Neila Maria Batista

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Voltar ao topo IDENTIFICAÇÃO

Nome / Local e data de nascimento

Meu nome é Neila Maria Batista Afonso. Eu sou de Minas Gerais, da cidade Morro do Pilar. Nasci em 12 de março de 1961.

Voltar ao topo INFÂNCIA

Lembranças da infância

Para eu contar um pouco da minha trajetória profissional e política, eu preciso remontar à minha infância. Eu sou filha de trabalhadores rurais. Nós tínhamos uma pequena fábrica de farinha de mandioca e vivíamos 12 quilômetros distante da área urbana da minha cidade. E aos 7 anos era impossível andar 24 quilômetros para estudar, porque eu tinha que ir e voltar todo dia. Então eu me separei da minha família e vim para Belo Horizonte. Meu pai já tinha vindo antes, porque também tinha percebido que a exploração da agricultura de subsistência – que era praticamente o que a gente fazia– estava se tornando insuficiente. Ele veio exatamente em 64; eu vim em 67 e fui morar com uma tia. É como a história de muitos mineiros que não são de Belo Horizonte, mas que se tornaram de Belo Horizonte. Eu vim para estudar. E com a família toda.

Voltar ao topo FAMÍLIA

Irmãos / Pais

Eu tenho quatro irmãos. É quase que um atrás do outro. Meu pai e minha mãe tiveram que batalhar muito para que a gente pudesse estudar, pudesse ter uma formação. E eu sou muito grata a eles, porque eles fazem como todos pais, de um modo geral, fazem: eles se negaram para que a gente pudesse ter o espaço que a gente teve.

Voltar ao topo LOCALIDADES BELO HORIZONTE

Pindorama

Então nós fomos morar em um bairro de periferia da cidade, no bairro Pindorama. E em 68 esse bairro não tinha asfalto, não tinha água canalizada, não tinha nada disso. Faltava muita assistência de políticas sociais, como em todo Brasil naquele período. E eu me envolvi logo com as poucas possibilidades de articulação comunitária. Havia uma entidade ligada a um grupo religioso, de irmãos religiosos da Holanda, que tinha lá um seminário de formação de religiosos. Então começamos um trabalho social na comunidade. E eu acho que essa história de se juntar para buscar recursos coletivos como água canalizada, escola, melhorar a rua, de tentar fazer todas essas coisas, foi determinante para a minha decisão de formação profissional – eu sou Assistente Social.

Voltar ao topo EVENTOS HISTÓRICOS

Ditadura Militar

A década de 70 foi o auge do movimento da carestia, então a gente tentava articular a comunidade em torno de grupos de compra para baratear as coisas. E também nesse período eu tive um grande envolvimento com a militância da Juventude Católica – eram os famosos grupos de jovens. Então foi o momento que eu comecei a ter uma percepção mais ampla da vida, do mundo, das coisas. Foi quando eu me deparei com o drama da ditadura militar. Porque em 71 eu tinha 10 anos, mas comecei a perceber que tinham coisas erradas acontecendo. Logo que eu entrei na quinta, sexta série, eu comecei a perceber que tinham coisas que me incomodavam. Era o início da discussão da teologia da libertação e das comunidades eclesiais de base.

EDUCAÇÃO / FORMAÇÃO MUSICAL
Faculdade / Clube da Esquina: Avaliação

E nesse processo eu me tornei uma liderança comunitária local, uma liderança desse movimento de igreja em torno da juventude. Fui catequista, trabalhei com jovens da minha faixa etária na minha comunidade e depois fiz o curso de Serviço Social. Por opção, exatamente, em torno dessa trajetória de vida anterior. Fiz o curso na PUC daqui de Belo Horizonte. E é aí que entra a minha história de relação com o Clube da Esquina, porque esse era o período das inquietações, dos questionamentos, das dúvidas. Era o momento que a gente estava querendo transformar o mundo. Eu era adolescente nesse período, com 14, 15, 16 anos, e muitas respostas já não estava mais conseguindo encontrar naquelas atividades que eu fazia ali. E a música que todo o pessoal do Clube produzia era absolutamente fundamental para a reflexão que a gente fazia. Era como se eles conseguissem dizer todas as coisas que estavam nos incomodando de uma maneira absolutamente poética. Eu me senti um pouco assim: “Ai que vontade, que inveja. Que desejo que tivesse sido eu a escrever tal música…” Porque elas conseguiam dar essa dimensão coletiva, de algo que estava na cabeça de muita gente, de muitos lugares, vindo de histórias completamente diferentes, com situações de vidas das mais complexas. E o Clube da Esquina conseguia fazer isso através das músicas.
Uma das coisas mais bacanas que a gente fazia na minha época de juventude era promover encontros, tocar um violão e cantar. E essas músicas eram as nossas inspiradoras nesse processo de reflexão, de amadurecimento diante da vida, de opção que nós faríamos em termos de militância social, de militância política. Isso foi um processo que, do ponto de vista da minha formação, foi muito importante para mim. Não só no sentido de perceber a cultura por um outro viés que não aquele de pensar que cultura é folclore, mas de perceber que tinham coisas que se ligavam mesmo que a gente não conhecesse as pessoas. Então a minha primeira relação com o Clube da Esquina foi de fã, de tiete, de admiradora, de alguém que lia as letras como poesia. E de ser algo que conseguia responder questões que eu ficava me perguntando e que me ajudava a continuar sonhando. Isso é que é a verdade.

Voltar ao topo MÚSICAS

“Maria, Maria”

Eu quero falar de uma música por uma razão muito particular, pelo fato de eu ser mulher e de ser uma feminista. Isto é, a minha militância tem muito mais um caráter comunitário do que feminista, mas quando a gente é militante em qualquer área, seja na política partidária ou na política social, a gente acaba verificando como as coisas se entrelaçam, como elas não estão separadas. É um processo de maturação. É um processo difícil, mas a gente acaba percebendo isso. E tem uma música que o Milton fez que me marcou muito, que foi “Maria, Maria”. Mexeu profundamente e é um ícone para nós. Depois teve o Corpo fazendo uma apresentação no Palácio das Artes em que “Maria, Maria” se tornou um marco, uma referência muito importante. E até hoje a gente se arrepia nas atividades que a gente tem feito na Câmara Municipal em torno dessa questão da relação de gênero. “Maria, Maria” é uma marca fundamental. (Cantando) “Maria, Maria, é um dom/ é um som/ é um suor/ é uma força que nos alerta…” “Mas é preciso ter força/ é preciso ter raça/ é preciso ter sonho sempre/ Quem tem na pele essa marca/ possui a estranha mania de ter fé na vida.” (riso)

Voltar ao topo ADOLESCÊNCIA

Adolescência

Eu nasci em 61, mas me considero da geração de 70, porque é quando a gente adquire uma idade em que a gente começa a ter uma percepção mais clara do mundo, da vida. E foi exatamente nesse período o auge do Clube da Esquina. Eu morava na periferia; era – e continuo sendo – uma pessoa pobre, mas que buscava acessar, ler e ter conhecimentos. E, claro, nunca freqüentei os espaços dos bares, das regiões que a moçada freqüentava. Santa Teresa para mim era novidade. O Malleta, qualquer região que o pessoal freqüentasse, era novidade pra mim. Eu só fui freqüentar bem mais tarde. Mas eu acho que é impossível pensar que quem fosse adolescente, jovem na década de 70 e 80, particularmente quem estava em Belo Horizonte, que o Clube não tenha de um jeito ou de outro, em uma medida ou noutra, em doses maiores ou menores, tido algum tipo de relação, influência e envolvimento. E hoje, quando eu penso no Skank, eu não tenho dúvida nenhuma de que eles são parte dessa história do Clube da Esquina. Eles são absolutamente influenciados por essa trajetória, por essa história.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Homenagens

E eu me orgulho muito de que nós, a bancada do meu partido – Partido dos Trabalhadores – tenhamos feito, lá na Câmara Municipal, aquela homenagem ao Clube. Porque ela é absolutamente justa. Não existe homenagem injusta, mas essa sim é de uma correção com os nossos valores, com a nossa história, com a nossa cultura, com o reconhecimento daquilo que nós fazemos de melhor e que muitas vezes a gente fica quieto. Essa história de que mineiro faz as coisas sem barulho não é muito bom.
É reconhecidamente visto no Brasil a potencialidade cultural de Minas em vários setores. Na música, espetacularmente, nós temos uma demonstração ampla e histórica. E a gente às vezes faz pouco barulho com isso. Acho que fazer qualquer homenagem a essas pessoas é uma forma de dizer: “Olha, isso marca, isso tem sentido histórico. Isso tem identidade com a nossa vida. E portanto isso é fundamental, principalmente para quem vier depois de nós.” Nós temos diversas maneiras de registrar as coisas, mas eu penso que estamos registrando algo que não acabou. Porque eu acho que isso é importante dizer também. Nós não estamos falando do Clube da Esquina como passado, mas como uma trajetória que tem uma data de início exatamente em um dos períodos mais duros da nossa história, que é o período da ditadura. E estar fazendo isso agora, quando estamos lembrando os 40 anos do golpe, é importante. E estar fazendo com o Clube existindo, porque ele está aí, as pessoas estão aí. Elas continuam produzindo, elas continuam na luta. Então eu acho que continuam ajudando a todo mundo a perseguir seus sonhos. Isso que eu acho que é bacana e que é legal.

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Diretas Já

Foi decisiva a presença do Fernando Brant, do Milton, da família Borges nas Diretas Já. Eles se envolveram diretamente, participaram nos palanques, nas diversas caminhadas de milhares e milhares de pessoas. Eu me orgulho muito. Eu vejo as fotos da época da campanha das Diretas e falo assim: “Eu queria bem me achar ali no meio…” – mas não me acho! Mas não me preocupo com isso, porque eu sei que eu estava lá. Em São Paulo tem o cruzamento da São João com a Ipiranga, que é famoso; aqui, o cruzamento famoso é o da Afonso Pena com Curitiba, Praça da Rodoviária, Caetés. Porque dali se espraiou para tudo quanto era rua. E a Afonso Pena foi tomada até quase a prefeitura. E com todo mundo.
Então eu acho que a arte não é algo que acontece à toa. Ela tem um engajamento. E você pode fazer isso de diversas formas. E esse engajamento é real, é concreto, e fez parte da nossa história. E, na minha opinião, de uma maneira bacanérrima, porque era muita poesia. Não era um negócio como, por exemplo, fez o Geraldo Vandré. Não era aquela coisa de bater de frente com a ditadura. Mas você dizia coisas de uma maneira tão leve que o mais desatento talvez não conseguisse perceber o que estava se dizendo ali. Então, para mim, essa referência foi de formação também, de perceber que você pode fazer uma militância de maneira absolutamente respeitosa, solidária, franca, e de uma maneira carinhosa.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Avaliação

Eu acho que as músicas, as letras, essa relação de amizade, de encontros e desencontros entre os membros do Clube – porque tiveram momentos de estarem mais juntos, mais pertos, de caminharem por estradas diferenciadas, mas estavam sempre, de alguma maneira, se encontrando de novo – eu acho que é isso que a história do Clube deixa de mais forte. Para mim, é essa possibilidade. Você vê que a cultura não é algo separado da vida, mas que ela é absolutamente a vida.

LOCALIDADES BELO HORIZONTE/FAMÍLIA
Pindorama/Pai

Eu vivi 30 anos em Pindorama. Eu acho que o mais bacana nessa vivência foi perceber que era uma comunidade de pessoas absolutamente pobres, de trabalhadores. A maioria trabalhava no comércio, na construção civil. Meu pai mesmo fez um pouco de tudo na vida: ele é bombeiro, é mestre de obras e se mete a eletricista. Eu me lembro desse fato, que foi muito marcante para nós: quando nós mudamos em 68 para lá, nós não tínhamos água encanada. A cisterna que abastecia lá em casa tinha 27 metros; e no dia que a bomba estragava, era no braço que a gente tirava essa água. Ou então tinha que ir em uma nascente próxima pra lavar roupa. E nessa nascente tinha muitas sanguessugas. Então o horror das mulheres todas era, de repente, se deparar com três, quatro grudadas, porque elas agarram e a gente não nota. Então eu tinha esse pavor de lavar roupa nessa nascente por conta disso.
Mas a história que mais me comove foi o fato do meu pai ser capaz de se adaptar a essas condições com toda a simplicidade dele. Ele conseguiu estudar até a quarta série do ensino fundamental – ele tem o ensino primário. Então, quando depois dos processos de mobilização, de batalha, a COPASA estende o serviço de abastecimento, o meu pai rapidamente – porque é absolutamente inteligente – aprendeu a fazer instalação de todos os hidrômetros; meu pai virou o “Seu Zé Bombeiro” na minha comunidade. Por que? Porque ele conseguiu fazer rosca em cano. Então lá em casa era um entra e sai diário, porque ele foi, certamente, a pessoa que mais instalou hidrômetros na região. Isso para mim foi um negócio muito bacana, porque era um conquista da comunidade e, ao mesmo tempo, uma conquista do meu pai também, que soube driblar as diversas coisas da vida. Ele era vigilante noturno e durante o dia ele fazia esses serviços na comunidade.
Ele tem hoje 73 anos e está muito saudável. E quando ele viaja, por exemplo, quando vai à minha terra e fica uma semana, 15 dias, as pessoas vão em casa e perguntam para a minha mãe: “O que aconteceu com seu Zé?” Porque ele é absolutamente zen com a vida; conta piada o tempo inteiro e tem sempre alguma coisa para fazer graça para as pessoas. Eu brinco com ele e falo assim: “Você é o maior medidor de rua que eu conheço, porque você anda o dia inteiro!” Então esse fato foi uma das coisas da minha história que me marcou e tem a ver com a história da cidade, com a briga da periferia por melhores condições de vida.

Voltar ao topo TRABALHO

Atividades profissionais

Junto com isso tem um outro fato, que foi absolutamente determinante. Foi na eleição do prefeito Patrus Ananias. Este ano eu faço 22 anos de militância pelo PT. Estou no meu primeiro mandato eletivo, mas o Patrus me convidou para ser, naquela época, Administradora Regional da minha região, que é Noroeste. E eu,cheia de medo, de pavor, aceitei o desafio de fazer esse trabalho. E acho que foi o melhor desafio que eu já aceitei na minha vida. Porque tinha a ver com a minha história de comunidade, de liderança comunitária, de luta por melhores condições e qualidade de vida na cidade, na minha comunidade. E, ao mesmo tempo, eu pude ter essa dimensão na região mais populosa da cidade. Então eu me sinto uma cidadã de Belo Horizonte absolutamente privilegiada porque eu tinha todos os indicadores para ser uma pessoa absolutamente comum.
Não sou casada por falta de opção – não é por escolha que eu não me casei. Mas eu me sinto muito privilegiada por ser alguém que é filha de pequeno trabalhador rural, que nasce no interior, que luta muito para estudar, e que ocupa hoje um espaço importante na cidade. E isso eu valorizo e respeito muito. E sou muito grata à população dessa cidade, que percebeu isso no processo da gestão na administração democrática e popular do governo Patrus e que vem até hoje. É essa possibilidade de, depois de 4 anos, eu ter voltado para a minha ação de Assistente Social e de me eleger na minha primeira eleição. E estou fazendo um mandato, que eu acho, que corresponde às expectativas das pessoas. Então eu tenho uma gratidão profunda com a população dessa cidade, que é uma população nota 10.

FORMAÇÃO MUSICAL
Clube da Esquina: Museu

Eu estou absolutamente honrada de estar participando deste depoimento. Isso para mim é motivo de muita alegria. E é uma forma que eu acho que tem da gente ser um pouco pagador daquilo que a gente deve a todo ser humano com quem a gente se encontra na vida. É um pouco expressar os sentimentos, as nossas emoções, as nossas experiências. Deixar isso de alguma forma registrado para quem vem depois de nós, para que eles possam fazer desse espaço do mundo um lugar melhor do que a gente tenha conseguido deixar.

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