Azul se chamava Fortaleza antes. O nome Pedra Azul é de 1942, acho. Porque tinha muita água-marinha lá. O vale é rico de pedras semipreciosas. Lá é cercado por lajedos imensos. Determinadas horas da tarde esses lajedos ficam azulados. O nome é lindo.
Da vivência em Pedra Azul e Montes Claros lembro do gosto do pequi, o viagra do sertão. É impossível não gostar. É um cheiro forte. Durante a safra, de novembro até março, toda região de Montes Claros é tudo pequi. A cidade fica amarela, as pessoas vivem disso. É uma planta nativa, você não germina ela artificialmente. Você apanha quando ela cai no chão, não adianta apanhar no pé porque ele está verde. É supervitaminada, tem uma sustância incrível. Dentro do pequi tem o espinho e uma castanha. Dentro, parece um pouco o abacate. Você abre e dentro dele tem um caroço que é o que a gente come, a gente raspa. Depois dessa polpa que a gente come, tem os espinhos pequenininhos. Uma vez, uma menina carioca foi a Montes Claros. Foi almoçar numa casa onde eu estava também pra almoçar. Era verão, época do pequi. Aí todo mundo quer arroz com pequi, que é um prato espetacular. Vai carne-de-sol e pequi. Serviram a menina, e ela nunca tinha visto pequi. E em vez de prestar atenção em como é que os outros comiam, ela foi logo mordendo. Se deu mal com os espinhos. Ela olhou assim e falou: [Imitando sotaque carioca] “Excuta, pexca pequi aqui igual pexca oxtra?”. Eu ri demais desse negócio. E tinha também a carambola, que é uma delícia. E todas essas mangas e coisas do mato, umbu. Comer carneiro é inesquecível. Eles pegavam o bicho, penduravam numa árvore imensa, amarravam de cabeça pra baixo e cortavam o bicho, vazava o sangue. Aí fazia tudo numa manhã, era uma cerimônia até cozinhar e comer. Até hoje ainda se pratica isso. Minha boca fica cheia d´água.

PESSOAS
Toninho Horta

E chegando em Belo Horizonte, a primeira pessoa que eu conheci de música foi o Toninho Horta. Ele freqüentava muito o Colégio Estadual. A gente tinha amigos em comum. Uma amiga nossa, a Tiza, Beatriz Dantas, que morava perto do colégio, quase todos os dias a gente ia almoçar na casa dela depois da aula. A gente ia pra juntar e cantar. E o Toninho tocava violão. Vi o Toninho tocando e fiquei impressionado. Ele fazia um acorde, pegava um dedo aqui, cinco trastes do violão pra frente. Foi impressionante. Eu, que tocava um violãozinho de brincadeira, falei: “Nunca mais eu pego nesse instrumento”. Ele tocava tão lindo. Falei: “Nunca vou conseguir tocar lindo igual ele, então vou deixar esse trem pra lá”. Mas eu queria me envolver com música. Aí fui pra outros caminhos, fui fazer as letras. Nós ficamos muito amigos. Quando saía disco dos Beatles ou disco de jazz, a gente se juntava na casa dele pra escutar. Os Beatles foi a formação da gente. A gente começando a fazer música e os Beatles fazendo seus discos. É diferente de ouvir os discos hoje, é muito diferente de você estar vivendo aquele tempo. E eles têm muita importância no Clube da Esquina. Nós somos baladeiros também, e dos grandes.

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Ditadura militar

Belo Horizonte coincidia com esse momento brasileiro da ditadura e, paralelo a essas coisas, tinha essa brincadeira nossa de cantar. Toda juventude se engajava nas passeatas, ajudava a esconder as pessoas da polícia, panfletava. A ação dos estudantes foi muito importante pra que acontecesse essa reação. Eu participava do Diretório Acadêmico do Colégio Estadual. O atual prefeito de Belo Horizonte, o Fernando Pimentel, fazia parte. O presidente do diretório era o Marco Antônio Meyer, que foi trocado numa leva de 42 presos pelo embaixador americano, que era o Elbrick.
A gente mantinha reuniões no colégio. A gente trabalhava, estudava e no fim de semana a gente se reunia pra trocar informações, indicações de livros. A gente revezava livros, não dava pra um só comprar todos, então cada um comprava e a gente trocava. Depois fazia reuniões de avaliação desses livros, o resumo. E programava ações juntos. O Colégio Estadual fazia a ligação dos secundaristas com os universitários, então a gente ia panfletar nas escolas secundárias, avisando das passeatas, das nova ações. O ônibus do colégio passava no quarteirão do colégio. Quando tinha passeata, a gente parava o ônibus, todo mundo na frente. E a gente fechava atrás também. O ônibus tinha que ficar ali quieto, enquanto a gente entrava pra panfletar e escrevia com spray no ônibus: “Igreja da Boa Viagem, 16 horas: passeata!”. E ele saía depois, panfletando pra nós.
Isso foi antes do AI-5, em 67, 68. Uma vez, minha família viajou um mês de férias, e como eu trabalhava, fiquei em casa com uma secretária pra fazer comida. Tinha uma pessoa que estava sendo procurada, irmão do meu grande amigo Tião Nunes. O Etelvino Nunes estava sendo perseguido pelo Dops. O Dops estava indo pra Bocaiúva atrás deles, que eles eram de lá. E nós armamos um resgate. A gente descobriu que o Dops ia sair dali a tantas horas pra Bocaiúva e um pessoal foi na frente. Chegaram na fazenda, avisaram a ele que o Dops ia chegar, e ele fugiu pro mato. A turma pegou ele no mato, trouxe de volta pra Belo Horizonte, cruzaram com o Dops no caminho — como é que eles iam adivinhar que estava ali dentro quem eles procuravam? — e trouxeram pra minha casa, em Belo Horizonte. Ele ficou um mês lá, sem nem abrir a janela. Meus pais não souberam mas me apoiariam. Morriam de medo quando tinha passeata, eles sabiam que a gente ia mesmo.
Minha casa ficava no bairro Gutierrez. Eu saía às seis horas da manhã pra ir trabalhar. Saía e ficava olhando todas as esquinas, qualquer pessoa suspeita. Você não podia falar nada por telefone, nem ele podia atender telefone lá em casa. Ele estava escondido no meio do mato, então quando ele chegou e apresentei arroz, feijão, bife, ovo e tal, ele fez uma montanha. Já estava o dia inteiro sem comer. Ficava lendo o dia inteiro, esperando alguma comunicação. Não tenho notícias dele hoje. Sei que nós conseguimos embarcar numa operação assim: saímos de casa num carro, no centro trocamos de carro, depois lá na BR trocamos de carro novamente, pra então ele sair. Pra ele poder ir pro Chile. Depois eles pegaram ele por aí.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

O pau estava quebrando em 68, quando eu fiz minha primeira música, chamada “Super-herói”. E a outra, “Viva Zapátria”, que eu fiz com o Sirlan. O Sirlan não compõe mais, mas na época compunha muito bem, cantava. A gente tinha uma brincadeira entre nós que era o seguinte: chamava turma da Pavuna. Eu saía do trabalho às seis horas da tarde, e a gente se encontrava atrás da igreja de São José, aqui em Belo Horizonte, na porta do prédio de um amigo nosso que morava ali, no terceiro andar. Todo dia a gente se encontrava. Ficava conversando e depois ia pra um boteco. O Toninho ia muito, o Beto, o Lô, e tinha esse amigo que morava lá, chamava Belfort, que tinha violão. Às vezes a gente subia pra casa dele pra alguém mostrar uma música nova. O Sirlan também era da turma. Ele cismou: “Não, cabra, você é muito musical, vou te dar uma música para você fazer”. Ele também estava começando a fazer música. A gente gravou uma fita cassete, fiquei lá quebrando a cabeça pra acertar a métrica. Na maioria das nossas músicas é feita a letra em cima da melodia. Assim, a gente exerce a musicalidade, você fica com mais ritmo, mais tempo. E ele gostou muito dessa primeira música. Juntava a turma do colégio com o Toninho Horta, com o Sirlan, com o Túlio Mourão, que é uma pessoa muito importante nessa coisa. Cada um tinha uma formação diferente. A gente apresentou a primeira vez: “Esse aqui está virando letrista”. E ele cantou a música, o pessoal gostou muito. Aí, em 69, acontece a música “Viva Zapátria”.
Mas aí eu já conhecia o Beto, de Montes Claros. A gente tinha uma convivência ainda longe. O meu avô Joviniano era baiano e o Godofredo Guedes também. Os dois eram muito amigos. Mas aconteceu um fato inusitado em 1933, por aí, em Pedra Azul. Meu avô adorava carnaval. Existiam dois clubes sociais, um era do PSD e o outro da UDN, os partidos políticos da época. E o meu avô não gostava da política, era apartidário. Então ele resolveu organizar o carnaval de rua e mandou chamar os músicos em Montes Claros. Ele tinha um fordinho-de-bigode. Mandou o chofer ir buscar os músicos em Montes Claros. Vieram Godofredo Guedes, um outro músico e meu tio Pimenta. E o Godofredo no clarinete dele. Enquanto ele chegava pro carnaval de Pedra Azul, no primeiro dia de carnaval chega um telegrama. Ele já estava lá fazia alguns dias – demorava três dias de viagem de Montes Claros a Pedra Azul. Chega um telegrama na casa do meu avô falando que o pai do Godofredo tinha morrido e que o enterro ia ser no dia seguinte. Meu avô leu e pensou com ele mesmo: “O Godofredo não vai chegar a tempo no enterro, vai chegar muito depois. E se ele for não tem carnaval”. Aí botou o telegrama no bolso. E o pau quebrou nas ruas, o carnaval, aquelas marchinhas. Quando acabou o carnaval, meu avô chamou: “Godofredo, eu fiz uma coisa, não acha ruim comigo. Seu pai morreu e tudo, mas você não ia chegar a tempo. Então tomei essa liberdade, mas está aqui o meu chofer, ele vai te levar lá em Montes Claros”. E assim aconteceu.
Muitos anos depois, eu já era parceiro do Beto, Godofredo Guedes morre. Uma coisa incrível, saindo do passeio pra atravessar a rua lá em Montes Claros, vem uma moto e pega ele. Com seus setenta e poucos anos. A gente conhecia bastante o Godofredo, uma pessoa incrível, tem tudo a ver com a música que a gente faz hoje, ele tem uma influência nisso. A Silvana Guedes, mulher do Beto, me liga lá em casa, apavorada: “O Godofredo morreu, o Beto está ali tomando um café, estou sem coragem de falar com ele. Me ajuda”. Aí fui à casa deles. Eu que dei a notícia ao Beto. O meu avô deu a notícia ao Godofredo que o pai dele tinha morrido, e eu dei a notícia ao Beto. Foi só uma coincidência transcendental. A nossa amizade é muito profunda, contém essas ligações.

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Festival Estudantil da Canção

Dos Borges, primeiro conheci o Marcinho. O Lô eu conheci no Festival Estudantil da Canção, em 69. Aconteceu no prédio da Secretaria da Saúde. Ali que eu fiquei conhecendo a maioria das pessoas.
Foi um festival estudantil. Era transmitido pela TV Bandeirantes. O Nelson Motta era jurado. O Beto e o Lô apresentaram “Equatorial”, letra do Marcinho. Adorei aquela música. Aí que eu conheci a maioria dessas pessoas… o Sirlan. Aí que eu conheci o Lô. A gente se encontrava na turma da Pavuna, nos botequins, eles tocando aquelas baladas. A gente não freqüentava ainda um a casa do outro, era mais na rua. Então conheci o Lô, depois o Marcinho, tudo antes de acontecer o “Clube da Esquina 1”. A gente só ouvia falar que eles eram bacanas, a gente se encontrava de vez em quando, mas eu estava começando. E eles já tinham começado, já tinham músicas prontas. Antes desse festival, a gente não se conhecia muito bem. Mas eu adorava aquelas músicas. Falei: “Poxa, essa é a minha turma”. Mas ainda nem se falava em Clube da Esquina. Comecei a fazer música na época desse festival, mas não concorri, ainda não tinha coisas legais pra concorrer, estava aprendendo.
Cismei com eles, porque tinha Toninho Horta, Lô, Beto, Fernando Brant. Então falei: “Eu quero é esses caras”. Aí eu fui descobrindo, porque nesses encontros o pessoal começava a tocar essas músicas. “Uai! Nossa Senhora, é isso que eu quero fazer.” E fui chegando perto deles, buscando essa amizade. Entre nós, todo mundo diz que primeiro a amizade, depois a música. A música é conseqüência da amizade. Eu cismei também com o Nivaldo Ornelas. “Que magnífico, o cara toca um saxofone moderno.” E tocava flauta, formava esses grupos. Volta e meia tinha os bailes. A turma do Nivaldo, o Célio Balona, o Rubinho, o Paulo Braga, o Marilton. O Marilton eu conheci indo nos bailes onde eles tocavam. O repertório deles sempre foi muito bom e tocavam muito bem. Eles tocavam os boleros, mas tocavam também as bossas novas, os sambas. Eu fui atrás dessa turma, porque eu era aquele jacuzão lá do norte de Minas, tinha que caçar a minha turma. O Sirlan tinha uma ligação com eles, e me ajudou a encontrá-los.

PESSOAS
Flávio Venturini

Tinha uma coisa em Belo Horizonte muito legal, quando eu fiquei conhecendo também o Flávio Venturini, o parceiro com quem eu tenho mais músicas. A mãe dele tinha uma pensão de moças que vinham estudar em Belo Horizonte. E nessa pensão tinha uma garagem. A coisa do “rock de garagem”, “música de garagem”, a gente entende muito bem porque a gente praticava isso. Ia pra essa garagem fazer umas coisas proibidas e tal, mas especialmente tocar. Foi onde conheci melhor o Márcio Borges, o Beto, o Lô, o Flávio, o Vermelho, do 14 Bis. Nessa garagem ficavam uns entulhos, mas é onde tinha o MOOG, o teclado dos meninos, o violão, o baixo, o bandolim. Aí que eu comecei mesmo a fazer música com eles, a fazer letra pra eles. Muitas músicas saíram dessa garagem, inclusive “Nascente”, que é a minha composição mais conhecida.

FORMAÇÃO MUSICAL
Shows

Todo ano tinha uns shows. A gente pegava as músicas inéditas e apresentava. O pessoal ensaiava um dia antes ou no próprio dia. Sempre no dia de Natal, porque aí quem estava fora vinha pra Belo Horizonte. Eu, Marcinho e o pessoal daqui organizávamos a produção. Os primeiros foram no Teatro Marília, depois no Chico Nunes. Se chamava “Fio da Navalha”, o nome de uma de uma música do Lô Borges.
Nessa época, o Flávio me apresentou a melodia de “Nascente”. Primeiro fiz uma letra pavorosa, meu Deus do céu! Aprendizado é isso mesmo. Mesmo assim ele apresentou a música no “Fio da Navalha”. Começava assim: “Areia do mar”, e só vinha coisa devagar depois. Eu estava pescando a sonoridade dela mas não tinha percebido isso ainda. Depois que o Flávio cantou, corri no camarim: “Você nunca mais toque essa música com essa letra, pelo amor de Deus, ela é pavorosa”. A música era muito linda, mas eu estava batendo na trave demais. Alguns anos depois, o Beto veio gravar o primeiro disco, “A página do relâmpago elétrico”. O Flávio Venturini tocou na “Página”, o Vermelho, o Zé Eduardo, eles que fizeram as bases com o Beto. E ele ligou pra mim: “O Beto adorou essa música, precisamos da letra. Ele vai botar voz amanhã”. Eu falei: “Uai, vou tentar”. Passei o dia tentando e falei: “Vou dormir cedo em vez de ficar batendo a cabeça aqui”. No outro dia acordei cedo, e mais ou menos pelas onze horas da manhã saiu, com uma luz divina qualquer. Eu morava na Serra, a dois quarteirões do Tavinho Moura. Queria saber se aquilo estava legal, não queria dar vexame. “Olha aqui, Tavinho, tenho que passar essa letra pro Rio. Vê o que você acha.” Escutamos juntos a fitinha, ele endossou. Aí eu telefonei e passei a letra pro Beto, dentro do estúdio. E ele gravou naquele mesmo dia. Demorei uns três anos pra fazer. “Areia do mar” virou “Clareia a manhã”. Eu já conhecia o mar desde os 12 anos. E 62 foi um ano fenomenal pra mim, conheci o mar e a televisão.

FORMAÇÃO MUSICAL
As influências

O “Clube 1” sai em 72. Eu estava junto com os meninos, com o Marcinho, e ele falou: “Nós vamos fazer uma audição do disco que o pessoal acabou de mixar. Vamos lá pra você ouvir”. Cheguei lá e tinha um outro amigo nosso, o Luís Marcio Viana, e os Borges. A gente escutou numa casinha que tem atrás da casa do seu Salomão e da Maricota. Todo mundo sentado no chão. Estavam o Bituca, o Ronaldo Bastos. A gente fez essa audição e eu fiquei enlouquecido. Foi nessa hora que eu falei: “É essa turma que eu quero”. Aí eu já ia na casa deles e tudo. Não tinha saído o “Clube 1” ainda, mas os outros discos do Bituca já. Eu sabia as músicas de cor e a gente cantava, o Toninho tirava elas. A audição foi inesquecível. Até hoje eu lembro da nossa emoção, e do voltar: “Volta. Vamos ouvir novamente”. Acabava: “Volta, vamos ouvir de novo”. Ninguém arredava. Isso uniu muito a gente, ficamos muito felizes, choramos juntos. O Fernando Brant estava também. O time completo.
O que causou esse tremor nem foi muito essa coisa de Minas. Era o sentido nacional, a revolução que aquela música causava. Ela continha elementos dos Beatles, que todos nós adorávamos, e continha ao mesmo tempo aqueles elementos da espinha dorsal do Brasil, dos nossos grandes talentos, Ary Barroso. Clube da Esquina era um passo adiante da música que estava se fazendo no Brasil. A bossa nova estava instalada. Toda essa coisa do samba-canção, dos boleros, de Ary Barroso, Noel Rosa, desaguava na bossa nova. Essa música que eu estava vendo ali extasiado era um passo adiante da música que estava sendo feita no Brasil. Já continha guitarras e os tempos das músicas eram muito perspicazes, diferentes. Você não tinha referencial anterior daquela poética, era água limpa. A sensação que eu tenho é que a gente estava ouvindo pela primeira vez no mundo esse tipo de música. A revolução da MPB começou aí. Teve outros movimentos como o tropicalismo, bossa nova. O tropicalismo eu não considero como um movimento propriamente musical. É mais uma revolução de costumes, de acentuar aquelas coisas do Brasil que as pessoas costumavam desprezar, o brega, a música fora de mercado ou que não era da elite. O tropicalismo pegou uma música do Teixeirinha, “Um coração materno”: “Disse um campônio à sua amada”, acentuou isso, Vicente Celestino. E se criava também coisas legais, o caso do Capinan, do Torquato Neto, que são poetas espetaculares, o Tom Zé, o Caetano, Gil, Nara Leão. Era muito bacana, mas volto a dizer: não tinha a riqueza musical dessa criação que estava começando ali e que eu embarquei.

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Festival de Três Pontas, Festival Audiovisual (de Cataguases)

O Milton eu já conhecia antes dessa audição. Tinha uma admiração muito grande por ele, mas foi só aí que a gente começou a ficar próximo. E em algumas viagens que fizemos pra Três Pontas, pro festival de Três Pontas. O Chico Buarque e a Clementina de Jesus estavam nesse festival. Foram três dias de farra absoluta. Acabou a comida da cidade porque a coisa explodiu na mídia. Foi depois do “Clube 1” e antes do “Minas.”
O Festival de Cataguases também foi muito importante. Esse festival foi em 69 e chamava-se Festival Audiovisual. Era um festival preferencialmente de performances, então os cantores representavam, tinha muitos atores. A primeira música que eu fiz na vida, “Super-herói”, foi selecionada. Coincidiu com as minhas férias do banco, aí peguei meu salarinho a mais de férias e fui. Porque eles não pagavam transporte, arrumavam só a hospedagem. A banda era magistral: Sirlan na bateria, Túlio Mourão no teclado, Beto Guedes no contrabaixo e Toninho Horta na guitarra. Então comprei as passagens de todo mundo. Era pra ter mais o Lô na banda, fazendo a outra guitarra. Na saída do ônibus, o Lô se desesperou, ele estava meio apavorado, desistiu no meio do caminho. A gente estava quase pegando a BR, aí ele apertou o negócio do ônibus e desceu: “Não, eu não vou não. Não estou passando bem”. E foi embora.
Então fomos com essa banda lá pra Cataguases. O pau quebrando, dois dias, sexta e sábado. E domingo, a finalíssima. A turma do “Pasquim” era o júri. Henfil, Ziraldo, Jaguar, Fausto Wolff e mais a Clementina de Jesus. Eram músicas de representação. Teve uma performance da Equipe Mercado, tem uma menina que chegou a gravar disco, a Lucia Turnbal. A Equipe Mercado eram mais ou menos umas quinze pessoas. Eles entravam no palco enquanto tinha um baixo, uma guitarra e a Lucia cantando. Eles entravam no palco vestidos de mendigo, com as roupas todas imundas, levando sacos de lixo e começavam a jogar folhas secas, papel velho em cima dos jurados. Desciam pra platéia e espalhavam aquilo, enquanto os outros integrantes tocavam. Durava uns quinze minutos. Era genial o desacato deles. Acabou a apresentação, todos os jurados deram nota dez. Mas a polícia estava na porta com um camburão: “Ou vocês vão embora agora ou vocês entram aqui no camburão”. Eles foram selecionados com a melhor nota, mas não puderam participar da final.
A nossa música era normal, não tinha performance. O Sá e o Guarabyra também, tocando com um embrião do Terço, Vinícius Cantuária na bateria. Eles tocaram “E Jesus ressurgirá em pleno México”. A gente tinha uma ligação latina muito legal, depois eu vim fazer “Viva Zapátria”. A gente ficou em quinto e sexto lugares. A música que ganhou foi uma do Capinan e Marcos Vinícius, música performática, que era o propósito do festival. A pessoa ia declamando: “E o mar batendo nas pedras”, aí não sei o quê, “Se feriam, se ferem os homens”, não sei o quê, “E o mar batendo nas pedras”. Foram entregar o prêmio pro Capinan, que era o letrista, hoje corresponderia a uns dez mil reais, aí ele foi no microfone: “Quero comunicar que este prêmio está sendo doado para o Movimento Revolucionário Oito de Outubro, o MR-8”. A massa vibrou. Durante toda essa estada em Cataguases foi aquela coisa tensa, a qualquer momento alguém podia ser preso. Juntamos o filho do prefeito, que concorria, o Carlos Imperial, todo mundo, pra Equipe Mercado não ir presa. “Se eles forem presos, ninguém se apresenta. Nós tiramos nossas músicas.” E não ia parar o festival no meio. Essa era a barganha possível.

PESSOAS
Lô Borges

Fiquei amigo do Lô nessa época, mas nós viemos compor bem depois. Eu comecei a chegar de verdade depois do “Clube 1”. Só tem uma música minha no “Clube 2”, que é “Nascente”. Essa música foi gravada primeiro na “Página do relâmpago elétrico”, que é anterior ao “Clube 2”. Ali eu já estava fazendo as letras pro Flávio, começando a fazer coisas do Beto, mas na “Página” só tem o “Nascente”, que é minha com o Flávio. Só aí que eu comecei a fazer com o Lô. Fizemos “Nenhum mistério”, que tem letra minha e do Ronaldo Bastos. Essa música foi um pedido do Bituca. Ele estava produzindo o disco do Tadeu Franco. Estava fazendo repertório ainda, e um dia a gente estava conversando no Quilombo, que era onde a gente se juntava – eu fazia muitos trabalhos de redator de publicidade lá com o Fernando Brant e o Márcio Ferreira, que era o outro dono do Quilombo –, e o Bituca: “A gente está precisando de mais música lá no disco do Tadeu. Está precisando de uma balada”. E o Bituca falou pra mim e pro Lô: “Por que vocês não fazem uma pra entrar no disco?”. O Bituca fala, a gente obedece [Risos]. Aí o Lô foi cuidar da melodia, pegou uma música que tinha uma parte já pronta, compôs o resto. Isso uns dois dias depois desse papo do Bituca. E eu peguei o Ronaldo no aeroporto de Belo Horizonte e levei pra casa do Lô. Ele sentou no piano e mandou essa, “O mistério”: [Cantarolando] “Nenhum mistério irá secar/a fonte desse nosso desejo.” O Ronaldo veio pra fazer uma outra coisa, eu falei: “Ronaldo, temos uma emergência: temos que acabar essa música hoje”. Aí ele sentou de um lado do Lô, eu sentei do outro, no piano, e a gente foi fazendo.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

Os letristas do Clube, o Ronaldo, o Marcinho, o Fernando e eu, mais especialmente o Marcinho, o Ronaldo e eu, a gente sempre ajudou um ao outro. O Beto não é dessas pessoas que compõem e daí a três anos gravam. Ele deixa meio pra compor na hora, pra ficar mais quente. E a gente junta, porque o estúdio está lá esperando, não pode atrasar. Nós fizemos uma instituição fictícia que a gente chama de Socorros Costa. Tem nos discos: você pega os discos do Beto Guedes, tem lá “agradecimentos a Socorros Costa”. Socorros Costa é isso: o Marcinho, o Ronaldo e eu. Porque o Ronaldo empacava numa letra, a gente chegava e desempacava pra ele, a gente ia trocando esse nosso fazer. Isso gerou algumas letras feitas por dois letristas. Tenho letra com o Márcio Borges, com o Ronaldo. Ninguém tem essa coisa de vaidade que muitos compositores têm, de ficar protegendo a sua criação. Pelo contrário: a gente adorava quando um botava o bedelho na letra do outro. A gente fazia uma lista: “Essa letra não pode ter tal palavra”, porque já tinha muito nas outras. Então a gente ficava vigiando as coisas para que elas saíssem com qualidade e com rapidez.
Socorros Costa é uma instituição que até hoje a gente exercita. Se tiver uma dificuldade, e a pessoa não estiver na cidade, você liga: “O que você acha disso aqui?”. Essa cumplicidade é muito fértil. Se pegar os discos do Beto, “Sol de primavera”, “Contos da lua vaga”, tem várias músicas ali que tem o dedo do Socorros Costa. Inclusive essas do “Amor de índio”.
O Marcinho não era um freqüentador da turma da Pavuna, mas de vez em quando ele ia lá, porque ele era amigo de várias pessoas. A Lucinha, que também estudava no Estadual, me apresentou a ele. Enquanto a gente estava começando a desenvolver essas músicas, a gente ia aprofundando a amizade. A gente fazia viagens. Às vezes vinha o Ronaldo Bastos pra cá e a gente ia pra Ouro Preto. E o Ronaldo sempre com um gravadorzinho, escutando uma música nova pra fazer.

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Família

Teve uma vez que o Bituca foi gravar um especial pra Rede Bandeirantes. Ele tinha gravação em Belo Horizonte, em Ouro Preto e em Diamantina. A gente acabou essa gravação de Ouro Preto e viemos pra Belo Horizonte. Minha mãe cozinhava muito bem e sempre gostava que tivesse convidados. E o Bituca e o Novelli foram experimentar o frango ao molho pardo da minha mãe. O Novelli estava gravando com o Bituca esse especial. Nessa época, o Bituca tinha gravado um compacto com “Primeiro de maio”, que é pouco conhecida, dele com o Chico Buarque. Acabou o almoço, serviu a sobremesa e o Bituca, pra agradecer, pegou o violão e cantou “Primeiro de maio”. Eram uns tons muito agudos, e a minha mãe ficou impressionada, porque conhecia ele da televisão e tudo.
Esses almoços lá na casa da minha mãe eram muito legais. Foi o Chico Buarque, o Caetano Veloso. A gente ia jogar futebol, por exemplo, com o Chico e o MPB4, depois ela fazia um vatapá, um frango ao molho pardo. Foi um ponto de reunião muito bacana. Teve uma gravação desse especial aqui em Belo Horizonte, no bar do Chuchu, onde a gente se encontrava muito, lá na Savassi — já está no céu. Ele era uma figura muito típica, gordinho, com a barba muito grande, bom de fazer caricatura. E no bar dele a gente encontrava muito com o Veveco. E teve uma gravação desse especial, lá nesse bar do Chuchu, do Bituca com o 14 Bis. Eles cantaram “Canção da América”, acho, e montaram um palcozinho no bar. E nós éramos os freqüentadores do bar, simulando o bar em movimento. Acabou a gravação umas 11 horas da noite. Eu tinha um Chevete, e no dia seguinte era pra ir pra Diamantina, pra gravar. Aí eu propus pro Bituca, pro Ronaldo e pro Lô: “Gente, em vez de esperar amanhã pra sair correndo de ônibus, vamos hoje porque a gente espera a equipe lá”. Eles toparam, e foi uma viagem linda. Eu dirigindo, o Bituca, o Ronaldo, o Lô e o Marcinho nesse carro. E nós fomos pra Diamantina. O Bituca fez um showzão, gravado. Esse especial foi gravado em Três Pontas também. Uma coisa inesquecível é que em frente à casa do Bituca, na praça Travessia – era o Bituca e o Toninho Horta acompanhando –, ele cantou “Tarde”, que é dele e do Marcinho.

TRABALHO
Atividades profissionais

O Quilombo era pra ser uma agência de propaganda. O Márcio Ferreira passou a ser o empresário do Milton, através do Fernando Brant, que era sócio dele no Quilombo. Então o Quilombo se direcionou mais pra fazer as produções do Milton, e nós montamos uma agência de propaganda. Chamava Livre Propaganda Brasileira, e durou de 82 a 88. Eu era sócio do Márcio Ferreira e tinha mais dois sócios. Essa agência também atuou bastante na política, para os candidatos de esquerda. Foi uma agência muito grande, chegou a ter 65 funcionários. Era onde a gente fazia as capas de disco e cartazes pros artistas. E promovia shows. O Quilombo tem uma importância muito grande. Chegamos a fazer um estúdio de áudio, que era um projeto do Milton e do Marcinho. Eles geravam programas radiofônicos com duração de uma hora, com entrevistas de músicos brasileiros, e tocando música. Depois essas fitas eram distribuídas pra todo o Estado de Minas, todas as rádios. Normalmente se fechava o contrato com uma rádio de cada cidade. Era superlegal, porque no interior você só ouvia sertanejo. Com isso, eles começaram a tocar mais as nossas coisas, Tom Jobim, bossa nova, músicas de qualidade. A sede era no Funcionários, rua Timbiras, quase esquina da rua Piauí.
Era também um ponto de encontro da gente. Com o passar do tempo, o Márcio Ferreira veio ser o empresário do Milton, e nessa época a gente estava muito junto. Já nessa época a gente fazia algumas coisa pro Bituca, folhetos traduzidos pro inglês, pro espanhol, não sei o quê. Mas era sobretudo um ponto de encontro de resistência política. O encontro dos trabalhadores em Genebra, um encontro de sindicalistas, todo ano eles se encontravam em alguma cidade da Europa. E a gente tinha que comunicar o que estava acontecendo no Brasil. Só que na alfândega eles fuxicavam todas as bagagens, e a gente não conseguia passar nenhuma informação pra fora do Brasil. Era difícil passar essas notícias pra fora pra obter cumplicidade internacional. A luta pelas Diretas estava muito embrionária ainda. A gente queria mandar pra fora as fotos de uma passeata de operários aqui na avenida Olegário Maciel em que a ditadura tinha assassinado um operário, e essa notícia não saía, a censura brecava. Então nós fizemos microfilmagem desse movimento operário em Minas. No vale do Aço existia uma chacina também, anterior, em Ipatinga, e nós reduzimos as notícias, ficou aquela coisa mínima. Como eram filmes em negativo e microfilmes, era fácil de malocar, e o Virgílio Guimarães, que hoje é deputado federal do PT, e o João Paulo, que era sindicalista e foi deputado, levaram pra lá. Chegando lá, eles conseguiram laboratório, ampliaram e apresentaram. Essa ligação com a esquerda precisava dessas ações. O Quilombo funcionava muito bem, tanto que na época do Tancredo, em 82, fomos nós que organizamos esse grande comício, que foi a primeira eleição direta pra governador. Nós fizemos um show pro Tancredo na praça do Papa, onde tinha 250 mil pessoas. Na praça da Estação Rodoviária teve o comício das Diretas, e também a gente estava ajudando a organizar.
Mesmo na época em que o Lô, o Márcio e o Beto foram morar no Rio de Janeiro, eu sempre morei aqui. Quando estava fazendo um disco, a gente ficava lá, resolvia as letras, acompanhava as gravações, ia nos lançamentos, entrevistas, mas sempre morei aqui. Teve uma época em que Fernando ficou no Rio e voltou correndo [Risos]. Os músicos tinham mais função, mas o nosso ofício, o nosso trabalho, a gente podia desenvolver aqui tranqüilamente. Passava as letras por telefone ou ia lá levar.

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“Clube da esquina 2”

A gravação do “Clube da Esquina 2” foi assim: o Milton conheceu a música “Nascente” através do disco do Beto, “Página do relâmpago elétrico”, e se apaixonou. Lembro que encontrei o Beto num botequim aqui em Belo Horizonte e ele me contou: “O Bituca está gravando lá, você está sabendo?” “Eu não, ué!” Não cheguei a ir à gravação, já vi pronto. Foi muito emocionante ouvir minha música gravada no disco. Já tinha sido, com a gravação do Beto. E teve uma curiosidade. Os papéis dos músicos estavam todos invertidos nessa gravação do Beto, ou seja: Novelli, que é um baixista, tocou piano, o Beto Guedes, que é basicamente guitarrista e baixista, tocou bateria, o Toninho Horta tocou contrabaixo. Trocaram de papel ali naquela canção, assim como eles faziam de vez em quando no “Clube 1”. No “Clube 2”, as pessoas trocaram de instrumentos, que eles são muito hábeis, muito musicais. Dava um novo calor na música na hora em que eles trocavam. O “Clube 2” foi essa ampliação de coisas, várias pessoas acopladas, a Joyce, Mauricio Maestro, várias outras pessoas foram aumentando os associados desse clube. E a partir daí, também, a gente começou a compor muito mais junto. Os meus parceiros são daí, o Flávio Venturini, o Tavinho Moura, o Beto Guedes, o Lô Borges, o pessoal do 14 Bis, o Nivaldo Ornelas, com quem tenho algumas músicas interessantes e inéditas.

FORMAÇÃO MUSICAL
Composições

Compor, pra nós, é um prazer, mas é uma dificuldade pra colocar essas músicas. As editoras não cumprem o papel delas, que é de colocar as músicas. Elas estão ganhando pra editar a nossa música, pra recolher o dinheiro das gravadoras e repassar pra nós. Elas deveriam oferecer nossas músicas aos intérpretes, fazer esses contatos. E acaba que isso fica restrito às nossas relações pessoais, o que é pouco. Essa coisa é uma falha no sistema brasileiro. Com isso a gente tem “n” músicas feitas e inéditas. Eu digo aos novos intérpretes, à moçada que quer gravar disco: todos nós temos músicas inéditas, podem vir que tem. Acho bacana essa renovação que a gente consegue com novos músicos. Sempre que eles nos procuram, a gente tem uma troca muito boa. Tem muita música, dá pra fazer uns cinco Clubes.
Não tenho uma composição preferida. Não sou doido de deserdar minhas queridas. Tem umas que sobressaem mais que as outras, caso de “Nascente”, que talvez seja minha composição mais conhecida, e “Besame”, que é minha com o Flávio, que também já teve muitas gravações. Já ouvi em Manaus, eu estava ali passeando e entro num boteco, aí está tocando, as pessoas cantando. São as duas músicas com as quais eu arrecado mais de direito autoral. E tem algumas coisas que são especiais, como essa gravação da Maria Rita. Gravou uma composição minha com o Natan Marques, uma música que se chama “Vero”. Gosto muito dessa música. Infelizmente, não deu tempo pra que Elis Regina gravasse alguma composição minha, que eu adoraria. Quando ela morreu, o Ronaldo Bastos seria o produtor do próximo disco dela. Eles estavam separando o repertório e tinham escolhido uma música minha com o Tavinho que se chama “Fim do amor”. Já estavam começando ensaios, separando repertório, quando ela morreu. E eu só vim ser gravado pela filha dela. “Fim do amor” é uma coisa meio valsa, meio uma poesia de época. Fala assim: [Recitando] “Chorando mas por querer/eu vi que esse amor singelo e feliz/está chegando ao fim/Eu sei, eu vi seu jeito de princesa, eu suporto tudo/o que vale a pena/mas não me acostumo com a nobreza./Na espera da dor fiquei, não posso esconder/fiquei sem saber, perdi seu coração./Pois perdi o medo de amar sozinho/apenas pra livrá-la dos lacaios”. Então tem algumas palavras meio de época, “lacaios”, “perene”. É uma música muito linda. Foi gravada pelo Beto Guedes, no “Amor de índio”.
Normalmente eu componho em cima da melodia. É mais gostoso de fazer, a gente fica menos solitário, você vai ouvindo a música, ela já sugere coisas. Não tem muito ritual, é ouvir, ouvir e ouvir, até ter a música dentro de você. Às vezes tem um título que eu gosto, que eu persigo. Às vezes, naquele momento em que eu pensei o título, eu não tinha nenhuma música parecida com ele. Você deixa anotado e desenvolve o verso. Às vezes tem um verso só que você adapta pra aquela música e acaba virando o tema. Eu gosto de me deixar levar pelas canções, pra que saia uma coisa espontânea, como eu acho que deve ser a música popular. Não pode ser uma coisa muito cerebral, senão fica ruim de cantar. Até ela ficar pronta é mais solitário o processo, a gente se guarda um pouco. O Marcinho também é assim, e o Fernando também. Tem que gestar primeiro. Depois solta no mundo.

TRABALHO
Parcerias

Fiz dois curtas-metragens. O Luís Alberto Sartório foi o diretor do primeiro. É um filme preto-e-branco chamado “Os Irmãos Piriá”. Foi um fato verídico, acontecido em Belo Horizonte. Um desses irmãos tinha comprado uma radiola e colocado no bagageiro da bicicleta. E foi parado por um policial. Ele usava umas roupas muito simples, o policial cismou que ele tinha roubado a vitrola e prendeu. Aí o irmão dele ficou puto e foi visitá-lo na prisão. Combinaram uma fuga. Então ele conseguiu fugir numa noite, e eles foram pro mato. Virou questão de honra pra polícia e foram perseguindo eles. Um dia de Natal, fim da década de 80, eles conseguiram fazer o cerco. Eles tentaram várias vezes. Tinha notícia deles em Sete Lagoas, daí a pouco em Pedro Leopoldo, Vespasiano, e eles ferveram em cima dos dois. Fizeram o cerco e mataram os dois. A história é essa. O filme tem quinze minutos, e eu sou um dos irmãos Piriá. Esse filme tem uma curiosidade: os diálogos foram desenvolvidos pelo Fernando Brant, a trilha sonora é do Toninho Horta, e eu sou ator. E foi um filme muito bem feito. Ele é preto-e-branco e teve muitos ensaios. O Fernando e o Sartori dirigiram a gente pra gente falar matuto. A locação foi perto de Itabirito. Nós ficamos numa fazenda durante dez dias.
Era muito bacana, a gente tinha que pegar a primeira luz, que é melhor pra filmar, então a gente acordava às cinco horas da manhã todo dia. E o diretor, o Sartori, acordava a gente botando “Nascente” pra tocar. Era bacana, a gente acordava tranqüilo, feliz, e saía pro mato pra filmar. Esse filme ganhou alguns prêmios. Foi muito bem recebido. O outro filme foi do Aloísio Salles Júnior, o Juninho. Chamava “Solidão”. É a história de um terrorista de direita. É a história de um atentado em que eu que sou o terrorista. Ponho uma bomba numa dessas comunidades de base onde havia reuniões na época da ditadura. Isso servia pra você contar como era o sistema de repressão, como é que se faziam essas reuniões nas paróquias, os padres progressistas ajudando as pessoas a se encontrarem, a resolverem prisões, ajudarem os outros. Era uma forma de organização muito importante nessa época. Esse filme também é em preto-e-branco, e a trilha sonora é do Uakti. Foi uma experiência muito boa.
Depois eu fiz algumas coisas. Fiz figuração num filme chamado “Idolatrada”, do Paulo Augusto Gomes, trilha do Tavinho Moura. É um filme com o Mário Lago, eu faço papel de um poeta, participo de poucas cenas. Trabalhei também na produção do “Cabaré mineiro”, que foi um trabalho extenuante, três meses de filmagem. A gente filmou em Grão- Mongol, em Montes Claros, em Contria, no Rio de Janeiro. Cinema é bacana, porque é feito em equipe. Você aprende a simplicidade, a humildade. E especialmente com as pessoas da produção. Tem que descolar o alfinete, levar comida pros atores no set, arrumar avião. O espírito de equipe é uma das coisas principais, e uma forma de aprender cinema.
Quando fui fazer o “Cabaré”, isso em 1979, eu nunca tinha feito cinema. Ajudei a arrumar o set. Até o diretor gritar “ação” tinha o dedo da produção ali. Vi toda a colocação de câmera, os travellings, como se concebiam os planos. E a gente era muito amigo, participava da elaboração dos planos, das seqüências. Até então eu era um observador de cinema. O “Cabaré” foi quando eu aprendi cinema. A forma do Carlos Alberto trabalhar, buscando a economia, nunca com verbas astronômicas pra realizar os filmes dele. Ele usava de extrema imaginação pra poder simplificar os planos. Por exemplo, não podia ter grua, podia ter grua dois dias. Para os outros planos tinha que improvisar, fazer carretilhas, roldanas, e tentar imitar uma grua. Porque a gente estava no meio do sertão, envolvia a comunidade, era uma a coisa muito viva. Esse tempo da formação da gente era logo depois da Nouvelle Vague, do neo-realismo italiano. A gente sempre gostou mais dos filmes europeus. Godard, depois os italianos, o Antonioni, o Fellini, o Pasolini. Essa escola era muito boa, e os filmes americanos extra-Hollywood ou meio à margem, mais próximos do possível cinema brasileiro. Já estava rolando o Cinema Novo, que também foi uma lição fenomenal pro Brasil. Tem um outro filme do Carlos Alberto chamado “Perdida”. A trilha é do Tavinho e eu tenho uma música chamada “Mauá de baixo”, que é uma rua daqui de Belo Horizonte, onde tinha a zona boêmia, o meretrício — eu falo que é o alto meretrício, baixo coisa nenhuma. Essa música é sobre a história de uma mulher que fez essa escala social. Era empregada doméstica e as pessoas ficavam sempre tentando comer ela à força. Aí ela sai da casa. Foi na época da Sudene. Ela vai trabalhar numa indústria, onde ela é sufocada pelo próprio trabalho e acaba saindo dali. E um sujeito, chofer de caminhão, leva ela pra zona.

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Atividade de escritor

O meu primeiro livro de poesia saiu em 79. Se chama “O gavião e a serpente”. Eu coloco uma série de poesias em prosa, prosas poéticas. É um livro pequeno. Mas ali tem uma série de indicações dos caminhos que eu tomaria na minha poesia. Agora, poesia é muito difícil de publicar. Não é a preferência dos editores. Tenho dois livros, “O gavião e a serpente” e um outro, já em 90, que se chama “Musamúsica”. É uma edição artesanal, numerada e assinada, que eu fiz com o Paulo Giordano, um artista plástico. A singularidade desse livro é que, assim como os tons e semitons são 12, tem 12 estrofes, 12 gravuras em linóleo. E fala sempre: “A musa é a música”. Na gênese, fala: [Recitando] “O primeiro som foi o acordar de Deus. Depois o universo roubou do silêncio a hegemonia cósmica.” São versos mais ou menos desse tamanho, compondo 12. Tem um que diz o seguinte: [Recitando] “Nasce música/Nasce Milton/Nascimento/O rio ruge no deserto de cada um.”
Já tem essas referências ao Bituca, essa admiração espantosa, essa coisa abismal que é o Bituca. Falo com meus amigos: “Que sorte que eu dei de ser de uma geração que viu acontecer o Milton Nascimento”. E por sorte ele ainda cantou algumas canções da minha lavra. Mas que sorte é ver o nascimento do Milton, ele crescendo na música na mesma geração sua. Como eu queria ter tido tempo de ser da geração do Noel Rosa e alguns outros. Como foi também o Tom Jobim, um pouco mais velho, mas as coisas aconteceram no nosso tempo. O Brasil deu muita sorte de fazer uma fornada dessas pessoas.
Talvez a melhor música que esteja sendo feita hoje no mundo seja a do Brasil. Não tenho dúvida. O sertão é muito fértil, o Brasil é muito fértil. E essa junção de ritmos, o baião, o coco, o xote, as baladas, as serestas, o samba, tudo isso que o Brasil é capaz de gerar, não tem nenhum outro país que consegue. Então, felizes de nós, vamos aproveitar isso muito bem. Acho que a música deveria ser o nosso principal produto de exportação, igual ao café. Os governantes deviam dar muito gás em cima disso, dar apoio a políticas de exportação, de comercialização, porque é o nosso grande produto. Não é só o futebol. Nós também somos pentacampeões na música, ou seremos.

FAMÍLIA
Filho
Eu sou casado pela terceira vez. Tenho um filho chamado João Antunes, hoje com 23 anos, que é meu filho com a Isabel, uma bailarina. A minha primeira esposa foi arquiteta, a segunda, bailarina, e agora eu sou casado com a Andréia, que é de Santa Catarina.
Meu filho toca violão, já está compondo umas coisas. É muito amigo dos filhos do Beto, eles tocam juntos. Entre essas ações do Museu, a gente quer fazer a apresentação dos meninos. Eu estava conversando com o Marcinho outro dia e surgiu essa feliz idéia, deles fazerem essas apresentações, com o título de um verso meu e do Marcinho, “Pela qualidade da nossa geração”. É uma das ações, assim como a gente está fazendo nos colégios, pra tocar música e dar palestra, fazer as “invasões bárbaras”. Tenho certeza que as pessoas, quando elas ouvem música de qualidade de perto, desmistificam, passam a gostar mais.

FORMAÇÃO MUSICAL
As influências

A primeira vez que eu ouvi música clássica na minha vida foi em Montes Claros. Em Pedra Azul era impossível, ninguém mexia com isso. Em Montes Claros eu vi uma menina tocando piano. Ela tinha nove anos de idade e tocava Chopin. É a Antonieta Silva e Silvério, neta do Lourenço Fernandes, o grande compositor brasileiro. Eu tinha 12 anos e ela, nove. Na hora que eu vi aquilo, fiquei enlouquecido. Uma menininha daquele tamanho, mandando Chopin! Qualquer música boa, eu estou de ouvidos e olhos abertos.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da esquina: Museu
Acho o seguinte da iniciativa do Museu Clube da Esquina: só Márcio Borges seria capaz de ter uma iniciativa como essa. Por contingências familiares, contingências históricas, talento pessoal, capacidade de agregação, de congregação, e por ser o autor, o feliz autor, desse termo e dessa música: “Clube da Esquina” — tanto 1 quanto 2. Só ele podia ser o epicentro de tantas coisas fundamentais. Tenho certeza absoluta que isso vai se multiplicar pelo mundo afora. Porque essa dispersão das artes brasileiras hoje, ou até no mundo inteiro, esse papo de globalização, isso pulveriza as informações, pulveriza as criações. Na hora que as pessoas estão começando a assimilar uma canção, já vem outra em cima. A mídia promove uma coisa que vai durar um ano e sumir. E nós, trabalhando com a perenidade, estamos revelando traços da alma brasileira naquelas canções. E isso estava correndo um imenso risco de se diluir no tempo. Algumas pessoas não se deram conta disso ainda. Eu pergunto: existe o museu do tropicalismo em Salvador? Não. Existe o museu da bossa nova no Rio de Janeiro? Também não. Quem sabe com isso eles se alertam e fazem também, porque é imprescindível. Mais uma vez: é uma ação de vanguarda, assim como a nossa música. Então espero que outros percebam isso e construam esses museus necessários. Com esse detalhe de ser um museu vivo, pulsante, porque todos nós estamos em ação, continuamos a fazer música, a escrever.
A criação desse museu, além de provocar um reencontro entre nós maravilhoso, com certeza vai gerar muitas canções e livros e ações culturais. Pra onde iria toda essa raridade, se não houvesse esse escoadouro, essa mina fenomenal, essa mina volumosa e rica de canções? Se a gente pegar particularmente Minas Gerais, ela existe antes e depois do Clube da Esquina, o marco definidor é o Clube da Esquina. Antes você tinha pessoas que batalhavam muito na música, na música da noite, o Pacífico Mascarenhas, a pré-bossa nova, algumas expressões da música que é claro que existiam, marchas, sambas, e Gervásio Horta. Existia um movimento insípido, porque o mercado fonográfico era insípido. Então, a expressão principal da música de Minas é o Clube da Esquina, acho que ninguém tem dúvida sobre isso.
Esse leque de parceiros que a gente vai ganhando durante a vida, isso é uma coisa que vai construindo a vida da gente. Eu só tenho a agradecer aos meus parceiros, que são os melhores do mundo. É com eles que eu construí a minha vida e consegui ampliar um pouco a visão de mundo. Eles confiaram na minha poesia, me fizeram fazer a poesia, ter uma visão poética. Isso eu dou a eles e a todo ouvinte que porventura vier a me ouvir.

PESSOAS
Tavinho Moura

Tavinho Moura, o cara com quem eu aprendi mais música, tem um caso fenomenal. O primeiro disco dele se chama “Como vai minha aldeia”, que é uma música dele com o Márcio Borges. Ele foi chamado pra gravar em São Paulo, mas ele queria muito que eu fosse, porque nós somos irmãos. E acontece o seguinte: não tinha dinheiro. As produções: “Pô, esse cara ali, ninguém ouviu falar dele”. Então davam uma passagem de avião, e só. Pra levar alguma participação musical já era um custo, imagina um poeta que não ia cantar nem nada. Mas a gente sabe por que nós nos gostamos, e a gente sempre foi palpiteiro nessas produções, de ajudar a escolher o repertório, ajudar nas capas e nas formulações. E não tinha dinheiro. “Pô, não seja por isso.” Peguei um ônibus, cheguei lá no hotel que o Tavinho estava e eu não tinha dinheiro. A gente era estudante e duro. O que nós fizemos? Cheguei, encontrei com o Tavinho e ele falou: “O negócio é o seguinte, aqui no hotel” – era o Hotel Eldorado, lá em São Paulo, um hotel muito grande – “eles trocam os recepcionistas em tal hora. É de noite. Então é o seguinte, a produção não tem como pagar a sua hospedagem, mas eu quero você aqui”. Eu falei: “Não tenho dinheiro pra pagar minha hospedagem”. Então fomos pra gravação, chegamos às quatro horas da manhã, tinha uma pessoa na recepção. A gente dormia e ele achava que eu era hóspede. Fiquei clandestino nesse hotel. Saía só à tarde, gravava até às cinco horas da manhã e saía à tarde. Aí já era outra pessoa na recepção. Então pra todos os efeitos eu era um hóspede. E nessa eu fiquei hospedado durante dez dias em São Paulo, ajudando o Tavinho a fazer esse disco. Pra você ver a dificuldade que é se fazer música no Brasil.
O Tavinho me ajudou muito na formação, fizemos várias viagens pelo interior de Minas, onde tinha Festa do Rosário. A gente ia com nossas magras economias, ficava numa pensãozinha barata, pra fazer aqueles registros e conhecer melhor aquelas manifestações da arte. Uma vez, aconteceu uma coisa fenomenal no Jequitinhonha. A gente estava em Rio Preto, fomos gravar uma Festa do Rosário. Nossa pensão era do lado da igreja onde estava acontecendo a missa. Logo depois, os foliões de Reis iriam cantar ali, só que nesse momento um menino subiu na torre do sino e foi mexer numa janela que ficava sempre fechada. Acabou batendo numa caixa de abelhas africanas, que foram direto pra dentro da igreja. Saiu todo mundo enlouquecido, aquela gritaria. E a gente do lado da igreja. A gente ficava fechando tudo quanto é porta e janela, as pessoas já chegavam caindo, desmaiando por causa do veneno. E a gente recolhia essas pessoas, botava debaixo d’água, chuveiro, tanque, mangueira, pra poder ver se tirava as abelhas. Foi uma Nossa Senhora do Rosário diferente. Se tivesse uma camerazinha, eu ia fazer um documentário incrível. A cidade ficou vazia. De repente, todo mundo escondido, parecia aqueles filmes de faroeste, rolando aqueles fenos no chão. E veio chegando um cara a cavalo, e ele vinha pra festa, estava bem vestido, roupa de domingo. A gente olhando pela greta da janela, e ele todo curioso, espantado, ele veio pra uma festa e não está vendo ninguém na rua. Isso era ao meio-dia, à uma da tarde, um solão bravo. E ninguém na rua. Ele olhando, olhando, e o cavalo foi batendo a ferradura nas pedras do chão, e foi chegando perto da igreja. Esse barulho do cavalo espantou as abelhas de novo, que ferveram em cima dele, derrubaram o cavalo e ele junto. Saiu berrando e batendo o chicote nele mesmo, batendo a taca. Coisas assim foram acontecendo, pessoas desmaiando, tendo febre. Foi tudo que Nossa Senhora do Rosário não queria. As abelhas só foram embora às quatro horas da tarde. Aí que as pessoas começaram a sair pra rua. Mas foi um fato bacana.

PESSOAS
Tavinho Moura/ Flávio Venturini

Acho que eu tinha que falar um pouquinho de cada parceiro. O Tavinho Moura é um dos caras que têm muita importância no meu trabalho. Eu considero ele como se fosse o Villa-Lobos da música popular. A originalidade do trabalho dele é espantosa, os caminhos pelos quais ele se enredou. Isso foi também a minha riqueza, que ele é um divididor. Essa riqueza do Tavinho é perceptível, talvez eu cante aqui uma música minha com ele. Eu não sou cantor, mas vou cantar essa música que é baseada num motivo de domínio público de Montes Claros, o refrão. O Tavinho compôs a música, eu fiz a letra pra chegar nesse refrão: [Cantarolando] “Disse que aqui mais nada é de graça/Nada é de coração/Vamos num tal de toma lá, dá cá/Minha nega eu pago pra ver/Ver por debaixo o osso do angu/Disse que aqui mais nada tem troco/Tudo que vai não vem/Perdem bodoque, facão, corneta, quebra a defesa, nega fulô/Que o trem tá feio/É bem por aqui/Meu facão guarani quebrou na ponta, quebrou no meio/Eu falei pra morena que o trem tá feio, iá iê iá oiá
E a cana caiana eu disse/A raiva, carne-de-sol/Palha, forró e fumo de rolo/Tudo é motivo pra meu facão/Arma de pobre é fome é facão/Abre semente, aperta inimigo espeta até gavião/Corta sabugo e lança um desafio, não conta nem até três/Que o trem tá feio, é bem por aqui/Meu facão guarani quebrou na ponta, quebrou no meio/Eu falei pra morena que o trem tá feio, iá iê iá oiá”.
O Flávio Venturini é o cara com que eu tenho mais músicas. Ele tem um lugar muito especial na minha vida. É uma pessoa que sempre confiou na minha poesia. Ele não questiona, é uma coisa incrível. Tem os parceiros que são invocados, são exigentes, o que é bacana pra nós. Esse negócio de ficar fazendo uma coisa mais ou menos não adianta. O Flávio também é muito exigente, só que primeiro ele dá o voto de confiança total. Ele compõe aquelas coisas magníficas e o que eu fiz ele topou. Até hoje não teve uma música que ele não tivesse topado a letra. Ele faz uma música celestial, divina. É uma pessoa muita pura de intenções, muito livre de coisa ruim. Convivendo com ele, passa isso pra gente. Quando vou fazer uma letra pra uma música que é tão doce, ele me faz entrar naquele barato, ele me ajuda a não ir pros territórios do mal.

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Clube da esquina

Vamos fazer um lugar que vai ter uma sede linda, visitado pelo mundo inteiro. Vai ser um ponto de atração de Belo Horizonte. Um lugar que constrói com veracidade a história de uma música inesquecível e eterna.

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Festival Internacional da Canção

“Viva Zapátria” foi minha primeira música gravada, mas aconteceu com ela uma coisa incrível, assim que eu fiz essa música, em 1970. A dona Clélia, do bar Saloon, que foi um bar que a gente freqüentava – era um bar incrível, a gente encontrava todo fim de tarde o Fernando, o Tavinho –, tinha uma gravação dessa música em fita cassete e ela própria chegou e inscreveu essa música no Festival Internacional da Canção em 1972. E a música foi selecionada, só que nesse tempo tinha censura prévia. Então nós tivemos que ir ao Rio de Janeiro, eu e o Sirlan, que era o meu parceiro nela, pra poder responder a um interrogatório na Polícia Federal, pra poder liberar a música, senão não passava no Festival. Então eles mandaram passagem, mais ou menos uns 15 dias antes do festival, e eu fui pro Rio. Chegando lá, eu assim: “Poxa vida, minha primeira música que vai ser transmitida pela televisão, o Brasil inteiro vai conhecer, a primeira música da minha vida, eu já vou ter que ir pra Polícia Federal. Que profissão que eu fui escolher”. E então eu fui.
Chegando lá, cheguei um dia antes dessa coisa da polícia e à noite eu fui num show. Era um show do Chico Buarque com o MPB4, um show pequeno, numa boate. E eu já os conhecia aqui de Belo Horizonte, a gente jogava bola juntos. Acabado o show eu fui no camarim conversar com o Chico. Falei: “Ô, Chico, amanhã eu tenho que ir lá na polícia, você que já está acostumado, que já tem escova de dente e pijama lá, eu estou pensando em contar uma mentira, porque essa música tem que passar, tem que ser tocada lá no festival”. E eu falei pra ele qual era o número que eu estava pensando em fazer lá. E ele falou comigo: “É isso mesmo. Você tem toda razão, eles são muito perspicazes”. Porque eles pegavam os censores de outras instituições. E eles não manjavam nada da coisa da arte em si, desse trabalho nosso. Então no dia seguinte eu fui. O Chico deu a maior força. Assim: “Não, tranqüilo, pode representar lá que eles engolem”. E eu fui. Cheguei lá, era uma mesa grande, tinha oito censores. Tinha duas mulheres e seis homens, e começaram a me perguntar: “Viva Zapátria. Por que pátria no nome?”. Eu falei: “Isso é porque eu fiz essa música de um filme que eu assisti chamado “Viva Zapata”, e eu não queria imitar o nome do filme, porque eu não queria começar minha carreira plagiando. Por isso que eu fiz esse trocadilho com a pátria, pra ficar diferente do original”. Claro que não era isso. Que é uma referência ao Zapata, o herói mexicano da guerrilhas. E eles começaram a me perguntar sobre ligações, fazendo com uma técnica incrível. Cada um perguntava rapidamente sobre a pergunta do outro pra gente poder ficar nervoso e tal.
Eles começaram a perguntar sobre os movimentos de esquerda, se eu conhecia alguém do MR-8, do Movimento Revolucionário Oito de Outubro, da Polopi, da FP e tal. Eu conhecia sim, porque no movimento estudantil do secundário eu participava de tudo, eu tinha conhecido muita gente dessas organizações. E ajudei em algumas coisas. E eles foram perguntando e eu falei: “Seu moço, eu sou de Pedra Azul, lá do Vale do Jequitinhonha. Eu não sei, mudei pra capital tem pouquinho tempo. Eu não sei o que vocês estão me perguntando. Nunca ouvi falar desses trem não, sabe?”. Bem assim, eu fui falando bem capiau, desse jeito bem sertanejo e fui desviando a ação deles. E eles começaram a perguntar nomes de pessoas que eu conhecia, vária delas. E eu: “Não sei, nunca ouvi falar”. Perguntaram do José Carlos da Mata Machado, que era muito conhecido da gente, que o Márcio Borges ajudou a dar fuga pra ele. Eles foram perguntando e eu: “Uai, sô, nunca ouvi falar não, sô”. E fui dando uma de capiau assim, e eles voltaram nessas perguntas, e eu fui falando do filme novamente: “Não, mas eu fiz foi pro filme, sô, é um filme com o Marlon Brando, que conta uma história de amor, tal, ele fugia pro mato lá, doido pra encontrar a namorada dele e não podia. Se ele chegasse lá, ele ia ser preso. E achei essa história espetacular e tal”. Uma das censoras lá era fã do Marlon Brando, e na hora que eu falei do Marlon Brando, ela: “Eu assisto muito os filmes do Marlon Brando”. Eu falei: “Pois então a senhora viu esse filme e a senhora lembra aquela vez que ele consegue sair lá do mato foi escondido à noite pra encontrar com a namorada dele e que chegou pelos fundos da casa e não podia fazer barulho pra ninguém perceber. E a casa toda vigiada pela frente esperando exatamente que ele fosse lá, né?, pra prender ele”. E com isso fomos dispersando a história pra esse lado.
Nós ficamos umas três horas lá dentro, respondendo coisas do arco da velha. Isso é uma coisa que eu estou citando para as pessoas perceberem como a gente estava começando a fazer música e o Brasil inteiro estava sofrendo esse tipo de censura, de cerceamento da liberdade. É uma coisa que estraga qualquer país. Depois a música foi apresentada no festival.
Quem defendeu foi o Sirlan mesmo. E era bacana a banda. O Beto Guedes no baixo, o Flávio Venturini nos teclados e o arranjo do César Camargo Mariano. Foi muito bem tratada e fez um sucesso louco lá no festival, muitos aplausos e tudo, ganhou a menção honrosa do festival e ficou empatada com… Eram classificadas duas músicas pra ir pra parte internacional, então ficaram empatadas no fim: “Viva Zapátria”, uma música chamada “Diálogo”, do Baden Powel e Paulo César Pinheiro, e “Fio Maravilha”, que era uma música do Jorge Ben que a Maria Alcina cantava. Essas três músicas ficaram empatadas. E volta o júri pra se reunir de novo, soma os votos e novo empate, as três. Eles não conseguiam tirar uma, até que teve o voto de Minerva do presidente do júri, que era editor do Jorge Ben, e a Maria Alcina tinha acabado de assinar contrato com a Som Livre, e o festival era promovido pela Rede Globo, e a Som Livre é da Rede Globo. Então deram preferência pro “Fio Maravilha” e pra música do Baden Powel, porque tinha um editor dele também, o editor dele na Alemanha. E a gente não tinha nada disso, acabamos, e eles inventaram essa menção honrosa por causa desses empates.
E muito tempo depois disso, pelo sucesso que essa música fez, eles propuseram pro Sirlan fazer um disco. E o Sirlan assinou com a Som Livre, pra fazer o disco. Nós já tínhamos várias músicas compostas. E os parceiros do Sirlan éramos eu e o Fernando Brant. Então nós apresentamos a primeira leva das músicas – umas 15 músicas na censura. E sobrou uma que era instrumental. Então esperava passar um tempinho e dava uma mexidinha na letra de novo. Eles liberaram duas, não tinha repertório pra fazer o disco. Pela quantidade de músicas, a gente estava trabalhando muito intensamente, então eu e o Fernando fizemos uma coisa: como não estávamos conseguindo passar, nós trocamos as parcerias. As músicas que ele tinha feito, eu fiz uma nova letra, e as que eu tinha feito, ele fez. Que foi uma forma também de conseguir tirar umas.
E nós fomos assim, aos poucos, mas isso era um processo burocrático também, iam as músicas pra lá, eles demoravam a dar solução, se liberava, se não liberava, ia atrasando. O Sirlan querendo pegar o calor do festival pra aproveitar aquilo, pra poder vender o disco melhor. E eles foram atrasando e com isso eles censuraram umas 35 músicas da gente. E foi passando o tempo e o Sirlan só conseguiu fazer o disco depois de três anos do festival. Em 75, ele lançou o disco dele. Aí ninguém lembrava mais do festival. A divulgação já era muito menor, ou seja, eles enterraram a carreira do Sirlan. Essa é uma das fatalidades de um grande cantor e grande compositor. E isso é um fato muito marcante na minha vida. Assim como essa turma do Saloon. A dona Clélia, que inscreveu essa música, a gente ia pro bar dela – que era em frente ao cine Paladium, na rua Rio de Janeiro – todo fim de tarde. E tem uma importância muito grande esse bar, sobre todo esse movimento que a gente está gravando aqui, essas pessoas. Porque foi lá que a gente fez também a ligação com a gente da literatura. Como ia gente que trabalha com literatura! A gente está escrevendo o tempo inteiro, então foi lá que nós ficamos conhecendo uma geração do Suplemento Literário. Trabalhava lá o Adão Ventura, que é um grande poeta, o Jaime do Prado Gouveia, que é um contista, o Luis Vilela, o Sérgio Sant’Anna, que é um grande contista, premiadíssimo, e eram amigos. Nós ficamos muitos amigos nessa época. Eles iam pra lá e a gente juntava literatura com música, e o Suplemento Literário também foi muito censurado. E foi no Suplemento Literário onde eu publiquei o meu primeiro poema, que se chama “Era um Ramo de Mato Seco”. Foi a minha primeira publicação.

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Bar Saloon

Depois do meu primeiro poema, que foi publicado no Suplemento Literário, eu publiquei em várias outras revistas literárias e fiz livros. E foi um incentivo muito grande. Essa geração era muito boa. Foi a época que explodiram os contistas mineiros pro Brasil inteiro. Eles começaram a ganhar os concursos. Virou uma febre de contistas. Todos escrevendo muito bem e aqui sempre teve uma tradição literária muito grande. O Murilo Rubião, por exemplo, era o editor geral do Suplemento e era um escritor fenomenal. E eles adoravam música também, foi um casamento muito bacana. Então o Saloon também tem uma importância muito grande nessa história. A gente ia pra lá tomar cerveja. Chegava, por exemplo, o Tavinho com uma música nova. A gente ia pra lá à tarde e ainda não tinha os fregueses normais, então a gente aproveitava e ficava lá até umas oito horas da noite só a gente. E a gente tomando chope e trocando essas coisas. Quando o Bituca, o Milton chegou dos Estados Unidos – que ele foi gravar o primeiro disco dele, o “Courage”, que é “Travessia” –, chegou no Saloon com um disco do James Taylor, que a gente não conhecia ainda no Brasil. Colocou pra tocar lá no bar e a gente ficou ouvindo, ficamos conhecendo James Taylor.
Eu adoro James Taylor, depois eu comprei todos os discos dele. E a dona Clélia era meio que aquela mãezona da gente. Ela fazia almoço na casa dela também, que era em frente ao bar. Uma dessas vezes o Bituca chegou lá pra almoçar e tinha um piano na sala dela. O Bituca chamou: “ Deixa eu mostrar pra vocês. Eu acabei essa música ontem”. E começou a tocar. Era o “Cais”, dele com o Ronaldo, que estava sem letra ainda. Ele tinha acabado de fazer. Foi muito bacana esse momento.

TRABALHO
Atividade de escritor
Eles tinham lá na Espanha, existe até hoje, a Academia Española del Desastre, Academia Espanhola do Desastre, e eles explicam que desastre são as guerras, essas grandes catástrofes do mundo. Eles faziam a parte deles criticando essas coisas, as violências do mundo, esses desatinos. E eles eram uma academia que não tinha uma sede própria. É uma academia volante. Faziam parte dela os artistas plásticos, compositores, escritores, poetas, arquitetos que compunham essa academia. Então eles trocavam, eles publicavam uma revista, faziam exposições de artes plásticas, movimentavam ali a Espanha. E eu fiquei sabendo através de um amigo meu, o Fernando Fabrini, que tinha ido à Espanha, e tinha conhecido algumas dessas pessoas. E trouxe o manifesto da academia. Um deles falava assim: “Prometo não cumprir e fazer cumprir todos esses mandamentos”. E era essa coisa de ficar sempre atento a esses desatinos da humanidade. Era uma arte crítica a essas coisas. Nessa época eu escrevi pra um jornal, chamava Jornal de Domingo, eu tinha uma coluna lá. Esse jornal era editado pelo Vande Piroli, que é um grande escritor, também contista mineiro. E eu fiquei sabendo desse negócio, desse manifesto da academia, vi algumas publicações deles e escrevi uma matéria sobre isso, sobre a Academia Espanõla del Desastre. Esse meu amigo pegou a minha coluna e mandou pra eles lá pra Espanha. E eles adoraram que a coisa estava repercutindo fora da Espanha. E me colocaram como sócio dessa academia, que não paga mensalidade nem nada. E pouco tempo depois, eles me mandaram a carteirinha como membro efetivo da Academia Española del Desastre. Eu só sou dessa academia, não quero ser de mais nenhuma. Essa academia ainda existe, mas eu tenho muito pouco contato. São pessoas mais velhas do que eu. Hoje estou com 53 anos e eles estão certamente com 70, e alguns já morreram. Mas eu sei que funciona. Eles fazem essas intervenções artísticas, fazem desastres estéticos.

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